Saturday, February 19, 2011

ENROLAR A MANTA

O governo continua a enrolar a manta, e os argumentos e prognósticos repetem-se.

O ministro das Finanças disse o que pensava, o que em política pode ser um passo decisivo para o desastre. Desde o momento em que Teixeira dos Santos afirmou que se os juros de empréstimos de dívida pública viessem a ultrapassar os sete por cento, teria de ser considerado o recurso à ajuda externa, várias operações ultrapassaram aquela fasquia e não é improvável que se venham a sustentar acima dela enquanto o governo continuar a querer fugir ao reconhecimento de que Portugal não tem possibilidade de se safar pelos seus próprios meios.

Em apoio da persistência do governo nesta matéria, invoca-se que a taxa média da dívida ainda se encontra bem abaixo daquele limite, que o cumprimento dos objectivos fixados para o EO 2011 acabará por convencer os credores, que o auxílio externo à Grécia* e à Irlanda não tem atingido melhores resultados. O que, sendo ou podendo ser verdade, não resolve a nossa incapacidade de evitar, mais tarde ou mais cedo, o incumprimento por falência financeira e económica. 

Mas se o governo português não reconhece, ou não quer reconhecer publicamente esta evidência, também os credores parecem ignorá-la ao apresentarem-se gulosos nos mercados de capitais para a subscrição de certificados, que eles sabem bem que muito dificilmente, um dia, poderão ser inteiramente pagos e por essa razão se desembaraçam deles nos mercados secundários, especulam em short selling, provocando a subida das taxas efectivas e potenciando o crescimento das taxas nominais das próximas subscrições.
Estamos portanto perante um jogo que se conhece o resultado só não se sabe como será atingido e que consequências arrastará consigo. A menos que devedores e credores, entretanto, reconheçam a inevitabilidade da reestruturação das dívidas e das suas condições.

O recurso à ajuda externa deveria servir a este propósito sob pena de apenas transformar um problema noutro. Lamentavelmente, nem o governo português nem o BCE, a quem incumbe a gestão da ajuda externa aos membros em situação financeira problemática, parecem querer reconhecer o inevitável: Ou se reestruram as dívidas, reduzindo-lhes os juros ou os montantes, ou isso acontecerá mais tarde quando os valores em causa se tornarem incontornavelmente insustentáveis.

O enrolar da manta tem limites por maior que seja a obstinação do primeiro-ministro que ainda temos em querer redobrá-la até ao infinito.
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* Na colocação de curto prazo desta semana os juros já se colocaram acima da Grécia.

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