Thursday, January 05, 2017

POR BAIXO DOS AVENTAIS

Numa entrevista - aqui - do Público e da Rádio Renascença ao irmão-mação, que o então ministro da Cultura sr. João Soares colocou na presidência do CCB antes de prometer, mas ainda sem cumprir, dar umas bofetadas ao sr. Augusto M. Seabra, o entrevistado, um apaixonado por touradas, anunciou que o CCB vai melhorar a oferta cultural, e lançar concursos para a construção de um hotel de cinco estrelas e dos espaços comerciais há muito adiados. Segundo o aficionado, um CCB com mais receita é um CCB mais autónomo e, por isso, melhor. 
Melhor para quem?
"Será, portanto, um contrato de concessão, construção e exploração" com eventuais interessados, para já consta que há dois, esclarece o gestor a pensar na cultura do cimento. 

Mais umas parcerias público privadas em perspectiva. Neste caso, para a construção de um hotel de cinco estrelas e espaços comerciais que tanta falta nos fazem, com benefícios para os privados e custos para os contribuintes. 
Se não fosse assim não seriam parcerias público privadas.

Wednesday, January 04, 2017

NEGÓCIO DE CIGANOS*

Segundo as notícias - vd. aqui - o Banco de Portugal deverá indicar hoje o Lone Star Funds para comprar o Novo Banco. Os chineses que se tinham posicionado com melhor oferta viram as suas pretensões frustradas pelo partido, e o Lone Star Funds é menos mau que o terceiro da short list de três que tinha embandeirado à partida com dezassete interessados. Pagará, não sabemos como nem quando, 750 milhões pelo que sobra do que chegou a ser, segundo a tabela então em uso, o terceiro maior banco português. 

Como para o Fundo de Resolução, uma coisa que ninguém sabe o que resolve mas que sabemos que vai resolvendo aumentar a dívida pública portuguesa, já entraram à volta de quatro mil milhões de euros, e o sr. ministro das Finanças imita os seus antecessores afirmando que "os contribuintes portugueses não serão prejudicados porque serão os outros bancos quem paga a conta" (cabendo à Caixa Geral de Depósitos a parcela maior)  não se percebe como é que os outros bancos se dispõem a pagar a sobrevivência de um concorrente que uma organização com as características do Lone Star Funds se prepara para agarrar e espremer o que lhe puder dar. 

Porque, ninguém tenha dúvidas, o Lone Star Funds, se ficar com o NB, vai fazer dele o que faziam os ciganos aos burros quando os burros eram negócios de feira para os ciganos: compravam numa feira, escovavam o animal, e vendiam-no como novo na feira seguinte. 
O que o Banco de Portugal demonstrou ao longo de todo este e dos outros processos foi a sua incapacidade para evitar a degradação dos casos e dos escândalos que a sua incapacidade ou incompetência tinham consentido. 
O que os bancos portugueses demonstram com a sua apatia perante o que se passa é que não contam dar um cêntimo para o peditório chamado Fundo de Resolução.

Chegado a este ponto, diga o que disser o sr. ministro das Finanças, pagarão os contribuintes portugueses qualquer que seja o novo dono  do burro escanzelado.

* Que me desculpem os ciganos se os ofendi.
   E os burros, que são animais honestos.

Tuesday, January 03, 2017

MOISÉS

Ali, mesmo em frente na oblíqua para a esquerda, a menos de cinquenta metros daqui, lá está ele. 
Não, não é fácil distinguir a sua figura esgalgada e enérgica por detrás deste nevoeiro cerrado com mais de trinta anos em cima, mas garanto-lhe que ele continua lá a cavalgar no dorso de um rocinante branco de brita, que se levanta à medida que o cavaleiro prossegue na luta, armado de capacete, viseira, marreta e martelo. E ao lado, fixe-se bem no conjunto, ao lado, cavalga, se é apropriado cavalgar um burro, a companheira do cavaleiro, também ela envolvida na batalha, mas, porque menos vigorosa e menos tempo na luta, o resultado é o que é porque não pode ser maior apesar da boa vontade, trouxe-lhe o almoço no cesto, e deixou-se ficar a fazer como ele faz, consoante a força que lhe resta. 
O capacete, em segunda cabeça, deu-lho o cantoneiro da secção, a quem a bondade da respectiva circunscrição da Junta Autónoma das Estradas voltou este ano a distribuir capacetes novos aos servidores públicos que trabalham ao sol, e à chuva quando não há onde se abrigarem. São cinzentos, da cor da camisa e das calças, com a devida atenção nota-se em cada lado um orifício para ventilação das ideias, lembram soldados da guerra de catorze a limpar valetas. Para o cavaleiro ao lado, aliás cavaleira, não há destas regalias, protege-se com um lenço preto, a cor do uniforme de quem, uma vez de luto, nunca mudará de cor. A viseira engendrou-a o cavaleiro que, além de ser mestre a britar pedra é inventor de tudo o que precisa menos da marreta e do martelo porque alguém se antecipou. Marreta e martelo trouxe-os consigo, eram dele quando era pedreiro, mas por ter caído de um andaime ficou com uma perna mal reparada e incapacitado para o ofício. Sem poder continuar em trabalhos que requerem o equilíbrio de pernas em condições, conseguiu aquele, de britar pedra sentado no dorso do amontoado da pedra que parte, por especial mas retribuído favor do cantoneiro.
Quando surge a vez da troca de capacetes, salta de um para o outro a pena gandaresa de pavão com lugar assegurado há anos no orifício direito, e aí temos Moisés a caminho de S. Tomé da Ferreira que fica a meia dúzia de quilómetros ali para baixo. 
Repare-se agora em pormenor na execução do trabalho do artista britador: Na mão esquerda tamborila a pedra que a marreta já amansou para a apanhar na posição em que o martelo a vai quebrar, segundo as normas, a golpes puxados da altura do ombro direito; e sempre no incessante gosto de falar, falar, falar, entrecortado pelo esforço de malhar o martelo na pedra. Quem passa, se não pára continua a ignorar o que vai para além daquela serra, pequena demais para o nome que lhe dão. Este Moisés, que só não abre caminho através do ribeiro que passa atrás dele porque o ribeiro se passa de um salto, é a agência noticiosa local com fontes fidedignas, o Século aos domingos, e todas as noites a BBC e a Rádio Moscovo.  
Um dia passou por cá o inspector da circunscrição a avaliar o trabalho do cantoneiro e, de propósito ou por acaso, meteu conversa com o britador, que falava de viseira sem olhar os interlocutores, nem era preciso, conhecia-os a todos pela voz, e não saber o martelo de cor o sítio exacto onde Moisés põe os dedos. Perguntou, sabe-se lá porquê mas pode imaginar-se, o graduado ao trabalhador sem vínculo à função pública, se ele sabia escrever o seu nome, estava o cantoneiro ao lado, com cara sofrida, o chapéu na esquerda, a outra no peito, respondeu  Moisés que sim senhor, tinha a quarta classe feita com distinção, sabia escrever muito bem o nome dele e também, se fosse necessário, o de sua excelência se sua excelência lhe dissesse como se chamava porque não o estava a reconhecer pela voz, mas não agora porque tinha de acabar o trabalho antes que chegasse a camioneta que trazia as pedras e levava a brita. E, entre puxadas marteladas, foi perguntando o que queria sua excelência que ele assinasse.  Foi-se embora o inspector, sem bom dia nem boa tarde, e nem Moisés nem o cantoneiro pensaram mais naquilo.
Moisés é, já se disse, quem informa quem quer ser informado, sem divulgar as fontes, mas não admite interrupções na emissão das respostas cadenciadas pelas porradas nas pedras. Interrupção fecha a emissão, Moisés amua com vantagem para o volume do monte de pedra partida. O magazine inclui página nacional, página internacional só para os mais íntimos, coluna mundana preenchida com confidências da sexagenária menina Marquitas, caderno de economia e finanças e suplemento de investigação local. 
Moisés, reparem, brita com alegria e relata com paixão. Se uma tirada é rematada com humor, enquanto as gargalhadas saltam, saracoteia o martelo em prodígios de malabarismo, o cão, ainda não tínhamos reparado no cão, mas reparamos agora que abana o rabo. 
O camião chega ao sábado carregado de pedras carregadas na pedreira, cada matacão pesa não menos que quinze quilos cada, despeja-os naquela nesga de terra à borda da estrada, e carrega a brita que Moisés e a companheira partiram toda a semana. O cabo vem ao lado do motorista, descarrega a carga o ajudante que veio encavalitado nas pedras, assistem à descarga o cantoneiro, o cabo, o motorista, assiste Moisés porque não pode ajudar a descarregar, a perna não deixa, à espera que meçam a brita e o cabo lhe pague o trabalho conforme a medição. De volta a casa, Moisés faz contas de cabeça, a avaliar se o trabalho dará para o sustento semanal dos três lá em casa, dele e da mulher, e do neto, um menino de dez anos, que é, diz ele sem querer trocadilhos nem lugares comuns, a menina dos seus olhos, que a nora lhes viera pôr em casa quando o pai desapareceu  numa explosão na fábrica de foguetes. Àquele menino ensina Moisés, quando já não há sol para ver as pedras, a inventar mundo. Há uns tempos andaram envolvidos na construção de uma chocadeira a carvão por estarem frígidas as galinhas e nenhuma se dispor a cobrir os ovos na capoeira. Da prova experimental com quatro ovos, resultou, segundo Moisés, e testemunhou, rejubilante, o neto, terem nascido um pinto, um pato, os outros dois ficaram escalfados, um sucesso tecnológico que Moisés não regista porque não quer. Também inventou o abano eólico  para arrefecimento da casa nos dias de verão, movido pelo moinho instalado no cume da casa, onde no tempo quente nunca falta a nortada. Quando não faz falta a aragem do abano, a força do engenho é desviada para uma moagem doméstica que até descasca pinhões.

