Tuesday, November 15, 2016

A OUTRA GERINGONÇA

O sr. António Costa é um homem bem equipado.  Geringonças, tem duas.
Se a da esquerda embirra e não arranca, ele salta para a do lado, que com toda a boa vontade o leva onde ele quer. Aqui, por exemplo.

A propósito da revogação do limite de idade para continuar ao serviço na função pública depois dos 70 anos, comentei aqui:

Estou de acordo que as pessoas possam continuar a trabalhar para além dos 70 anos de idade, e enquanto quiserem, em funções públicas ou privadas.
Não estou de acordo que se acumulem remunerações de trabalho e pensões de reforma. Salvo se a pensão de reforma fique aquém, e na medida em que fique aquém, do rendimento líquido enquanto trabalhador.

Se, p.e., o rendimento líquido era de 1000 euros mensais e a pensão de 900, se continuar a trabalhar a reforma deverá ser de 100 enquanto se mantiver como trabalhador remunerado.

Afirma, e eu estou de acordo, que muita gente está ainda aos 70 anos com capacidade e competência que não deve ser desperdiçada. Pois muito bem: se o argumento é esse, e não o interesse na acumulação de rendimentos, a vontade de trabalhar fica confirmada com a minha proposta.

Acontece que muita gente na função pública, sobretudo, onde a avaliação de competências é geralmente excessivamente benevolente, há muito tempo que deixou de ser competente, se alguma vez o foi no exercício das funções pelas quais é remunerada.
Quem pretende continuar para além dos 70 nem sempre é competente mas porque se julga competente ou porque não se preparou psicologicamente para deixar o local de trabalho onde, não poucas vezes, há muito tempo é redundante.

Acontece ainda que - para usar o exemplo que deu da docência universitária - a idade média dos professores é já, nas nossas universidades, bastante elevada. Há eugenia típica do recrutamento de docentes no ensino superior alia-se a resistência dos que garantiram inamovibilidade enquanto aqueles que se vão doutorando no país e no estrangeiro se vêm rejeitados no seu país e têm de procurar lugar lá fora.
Não, por acaso, houve um crescimento exponencial de doutoramentos nas duas últimas décadas, mas o número de patentes registadas em Portugal continua a ser, relativamente, muito baixo. Há, felizmente, alguns raros casos de sucesso internacional que apenas confirmam a regra que referi.

Quanto à chamada ao serviço de médicos reformados é uma história que se explica, em parte, com o que atrás escrevi.
Todos sabemos que as notícias oscilaram nas últimas décadas entre a excessiva entrada de alunos para medicina - argumento da Ordem - e a necessidade de recrutamento no exterior e chamada de médicos reformados. E porquê?

Porque, para além, da política de admissão aos cursos de medicina ser influenciada pelos interesses corporativos da Ordem, também os sucessivos governos, ao introduzirem instabilidade nas regras de acesso à reforma, incentivaram muitos clínicos na função pública a reformarem-se e a passarem, muitos deles, a continuar a exercer clínica privada, acumulando pensões e rendimentos que, na totalidade, excedem bastante os seus rendimentos líquidos antes da reforma.

Evidentemente, a saída por entrada não beneficia apenas os médicos reformados. Longe disso.
Para citar um caso público recente temos o sr. António Domingues. 
Reformou-se do BPI, onde era vice-presidente - antes dos 65 anos (esgotou a competência no banco onde trabalhou durante 27 anos?) para passar a acumular a reforma com as retribuições e prémios como presidente da Caixa Geral de Depósitos.
Onde poderá trabalhar bem para além dos 70 anos.


De insubstituíveis, garante a filosofia popular, estão os cemitérios cheios.

Monday, November 14, 2016

QUANTO MAIS ME BATES

Raramente, dou uma olhadela pelo retrovisor.

Mas ontem, a propósito de uma reportagem publicada no Expresso,

- Como votou a América - Quem votou em Trump 
- 53% de mulheres brancas votaram em Trump

observei que, há mais de um ano, anotei aqui :

THURSDAY, AUGUST 27, 2015

QUANTO MAIS ME BATES

Anda meia América abismada com a progressão do "The Trump" para a sua nomeação como candidato republicano às eleições presidenciais de 8 Novembro de 2016, uma terça-feira. Do lado republicano, estão acabrunhados, ninguém avança decididamente para o travar, do lado democrático porque receiam que Hillary Clinton não seja capaz de enfrentar a bisarma que, como a hidra, parece multiplicar-se à medida que lhe caem em cima  acusações de fanatismo e brutalidade, e Joe Biden, o actual vice-presidente, está a ser incentivado a avançar.
.
Para além de várias outras repelências, "The Trump" é um misógino gabadamente assumido. Num país onde 53% do eleitorado são mulheres, como se compreende esta aparente condescendência, de que resulta inequívoco implícito aplauso, relativamente a um fulano que obstinadamente as insulta?
.
Está muito generalizada a ideia de que a grande vantagem de Donald Trump é dizer, alto e bom som, o que os outros pensam mas calam. Se isto é verdade, ou mesmo meia verdade apenas, "God save America" porque os norte-americanos perderam o tino.


Sunday, November 13, 2016

OUTRO OVO DE SERPENTE


Sinceramente, Estimada Suzana Toscano, não compreendo os seus argumentos e muito menos as suas conclusões.

Hillary Clinton reconheceu a derrota e telefonou a Trump. Este disse depois que ela tinha tido palavras amáveis para com ele.
Até aqui, ao comportamento dos Democratas não são atribuíveis reparos.
Concorda?

Depois refere o comportamento não democrático de milhares de cidadãos que se manifestaram nas ruas e uma petição que já terá três milhões de assinaturas.

Ora os "Democratas", eleitores ou não, contam-se em números muitíssimo mais elevados. Pode retirar-se, mesmo validando os seus argumentos, que os "Democratas" estão a ter um comportamento anti democrático porque alguns deles, na realidade uma pequena parte, se manifesta e protesta? Confundir uma parte com o todo não me parece uma aceitável indução estatística. Não concorda?

Por outro lado, uma manifestação de desagrado não é, não pode ser, em democracia considerado um comportamento antidemocrático porque a essência da democracia sustenta-se na liberdade de expressão. 

A mim, porque tenho família nos EUA, o comportamento de Trump preocupa-me não apenas pela soberba e falta de civismo que demonstrou ao longo da campanha mas pelos comportamentos que os seus dislates já estão a promover. 

Na imprensa norte-americana de referência li ontem que em várias escolas começaram a aparecer slogans racistas e inscrições de suásticas nas paredes. E que alguns jovens alarves terão acossado colegas pegando nelas pela vagina porque se Trump o fez por que razão não podem eles fazer o mesmo? São apenas casos isolados, facilmente controláveis pelas instituições?
Hitler, publicamente, não ordenava matar nem perseguir. Regozijava-se com as iniciativas dos que o idolatravam e actuavam de forma que eles acreditavam agradar ao führer.

