Wednesday, November 06, 2019

O JOGO DA CABRA CEGA


Leio no Público de 30/10, aqui.
"...
...  ... Na semana passada, o SMMP (Sindicato dos Magistrados do Ministério Público) divulgou um comunicado com seis páginas, intitulado “Restabelecer a legalidade no Ministério Público”, onde se insurge contra práticas “ilegais” que se instituíram nesta magistratura, por vezes de forma informal, à margem do Código Processo Penal. E pede a Lucília Gago e ao Conselho Superior do Ministério Público para proibirem e punirem o que chama de “práticas ilegais”. “O superior hierárquico não pode dar ordens ao magistrado do Ministério Público titular de um inquérito para este acusar ou arquivar um processo contra determinada pessoa”, lê-se no comunicado. E acrescenta-se: “O superior hierárquico não pode igualmente ter interferência nas diligências de produção de prova, isto é, não pode determinar ou impedir a realização de buscas ou intercepções telefónicas, a constituição de arguidos ou inquirição de testemunhas, tal como também não pode determinar o teor de perguntas, sugerir que se façam outras ou se suprimam algumas que entenda não serem adequadas.”
Mas o que aconteceu em Tancos não é a única situação a alarmar o sindicato, que condena outro tipo de “instruções” para que os procuradores não deduzam acusações sem antes as submeterem à apreciação do seu superior hierárquico. “Esta prática ilegal liquida por completo a autonomia interna dos magistrados, transformando-os em ‘meninos de escola’ que mostram os seus trabalhos de casa ao ‘professor’ para que este os aprecie e lhe anote os erros”, afirma o SMMP, que condena igualmente orientações para que os procuradores não peçam absolvições no final dos julgamentos, mesmo que considerem que não foi feita prova dos crimes.
.
Percebo a posição defendida pelo Sindicato: aos magistrados do MP assiste a obrigação de investigarem com independência de qualquer nível hierárquico. De outro modo seriam transformados em "meninos de escola" que mostram os seus trabalhos de casa ao professor.
.
Não entendo, no entanto, que o SMMP não conteste que as investigações e conclusões muito complexas e muito demoradas, que conduziram à dedução de acusação, no caso da "Operação Marquês", por exemplo, sejam submetidas à apreciação de um Juiz de Instrução a quem é dado o poder de recusar provas e conclusões tornando em "meninos de escola" os muitos magistrados envolvidos no mega-processo que ameaça abalar de vez o prestígio do MP.
.
Poderá argumentar-se que das decisões do Juiz de Instrução pode o MP recorrer para a Relação. Mas
esta faculdade não retira ao magistrados do MP a contingência de serem tratados como "meninos de escola".
Neste caso, na primeira fila da fotografia do grupo.

Tuesday, November 05, 2019

JUVENTUDE NEURÓTICA





O autor, austríaco, desta peça de teatro em cena no Teatro Aberto, Ferdinand Bruckner ( Sófia 1891 - Berlim 1958 ) situou este seu trabalho sugerido pela instabilidade psicológica da juventude vienense percepcionada pelo autor nos anos 20 do século passado. A peça foi publicada em 1929, a acção decorre em 1923, e encena uma epidemia moral que atingia a juventude burguesa daquele tempo em Viena e se alastrava pela Europa no pós-primeira guerra mundial.
Resumidamente, há um grupo de estudantes de medicina, três rapazes, três raparigas e uma jovem e inocente empregada do grupo. Um dos estudantes é dominador e regozija-se a destruir as relações entre eles: corrompe a inocente empregada, anima as tendências suicidas da bissexual aristocrática, e acaba por  voltar-se para quem antes repudiou ostensivamente.
É nesta amostra de neurose colectiva da juventude que Bruckner sugere a emergência do fascismo, e nova guerra, duas décadas depois.

Sugere a reposição desta peça publicada há noventa anos a recidiva de uma situação patológica moral com sintomas semelhantes nos dias de hoje, augurando idênticas consequências? É essa a implícita  explicação desta e de outras reposições recentes da peça.

Relativamente ao trabalho em cena no Teatro Aberto, considero, mais uma vez a propósito das mais recentes representações do TA, que a projecção de vídeos desvaloriza a arte do teatro, o cenário, de tão exagerado em dimensões e iluminações, desvia a atenção dos espectadores da expressividade dos actores. E o guarda roupa é um excesso: em gosto, porque Tenente é um bom estilista, em quantidade porque uma peça de teatro não é um desfile de moda. Ainda que um desfile de moda tenha o seu lado teatral.

Thursday, October 31, 2019

Monday, October 28, 2019

O TRIUNFO DA ECONOMIA DA CUECA


- Tem tenazes para apanha de nozes no chão?
- De nozes? 
- Sim, de nozes, de castanhas, que caem das árvores de quem as tem, mas já não tem idade para andar de cócoras a apanhá-las nem lombares para se debruçar.
- Hum! Hum! Já sei do que fala. Já tive, já ... mas esgotaram-se. Posso mandar vir, se quiser, mas só cá chegam daqui a uma semana, pelo menos. 
- Uma semana?
- Uma semana, pelo menos. Vêm da Holanda.
- Da Holanda? As tenazes são feitas na Holanda? 
- Não sei se são lá feitas, só sei que as mandam vir de lá. Custam cinco euros e meio, salvo erro. 
- Uma semana é muito. Entretanto, estragam-se-me as nozes no chão.
- Talvez encontre no chinês, aí em cima, nesta mesma rua.

- Tem tenazes para apanhar coisas do chão?
- Tem, tem. No andar debaixo, no segundo coledor ...ao meio.
Tinha.
- Quanto custa?
- Um euro e meio.

Como é possível produzir na China uma tenaz, transportá-la e vendê-la em Cascais ou em Castelo Branco por um euro e meio?
É fácil entender como.
O arranque da economia chinesa iniciado com a teoria do gato de Deng Xiaoping - não importa se o gato é branco ou preto, desde que cace ratos-, o comunismo chinês adoptou o gato capitalista na casa comunista, montando este sistema híbrido sobre os três pilares negativos (não há democracia, não aos direitos humanos, não há liberdade de expressão) com os quais o actual presidente vitalício Xi Jinping se propõe dominar o mundo até 2049, ano do centésimo aniversário da fundação da República Popular da China. vd. aqui.
 
Há anos, começaram a chegar ao ocidente confecções, inicialmente de contrafacção, a preços que encerraram ou deslocalizaram, o efeito é o mesmo, fábricas como no Vale do Ave. Depois o made in China, mais recentemente crismado made in RPC,  tornou-se corrente no mundo ocidental, agora já prestigiado pelas marcas de renome internacional, e alargou-se, e continua a alargar-se às mais diversas produções, tanto de mão de obra intensiva como de tecnologia altamente sofisticada. 
Para pagar as cuecas e quejandos, os brinquedos. até os pinhões no bolo-rei, vendemos ao estado chinês ou aos bilionários chineses de fresca data o domínio ou quase domínio da EDP, da REN, da Fidelidade, do Hospital da Luz, o BCP, da TAP, entre outros. 
Fomos só nós? De modo algum. O comunismo capitalista chinês está a alargar-se por todo o lado. É inevitável? É recomendável? É bom que assim seja? Há quem diga que sim.
Aceitaria quem diz que sim viver num sistema que repudia a democracia, os direitos do homem, a liberdade de expressão?

O certo é que, para já, a economia chinesa alavancada pela economia da cueca, triunfou.
Poderíamos comprar aos chineses além de cuecas e tantos outros artefactos afins, equipamentos que dinamizassem o crescimento da nossa economia, em estado letárgico?
Comboios de alta, ou mesmo média, velocidade, por exemplo.
Poderíamos mas não temos (não temos mesmo?) recursos para ir além das cuecas.

No Programa do Governo (transcrevo do Publico de 27/10) "são prioridades para a presidência portuguesa (da União Europeia) o Pacto para a Europa Verde, a Europa social, a transição digital e a relação entre a Europa e a África."
Subscrevo.
E quem vai continuar a confeccionar as cuecas? 

Sunday, October 27, 2019

UM BRÊXIT SEM SAÍDA


Do Economist desta semana, transcrevo a parte publicada on line de um artigo sobre o fervor europeísta que assaltou parte significativa dos britânicos após o confronto com a iminência da saída do UK da UE.
Sempre se soube que, sobretudo os ingleses, ainda de ego cheio no tempo em que eram imperiais, se sentiam desconfortáveis como membros de um clube onde entrava gente de gostos duvidosos, avaliados pela bitola britânica, e, pior que tudo isso, não tinham a exclusividade do comando a bordo. 
Um dia ofereceram-lhe num referendo a decidir por maioria simplicíssima, a hipótese de sair, e, entre verdades e mentiras, o sim à saída ganhou por uma unha negra. 
Quem fazia contas, sobretudo em Londres, e principalmente na City, recomendava a permanência do reino britânico na UE, os outros marimbaram-se para as contas e votaram consoante lhes tocou mais ou menos o ardor nacionalista, que, entretanto, tinha crescido como cogumelos por todo o lado europeu e fora dele, esquecidos da guerra global, ateada na Europa, oitenta anos antes.
Agora o reino vai sair mas não atina com a porta de saída.

