Tuesday, November 22, 2011

CALVINO E OS LATINOS

Merkel volta a fazer pressão para revisão dos tratados europeus (aqui)
Acções do Commerzbank, o segundo banco alemão, afundam 12%com notícias de que tem maiores necessidades de capital (aqui)

Merkel continua a rejeitar qualquer proposta que possa vir a envolver sistematicamente a Alemanha no pagamento de encargos, juros ou dívidas, de outros estados membros. Recusa as eurobonds e a capacidade do BCE assumir a condição de emprestador de último rercurso enquanto não for atingida a convergência na competitividade dos países membros da Zona Euro, o mesmo é dizer enquanto não  trabalharem mais ou melhor ou ganharem menos os divergentes. E quer que os faltosos e os relapsos na execução dos compromissos assumidos em contrapartida das ajudas financeiras concedidas sejam julgados em tribunal.

Durante algum tempo acreditou-se que a austeridade imposta aos países mais fragilizados pela dívida e pelos juros pudesse restabelecer a confiança e facilitar a recuperação. Mas não. Hoje, está mais que demonstrado que as medidas de austeridade, necessariamente indutoras de recessão, excitam a desconfiança dos investidores, engordam os especuladores, e não invertem, só por si, o ciclo diabólico. 

Donde não haver saída se Merkel, e os que se mantêm, por enquanto, calados por detrás dela não forem obrigados pelas circunstâncias a escolher um caminho com risco menos calculado. As circunstâncias de, também a Europa do Norte ser atingida pelo risco sistémico que agora fustiga a Europa do Sul. A França é o relé de contágio. No dia em que a França for atingida a Alemanha começa a mudar de ideias.

Mudança que exige, para além da convergência na competitividade económica, a convergência nos mesmos valores identitários fundamentais. Nem a germanização nem a latinização da Europa mas um compromisso de convivência entre dois mundos vizinhos que os interesses próprios obrigam à conjugação pacífica dos interesses comuns.

E, a este respeito, Merkel tem toda a razão quando reclama o avanço para uma alteração dos tratados. Deixa de ter se as alterações que tem em mente não tiverem como pressuposto um governo federal mínimo eleito por todos os cidadãos da União. Porque a perda de soberania não pode estar em causa se o objectivo é a integração política assegurada por um governo federal europeu democraticamente eleito, mas estará se da alteração que Merkel propõe resultar a abdicação de mais soberania a favor de um directório ad hoc sem legitimidade democrática.
---
Act.- (23/11) Alemanha emite divida abaixo do esperado
O resultado do leilão (abaixo das expectativas não representa nenhum problema, segundo o ministro das Finanças alemão, mas economistas desconfiam.
Resultado do leilão na Alemanha conduz a desvalorização dom euro de quase 1%.

O ARTÍFICE DO FOGO

Caro ZP,

(Antes de mais) há um aspecto, relevante, ( ): o festival de luzes e fogo-de-artifício foi adjudicado por ajuste directo a uns compadres do AJJ depois de ter sido anulado o concurso na sequência de reclamações feitas por outros concorrentes. O Tribunal de Contas deverá daqui a três anos (?) dizer o mesmo e o AJJ continuará a fazer o que lhe der na real gana sem que haja quem tenha a coragem de o por em sentido.

Mas vamos ao retorno do festival.

( ) " a Madeira e o seu buraco ficarão bem piores se as receitas com o turismo caírem. Quem não percebe isto, não percebe nada.Mas, repito, é preciso ver se o negócio é bom."

Em que ficamos: O negócio é bom porque ... ou é preciso ver se o negócio é bom?
É uma questão de matemática, (diz você) pois é, mas antes disso é preciso conhecer as parcelas. Conhece?

A Madeira, como sabe, tem um endividamento público insuportável sem medidas de excepção que, se não forem suportadas pelos madeirenses, terão de ser pagas por si, por mim, etc. AJJ, segundo notícias divulgadas hoje elevou as despesas de investimento em mais de 100% no último trimestre (vd aqui) sempre ao arrepio do que a situação crítica do país exige, e depois ter confessado que, propositadamente, enganou o governo da República e os portugueses.