Estimada Suzana Toscano,

A sociedade norte-americana está agora mais dividida que antes. 
Os sintomas são claros: o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância e o fanatismo religioso vão galopar com Trump. É preciso muita ingenuidade para supor que Trump não vai prosseguir pelo caminho que prometeu prosseguir. As primeiras indicações já chegaram. Os resultados prometem um desastre social, não só a nível norte-americano como mundial. 

Pela Europa são vários os trumpitos a esfregar as mãos de contentamento. Foi mais ou menos assim que foi chocado há cerca de oito décadas atrás o ovo da serpente.
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Correl.


Cartaz convocando manifestação Klu Klux Klan para o dia 3 de Dezembro na Carolina do Norte
c/p aqui

Saturday, November 12, 2016

EXPLICAÇÕES DOS PAPAGAIOS


Caríssimo António,

Se houve, e houve certamente, influência da comunicação social na opção de voto dos menos informados (foram sobretudo eles que decidiram as eleições num sistema que não se decide pela maioria do voto popular), essa influência beneficiou Trump porque lhe concedeu muito maior permanência em palco. "Não receio que falem mal de mim desde que falem de mim", foi o mote que o catapultou.

Poderia ou deveria a comunicação social, e não estamos a falar de tablóides, mas de media prestigiados como o New York Times, o Wall Street Journal, o Washington Post, o Financial Times, o Economist, etc., ignorar as alarvidades que Trump bolsou?

Não, Caríssimo António.

O cronista que citas, que não podemos esquecer teve um papel muito interventivo há umas décadas atrás num semanário de vida curta, foi especialista na intriga política. Depois foi romancista de fôlego fátuo. Ultimamente dedica-se a cronicar lamechas e apreciações gastronómicas. Faz pela vida, mas não deixou de ser um cabotino.

As suas afirmações não explicam porque é que Donald Trump foi o candidato dos republicanos contra a clara vontade de uma grande parte do GOP. Do meu ponto de vista, o que explica a vitória de Trump contra o "seu" partido explica também a vitória dele contra Clinton. 

Para perceber o que se passou temos de perceber as razões de sucesso
do populismo que alastra agora por todo o mundo ocidental.Mesmo considerando a enorme disparidade dos contextos históricos, vale a pena reler a biografia de Hitler de Ian Kershaw. 

Obama herdou o governo de um país em crise explosiva e deixa a Casa Branca com cerca de 57% de popularidade.

O MEC, cronista gastronómico, poderia ter-se dedicado a perceber o resultado do cozinhado analisando como se comportaram os diferentes ingredientes. Optou pelo caminho mais fácil: culpou o grupo daqueles de que já fez parte. Problema de má consciência claramente mal resolvido.

Friday, November 11, 2016

DOMINGUES VERSUS TRUMP

Ouço na rádio esta manhã que, quanto muito, o sr. António Domingues estará disponível para entregar a declaração de património no Tribunal Constitucional se for garantida confidencialidade do seu conteúdo até ao fim do seu mandato como presidente da Caixa, admitindo, contudo, que o referido documento possa ser consultado pelo Ministério Público e pela Autoridade Tributária e Aduaneira.

Percebe-se o pudor do sr. Domingues em consentir que a opinião pública conheça o enriquecimento que ele, e a generalidade daqueles que na banca motivaram a crise, aproveitaram  sem rédeas dela. Mas é tocante a sua ingenuidade quando espera que a divulgação dos valores da lista não apareça mais dia menos dia soprados por quem geralmente costuma soprar o que é por lei considerado em segredo.


Por outro lado, é  espantoso que ao sr. Domingues seja exigida a declaração de património para poder presidir a um banco de reduzida dimensão, se comparado a nível mundial, quando ao sr. Trump se preparam para estender a passadeira vermelha por onde ele passará para presidir aos destinos dos Estados Unidos da América, e, por tabela, do mundo, sem que os norte-americanos saibam se ele se evadiu ilegalmente ao pagamento de impostos ou se está ou não envolvido numa rede de branqueamento de capitais, segundo notícias publicadas em diários de prestigio mundial como o New York Times ou o Financial Times, que ontem referi aqui.

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Correl . - (12/11) Carlos Santos Ferreira nunca declarou ao TC os rendimentos que auferia na CGD
E o TC também nunca deu por isso. É um depósito.

Thursday, November 10, 2016

QUEM TEM MEDO DE DONALD TRUMP?

Al Capone, o célebre gangster ítalo-americano durante as primeiras três décadas do século passado, com um curriculum recheado de  crimes de contrabando e outras habilidades ilegais, teve sempre arte e engenho para escapar às malhas da justiça. 
Até ao dia em que ficou confirmado que fugia aos impostos. 
E foi por esta habilidade que, em 1931, foi condenado pela justiça americana a onze anos de prisão.


Trump, o próximo presidente dos EUA, confessadamente, não pagou impostos durante 18 anos, e recusou-se a demonstrar o cumprimento das suas obrigações fiscais. Alegou publicamente que limitou-se a aproveitar as oportunidades concedidas pela lei. 
Mas o New York Times explicava na sua edição de 31 de Outubro - vd. aqui - a forma como Trump escapou ao pagamento de impostos usando o dinheiro de outras pessoas. Outro artigo publicado no mesmo dia no mesmo NYT afirma - vd. aqui - que Trump usou métodos legalmente duvidosos para escapar ao pagamento de impostos. 


Há duas semanas, o Financial Times publicava um extenso artigo de investigação - vd. aqui - que garante provar a evidência de ligações de Trump a uma alegada rede de branqueamento de capitais. 

Estas, algumas das notícias que foram publicadas durante a fase mais acesa da campanha. E, no entanto, aquilo que parecia ser uma enorme vulnerabilidade do candidato republicano foi, praticamente, estranhamente ignorado por Hillary Clinton, que passou a centrar os seus ataques  na misoginia alarve de Trump para conquistar o eleitorado feminino, que já tinha a seu lado. Por quê?

Por que razão não foi Trump confrontado com as notícias que denunciavam habilidades semelhantes aquelas que em 1931 algemaram Al Capone? 

Trump ganhou (com menos votos que Clinton), segundo as análises dos resultados entretanto publicados, sobretudo com os votos dos mais pobres e menos instruídos. 
Já há explicações mais que suficientes para o fenómeno de ter sido eleito presidente um bilionário de Nova Iorque, que se tem na conta de muito esperto porque, além do mais, não paga impostos, com os votos dos mais desprotegidos do interior. 