Moisés esteve na guerra de catorze. Era pirotécnico quando foi recrutado, tornou-se pedreiro por ter saído vivo mas gaseado, a guerra tirara-o do fogo luzes e levara-o para o fogo do inferno, sem que ninguém, dos que com ele foram carregados à pressa, soubesse para onde iam e fazer o quê. 
Um dia, já na Flandres, estavam já há uma semana enfiados nas trincheiras sob pressão intensa do fogo inimigo, as baixas não tinham conta, a maioria dos feridos berrava enquanto não desfaleciam e depois morriam exangues. Combatiam, mas era um combate de resistência fincado sobretudo na esperança de não serem atingidos porque nem tinham preparação, nem meios e, pior que tudo, assaltou-os o espectro da fome com a ruptura dos abastecimentos vitais. Quando à noite cessavam os bombardeamentos, atacavam os portugueses as capoeiras das casas mais próximas. E foi numa dessas surtidas à cata de galináceos que Moisés descobriu que por aquelas bandas também havia pirotecnia ao entrar num paiol onde supunha haver um galinheiro. Voltou ao abrigo carregado dos morteiros que conseguiu carregar, mantimentos, viste-os? 

Arreei a carga com cautela e tratei logo de procurar material para uma armadilha. Nem ceei, até porque não havia com que ceasse. Quando a coisa começou a tomar forma, alguns acercaram-se e começaram a ajudar. Trabalhámos toda a noite e ao começo da madrugada tínhamos montado um lança foguetes formidável. Podia atirar sem parar os dois centos roubados se não engasgasse nenhum rastilho. Trabalho acabado, quiseram os outros saber para que servia a engenhoca. Ficaram intrigados, sem resposta e, pensei,  vou dormir até à alvorada. Acordou-me o primeiro sargento com a bota, a olhar-me lá de cima, a querer explicações sem abrir a boca. Lá lhe expliquei como encontrara o fogo e o trabalhão que aquilo nos dera, mas a ideia era boa, tivesse ele fé nela: surpreender o inimigo com uma alvorada de duzentos tiros de morteiro lançados a partir da retaguarda das suas linhas e, deste modo, colocá-lo entre dois fogos, ainda que só um fosse real, mas a proposta foi rejeitada, nunca se aproveita convenientemente a inventiva em Portugal. 

Está Moisés disposto a continuar o relato da campanha do CEP na Flandres, quando chega antecipadamente a camioneta da brita. Não é dia de carga habitual e, por vir vazia de pedras, supõe Moisés tratar-se de algum levantamento ocasional, uma falta em alguma parte para acabar um trabalho que está a meio. E, com essa convicção, entregou a brita e recebeu o dinheiro. Feitas as contas, informa-o o cabo-cantoneiro que, a partir daquele dia, dispensa a Junta Autónoma das Estradas os seus serviços por ter entrado em funcionamento, não longe dali, uma britadeira.
Uma britadeira??? Mas o que é uma britadeira??? pergunta Moisés, mas já todos se foram e o cantoneiro sabe-se lá por onde anda aquela hora.

Não tivesse o cantoneiro escondido o que sabia, e Moisés teria talvez tido tempo de dar combate ao inimigo desconhecido que lhe roubara o trabalho e o sustento da mulher e do neto.  A pensar no neto, Moisés sente redobrado o esforço dos pulmões atingidos pelos gases da guerra. Cambaleia, e senta-se à beira da estrada. Como é que aquilo pudera acontecer? Como é que ele, leitor e ouvinte interessado nos desenvolvimentos das ciências e das técnicas, ele que inventara a chocadeira a carvão,  o abano eólico, a moagem e descascadora doméstica, que até parte pinhões sem partir os dedos, como é que, Santo Deus!, nunca lhe ocorrera inventar uma coisa tão simples de conceber como uma britadeira! Como?, Santo Deus!  
Mas nada está perdido, Moisés, estás a arfar, e o realejo a queixar-se, mas aguenta-te! Aguenta-te porque ainda vais a tempo de conceberes, projectares e construíres uma britadeira mais eficiente e perfeita que alguma vez alguém possa ter concebido ou imaginado sequer. Talvez já não tenhas tempo de a veres funcionar, mas, por amor Oh! Deus!, dá-me tempo suficiente para deixar desenhar o projecto, o meu neto é esperto, muito esperto mesmo, só queria que visses, basta um esboço, não preciso de mais tempo que para preparar um esboço, só isso, compreendes, bom Deus? Uma britadeira é a coisa mais elementar, como é que eu não me lembrei de inventar uma, sabes, bom Deus, afinal de contas já sei, eu gostava do que fazia, as pessoas passavam e ficavam encantadas com o meu trabalho e a minha conversa, perguntavam e eu respondia, gostava de responder, e afinal, uma britadeira é uma coisa tão simples, um motor, um motor a diesel, daqueles que rebocam os cilindros com que pisam as estradas para compactar e endireitar o piso, um motor desses é quanto basta para mover as marretas, eu chamo-lhes marretas mas se calhar já lhe deram outros nomes, que partem as pedras que entram nas tremonhas directamente descarregadas por gravidade das camionetas, dali passam aos martelos que as britam ao tamanho que se quiser, é uma questão de afinação, tão simples, bom Deus, como é que não vi isto? E que cadência! que precisão! que tudo!