É neste contexto que o AJJ anula um concurso e faz uma adjudicação directa a uns compadres invocando os interesses do turismo madeirense.

Quem é que o pode contestar fazendo contas? Ninguém. O Tribunal de Contas levará três anos, mas o ZP se as fizer em três minutos já não vai a tempo porque a empreitada já foi adjudicada e os trabalhos já arrancaram.

Há uma solução rápida e eficaz, que, no entanto ninguém toma, porque não há coragem para tanto neste país de (qualifique você). Uma solução simples que consistiria em fazer pagar aos benificiários do festival os custos do mesmo: os hoteis, os restaurantes, as lojas, o comércio em geral. Se fossem eles a pagar facilmente se calcularia o interesse do negócio.

Não sei se estava a pensar nesta hipóteses quando escreveu o seu post.

Monday, November 21, 2011

À ESPERA DO PEARL HARBOUR EUROPEU


O gráfico publicado no Público online de hoje é muito elucidativo, e comprova que os investidores (os mercados, os especuladores, cada qual escolha o que prefere) são insensíveis às mudanças políticas por maior que seja a expectativa criada à volta delas. O que conta é a confiança e a confiança nas dívidas soberanas esborou-se quase de um dia para o outro, e continuará a esboroar-se enquanto não forem adoptadas as medidas que reponham a garantia de que as dívidas serão pagas.

Até lá, o jogo dos juros apenas agrava o ambiente de desconfiança, engorda os especuladores (não há outro nome, neste caso), torna impossível a rentabilização dos custos da austeridade. 

Do que se trata não é de lançar dinheiro sobre a fogueira da crise ou, como alguns pretendem, reactivar as economias através de investimentos públicos sem retorno credível. Do que se trata é, muito simplesmente, garantir a solvabilidade dos estados membros da zona euro através da intervenção do BCE como banco central de corpo inteiro.

Numa entrevista concedida ao Público de ontem Assunção Esteves afirmava, além do mais, que "numa folha A4 se podia mudar a Europa toda" e critica os dois partidos mais representados no Parlamento Europeu pela ausência de intervenção quando, mais do que nunca, se esperaria que desencadeassem o debate que o futuro da Europa exige.

Por que se calam socialistas e conservadores quando, como nunca, está em causa a continuidade da União Europeia? Muito simplesmente porque acima dos interesses globais continuam a sobrepor-se os interesses de cada um dos países membros. Porque o nacionalismo ainda prevalece sobre a união e ninguém quer avançar com o reconhecimento de que sem perda, ainda que limitada, de soberania não é viável a construção de uma união com  dívida soberana.

Até que o inimigo, (os mercados, os investidores, os especuladores, à escolha) atinja de forma ultrajante a esquadra almirante e mobilize os europeus para a defesa comum de uma Europa suficientemente unida?

---
Correl. - Comissão Europeia vai analisar ajuda à Hungria
BCE acelera compras de dívida com agudizar da crise europeia
Novo governo espanhol recebido pelos mercados com juros da dívida recorde
Moody´s ameaça: França pode perder nota máxima

Sunday, November 20, 2011

PORTUGAL AO NATURAL

O Nelson apareceu às nove e meia, como prometera.
- Tudo bem consigo, Nelson?
- Tu...Tu... do me.. me ... lho ... or ain ... da, sô Rui!
- Hum!?
- O Por... to levou uma ca ... bazada dácadémica! 

Há tempos, o Nelson tinha-me dito que era benfiquista até debaixo de água.
- O que é que isso quer dizer, Nelson?
- É ... é ... do ... hino, sô Rui, é ... do ... hino! O sô Rui não co ... co ... nhece o hino do Benfica? Um ... um ... benfiquista a sério, mes ... mo a sério, é ... é ... benfiquista to ... toda a vida e ... em to ... toda a parte. 
- Mas, Nelson, o que é isso tem a ver com a cabazada que a Académica deu ao Porto?
- Então o sô Rui n ...n ...não está a ver? É uma derrota do i ... i ... nimigo! Va ... le tanto ou mais que ...que ...uma vitória nossa.