No dia em que der com ela, a saída pode funcionar como uma bomba de fragmentação: do Reino Unido e da União Europeia, onde sopram os ventos nacionalistas, a arrastar fuligem populista, racista, xenófoba, chauvinista, para gáudio do imperador Xi Jinping, do czar Putin, do inqualificável Trump.
A Catalunha, rica, não suporta pertencer ao mesmo clube frequentado pela Andaluzia pobre ou pela Galiza remediada. A Itália do Norte despreza a Itália do Sul, o Leste estende a mão ao ocidente e pisca o olho ao outro lado.
Em Portugal, os extremos políticos batem palmas, ao lado de Putin e Trump, talvez sem se dar conta, pela fragmentação da Europa.
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BEFORE THE referendum in 2016 European Union flags were as rare as golden eagles in Britain. Today they are as common as sparrows. Parliament Square is permanently festooned with them. Activist Remainers flaunt flag-themed berets and T-shirts. On October 19th a million-strong army of People’s Vote supporters marched on Westminster beneath a sea of gold and blue standards.
This points to one of the oddest paradoxes in this odd period in British politics. It took a vote to leave the EU to shock millions of Britons into realising how much they liked it. Britain had always been an outlier in believing that the EU ought to be little more than a convenient trading arrangement. A couple of Eurobarometer polls in 2015 found that the country came 28th out of 28 in terms of people’s sense of European identity and 26th in terms of trust in European institutions. Yet today a significant section of the population thinks that being European is essential to its identity.

c/p aqui 

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Act. 28/10/2019


 
 
Cerca de um milhão de 'remainers' manifestaram-se esta tarde em Londres, junto ao Parlamento, enquanto Boris Johnson tentava convencer os deputados a aceitarem o acordo com a União Euriopeia  - c/p aqui

Thursday, October 10, 2019

1969 - ODISSEIA NO QUELHAS


Em 18 de Março de 1969, à noite, houve récita dos finalistas de Económicas (ISCEF - Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) no Teatro da Trindade.

A 20 de Julho desse mesmo ano, um homem, o norte-americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua. Em 1968, Stanley Kubrick tinha produzido e realizado 2001- A Space Odyssey.
Neste contexto de ficção tornado realidade, que melhor título se poderia dar a um divertimento académico daqueles que se preparavam para sair da cápsula onde, pelo menos, tinham estagiado durante cinco anos, mais adequado e ambicioso que  "1969 - ODISSEIA NO QUELHAS"?

Fui cúmplice de um atrevimento reprovado pelo então director do ISCEF, Professor Jacinto Nunes.  Salazar tinha ficado física e mentalmente inválido em Agosto do ano anterior mas a polícia política continuava feroz e só 5 anos depois o país viria a experimentar o sabor agridoce da democracia.
Disseram-me que o Prof. Jacinto Nunes veementemente desaconselhara a integração dos "Jograis do Quelhas" no programa das festas para me perguntarem de seguida: E agora? Respondi: agora façam como entenderem, eu não escrevo outros. 
E foi, sentado na plateia, com um olho no palco e outro em individualidades desconhecidas, que assisti aos Jograis, a finalizar o primeiro acto da récita. Ninguém foi preso.

Hesitei muito na transcrição neste caderno de apontamentos, da jogralada em versão de mal-dizer, não só por pudor e respeito que o tempo impôs sobretudo relativamente aqueles que já faleceram, mas também pelo excesso de verrina, resultado de uma consulta onde se uns diziam mata outros diziam esfola. 
Mas se os "Jograis do Quelhas", cinquenta anos depois, inspirarem aos de 69 que os lerem hoje alguma nostalgia e gratidão por aqueles com quem aprendemos a mostrar que no velho Quelhas se forjaram armas de razoável toque, então transcrevam-se os Jograis para penitência da consciência dos nossos excessos.




JOGRAIS DO QUELHAS


(Senhoras)
(Senhores)
(Doutoras)
(Doutores)
(E Professores)

Somos jograis
(Excepcionais)
(Insofismavelmente)
(Paradoxalmente)
(E irremediavelmente)
Bestiais
Com outras profissões.
Andámos pelo Quelhas
a aprender
a fazer
cadeirões
(Não, não fizemos esse ...)
Mas fizemos muitos mais
(Mais duros)
mas menos nacionais
Que irão também (um dia)
pr´a Torre do Tombo
("Monumento Nacional")
só, em verdade,
terá então um nome com flagrante
e impressionante
propriedade.

(Eis aqui alguns daqueles
que tais coisas engendraram)
Doutros nem sequer falamos
nem sabemos se por cá veranearam ...

1ª. cadeira - 1º.pincel
(O Jesus fez-nos tratos de polé)
É um sujeito indesejável
(É ou não é?)
                          (todos) É!!!

(Música: a caminho de Viseu)

Ai Jesus, truz-truz
Chumba que trás-trás
Se não fosse tanto chumbo
Tu serias bom rapaz.

Pezinhos de lã, mansinhos,
vem do Porto o Madureira
e as MGs, nm instantinho
parecem uma brincadeira.

Mas Madureira só quer
impressionar a geral
(Afinal é fura-greves
por um tacho trivial.)

(Música : A mim não me enganas tu)

A mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu,
já as tinha tirado quando vieste tu.

O Alves da Geografia
(Tem cuidado, olha que o mano ...)
Pregou-se-lhe agora a mania
Chumbar mais de ano para ano
         (todos)  Fora o Caetano!!!

O Lopes, seu sacristão,
segue as pisadas do dono.
Tem uma voz, que piadão,
Faz-nos tanto, tanto sono
          (todos) (óóóó ....)

(O Chico no PTC)
(tinha fama de ser bera)
(depois na Contabilidade)
era porreiro, ou não era?
               Não, era !!!!

O sábio e a sua súcia
(coitado do Ramalheira)
(Agora é Comendador
da grande Ordem da Asneira)

O sr. Carvalho trazia
a ciência num cartão.
Acabava-se a ciência
(tornicotim, tornicotão)
E se não topa um sujeito,
Tornicotim ombro encolhe,
e afinfa-lhe logo a eito
"o argumento não colhe"
(Pequenino, mas não dança)
Tornicotim saltitão
(Deu-lhe um tacho o Mestre, e pensa,
está servida a Fundação)

(Música: "Você pensa que a cachaça é água" )

Você pensa que que tal súcia é boa
primeiro p´lo Tornicotão,
chumbam muita gente à toa,
tal súcia não é boa não.
Nosso sábio não dá o cavaco,
a ninguém dá o cavaco, não.
O Sábio quere-os  todos
a lixar a Fundação.

Vista esta causa com senso,
estes são "não gratos"?
(todos) São !!!
(O Rómulo e o seu apenso)
(todos) Não ...

(Música: Sim Carolina Ó i Ó Ai)

A saia da Clementina
Não é uma saia qualquer,
sim Clementina ó i, ó ai,
Sim Clementina, ó ai, meu bem.
Terá toga, Clementina
É o Rómulo que assim quer.
Sim Clementina, ó i, ó ai,
sim Clementina, ó ai, meu bem.

(O Albuquerque é liru)
Dizem uns. (Ele é honesto)
dizem outros.
(Sabes tu?)
O que é preciso é ser lesto.

(O ajudante, coitado ...)
(Coitado, mas como assim???)
Há lá tipo mais errado
que este sr. Amorim?! ...

(Eu gosto do Amorim, gosto do Amorim aos molhos)

(Música : "Alecrim aos Molhos")

Amorim, Amorim aos molhos,
por causa de ti matou-se o Frechet

(P´ró Moura, a electricidade
é feita pelo electricista)
Já que a economia, tá visto,
(é obra do economista)

(E eu já não sei do que sou contra,
parece que agora mudou)
talvez com grandes remorsos
de chumbar o que chumbou.

(Música: "Ai Mouraria") 

Ai, Mouraria
da velha Rua do Quelhas,
anda tanta gente à nora
com economias velhas.

(O Didi vendia as folhas)
(punha o Lino a receber)
Não vinha o resto das folhas
e a malta sem perceber.

O Pelé chumbava à toa
(pulava)
(espumava)
(ralhava)
Punham-se-lhe os cabelos em pé (o resto)
Toda a gente concordava!!!
Era tonto e desonesto!!!

Menino Jardim, (que graça)
veio para o Comercial,
acompanhava as bronquites
e até era bestial.

Foi-se o Pelé, e o Jardim,
mudou-se pr´obrigações.
(Oxalá não seja Bera)
quem para Vera tem razões,

(Britinho Corporativo)
É mais uma jóia alheia,
Direito é asfixiativo.
E se os levasse uma cheia?!!!

E vejam só meus senhores,
como isto anda tão mal.
(Escreve Bruto com i)
Mas dá Internacional

Pinto Barriga, coitado,
já andava um tanto cheché
(Mas se não fora o nosso capitão de cavalaria)
(Imprescindível num Quelhas inconcebível)
Mais chumbaria o Pelé.

(Récita sem Pinto Barriga)
(É uma praça sem ninguém)
(Deus lhe dê boa saúde)
(E à sua tese)
                           (todos)  Amen!


Mestre Gonçalves da Silva
tem uma quinta em Tomar.
Se a manada dá estrume,
há estrume a contabilizar.

(As oliveiras do Mocho
vão-lhe dar umas patacas)
Quando lhe nasce uma cria
Faz logo : crias / a vacas

Doce país de poetas,
onde qualquer deputássio,
lendo Da Silva, as sebentas,
rima rácio com Inácio.

Da Silva deu uma festa,
e convidou para a farra
o seu Mestre Fábio Besta
e o bestial Mestre Escarra

(O Rui Nunes nos martelos)
da orquestra parte fazia.
Nem para fazer a chamada
a sua boca se abria.

(Mestre Gonçalves da Silva tem um afilhado ...)
(o rapaz tem uma cabeça tão bela ...
pena foi que a ciência
tenha descido à barbela.

Tem uma cabeça o rapaz,
o mestre revê-se nela.
(Menino, para seres um ás
tens de puxar pela barbela)

Entra na sala o Manel
e mai-lo seu garrafão,
rapa logo do papel,
e puxa pelo barbelão.
E lê por ali abaixo
(o Manel, que sabichão)
Da barbela, não sai nada,
mas Manel faz figurão.