Da Justiça norte-americana, tem-se a imagem de ser célere, acertada e implacável.
Das elites norte-americanas, formadas nas universidades mais prestigiadas do mundo, a capacidade para denunciar a prepotência da imoralidade e o incumprimento da lei. 
E não acontece nada?


Tuesday, November 08, 2016

FEIJOA

Começou há milénios, mas foram os navegadores portugueses de quinhentos que deram o grande impulso à globalização botânica. Hoje, espécies oriundas dos nossos antípodas povoam intensivamente a paisagem portuguesa, com particular destaque do tão generoso quanto mal afamado eucalipto globulus, uma das variedades de uma família vastíssima, com cerca de duzentos membros conhecidos. 

Um clã que, aliás, tem vários primos que habitam connosco, que nos acenam quando passamos por eles mas que pouca gente reconhecerá: são, p.e., os metrosideros, excelsa ou tomasi, entre outras variedades, os leptospermum, rosa, vermelhos, as grevíleas, de muitas variedades, os callistemons, também com variedades diversas, as acácias, espécies invasoras, que pintam de amarelo o fim do inverno e progridem perante a aparente distracção dos responsáveis pela conservação do ambiente. 

Aqui em frente, tenho uma feijoa. Ali, ao lado, outra.
Sabe o que é uma feijoa?
Não, não é a essa que me refiro. É a esta:


Floresce  no princípio do verão, 


Colhe-se por esta altura do ano.

É boa?
Faz bem?
Tem aqui uma resposta.
Se não gostar do fruto, regale-se com a flor. 


Monday, November 07, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - ACONTECEU NA CAIXA

"O primeiro-ministro anunciou um investimento de 200 milhões de euros do Estado num programa de coinvestimento para empresas inovadoras que precisam de capital de risco, num evento no âmbito da Web Summit" - DN, hoje, 7/11/2016
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Em 1977, O FMI entrou pela primeira vez em Portugal, a pedido de um Governo de Mário Soares, regressando em 1983, por iniciativa do Governo de Bloco Central, também liderado por Mário Soares Entre 1973 e 1985, a inflação anual média rondou os 22%. 

"É público o telefonema nocturno de Silva Lopes, então governador do Banco de Portugal, para o primeiro-ministro, Mário Soares, a avisar que no dia seguinte Portugal poderia entrar em bancarrota. Soares terá respondido que, se assim era, o melhor era deixá-lo dormir, para estar preparado para o dia seguinte" - Expresso/RevistaÚnica/07 Maio 2011
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Verão de 1980

O CMF da Silva não sabia, a esmagadora maioria dos portugueses não sabia, até que ponto as contas externas se tinham deteriorado com o aumento do preço do petróleo, a entrada de quase um  milhão de retornados, as quebras no turismo, as reduções das remessas dos emigrantes, as fugas de capitais, afugentados com os clamores revolucionários, e que nem a venda de divisas e ouro do Banco de Portugal tinha evitado o crescimento do endividamento para níveis insustentáveis sem ajuda externa.
O que o CMF da Silva sabia é que a sobrevivência da sua empresa de equipamentos para indústrias alimentares, em grande parte importados, estava ameaçada.

Porquê Carlos Manuel? 
Não me dão BRI´s, sem BRI´s não posso importar, se não importo não vendo, não pago ao pessoal, tenho de encerrar as portas, percebes? Estamos tramados. Parece que o país não tem divisas, e sem divisas não há meios de pagamento, sem meios de pagamento não há importações, é o que dizem. Este país chegou ao fundo!

E por que é que o meu amigo não pensa em produzir o que agora importa? Leva algum tempo, exige algum capital, mas daqui a um ano, no máximo, pode ter o seu negócio sustentado com produção própria. O IAPMEI e a Caixa estão anunciar em letras gordas um concurso "Aposte no futuro, Construa a sua empresa". Talvez seja uma oportunidade no meio destes tempos de ameaças.
Achas?
É um risco, não há investimento sem risco, mas, no seu caso, parece poder ser um risco calculável. V. disse-me há tempos que o seu amigo Dennis F., comprou casa no Algarve e está a pensar em retirar-se. Por que não fala com ele? Convença-o a conceder-lhe uma licença de produção dos equipamentos que ele produz em Thionville, claro que tem de pagar-lhe royalties, e comissões nas vendas a clientes 
dele em França, Inglaterra, Alemanha, ... Argélia, durante algum tempo. 

O Dennis aceitou a proposta do CMF da Silva, assinaram um acordo, o CMF da Silva submeteu ao concurso um projecto, e o projecto foi aprovado. Recebeu medalha e diploma comemorativo. 
Como possuía economias, avançou para a compra de um lote de terreno, num parque industrial em local com bons acessos rodoviários, em regime de direito de superfície por 50 anos, já não vou durar tanto, disse ele, e avançou. Avançou tanto que, em menos de quatro meses, tinha o edifício construído, pronto para receber as máquinas necessárias à produção. Tudo com os capitais próprios a que se tinha comprometido no projecto aprovado pelos promotores do concurso, a Caixa e o IAPMEI.
Desvanecido, olhava para o edifício, e concluía que tinha ficado teso mas orgulhoso da obra feita.

E, agora, quando é que se montam as máquinas?
Já estão encomendadas, temos que entregar os 30% da ordem para os fornecedores avançarem. 
Estamos à espera que a Caixa desbloqueie a massa. Já perdemos um mês. 

Então Carlos Manuel, quando é que se instalam as máquinas?
Imagina que a Caixa disse-nos ontem que está à espera das facturas pró-forma para desbloquear a massa, e já lá vão dois meses ...
Mas as facturas pró-forma já foram entregues, não foram?
Há mais que tempo. Estamos em Setembro, entregámos em Junho, estava a construção do edifício quase a acabar.  
E que dizem eles?
Que não as receberam. Isto dá comigo em doido! Conheces alguém na Caixa?
Conheço muita gente lá, mas primeiro precisamos de saber onde param as facturas. 
É complicado ...
Talvez não seja assim tanto. Onde é que o meu amigo entregou as facturas?
Naquela entrada que fica nas traseiras da entrada principal, que dá para o Calhariz. 
Então faça como lhe digo: eles fazem micro filmagem de todos os documentos entrados. Lembra-se da data em que entregou as facturas pró-forma?
Perfeitamente.
Então vá até lá e peça que eles visualizem todos os documentos entrados nesse dia.
E eles vão nessa?
É questão de experimentar.

