Friday, February 17, 2012

PRIVATIZEM A CAIXA!

Hoje são poucos aqueles que, insuspeitos de defender interesses próprios, discordam que o grande responsável pelo caos financeiro que continua a assolar algumas economias ocidentais (incluindo os EUA e o Reino Unido) decorreu, e continua a decorrer, de uma tara do sistema que continua por eliminar: o moral hazard. Tenho apontado isto neste bloco de notas e não é ensimesmamento meu: No começo de 2010, Ben Bernanke (citei aqui) em entrevista concedida à Time afirmava sem rodeios que o maior problema do sistema financeiro nos EUA era o "Too big to fail" o que, trocado por miúdos, significa que os banqueiros podem enveredar pelos caminhos mais arriscados porque, se falharem, os contribuintes serão chamados a pagar os seus erros. Se ganharem, ficam podres de ricos, sem obrigação de reposição dos ganhos feitos à custa das suas irresponsabilidades.

Até agora, continua tudo mais ou menos na mesma. E não é com mais regulação que a questão será solucionada. Para cada cláusula regulamentar há sempre um batalhão de advogados dispostos a inventar a sua ultrapassagem para cobrar os seus honorários. Insisto nisto: Separem a banca de depósitos e investimentos na economia real da banca de financiamento e promoção de operações meramente financeiras e deixem cair estas se elas não se aguentarem.

Em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos continua, incompreensivelmente a fazer o que sempre fez de algumas décadas a esta parte: comporta-se como um banco com um casino por parceiro. Financiou operações claramente especulativas, envolveu-se em guerras entre accionistas de outros bancos, geriu desastradamente esse mostrengo que dá pelo nome de BPN, que continua a fazer o que lhe apetece. Há dias, dizia o presidente da Caixa, quando anunciava os quase meio milhar de milhões de perdas em 2011 que isso se devia a imparidades não provisionadas anteriormente. Mas o seu antecessor é o actual chairman da mesma instituição e o antecessor do antecessor foi até agora presidente do banco onde se desenrolou uma guerra que a Caixa municiou, quando ele ali dava ordens. Agora sai de CEO e passa a presidente do Conselho de Supervisão (ou a mesma coisa com outro nome).

Quer dizer: O beneficío ao infractor prolonga-se para lá do suporte que os contribuintes  são obrigados a ajoujar se o banco dá de lado e premeia os principais responsáveis pelo tombo.

Mas o que me levou a escrever este apontamento não foi apenas a intenção de relembrar o tema.
O que me suscitou este apontamento foi uma das muitas dúvidas que não sei se alguém que me lê sabe a resposta. Uma, por exemplo, para não me alongar mais: As perdas brutais do BPN (cinco mil milhões?) são uma enormidade qualquer que seja o termo de comparação buscado neste país. Estão encostadas na Caixa e o presidente não as considera incobráveis porque tem a garantia do Estado (leia-se dos impostos dos contribuintes). O anterior já tinha dito o mesmo. Estão contadas nas contas do Estado?

Por mim a Caixa deveria ser vendida. Integralmente. Reconhecidamente não serve para nada e, no caso do BPN, serviu para permitir que o escândalo ainda fosse maior. Com o produto da venda o Estado entraria no capital dos bancos que precisam de cumprir os rácios requeridos, se os seus actuais accionistas o solicitassem. A entrada do Estado far-se-ia como accionista com acções privilegiadas, sem direito a voto mas com prioridade na atribuição de dividendo.

E aproveitem os 12 mil milhões destinados aquele fim para promover o crescimento económico. Há tanto que pode ser feito com pouco dinheiro e elevado retorno!

Thursday, February 16, 2012

POR 850 MIL EUROS


Um quadro de Paula Rego foi vendido ontem em Londres por um valor equivalente a 850 mil euros. O título em inglês, "Broken Promises" não identifica a fonte de inspiração: a ópera "Madame Butterfly", de Puccini, ao contrário de uma série de outras obras, algumas delas expostas na Casa das Histórias em Cascais (Rigoleto, Traviata, por exemplo) reproduzidas acima.


No mesmo leilão foi vendido "Retrato de Henrietta Moraes" de Francis Bacon por 25 milhões de euros


 
Coloco esta nota e não posso deixar de referir uma história contada aqui. Não deixem de a ler!

A crise, meus amigos, não chega para todos mas sobra demais para alguns

Wednesday, February 15, 2012

KRUG TRIPLE HONORIS CAUSA MAN

Dia 27 de Fevereiro é dia de Hat-trick em Portugal para Paul Krugman, segundo notícia publicada aqui.

O doutoramento será concedido pelas universidades de Lisboa, Técnica e Nova . O Nobel da Economia de 2008, que conhece Portugal desde que foi estudante no MIT, visita Lisboa na sequência da sua entrada para a Academia de Ciências de Lisboa como correspondente estrangeiro.

A mim parece-me bem: Como as coisas estão, dividir os encargos das cerimónias sairá mais barato para as universidades e menos fatigante para o triplo-doutorado, o que não deixará de pesar nas suas análises acerca do esforço deste povo que ele estima para se tornar mais parcimonioso e eficiente em época de crise galopante.

As políticas de austeridade adoptadas pela União Europeia (leia-se Alemanha), FMI e BCE para a solução da crise têm merecido repetidas críticas do Prof. Krugman, também neste caso muito sintonizado com as opiniões do Prof. Stiglitz. O tempo tem vindo, aparentemente, a dar-lhes razão. E digo aparentemente, porque nunca poderemos saber se a opção expansionista (se a Alemanha a consentisse) poderia resgatar as finanças e recuperar as economias mais fragilizadas e tonificar-lhe as suas fraquezas estruturais.

Realmente não sabemos nem uma coisa nem outra.
O Prof. Krugman e o Prof. Stiglitz têm sido incansáveis a repetir o erro europeu. Mas as suas abordagens macroeconómicas não consideram, geralmente, os micro-meandros de uma realidade atrofiada que não se resolve simplesmente com mais dinheiro.

Mas, a este respeito, também não tem sido relevante o contributo dos académicos que no dia 27 o vão aplaudir. 

Tuesday, February 14, 2012

AFINAL, A CORRUPÇÃO É COISA LEGAL EM PORTUGAL

Ouvi a notícia esta manhã na Antena 1 e pensei: devo ter ouvido mal.
Procurei confirmação em vários sites, e nada. Confirmava-se a minha confusão matinal. 
Até que uma crónica de João Cândido da Silva publicada aqui me sossegou a preocupação sobre a minha sanidade auditiviva mas me levantou outra preocupação não menos inquietante: a incapacidade galopante para entender minimamente algumas fitas a que somos obrigados a assistir no dia a dia.

Mas mais preocupante que as tais fitas é a ausência, neste caso, do ruído ensurdecedor com que os media costumam excitar o povão e vender os seus números em casos que, comparados com este, não valem um tostão furado, como se dizia no tempo da maria caxuxa. Definitivamente, se isto se confirma, se isto é mesmo a sério, se isto não é já alucinação esquizofrénica ou sonho divertido de uma noite perturbada, Portugal é, sem apelo nem agravo, um país onde a corrupção passará a estar protegida pela lei.

E, se assim for, não haverá corrupção em Portugal.

Se é legal, faça o favor de se servir! 1505 euros de cada vez, mas pode servir-se as vezes que quiser.

- Estou multado? Porquê, senhor guarda?
...
- E quanto é que vale a multazinha?
...
- Hum! Trezentos euros?
Que lhe parece se eu lhe oferecer um presente de cento e cinquenta, afinal o senhor prestou-me um serviço ao chamar-me a atenção para o meu excesso de velocidade, que punha a minha vida em risco, e esquecemos a multa?

---
Act- Afinal parece que houve erro: não serão 1505 euros (até o valor parecia bizarro) mas 150.
O documento ainda está em apreciação e parece que as ofertas recebidas devem ser declaradas.
Pagarão IRS?

Monday, February 13, 2012

A ECONOMIA DA FANTASIA

Atenas foi ontem assolada por um furacão de raiva e enlouquecimento. Derrubaram semáforos, destruíram as paragens dos autocarros, partiram as montras de lojas, espatifaram agências bancárias. Para quê?
Talvez para descontrairem.
Que os manifestantes tenham, despejado a sua fúria nas agências bancárias, compreende-se: foram os bancos que, lá como cá, importaram e distribuiram crédito movidos unicamente pelos estratosféricos rendimentos que os banqueiros embolsaram. Mas o resto destruído é mais um encargo debitado na conta dos gregos. A economia grega sustenta-se em grande medida dos serviços (77% em 2010)  com grande destaque para o turismo, e as imagens da destruição e do caos transmitidas em directo para todo o mundo não são convidativas para os turistas, sobretudo em tempos de crise.  