Estudou com o Schneider,
agora ensina o Cachudo,
e este pimpolho há-de vir
a saber aquilo tudo.

Não puxa pela barbela,
que ainda não a tem (bem precisa),
mas para treinar na barbela,
vai puxando pela camisa.
Ainda não usa papel
para ler à rapaziada.
Não admira que ele,
na aula não diga nada.

(Toma nota rapazinho)
(Já é idade de aprenderes)
(Faz como fez teu amo)
(Serás doutor sem saberes)
                                              (Mas cautela!)
Traduz um autor qualquer
(aconselho-te o chinês)
Acautela-te, no entanto,
se há tradução em francês.

É que o teu dono, coitado,
teve enorme trabalhão.
(Traduziu)
                (Logo era dele)
Só ele sabia alemão ...

Eis senão que um francês,
que de alemão bem percebe,
traduziu e fez asneira.
(Pôs lá: autor Gutemberg,
em vez de autor: Manuel Pereira)

Sr. Magro, é bom de ver
o curso não está na mão,
e se há coisas a dizer,
não fariam com ... Gestão?

Visto o curriculum, senhores,
destes três, verdade nua,
qual a sentença a ditar?
                           (todos) Rua!!!

(Música: Arrebita, arrebita, arrebita)

Da Silva que és o maestro,
desta charanga que é tua,
tem ao menos um bom gesto,
e põe-os todos na rua.

Com Laranjinha e Bochechas
Mr. Murteira esta ...estica.
Ora bolas para quem sai
Ora bolas para quem fica.

(Se quem passa pelo Rossio)
(olha o placard mesmo em frente)
(qual e a probabilidade
de lhe cair um presente?)

Ora bolas para as urnas
(uma castanha)
(uma roxa)
(uma preta)
(uma amarela)
(de um amarelo mais quente)
Qual é a probabilidade
de sair um Presidente?


(Música: "Ó Oliveira da Serra")


Mister Murteira calcula,
mas calcula muito bem,
ó i, ó ai, Murteirinha diz-me lá
ó i, ó ai, quando vai pr´ó pé da mãe.

(Na Terceira Economia)
pontifica o director.
(Começou na Quarta, um dia,)
desistiu ... o Professor

Acompanham-no à guitarra
o Hernâni, calmeirão,
o Arouca que é sabido,
o outro que sabichão...

(Música: Tia Anica de Loulé)

Ó Hernâni, Ó Hernâni,
não sejas tão presunçoso,
o Arouca copiava,
é assistente, que gozo!
Olé, olá,
tal parelha tá tão má
Olá, olé,
dá-lhes Jacinto c´o pé.

(Ó Santos Fernandes, actualiza-te)
Se pões chinó, dás um salto.
Não ponhas papel no giz,
e vê se falas mais alto.

(Sidreira Lopes) - Sarilhos!
ficou-lhe o queixo na rua
(Ele é da pauta um dos filhos)
A alfândega fica em Lisboa

(La La Labisa disse um dia)
ninguém mais será formado
se na velha Quelharia
alguém disser um bocado.

(O patrão Borges, da Câmara)
Já viu que nunca diz nada
(E é melhor)
(que o Labisa só diria labisada)

(Música :"Lá, Lá, Lá, Lá ..."

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá     
                      (todos) Bisa!

Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
Lá Lá Lá
                      (todos) Bisa!

(tanto há-de labisar que há-de aprender!)

O Vidal, especulador,
no bacalhau triunfou.
Mandaram-no dar Gestão
mas nada modificou.

(Música : "Malhão")

Ó Vidal, Vidal,
(palmas, palmas,palmas)
que vida é a tua
(palmas, palmas,palmas)
andas a dar aulas, andas a dar aulas,
e a malta na rua!

(Sô Taxeira, essa Doutrina)
é coisa que há-de rever.
Você acha que o Carlinhos
era assim tão tanso a valer?
(Você, que já foi da Corte,)
é capaz de nos dizer
(Por que é que cá no cantinho
é tão difícil viver)?

Para ensinar aos rapazes,
não sabe o Taxeira mais,
mas para brilhar como os ases,
já ensina generais.

(grito da geral)
                           (Ó Taxeira, Taxeira!
                            Onde é que está o Taxeira?)

(resposta com ar circunspecto)  
                           O Taxeira  foi para os Altos Estudos Militares.

(Mestrrre Barrrbosa, a política)
A política não é prrrá gente.
Ás vezes é como castanha
que se põe na boca ... muito quente!
E então Barrbosa, política,
é prrós outros, quem dirrria,
que no velho e rrrelho Quelhas
se crrria a apolitiquia

(Música : "La Mamam") 

Já estão aqui, chegaram já, 
os dois meninos do papá,
já são doutores, de altos valores,
mas com favores ....
Um ... Um ... Um ...

(Foi-se embora Mestre Broncas)
(Bronca o Da Silva, interino.)
(Ainda este broncava)
(entra outro a broncar fino)

(Era o Jacinto e trazia)
Notas, notas, a saltar.
Não deu nenhumas à malta,
eram para ele assinar.
A malta foi ter com ele
(Havia broncas em curso)
Mestre Jacinto sorriu
(aquele sorriso de ... amigo)

A malta diz que a cantina
até tem panelas rotas.
(Jacintinho ri, de cima),
e vaia assinando notas.

E a malta põe-se a pensar
se o Jacinto tem ou não
tempo p´ra tanta assinar
p´ra acudir à inflação.

Jacinto, Jacintozinho,
Pára lá, escuta agora,
olha bem como está isto,
põe-me a vista cá de fora.

(Música"Quando sair de Cuba) 

Quando sair do Quelhas,
recordações levo comigo,
daquelas salas velhas,
daquele Convento
soturno e antigo.

Quando sair do Quelhas,
vou lamentar tempo perdido,
com matérias velhas,
mal ensinadas, e sem sentido.

Quando sair do Quelhas
levo comigo esta amargura,
não ser a Escola livre,
actualizada,
não estar segura.

Com autonomia
com ousadia,
robusta, sã,
formando em cada dia
a galhardia
do amanhã.

 

AVENIDA DOS MILIONÁRIOS


Há dias vimos "E o Bugio Aqui Tão Perto"  da série "Outras Histórias" que a RTP está a transmitir. São histórias de gente anónima que vale a pena ouvir.
Sobre o ""E o Bugio Aqui Tão Perto", transcrevo:

"Neste Outras Histórias vamos conhecer Amália Buission e tudo o que está a fazer pela vila piscatória e balnear da Cova do Vapor, em Almada. Amália Buisson tem entre mãos a missão de requalificar a pequena vila, sem lhe retirar a identidade. De génese ilegal, a Cova do Vapor é um reduto de tradições que Amália quer preservar. E dos muitos projetos que tem vindo a desenvolver, aposta agora na proteção e na valorização ambiental deste aglomerado de casas, junto ao Tejo."

Hoje fomos até à Cova do Vapor. Há muitos anos que não passávamos por ali. 
Surpreendeu-nos o que vimos? Francamente, não, com uma excepção muito evidente: O número de automóveis estacionados no parque junto aos acessos à praia e nas ruas do povoado.

- A que se deve tanta viatura estacionada aqui?
- Surf, meu amigo. São carros dos surfistas.
- Mas há tão poucos surfistas hoje na praia. 
- Poucos. Já os contou?

Tinha contado. Havia, quanto muito, vinte pessoas na praia, incluindo meia dúzia de surfistas. Desisti de investigar.
Afinal de contas na Cova do Vapor há várias avenidas e uma delas é a "Avenida dos Milionários". 


Não sei se a requalificação da Cova do Vapor vai retirar-lhe identidade.
Porque a Cova do Vapor, digam o que disserem dela, façam o que fizerem, é muito fotogénica.
(Se clicar nas imagens vê melhor).

 



Monday, October 07, 2019

VOTASTE?



Ontem


- Já cumpriste o teu dever?
- Qual dever?
- Ora essa! Qual dever? O dever de votar.
- Exerci o meu direito.
- Não é a mesma coisa?
- Temos o direito de votar, não temos obrigação de votar.
- ?
- Vê ao contrário e percebes.


- Não percebo como é que uma gaga é candidata a deputada.
-Também não entendo. A mim aflige-me ouvi-la.
- Também a mim. Aliás não consigo perceber o que ela diz.
- Ela não vai ser deputada. Se o partido eleger um deputado, ela cede lugar ao seguinte invocando quaisquer razões para não se sentar no parlamento.
- Pois eu não concordo com a vossa opinião. Se ela for eleita, vai exercer o mandato e será ouvida com menor ruído, interrupções, contestações, apartes, gracejos que qualquer outro deputado. Mesmo o presidente da Assembleia da República só em última instância a vai interromper ou tirar a palavra. Quem o fizer será trucidado pela opinião pública.

Saturday, October 05, 2019

A SEGUNDA DERROTA DE PEDRO PASSOS COELHO

Hoje é dia de reflexão.
Reflictamos!

A 2 de Junho de 2011, quatro dias antes das eleições legislativas daquele ano,  coloquei neste caderno de apontamentos uma reflexão - PASSAGEM DE TIÇÃO -.
Voltei durante estes oito anos algumas vezes ao tema, e hoje, véspera das eleições legislativas não encontro título mais apropriado para o que, segundo as últimas sondagens conhecidas, vais suceder: o PS ganha as eleições destacadamente, com 10 pp. acima do PSD.