O CMF da Silva assim fez e, porque tinha boa memória, em menos de meia hora ficou provado que as facturas tinham dado entrada na Caixa quatro meses antes, não menos.
A esta altura da saga seria esperável que ao meu amigo fossem apresentadas desculpas pela Caixa e desbloqueado o financiamento contratado, mas a Caixa foi (parece que, trinta e seis anos depois, continua a ser), insensível a razões éticas, e demorou mais um mês para convocar o CMF da Silva e exigir-lhe que entregasse novas facturas pró-forma porque as anteriores tinham caducado ao fim de dois meses das respectivas datas. Com efeito, regra geral, os fornecedores colocam datas limite para os preços indicados nas facturas pró-forma, mas que culpa tinha ele, o meu amigo Carlos Manuel, que na Caixa tivessem perdido os documentos? Nenhuma.

Protestou, escreveu ao presidente da Caixa, não obteve resposta, e resignou-se a pedir novas facturas pró-forma aos fornecedores. Um mês depois, foi convocado para uma reunião.
Saiu-lhe para o encontro um sujeito que ele nunca tinha visto na vida, homem na casa dos trinta e muitos, com cara de poucos amigos.

- Sente-se!, disse ele, enquanto traçava a perna e folheava o projecto.
Consta aqui no relatório do projecto um objectivo de exportação de 4% do total da produção durante os primeiros cinco anos ...
- Sim, pareceu-me prudente não apontar para objectivos ambiciosos em países onde nunca vendemos.
Temos um agente, que conhece bem os mercados, aliás é nosso parceiro neste projecto, temos um contrato que o obriga a dar-nos todas as informações e especificações técnicas de produção, mas queremos abalançar-nos no estrangeiro só quando estivermos bem firmes no mercado interno. 
- Então não há estudo de mercado que justifique este objectivo!
- Há, há. O sr. Dennis F., tem uma carteira de clientes vastíssima que vai, contratualmente, passar a fornecer a partir da produção aqui em Portugal. Aliás, ele tem casa no Algarve, passa cá a maior parte do ano.
- Mas não há estudo de mercado!
- Não sei a que se refere, francamente. Sabemos a dimensão dos mercados, sabemos que quota podemos facilmente atingir, desde que tenhamos produção, que já deveria ter começado há seis meses e ainda não arrancou porque, como deve saber, perderam as facturas pró-forma aqui, na Caixa....

O interrogatório foi suspenso durante largos minutos, enquanto o técnico folheava o relatório, de trás para a frente, da frente para trás.

- Quatro por cento, hem? Por quê quatro por cento? Porque não cinco por cento?
- Dá quase no mesmo. Se há problema nisso, recalcula-se o projecto com outros valores dessa ordem de grandeza, mas estou certo que o resultado final não muda de forma significativa. 
- Por que não dez por cento? Por que não dois por cento?
- Dá quase no mesmo ... Mas se quatro por cento não serve, muda-se ...
- Muda-se, como?
- O sr. dirá o que lhe parecer aceitável ...
- Para eu lhe dizer teria o senhor que me pagar!,

(Nesta altura, houve um largo compasso de espera para o meu amigo Carlos Manuel digerir uma indignação imensa)

- Não, isso não posso pagar. Já esgotei! E para esse peditório nunca paguei, nem pagarei!

E o projecto desmoronou-se naquele dia. 

O técnico reduziu unilateralmente e de forma perturbadora o valor contratado, a Caixa dispunha naquele tempo de prerrogativas de cobrança de débitos idênticas aos que assistiam às Finanças, qualquer processo contra a Caixa demoraria anos, porque não poderia a empresa defender-se num processo executivo movido pela Caixa. À Caixa bastava apresentar, como título executivo, o valor em dívida do empréstimo que a empresa, sem os meios contratados, não poderia reembolsar. 
Caiu antes de começar a gatinhar.

Sunday, November 06, 2016

LEILA ALAOUI EM CASCAIS



“Courage”, de Leila Alaoui


Exposição no Palácio da Cidadela de Cascais de alguns trabalhos - fotografia e vídeo - de Alaoui, uma artista nascida em Paris, filha de um marroquino e de uma francesa. Vítima de um ataque terrorista no Burkina Faso, morreu em Janeiro deste ano, tinha 34 anos de idade.
Nos trabalhos expostos, Leila Aloui recolhe as diversidades culturais  e os dramas da fuga através do Mediterrâneo para chegar, neste caso, a Espanha"  

Vá até lá.
E não saia sem visitar a capela do Museu.

Saturday, November 05, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - PAPEL DE JORNAL*

Primavera, 1986

- Telefonaram para aí, da parte do gabinete do Ministro, a perguntar se tínhamos suspendido o fornecimento de papel de jornal. Sabe o que se passa?
- Sei. Fui eu que mandei suspender o fornecimento ...
- A todos???
- Aos que não pagam e já nos devem muita massa. Ao Expresso, que continua a pagar, continuamos a fornecer, ao "Diário de Lisboa" que fez um acordo de pagamento do atrasado, e que por enquanto está a cumprir, não suspendemos. Suspendemos aos que não pagam e que, repetidamente, foram avisados de que não poderíamos continuar a fornecer sem receber...
- Fez bem, fez bem. Mas agora vamos ter chatice com o governo ... Sem jornais, amanhã voltam a sair os blindados para a rua ...
- Talvez nos bombardeiem e fica resolvido o assunto. Que quer que eu faça?
- ... ... ...
- Mando retomar as entregas?
- Manda nada. Fez bem, fez muito bem. Já devíamos ter tomado essa decisão há mais tempo.
- E tomámos. Vezes sem conta, mas do ministério mandaram sempre aguentar até terem uma solução alternativa.
- Pois é. ... A porra do governo ... bom, vou falar com o chefe de gabinete do ministro e depois digo-lhe alguma coisa. Até lá, não há mais papel para quem não paga. Ausente-se! Diga ao pessoal que teve de ir ao médico ....
- Isso não, pode dar azar ...
- Então mantenha-se no posto até novas ordens. Quanto é que nos devem?
- Já passa dos cinquenta mil contos ...
- Tanto???
- Está escrito em todos relatórios mensais ...
- Pois está, pois está .... Pois está .... Já lhe digo alguma coisa.
....
....
....