Segundo os relatórios do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a Grécia ocupava em 1999 a 23ª.posição no Índice de Desenvolvimento Humano, atrás da Itália (20ª) e da Espanha (21ª). Portugal estava na 28ª. Em termos de PIB/capita na Itália era de 22172 dólares PPC, isto é, em termos de paridade de poder de compra, em Espanha, 18079, na Grécia 15414, em Portugal 16064. O Índice de Desenvolvimento Humano era superior na Grécia ao de Portugal apesar de ser inversa posição em termos de PIB/cap porque era superior na Grécia o índice da esperança de vida (0,89) ao de Portugal (0,84). No índice da educação Portugal situava-se ligeiramente acima da Grécia: O,93 e 0,92, respectivamente. A Irlanda estava em 18º. lugar (PIB/cap - 25918) , a Islândia ocupava o primeiro lugar (PIB/cap - 36510), a China o 87º. (PIB/cap - 3617).

Doze anos depois, a Espanha caiu para a 23ª. posição (PIB/cap - 26508, a valores constantes de 2005), a Itália caiu para a 24ª (PIB/cap - 26484), a Grécia caiu para a 29ª (PIB/cap -23747), ultrapassando Portugal em PIB/cap (20573), que caiu para a 41ª. posição. A Islândia caiu para a 14ª. posição, (PIB/cap - 29354), a Irlanda subiu para a 7ª posição (PIB/cap - 29322), a China caiu para 101ª. mas o seu PIB/cap duplicou.

Os efeitos das políticas de austeridade ainda não estão reflectidos nos valores do relatório saído em Setembro do ano passado. Mas não é difícil prever que a Grécia observará um tombo histórico, que Portugal continuará a cair no ranking, eventualmente baixando de divisão (de Very High Human Development para High Human Development), a Espanha, de novo com índices de desemprego record não vai recuperar tão cedo, a Itália segue pelo mesmo caminho. A Irlanda vai sustentar-se porque é sustentável o seu modelo económico, ainda que a factura da dívida externa subsista em níveis elevadíssimos por muito tempo.

E tudo isto porque durante mais de uma década as economias foram embriagadas pelo crédito fácil e barato. Tudo isto porque a banca drogou grande parte das economias ocidentais, oferecendo em crédito o que a economia real não lhes podia pagar em salários. Tudo isto porque a economia da fantasia, do ipod, do ipad, do face book, do twitter, dos media, do showbiz, do futebol,  convenceu os atónitos espectadores que a produção real era secundária.

Há dias dizia-me um amigo meu que já tinha visitado 36 países mas, confessava, em muitos casos não lhe restam na memória quaisquer referências do que visitou. Só sabe que passou por lá. As pessoas passaram a coleccionar viagens ao estrangeiro com o objectivo primário de coleccionar.

Leio no Expresso desta semana que o patrão da low cost Ryanair elogiou a falência da Spanair, defendendo que tal permitirá a chegada de novas companhias aéreas com preços mais baixos e serviço mais eficiente... Em março de 2010, depois de o sindicato dos pilotos ter anunciado uma greve, a Ryanair perguntava: "Quem ainda precisa de pilotos da TAP?"   Três meses depois, ofereceu ao presidente da TAP um bilhete de viagem gratuito para que experimentasse "a eficiência e a pontualidade da companhia líder em tarifas baixas".
Que custos escondidos ou esquecidos  terão de ser pagos um dia mais tarde?

Com tanta deslocação, tanto entretenimento, tanta emoção à vista, quem é que se dá ao trabalho de trabalhar?

Sunday, February 12, 2012

CRIME E RECOMPENSA

A Caixa Geral de Depósitos é um manancial de escândalos visíveis.
O Expresso/Economia desta semana retoma um tema já conhecido: As administrações da Caixa emprestaram para operações meramente especulativas não só o dinheiro das poupanças de muitos portugueses mas também de crédito importado com que participaram no afundamento da solvência do País.

O caso conhecido relatado nesta edição do Expresso/Economia  intitula-se - Sem dinheiro, Fino quer que a CGD mantenha a Cimpor. O que, traduzido, significa que a Investifino, dona da Soares da Costa não tem dinheiro para recomprar os 9,6% da Cimpor que estão dados como garantia à Caixa até à data limite para o fazer: 16 de Fevereiro. Se o não fizer a Caixa pode vender as acções mas tem de conceder a opção ao grupo brasileiro Votorantim, já detentor de mais de 50% da cimenteira. 

É aqui que entra a troica: a pressão para que os bancos descartem as participações fora da actividade bancária é enorme mas essa pressão, ao que parece, não envolve esta participação de 9,6% na Cimpor.  A  hipótese de a Caixa continuar a deter os 9,6% da Cimpor é admissível pelos troicos.  

Independentemente, contudo, do que vier a ocorrer no futuro, é (deveria ter sido) inadmissível que a Caixa pudesse dedicar-se ao financiamento das guerras entre grupos industriais entregando fundos a umas partes que as outras, as que venderam e receberam, muito provavelmente fizeram emigrar para "offshores".
Mas também é muito possível que parte deles tenha retornado sobre a forma de empréstimos externos com que os bancos andaram a aquecer o endividamento do Estado, das empresas e das famílias portuguesas.

Quanto é que do endividamento externo é dinheiro português offshorizado? Alguém sabe?

Entretanto, os culpados da traição (se houver adjectivo mais adequado, emendo logo de seguida) foram principescamente bem pagos e promovidos.

Saturday, February 11, 2012

KRUG NON STOP MAN



Luis Aguiar-Conraria, dá conta aqui do seu espanto perante a prolixidade de Paul Krugman. Da leitura do comentário fico na dúvida se LA-C considera Krugman prolixo ou prolífico. No texto considera-o prolixo mas o conteúdo não aponta, suponho, nesse sentido.

"O que mais surpreende é ( ) Paul Krugman. Quem conhece os seus contributos para a profissão, que, merecidamente, lhe granjearam o Prémio Nobel, não pode deixar de ficar a espantado com a sua exuberância blogosférica. Krugman não larga o esférico. É tão prolixo que se torna complicado acompanhá-lo. Ontem, escreveu o seu primeiro post às 10h30m. Ainda não eram 11h da manhã e já escrevia a sua segunda entrada. A meio da tarde, sai-se com uma outra entrada, para, 12 minutos depois publicar uma nova. Ainda não tinham passado 25 minutos e já tinha algo de novo a dizer ao mundo. 7 minutos depois escreve uma nota metodológica. Logo a seguir ao jantar, às 6h20 – nos EUA janta-se cedo – deixou mais uma entrada, esta de índole musical.

Isto foi ontem. Hoje, sábado, às 8h da manhã, já tinha uma nova entrada, com três gráficos. Aqui, em Portugal continental, pouco passa das 2h da tarde, dado que lá são menos 5 horas, Krugman ainda terá tempo para mais 5 ou 6 entradas, que isto de fins-de-semana é para tenrinhos."
 
Comentei:
 
Comungo há muito tempo do seu espanto.
Tanto quanto me espanta a escassa presença dos académicos portugueses na discussão dos problemas com que Portugal se confronta.

Há, é certo, alguns artigos publicados em jornais, entrevistas ou participações em mesas redondas televisionadas. Mas que, frequentemente, não passam de afirmações redondas e não quantificadas.
Os blogs portugueses pretensamente vocacionados para a discussão de questões económicas e financeiras não suscitam, não sei porquê, o contraditório dos seus pares ou ... dos seus impares.
O "The Portuguese Economy", redigido em inglês, não cativou até hoje comentadores estrangeiros em número que justifique a opção pela língua inglesa. Salvo melhor opinião.
O último artigo, que considero muito bem estruturado (e merecedor de contributos porque nada neste domínio é definitivo nem cientificamente exacto), grangeou dois comentários: "very good", "very good". E já lá vão cinco dias.

Mas o deserto alarga-se a outros blogs mais ou menos conhecidos catalogados como "económicos".
É certo que um blog não é um tratado, "um paper", é uma coisa tão leve quanto possível.
Krugman, para além de prolífico, atrai os comentários de gente que, geralmente, discute num plano equivalente. Nem sempre, é verdade, e ele já tem tentado espantar os menos bem intencionados.
Por outro lado, penso que Krugman é, mais do que Krugman, um grupo que krugminiano que lhe facilita a recolha de dados e realiza pesquisas orientadas por ele.
Não é possível nada de semelhante nas faculdades de economia portuguesas?