Segundo as sondagens, as posições na grelha de partida em 6 de Junho de 2011 seriam estas: O PSD com 36% ganharia com 5 pp sobre o PS e o CDS atingiria os 11%. O PSD coligado com o CDS teria maioria absoluta na Assembleia da da República.


Os resultados foram estes:


O PSD atingiu os 38,63%, o CDS 11,74%, e Passos Coelho avançou, peito feito, para o touro troica.

Errou.
Errou, estrondosamente!
Apontei várias vezes neste caderno que, ao deixar de fora o PS e enfrentar uma situação que prometia ser escaldante, Passos Coelho pegou no tição ... e queimou-se irremediavelmente. Tanto mais que não só segurou o tição como o apertou e gabou-se disso.
Perguntar-me-ão: E se o PS não aceitasse fazer parte de um governo fortemente condicionado por um acordo com a troica de que o PS era o primeiro signatário? Perderia toda a razão para culpar mais tarde o governo de que recusara fazer parte.

Depois, foi o que sabemos. Nas legislativas de 2015 a coligação PSD/CDS ganhou - vd. aqui - por maioria relativa (36,86%) mas perdeu cerca de 14 pp relativamente às eleições de 2011, o PS subiu para 32,31% e António Costa inventou a geringonça. Catarina Martins reclama que foi ela quem deu a dica, Jerónimo de Sousa garante que foi ele quem falou primeiro.
Fosse quem fosse o inventor, o padrinho parece ter sido Vasco Pulido Valente e Portas o altifalante,
com o terreno terraplanado pela austeridade imposta pela dívida atingida, o governo de António Costa levantou voo a bordo da geringonça, e o PS fez um brilharete. 
Vai ganhar as eleições amanhã. E depois? Conseguirá António Costa reconstruir e fazer andar novamente a geringonça que, entretanto, resvalou e está em posição de cair pela ribanceira abaixo?
O PCP já adiantou que lhe dará apoio se António Costa aceitar anular a revisão das leis do trabalho que aprovou recentemente com o apoio do PSD. Coisa pouca, portanto.

Passos Coelho estará à espera para se divertir com a vinda do diabo que, prematuramente, anunciou.
Mas não tem, nem ele nem os seus companheiros forcados amadores, razão para se regozijarem com a derrota de Rui Rio. Porque a derrota é deles.

Friday, October 04, 2019

OS INIMIGOS DO COMUNISMO CHINÊS

Estive na China, pela primeira vez por razões profissionais, há trinta anos.
A China já tinha nessa altura enveredado, sob o comando de Deng Xiaoping pelo caminho do comunismo capitalista.  Deng Xiaoping viria a renunciar do cargo no ano seguinte em consequência das repercussões internacionais pelo massacre de 9 de Junho de 1989 na Praça Tianamen, ou Praça da Paz Celestial.
Visitei fábricas de produção de papel (recorde-se que os chineses inventaram o papel 105 anos DC), que estavam tecnologicamente totalmente obsoletas, equipamentos degradados, trabalhadores subempregados espreguiçando-se ao sol. À entrada da Cidade Proibida, os soldados da guarda calçavam sapatilhas.
Do oitavo andar do hotel onde fiquei, nas proximidades de Tianamen, via cruzarem-se milhares de bicicletas raramente incomodadas por uma ou outra viatura oficial.
Voltei à China duas vezes depois, ainda por razões profissionais, e em 2007, uma quarta vez, como turista. A evolução saltava à vista e confirmava as estatísticas: o crescimento da China era, e continua a ser, impressionante.


No dia 1 deste mês, o poder em Beijing celebrou com a grandiosidade e exuberância de um espectáculo de luz, cor, música e coreografia, que embasbacou o mundo (que se deixa embasbacar com estas coisas) a fundação em Outubro de 1949 da República Popular da China.
A propósito, de entre a mais de centena e meia de apontamentos neste caderno sugeridos pelas visitas e notícias sobre a China, sugiro uma olhada em "SE É ARTE TEM DE SER VERMELHA". Se a curiosidade for tanta, pode ver mais clicando na etiqueta "China" no fim de cada apontamento.  
No mesmo dia, o Canal 3 da RTP, transmitiu um documentário, ainda disponível nas gravações automáticas da box, para quem tiver box, hoje quase toda a gente tem box ...,* que começava, mais ou menos, assim:
"No dia 15 de Janeiro de 2017, pela primeira vez na história do Forum Económico de Davos, a honra da abertura foi dada a um presidente da China, Xi Jinping, (Donald Trump, não compareceu) que deu uma lição sobre o mercado livre".
Irónico, sarcástico, desarmante, cada um escolha o adjectivo que julgar mais adequado, se o encontrar.

E vimos e ouvimos no referido documentário um relato impressionante sobre a caminhada da China, iniciada com Deng Xiaoping, desde que Xi Jinping se tornou presidente do Partido Comunista Chinês e, por inerência, com mandato vitalício aprovado pelo parlamento chinês em 2018, Presidente da China, o homem que o Economist já tinha considerado em 2017 ser o mais poderoso do mundo.
Seria fastidioso resumir aqui, mesmo que sucintamente, até onde já chegou a China e para onde quer Xi Jinping levá-la, e a todo o mundo, em 2049, ano do centésimo aniversário da fundação da RPC, os objectivos, os meios, os desígnios que o habilitam. 

Mas saliento dois pontos:
Macron em reunião da UE defendeu uma política de oposição à venda de activos estratégicos   a empresas do Estado Chinês. Alguns chefes de governo opuseram-se, entre eles, o primeiro-ministro português, António Costa. Mas porquê, estranhou Macron, que considerava estar com a sua proposta defender os interesses dos trabalhadores portugueses. Respondeu-lhe António Costa que não podia coarctar os interesses chineses porque Portugal tinha uma dívida muito elevada a pagar.

Segundo Xi Jinping, os inimigos do comunismo chinês, que ele pretende alargar a todo o planeta a bem da humanidade, são sete, destacando-se três:
a democracia,
os direitos do homem,
a liberdade de imprensa.

Como pensa o homem ocidental enfrentar um gigante que assenta a sua força na eliminação global dos princípios que os valores da cultura ocidental mais prezam?
Não pensa?
Em situações como estas ocorre-me sempre a resposta dum tipo imbecil que, perante o anúncio do fim do mundo, encolheu os ombros e disse: Escape eu!

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* O MUNDO SEGUNDO XI JINPING  encontra-se agora disponível aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=m9Uz-9wQsBE&feature=share&fbclid=IwAR3iMwfEmM-clCePUCM7gYB6hzstJhg06tsUx92YzZdVaILn3_kxfNUhJRA


POR ONZE MILHÕES DE EUROS


Banksy

Um óleo do artista Banksy, que representa a Câmara dos Comuns, ocupada por chimpanzés, foi arrematada na quinta-feira à noite, pelo valor recorde de 9,8 milhões de libras (11 milhões de euros).

De acordo com a leiloeira Sotheby’s, que levou a obra à praça, o quadro a óleo foi pintado em 2009 e “oferece uma visão premonitória da cada vez mais tumultuosa vida política, no Reino Unido contemporâneo”.O preço final do quadro superou as expectativas, que o colocavam entre 1,5 milhões e dois milhões de libras (de 1,69 milhões a 2,25 milhões de euros). No quadro, que tem a dimensão de 4,20 por 2,50 metros, todas as bancadas da Câmara dos Comuns estão ocupadas por primatas, assim como a galeria do público, simulando o instantâneo de um debate. Banksy expôs pela primeira vez a numa exposição em Bristol, em 2009, tendo mobilizado 300 mil visitantes. Numa primeira fase, a obra teve por título “Question Time” (“Sessão de perguntas”), numa alusão ao debate semanal com o Governo britânico, nos Comuns. Mais tarde, o artista alterou o título para “Parliament devolved“, algo como “Parlamento transferido”. O atual proprietário do quadro adquiriu-o a Banksy, em 2011, segundo a Sotheby’s. Na conta oficial de Banksy no Instagram, após o leilão, apareceu uma mensagem de lamento do artista, por já não ser o dono da obra: “Preço recorde para pintura de Banksy estabelecido esta noite, em leilão. É uma pena já não a ter”. “Keep It Spotless”, vendida em 2008 pela Sotheby’s, em Nova Iorque, foi a obra de Banksy a atingir o valor mais alto em leilão, até agora, ao ser vendida por 1,87 milhão de dólares (1,7 milhões de euros, ao câmbio atual). No ano passado, a pintura a ‘spray’ “Rapariga com balão vermelho”, um dos trabalhos mais conhecidos de Banksy, autodestruiu-se depois de ter sido leiloada por mais de um milhão de libras (1,2 milhões de euros). Banksy, cuja identidade permanece desconhecida, distinguiu-se pelos seus ‘graffiti’ em ‘stencil’ que começaram a surgir em Bristol, no final dos anos de 1990.

c/p aqui

Tuesday, September 24, 2019

OS DESCAMINHOS DA EUROPA


Há cerca de meia hora, os sete juízes presentes, quatro baldaram-se, do Supremo do UK tornaram pública a sua decisão unânime: Boris Johnson obrigou a rainha a encerrar o Parlamento Britânico com uma justificação ilegal.

- E, agora? 
- Agora sabe-se lá! Nem eles sabem.
- Mas a rainha não podia ...
- A rainha de Inglaterra é uma marioneta. Põe o dedo onde o manipulador quer.

cf. aqui


Horas depois ...
BoJo está em Nova Iorque para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Prevê-se que voe esta noite para Londres.
Entrevistado junto do seu compincha Trump afirmou que respeita a decisão do tribunal, mas discorda, acrescentando que a questão principal é outra: sair da UE em 31 de Outubro.
Vai preparar um discurso para a rainha nesse sentido.

