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Sunday, January 28, 2024

QUEM TEM MEDO DAS MULHERES?

Bárbara Wong,

Leio o seu artigo, quem tem medo das mulheres?, e penso: talvez Bárbara Wong tenha explicação para um paradoxo, penso que seja um paradoxo, que pode ter uma tremenda influência na geopolítica mundial, tão periclitante neste momento, e para a qual o poder do voto das mulheres norte-americanas parece poder continuar a ser decisivo nas eleições de 8 de Novembro.

Segundo notícias de anteontem, Trump foi condenado a pagar 83 milhões de dólares a E. Jean Carroll por difamação - Jury orders Trump to pay E. Jean Carroll more than $83 million for defaming her.

Se vai pagar ou não, veremos.  
De qualquer modo está em causa muito dinheiro, mesmo para Trump. 
Os escritórios de advogados nos EUA, em casos como este, trabalham à comissão como os agentes imobiliários: se são bem sucedidos pagam-se milionariamente; se não, não recebem, mas batem-se pelo resultado esgotando todas as hipóteses de sucesso que cada caso promete. Se o caso não promete, não aceitam, neste caso aceitaram.

Pelo andar da carruagem, percebe-se que Trump continua, em cada dia que passa, a aumentar as suas possibilidades de voltar a ser eleito e ocupar a Casa Branca, pelo menos, entre 2025 e 2029.
Quem vota em Trump?
Hillary Clinton considerou "deplorables" metade dos apoiantes de Trump, sexista, misógino, racista,  Pressionada pelo ambiente politicamente correcto, pouco depois, Hillary retratou-se. Mas, se não era metade, os votos dos "deplorables", foram decisivos para a vitória de Trump em 2016, ainda que Clinton tenha obtido a maioria dos votos mas perdido no Colégio Eleitoral.

Quem apoiou maioritariamente Trump nas eleições de 2016, os homens ou as mulheres.
Resposta inequívoca: as mulheres.
 
Durante o seu mandato, Trump não só confirmou os comportamentos reprováveis que Hillary Clinton tinha apontado, e só perdeu por ter falado verdade, como acumulou outros, nomeadamente o apoio à insurreição que levou à ocupação do Capitólio, vista em todo o mundo, e à ameaça física a congressistas e senadores reunidos no Colégio Eleitoral  para aprovarem os resultados das eleições que tinham elegido Biden.
 
Trump será, muito provavelmente, eleito em 8 de novembro.
Quem decisivamente apoiará Trump? Os evangélicos.  
Mas os evangélicos não serão maioritariamente homens. Admitamos que também não serão maioritariamente mulheres. Admitamos que não sabemos.
O que sabemos é que, segundo as sondagens, o voto das mulheres norte-americanas, evangélicas ou não, em Trump continuará a ser maioritariamente decisivo. 
Porquê?
Eu não sei. A Bárbara sabe?

Num almoço de casais amigos, o tema veio à conversa.
 
- O voto feminino é maioritário porque na população norte-americana, à semelhança do que acontece na generalidade dos países, a população feminina é maioritária; logo o voto reflecte essa maioria. Para mim é essa a explicação.
- Então, se essa explicação for válida, a misoginia não é factor que reequilibre no voto a minoria dos homens na população total. A misoginia não apoquenta a generalidade das mulheres norte-americanas. É isso? A misoginia não é um factor diferenciador decisivo no voto.
- É o que eu penso. Aliás, confirma a votação maioritariamente feminina em Trump no confronto com a primeira mulher candidata ao lugar, Hillary Clinton.
 
- Pois eu penso que a resposta tem de ser procurada em Freud.
- ?
- Há um comportamento freudiano que explica o voto das mulheres num misógino repetidamente assumido.
- ?
- Se não se percebe a minha explicação, explico melhor, e que ninguém se escandalize ...
- ?
- Trump é tudo isso o que dizem dele, que ele não se exime de confirmar, mas indiscutivelmente Trump é um macho soberbo ... Hei!, hei!, ainda não terminei ... posso terminar, por favor? ... dizia eu que Trump é um macho soberbo, e é, alto. forte, louro, determinado, agressivo, ... enfim, é um touro. E, ainda que eu possa escandalizar as senhoras presentes, não sendo essa a minha intenção, mas a impertinente pergunta que me ocorreu, quantas mulheres norte-americanas não têm em noites de insónia ou sonos excessivos, pensamentos libidinosos com um matulão daqueles ao lado, também certamente, em cima ou em baixo?
 