O Nelson é um trintão, simpaticamente gago, prestável e competente na sua especialidade de electricista e ofícios correlativos, incapaz de suscitar a inimizade seja de quem for. Aparte disso, é um português normal, com o seu credo, a sua fé, e o seu inimigo de estimação.

Saturday, November 19, 2011

O JOGO DA CABRA CEGA

Discurso da Ministra da Justiça durante o VII Congresso da Ordem dos Advogados: "Para uma Reforma da Justiça"

Um documento que vale a pena ler na íntegra.

Destaco:

"30. Não obstante todas estas dificuldades, a Conselho Geral da Ordem dos Advogados e a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores, têm vindo a receber trimestralmente financiamento por parte do Orçamento de Estado.

Mais concretamente e no que ao Conselho Geral respeita, relembro que este órgão está a receber 21 0/00 (por mil) das quantias cobradas a título da taxa de justiça em processos cíveis, de acordo com o estipulado na Portaria 419-A/2009.

O apoio económico do Estado à Ordem dos Advogados é, ao que sei, uma situação única e de privilégio no contexto do funcionamento das restantes Ordens Profissionais.

Falando em números, o Conselho Geral da Ordem dos Advogados recebeu em 2010 1.7M€ (1.741.236, 24€) e até Setembro de 2011 quase um milhão de Euros.

Para que fique o registo, o Instituto de Gestão Financeira transferiu para a Caixa de Previdência em 2010 a importância de 3,8 M€ (3.821.378,87) e, até Setembro de 2011 a quantia de 1.253.505,04 M€.

Tudo sem atrasos."

O COSTUME

Miguel Relvas colaborou com empresa do BPN antes da nacionalização

Antes da nacionalização, o então deputado Miguel Relvas intermediou para o Banco Efisa, do grupo BPN, um negócio da ordem de 500 milhões de dólares, que envolveu o município do Rio de Janeiro. Abdool Vakil, ex-presidente do Efisa, confirmou ao PÚBLICO que Relvas, na altura membro da bancada parlamentar do PSD, o ajudou "a abrir portas no Brasil", mas o actual ministro explica que a sua colaboração ocorreu sempre "no quadro" da Kapakonsult, onde era administrador, e que teve um único cliente: o banco de negócios do BPN - Efisa.

CORTAR SALÁRIOS

privados não é imposição"



Pois não. É uma fatalidade, mas só para alguns. Os do costume.
É por demais evidente, e nem precisa de ser repetido, que os salários daqueles que trabalham em actividades que se têm de confrontar nos, ou com os, mercados internacionais, há muito que vêm a sofrer cortes salariais ou, pior que isso, corte dos empregos, porque se deslocalizam para outras paragens as empresas onde trabalhavam.  

Mas esses, senhor Presidente da República, senhor Primeiro-Ministro, senhor ministro da Economia, senhor Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, esses estão, ou estavam, em escalões salariais bem abaixo dos 1000 euros. Bem acima estão aqueles que trabalham em empresas monopolistas ou quase monopolistas, protegidas por preços regulados calculados com salários intocáveis pelas forças da concorrência.

O Presidente da República afirmava ontem também o seu desacordo, politicamente correcto, relativamente ao corte de salários no sector privado porque, dizia, "a competitividade pode ser alcançada por outros meios, nomeadamente pela inovação, pela formação, pelo marketing, pela marca".  Pois pode, senhor Presidente. Mas há quantos anos anda o senhor a dizer isso? Tantos quantos a competitividade dos sectores transaccionáveis tem continuado em queda livre. Nnguém se embriaga com água tónica, senhor presidente. Há sempre um espírito qualquer por detrás de uma grande bebedeira.

----

E insisto: por que é que se continua sistematicamente a mentir falando em corte de subsídios de férias (anedótico!) e de Natal aos pensionistas quando, o que de facto estão a cortar são duas das catorze prestações mensais em que foram divididas as pensões anuais calculadas com base em descontos efectuados e obrigatoriamente confiados à gestão da segurança social, que não é universal, como manda a Constituição, nem  solidária, na medida em que  a solidariedade só é paga por uma parte, ainda que maioritária, da população activa?