- Venha daí, Majestade, ao Parlamento e leia este discurso aqueles palermas. 

E a rainha vai?
BoJo está confiante que sim.
Entretanto, o pusilâmine Jeremy Corbyn, viu aprovada pelos delegados ao congresso do partido trabalhista a sua proposta de não se comprometer para já (até quando?) a favor ou contra o Brêxit.
BoJo será um trapalhão mentiroso, Corbyn é um borrabotas.   



“I have the highest respect, of course, for the judiciary and the independence of our courts,” he told the audience. “But I must say I strongly disagree with the judgment, and we in the UK will not be deterred from getting on and delivering on the will of the people to come out of the EU on 31 October, because that is what we were mandated to do.”

There was a major policy agenda planned, he said. “And to do that we will need a Queen’s speech to decide how we are going to do that.

“I think that is what the people of my country, the UK, want to see. They want to see us getting on with a strong domestic agenda, and they want to see Brexit delivered by 31 October.”

It remains unclear how Johnson and his team plan to respect the ruling while also allowing for an imminent Queen’s speech, and it seems likely Downing Street is still deciding how to respond in the coming days.

 

Friday, September 06, 2019

A SINA DO MENINO JESUS




(clicar para aumentar)





Hoje, 6 setembro, ás 18h00, será apresentada ( ) a obra Josefa de Ayalla, dita Josefa de Óbidos (Sevilha 1630 – Óbidos 1684)
A leitura da sina do Menino Jesus
1667
Óleo sobre cobre
22 x 29 cm
Coleção Jaime Eguiguren Art &Antiques


c/p aqui

Wednesday, August 28, 2019

MOLDAVA


- Desculpe a minha, curiosidade: é romena?
- Não, não sou romena.
- Faço a pergunta porque me pareceu o seu apelido romeno.
- Sou moldava.
- Quase romena, a mesma língua, a mesma cultura, ...
- ... o mesmo povo, é verdade. 
-  Visitámos há poucos dias Bucareste, e gostámos muito.  Na Roménia, lamentam que se tenham separado.
- A Moldávia não se separou da Roménia, fomos separados ... Durante o período soviético o povo moldavo sofreu muito. Desapareceu muita gente no tempo de Estaline. Deportados ou mortos nunca mais se soube deles. Os meus pais perderam os meus avós, os meus avós os pais deles.
- Mas a Roménia está recuperar bastante bem. É um país lindíssimo. Vi há dias um programa no canal Odisseia que nos mostrou um país com paisagens de uma espectacularidade inigualável na Europa. 
- Está a crescer, mas leva tempo, o período comunista deixou marcas muito profundas. Na Moldávia foi pior, continua muito mal.
- Formou-se aqui?
- Não. Formei-me lá, fiz a especialidade cá.
- Gosta de cá estar?
- Sinto-me em casa. Tenho toda a família cá. De lá sugerem-me que volte, mas não penso voltar.
- Curioso é que a Roménia  é  o único país daquele lado europeu que manteve a língua latina. 
- E a Moldávia. Falamos a mesma língua. Estudei latim no ensino secundário, não falo latim, mas sei ler latim.
- Em Portugal, actualmente, aparte o ensino nos seminários, o latim só é aprendido nas licenciaturas em românicas, salvo erro.
- Foram os povos romenos que enfrentaram os otomanos. Ficaram célebres as façanhas de Vlad Drácula ou Vlad, o Empalador, no séc XV, por ter empalado inimigos capturados, entre os quais os emissários do sultão incumbidos de cobrar impostos nos seus domínios.
Sabe o que era o empalamento? 
- Sei.
- Era uma tortura horrorosa.
- Já é portuguesa?
- Ainda não. Estamos à espera da aprovação dos nossos requerimentos.

Wednesday, August 21, 2019

SUBINDO O DANÚBIO


AVISO À NAVEGAÇÃO

O que se segue tem como único propósito registar algumas informações recolhidas ao longo de nove dias de navegação fluvial, com saídas a terra, antes que o tempo as apague ou, pior ainda, as deturpe. Os amigos e conhecidos, ou curiosos que, por acaso, aqui tenham vindo parar, considerem que a qualidade das fotografias é resultante da inabilidade do fotógrafo, do equipamento utilizado - um telemóvel ., e das condições de luminosidade do dia no momento.
Aliás, pretende-se que as fotos inseridas neste texto funcionem apenas como dicas das nossas recordações. Na internet há ziliões de fotografias, a internet é exemplo de um universo infinito, sempre em expansão.
Há quatro fotos que foram retiradas da internet - as das catedrais de Bucareste, Belgrado e Budapeste e ainda da Universidade de Budapeste, que, por serem tão grandes, não me cabiam no alcance do telemóvel. 

O texto segue ao correr das teclas.


O Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa (o Volga é maior) e tem entre 2845 e 2888 km de extensão, com um fluxo médio de 6700 m/s. Tem a sua fonte na Floresta Negra, a 60 km a noroeste do Lago Constança, a partir de dois pequenos ribeiros, Brigach e Breg, que se juntam em Donaueschingen e passam a ser chamados Danúbio dali em diante. O Breg desce de uma altura de 1078 metros.
Não muito distante da nascente do Breg, nasce o Reno. Mas enquanto o primeiro se  junta ao Brigach, e formam o Danúbio, correndo para sul até ao Mar Negro, o Reno vira-se para Norte e vai, após percorrer 1233 km, desaguar em delta comum Reno-Mosa-Escalda, no Mar do Norte, numa vasta extensão que abrange territórios da Bélgica e Holanda.

Nascendo na mesma maternidade, a ideia de os ligar através de um rio intermédio - o Meno - remonta ao ano 793 quando Carlos Magno ordenou a construção de um canal ligando outros dois rios nas proximidades. Com avanços e recuos, a ideia original de ligar o Danúbio ao Reno foi concretizada em 1992, cerca de 1200 anos depois.

Voltando ao Danúbio, compreende-se que, nascendo a uma altitude relativamente baixa, pouco acima dos 1000 metros, para percorrer quase 3000 km., o enorme caudal faz o seu percurso principalmente em planície. Entre o delta, onde desagua no Mar Negro, e Budapeste há apenas um desfiladeiro, aliás pouco elevado, na área das "Portas de Ferro", a separar os Balcãs, a oeste, dos Cárpatos, a leste. 


Delta do Danúbio - Laguna lateral nos meandros do delta.

Nos canais por onde andámos no delta, os cursos de água são ladeados por vegetação densa, do mesmo tipo que acompanha o rio em toda a sua extensão, salvo quando se erguem, mas não muito, os Balcãs e os Cárpatos. Nas margens do delta, aparece de vez em quando, saído não se sabe de onde, um ou outro esforçado de olho na cana de pesca a acenar aos turistas.
Informa o guia que em toda a área do delta vivem cerca de 5000 pessoas. Não há habitações à vista, de vez em quando vislumbra-se uma ou outra cabana.



Corvos-marinhos ou cormorões. Os corvos marinhos (há cerca de 60 espécies na família) têm plumagem preta, cinza ou bronzeada, por vezes com peito ou garganta branca.  Os fotografados são da espécie de peito e garganta branca.


- Tenham atenção a tudo o que mexe, diz o guia.
- Lá ao longe anda um bando, de quê?
- São pelicanos.

Voam ao longe e muito alto. Bailam no ar e, consoante as voltas, o sol mostra-lhes a cor branca ou escurece-os. São pelicanos? Se o guia o diz, são pelicanos.
Aparte os pelicanos ao longe, não se viu muito mais que uma ou outra garça real, várias garças brancas pequenas, muitas gaivotas de tamanho mais reduzido que as que temos por cá.

Não estivemos nos melhores sítios de observação? Na internet leio e vejo imagens que não vi.
De Sulina e Crisan, prometidos no programa não demos conta.


Garça, sozinha, para turista ver ou a ver passar turista.

Para se ter uma ideia menos imprecisa da dimensão do delta do Danúbio, da sua diversidade biológica, da beleza dos seus meandros a correr para o Mar Negro, seriam necessários vários dias de observação, equipamentos e competência para os usar, e muita paciência para esperar pelos momentos oportunos. Para conhecer na Roménia alguns dos mais diversificados eco sistemas da Europa, teríamos de subir às montanhas, percorrer os vales povoados de espécies vegetais e animais, raros ou inexistentes em qualquer outro local do continente europeu. Percebemos isso ontem, 23/08, quando vimos no canal Odisseia um programa sobre a natureza na Roménia. A não perder. Repete amanhã, e, muito provavelmente, em outros dias no mesmo canal. 

Rio acima, a vegetação densa, mostra aqui e além, em línguas estreitas de areia, pelicanos e garças. E um ou outro pescador, geralmente desacompanhado. Lá mais para cima, aparecerá uma ou outra tenda de campismo, porque a língua de areia se alarga à medida que navegamos para montante do rio, aparecem praias fluviais  e, inesperadamente, talvez porque o calor apertava vimos uma manadas de vacas a beber no rio com água pela barriga.

Já em Budapeste, quando o rio passa junto ao edifício da universidade, a que adiante farei referência,
regalavam-se na água do Danúbio umas dezenas de pessoas.


O rio é largo, volumoso, apressado, não se vê nele nem traineira, nem barco à vela. Nem transporte de passageiros ou mercadorias. Só em Budapeste há movimento de barcos de turismo e barcos de recreio.


Excepto algumas barcaças carregadas de, ao que supomos, lixo, talvez sucata metálica.
As barcaças, quatro ou seis, lado a lado são empurradas por um ... empurrador.
















Antes de chegarem às margens montanhosas do rio, aliás não muito extensas, os navios galgam duas eclusas, a primeira de 15 metros, a segunda, em dois níveis, subindo 30 metros.