ACERCA DA FRAGILIDADE DA CONDIÇÃO HUMANA


"The Iron Lady" não é um filme sobre o thatcherismo, enquanto modo de governo decalcado do receituário da escola neo-liberal, porque são escassas as cenas registadas com esse propósito. Mas também não é, essencialmente, um filme sobre o carácter, como já li algures. Ainda que o realizador dedique uma parte significativa da rodagem do filme à reconstituição de uma personalidade ímpar na história contemporânea,  dominadora, inflexível, determinada até ao ponto de ridicularizar os seus ministros, e ficar só, vi o filme de outro modo.

Em grande parte do filme, se não a maior parte, o realizador regista a vida de uma Thatcher que o público não conhecia, reclusa em casa, enredada nas alucinações com que a doença de Alzheimer a atormentam e lhe rebobinam o passado. É, neste sentido, um filme cruel. 

O realizador confronta-nos a imagem, admirada ou odiada, de uma personalidade que, para o bem ou para o mal, de parceria com Reagan, outra figura desfeita pela Alzheimer, alterou o mundo, com a destruição progressiva e irreversível de tudo o que nela tinha sido diferente. 

O filme vale a pena ser visto, muito sobretudo por mais uma interpretação notável de Meryl Streep

Friday, February 10, 2012

TOLERÂNCIA DO INTOLERÁVEL


Sou suspeito.
Não gosto da Caixa Geral de Depósitos por razões antigas que, espero, um dia destes ter a pachorra suficiente para rememorar aqui.  
Não gosto da Caixa também pela untuosidade do edifício que Arsénio Cordeiro concebeu à imagem do palácio de Ceausescu, num tempo, estava-se em 1981, era primeiro-ministro Pinto Balsemão, em que uma tal decisão veio a redundar numa obra faraónica num país insolvente - dois anos depois negociava-se o primeiro acordo com o FMI. A construção da enormidade foi iniciada em finais de 1987.
André Cordeiro, reconheça-se, conseguiu traduzir naquela estupidez de cimento armado a essência de uma instituição enormemente irresponsável. 


- Porquê?
- Ora, porquê, porque teve  de contabilizar imparidades: dos empréstimos feitos ao Berardo e a outros compinhas, garantidos pelas acções do BCP que agora estão abaixo de tostão.
- Tinham os administradores da Caixa permissão para fazer isto?
- Não só tinham como, muito provavelmente, foram persuadidos, digamos assim, a fazê-lo.
- Persuadidos por quem?
- Ora por quem. Pelo poder político da altura. Não?
- Hum! E por que razão não executa a Caixa as garantias se os empréstimos não foram pagos?
- Francamente, em que mundo vives? A Caixa, e os outros bancos, executam as garantias dadas por quem comprou habitação e caiu no desemprego, por exemplo. A caça grossa dorme com eles.
Ontem recebiam ordens do outro governo, agora recebem deste. 
- E sempre bem pagos ...
- E sempre excepcionalmente bem pagos. Excepcionalmente, porque estão numa actividade concorrencial. Dizem.
- O pagode põe o dinheiro na Caixa porque sempre pôs, porque a Caixa tem caderneta, porque a Caixa é do Estado, a Caixa é segura, a Caixa não vai à bancarrota, e a Caixa empresta a massa para fins especulativos, aceita as acções como garantia aos preços da altura, as cotações vão à viola, os empréstimos não são pagos, a Caixa regista prejuízos, pede ao Estado reforço de capitais para recompor os rácios, e o pagode paga as contas todas porque, carago!, o Estado somos nós.
- Nem todos. 

Ao mesmo tempo que acontecem coisas destas e outras parecidas, o assunto do dia continua a ser a intolerância de ponto na terça-feira de Carnaval.   

Thursday, February 09, 2012

AO ATAQUE

Ouvi a entrevista dada por Aguiar-Branco à Sic Notícias a propósito da carta aberta enviada pela Associação de Oficiais das Forças Armadas na sequência das declarações do ministro da Defesa sobre a dispensabilidade daqueles que não se encontrem confortáveis com a carreira profissional que escolheram. Antes daquela entrevista tinha passado uma declaração do Bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, criticando a  posição do ministro.

Aguiar-Branco esteve bem nas respostas às questões colocadas pela entrevistadora e foi convincente: As Forças Armadas Portuguesas não são sustentáveis sem reformas de fundo. Há escolas militares a mais, há hospitais militares a mais, há muita coisa que consome o dinheiro disponível sem enquadramento numa política de defesa consequente com as exigências actuais. Os militares reclamam as promoções a que tradicionalmente têm direito mas esse direito só pode ser satisfeito se forem cortadas despesas que deixaram de fazer sentido. Em resumo: O dinheiro disponível é pouco, é muito menos do que tem sido gasto até aqui.

Mas, independentemente das escassez de dinheiro, e muito mais relevante que essa questão, está a necessidade de inteira reformulação de uma política que se adeque às exigências de defesa da soberania do Estado num mundo em evolução tecnológica num grau sem precedentes na história. Não é preciso ter conhecimentos das profissões castrenses para perceber que umas forças armadas envolvendo 40 mil homens estão sobredimensionadas em número de meios humanos para as missões em que Portugal participa ou venha a participar. 

Aguiar-Branco não podia ser mais claro. 

Evidentemente, a problemática da defesa deveria ser uma das áreas em que a União Europeia se deveria unificar. Ninguém levanta a questão por razões de preconceitos nacionalistas serôdios mas, como já mais de uma vez referi neste bloco de notas, enquanto não houver união de facto nos  requisitos elementares de uma união efectiva - Moeda, Orçamento, Representação Externa, Defesa - consagrada pelo voto democrático, a União Europeia desmoronar-se-á mais tarde ou mais cedo. E, ai do europeus, se nessa altura as forças armadas dos seus ex-membros intervierem umas contra as outras.

Mas isto, evidentemente, Aguiar-Branco não disse.

Wednesday, February 08, 2012

O ERRO DE PASSOS COELHO

Em tempos de austeridade a sensibilidade anda mais à flor da pele. Passos Coelho deveria saber isso tanto mais que ainda não se calaram as críticas generalizadas feitas a Cavaco Silva a propósito das declarações sobre as suas pensões e despesas. Pedir aos portugueses que sejam menos piegas é uma a afirmação desastrada nos tempos que correm por mais voltas que se lhes dê. Trata-se de uma afirmação que, facilmente retirada do contexto, se sobrepõe a tudo o resto e destrói o melhor estruturado dos discursos. Mas este está longe de ser o maior erro de Passos Coelho.
.
Passos Coelho não dispõe, e esse é o seu erro primordial, de uma maioria de apoio bastante para suportar a execução de uma política que durante os próximos anos será incontornavelmente impopular. Desde há muito que venho insistindo que o governo de gestão das imposições da troica deveria integrar todos os seus aderentes e, muito naturalmente, o partido do governo que o subscreveu em nome da República: o PS.
Passos Coelho não entendeu assim, prosseguindo aliás a posição de autosuficiência do seu antecessor, e os resultados começam a estar à vista.

As fracturas começam a desenhar-se cada vez com mais nitidez por mais que se desvalorizem as aparências.
Mesmo dentro do seu próprio partido, Passos Coelho começa a enfrentar uma contestação cada vez mais evidente, mesmo nos indícios aparentemente menos relevantes.

A propósito da não tolerência de ponto no Carnaval, uma decisão que me parece muito pertinente, é crescente o número de Câmaras que estão a decidir-se pela continuidade desse bónus de férias ao pessoal.
Para além daquelas onde o Carnaval é cartaz turístico local (Torres Vedras, Loulé, Ovar, e não sei se mais alguma) decidiram-se pela tolerância de ponto outros municípios onde o Carnaval nem sequer é arremedo importado do Carnaval brasileiro. Lisboa e Porto são os mais significativos.

Rui Rio tem até agora apoiado, com uma ou outra reserva tornada pública, o governo actual. Já António Costa é, obviamente, opositor do actual governo. Se, também neste caso, é entendível sem dificuldade a oposição de Costa já é menos perceptível a oposição de Rui Rio, que, inesperadamente, se revelou um português piegas.

Dentro do próprio governo, Paulo Portas, que não costuma desalinhar-se das posições dos governos de que faz parte, reagiu à polémica declaração do primeiro ministro, dizendo que os portugueses devem ser bem tratados porque estão a enfrentar o desafio da crise. 

Passos tinha afirmado, a propósito das declarações de Cavaco Silva quanto a pensões e despesas suas, que o Presidente da República estava sujeito às vicissitudes da crise como qualquer outro cidadão. Por outras palavras: deixa-te de pieguices, Aníbal!

Deixa-te de autosuficiência, Pedro: A crise desmorona-te a base de apoio, mais tarde ou mais cedo. Se não a alargas mas a estreitas com desabafos impopulares, cais mais cedo que o previsto.