Por cada 100 euros de salário bruto (antes de descontos para impostos e segurança social) um trabalhador, cujo salário se situe num escalão intermédio do IRS, digamos 25%, coagido a descontar para a segurança social recebe líquidos (100-25-11) 64 euros. Pelo mesmo salário, a empresa entrega ao Estado (25 de IRS+34,75 de segurança social) 59,75 euros. Resumindo: Custos para a empresa = 123,75 dos quais o trabalhador recebe 64,  e o Estado  59,75. Destes 59,75, 34,75 são da segurança social. Com os 25 restantes deveria pagar o governo as despesas do Estado. Mas não lhe chegam.

Como não lhe chegam, assalta o correio que vai para a segurança social*, imitando outros assaltos idênticos à segurança sociasl, no passado. E diz, com todo o desplante, que, (com este assalto a alguns), reduz a despesa de todos e as perdas por assaltos de uns tantos (BPN, Madeira, etc.,etc., etc.).
---
* vd., por exemplo, por este exemplo, aqui, por onde andam os descontos dos inseguros pensionistas da segurança social.

707, ORDEM PARA ROUBAR

A PT inventou uma forma disfarçada de vender chamadas de valor acrescentado para além daquelas com que muita iniciativa abjecta  induz o povão a votações com intuitos claramente comerciais: os 707.

Hoje, o contacto telefónico com grande parte de empresas a operar em regime de monopólio ou quase monopólio só é possível através de chamadas para números iniciados por 707, pagas por uma tabela bem acima das tarifas comuns. Como, regra geral, o atendimento é demorado, depois de passar por uma triagem arrasante, "se quer falar em português, marque 1, se quer falar em inglês marque 2, se ...., se quer ..., se quer ..., se quer falar com um operador, marque 9 ... de momento todos os nossos operadores estão ocupados, atenderemos logo que possível, (música), lamentamos não ter sido possivel, até ao momento atender a sua chamada, atenderemos logo que possível, (música), a sua chamada é muito importante para nós, por favor não desligue (música), lamentamos não ter sido possível, até ao momento, atender a sua chamada, atenderemos logo que possível (música) ... ", o paciente, se não desiste ao fim de 10 minutos, desistirá ao fim de 20, de meia hora, mas acaba por desistir, com uma conta calada às costas.  

Um roubo descarado e consentido.

SALÁRIO MÍNIMO E DESEMPREGO

Há dias, coloquei aqui uma referência a um estudo sobre a incidência dos aumentos do salário mínimo no aumento do desemprego em Portugal.

Da mesma procedência, "A Destreza das Dúvidas", e sobre o mesmo tema, trancrevo:

" ... 2006, ano do acordo em sede de concertação social que determinou o aumento gradual do salário mínimo, este tem observado um crescimento significativo, com aumentos reais acima dos 4% entre 2008 e 2010. A compressão salarial daí resultante levou a que actualmente 50% dos trabalhadores por conta de outrem aufiram salários entre o salário mínimo e o seu dobro, o que coloca Portugal entre os países com menor desigualdade salarial da Europa, na metade inferior da distribuição salarial.

Este aumento dos salários mais baixos, em claro contraciclo com o desempenho da economia, resultou em perdas significativas de emprego nas camadas mais vulneráveis da população, nomeadamente jovens, mulheres e profissionais não qualificados. Os números do desemprego, ontem divulgados confirmam estas conclusões, com o desemprego dos jovens com idade inferior a 25 anos a atingir os 30% e o dos restantes grupos claramente acima da média nacional, actualmente de 12,4%.

O acordo de 2006 foi assinado por todos os parceiros presentes na Comissão Permanente de Concertação Social, mas onde havia uma cadeira vazia: a do representante dos desempregados"

Uma realidade a que os interesses corporativos dos instalados, e muito particularmente dos inamomíveis secretários-gerais das centrais sindicais e de todos quantos os sustentam, jamais reconhecerão publicamente, continuando a classificar estas conclusões como provocações ao serviço do patronato retrógrado.

Friday, November 18, 2011

SHIT SHARE

Perante os protestos dos banqueiros (vd aqui), em grande medida pertinentes, o ministro das Finanças declarou anteontem que, nos casos em que o Estado venha a intervir nos bancos, essa intervenção será o menos intrusiva possível.