 - Ficou tudo excitado no ministério! Sem papel, amanhã não haverá jornais ... Parece que já estávamos a fornecer só para o dia seguinte ...
- É o que tínhamos combinado ... Mas só para os que não pagam. O Expresso tem papel. O Diário de Lisboa também...
- Pois é, pois é, mas o Expresso só sai aos sábados e hoje é ... Que dia é hoje?
- Segunda ... - E nós não fornecemos papel de jornal. Quem fornece são os finlandeses, nós pagamos aos finlandeses e deveríamos receber dos jornais ... mas a quase totalidade destes não paga.
- É uma porra de negócio, este, em que o Estado nos meteu ...
- Não foi o Estado, foi o governo.
- Pois, pois, o governo ... Este ou anterior?
- Todos, desde 1976, 1977, por aí ...
- Há dias o ministro voltou a perguntar por que razão não produzimos papel de jornal em Portugal.
- Perguntam todos.
- É. São uns ignorantes. ...
- Voltou a explicar porquê?
- Mil vezes! Mas naquelas cabecinhas só entra o que não os chateia ...
- E o que é que eu faço? Mando entregar ou mantenho a suspensão?
- Mande entregar mas só o papel que está em stock, no armazém, e o que vem no barco que já saiu da Finlândia. Depois ... Não há mais nada para ninguém. Entretanto, prepare as contas para as ir explicar amanhã ao ministro, as dívidas de cada jornal, você conhece o ministro não conhece?
- De vista.
- Então vai conhecê-lo pessoalmente. É um tipo simpático, não sabe o que está a fazer mas é simpático. Ele quer ficar bem inteirado do assunto. A coisa escalda, e ele quer ver se não se queima.
Você vai lá na qualidade de administrador-delegado da empresa que nem produz, nem vende, só paga e não recebe, ou quase.
- Espere aí. Eu não sou administrador-delegado da coisa, se fosse, a coisa já teria acabado há muito ...
- Vai passar a ser a partir desta tarde. Já mandei fazer acta.  Ah! E já vai estar na reunião do CA, que se realiza na sexta-feira da semana que vem para aprovação das contas, as tretas habituais.
E não há aumento de ordenado pelo exercício do cargo mas vai almoçar ao Aviz com os outros membros do conselho, são sete, todos não executivos,  três finlandeses, três portugueses e o administrador-delegado, que passa a ser você em substituição do Pilar. No Aviz, hem! Contas aprovadas em menos de um quarto de hora, e depois ala, para o Aviz! Quer melhor?
...
...
...
- É isso, é isso, é dos corredores do Quelhas. Lembro-me de si, só pode ser de lá.  Vamos lá, então, a ver essas contas e as histórias que tem para contar ...
... ...  ...

- Hum! Temos que acabar com isto ... Desta vez vamos mesmo acabar com isto. Depois de esgotado o que está em armazém e o que já foi embarcado na Finlândia não há mais crédito para ninguém ...
- Não chega ...
- Ah! não??
- Não, não chega. Se não suspendemos os embarques na Finlândia, deixando de avançar com o pagamento antecipado aos finlandeses, continua a pressão para o entregarmos ...
- Pois, pois, é verdade. É isso mesmo que devemos fazer, aliás já o deveríamos ter feito há muito tempo. Avisa-se os finlandeses que este barco que aí vem é "la dernière". Depois, eles que arranjem agente. Deve haver quem queira, que lhe parece?
- Parece-me que o problema deixa de ser nosso. E quanto aos créditos a cobrar, que fazemos?
- Cobramos!
- Em tribunal?
- Acha que só podemos apanhá-los em tribunal? Quanto é que temos de incobráveis, você já disse, mas passou-me...
- Para cima de cinquenta mil contos, a subir todos os dias. Não vejo alternativa senão metê-los no tribunal.
- Nem eu... ... ... Bom. Para já estancamos a dívida, não é?  Depois levamos a perdas os valores incobrados. Este ano, vinte por cento, para o ano ... é, em cinco anos temos as contas limpas. Parece-lhe bem?
- Bem, não me parece, mas o senhor ministro manda.
...
...
...
- Meus senhores, agradeço muito a gentileza das vossas palavras de boas-vindas, mas teria de haver grande falta de sinceridade da minha parte para escusar-me a dizer-vos que, tendo analisado as contas de exploração dos últimos cinco anos encontrei nelas várias imprecisões e alguns erros materialmente relevantes. Passo a detalhar;
... ... ...

Quero, contudo, antes de irmos almoçar no Aviz informar este  conselho de administração que a minha representada pretende anunciar hoje a dissolução da empresa e a denúncia do contrato de agência em consequência das suas características claramente leoninas. Os nossos amigos finlandeses aqui presentes sabem bem que recebem antecipadamente os fornecimentos que vêm fazendo há vários anos mas também não ignoram que não temos recebido dos clientes a maioria dos valores facturados.
Não é culpa deles, vai deixa de ser culpa nossa.
... ... ...
- (Quer dizer que este  o almoço de hoje vai ser o nosso último almoço no Aviz?)
- (Comigo, sim)

E foi.
---
*A semelhança entre estas "Histórias" e a realidade contemporânea não é pura coincidência. Como neste caso, o Estado, isto é, o dinheiro dos contribuintes, continua a ser chapéu debaixo do qual se abriga gente pouco séria.

Thursday, November 03, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS- O CROCODILO DA PRAIA DO TAMARIZ

Este ano, São Martinho deve ter decidido chegar com o verão dele mais cedo. Estiveram uns dias de brasa. Há quem diga que estas vagas de calor fora de tempo são agoiros de calamidades.

- E são. Veja o caso dos terramotos no centro de Itália, há mais de uma semana que a terra não pára de se revoltar.
- Tretas! A terra sempre tremeu, e treme sempre sem aviso prévio, esta vaga de calor não tem nada de anormal.
- Hum! Não se ficam pelos terramotos os indícios de que vêm aí outros terramotos ...
- ...
- Imagine que o Trump ganha as eleições na América!
- Ganha, nada!
- Ganha, ganha! Vai ver se não ganha!
- Será um terramoto político a atingir o topo da escala.
- E depois, que diferença é que isso lhe faz?
- Corre com os latinos que lá trabalham honestamente ... Parece-lhe bem?
- A mim, parece. E, digo-lhe mais: aqui faz-nos falta um Trump para correr com os chineses. Agora só vejo chineses à minha frente. Compram tudo. É a EDP, é a REN, é a Fidelidade, ... um dia destes isto é tudo dos chineses. Porquê?
- Porque, se calhar você, e todos nós, até as cuecas lhes compramos. Já viu, por caso, onde foram feitas as cuecas que trás vestidas?
- Talvez por causa disso ..
- Disso de quê?
- Desta vaga de calor.  Deu à costa ali, na praia do Tamariz, um crocodilo com uns quatro metros, bem medidos, de comprimento.
- Está gozar?
- Vá lá ver!

Por volta do meio dia havia uma multidão a contemplar o bicho.