Primeira eclusa, a porta ao fundo baixa quando a porta de entrada se fechou. Normal.


Saída da segunda eclusa, segundo segmento. Note-se no fim do paredão a parte superior  da porta já quase imersa.



Entre os Balcãs e os Cárpatos


Para que não restem dúvidas, porque a Sérvia aproxima-se, a Roménia pôs marco no território por alturas das chamadas (designação virtual) "Portas de Ferro".


Porque a paisagem nas margens do rio, e no próprio rio, é quase sempre idêntica, optei por, muito sucintamente descrever o rio e só agora dar conta dos passos em terra. A monotonia da navegação poderia ter sido quebrada com informações do comandante ou da tripulação sobre o território,  história, a cultura, que ao longo dos séculos passaram por aquelas águas,  mas talvez não tinham sido pagos para isso. Só quando lhes referimos que tanta monotonia só era boa para quem gostasse do silêncio perturbado pelo rumor das águas, passaram a dar algumas informações em apreçadas rotações por minuto para calar o freguês.
Conclusão minha: por aqueles lados do mundo ou há muito ressentimento ou estão saturados com tanto turismo na época de férias. 
Há excepções, como em todas as regras. Voltarei ao assunto mais adiante.

Tínhamos embarcado em Tulcea, na ponta norte do delta, quase à hora de jantar, na manhã do dia seguinte passámos para  lanchas rápidas (no programa) na realidade barcos já velhotes e cansados, para umas voltas nas voltas do delta, estivemos a cerca de 60 km. do Mar Negro, voltámos para o navio. De noite, navegou-se até Oltenita, e de autocarro vamos até Bucareste. 

A estrada atravessa a planície, onde, se a terra está cultivada, a paisagem está, a perder de vista,  quase sempre coberta de searas de milho e de girassol. Já na Bulgária, onde o panorama é em tudo idêntico, perguntei:  

- É latifúndio?
- Há quem possua 154 mil hectares.
- Como é que isso pode ter acontecido se antes, na época comunista, toda a propriedade tinha sido nacionalizada?
- Por isso mesmo. A privatização foi aproveitada por uns quantos que por meios vários se apropriaram de áreas enormes. O segundo maior tem quase 100 mil hectares e depois há meia dúzia deles com idênticas áreas de grandeza. É a direita no poder, percebe?
- Pensa que em próximas eleições os comunistas poderão voltar ao poder?
- Não creio. Apesar das dificuldades que defrontamos não acredito que o comunismo volte. Mas que há muita gente saudosa dos tempos antigos, há. 

Recordei-me, a propósito desta última afirmação da guia, da obra de Svetlana Aleksievitch, Nobel da Literatura em 2015, "O Fim do Homem Soviético". Recomenda-se. 

Temas recorrentes nas informações dos guias que nos acompanham são as reminiscências do pavor causado pela ocupação otomana, entre meados do século XVI e meados do século XIX, a elevada percentagem (oficialmente 3,3%, mas provavelmente superior) de ciganos, povos oriundos do norte da Índia e que no ocidente continuam a ser considerados romenos por a si mesmos se terem nomeado povos roma (no plural, rom, no singular), relutantes à integração social. 
E a perda da Moldávia. A Moldávia é romena!, defende o guia com forte determinação nas palavras. Somos o mesmo povo, falamos a mesma língua, uma língua latina, temos a mesma cultura, nada justifica que o território da Roménia tenha sido amputado. Esperamos que um dia o erro seja corrigido.

O guia tem razão: identificar o povo romeno com o povo cigano (rom) resulta de uma confusão de nomes que prejudica a imagem do país. Os roma, povo nómada, migrou para muito lado do mundo. Mas são as especificidades dos seus valores culturais e a sua relutância à integração nas sociedades por onde passam ou vivem que geralmente os ostracizam, e a confusão com o povo romeno é indigna do elevado grau cultural da Roménia. Em 2017 era de 11 o número médio de anos completos de escolaridade para indivíduos dos dois sexos com 25 ou mais anos. Em Portugal 9,2. 

Constantin Brancusi, escultor, Eugéne Ionesco, dramaturgo, George Palade, Prémio Nobel da Medicina em 1974, são alguns de vários artistas, cientistas e intelectuais que enriqueceram a cukltura europeia.

- Bucareste é a cidade mais limpa da Europa, garante-nos o guia. Talvez o guia exagere um pouco, mas que Bucareste é, indiscutivelmente, mais limpa que Lisboa, é. A recente polémica das beatas lançadas para o chão é apenas um testemunho que o nível de civismo colectivo luso ainda anda muito por baixo. 


Bucareste, à semelhança de outras capitais do leste europeu - Sofia, Belgrado, Budapeste - exibe muitos edifícios de porte pesado e adornado que recordam os tempos de riqueza do império áustro-húngaro. Muitos deles foram deteriorados pelo tempo e pelas circunstâncias políticas, mas observam-se, por outro lado, esforços de restauração da imponência perdida. 
Na foto junto da fachada modernista do teatro nacional, celebra-se a libertação do regime comunista. Do outro lado da rua, o estilo majestoso da Universidade.
Registe-se, registo quase desnecessário, que a Roménia é o único pais no leste europeu onde a língua latina sobreviveu a todas as migrações, invasões e conflitos que formaram na região uma heterogeneidade de etnias, de confissões religiosas, de miscelâneas linguísticas. 


Em Bucareste, almoçámos (assim-assim, frango de cebolada, sobremesa boa) neste restaurante, que na frontaria reclama ter sido a primeira capital a ser iluminada com lâmpadas a petróleo, em 1857. A propósito, na Roménia há muitos anos que se extrai petróleo.
O que falta na Roménia, onde a população decresce porque a taxa de natalidade é baixa e a emigração elevada?



Na esquina oposta, situa-se um palácio em reconstrução que, em frente, mantém um busto do Conde de Drácula. O seu castelo é uma das atracções turísticas da Roménia.


Neste café, arte nova, onde fiz a foto num instante porque o tempo urgia, a comitiva não esperava, nunca há um lugar vago, garantiu o guia. No centro de Bucareste não faltam esplanadas, apesar das férias. 


Ao fundo à esquerda, o palácio  mandado construir por Ceaucescu. Não chegou a vê-lo terminado por ter sido morto antes. Hoje é a sede do parlamento romeno. Não consigo imaginar o que fazem os deputados num espaço tão vasto.  
Cá fora, vd. imagem abaixo, há espaço para manifestações de protesto contra o governo. Onde é que nós já vimos isto, mas perante um edifício incomparavelmente menor?   


"Milhares de pessoas participaram este sábado numa manifestação em Bucareste contra o Governo de esquerda, concentrando-se em frente à sede do executivo para assinalar o aniversário da repressão violenta de um evento semelhante há um ano."
"Queremos que este governo cheio de incompetentes, pessoas corruptas e ladrões se vá embora porque não podemos continuar assim", disse à AP Mihai Munteanu um manifestante residente em Bucareste. - aqui
A guia disse-nos que a culpa da situação calamitosa do país era o governo de direita.
Nesta notícia, de uma manifestação que ocorreu poucos dias depois de lá termos estado, refere-se que o governo é de esquerda.
Nem só os romenos se entendem sobre para que lado está virado.

O Estado romeno é laico, não tem religião oficial, mas, à semelhança dos vizinhos, a recuperação ou a reconstrução dos templos é evidente mesmo para os menos observadores. Mais de 85% dos romenos identificam-se como cristãos ortodoxos, 7% como protestantes, 5% como católicos gregos. Os restantes 3% são muçulmanos, judeus e irreligiosos. 
Tanta devoção religiosa só pode ser explicada pelas restrições impostas durante o período comunista. 
A inauguração da nova catedral ortodoxa de Bucareste, construída mesmo ao lado do edifício ambicionado por Ceauscescu, está prevista para Novembro deste ano. Em Maio foi visitada pelo Papa Francisco, na busca do ecumenismo entre as igrejas irmãs.

-  E, se posso perguntar, qual é a sua religião?
- Sou cristão ortodoxo. Mas a minha mulher e os nossos três filhos são católicos. E eu costumo ir à igreja católica porque as missas são mais curtas. Sabe quanto tempo pode demorar uma missa numa igreja ortodoxa? Mais de quatro horas. Mas podem ser seis.
- Tanto?
- É verdade, é demais.


Bucareste é uma capital onde os muitos parques, verdejantes nesta altura do ano, oferecem a residentes e visitantes uma atmosfera refrescante. 

No Parque Herastrau, em Bucareste, estão, além do mais, reunidas as construções tradicionais que em tempos foram habitadas pelas gentes dos campos. Depois a agricultura dispensou trabalhadores porque o regime comunista emparcelou e mecanizou, as pessoas procuraram emprego na indústria e nos serviços - os serviços representam, presentemente, 52% do PIB- depois a indústria estiolou, as aldeia foram abandonadas, a emigração foi a porta de saída.
Na foto pode observar-se uma habitação rural antiga que, para poder iludir os otomanos e escapar às suas atrocidades, foi construída em subsolo, de modo a poder ser coberta com terra quando soava o alarme de proximidade do inimigo.
Repare-se ainda numa "cegonha" que, entre nós, também se chamava "picota" para tirar a água dos poços.

Enquanto visitamos Bucareste o navio avança para Ruse, já na Bulgária.
É dali que, no dia seguinte, vamos até Veliko Tarnovo e Arbanassi.
Sofia, a capital do país, fica a mais de 300 km. Visitamos Veliko Tarnovo que foi cidade capital de começos do séc XII até finais do séc XIV (1185-1393).
O trajecto de hora e meia é traçado sobre paisagem idêntica à da planície romena. Os terrenos são férteis e de irrigação natural. Talvez seja anedota mas conta-se, contou o guia, que um dia um governo japonês propôs comprar 10 cm de terra destas planícies para aumentar a fertilidade das suas.
  