Até agora, é desconhecida a fórmula de cálculo dos valores de entrada e de saída de eventuais participações nos capitais de alguns bancos, um requisito que se tornou menos premente após a prorrogação para Junho do próximo ano do prazo limite para a recapitalização imposta aos bancos. Sendo premente, contudo, não é menos relevante e é  no mínimo estranho que a questão não seja desde já objecto de discussão pública. O que está em causa é demasiado importante para ser deixada a discussão privada entre o Governo e os banqueiros porque pode determinar mais, e ainda mais gravosos, tributos para os portugueses do costume.

Por razões que só critérios de contabilidade recreativa podem explicar o governo vai transferir fundos de pensões de bancos (de quais e em que condições não sabemos) para cumprir (fazer de conta que cumpre) o défice orçamental previsto no memorando da troica. É uma habilidade canhestra, usada e abusada por executivos anteriores, tolerada pelos troicos porque, aqui e não só, em habilidade pública, as receitas contam-se como proveitos sem encargos às costas.

Por outro lado, estando o Estado endividado até ao cocuruto, não reduz, antes pelo contrário, tem aumentado a dívida aos bancos, deteriorando-lhe os rácios, e o compelindo-os à tal recapitalização que, tudo leva a crer, venha a ser feita pelo Estado com capitais que o Estado irá a outra parte pedir emprestados. Em tais montantes que, considerando as cotações actuais, o Estado será esmagadoramente maioritário, pelo menos em alguns casos, durante três anos, quem sabe se não será por um prazo a perder de vista.

Quando a recapitalização se tornou incontornável e o prazo de três anos de presença do Estado foi conhecido, os banqueiros clamaram que, tendo o governo mandado às urtigas por nada as golden share que o Estado detinha em empresas onde era minoritário, quer agora entrar nos bancos com golden share de peso.

Não sei em que é que todo este jogo de faz-de-conta vai dar. Mas, insisto, receio que seja num enorme buraco negro capaz de sugar de vez as nossas esperanças.

DIZEM QUE É ARTE

 Doris Salcedo
Na Gulbenkian, até 12 de Janeiro.


Thursday, November 17, 2011

MANUAL DE INSTRUÇÕES



António Lobo Antunes  conversa aqui com Mário Crespo a propósito do seu livro mais recente - Comissão das Lágrimas.
.
Ajuda a leitura de uma obra com uma estrutura narrativa de absorção muito complexa, sistematicamente fraccionada, frequentemente suspensa,  e recorrentemente metafórica.


O JOGO DA CABRA CEGA

Há três anos (completam-se no próximo dia 23), José Oliveira e Costa passou a primeira noite numa verdadeira cadeia VIP da Polícia Judiciária ficando sozinho numa cela, na sequência de decisão tomada pelo juis Carlos Alexandre. ( vd aqui ).

Esta manhã o mesmo Juiz Carlos Alexandre deslocou-se à casa-escritório do advogado Duarte Lima, acompanhado por um delegado da Ordem dos Advogados para uma busca relacionada com a eventual prática de crimes envolvendo ainda o filho do advogado e o BPN. A busca foi dada por concluída a meio da tarde e o ex-deputado deverá ser ainda hoje conduzido ao Tribunal Central de Investigação Criminal, em Lisboa, para um primeiro interrogatório judicial pelo omnipresente juiz Carlos Alexandre.(vd aqui) A detenção está relacionada com uma compra de terrenos na zona de Oeiras que estariam destinados à construção de instalações do Instituto Português de Oncologia (IPO). O crime que consta do mandado de detenção é fraude.

Três anos!
Não tem de se queixar Duarte Lima. Em três anos teve mais que tempo para arrumar convenientemente os seus papeis.

GUERRA CONTRA A CRIMINALIDADE

A criminalidade está a aumentar e, particularmente grave, a criminalidade violenta, informou ontem o ministro da Administração Interna. Com o aumento da recessão previsto para 2012 (em 2011 e 2012 o PIB deve cair 4%, segundo declarações do ministro das Finanças, também ontem) crescem os factores mais determinantes da criminalidade. Para travar a tendência e as expectativas, o MAI vai aumentar os efectivos da PSP e da GNR. Percebe-se, ainda que a eficácia das forças policiais não dependam essencialmente do número de efectivos ao seu serviço. Se assim fosse, não seriam necessários mais polícias uma vez que a relação polícia/habitante não se encontra aquém da média observada na União Europeia. 