- Talvez por causa disso, do calor, diz você, mas alguém tem alguma dúvida que, se estivesse a chover, o bicho não estava ali?
- Hum! Não sei porque é que diz isso. Crocodilo passa grande parte da vida na água, a chuva não é coisa que o incomode.
- Sim, a este não incomodava, dissolvia-o.
- Olha para ele! Olha para ele! Não parece que está vivo?
- Parece???  Parece, não. Está mesmo vivo!
- Está nada. É construção na areia...
- Como é que é construção na areia??? Olhe para os olhos dele!
- Bom, esses podem ser de plástico...
- De plástico??? Essa é boa ... não vê como eles brilham?
- É do sol. Podem ser de vidro. Vivo é que ele não está. Se estivesse vivo, mexia-se ... acho eu ...
- Crocodilo pode estar horas e horas sem mexer um pêlo ...
- Crocodilo não tem pêlo.
- Pois não. Mas isso aí não pode ser construção na areia. Tem recortes que não se conseguem com areia.
- Só com areia, não. Mas eles, às vezes, juntam-lhe cimento, sabia?
- Sabia, sabia, mas o que ali está não é construção de areia, é mesmo um crocodilo a sério. E se não acredita vá até lá abaixo fazer-lhe umas festas na cachola.
- Oh senhor aquilo é construção de areia! Bem feita, muito realista, sim senhor, mas é construção de areia.
- Então vá lá abaixo, vá! É capaz ou não é capaz?
- Não me apetece descer as escadas para fazer figura de tolo. Vá lá você!
- Gostava de saber o que vai acontecer quando aqui chegar a maré.
- Venha até cá por volta da meia noite...
- Se a maré cá chegar o croco vai nadar.
- Vai nada. Ele é da areia.
- Não é não. É tudo plástico, garanto eu.
- Mas como é que pode garantir isso? Já lá foi abaixo certificar-se?
- Nem preciso. Há coisas dessas no chinês às toneladas ...
- Bem dizia eu que esses gajos metem cá tudo. Até crocodilos gigantes de plástico em tamanho natural... Volte-se para um tipo para onde voltar é tudo chinês agora. Até as cuecas.



No dia seguinte, quando o repórter chegou ao local do estranho aparecimento, já o réptil gigante tinha ido nadar. Não havia vestígios de ter sido dissolvido pela maré.

Wednesday, November 02, 2016

O JOGO DA CABRA CEGA


" ...

A 18 de Dezembro de 2013, a imprensa portuguesa noticiava que Joaquim Cunha, a sua mulher, Lurdes Mota Campos, e Paulo Lima Peixoto, outro ex-dirigente desta associação empresarial, tinham sido constituídos arguidos por uma fraude de 7,8 milhões de euros de fundos europeus destinados a formação profissional.


2 de Novembro de 2016: O Tribunal de Braga ordenou hoje o arquivamento deste processo devido ao "atropelo grosseiro" de princípios legais por parte do Ministério Público." - aqui


Se o atropelo foi grosseiro, quem paga, mais uma vez, as consequências da incompetência ou conivência exibida?
Nós, como sempre, os tansos fiscais.
Porque os grosseiros atropeladores dos princípios legais, que são pagos para os defender, continuarão impunes.

Tuesday, November 01, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - DOUTORA CARICA


Recebi a notícia, sem outro aviso prévio, logo de manhã, pelo telefone: 

- ...  ... Já agora aproveito para lhe dizer que vai apresentar-se aí hoje uma tal Manuela, Manuela C... da Silva, para trabalhar na sua Direcção... 
- Muito bem. E para fazer o quê?
- Qualquer coisa, invente qualquer coisa. Ela tem habilitações, é doutora ... É pessoa de confiança...

O grupo de empresas tinha sido nacionalizado na ressaca do delírio revolucionário pós-25 de Abril, mas a interferência política no recrutamento ou promoção dos quadros da empresa nunca tinha atingido notoriamente os níveis abaixo da administração. Os administradores, sim, esses eram de nomeação governamental, e rodopiavam nos cargos consoante o sentido dos vendavais políticos. Entrou gente muito competente, gente assim-assim, e gente claramente incompetente, a roçar os mais elevados níveis de incompetência previstos no Princípio de Peter, para a administração. Mas a empresa resistiu bem na prova de competitividade a que estava sujeita pela concorrência a nível mundial, cresceu e diversificou, porque a sua estrutura orgânica dorsal tinha experiência e conhecimentos que ombreavam com os melhores do sector, e não foi alterada por influências políticas. O caso da Manuela C ... da Silva seria, naquela altura, a excepção que faltava à regra.

Poucos minutos depois do telefonema que me incumbia de dar trabalho "à doutora", entrou-me no gabinete o Salgueiro carregado de notícias. Eu, que sempre fui alérgico ao diz-se, diz-se, dos corredores, na ausência de quaisquer informações sobre a senhora que iria trabalhar comigo por decisão unilateral do presidente, ouvi atentamente o Salgueiro, que teve o estranho cuidado de se certificar que as portas estavam fechadas, e falou baixinho, começando por avisar-me: Tenha cuidado com a tipa que vem trabalhar consigo! Ela é sobrinha de ... não sei o nome do tio, mas sei que foi Secretário de Estado num governo do Soares. Ora você não espera que a sobrinha de um Secretário de Estado vá trabalhar durante muito tempo sob as suas ordens, pois não? 
Olhe, meu caro Salgueiro, obrigado pelas informações que me traz mas não fico minimamente preocupado de quem a senhora é sobrinha. Se ela é, como diz, sobrinha de quem é, um dia destes talvez venha a ser administradora, tão transitoriamente como todos os outros que têm passado pelo sétimo. Quanto à hipótese que põe de ela, um dia destes, me substituir no cargo que ocupo, fique tão descansado quanto eu, isto é, totalmente. 

Quando, a seguir à hora de almoço, a  Manuela C ... da Silva entrou no meu gabinete, pensei, conheço esta cara de algum lado, era dos corredores da Universidade que ambos tínhamos frequentado. Pouco mais nova que eu, disse-lhe que me recordava vagamente dela, ela disse que não se recordava de mim. Depois deste meio empate, em pouco mais de meia hora de conversa combinámos um conjunto de tarefas que ela poderia desempenhar até que se pudesse redesenhar a estrutura orgânica da direcção de modo a integrá-la consistentemente no conjunto. E disse-lhe que deveria ir à Direcção de Pessoal preencher os requisitos de admissão estabelecidos na norma da empresa. Foi.

Passaram-se muitos meses, a Manuela C ... da Silva desempenhou sem reparos as funções que lhe atribuí, até ao dia em que fui sobressaltado por um indício de fuga de informações para a concorrência. 
Uma das suas funções era a compilação e análise de informações sobre os mercados e, durante uma reunião com um dos nossos principais concorrentes, percebi que ele sabia sobre nós mais do que devia e que, ou era bruxo, ou a Manuela andava a traficar informações reservadas. Registei e activei o meu sistema de alerta. Falei com ela, disse-lhe o que se tinha passado na reunião com o concorrente, e ela, sem deixar transparecer surpresa, respondeu-me que não fazia ideia nenhuma como é que uma informação que só era do conhecimento dela e meu tinha chegado ao conhecimento do concorrente. Será bruxo? Sei lá, respondeu ela, "yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay" . E ficámos por ali.