Levanta-se Moisés a custo, e lá vai ele a caminho de casa, o que é que irá ele dizer quando a mulher e o neto o virem chegar mais cedo?
Ele, Moisés, que engendrara tudo, até a forma de ganhar a guerra, esquecera-se estupidamente de inventar forma de matar aquele trabalho em que consumia os seus dias antes que outros o matassem e o deixassem depenado. E se ele desconjuntasse a britadeira? Aquilo deveria ser bicho que passava as noites ao relento. Se lhe retirasse uns parafusos, a estrutura animada para britar desconjuntava-se, e a pensar nisto, animou-se, depois a nitidez da inconsequência da sabotagem acertou-lhe no peito como uma marretada, baqueou contra o  valado, esmagado por uma dor insuportável.
Reencontra-se mais tarde em casa, estendido na cama, a mulher a fungar ao lado.
Aturdido, procura o fio da meada e começa a tecer as soluções possíveis. Recusa comer, recusa beber, recusa falar, só o arfar do peito indicia que Moisés sobrevive ainda. Sabe escrever o seu nome? Até o seu, excelência, se me disser quem fala ... Filho de uma grandessíssima puta! Até sei como se constrói uma britadeira, quanto mais manobrá-la! Se quisesse brita de britadeira tivesse dito e ele teria construído uma. Se a ideia era acabar com a brita à custa dos braços, obra mais demorada mas mais perfeita, porque não lhe tinham dado a ele a oportunidade de manobrar a geringonça que já vinha a caminho? Porquê?
Noite alta, a mulher adormecida ao seu lado, Moisés, entre cá e lá, agarra-se e não larga a ideia de construir a sua britadeira. Pagaria os materiais com a venda da vaca, da vaca não, porque sem vaca ficaria o neto sem leite, e, depois, o animal tinha-o tomado a meias com um sovina, da casa, não, porque onde iriam albergar-se a mulher e o neto? Mas poderia pedir emprestado e dar a casa de hipoteca ... E volta ao projecto. A partir da ideia objectiva, idealiza peça a peça. Segue-se a montagem, arranque, afinação, arranque, afinação, corrige alguns desenhos, nunca uma coisa daquelas corre bem à primeira, mas aí está ela agora a funcionar como um relógio suíço, verifica o nível de óleo no motor e a valvulina nos cubos das engrenagens. Só falta afinar as passadeiras rolantes, há uma ou outra que bloqueia a corrente e entope as chegadas às tremonhas. Espera um pouco mais, meu Deus!, espera que isto está quase!, dá-me só mais dez segundos! ...  Linda menina!,  está agora a esfrangalhar blocos de calcário como se esmagilhasse garrafas de vidro, aparece o encarregado e fica abismado, sem pio. Têm agora a  mulher e o neto comida garantida e casa assegurada, a marreta, símbolo de uma tradição, começo da indústria, da sua indústria, pendura-se à porta. 

Sobressalta-se a mulher com tantas convulsões ao lado, acende a luz, e, após alguns instantes de expectativa, de dedos cravados na cara, depara-se desesperada com Moisés finalmente sossegado.

Alhadas
19/02/1986

AZEITONAS EXPLOSIVAS

- Já foram almoçar ao Cantinho do Avillez, no São Carlos? ... Então vão. Tem lá um bacalhau à braz com azeitonas explosivas que são um achado, uma maravilha.


O José Avillez, dono de uma já notável cadeia de restaurantes, desde o económico "Cantinho" até ao estrelado "Belcanto" que fica do outro lado do largo, é um chef de inquestionável sucesso. Mas, note-se e tome-se em boa conta, chef sem é no fim; dos chefes com é no fim, as cadeias são outras. 
Vivemos na era dos chefs. 
Para quem não entra em casa dos chefs entram-lhe os chefs em casa em programas de televisão, em artigos de presença permanente nos jornais e revistas, livros e álbuns de cozinha, e, mais economicamente, por consulta gratuita na internet. 
E, de um momento para o outro, revelaram-se gastrónomos e críticos da especialidade personagens que nunca suspeitáramos que vestissem tais aventais. 
Pelas minhas contas, considerando o que ouço e observo de espaço dedicado às imaginações dos chefs, a culinária criativa está a conquistar espaço às telenovelas.

Há dias recomendava-nos uma amiga nossa acompanhar o bacalhau cozido não com grão mas com puré do mesmo. Tinha lido ou ouvido a receita, e ficara encantada, ela que adora purés e detesta sopas. É normal. Sempre que num restaurante pergunto se há sopa a resposta mais frequente que ouço é que há sopa, sim senhor, mas triturada, para as crianças, os pais muito raramente comem sopa. Se a evolução culinária continuar neste sentido, um dia a humanidade não terá dentes.

 - E que tal as azeitonas explosivas?
- São originais, fazem pfffffffffffff quando as trincamos. Mas não sabem muito a azeitonas, pois não?
- Deve ser por isso que gosto destas. Nunca fui muito fan de azeitonas, sabes. 

Monday, January 02, 2017

BOA QUEDA

Há quedas que vêm por bem.

A queda do euro contra o dólar (1,04874, no momento em que teclo este apontamento), que agora se situa em mínimos dos últimos catorze anos, depois de ter atingido um máximo em Abril de 2008 (1,59752), tem as suas vantagens, sem que possamos ignorar os seus inconvenientes: o custo das importações de combustíveis fósseis, o aumento da dívida externa titulada em dólares, por exemplo. (vd. aqui gráfico da evolução euro/dólar nos últimos dez anos)

As vantagens, que se traduzem sobretudo no crescimento (transitório) da competitividade monetária das exportações com reflexo no crescimento económico na Europa, são boas notícias no meio de um leque de ameaças que pairam sobre o ocidente europeu, que animam os extremistas nacionalistas, xenófobos, racistas e todos quantos aproveitam as pragas para dominar as sociedades democráticas infectadas pelos vírus que eles espalham descaradamente e quase sem oposição que eficazmente os denuncie e anule. Estão os valores democráticos condenados a submeterem-se à tirania disfarçada dos seus algozes, por uso abusado desses mesmos valores, redimindo-se da sua pusilanimidade apenas in-extremis ou por desgraça de outra guerra? 

Se até agora ao euro tem sido atribuído o papel de bode expiatório de todos as causas perturbadoras da união europeia, pode acontecer que, por obra e graça da ascensão do populismo nos EUA, se torne menos grave o  contágio deste lado de cá do Atlântico. Pelo menos até que do lado de lá caia Trump por trumpgate. 

Vem este apontamento a propósito desta noticia: 

"A percepção dos gestores de compras da Zona Euro aponta para que a actividade da indústria dos 19 do clube da moeda única tenha atingido um máximo de quase seis anos em Dezembro, fechando o ano de 2016 com uma tendência de crescimento.

De acordo com a Markit, o índice PMI ficou no último mês do ano em 54,9 pontos, confirmando a primeira leitura e reforçando o perfil de crescimento em relação a Novembro, quando tinha sido de 53,7. É o valor mais elevado desde Abril de 2011, mantendo-se acima da linha de 50, o limite a partir do qual se estabelece que a actividade registou expansão.

A actividade acelerou entre os dois últimos trimestres (passando de 52,1 para 54), elevando a média anual deste indicador para 52,5, levando a que o ano fechasse no valor mais elevado desde 2010.


Por mercados, a Holanda e a Áustria são aqueles onde se denota maior expansão da actividade, ao passo que na Alemanha, a "locomotiva económica" do euro, regista um máximo de três anos. O maior parceiro comercial de Portugal, Espanha, atingiu a melhor marca em 11 meses, enquanto o desempenho de França é o melhor em quase seis anos.