Mais do que mais polícia do que o país precisa é de melhor polícia. Mas, admita-se que, em caso de emergência, mais número possa colmatar a menor qualidade. 

O que não se percebe é que o país continue com um efectivo militar que ronda os 38 000 homens, um contingente que se situa claramente acima das nossas necessidades de defesa. (vd aqui ).

Insisto no que já tenho apontado neste bloco de notas: Porque não se reduzem os gastos com a defesa, porque não se vendem muitas instalações desactivadas ainda sob gestão dos militares, e se reforçam os meios necessários à segurança interna? Porque não se transferem efectivos das forças militares, que não sabemos de quem nos defendem, para forças de segurança interna, necessárias para o combate numa guerra em crescendo?

Até quando o fantasma de Otelo, ou de outro otelo qualquer, vai continuar às nossas costas?

O JOGO DA CABRA CEGA

Duarte Lima foi preso às primeira horas de hoje por branqueamento de capitais no BPN

Prevejo que seja solto nos próximos dias.

Wednesday, November 16, 2011

UM PAÍS DE GENTE POUCO POUPADA

A Poupança em Portugal

Mais um trabalho do Núcleo de Investigação em Políticas Económicas da Universidade do Minho divulgado
aqui, e citado aqui.

O CAVALO DE TROICA

A troica veio, viu, e parece ter ficado convencida que o cumprimento do memorando está a ser razoavelmente atingido, e vai mandar desbloquear a terceira prestação da ajuda externa: oito mil milhões. Mas o que é notícia de primeira página, e vai ser objecto de discussão acesa nos próximos dias, é a recomendação dos troicos aos empresários portugueses para reduzirem os salários, seguindo o exemplo do sector público.

De todo o sector público?

Não se sabe se os troicos foram informados ou já tinham conhecimento que, logo que foi conhecida a decisão do Governo de cortar salários à função pública e nas empresas maioritariamente detidas pelo Estado, e as pensões daqueles que foram obrigados desde há muitos anos a descontar para a segurança social, começou a elaboração de uma lista de excepções, que promete ser regra, de empresas do Estado que, invocando encontrarem-se em situação de concorrência, vão ser, ao que tudo indica, dispensadas de executar cortes salariais. 

Não se sabe, por outro lado, se os troicos estão informados que, ao mesmo tempo que muitos são alvejados com cortes salariais, há monopólios de facto, com preços regulados sustentados em custos de trabalho crescentes, que serão pagos, sem direito de reclamação nem alternativa de escolha, pelos que vêm os seus salários amputados. 

A competitividade das empresas exportadoras não depende apenas, e em alguns casos não depende de todo, dos níveis salariais, porque depende também, por exemplo, dos custos da energia.
Que vão subir, até porque os salários no fornecedor não vão descer, avisou prontamente o seu presidente. 

---
Act.- Os patrões estão contra a redução de salários no sector privado. Porque, diz o presidente da CIP aumentos de produtividade podem ser obtidos com mais horas de trabalho.
Para o patrão da CGTT, pedir corte de salários no sector privado é um disparate. Mas aumentar o número de horas de trabalho, é outro.

TÍTULOS DO DIA

Tuesday, November 15, 2011

ESTEJAM À VONTADE!

Se quiserem sair, por favor, não façam cerimónia.

Partido de Angela Merkel aprova moção que permite saída de países da Zona Euro (aqui) sem que essa saída implique a saída da União Europeia.
“Não estamos a expulsar ninguém”, disse o ministro das Finanças Wolfgang Schaeuble, citado pela Bloomberg. “Queremos que a Grécia continue, que todos continuem”. Mas se um país não puder suportar o fardo ou não o quiser suportar e o povo grego tem de suportar um fardo muito pesado, então temos de respeitar a decisão do país”.