Ela a sair, e o Carvalhão a entrar.
O Carvalhão, um engenheiro silvicultor, cultivava a intriga mais que os pinheiros e os eucaliptos. 
A meio da tarde, saía do gabinete, e deambulava ao sabor das portas abertas. Como a minha estava quase sempre aberta, o Carvalhão não desistia de tentar contrariar a minha falta de apetite pelas últimas novidades da casa. E, como a Manuela ia a sair, ele entrou para perguntar se eu tinha cinco minutinhos, só cinco, para uma conversa do meu interesse.
Homem, desembrulhe! Quer a porta aberta ou a porta fechada? Geralmente, o Carvalhão fechava a porta, o rosário dele o mais que continha eram contas contra os adversários políticos, que, por coincidência eram os mesmos que os da Manuela e do tio da Manuela. 
O Carvalhão, não sei porque razão, não acreditava que eu fosse politicamente independente, ainda que não neutro, e não desistia de me catequizar com as virtudes do seu lado político já que, em matéria de futebol, outro dos seus assuntos preferidos de conversa, era notório que eu não dava uma para a caixa. Esperava, portanto, que ele voltasse a mais uma sessão de proselitismo. Mas não.

- Meu caro, disse-me ele quase ao ouvido, tenha cuidado com esta que acabou de sair.
- Hum! E posso saber porquê, Carvalhão?
- Cá por uma conversa que um dia haveremos de ter, mas vai ser demorada. Por agora fique sabendo que ela,  ao contrário do que se pensa, não é licenciada.
- Não é? 
- Não, não é. Mande vir o processo dela da Direcção de Pessoal.

Chegou o processo, estavam cumpridos todos os requisitos estabelecidos nas normas. Carvalhão, como pode ver, está tudo nos conformes. Não está, não. Veja a certidão da carta de curso.
Está aqui, assinada, selo branco, e tudo. Como somos mais ou menos da mesma altura, eu mesmo consigo reconhecer a assinatura. Veja melhor, insistia o Carvalhão. Mirei, remirei o documento, não vi nada que me suscitasse dúvidas. A assinatura, aliás muito simples, estava lá e o selo branco por cima. A irreprimível tendência do Carvalhão para a intriga tinha-se claramente excedido.
Bom, acrescentou ele perante a minha incapacidade de ver o que ele via, vou dar-lhe uma ajuda. Fixe-se no selo branco, o que vê? E só, então, eu descobri onde ele queria chegar. 

O selo branco era o resultado da pressão de uma tampa de uma garrafa de cerveja, ou de qualquer outra gasosa, vulgo carica, num formulário subtraído na secretaria da Universidade, sobre uma assinatura falsificada. Logo que o Carvalhão saiu, mandei chamar a Manuela.

- Manuela, este documento foi entregue por si na Direcção de Pessoal?
Ela olhou, frente e verso, e, displicentemente, devolveu-me o documento.
- Foi.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Não quer verificar antes de confirmar que o documento é mesmo seu, aquele que você mesmo entregou na Direcção de Pessoal?
- Não. Porquê?
- Porque este documento é falso, e se você não me entregar até amanhã, em mão, um documento que prove as suas reais habilitações literárias sou obrigado a abrir um processo disciplinar por declarações falsas graves. 

Ficou a olhar uns largos minutos para o chão, numa atitude completamente oposta da frontalidade com que dialogava com todos, e depois disse: Faça como entender. Não posso obter nenhum documento que possa validamente substituir esse. Amanhã já não volto cá.

Cumprimentei-a, desejei-lhe, francamente, sucessos no futuro, até porque, segundo me contara em tempos o Carvalhão, ela tinha cinco ou seis filhos. 
Não houve processo disciplinar, mas rescisão por mútuo acordo, com uma indemnização correspondente ao período em que trabalhara na empresa.
Nunca mais tive qualquer conversa sobre o assunto com o Carvalhão.



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Obs. - A história é verídica, os verdadeiros nomes dos intervenientes citados são outros. 

Monday, October 31, 2016

ALIÁS

Onze anos.


Sunday, October 30, 2016

URINAR NA ALEMANHA

A torre de igreja mais alta do mundo, em Ulm, na Alemanha, está a ser atacada por uma tradição javarda, pelos vistos com muitos seguidores, de urinarem ou vomitarem junto às suas fundações.  
A reportagem vem hoje aqui, e é repugnante.



Mesmo para quem, de vez em quando, seja surpreendido por um pivete semelhante se passa ocasionalmente em alguns sítios das nossas cidades onde se aliviaram alguns javardos portugueses.
Ou turistas de meia tijela, alemães, por exemplo. 

A MAIORIA DAS UNIVERSIDADES DO MUNDO VÃO DESAPARECER

"A maioria das universidades do mundo vão desaparecer"
A conclusão não é minha.
É uma opinião expressa por David Roberts no El País de 24 deste mês.
Vale a pena ler.

Quem é David Roberts?

"Roberts es uno de los mayores expertos en tecnología disruptiva del mundo y también uno de los rostros más conocidos de Singularity University, la universidad de Silicon Valley creada en 2009 con el apoyo de la NASA y de Google."

Deve estar consciente do que afirma.




Friday, October 28, 2016

O TAUMATURGO

Anda para aí uma barafunda acerca das retribuições concedidas ao sr. António Domingues e seus companheiros da alegria, prodigamente cedidos pelo BPI, e pela recusa deles na entrega das declarações exigidas aos incumbidos de cargos políticos e gestão de empresas ou institutos do Estado. 
Curioso é que, mesmo os contestatários dos volumes das retribuições e das faltas de declarações, concordam na generalidade que o sr. António Domingues é muito competente e capaz de operar o milagre de transformar um insensível quadrúpede numa águia ágil. 
Será mesmo?

Foi o sr. António Domingues um gestor bancário assim tão brilhante durante os 27 anos que aplicou as suas competências ao serviço do BPI antes de precocemente começar o embolso da reforma?
Os resultados não confirmam tanta sagacidade. O BPI viu a sua estrutura accionista quase completamente revolvida ao longo daquele período, uma situação que denuncia a insatisfação dos accionistas fundadores perante a incapacidade da sua gestão de lhes retribuir competitivamente os capitais aplicados. 
É certo que, se uns saíram, outros entraram, mas não terão estes apreciado assim tanto a competência do sr. António Domingues e companhia ao ponto de os manter nos seus quadros. 

Reconheça-se que, entre o lamaçal em que se atolou a banca supostamente portuguesa, o BPI foi o que ficou menos enlameado. Mas, mesmo o BPI, onde o sr. António Domingues vice-presidia, se aventurou em operações (entre outras, aplicações em dívida grega) que colocaram o banco em situação temporariamente dependente da bóia de salvação do Estado.