Na base do desempenho do clube dos 19 está, segundo a Markit, um crescimento mais rápido da produção e de novas encomendas, tanto no mercado interno como para exportação, a beneficiar da queda do euro face ao dólar nas últimas semanas. 

O crescimento da procura elevou as listas de encomendas também para o maior valor em mais de cinco anos, resultando na criação de mais postos de trabalho. A empresa de estudos de mercado destaca ainda o aumento da pressão inflacionista, perante o aumento dos custos das importações devido a factores cambiais e ao aumento dos preços das matérias-primas. 

Apesar de reconhecer o forte final de 2016 para a economia do euro, Chris Williamson, o economista-chefe da Markit, destaca o risco político trazido pelo ano novo, nomeadamente em torno do desfecho das eleições na Holanda, França e Alemanha. Eventuais alterações geopolíticas podem conduzir a uma "intensificação da incerteza política na região", o que leva a organização a estimar um abrandamento no crescimento da economia, dos 1,7% de 2016 para 1,4% no ano que vem."

Saturday, December 31, 2016

A QUEDA DE TRUMP COMEÇOU ONTEM

É um vaticínio e uma esperança.

Já depois de ter teclado o apontamento de ontem - O Golpe Contra o Ocidente - soube-se que Trump colocou no twitter uma mensagem de felicitações a Putin :
Great move on delay (by V. Putin) - I always knew he was very smart!

Não é novidade que o conluio entre Putin e Trump vai muito para além de uma admiração pessoal recíproca entre dois líderes suportados pela onda de nacionalismo que eles reacenderam com propósitos idênticos: Putin para se manter indefinidamente no Kremlin, Trump para ser eleito prometendo empregos a quem não vai interessar agarrá-los. Trump e alguns membros já conhecidos da sua administração têm interesses interligados com plutocratas russos que apoiam Putin, e essa, ou maioritariamente essa, é a razão fundamental que está por trás deste facto inédito e insólito de um presidente eleito colocar-se instantaneamente do lado daquele que é suspeito de ter atentado e, eventualmente, continuar a atentar contra os interesses dos EUA, por actividades denunciados pelo ainda presidente em exercício pleno de funções, suportado pelas informações recebidas dos serviços secretos norte-americanos. 

Reporta o Washington Post de hoje que "Russian operation hacked a Vermont utility, showing risk to U.S. electrical grid security, officials say", significando isto que foram detectados factos de que a guerra cibernética desencadeada a partir do Kremlin contra os EUA, e que, neste caso concreto, poderia (ou poderá?) abater, sem exclusão de quaisquer instituições, hospitais por exemplo, de um instante para o outro a rede de energia eléctrica, com o aplauso imediato de Trump ao comparsa, que o ajudou a chegar à Casa Branca, sem cuidar de averiguar as razões do presidente dos EUA em exercício.

Trump não foi eleito pela maioria dos norte-americanos. Porque o actual presidente deixa de exercer funções numa situação em que o desemprego é baixo, muitos dos que votaram em Trump - seduzidos pela oportunidade de emprego em actividades deslocalizadas para o oriente, com a China no centro do alvo - concluirão que, ou os salários serão desinteressantes, ou a qualidade do trabalho não se coadunará com as suas expectativas. E, em qualquer caso, o retorno de actividades de produção industrial, não vai, quando ocorrer, requerer a utilização intensiva de mão-de-obra.  
Trump também prometeu investir na renovação de estruturas desgastadas e construção de novas, e, neste caso sim, precisa de mão-de-obra.  Mas de onde virá essa mão-de obra se os latino-americanos são indesejados, e muitos serão expulsos, os árabes suspeitos, os europeus ocidentais pouco disponíveis, e os orientais amarelos ou castanhos demais para ameaçar a supremacia branca que Trump prometeu aos brancos e brancas que votaram nele?
Talvez da Rússia ...with love from Wall Street.


Correl . aqui

Trump faces the Congressional bear pit over Russia / Lawmakers from both parties likely to resist push for closer US ties with Moscow


Friday, December 30, 2016

O GOLPE CONTRA O OCIDENTE

À expulsão de 35 funcionários a Embaixada da Rússia em Washington DC - cf. aqui - em sequência de conclusões dos serviços norte-americanos de que houve interferência da espionagem russa nas eleições que favoreceram Trump, respondeu Putin que não expulsaria diplomatas norte-americanos em Moscovo preferindo esperar pela tomada de posse de Trump de hoje a três semanas. Percebe-se bastante bem a decisão do presidente russo.


Trump corresponderá a este desembaraço do ex-espião russo com um abraço que embaraçará as relações do novo presidente norte-americano com a CIA e o FBI. 
Presumo que a decisão de Obama, conhecida hoje mas já prevista há dias, irá dominar a reacção dos norte-americanos à política externa de Trump, declaradamente favorável à onda nacionalista e xenófoba que irá dominar a Europa e que pode abalar profundamente a União Europeia e a Zona Euro em particular.

Obama fez o que não poderia deixar de fazer. Com as profundas divergências, neste caso em matéria de política externa, entre a administração norte-americana que está de saída e a que entrará a 20 de Janeiro, à partida vence Putin. Falta-nos saber quem mais cavalgará a onda e engrossará o tsunami populista que arrasará a Europa Ocidental. Se, entretanto, Trump não for apeado por revelações públicas das razões que estiveram na origem das sanções à Rússia anunciadas hoje, tendo em conta a natureza e as consequências dessas relações.

Do que possa ocorrer, a única coisa que não irá dizer-se no futuro é que não aconteceu hoje nada de muito relevante. 

A teclar este apontamento impôs-se-me a pergunta:
Foi Philip Roth premonitório em "The Plot Against America? "
Iremos atravessar em 2017 tempos de grande perturbação a nível mundial, e muito em particular, nos EUA e na Europa. Entretanto Putin, para já, ainda não embarcou. Enquanto o nacionalismo russo desvalorizar a degradação económica do país, Putin tem o lugar garantido e regalar-se-á a ver, do seu resguardado ponto de observação, a desorientação das democracias ocidentais.  

RITA

Rita,

Hoje, já sabes porquê, não vamos poder abraçar-nos nos teus treze anos.
Como a razão da impossibilidade de estarmos contigo não deu tempo de pedir ao Pai Natal a entrega da prenda que lhe tínhamos encomendado, lembrou-se o teu avô de colocar aqui hoje uma gracinha que o Pai Natal não entregou à tua mãe há trinta anos. Com o passar do tempo, passou-lhe o já pouco brilho que possa ter tido então. Ainda assim, aceita-a como uma frágil lembrança, encontrada esquecida há pouco, numa caixinha a pular de beijos dos teus avós. 

10/04/1986

Quando eu tinha quinze anos,
o mundo era pouco mais que a minha aldeia.
Hoje, a tua aldeia, Ana,
é do tamanho do mundo.
Quando eu tinha quinze anos
não sabia tanta coisa banal,
por exemplo,
que Portugal é rectangular, 
e, o que é ainda mais grave, 
que, de forma concisa, 
encosta-se à Galiza
e acaba no Algarve.

Naquele tempo, Ana, minha filha, havia
o Portugal Maior
do Minho até Timor, 
e era Angola,
e Moçambique, São Tomé  e Cabo Verde
e Goa.
País multirracial, multi continental,
capital: Lisboa. 

Sabia lá eu que a Índia nos queria cilindrar!
Se havia Argélia, 
ficaria longe do lugar.
À minha aldeia não chegava Camus
nem os "pied noirs".
A Pátria, Portugal, era indivisível,
una,
ainda que chiasse na ONU
um safadão que havia, um tal Nkrumah,
que não se ouvia na minha aldeia.