A moção aprovada pelos conservadores alemães parece mais óbvia do que na realidade é.
Se há 10 países da União Europeia que não fazem parte da Zona Euro, se um país sai de sua livre vontade da Zona Euro nada, em principio, impede que se mantenha na União Europeia. 

Mas a história pode vir a contar uma história diferente: Um país que seja obrigado pelas circunstâncias, quaisquer que elas sejam, a abandonar a Zona Euro, reoptando pela moeda nacional, será fustigado por uma vaga inflacionista que dificilmente poderá deixar de ser acompanhada por uma restrição à circulação de capitais e à emergência de um mercado negro de divisas, sobretudo euros. Uma e outra destas ocorrências é incompatível com a pertença a uma união de mercado livre.

Não será, portanto, idêntica à situação daqueles países membros da União Europeia mas não membros da Zona Euro a de um membro desta que passe à condição de apenas membro daquela.

E insisto: No caso da Grécia, a saída da Zona Euro, com todas as consequências que essa saída implicaria na vida dos gregos, geralmente já muito complicada, e digo geralmente porque há gregos por onde a crise nunca passará, poderia determinar a aproximação da Grécia aos EUA (hipótese menos provável, se atendermos à condição da Grécia como membro da Nato) ou à Rússia (hipótese mais provável, atendendo à proximidade cultural embebida na igreja ortodoxa ) até como reacção de um povo ferido com a falta de solidariedade europeia que passaria a ser, certamente, o protesto mais proclamado na rua grega. 

Há portas que quando se abrem reatraiem as saídas.

Monday, November 14, 2011

AFIRMA MERKEL

A Europa encontra-se no momento mais dificíl depois da II Guerra Mundial (aqui)

"Três mil milhões de euros em dívida a cinco anos foram colocados a uma taxa de 6,29%, um recorde em Itália desde a entrada na Zona Euro. Foi a primeira operação de financiamento desde que Mario Monti iniciou o processo de formação de governo." (aqui)

Fica cada vez mais provado que, ou ao Banco Central Europeu é consentida a emissão ilimitada de moeda, e isso pressupõe a alteração dos tratados que hoje ameaçam a continuidade da Zona Euro, e, implicitamente, da União Europeia, ou estilhaça-se a Europa.

Angela Merkel,  num discurso na véspera do congresso anual do partido da União Democrática Cristã, citada pela Bloomberg, disse que queria preservar o euro com todos os actuais estados membros. “Mas isso requer uma mudança fundamental em todo a nossa política”. (vd aqui) que “era hora de formar uma união política na Europa para enviar uma mensagem aos detentores de obrigações europeias de que as intenções dos líderes da Zona Euro são sérias relativamente a quererem terminar a crise da dívida soberana". “Acredito que isto é importante para todos os que compram obrigações da dívida pública: deixamos claro que queremos que a Europa tome mais medidas para acalmar os mercados, queremos que a União Europeia e a Zona Euro cresçam juntas”. "“De outra forma as pessoas não irão acreditar que nós conseguimos realmente resolver os problemas”.
.
Ainda, recentemente, Merkel e Sarkozy em declarações conjuntas, afirmaram a necessidade da criação de um governo económico europeu, mas as intenções, tanto quanto se sabe, não passaram disso mesmo. Merkel vem agora avançar (será essa a intenção?) para uma união política.  

Merkel e Sarkozy têm sido acusados estarem a dominar não democraticamente os destinos europeus, o que é, indiscutivelmente, verdade. Mas não é menos verdade que a União Europeia é consituida por 27 membros, dos quais 17 formam a Zona Euro. Alguém tem ouvido os outros 25?, os outros 15?  Cavaco Silva vem defendendo desde há algum tempo a intervenção do BCE como banco emprestador de último recurso, à semelhança do que acontece com todos os bancos centrais do mundo. Passos Coelho, discorda.
 
Mas ainda que Passos Coelho concordasse, e mais tarde ou mais cedo não tem alternativa, é muito óbvio que nunca um banco central poderá intervir como emprestador de último recurso  se não estiver respaldado por um governo económico que o credibilize.  
 
E, até agora, que se saiba, ninguém avançou para dizer ou propor o que isso é.