Tuesday, February 07, 2012

LANHAS

Ontem registei a morte de Antoni Tàpies.
Fernando Lanhas faleceu no Sábado, também com 88 anos.
Não teve a projecção internacional de Tàpies mas foi um grande artista.

POR 250 MILHÕES DE DÓLARES

Há cerca de um ano referi-me aqui ao quadro de Cézanne que vi pela primeira vez, em Lisboa, durante a exposição promovida pela Gulbenkian, ainda na antiga Feira das Indústrias - Um Século de Pintura Francesa (1850 - 1950).

Cézanne pintou cinco quadros sobre o mesmo tema. Um deles é hoje notícia por estabelecer um novo recorde no mundo da arte. Foi adquirido para o Qatar por (supõe-se) 250 milhões de dolares, qualquer coisa como 190 milhões de euros.

vd aqui

AS TÁBUAS DA AUSTERIDADE


Os britânicos não gostam de Angela Merkel. O Economist ou o Financial Times também não.
O editorial publicado na edição desta semana do Economist - Angela the lawgiver - resume muito do que a maioria dos colunistas das duas publicações centradas na política e nos negócios  mais lidas em todo o mundo vêm escrevendo durante os últimos meses.

O subtítulo do artigo - A pact to cut budget deficits is achieved at the cost of a growing democratic deficit - sintetiza as vulnerabilidades de uma política aceite por 25 membros da UE - britânicos e checos recusaram - que acredita na redenção dos aflitos através das leis de austeridade impostas pelos desígnios de Merkel.

Na realidade, dos 25 que subscreveram mais um acordo, são cinco ou seis os principais visados e, mesmo de entre estes, as situações de fragilidade, e portanto de subordinação aos diktats de Merkel, têm graduações muito variáveis. A Grécia é o caso mais flagrante da prescrição mais pesada e, consequentemente, da subordinação mais humilhante. Depois da ruptura das negociações na semana passada até onde serão possíveis os compromissos que estão a ser tentados esta semana?

Ninguém sabe, mas todos esperam que a Grécia não seja colocada borda fora. O Economist, declaradamente uma publicação de pendor liberal, dedicou a capa de  várias edições nos últimos anos à importância da continuidade do euro e da União Europeia e criticou Cameron pelo seu afastamento do grupo fundamental da União. Não acredita no sucesso da política de austeridade e critica a falta de democraticidade na organização política e tomada de decisões da União. Mas não vai além disso.

Várias vezes tenho referido neste bloco de notas aquilo que continua ausente nas discussões públicas: A Grécia, para além de ser membro da UE é membro da NATO. Putin afirmava ontem que a NATO é completamente desnecessária, opõe-se à intervenção na Síria, opõe-se ao embargo ao Irão. Os dirigentes chineses alinham com ele. O governo húngaro admira-o. Se a Grécia tomba o desmoronamento da UE a leste é uma questão de tempo. Putin espera para recompor as peças que lhe saltaram do puzzle. 

Há falta de democraticidade na UE porque não há um governo mínimo legitimado pelos europeus. Há imposições de austeridade que não são digeríveis em tempo tão curto. Mas há sobretudo uma falta de perspectiva que garanta a perenidade da União Europeia a longo prazo e a sua presença como interveniente de topo num mundo irreversívelmente global. Há navegação costeira que não se apercebe dos submarinos imersos ao largo.

Saltando do barco, o Reino Unido não será menos responsável nem menos atingido pelo fim da União Europeia do que aqueles que, por enquanto, permanecem a bordo.
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Correl . - João Salgueiro acredita que Portugal poderá estar perto de um "período de grande expansão"
Oxalá acerte!

TÀPIES

Antoni Tàpies morreu ontem, com 88 anos.

Como diria o Miguel, "Não é o meu favorito!"


Monday, February 06, 2012

O PAÍS DO CARNAVAL

Foi o título do primeiro romance Jorge Amado, escrito em 1931.
Paulo Rigger é o principal personagem, um intelectual que, tendo viajado pela Europa, considerava que a mistura das raças era a causa do atraso do seu país e o Carnaval o impulsionador daquela mistura. Desiludido, acaba por voltar para a Europa embalado nos seus preconceitos racistas. 

Oito décadas depois, o primeiro-ministro de Portugal decide não conceder tolerância de ponto na terça-feira de Carnaval e impedir a construção da ponte carnavalesca que começa em sábado de entrudo, continua no domingo gordo e só acaba, quando acaba, em quarta-feira de cinzas. Um desastre, segundo a conceituada opinião de vários opinadores, porque o Carnaval é tradição popular e as tradições são para se manter. Será Passos Coelho um Paulo Rigger reencarnado? É pouco provável porque a Passos Coelho, comprovadamente, os fantasmas da miscigenação não o apoquentam.

Argumenta Passos Coelho, com muita razão, que se, numa altura em que o Governo e a Igreja se entendem para retirar dois feriados civis e dois religiosos do calendário, seria incongruente que se consagrasse como feriado aquilo que não tem sido: a terça-feira de Carnaval. 

Argumentam os críticos que, além do mais, a decisão foi tomada muito em cima do acontecimento quando os municípios com carnavais ensaiados e prontos para desfilar esperavam milhares de reinadios. E que o desacerto da decisão vai ser provado com a desobediência dos foliões. Veremos. Em todo o caso, a não tolerância do ponto não impede que, aqueles que queiram ir onde esperavam ir utilizem uns dias das suas férias, consoante a dimensão da ponte carnavalesca desejada.

Quanto a tradições carnavalescas, a maior parte delas são importadas do Brasil. 
É muito provável que o Entrudo tenha sido levado para o Brasil pelos portugueses mas dos jogos de entrudo do sec. XVI já não há vestígios nos sumptuosos corsos do Rio. Para grande desgosto de Paulo Rigger, a mestiçagem tomou conta dos sambódromos. E, como o calor aperta e convida ao relaxe, descobrem-se e bamboleiam-se os corpos até a um ponto que Rigger jamais poderia imaginar.

E em Portugal?
Em Portugal, a tradição carnavalesca passou a importar-se do Brasil: Convidam-se estrelas das telenovelas para cabeças de cartaz, tiritam de frio meios despidas os que desfilam, a fazer o melhor que sabem e podem ao som do samba, que, sem calor, está muito longe de ser a mesma coisa.

Há alguns anos assisti a um desfile carnavalesco entre a Figueira e Buarcos. Fazia o frio do costume.
Alguém se lembrou de acompanhar musicalmente o desfile com fados!
Rebolavam as raparigas as nádegas, o bronzeado do Verão já descolorido,  ao som do "Ai Mouraria"
Não sei se a experiência teve continuidade. Era deprimente mas tinha meia tradição, não?

Sunday, February 05, 2012

QUEM NÃO SABE, ENSINA

"A bolsa não é um jogo de casino. Ganhar dinheiro no mercado de capitais não é uma questão de sorte mas sim de conhecimento.", lê-se no Expresso/Economia de ontem.
José Neves Adelino, professor de finanças da Universidade Nova de Lisboa, deve ser um homem muito rico. Disse ele, num almoço no PABE com outros comensais ilustres, que "a literacia financeira em Portugal é muito baixa e uma iniciativa como o GIC (Global Investment Challenge) leva as pessoas a perceberem o mundo em que vivem."  Segundo a notícia, o professor deixou também alguns conselhos aos participantes do GIC  e a quem investe na bolsa.

Neves Adelino é tido como um respeitável professor de finanças mas não são conhecidos sucessos seus na bolsa que o tenham tornado o George Soros português. Aliás, Neves Adelino, como tantos outros que ganham a vida a prescrever receitas para o sucesso, continua como prescritor porque é incapaz de concretizar em proveito próprio os conselhos que distribui aos outros. 

É preciso ter muito cuidado com analistas e assessores financeiros. É por demais evidente que o que eles dizem ou são palpites ou sugestões requentadas. Se o sucesso na bolsa dependesse sobretudo do "conhecimento dos mecanismos da bolsa, de informações sobre as empresas*, sectores e economia e fazer escolhas ponderadas e não do instinto", analistas e assessores financeiros não seriam isso mas multimilionários ocupados exclusivamente com a gestão dos seus portfólios, e mandavam o resto às urtigas.

Antes da era "internet", da facilidade do copy/paste, coleccionava uma ou outra fotocópia de artigos publicados com o objectivo de lhe testar mais tarde a perdurabilidade da consistência dos conteúdos.  
Há dias, andava à procura de uns papeis e tropecei num desses artigos fotocopiados há uns anos atrás.