Por essa altura, em Roma
compunha-se um Tratado.
E a ideia,
de construir na Europa um só mercado,
não chegava, também ela, à minha aldeia.

Um dia,
disseram que subira ao espaço sideral
o "sputnik",
um foguetão, coisa nunca vista,
mas subversivamente anti-ocidental,
marxista!

Noutro dia
falaram da bomba agá,
dos mesmos comunistas.
Mas, na minha aldeia,
ninguém sabia
para que servia
a bomba agá.
É para matar os velhos, disse o sr. situacionista,
mata tudo, até as pulgas, disse um tipo já gágá.

Incontroverso e oficial,
soube-se que Dona Isabel viria,
ela e o príncipe consorte,
a Portugal.
E que o Senhor General Craveiro
e Dona Berta 
iriam ao Brasil.
Não tudo ao mesmo tempo,
é bom de ver,
que o presidente existe para visitar
 e receber.

Contaram-se anedotas,
a propósito
de não ter para contar mais coisa alguma,
e nem se voltou a ouvir chiar
o tal Nkrumah.

"Libertemos África"!
Angola não fica na África, Angola fica em Portugal,
imbecil!!!


Português, fora de Portugal, só no Brasil,
onde vão Francisco e Berta,
almoçar, jantar, sorrir, dormir e suspirar,
e mais o que acontecer
para divertir.

Nesse tempo, Ana,
via-se o mundo da janela recatada a cortinados.
Passavam homens nas ruas,
falavam de coisas suas,
mas parados, mas calados.

E recordo quando naquele dia,
frio, de inverno,
em que fiz quinze anos,
a minha mãe,
de manhãzinha,
me deu num beijo o que tinha para dar,
que o meu pai enlaçou com um sorriso comedido.

Thursday, December 29, 2016

NOTÁVEL POUCO NOTADO

Em Maio deste ano, Portugal conseguiu, pela primeira vez no conjunto dos países desenvolvidos, produzir energia eléctrica durante quatro dias seguidos sem recurso a energias fósseis. 
A proeza faz parte de uma lista de "52 coisas que desconhecíamos quando começou 2016" publicada no El País. 

Primeiro parque de torres eólicas da EDP no Atlântico

"Un país desarrollado puede funcionar cuatro días seguidos solo con energía renovable. Lo hizo Portugal en mayo." Durante cuatro días de mayo, Portugal funcionó solo con la fuerza del viento, del agua y del sol, según el rastreo en la Red Eléctrica Nacional de Zero, la asociación del sistema terrestre sostenible.
Los cuatro días seguidos funcionando con energías no fósiles, ocurrieron entre las 6.45 del sábado 7 de mayo y las 17.45 del miércoles siguiente: 107 horas seguidos durante las cuales se abasteció la red eléctrica del país con fuentes naturales de energía y sin emisiones de carbono.
Es la primera vez que ocurre algo así en un país desarrollado, uno de los países europeos con más horas de sol, pero también con un bravío océano Atlántico que le ofrece olas y vientos para aprovechar. En Inglaterra y Alemania se dieron procesos parecidos, pero solo durante unas horas."


Wednesday, December 28, 2016

HISTÓRIA FRICCIONADA

“Pode sempre detectar-se um tolo: é o homem que diz conhecer qual é o candidato que vai ganhar uma determinada eleição. Porém, uma eleição é algo de vivo, poderá até dizer-se que não existe seja o que for mais vigorosamente vivo, com milhares e milhares de cérebros, pernas, olhos, pensamentos e desejos, que podem ziguezaguear, voltar-se e tomar direcções que ninguém previra, muitas vezes só pelo gozo de provar que os sabichões estavam enganados. Foi uma das coisas que aprendi no dia passado no Campo de Marte”. - aqui

Interessante, sem dúvida. 

Não sei, no entanto, se consistente com as fontes em que o autor encheu o pote com que cozinhou a sua novela.
A ficção sustentada em personalidades e factos históricos é apelativa, alcança lugares cimeiros nos rankings dos best sellers. Resumindo, num chavão comum "é o que está a dar". O sr. José Rodrigues dos Santos é, por agora, entre nós, o exemplo mais bem-sucedido na capacidade de engrolar a história. Ainda não alcançou a projecção mundial e os proveitos de um Dan Brown mas continua afanosamente a trabalhar para isso.
Não me agrada a História ficcionada porque nem é ficção nem é História mas uma forma de fazer fortuna distorcendo, porque inventando, uma história onde o leitor desprevenido é levado a absorver como realidade aquilo que não passa de ficção. 


Perguntar-me-á: Mas, por exemplo, Shakespeare não recorreu à História para construir a mais grandiosa obra da literatura ocidental? Recorreu, e não tão raramente traiu, mas a sua genialidade é tanta que são quase irrelevantes para o leitor ou expectador os nomes dos personagens. Podiam ser outros e não se perturbava a essência da obra. Para além disso, a literatura como a arte, ou é original ou não é arte nem literatura. Um fulano que hoje pinte como Degas pintava pode ser bem-sucedido (e muitos são) se o fizer como falsário. Se for suficientemente habilidoso mas honesto, assumindo a sua autoria, não venderá as obras que produza pelo preço que lhe custam as telas e as tintas. 

O último período do seu texto é exemplar desta forma insinuante de revisitar o passado e moldá-lo às recentes falhas estrondosas das previsões sobre o Brexit ou a eleição de Trump. 
Tirão, se escreveu o que Harris cita, deve ter, momentaneamente, esquecido que as votações na Roma Antiga dependiam mais da força das armas e do poder do dinheiro que da vontade manipulada pelas redes sociais da actualidade. 

Monday, December 26, 2016

A CABRA, DE RAUSCHENBERG

A quem possa interessar, fique sabendo que a Cabra, aliás "Monograma" (1955-1959)  de Rauschenberg "tem arsénio e uma perna partida" - aqui. 
Tem fragilidades mas pode viajar, segundo os peritos que a examinaram utilizando as mais sofisticadas técnicas habituais no exame de obras de arte antigas. 


Mais ou menos quando Rauschenberg andava a compor a sua cabra com o pneu à volta, a mim encantavam-me os cabrititos que a "Violeta" paria anualmente no começo da primavera.
Se, por premonição impossível,  tivesse, naquela altura, dito à "Violeta" que uma da sua espécie, mas de pelo mais comprido, e com um pneu à volta da cintura, seria um dia objecto de veneração artística, ela nem me ouviria de tão apressada que estava a chegar, de amojo cheio, até junto dos filhotes.
Mas ficaria intrigada por que irracionalidade vale muitíssimo mais, segundo os critérios dos que ditam o valor da arte humana, uma cabra empalhada, de focinho pintado, e com o pneu à volta, do que ela, viva e sôfrega para dar de mamar aos seus cabrititos.

É uma arte menor a arte da natureza?, terá perguntado a "Violeta" se bem entendi o seu bééé ...!bééé!...bééé! ....

