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Tuesday, November 08, 2022

OS DEPLORÁVEIS

"They're racist, sexist, homophobic, xenophobic, Islamophobic" - Hillary Clinton - 9 de Setembro de 2016 
"Make no mistake — democracy is on the ballot for us all. " - Biden - Remarks by President Biden on Standing up for Democracy - 2 de Novembro de 2022   
 
"Os 25 norte-americanos mais ricos quase não pagam impostos" - aqui
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A.,

Perguntaste-me há dias se eu percebia porque é que metade dos brasileiros votaram em Bolsonaro e a outra metade, os mais pobres, em Lula, enquanto, grosso modo, nos EUA, os estados mais desenvolvidos, tanto económico como culturalmente, das orlas leste e oeste, votam nos "democratas", liberais, e os dos estados do interior, mais pobres  e menos instruídos, votam nos republicanos, conservadores e ultra-conservadores.

Do meu ponto de vista, tanto no Brasil como nos EUA, a divisão é fortemente determinada pelo nível geral de desenvolvimento económico e social e a geografia do voto reflete essa partilha. No Brasil votaram em Lula os estados onde, por múltiplas razões, são mais elevados os níveis de pobreza e o discurso (e a prática)  de Lula é mais direccionado para as necessidades de larga maioria das populações do norte e, principalmente, do nordeste do país. 
Bolsonaro, na recta final da campanha, ainda correu para o norte e nordeste a prometer políticas assistenciais, mas a promessa tardia já viu o pobre de costas.
No Brasil observou-se  voto útil em causa própria.
 
 
 

 
Nos EUA, pelo contrário, nos estados menos económico e culturalmente desenvolvidos, onde há ressentimento das comunidades rurais contra os privilégios, o cosmopolitismo,  dos grandes meios urbanos, a votação volta-se maioritariamente para os republicanos conservadores e ultra-conservadores que exaltam os valores antigos, contra a imigração, a homofobia, a prevalência do homem, a subalternização da mulher, a xenofobia, e, muito sobretudo, a fé num líder iluminado capaz de conduzir o rebanho segundo os desígnios prescritos nas escrituras sagradas. Não lhes importa a fuga dos multimilionários aos impostos, indignam-se com os impostos que pagam. Votam em promessas de retrocesso de um mundo que consideram a percorrer maus caminhos. E, consequentemente, apoiam Trump e os seus acólitos, que rejeita o estado de direito, as decisões dos tribunais, porque ninguém se pode posicionar acima dele, o deus dos deploráveis.  
 
Hillary Clinton considerou deploráveis estes que não votam em causa própria. Arrependeu-se no dia seguinte e Trump não largou o osso até ao fim da campanha. Hillary fez mal e, também por isso, perdeu a eleição em 2016. Deveria ter esclarecido os destinatários, devia-se ter batido pelas razões subjacentes à designação que usou. 
Biden, há dias, enfatizou o apelo à defesa da democracia, mas foi um apelo que serviu os interesses de Trump e seus correligionários que sabem que, deploravelmente, a democracia é precisamente aquilo que o deploráveis rejeitam.
Eles, Trump, Bolsonaro, Putin, Xi Jinping, ... e tantos outros porque a mancha do totalitarismo, da autocracia, está a alastrar como há noventa anos.

Tuesday, September 29, 2020

OS DEPLORÁVEIS

A 10 de Setembro de 2016, Hillary Clinton, candidata à presidência dos EUA, qualificou como deploráveis metade dos apoiantes de Trump - Half of Trump supporters 'basket of deplorables' -   

Pressionada pelo politicamente conveniente dos media, e, muito provavelmente, pelos seus assessores,  depois retratou-se pedindo desculpa aos (deploráveis) apoiantes trumpistas, prometendo, no entanto, continuar a lutar contra a intolerância e retórica racista. E, no entanto, é muito claro que tudo o que Clinton afirmou era e continua a ser verdade: Trump é racista, misógino, homofóbico, xenófobo, e não só".

Trump durante toda a campanha, e até nos debates, não se coibiu de insultar Clinton e, implicitamente, os apoiantes da candidata democrata, aliás, Trump mente e insulta a uma cadência imparável e insuperável. Alguém, alguma vez, o ouviu desculpar-se ou emendar o que disse por mais grosseiras e insultuosas que sejam as suas insolências? Nunca. Trump não hesita sequer em colocar em causa os princípios básicos da democracia e recusa-se a declarar que aceita os resultados das próximas eleições se as perder. Porque não admite uma eventual derrota, se os resultados eleitorais determinarem o contrário, Trump já anunciou que considerará as eleições fraudulentas. O descaramento de Trump foi feito à medida da sua insolência.

Hillary não deveria ter recuado um milímetro sequer na qualificação que atribuiu a metade dos apoiantes de Trump porque era, e é verdade, o que afirmou, e, se calculou mal foi por defeito porquanto é muito mais de metade o número daqueles que votam em Trump porque Trump é tudo aquilo e muito pior. Trump, aliás, não é culpado de ser presidente dos EUA nem será culpado da sua eventual reeleição. Culpados são deploráveis e os oportunistas que o apoiam e votam nele.

Hoje, às oito locais, uma da manhã de Lisboa, realiza-se o primeiro debate televisivo entre Trump e Biden. De um lado um touro, do outro um forcado sem envergadura física nem jogo de cintura que possam convencer os indecisos a dar a vitória aos democratas. Biden não pode jogar à defesa, Trump joga sempre ao ataque, mas a Biden falta força e determinação para, em contra ataque, pegar o touro de caras ainda que não lhe faltem argumentos. 

Como é que é possível defrontarem-se dois velhos nestas duas eleições para a presidência da nação (ainda) mais poderosa do mundo? Entre a força bruta de um apoiado por deploráveis que votam contra a sua própria dignidade (os mais desfavorecidos que pagam mais impostos que Trump, as mulheres de quem Trump afirma o pior, os latinos que Trump considera estúpidos) e a inexplicável escolha dos democratas que se apresentam com um candidato sem força física e anímica para anular as investidas erráticas de Trump é muito provável que Trump seja reeleito apesar as sondagens serem geralmente favoráveis a Biden.

Foi o que aconteceu com Hillary Clinton em 2016.