Foi publicado a 6/9/1999 no Diário Económico e intitulava-se "Vem aí a década de ouro das acções europeias. A próxima década vai ser de ouro para as acções europeias, depois de nos anos 80 terem sido os asiáticos a brilhar e, nos anos 90, os Estados Unidos terem desempenhado esse papel".

O autor, Mark Howdle, era, na altura, economista sénior da Schroder Solomon Smith Barney, tinha produzido uma projecção para a evolução dos mercados nos primeiros dez anos do milénio mas realçava que a futurologia é marcadamente um jogo de sorte e azar, e por isso é que muita gente se afasta desse exercício.

Mark Howdle abandonou o cargo de responsável pela estratégia do Citigroup para a Europa em 2002, segundo notícia que agora encontrei aqui, e voltou como professor à Universidade de Cambridge, onde se tinha doutorado.

Quem sabe fazer, faz. Mark Howdle preferiu voltar a ensinar.
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* Admito que não inclui o conhecimento por "insider trading" 

Saturday, February 04, 2012

O JOGO DOS BANCOS

Os principais bancos portugueses registaram o ano passado prejuízos significativos, um facto tanto mais relevante quanto ocorre pela primeira vez depois das privatizações da banca há duas décadas atrás: o BCP teve prejuízos de 786 milhões de euros, o BES perdeu 108, 8 milhões, o BPI perdeu 204 milhões, o Santander Totta teve lucros de 64, 1 milhões, a A Caixa Geral de Depósitos ainda não fechou as contas mas, segundo declarações do seu presidente, os resultados serão afectados pela evolução negativa do mercado de capitais.

As razões mais invocadas pelo BCP e BPI  centram-se nos incumprimentos da dívida soberana grega e na entrega ao Estado dos seus fundos de pensões. Razões que merecem ser apreciadas.

Primeira - Como é que se compreende que bancos portugueses tenham enveredado por uma aventura de adquirir dívida soberana de um país que eles não podia desconhecer se encontrar endividado até ao cocuruto? A resposta é simples: Como todos os banqueiros, contaram com a rede do "moral hazard", isto é, a Grécia não vai deixar de pagar a dívida porque, em última instância, pagam os contribuintes gregos. Enganaram-se?  Não. Agora que a Grécia está impossibilitada de pagar porque a carga deitou o burro abaixo, são chamados os contribuintes portugueses a servir de calço aos desequilíbrios dos banqueiros portugueses apanhados pelo tombo do asno.

Segundo - Não foi a transferência dos fundos de pensões dos bancos para o Estado que determinou parte dos prejuízos registados. Se as responsabilidades com os fundos de pensões estivessem provisionadas como deviam, a transferência teria um reflexo nulo no balanço: os activos transferidos seriam equivalentes às responsabilidades endossadas.

Quanto à Caixa Geral de Depósitos, já se sabe: segue a manada e pisa o que a manada deixa pelo caminho.
 
Insisto: Enquanto não forem retirados aos bancos os alvarás para jogos de casino não haverá regulamento que impeça a continuação do jogo iníquo: a banca ganha sempre, uns jogadores ganham outros perdem, mas quem mais perde é quem não joga - os contribuintes.

Friday, February 03, 2012

PRIVATIZEM O MINISTÉRIO PÚBLICO

Mais uma rodada no Jogo da Cabra Cega.

É um jogo repetitivo, monótono, previsível.
Mas caro.
O Ministério Público acusa, os processos arrastam-se, até ao dia em que o Juiz procede como é da praxe: absolve ou condena com pena suspensa. Ninguém vai preso. Ninguém devolve o dinheiro, qualificadamente burlado, segundo o MP. As custas são de conta dos contribuintes. Sou também eu, que nada tenho a ver com o assunto, convocado a pagar as despesas da paródia.
É um jogo revoltante a que estamos condenados a assistir, e pagar. 

O mestre cerimónias desta encenação é, segundo ele, a raínha da nossa inglaterra. Compete-lhe sentar-se e assistir ao jogo sem interferir nas jogadas. Os senhores magistrados do Ministério Público são independentes, gozam do direito de inimputabilidade e, se acusam sem fundamento, ou são incapazes de defender os fundamentos que eles próprios juntaram aos processos, não perdem o lugar nem a clientela.

Contrariamente aos advogados que são pagos para ganharem as causas, os magistrados do MP ganham para acusar e o resto seja o que os senhores juízes sentenciarem. Não prestam contas nem a clientes nem aos contribuintes. Levantam a poeira e aguardam que a poeira pouse.

Quantos processos graúdos, daqueles que alimentam a gula insaciável dos media, terminaram com a condenação efectiva dos acusados pelo Ministério Público? Alguém se recorda de algum? Pois não.

É tempo deste governo avançar para a privatização do Ministério Público.

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O Tribunal de Gondomar absolveu nesta quinta-feira o presidente da câmara local, Valentim Loureiro, que estava acusado por burla qualificada no âmbito de um processo relacionado com o negócio milionário da Quinta do Ambrósio. O Tribunal de Gondomar considerou não estarem reunidas todas as provas desse crime.

Já os restantes arguidos, José Luís Oliveira, vice-presidente da autarquia, Jorge Loureiro, filho do Major e Laureano Gonçalves, advogado fiscalista foram condenados a uma pena de um ano e dez meses de prisão suspensa na sua execução por branqueamento de capitais.

António Ramos Neves, advogado, foi condenado a um ano e seis meses de prisão suspensa também por branqueamento de capitais.

Valentim Loureiro estava acusado de um crime de burla qualificada em co-autoria no caso da Quinta do Ambrósio.

Em causa está uma operação de compra e venda de um terreno (a chamada Quinta do Ambrósio) que, no espaço de seis dias, deixou de ser do domínio da RAN (Reserva Agrícola Nacional) e passou a ter capacidade construtiva, quadruplicando o seu valor patrimonial.

Pela venda do terreno, a proprietária, Ludovina Prata, recebeu 1,072 milhões de euros e, menos de um ano depois, o terreno veio a ser comprado pela STCP, SA (Serviços de Transportes Colectivos do Porto) por quatro milhões de euros. O negócio, segundo a acusação, terá rendido aos arguidos cerca de três milhões.

Thursday, February 02, 2012

GARANTIAS NENHUMAS

Haver ou não haver um segundo resgate tem sido dos temas que mais tem rendido aos media em termos de espaço ocupado nos últimos tempos. Existe excesso de capacidade instalada nos media e esse excesso procura sofregamente assuntos que o sustentem, daí a insistência ad nauseam com que alguns temas são repisados. A questão do segundo resgate financeiro presta-se às mil maravilhas para esse chuchar do osso até ao tutano:  os media, com particular destaque para os comentadores e analistas de esquerda, defendem que ninguém nos livra dele; o governo faz o que não pode deixar de fazer, insiste no cumprimento do memorando da troica e depois se  verá. Curiosamente, são sobretudo aqueles que mais protestam a nossa submissão ao dictate estrangeiro que defendem mais veementemente a inevitabilidade de um segundo resgate que, implicitamente, implicará um segundo aperto. 

Ontem , o senhor ministro Relvas, em declarações prestadas à Antena 1, garantiu que Portugal não vai pedir um segundo resgate financeiro. Calou com essa garantia os media? Não calou. Nem o ministro Relvas pode garantir o que disse garantir nem os media papam garantias que lhes saquem o tema.

Se o ministro Relvas se tivesse contido dentro dos termos em que o governo (primeiro ministro e ministro das finanças) têm limitado a questão, o assunto não seria encerrado mas também não seria espevitado. Com as garantias de Relvas, mais tarde ou mais cedo o governo será confrontado com elas.

Porque se é quase inevitável um segundo resgate o que é que ganha o País com esta discussão inconsequente? Nada. A comparação desta obstinação do actual governo com a do governo anterior, que protelou o reconhecimento das nossas incapacidades para nos safarmos apenas com maios próprios e com isso prejudicou o País, não faz sentido. Hoje existe um contrato que, até ao seu termo, define as condições do financiamento externo.

Mas garantir o ingarantível é pouco sério, senhor ministro Relvas.

Wednesday, February 01, 2012

O JOGO DA CABRA CEGA


O Ministério Público, de acordo com uma nota publicada no site da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, vai recorrer da parte do despacho relativa à não emissão do mandado de detenção - detenção essa que o seu representante no tribunal de Oeiras pediu pela terceira vez na quinta-feira passada.

"Por ora", porquê?
Ora, ora,
são insondáveis, a qualquer hora, os desígnios da justiça portuguesa.

Já agora,
Isaltino investigado por (outro) crime de fraude fiscal (act. hoje 2/2)

UMA LUZ AO PRINCÍPIO DO TÚNEL

"Alô a todos! Para dizer que a Rosa tem um dentinho!
Também começou a "gatinhar" na semana passada!"
 