Sunday, December 25, 2016

O AVÔ

Sentou-se o homem, à espera do autocarro das quatro, num dos blocos de cimento que resguardavam a entrada de automóveis a menos de uma dúzia de metros da igreja, e a olhar o espaço à volta começaram a desbobinar-se-lhe as imagens desbotadas pelo tempo, quando na estrada tangente  ao largo acanhado passavam menos automóveis que carros de bois. Agora, atrás de um vinha logo outro lá acima. Sem praga automobilística que ameaçasse quem desse uma salto para a estrada atrás da bola, aquele era um espaço disponível onde, ao fim da tarde, se juntava a miudagem da primária para o jogo com bola de meia. Faziam as equipas, por escolha alternada de quem comparecia, os dois melhores em campo. Os últimos escolhidos, defendiam as balizas definidas com os sapatos, que todos descalçavam por uma questão de princípios democráticos e de poupança do material.  
No espaço agora reduzido a pouco mais de metade, entretinha-se naquela tarde com uma bola de borracha um puto, quatro, cinco anos, fintando adversários que só ele via e rematando contra o muro, mais em jeito do que em força, não fosse a bola ao fazer ricochete escapar-se para a estrada.
Quando a bola veio por capricho ter com ele,  o homem devolveu-a ao pequeno jogador com o pé mais pronto e deteve nele um olhar demorado na tentativa de reconhecer na cara do pequeno  rapaz sinais de alguém do tempo em que o largo era todo deles.
Como te chamas?,
perguntou o homem ao garoto para início de conversa, mas não obteve resposta. O puto continuou entretido com os seus dribles e remates suaves, que interesse tem o meu nome, repara na minha técnica.
E o teu pai, como se chama o teu pai?
Nada, o puto não abria  boca. Esteve tentado  a fazer  um palpite, procurando no rosto do rapaz vestígios dos rostos dos que poderiam ser os dos avós dele, mas conteve-se para não errar, acertando. Tirar alguém pela pinta é arriscado porque há sempre quem não seja filho ou neto de quem lhe disseram que era.
Onde moras?
Respondeu-lhe o jogador com cara de quem não percebeu a pergunta, mas já era, em todo o caso, uma resposta.
Onde é a tua casa?
O puto parou por uns instante a bola debaixo do pé direito, olhou para a casa em frente, do outro lado da estrada, é aquela, disse no atirar brusco da cabeça que já informava o homem de alguma coisa mais.
E a tua mãe, como se chama?
Mas que te interessa a ti, desconhecido, o nome dela ou dele?, repara mas é neste domínio do esférico, respondeu o pequeno jogador com mais dribles e atirar para um golo de levantar um estádio. O homem bateu palmas, em resposta o rapaz redobrou as fintas aos defesas e atirou para o canto inferior da baliza, se atirasse demasiado por cima poderia ficar sem bola, para lá do muro havia um cão a guardar a propriedade vizinha. 
Estava a conversa entre o velho e o jovem neste nem digo nem nego, quando da porta entreaberta da igreja saiu uma mulher, encostando-a atrás de si.
São horas de ir para casa,
avisou a mulher sem que o aviso parasse os dribles e os remates sem defesa possível.
É seu filho?
Filho??? Era bom, era!
Sorriu a mulher entroncada, rosto redondo rosado,  cabelo claro, talvez pintado, comprido, amarrado atrás num carrapito farto, pelos cálculos do homem deve ser mais velha do que aparenta.
Não é mãe, é avó do imparável driblador. É, por assim dizer, a dona da igreja, a igreja está por conta dela ou ela por conta da igreja, não sei se vai dar ao mesmo, o padre, é de São Tomé veja bem, vem, normalmente, para a missa de domingo, cerca das onze, e, depois do vão em paz e que o Senhor vos acompanhe, abala para outra freguesia porque párocos há cada vez menos e paróquias mais ou menos as mesmas. Agora mesmo tinha ela acabado de limpar, arrumar e colocar nos sítios certos os precisos e os paramentos para a missa do galo. Que estava marcada para as dez, a falta de sacerdotes dá nisto, de ter de cantar o galo duas horas antes da meia noite.
A senhora é de cá?
Não senhor, sou russa, mas já cá estou há vinte anos.
Russa ... vinte anos ... não se lhe nota sotaque. Como é que veio cá parar?
Andanças da vida ... que levariam mais que uma noite inteira a contar ... Andei por muito lado aos baldões, compreende?, antes de dar à costa aqui. Em Lisboa juntei-me com um português, que era destes lados, tinha mais vinte anos que eu, faleceu há dois, ... foram os melhores da minha vida ... Com dezassete já tinha uma filha, que é mãe deste maroto ...
E o pai do miúdo é de cá?, perguntou o homem baixando a voz, mas era escusado bichanar porque a concentração requerida nas fintas aos defesas e os remates imparáveis à parede não davam para o puto ouvir, mesmo em tom alto, o que diziam os velhos um ao outro.
O pai dele é de cá, e não é ... Como é que posso explicar isto ... A minha filha é enfermeira, fez agora este mês quarenta e dois, casou e descasou duas vezes antes de emigrar para Inglaterra com um colega, manda notícias de vez em quando e algum dinheiro, e eu cá estou com o neto ... A mim, nunca ela me disse quem era o pai da criança. Insisti vezes sem conta, mas ela amarrou-se a um segredo insondável que não devia ser permitido, as crianças têm o direito de conhecer de quem são filhos, não lhe parece? Dizem para aí que o pai é um fulano de cá, metido em negócios da droga, desaparecido do mapa antes do puto nascer. Quanto a mim, o pai é um médico que trabalhou com ela no hospital, é casado, com filhos, muito conhecido no meio. Aí tem a história a correr rápido da minha vida.
Por instantes, interrompeu-se a conversa entre os velhos, alarmados por ver o jogador correr atrás da bola que se desviara para a estrada em resposta a um remate menos suave contra o muro. E foi nesse relance de corrida que o homem reconheceu, não o do pai, mas o jeito característico de correr do avô do rapaz. Calou consigo a descoberta. Que direito tinha ele de confirmar o que dizia o povo se à avó confortava convencer-se que o neto era filho de médico e não de um traficante de droga?
E o senhor? ... O que é que o faz estar aqui sentado a estas horas a apanhar frio?
Estou à espera da camioneta das quatro ...
Bem pode esperar sentado, porque esta tarde a camioneta não volta a passar ...
Não???
Pois não. No inverno, em vésperas de feriados e fins-de-semana a camioneta das quatro deixou de passar há muito tempo. Não tinha clientela que justificasse o retorno. E hoje é noite de Natal, as pessoas querem estar em casa com a família.
Posso chamar um táxi, não?
Vai para longe?
Ainda vou hoje para Lisboa.
Ui! Conta passar a noite de Natal no comboio?
Se não encontrar hotel por aqui para esta noite.
Hotel, aqui, não encontra mas pode encontrar hospedaria ali em frente. Cama e jantar. Tenho um frango a assar no forno, com batatinhas e cebolinhas. Ah! Temos também uma canjinha do frango para começar a aquecer. Agrada-lhe?  Depois às dez temos a missa do galo. É católico?
Sou crente. Creio que sou ignorante.
Eu era ortodoxa mas ninguém me perguntou por contas quando me propus tomar conta da limpeza e arranjo da igreja. Mas venha daí, vamos para casa, que começa a arrefecer e os anos não perdoam. Edu, vamos para dentro!
Eduardo?
Não, não, é mesmo Edu, só Edu. Não sei onde foi a mãe dele desencantar tal nome.