- Rafael! Não te estou a conhecer. Estamos casados há cinquenta anos, pensava que te conhecia, afinal não te conheço. A tua observação é simplesmente ... simplesmente ...mete-me nojo! Pensas que as  mulheres norte-americanas são estúpidas?
- Não disse nada disso, nem falei de todas as mulheres ... apenas admiti no meu raciocínio que algumas mulheres, não sei quantas, mas certamente muitas, votam em Trump porque ele é fisicamente atraente de modo a subvalorizar a sua brutalidade. Ficaria muito satisfeito se houvesse explicação menos desfavorável para as senhoras, em geral.
 
- São masoquistas?
- Se for o caso, pior ainda. No entanto, convém recordar que o movimento Me Too acerca do abuso sexual ou do assédio sexual nos locais  de trabalho atingiu  a maior notoriedade em 2017 em consequência de relatórios de abuso sexual do produtor de filmes norte americano Harvey Weinstein. A torrente de denúncias que se seguiu envolveu figuras públicas que, até esse momento, tinham permanecido caladas, parecia não ter fim. No entanto, que efeito teve esse movimento de denúncia e repulsa na solidariedade feminina norte-americana com Trump? 
- As mulheres viveram subjugadas ao poder masculino durante milénios. 
- E essa realidade incontestável justifica uma politicamente relevante para os EUA, mas não só,  adoração feminina por Trump? 
 
- Cala-te Rafael!
- Calo, mas não é por me calar que as razões dessa adoração, podem chamar-lhe outra coisa, quaisquer que elas sejam, vão deixar de subsistir.

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Correlacionado,
 
Os deploráveis - 29/09/2020

Tuesday, September 29, 2020

OS DEPLORÁVEIS

A 10 de Setembro de 2016, Hillary Clinton, candidata à presidência dos EUA, qualificou como deploráveis metade dos apoiantes de Trump - Half of Trump supporters 'basket of deplorables' -   

Pressionada pelo politicamente conveniente dos media, e, muito provavelmente, pelos seus assessores,  depois retratou-se pedindo desculpa aos (deploráveis) apoiantes trumpistas, prometendo, no entanto, continuar a lutar contra a intolerância e retórica racista. E, no entanto, é muito claro que tudo o que Clinton afirmou era e continua a ser verdade: Trump é racista, misógino, homofóbico, xenófobo, e não só".

Trump durante toda a campanha, e até nos debates, não se coibiu de insultar Clinton e, implicitamente, os apoiantes da candidata democrata, aliás, Trump mente e insulta a uma cadência imparável e insuperável. Alguém, alguma vez, o ouviu desculpar-se ou emendar o que disse por mais grosseiras e insultuosas que sejam as suas insolências? Nunca. Trump não hesita sequer em colocar em causa os princípios básicos da democracia e recusa-se a declarar que aceita os resultados das próximas eleições se as perder. Porque não admite uma eventual derrota, se os resultados eleitorais determinarem o contrário, Trump já anunciou que considerará as eleições fraudulentas. O descaramento de Trump foi feito à medida da sua insolência.

Hillary não deveria ter recuado um milímetro sequer na qualificação que atribuiu a metade dos apoiantes de Trump porque era, e é verdade, o que afirmou, e, se calculou mal foi por defeito porquanto é muito mais de metade o número daqueles que votam em Trump porque Trump é tudo aquilo e muito pior. Trump, aliás, não é culpado de ser presidente dos EUA nem será culpado da sua eventual reeleição. Culpados são deploráveis e os oportunistas que o apoiam e votam nele.

Hoje, às oito locais, uma da manhã de Lisboa, realiza-se o primeiro debate televisivo entre Trump e Biden. De um lado um touro, do outro um forcado sem envergadura física nem jogo de cintura que possam convencer os indecisos a dar a vitória aos democratas. Biden não pode jogar à defesa, Trump joga sempre ao ataque, mas a Biden falta força e determinação para, em contra ataque, pegar o touro de caras ainda que não lhe faltem argumentos. 

Como é que é possível defrontarem-se dois velhos nestas duas eleições para a presidência da nação (ainda) mais poderosa do mundo? Entre a força bruta de um apoiado por deploráveis que votam contra a sua própria dignidade (os mais desfavorecidos que pagam mais impostos que Trump, as mulheres de quem Trump afirma o pior, os latinos que Trump considera estúpidos) e a inexplicável escolha dos democratas que se apresentam com um candidato sem força física e anímica para anular as investidas erráticas de Trump é muito provável que Trump seja reeleito apesar as sondagens serem geralmente favoráveis a Biden.

Foi o que aconteceu com Hillary Clinton em 2016.