Setenta anos! Quantos anos são setenta contados pelos registos ainda não apagados dos ficheiros?  A Rosa não vai recordar-se deste incómodo da alegria do primeiro dente nem do contentamento inocente de ter chegado além pela primeira vez. Contar-lhe-ão como foi  e esse registo será mais ou menos perdurável consoante a densidade da gravação na memória que o acto de contar lhe transmitiu. Qual a mais longínqua recordação que perdurará até aos setenta anos? Improvavelmente, o registo de ter ouvido contar o acontecimento do seu primeiro dente e das suas primeiras braçadas em seco.

*
- E se ele acorda antes de chegarmos?
- Não acorda. Antes das nove estamos de volta.
- Das nove?!! 
- Talvez mais cedo até. Não leva mais que três horas. E tu podes voltar mais cedo.
- E se o levasse?
- Acordava. É melhor deixá-lo dormir.   

Ele não podia ter ouvido isto, estava a dormir, mas é bem provável que este tenha sido o diálogo às cinco e meia de uma manhã de Agosto, mergulhada numa neblina cerrada antes de o Sol a derramar e aquecer o dia como uma fornalha.

Que idade teria? Dois, três anos. Não menos de dois, porque com essa idade tinham mudado de casa, não mais de três porque aos quatro havia outra história, outro marco na sua memória.

Às nove horas já o sol nascente tinha subido por detrás da neblina, e entrava coado no quarto. Quando ele abriu os olhos, deu-se conta que a cama era imensa e medonhamente alta, e, logo depois, apareceu a miar de rabo alçado, a gata. Não estava só no mundo e esse conforto instintivo fê-lo respirar fundo. A janela tinha cortinados que o impediam, mesmo de cima da cama, ver a rua; ainda mal acordado, quando se pôs de pé na cama, porque os pés eram ainda redondos, porque o colchão era mole, regressou à posição inicial e a gata miou e saltou do chão para a cama, junto dele. A gata era grande, qualquer que fosse o termo de comparação que se tomasse: para a sua espécie, para o tamanho do puto que, deitado, a olhava fraterno de baixo para a cima; malhada a preto retinto, branco impecável e laranja sedoso, era linda. O Pai costumava dizer que tinha em casa um pequeno tigre, às vezes dizia que era um leopardo, talvez não distinguisse um tigre de um leopardo e, por inerência, um gato de qualquer outro bicho com bigodes. A Mãe achava tais comparações completamente descabidas e insistia, qual leopardo qual carapuça, é uma gata real sem tirar nem pôr, digna, altiva e bela como uma marquesa. Após um momento de mútua observação a gata posicionou-se em esfinge e iniciou mais uma sessão de limpeza do pêlo, o puto, atento a seguir-lhe os movimentos, adormeceu de novo. O calor do sol, que entretanto inundara o quarto, acordou-os; primeiro a gata, espreguiçou-se, abriu a boca, ensaiou nova limpeza sumária e saltou da cama, rabo alçado, cortando à direita à saída do quarto; depois o puto, despertado pelo calor e pelo salto da gata. Enquanto a gata miava e acelerava o passo cadenciado no corredor que dava para as traseiras, em direcção da saída, o puto, após espreguiçar-se, olhou demoradamente à volta e, progressivamente desperto, quando o miar da gata deixou de se ouvir, concluiu que estava só no mundo, e desataram-se-lhe nos olhos inquietos lágrimas silenciosas e convulsivas. A chorar, escorregou-se da cama sem olhar à distância da queda, e seguiu no encalço da gata. Desse lado da casa, as janelas estavam fechadas e só alguns fios de claridade atravessam pelas frinchas das portadas. Na porta, em baixo junto à soleira, a claridade desenhava o contorno de uma gateira por onde a marquesa tinha livre trânsito. O puto já várias vezes tentara, sem sucesso, seguir a sua amiga passando por aquele túnel de liberdade, questão que o intrigava porque, sendo ele pequeno e ela enorme, ela atravessava a fronteira displicentemente, ele se passava um braço não passava o segundo. E porque quanto mais aquela impossibilidade o intrigava mais o mobilizava o puto acocorou-se, daquela vez, junto à porta e ensaiou outra alternativa: sair de cabeça, afinal de contas a solução primordial. Por tentativas chegou à posição de bruços, rodou a portinhola e espreitou para fora. A passagem da obscuridade no interior da casa para a luminosidade intensa no exterior cerrou-lhe as pestanas e levou-o a recuar. Nesta altura, a concentração exigida pela aventura tinha-lhe secado as lágrimas e sem dispêndio de lágrimas redobrou-se-lhe o ânimo. Espreitou de novo, mais uma vez foi obrigado a cerrar os olhos, abriu-os de novo a pouco e pouco, conseguiu adaptar-se às circunstâncias e pôs-se a descobrir o mundo livre à sua frente. Nunca, como naquele momento, o quintal das traseiras lhe tinha parecido tão bonito nem tão surpreendente, apesar do incómodo da posição de observação. Havia no quintal várias árvores onde cresciam frutos que os pássaros, logo que os viam a começar a madurar, debicavam nas ausências do dono. Debaixo das árvores a gata aguardava com toda a paciência e atenção máxima que algum voador mais distraído passasse a menos de um metro dos seus bigodes. Quando isso acontecia, a gata voava ao encontro do amigo da fruta alheia e chamava-lhe um figo. Com tão fino gosto da gata regozijavam-se os ratos e atormentava-se a Mãe entre a elegância do bicho e a sua inépcia para a função que lhe tinha sido atribuída. O puto, entusiasmado com as façanhas da malhada, esticou mais o pescoço de modo que metade da cabeça já estava fora da gateira quando as dores do esforço começaram a superar o interesse da visão. Quis voltar para trás mas ninguém nasce ensinado e aprender por conta própria leva o seu tempo e impõe sacrifícios. O puto que o diga: naquela posição a tendência normal levava-o a levantar a cabeça para iniciar o recuo à custa dos braços; mas não podia, a gateira era ampla, porque o habitual utente tinha bom arcaboiço, mas não tanto que permitisse ao puto efectuar daquele jeito a manobra de marcha atrás. A incapacidade de livrar-se da ratoeira em que se metera provocou-lhe a perda dos sentidos. Quando recuperou, a gata tocava-lhe o cabelo, gentilmente, a dizer, posso entrar? e, ao erguer a cabeça para se levantar, já não esbarrou com a abóbada da gateira, conseguiu sentar-se, a gata entrou, rabo sempre alçado, a miar, e sentou-se em frente dele. Estiveram assim a mirar-se mutuamente um tempo infinito, a gata cuidando, displicente, do pelo, o puto sem saber como entabular conversa. O Pai costumava, à noite, se o humor andava por perto, conversar com a gata para entretenimento do puto, mas era uma conversa anódina, de pergunta com resposta incluída, ou um monólogo, invertido, da gata pela boca do Pai, eram meios de comunicação que não ajudavam naquela ocasião. A olhar a gata, o puto perguntava-lhe ansioso quando iriam sair dali; a olhar o puto, a gata mantinha imperturbável a sua rotina. Depois o puto começou a chorar e a gata começou a rodar e a miar aflita à volta de uma mesa numa sala ao lado. A movimentação da gata distraiu transitoriamente o puto, que deixou de chorar. A gata, supondo a questão resolvida, voltou de novo a sentar-se diante dele, cuidando do pelo de vez em quando, abrindo a boca se o puto bocejava, bocejando o puto se bocejava a gata. Escoava-se o tempo sem vislumbre de esperança e a gata entendeu que tinha mais que fazer, talvez tivesse interrompido a caça e precisava retomá-la se não lá se ia o turno da manhã, talvez precisasse de fazer lá fora o que não lhe consentiam que fizesse em casa, e o puto, outra vez sozinho no mundo, voltou a chorar convulsivo.

Quando a gata voltou a atravessar a fronteira encontrou em casa o silêncio apenas perturbado pelo chilrear dos pardais no telhado e começou a miar às voltas pela casa, excitada. O puto tinha saído.
Como? Quem sabe?

Andou pela estrada fora, de macaco de alças, com abertura à frente e atrás, para todas as emergências, até que alguém disse para alguém: Onde é que ele vai?  Ele está perdido!

Pois estava.
- Vem comigo, vem.
A porta estava fechada, ninguém ainda em casa, esperaram na soleira da porta, a gata chegou de rabo a dar a dar, a miar contentamento, ficaram ali os três à espera, à espera, à espera que, com o subir do Sol, chegasse a Mãe de volta.