Avançou a mulher com o neto pela mão para atravessar a estrada, a olhar à esquerda e à direita, o homem,  a olhar a casa de alto a baixo, enquanto atravessava a estrada, sorriu-lhe.
Habitamos no piso de cima, é o único senão da casa, subir e descer escadas sempre que temos de vir cá abaixo. Quando comprámos a casa, comprámos ruínas. Aproveitaram-se as paredes exteriores e pouco mais. Deve ter estado abandonada durante muitos anos, talvez mais de trinta, disse-me um dia a vizinha que vivia do outro lado da rua.
Disse vivia, já não vive?
Ah não... Se ainda fosse viva, pelas minhas contas teria hoje mais de cem anos ... Ora cá estamos nós em cima. É puxado, hem! O frango deve estar pronto, ... as batatinhas ... prove lá esta mas sopre-lhe para não queimar a língua ... está cozida, não está?, bem me parecia. Começamos pela canjinha ... frango da capoeira ... temos uma capoeira ali atrás ... amanhã mostro-lhe. Lá em baixo ...
Lá em baixo foi em tempos uma adega ...
Como é que sabe?
Com uma porta larga deve ter sido porta de adega ...
Ah! É uma suposição?
Neste caso, é uma certeza. Nasci aqui.
Oh céus! Já poderia ter dito há mais tempo ...
Não tive oportunidade. Mas não se perdeu nada com o atraso, ou perdeu?
Não, não, de modo algum. Quando diz que nasceu aqui  quer dizer que nasceu aqui na aldeia, é isso?
Nesta aldeia, nasci aqui ...
Aqui mesmo?
Ali naquele canto, ao lado de onde agora construíram uma casa de banho. Antes, a casa tinha menos profundidade, a casa de banho era lá atrás, no quintal ...
Onde agora tenho as capoeiras?
Presumo que sim. O quintal não era assim tão grande e agora, com o alongamento da casa, é certamente mais pequeno.
Estou, como se diz por aqui, completamente banzada!
Não esteja. A casa é sua, o meu pai vendeu-a tinha eu doze anos, emigrou para França em 64, a minha mãe foi ter com ele dois anos depois levando-nos com ela, a mim, ao meu irmão e à minha irmã. Com algumas economias que juntaram compraram um apartamento na cidade, com melhores condições, vínhamos a Portugal todos os anos em Agosto, e por aqui a visitar os amigos. Depois os anos foram passando, esta casa ficou abandonada às agruras do tempo, um dia destes ainda compramos isto, dizia o Pai, custa-me ver a casa a desfazer-se ... e que fazemos depois? vens para cá? perguntava a Mãe, e o Pai não tinha resposta. Ficámos todos satisfeitos quando um dia, já lá vão muitos anos ...
Vinte?
Talvez vinte, sim, talvez vinte, encontrámos a casa recuperada. Ao meu Pai vieram-lhe as lágrimas aos olhos ... não porque a casa fosse de outrem mas porque alguém lhe tinha dado vida à casa ... ... ...
E o que é que fez vir até cá agora no começo do inverno? Tem casa em França, deduzo ...
Tenho um pequeno apartamento nos arredores de Paris ... Fui motorista de longo curso toda a vida, ainda trabalhei durante uns anos na Citroën, mas do que eu gostava era andar na estrada. Resultado, tive cinco filhos, quase um de dois em dois anos, um dia cheguei a casa tinha a mulher desaparecido para parte incerta ... fartou-se de tantas ausências... percebi ... um homem não deve andar muito tempo fora de casa, não é?
E agora?
Reformei-me, vivo sozinho, reunimos-nos todos os anos pelo Natal. Este ano lembraram-se os filhos de passar o Natal na neve, convidaram-me, insistiram, mas para que iria eu apanhar frio se o Natal para mim só é Natal junto à lareira? A saudade ou o instinto trouxe-me aqui este ano no inverno. Cheguei às dez no comboio, um quarto de hora depois desembarquei aqui. Percorri todos os caminhos da aldeia e quer acreditar que não encontrei ninguém conhecido? Noutros tempos a aldeia era uma alegria, rua abaixo, rua acima, bom dia, boa tarde, para toda a gente. Agora há mais casas arruinadas que com sinais de gente lá dentro.
O que há mais por aqui são velhas ... velhos também há, mas muito menos ... Está bom ou não está bom o franguinho?
Está excelente!
E a pinga?
Uma maravilha... O Edu ... saiu?
Parece-me que se escapou há pouco, talvez tenha ido à casa de banho. Edu! Edu! Edu! Não, na casa de banho não está, onde é que se terá metido o maroto numa casa tão pequena? Edu!!!!!! Vou lá abaixo ao rés-do-chão ...
...
Uf! estava no rés-do-chão, adivinhe a fazer o quê? Pois, é difícil adivinhar. No rés-do-chão temos uma sala ampla com lareira, televisão, essas coisas que não cabiam cá em cima. E um quarto para hóspedes. O Edu ganhou com o avô o gosto de olhar para o lume, passavam horas seguidas à lareira à conversa um com o outro. Ouviu-nos falar, foi colocar madeira na lareira ... de vez em quando apanho cá cada susto com as aventuras dele ...
Mas hoje parece muito calado, não lhe parece?
Quando não conhece as pessoas, é tímido, depois que ganha confiança não se cala. Comigo leva o dia a fazer perguntas, umas em cima das outras, sabe como é?, e depois, e depois, e porquê, e porquê ... agora quer que lhe explique como consegue descer o Pai Natal pela chaminé ... por cá ainda se mantém esse costume.
Edu, diz-me lá o que pediste que te traga  o Pai Natal esta noite? perguntou o homem.
O meu avô de volta..., respondeu sem hesitar o garoto.
Já viu no que estou metida? Como é que  me posso sair desta?  Bom, são quase dez horas, isto fica assim tal como está, arrumamos quando voltarmos ... E passaremos a meia noite à lareira. Depois voltamos para cima porque mesmo com a lareira acesa o quarto de hóspedes não é recomendável no inverno. Faz lá um frio ...

Hombrechtikon, 24 de Dezembro de 2016

Saturday, December 24, 2016

A MAIOR ESTÁTUA DO MUNDO

Está ou vai ser construída na metrópole urbana de Bombaim a estátua mais alta do mundo. Será uma enormidade de 192 metros de altura, duas vezes mais alta que a Estátua da Liberdade em Nova Iorque. Custará o equivalente a 507 milhões de euros e destina-se a glorificar nas alturas um governante hindu que no século XVII combateu a dinastia muçulmana e criou o seu próprio reino.- vd. aqui.

Mais ou menos por essa altura rebelavam-se com sucesso alguns fidalgos portugueses contra Filipe III de Espanha, e muitos anos mais tarde era erigida o monumento aos restauradores em Lisboa na Praça que passou a ter o mesmo nome. E, facto importante para grande parte dos portugueses, o dia da Restauração passou a ser feriado, mas poucos saberão porquê. Eliminado pelo anterior governo, o feriado foi este ano restaurado pelo actual.

O nacionalismo está de volta por toda a parte.
Com a aldeia global a crescer, os nacionalismos acabarão por dizimar parte da população da Aldeia se não acabarem mesmo com a espécie humana sobre a terra.

Resumindo : Na Índia, onde tantos milhões sobrevivem em condições infra humanas, vai ser erguida a maior estátua para glorificação da maior ameaça à existência da humanidade.

MARIANA E OS FUNDOS SEM FUNDO

Leio no Expresso que o BE vai voltar a propor na AR medidas que, intencionalmente, pretendem evitar que das manobras dos banqueiros voltem a resultar rombos infindáveis nos bolsos dos portugueses.
Mariana Mortágua afirma que o BE pretende, além do mais, impedir que os bancos vendam nos seus balcões títulos emitidos por entidades com os quais tenham, directa ou indirectamente, interesses patrimoniais ou relações financeiras interdependentes.
E que a venda de fundos de investimento seja limitada a áreas específicas para o assunto.
Quem pode discordar?