Voltamos à planície, de searas de milho e girassol, em propriedades latifundiárias como na Roménia. Aliás foi nesta ida a Veliko Tarnovo que a guia contou a enormidade de hectares adquiridos por meios esconsos, que referi atrás na travessia da planície romena. 
Constata-se um padrão que, com algumas excepções, é muito evidente na evolução da titularidade dos meios de produção nos países que viveram em regime (dito) comunista: apropriação do poder e da gestão dos meios de produção pelos dignatários do regime, privatização e devolução desses mesmos meios a grupos protegidos - há quem os designe por máfias -, alguns dos quais se não a maior parte, transitaram do anterior regime.  

À planície extensiva, que se estende à produção animal - bovinos, ovinos, etc.- sucede uma orografia de altitude moderada que depressa descobre a silhueta de Veliko. 

Da grandeza passada de Veliko Tarnovo sobra a beleza natural e a urbanização antiga que se desdobra nos vales à volta do rio circundante, o Yantra.
Está um dia de assar caracóis, 35º., vamos subir até ao cimo da fortaleza, a  quem não conseguir prosseguir recomenda-se que espere cá em baixo à sombra das muralhas. Resultado: à saída faltava-nos um companheiro. Esperámos, telefonámos, afinal entrou no autocarro antes de nós, os que o esperavam. 


À entrada da primeira porta, encontra-se um desenho do conjunto quando estava inteiro e bem conservado, há muitos séculos atrás. O tempo, mas sobretudo as guerras, derrubaram a maior parte do conjunto, pouco deve ter ficado em pé. Foram reconstruídas as muralhas derrubadas e a igreja que dominava o centro da fortaleza.




A igreja reconstruída está interiormente decorada com pinturas nas paredes, seguindo a tradição ortodoxa, mas em estilo modernista. No altar pende uma peça que sugere o nascimento de Cristo recortada como antiguidade feita recentemente. Vale pela intenção. Pelo esforço da subida vale a vista do conjunto urbano aos pés da fortaleza. 


De Veliko Tarnovo vamos para Arbanassi por estrada de montanha amável, cerca de 15 km, 10 minutos. 
Arbanassi, hoje com menos de 300 habitantes, foi em tempos idos, sobretudo na segunda metade do séc XVII e finais do séc XVIII,  chegou a ter 1000 casas, terra de prósperos comerciantes que transaccionavam na Transilvânia, nos principados do Danúbio, Rússia e Polónia, artesanato em cobre  e ouro, vinhos, seda.


Agora vive do turismo, da amostra de algumas casas em que foi mantida a dignidade de outros tempos, das suas igrejas e, principalmente, da igreja da Natividade de Cristo (sec. XVII)

A casa do próspero comerciante em Arbanassi que todo o turista visita é esta. No rés-do-chão, além do mais, havia a adega, que hoje é loja de artesanato, principalmente bordados. No primeiro andar, a cozinha, os quartos, camas largas onde dormia toda a família e um quarto separado onde a mulher, quando parturiente, tinha espaço reservado, sossegado, para ela e espaço com berço para o nascituro.
E tinha retrete, um espaço com porta, de onde os moradores em cima evacuavam para baixo através de uma conveniente abertura no chão. 
Se perco o meu tempo com estes pormenores é porque, dizia a guia, não ser comum haver naquele tempo em toda a Europa espaço dentro das casas para o efeito referido. Nem em Paris. A comitiva, francesa em grande maioria, calou-se e eu concluí que a guia não estava a contar basófias.


A Igreja da Natividade de Cristo (pela descrição da guia pareceu-me tratar-se de um mosteiro, e, no mosteiro, uma das salas a igreja) terá sido construída com dimensão recatada para não suscitar a excitação da fúria otomana. Trata-se de um espaço composto por três salas, totalmente decoradas com frescos segundo a tradição ortodoxa.
Num desses frescos, que coloquei acima, a figura central é a mãe de Cristo. A Igreja chama-se da "Natividade de Cristo", mas uma das figuras que rodeiam a figura central é a figura de Cristo.

- Explique-me, se faz favor, como é que Cristo assiste ao seu próprio nascimento.
- Não. Este quadro não representa o nascimento de Cristo mas a Ressurreição da Virgem Maria.
- E o filho assiste?
- Cristo está sempre presente.

A Internet é de infinita sapiência:

" ... quando se aproximava o fim da vida terrestre de Maria, houve uma grande agitação na Igreja. Maria soube de antemão que estava para deixar este mundo. Os apóstolos também foram previamente avisados, de modo que se reuniram em Jerusalém. Quando lá chegaram, Maria já tinha morrido; abriram o seu sepulcro, que encontraram vazio. Cristo viera buscar a alma de sua Mãe Santíssima, que a arte bizantina representa sob a forma de uma criança enfaixada. A seguir, o corpo da Santa Mãe de Deus, gloriosamente ressuscitado, também foi assumido e levado a reunir-se à respectiva alma no céu." - aqui
Esclarecido.
E assim convencidos, regressámos ao navio, em Ruse. Onde nasceu Elias Canetti (1905-1994), vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1981. 

No dia seguinte, mais um mosteiro. O de Saint Dimitar Basarbowski, cavado nas rochas, provavelmente no séc. XV, durante a ocupação do otomana a avaliar pelos registos dos impostos dos 
turcos. Feita a visita, regressámos a Ruse.


Mosteiro de S. Dinis (Ruse)

Depois da visita a Ruse, uma "paragem técnica" na "Bulgariana" para beber o que apetecesse desde que fosse água ou cerveja, a acompanhar uns folhadinhos. E voltámos ao navio.

O navio subiu o rio durante a noite e, de manhã, estávamos em Belgrado, a capital da Sérvia, que foi capital da Jugoslávia, pela mão dura de Tito, antes de se estilhaçar o puzzle balcânico e a Sérvia ter sido reduzida a um território menor que o território português: 88361 km2, 77474 km2 para quem reconheça o Kosovo independente. E de entre os que o Danúbio atravessa até Budapeste, o mais pobre. 

Quando iniciámos a visita a Belgrado, as ruas junto ao cais de acostagem estavam, e devem continuar a estar, em obras. Disse a guia que o presidente da câmara prometeu que no princípio de Setembro estará tudo concluído, mas não passa de mais uma promessa que não vai cumprir. O costume, resumiu. Ah! Também prometeu que as obras da catedral ortodoxa estarão finalizadas no princípio de Novembro, mas ninguém acredita. 

É interessante analisar a evolução dos índices de desenvolvimento humano nestes países avaliados pelo Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano - PNUD: A Hungria é a 45ª no ranking do IDH, a Croácia 46ª., a Bulgária é 51ª , a Roménia 52ª, a Sérvia 67ª. 
A propósito, Portugal estava na 41ª posição. Refira-se, no entanto, que num dos componentes do índice - anos de escolaridade completos da população a partir dos 25 anos -, Portugal posiciona-se pior que qualquer daqueles cinco países. Sendo a educação o principal motor do desenvolvimento humano, Portugal arrisca-se, enquanto aquele handicap subsistir, a ficar para trás no pelotão.    


Catedral  Ortodoxa de Belgrado


A foto do exterior foi retirada da internet por não me caber tanto volume na objectiva do telemóvel.
  As duas abaixo foram obtidas na cripta da catedral, o único espaço acessível a visitantes.

- Gostou?
- Não. Francamente, não gostei.
- E porque é que não gostou?
- Porque a grandeza volumétrica e as iconografias douradas, são sinais opostos das direcções que, segundo as Escrituras, Cristo apontou. 




Kalemegdan (parque)

Depois da entrada no meio da confusão das obras com conclusão prometida para o princípio de Setembro, entrámos na fortaleza que domina a confluência do Danúbio com o Sava. E o que vimos é muito esclarecedor dos ânimos bélicos que subsistem no imaginário sérvio. De um lado e do outro da
muralha, há uma exposição de armas de artilharia, incluindo mísseis, que metralharam os países vizinhos. Uma exposição prometedora de novos conflitos. 
A Sérvia não aceita a independência do Kosovo, que considera o berço da sua pátria. A Rússia votou contra na resolução das Nações Unidas sobre a independência do Kosovo.
Para melhor se entender o vulcão político repleto de conflitos étnicos, religiosos, linguísticos, vale a pena ler aqui, a Desintegração da Jugoslávia. O gráfico com resolução dinâmica é muito impressivo da velocidade temporal com que tudo se processou.


Do lado oposto da entrada da fortaleza, observa-se uma panorâmica esplêndida sobre Belgrado. Ali, à direita junta-se o rio Sava ao Danúbio. 


À tarde, saímos de Belgrado a caminho de Novi Sad. 
Após "paragem técnica" para beber o que se quisesse, conquanto fosse água, cerveja ou refrigerante, ao som de um animado quarteto de cordas, visitámos Juzno-Backi. 
É um centro religioso, dominado por um enorme complexo de edifícios exclusivamente destinado a um seminário menor, seminário maior encontra-se em Belgrado.  


- Que diferenças teológicas separam os ortodoxos dos católicos.
- Ortodoxos não crêem no purgatório.
- E crêem no inferno?
- Acreditam que o inferno existe. O céu e o inferno.
- Quantos padres ortodoxos existem na Sérvia?
- Hum! Talvez dez mil? Não sei quantos são, mas são muitos.
- São casados?
- Ah, sim, são casados. Só se forem casados podem ser padres ortodoxos. 
- E se se divorciam?
- Deixam de ser padres.
- Aqui, neste seminário, formam-se padres?
- Não. Os estudos superiores de teologia são feitos em Belgrado. A formação aqui só permite que sejam monges, padres menores.
- Os monges são casados?
- Não, os monges não podem casar. Mas só eles podem atingir o patriarcado.
- Como pode ser isso, se têm estudos teológicos menores que os padres formados em Belgrado.
- São carreiras distintas. É um sistema muito complexo.