EM SEDE IMPRÓPRIA

Ontem abriu o ano judicial. Que não coincide com o ano juliano, nem com o ano chinês. Nem tem, pelos vistos, a mesma duração. Outra curiosidade reside no facto de celebrarem os judiciários a abertura mas não o encerramento, provavelmente para evitarem o incómodo da prestação de contas.

Os discursos tiveram desta vez, para além das tricas públicas recíprocas a que nos habituaram, um pendor sindicalista protagonizado pelo senhor presidente do supremo tribunal de justiça. O senhor bastonário da ordem dos advogados aproveitou, novamente, a ocasião para repreender a senhora ministra, a senhora ministra voltou a dizer o que tem dito, o senhor procurador geral da república disse que lhe enchem o saco com questiúnculas improváveis, o senhor presidente disse que, vá lá sejam amigos. E o ano judicial ficou aberto.

Voltando ao senhor presidente do tribunal de justiça, esclareceu o ilustre magistrado que a decisão do governo de cortar salários e pensões é, obviamente, ilegal e que os direitos adquiridos são direitos que não podem ser derrogados num estado de direito.

Também me parece.
Aliás, o senhor ilustre magistrado não está só, atendendo a outras ilustres posições públicas e aos aplausos que o seu discurso mereceu à generalidade da plateia que assistiu à abertura do ano judicial. Mas, uma vez aberto, tudo continuará na mesma, incluindo os cortes que o senhor presidente do supremo tribunal de justiça considera injustos. Da justiça propriamente dita, não houve novidades. Só discursos a atirarem para o lado que os discursantes estavam voltados.

Tuesday, January 31, 2012

CARTÃO ÚNICO

Tive que renovar a carta de condução.
Documentos necessários: declaração médica, carta de condução a revalidar, cartão único (para quem tem).
Se tem cartão único precisa de saber o PIN.

- Qual PIN?
- Deram-lhe um PIN quando lhe entregaram o Cartão Único.
- Ah! deram?

Tinham dado. Tive voltar a casa à procura do PIN mas lá o encontrei.

- Para que serve o PIN?
- Para confirmar a morada.
- Mas a morada consta da carta de condução e tem de ser actualizada.
- Pois consta. Mas são as regras que temos.
- E se eu não tivesse encontrado o PIN?
- Tinha de obter outro cartão único.
- E não podia revalidar a carta, entretanto?
- Pois não. Tem aqui esta guia com validade até Abril. Se até lá não receber a carta tem de voltar cá para renovar a guia.

Em conclusão: O Cartão Único são dois: o cartão único, impropriamente dito, e o papel que recebemos com o PIN. Se se perde o PIN está tudo perdido.

A emissão da carta revalidada poderá levar mais de quatro meses!
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Leio no Público on line que a troica concedeu mais tempo ao governo para reformar a Justiça. Que hoje é aberto o novo ano judicial. Tem estado fechado, pelos vistos. Que no ministério da justiça também se contrataram parcerias público privadas para iludir o défice e a despesa.

Como é que pode um país assim ser de outro modo?

Monday, January 30, 2012

RAY USHIKUBO

9 anos de idade





FIREWALL

Christine Lagarde, actual directora-geral do FMI, defendeu em Davos a construção de um muro na Eurozona que limite os estragos já provocados pela crise financeira impedindo a continuação da sua propagação.   

Como é que isso se faz?
Para alguns participantes no Forum, segundo rumores transmitidos nos noticiários televisivos de ontem à noite, o "firewall" significaria deixar cair a Grécia e, muito provavelmente, também Portugal.

O que significa deixar cair a Grécia?
Não me custa acreditar que um dia destes acabem por prevalecer os votos daqueles que não  vêm na Grécia mais que um empecilho irrecuperável e que, portanto, a melhor solução é secar-lhe o crédito e deixá-la governar-se com a sua indisciplina. 

Não me custa acreditar que a perspectiva imediatista acabe por esquecer as razões fundamentais que levaram à construção da União Europeia. Mas começará aí a tragédia europeia. Porque nem a Grécia vai fechar as portas nem os gregos vão morrer à míngua. No dia em que a Grécia for abandonada pelos europeus será conquistada pelos russos se os norte-americanos não se anteciparem. E, se assim for, a desagregação da União Europeia a leste será uma questão de pouco tempo.

Mas o refluxo também não será pacífico no centro da União.
Se aos gregos vierem a ser impostas condições de regurgitamento acelerado das dívidas com que os bancos ocidentais os empanturraram, emergirão os radicalismos que engendram a trindade diabólica: nacionalismo, xenofobia, racismo.

A trindade diabólica que dizimou milhões de europeus há pouco mais de seis décadas e voltou a incendiar os balcãs há duas.

Se os actuais líderes europeus não perceberem isto, o firewall tornar-se-á um rastilho tenebroso.

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Obs - Sei que me repito. Que não digo hoje nada de algo diferente do que tenho já escrito acerca deste tema. Se insisto é porque continuo a não o ver equacionado sob esta perspectiva por mais alguém. Inconsciência colectiva generalizada ou um receio absurdo da minha parte?

Sunday, January 29, 2012

VERMELHO

Em Maio de 2007 escrevi  aqui: Recomenda, EPC, que "é preciso fazer como a (Maria Andresen) diz da pintura de Rothko: "Mark Rothko/elevava as cores à ignorância de Deus".
 
Na altura, confessava que a pintura de Rothko me continuava a intrigar pela simplória razão de não experimentar diante dela o mais elementar resquício da emoção que atinge muitas pessoas. Desde então já devo ter voltado uma boa dezena de vezes a contemplar alguns dos murais de Rothko, num esforço persistente para descortinar uma nesga da perspectiva de onde as cores são elevadas à ignorância de Deus.
 
José Gil escreve em "Sem Título": Se não é possível atribuir significações precisas aos quadros de Rothko, porque é que elas parecem encerrar todo o sentido do mundo? Diante delas as pessoas rebentam em lágrimas, sem que as lágrimas tenham um significado claro. Rebentam em lágrimas de êxtase: a emoção tornou-se forte demais para um pequeno corpo; ..."
 
John Logan, que escreveu "Vermelho", uma peça de teatro inspirada pela visão de parte dos seus murais pintados para o "Four Seasons" de Nova Iorque mas que acabaram, parte deles, por serem doados à Tate Modern de Londres, afirma que, quando entrou na Tate e viu a obra de Rothko, "a reacção inicial foi inicialmente ao que se sente ao ver pela primeira vez a pessoa amada. Não consegui respirar. Fiquei como se me tivessem dado um murro no estômago. Tinham qualquer coisa de tão impressionante avassalador que eu fiquei ali parado"
 
Ontem fomos ver  "Vermelho", mais uma encenação de João Lourenço para o "Teatro Aberto", um trabalho que requer um esforço enorme em todos os sentidos só possível, além do mais, por uma entrega total e persistente a uma causa irrenunciável. Não sei quantas peças já foram levadas à cena no "Teatro Aberto", neste e nas instalações antigas. ´Com "Vermelho", já assistimos a sessenta. E é sempre com algum desencanto que observamos o alheamento do público por um teatro maior mas acessível. A" Sala Vermelha" estava quase cheia mas é uma sala pequena. Aquele espectáculo merecia um público que enchesse a "Sala Azul". A interpretação de António Fonseca (Rothko) é notável, João Vicente (Ken) replica com uma composição bem conseguida.
 
Não penso que a magnífica obra de Logan ou o excepcional trabalho em exibição no Teatro Aberto desbloqueiem a barreira que me impede aceder à mensagem divina de Rothko (Rothko chegou a supor-se Deus). Mas tentar é um jogo a que continuarei a dedicar-se sempre que a oportunidade aconteça. No fim de contas, nesta como em outras reflexões, o objectivo está na tentativa de compreensão dos outros.
 
"Vermelho", de John  Logan, não exige esse  esforço. Percebe-se todo.
 
Aqui: Imagens de algumas obras de Rothko
"Red" está em cena em Washington. Vd. crítica no Washington Post aqui

Saturday, January 28, 2012

E POR QUE NÃO?

Se há coisa que não nos falta são ideias e propostas que outros deveriam concretizar.
Mesmo que a ideia ou proposta seja tão vaga e redonda quanto esta: é fundamental relançar a economia e criar condições de criação de emprego. Quem é que está contra? Ninguém. A capacidade de criatividade sustentada nas obrigações dos outros é inesgotável.

Por que é que não se exportam pasteis de nata?, perguntou o ministro da economia e muitos continuam ainda admirados com a simplicidade da descoberta. E por que não?
Por que não se exportam rosquilhas de azeite, uma especialidade da minha aldeia ?