Mas Mariana esqueces-te de, pelo menos, exigir aos vendedores de fundos que assumam por escrito que sabem, sem quaisquer reservas, os ingredientes que compõem aquilo que estão incumbidos de vender.
A esmagadora maioria não sabe, disse-o em situação de aperto, na ressaca dos múltiplos escândalos financeiros que mos cairam em cima, um dirigente sindical bancário a propósito das informações que muitos bancários transmitiram aos seus clientes sem que eles próprios soubessem o que estavam a transmitir.

A venda de "produtos financeiros" traduzidos em participações nos (mal designados) fundos de investimento deveriam ser objecto de controlo e adstritos às consequências dos jogos de casino.
Quem joga sabe ao que vai, se perder não vem o Estado obrigar-nos a nós pagar o que o jogador de casino perdeu.

Estás muito "soft" Mariana.

Monday, December 19, 2016

O CÚMULO DO PRINCÍPIO DO POLITICAMENTE CORRECTO

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- ... sim, sim, mas a Justiça está a funcionar... Eu acredito na Justiça!

Sunday, December 18, 2016

O JOGO DA CABRA CEGA

"Luís Cunha Ribeiro, antigo presidente do INEM e da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, vai ficar em prisão preventiva. Em causa está o caso conhecido como “Máfia do Sangue”, que envolve um esquema ilícito de compra e venda de plasma sanguíneo".- aqui

A ouvir um programa da Sic Notícias, depreendo que as actividades da "Máfia do Sangue" vêm de longe, que Cunha Ribeiro foi nomeado, convidado, confirmado, ao longo da sua carreira por políticos do PS e do PSD, que muita gente sabia disto, que, para além da viciação dos concursos, os mafiosos cometiam o crime hediondo de mandar para o lixo as doações de sangue recebidas  para, deste modo, aumentar os volumes de compras de plasma à Octapharma.

E que Cunha Ribeiro neste caso - O negativo (o MP tem bons especialistas em títulos - é parte de uma quadrilha poliédrica que se alastra pelo menos à Operação Marquês e aos Vistos Gold, tendo nos vértices, além de vários outros, Lalanda de Castro, entretanto detido na Alemanha, representante da Octapharma,  Miguel Macedo, envolvido nos vistos Gold, e José Sócrates apanhado em tantos casos, ou em caso nenhum se no fim de tudo ninguém for apanhado por nada ficar demonstrado como a lei requer. 

Se assim for, como muito se receia que seja, ficarão para a história como geralmente bem apanhados os títulos dos casos dos passarões que o Ministério Público levanta mas depois erra a pontaria.
Acerta em passaritos.

Friday, December 16, 2016

O TRIUNFO DAS PIPOCAS


Ontem, ao fim da tarde, o trânsito arrastava-se pela Avenida Liberdade acima. É difícil perceber as vantagens das alterações introduzidas na rotunda do Marquês. 
Em frente do Cinema São Jorge, desfilaram na nossa memória as sessões de cinema, à tarde ou à noite, a ida ao cinema era mais do que isso, era uma oportunidade de convivência com amigos e conhecidos. Hoje, as salas de cinema são buracos, de assistência geralmente escassa e ensimesmada na ingestão de pipocas em multi sessões contínuas. 
- O que é que há agora no São Jorge?
Batemos a esta porta e ficámos a saber que, amanhã 17, há, para quem goste, o MEEDOOL, uma reunião de YouTubers. A entrada é barata: cinco paus. 
E mais não haverá até ao fim do ano.
Em 2017, ainda ninguém sabe o que irá acontecer, esclareceu-nos a bilheteira. O São Jorge não tem programação, anda à deriva. Pode acontecer um festival de cinema, da vodafone ou outro fone qualquer, um concerto, um não sei que mais, mas mais não sabia quem agora está a vender bilhetes para o MEETDOOL.  
O São Jorge é propriedade do município, adquirido no tempo em que o sr. João Soares, fugaz ministro da Cultura do actual governo, era presidente do município por promoção do titular à presidência da República. 
A sobrevivência do São Jorge está garantida, custe o que custar, mesmo que agora sirva para pouco ou quase nada.



Hoje, a Antena 1 informa-nos que Luís Miguel Cintra anunciou o encerramento definitivo da Cornucópia,  no próximo sábado, após 43 anos de actividade, "por respeito com o público". 
Há dias, - vd. aqui - informava João Lourenço os espectadores do Teatro Aberto que a Câmara (Emel) tinha passado a tarifário vermelho a zona de estacionamento junto ao teatro que dirige há muitos anos.


Nunca defendi que o teatro, enquanto arte cultural, deva depender de subsídios mas de contratos de prestação de serviços com objectivos a atingir e retribuições adequadas. O que também sempre tenho defendido, e defendo, neste canto escondido, é a obrigação das estações de rádio e televisão do Estado promoverem eficazmente ( e eles têm obrigação de saber como isso se faz) as actividades culturais e, nomeadamente, as das companhias de teatro com objectivos contratados com o ministério da Cultura.

Lê-se aqui : "A arte e a cultura estão no coração de Lisboa. Descubra tudo o que o Cinema São Jorge tem para lhe oferecer, com uma programação variada."
Não é verdade!
Uma inverdade que custa o que faltou na Cornucópia, por exemplo.

Thursday, December 15, 2016

IMPOTÊNCIAS DEMOCRÁTICAS


"No final do ano passado, o Sporting enfrentava uma situação complicada. Os 55 milhões de euros de Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis (VMOC) que tinham sido emitidos em 2011, e adquiridos em partes iguais pelo então BES e pelo Millenium BCP (cada um com mais de 27 milhões), iriam converter-se em acções da SAD sportinguista a 17 de Janeiro deste ano, caso o Sporting não os pagasse. Esse cenário não agradava nem ao clube, nem aos bancos. Por isso, foi acordada a extensão do empréstimo até 2026, com um aumento de 0,5 pontos nos juros, para 4%. Ou seja, a dívida continua nos bancos".


"O cidadão Francisco Calado Cordeiro indignou-se com aquilo que considera ter sido um "perdão de dívida" do Novo Banco aos leões – o processo é especialmente sensível porque a instituição foi recapitalizada com dinheiro público – e redigiu uma petição que recolheu mais de quatro mil assinaturas, requisito necessário para ser discutida no plenário da Assembleia da República. Os peticionários exigem que o Sporting pague "uma taxa de juro de mercado" ou que "recompre os instrumentos ao preço facial". A discussão está marcada para amanhã à tarde". - aqui



"O debate teve lugar esta tarde e, tal como se antecipava, o Parlamento nada vai fazer para intervir nessa operação. Porém, PCP e Bloco de Esquerda deixaram críticas à forma como a banca actua nestes processos. - aqui



Entretanto,

"O Sporting informou esta quinta-feira que vai ter de pagar 12 milhões de euros ao fundo de investimento Doyen, depois de o Supremo Tribunal da Suíça ter recusado o recurso interposto pelo clube da I Liga portuguesa de futebol". - aqui

O Sporting não é caso único!
Claro que não. Assaltantes dos contribuintes há mais que moscas. 
E na Assembleia da República, de uma ponta à outra do hemiciclo, desculpam-se os impotentes pilatitos.
A uma pequena ou média indústria teriam os bancos exigidos os avales pessoais dos sócios e dos cônjuges. Que, não raramente, perdem tudo o que investiram e o que não investiram no negócio.
Perguntas inocentes: 
Já alguma vez foram exigidas pelos bancos recapitalizados com capitais públicos garantias pessoais aos donos da bola?
Se nem a Assembleia da República nem o Governo podem contrariar estes desaforos com que, impunemente, nos assaltam os bolsos, quem pode por termo à prática destes assaltos? O sr. António Guterres, Secretário-Geral da ONU?