Saturday, September 26, 2020

O JOGO DA CABRA CEGA

Anteontem, pelo Público soube-se - Professor de Direito compara o feminismo ao nazismo -  que esse professor de direito, Francisco Aguilar, está ser julgado por violência doméstica, e que a Faculdade de Direito retirou da Net programas de cadeiras do mestrado em que o Aguilar fala de mulheres com o pessoas desonestas, compara o feminismo ao nazismo, "nazismo" de género do totalitarismo dos Estados Feministas do Ocidente", terminando com "Morte a todos os comissário políticos do Conselho Superior da Magistratura!" "Morte à escolha de de professoras feministas para entrevistas ao CEJ." "Morte a todos os feministas." Repudia a "transmutação total dos valores do Ocidente resultante da adopção da besta do pó-modernismo iluminista ... dos psicólogos que dizem que as empresas devem contratar mais mulheres, designadamente para cargos dirigentes, porquanto as mulheres são, na linguagem pós-moderna, mais emocionalmente inteligentes que os homens, ... i.e., precisamente aquilo que, na Antiguidade, na Idade Média e ainda no Antigo Regime, mas já na Idade Moderna, se chamava [sic] pessoas desonestas. de "espertas", em suma, de canalhas", lê-se no ponto 49 do programa de Direito Processual Penal III", do prof. Aguilar.

O discurso do prof. Aguilar é um escarro na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Como é que um indivíduo é professor na FDUL há 30 anos e só agora deram por ele? Lê-se este artigo e só gente muito desmemoriada não se recordará do juiz Neto Moura que citava a Bíblia para atribuir pena suspensa a dois homens que agrediram vítima com uma moca de pregos, uma agressão  "não de gravidade bastante" segundo o juíz e, acrescente-se, uma juíza que subscreveu a sentença, invocando mais tarde não ter lido até ao fim o acórdão que assinou. Cf. aqui e aqui

Ontem, o Público noticiava - Juíza absolve professor (Aguilar) de violência doméstica. Mulher "também provocava", disse.  Professor de Direito estava acusado por uma ex-aluna, dez anos mais nova. A juíza Joana Ferrer referiu que expressões que ele usou foram motivadas “pela pressão, pelo gozo e pela violência psicológica a que a assistente igualmente o sujeitava”. Faculdade de Direito abriu processo de inquérito por Francisco Aguilar ter dois programas onde compara feminismo a nazismo. 

Só por isso?

Monday, November 14, 2016

QUANTO MAIS ME BATES

Raramente, dou uma olhadela pelo retrovisor.

Mas ontem, a propósito de uma reportagem publicada no Expresso,

- Como votou a América - Quem votou em Trump 
- 53% de mulheres brancas votaram em Trump

observei que, há mais de um ano, anotei aqui :

THURSDAY, AUGUST 27, 2015

QUANTO MAIS ME BATES

Anda meia América abismada com a progressão do "The Trump" para a sua nomeação como candidato republicano às eleições presidenciais de 8 Novembro de 2016, uma terça-feira. Do lado republicano, estão acabrunhados, ninguém avança decididamente para o travar, do lado democrático porque receiam que Hillary Clinton não seja capaz de enfrentar a bisarma que, como a hidra, parece multiplicar-se à medida que lhe caem em cima  acusações de fanatismo e brutalidade, e Joe Biden, o actual vice-presidente, está a ser incentivado a avançar.
.
Para além de várias outras repelências, "The Trump" é um misógino gabadamente assumido. Num país onde 53% do eleitorado são mulheres, como se compreende esta aparente condescendência, de que resulta inequívoco implícito aplauso, relativamente a um fulano que obstinadamente as insulta?
.
Está muito generalizada a ideia de que a grande vantagem de Donald Trump é dizer, alto e bom som, o que os outros pensam mas calam. Se isto é verdade, ou mesmo meia verdade apenas, "God save America" porque os norte-americanos perderam o tino.


Thursday, August 27, 2015

QUANTO MAIS ME BATES

Anda meia América abismada com a progressão do "The Trump" para a sua nomeação como candidato republicano às eleições presidenciais de 8 Novembro de 2016, uma terça-feira. Do lado republicano, estão acabrunhados, ninguém avança decididamente para o travar, do lado democrático porque receiam que Hillary Clinton não seja capaz de enfrentar a bisarma que, como a hidra, parece multiplicar-se à medida que lhe caem em cima  acusações de fanatismo e brutalidade, e Joe Biden, o actual vice-presidente, está ser incentivado a avançar.
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Para além de várias outras repelências, "The Trump" é um misógino gabadamente assumido. Num país onde 53% do eleitorado são mulheres, como se compreende esta aparente condescendência, de que resulta inequívoco implícito aplauso, relativamente a um fulano que obstinadamente as insulta?
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Está muito generalizada a ideia de que a grande vantagem de Donald Trump é dizer, alto e bom som, o que os outros pensam mas calam. Se isto é verdade, ou mesmo meia verdade apenas, "God save America" porque os norte-americanos perderam o tino.