As rosquilhas de azeite caem de imediato no goto de qualquer um que lhe dê a primeira trincadela. Quando saímos de casa com destino a leste ou oeste para visitar, de cada vez, metade da família, levamos uma mala pejada de rosquilhas de azeite, arriscando um dia destes ter a carga apreendida na fronteira por inocente evasão aos direitos alfandegários. São um sucesso tão grande que obriga a racionamento de consumo. Têm-nas provado gente de toda a parte do mundo a quem suscitam de imediato a tentação de trincar sempre mais uma.

Mais facilmente exportáveis que os pasteis de nata, por não requererem frigorífico no transporte nem embalagens especiais, prazo de validade de dois meses, as rosquilhas de azeite excedem em sabor e textura os mundialmente conhecidos gressinos italianos.

Em princípio tudo é exportável. Até o "air de Paris".
E todos temos ideias acerca daquilo que deve ser feito por outros, há um professor Marcelo sem direito de antena em cada idiota que o admira. 

Todo este arrazoado porque ontem dei comigo a pensar que, se o ministro propõe os pasteis de nata, eu sugiro as rosquilhas de azeite a Carvalho da Silva para demonstrar a capacidade de realizar aquilo pelo qual durante vinte e cinco anos se bateu: tornar-se um empresário lúcido, capaz de criar emprego, remunerando civilizadamente os seus colaboradores. Que, já agora, poderia recrutar na quase inesgotável capacidade disponível na Confederação Geral de Trabalhadores.

Dou todas as referências a quem as solicitar.

Friday, January 27, 2012

UM BANCO MEIO AFUNDADO

à espera de outro comandante.

O actual presidente do BCP está de saída e, segundo as notícias, já é conhecido o próximo. Os investidores em campo aberto deram sinal que as notícias não lhes desagradam, as cotações subiram ligeiramente e o volume de transacções deixou de se situar a níveis  de quase desconfiança total. Mas a situação crítica em que se encontra o maior banco comercial português estará agora, na melhor das hipóteses, estacionária.

A entrada de Santos Ferreira, de braço dado com Armando Vara, iniciou mais um acto pouco digno na história de um banco que começara por ser uma referência na estruturação do sistema finaceiro português depois da fase esquizofrénica das nacionalizações, optara depois por políticas de engodo, de licitude duvidosa, por uma base accionista alargada e dispersa. Sem um núcleo accionista estável, Jardim Gonçalves suportou-se em meia dúzia de amigos de conveniência, geralmente empreiteiros de obra públicas, a quem concedia crédito e deles recebia apoio para governar.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e os amigos de Jardim foram à procura de outros apoios quando Jardim saiu e a crise nas obras públicas se anunciava. Sócrates recebeu-os de braços abertos e recomendou-lhes um amigo do peito (Vara) e outro amigo também. Até que a crise falou mais alto, os amigos empresários não pagaram o que deviam (aliás não era suposto que o fizessem, mas enrolassem) e as cotações aproximaram-se da nulidade. A Sonangol, que entretanto havia adquidido uma posição qualificada, deve ter aproveitado com a debandada da passarada assustada.   

Conseguirá o novo presidente desencalhar o barco e colocá-lo a navegar? A bordo continuam aqueles, accionistas/devedores, responsáveis em grande medida pelas avarias. Para governar, Nuno Amado conta com o apoio dos angolanos e, provavelmente, com a entrada de fundos públicos de reforço dos capitais próprios.

E era aqui que eu queria chegar: estando a economia em estado lamentável, a banca começa agora a sentir os efeitos dos abusos que cometeu. E quem paga? Também eu. A entrada de fundos intermediados e avalizados pelo Estado deveria exigir aos bancos intervencionados medidas de emagrecimento mas não ouço ninguém reclamar isso. Quando meio mundo é obrigado a apertar o cinto a outra metade continua com ele desapertado.

Eu não conto voltar a colocar um cêntimo que seja das minhas poupanças no BCP por maior que seja o engenho do senhor Nuno Amado. Não vou, portanto, voltar a contribuir, nem como accionista nem como cliente.

Já só espero apenas que o engenho do senhor Nuno Amado não venha a procurar-me como contribuinte.  

Thursday, January 26, 2012

O JOGO DA CABRA CEGA


A leitura da sentença do processo Portucale, que envolve suspeitas de tráfico de influências para a aprovação de um empreendimento turístico do Grupo Espírito Santo, foi hoje adiada pelo colectivo de juízes que está a julgar o caso. Segundo informações recolhidas pelo DN, em causa está um requerimento da defesa do arguido, José Manuel de Sousa, a pedir a produção de prova face às alterações feitas pelos juízes à acusação.

De adiamento em adiamento até à prescrição final.
O habitual,
em Portugal.

ARTE COM M GRANDE


A consagração pública da mistificação artística.
Ainda que as imagens/inscrições sejam virtuais este projecto é, irrecusavelmente, animador dos incansáveis artistas que derramam por todo o lado o que lhes escorre das suas inesgotáveis veias artísticas. Um dia destes chegarão à Torre de Belém. Quem poderá condená-los?
Se os apanharem.

PREVISÍVEL

Ouço na rádio que os bancários da Caixa Geral de Depósitos estão em pé de guerra contra a decisão do governo lhes ir abarbatar dois ordenados, que abrange todos os funcionários públicos ou de empresas do Estado, pensionistas do Estado e pensionistas que não trabalharam para o Estado, mas que o Estado se arrogou desde sempre o direito de gerir os seus fundos de pensões. Os outros, mesmo aqueles que dispõem de rendimentos superiores a todos aqueles, estão isentos.

Ouço ainda que o senhor FernandesTomás, administrador da Caixa Geral de Depósitos em nome do CDS e em substituição da senhora Celeste Cardona, disse que também ele não concorda que os bancários da Caixa Geral de Depósitos sejam abrangidos pela decisão do governo. Numa empresa digna desse nome um administrador que se pronunciasse publicamente contra uma decisão tomada em nome do  accionista único, ou se demitia ou era demitido. Em Portugal, o senhor Fernandes Tomás assume a posição fácil: o partido que representa participa numa decisão que ele tem de fazer cumprir mas sacode a água do capote, e não se passa nada.

Mas vamos ao tema central: Para lá dos protestos dos bancários da Caixa, que têm toda a razão de ser, há os protestos dos trabalhadores da TAP, os funcionários do Banco de Portugal não protestam porque já embolsaram dois dos catorze salários do ano, seguindo uma prática corrente na paralítica instituição de receber em Janeiro os ordenados extra do Verão e de Inverno.

Todas estas embrulhadas, que se enfernizarão à medida que os tormentos da austeridade se tornarem cada vez mais insuportáveis, eram previsíveis a partir do momento em que o governo decidiu atingir apenas uma parte da população portuguesa, isentando os que têm rendimentos inferiores a determinado limite, o que é muito justo, e os que têm rendimentos superiores, mesmo muito superiores aos atingidos, mas estão fora da alçada das decisões discricionárias de corte do governo. 

A isto chamou o governo, corte da despesa pública, o que é uma habilidade semântica, porque a dimensão do Estado não encolheu um milímetro com a decisão. 

Entretanto a administração da Caixa, segundo as notícias, vai engendrar meios para compensar os seus funcionários dos rendimentos abarbatados, através de promoções e outras habilidades afins.
E os outros? Que habilidades vão inventar os outros para recuperar os rendimentos perdidos? 
Em suma: vamos assistir a uma sucessão de fugas dos melhor colocados. O habitual, em Portugal.

Não teria sido mais equitativo, mais suportável, mais eficiente, mais legal e moralmente aceitável se o sacrifício foi-se distribuido por todos, a partir de certo nível de rendimento, através de impostos?  Claro que seria.

Mas a ideologia tem razões que só ela conhece.

Wednesday, January 25, 2012

TODOS NO MESMO BARCO MAS ALGUNS NOS PORÕES

Notícias divulgadas esta semana dão conta da actualização das previsões do FMI para este ano que prevêm uma redução do crescimento económico global, inicialmente previsto de 4%, para 3,25%. Ainda assim o crescimento previsto continua a dever-se essencialmente à China (8,2%) e Índia (7%). As previsões no Outono para os EUA mantêm-se inalteradas (1,7%).

Para o conjunto da Zona Euro o FMI prevê agora uma ligeira recessão, mas adverte que esta situação pode, abruptamente, deteriorar-se. O que, a verificar-se, se as taxas de juro das dívidas soberanas de alguns países membros continuarem a subir e os problemas da banca se agravarem, poderá determinar uma recessão mundial.

“The current environment ... provides fertile ground for self-perpetuating pessimism,” resume o relatório do Fundo.

Economist desta semana publicava o gráfico seguinte:



Obs .- Há pequenas diferenças entre os valores referidos no texto que acompanha este gráfico e aqueles que apresento nesta nota, citados pelo Washington Post de ontem.