É complexa a gestão bancária?
É muito mais complexa a gestão da indústria.
Prova do que afirmo está no facto de, depois da reprivatização da banca, terem crescido como cogumelos os banqueiros em Portugal. Tantos e tão bons que era um enigma não ter nascido, nem então, nem nunca, um único industrial com gabarito parecido.

O sr. António Domingues, municiado com as exigências que colocou ao accionista (i.e., ao governo) 
tem, espera-se, condições para colocar a Caixa e os caixeiros nos eixos. Como?
Estranhamente, do meu ponto de vista, um dos participantes na "Quadratura do Círculo" dizia, ontem à noite, que esperava que o sr. António Domingues reestruturasse a Caixa e obtivesse os resultados esperados. Como: Pois, dizia ele, ganhando quota de mercado, tirando quota de mercado aos principais concorrentes, ao Santandertotta, ao BPI ...
Estranhamente, porque, quem isto afirmava, é administrador do BPI. E o sr. António Domingues, accionista do mesmo banco. Até mais ver.

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Correl . - vd. aqui

TUESDAY, FEBRUARY 07, 2006


CONTOS DA ÁGUA TÓNICA


A história é antiga mas repete-se a cada passo: um amigo dos copos costumava desdobrar os chutos com água tónica, bebia gim com água tónica, ficava bêbado, bebia vodka com água tónica, idem, bebia whisky com água tónica, bêbado ficava, bebia rum…, bebia tudo quanto era álcool com água tónica, mesmo que o casamento nem sempre fosse feliz, e embebedava-se. De modo que concluiu que a água tónica embriaga mesmo.

Conclusões semelhantes extraem alguns comentadores e atentos observadores da realidade circundante seja ela política, económica, ou qualquer outra.

Alguns exemplos:

Lucros da banca portuguesa explicam-se por ser o único sector do país ao nível do topo mundial, disse ontem o Presidente do MillenniumBCP em entrevista na Antena 2, Público e Rádio Renascença.

O Presidente do BES, em entrevista dada antes no mesmo programa dissera, sobre o assunto, praticamente o mesmo. Em outras ocasiões ouvimos convicções parecidas. Os banqueiros deste País, e só eles, bebem de uma água tónica qualquer que os transmuta em génios de gestão empresarial. Os outros, bebem qualquer água tónica e não passam de Pedro.

Porque ninguém pergunta: Como é que todos os Bancos são altamente rentáveis, porque é que todos os Bancos são superiormente dirigidos, porque é que todos eles são casos de sucesso, porque é que, até hoje, nenhum falhou, porque é que o BCP subiu como um foguete no meio de uma economia de caracol, porque é que o BPI, o BANIF, Financia, o Banco Privado Português, todos, crescem, crescem, crescem, e os seus presidentes são sempre tão bem sucedidos, como é que o BPN fulgura e até a Caixa, imaginem a Caixa! um banco do Estado, um paquiderme, arrecada milhões e deita foguetes independentemente do Presidente e vogais que o Governo nomeia. Até hoje, nenhum banqueiro falhou, ou se falhou, falhou tão pouco que não se deu por isso. São todos excelentes. Acaso? Tanta competência num contexto em que ela é tão rara deve-se à ingestão de alguma rara água tónica.

Em contrapartida os gestores da indústria neste país são geralmente pouco espertos porque não bebem o que deviam. O próprio engenheiro Belmiro, malgré lui, tem tido mais problemas do que contava com o seu sector industrial e é sobejamente sabido que não foi nele que fez fortuna, quanto muito deu-lhe um pouco de altura inicial, assim uma espécie de banquito parecido com aquele de onde as pessoas se esticam para ver as marchas passar. Dá a impressão que o engenheiro bebe o que deve mas tem fases de hidrofobia.

Se os seus negócios da distribuição do engenheiro não se situam a nível do topo mundial, na opinião do presidente do BCP, os seus proveitos, segundo tudo leva a crer, não se ficam atrás dos seus pares banqueiros. Hoje mesmo ficámos a saber que o engenheiro está novamente a atirar isco para o charco, e se não é desta que apanha a PT, alguma coisa vai, certamente, ganhar o engenheiro com a jogada. De que água se saciará o engenheiro? Terá, também ele, acesso á poção mágica e os banqueiros não sabem?

Mas há, seguramente, mais gente a beber do fino. O sector de construção civil e obras públicas, por exemplo, está recheado de casos a merecerem teses de doutoramento. Na PT, a tal água tónica é certamente dada a beber aos presidentes e vogais nomeados, porque todos eles, sem excepção, têm desempenhado as suas funções com brilhantismo que só os desígnios governamentais não reconhecem quando alternam. Se os deixarem lá chegar, os Azevedos, excederão todos os que os antecederam a beber da tónica com que a PT conta.

Noutro lado, alinham aqueles que não bebem a tónica que deviam beber: geralmente nos sectores primário e secundário, aonde só vão parar, aparentemente, gestores incapazes ou, quanto muito assim-assim.

E, contrariamente à versão dos banqueiros, o sucesso de uns e o desastre dos outros, não é uma fita recente, é uma história antiga. Industriais com I grande estão para aparecer em Portugal, alguns deram um ar da sua graça, mas, seguramente, nenhum bebeu da tal tónica ou não bebeu o suficiente.

Se nas telecomunicações sabem do que bebem nas comunicações, geralmente, não bebem do que deviam. O actual CEO da TAP parece ter dado meia volta ao texto mas não escapa ao contexto. Definitivamente, á CP, à Carris, ao Metro, e a outras artes equiparadas só arribam lázaros.
Porque é que ninguém lhes diz onde se bebe a tal água tónica?

Tuesday, October 25, 2016

QUEM É O ACCIONISTA DA CAIXA?

"António Domingues* e os restantes gestores da Caixa Geral de Depósitos estão dispensados de apresentarem a sua declaração de rendimentos perante o Tribunal Constitucional, esclareceu o Ministério das Finanças, em resposta às questões do Negócios. "Não foi lapso. O escrutínio já é feito pelo accionista", adiantou fonte oficial do gabinete de Mário Centeno ... " - aqui 

E quem é o accionista de todas as outras empresas públicas?

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* Não declaração de alguns interesses, e a confusão entre interesses públicos e privados:

"António Domingues recebeu 56.042 acções do BPI quando deixou o conselho de administração deste banco, a 30 de Junho de 2016, para assumir a presidência da Caixa Geral de Depósitos. O seu valor é de 62 mil euros, aos quais acrescem os 233 mil euros referentes a 426.820 opções de compra (que só podem ser exercidas a partir de Julho de 2018)". - aqui

Ao sr. Domingues não basta ser honesto. Também deve parecer.