E com esta resposta, a guia apressou-se para a entrada no autocarro



Curiosamente, à entrada da elegante arquitectura neo-clássica do edifício principal do seminário menor, foram colocadas réplicas da Esfinge de Gizé, uma em cada lado da escadaria de acesso à entrada do edifício. Informou a guia que algum responsável pela obra, na altura da construção do edifício viajou até ao Egipto, ficou encantado com a Esfinge e mandou esculpir e colocar as duas réplicas. Verdade ou não, o escultor, entendeu que à Esfinge faltava o que é natural nos peitos femininos e colocou o que faltava.


A entrada de Novi Sad, uma cidade a cerca de 90 kms. de Belgrado, é dominada pela fortaleza. 
Nos Balcãs não faltam fortalezas nem mosteiros. 


Novi Sad é a segunda maior cidade da Sérvia com cerca de 300 mil habitantes, 400 mil na área metropolitana. É a mais multiétnica da região, cerca de 76% são sérvios, 6% são húngaros, 3% consideram-se jugoslavos, ainda que a Jugoslávia se tenha desintegrado, 3% eslovacos, 2% montenegrinos. Sobram 10% de outras etnias.
Situada a norte, à beira no Danúbio, foi violentamente atacada pelas tropas da OTAN durante a Guerra do Kosovo.   
Novi Sad perdeu as três pontes medievais que tinha sobre o Danúbio, assim como os sistemas de comunicação, água e eletricidade. Áreas residenciais foram bombardeadas com bombas de fragmentação várias vezes, enquanto a refinaria de petróleo local foi bombardeada diariamente, causando uma grave poluição e um amplo dano ambiental. 
c/p internet.


Apesar dos bombardeamentos a que foi sujeita, Novi Sad ainda apresenta grande elegância arquitectónica dos tempos em que foi o centro cultural mais importante da Sérvia.


A sede do poder local


A Igreja (Católica) do Nome de Maria


O interior gótico.


Mas também uma parte moderna que não escapa ao investimento chinês

Visitada a cidade, vamos ao Mosteiro de Krusedol.
A área ocupada pelo Mosteiro é enorme. Uma fotografia do conjunto, só com drone. Não temos drone. Poderia pescar algumas fotos na Internet mas nada acrescentaria ao que qualquer um pode aceder. 
O que o drone não pode mostrar é o Rasputine. 

- Rasputine? Tem algo a ver com o místico russo, influente na corte do último czar da Rússia?
- Absolutamente, nada. Entre na igreja, olhe à sua esquerda e verá um monge sentado, barbas compridas, vestes negras, com o tradicional barrete alto e negro na cabeça.
- Hum! E o que faz ele ali sentado?
- Quando não está a dormir ali, vela pela ordem e decência ( proibida a entrada a calções curtos) dentro da igreja. Também tem responsabilidades administrativas e supervisão das contas. 
  
Entrei, olhei à esquerda, Rasputine olhou para mim, desviei o olhar para as pinturas, sempre presentes e omnipresentes em todo o espaço interior das igrejas ortodoxas. Não há ícones em três dimensões mas não há espaço que não esteja preenchido por pinturas, umas ingénuas, outras barrocas, sempre em honra de milhares de santos que já passaram pela terra e agora os querem eternizados nas paredes.

Visitado o mosteiro, voltámos para o barco, que, durante a noite, navegou até Osijek, na Croácia  



Em Osijek, a 30 km da fronteira com a Hungria, não visitámos mosteiros.
Osijek é a quarta cidade da Croácia, com cerca de 120 mil habitantes.
Na Croácia, 87% dizem-se católicos, cerca de 5% ortodoxos. O estilo dos templos diz-nos quem reza lá dentro. Ao mesmo Deus, quase os mesmos ritos, a mais notória diferença para um leigo é a arquitectura dos templos.


Em Osijek, as ruas do centro histórico ligam-se entre si através de travessas em arcadas. Algumas bem mantidas, outras não tanto, sobretudo na parte mais antiga que cresceu junto da fortaleza. 
Vimos travessas idênticas a estas em Novi Sad.
Osijek também tem fortaleza. Que mais parece um conjunto de casernas, e talvez tenham sido isso mesmo, em degradação. 
Na fortaleza, o guia, um homem novo, que trabalhou em tempos em Paris como distribuidor de livros e revistas, voltou para a Croácia para a costa adriática. Mas lá a  renda da casa era muito cara e preferiu voltar às origens, neste lado, junto ao Danúbio. Pode dizer-se, neste caso com propriedade, que deu meia volta, porque a Croácia tem formato de ferradura ... quase.
Na fortaleza viu-se uma maqueta (em cobre?) da configuração da fortaleza quando ela merecia o nome. Agora resta a maqueta e os casarões a desmoronarem-se com o tempo. 


Após a visita à parte mais antiga, e a mais arruinada da cidade, visitámos a parte moderna, alguma arquitectura arte-nova, testemunho de tempos idos mais prósperos. 




Arquitectura e escultura contemporâneas apagam as memórias da passagem dos tempos em que orbitavam na constelação soviética.


Também na Croácia houve investimentos em que a crise de 2008 fez mossa grossa. 

- Vêem aquele edifício ao fundo?
...
- Destinava-se a centro comercial, de artes e espectáculos, uma meca de negócios em terra católica.
Faliu. Está vazia há mais de dez anos. Quem está a arder? 

O guia estava disponível para todas as perguntas. Tínhamos de estar de volta ao navio às 12,30, impreterivelmente, segundo o programa. Foi avisado a tempo de uma corrida em contra-relógio, de Osijek ao cais de embarque exigem pelo menos 45 minutos a um motorista experimentado. 
A paisagem, repetida na ida e volta, são searas de milho e girassóis.

Navegou-se até Mohács, já na margem direita do Danúbio, em território húngaro. 
O navio acostou para formalidades de controlo aduaneiro e eventual emigração clandestina.
Não havia clandestinos a bordo.
Não pisámos terra em Mohács. Não longe dali, defrontaram-se em 1526 e 1687 duas batalhas que determinaram o princípio e o fim do domínio do Império Otomano na Hungria. Quatro anos antes, em 1683, os otomanos tinham perdido a Batalha de Viena, e nela o fim da sua expansão na Europa.

Na manhã seguinte, depois de navegar de noite, chegámos a Budapeste


E à sua catedral.  
Cerca de 60% da população húngara é católica, 24% protestante.
A Catedral Basílica de São João, o apóstolo ou, mais formalmente, Metropolitana Catedral Basílica de São João Apóstolo e Evangelista, São Miguel e da Imaculada Conceição  também chamada de Catedral de Eger (nome complicado, a fazer lembrar o do nosso Dom Duarte) é um edifício barroco do séc. XIX. Excessivo para o meu gosto. 
Em frente da Catedral Basílica encontra-se o Teatro da Ópera, mas está em renovação, não visitável, coberta como numa instalação de Christo ( Christo Vladimirov Javacheff, búlgaro). 

Registe-se que, vendo o nosso grupo às voltas com um mapa sem saber onde se encontrava, uma senhora pequenina, aparentemente octogenária, de olhos azuis claros, vivos, acercou-se de nós oferecendo ajuda.

- Estão longe do local para onde querem ir. Mas eu vou convosco.
- Mas ia  à  sua vida ...
- Tenho muito tempo. Estou reformada. O meu marido está totalmente incapacitado. Venham. Vamos entrar no próximo carro eléctrico.
- Não temos bilhetes ...
- Os senhores são da União Europeia, não são?
- Somos. Pois com a vossa idade não pagam nada nos transportes públicos, incluindo o metropolitano.

E lá fomos atrás daquele anjo da guarda para chegar onde queríamos. 
Podemos medir a simpatia dos húngaros pelo padrão desta senhora idosa? Obviamente, não. Mas é da mais elementar justiça registar o sucesso de simpatia deste encontro.

Não longe dali fica a  Grande Sinagoga de Budapeste, a segunda maior do mundo, só superada pela de Jerusalém. 


Frente


Interior

Entrada paga, cerca de 15 euros por pessoa. Uma fila longa, muita gente no interior.
Os homens devem cobrir a cabeça com um quipá, ou boné, ... um tipo descontraído entrou e sentou-se, a cabeça coberta com o capacete de motard. Às mulheres não é exigido que cubram a cabeça mas não podem entrar de perna ao léu. Há saias de plástico (transparente!) disponíveis à entrada. 
Se mais não houvesse, cobrir ou não cobrir a cabeça, ou o rosto, ou todo o corpo, só os olhos descobertos, revela bem a importância da relevância com que a espécie humana reverencia Deus. Único.


O mercado tem dimensões colossais. Mas ainda não chegou a sua vez de ser restaurado. Exteriormente decadente, dentro podem comprar-se legumes, frutas, carne, sobretudo frango, bugigangas, kitsch de toda a espécie, atoalhados, roupas, trapos.
Tem três pisos. No piso inferior o letreiro prometia haver peixe. Havia muito pouco e muito mal encarado, salvo as postas de salmão de aquicultura. com melhor aspecto.
E havia peixes vivos num aquário de aspecto manhoso onde se mexiam com dificuldade algumas carpas (ou peixe parecido). Um deles estava morto, bem junto à vitrina virada para o corredor. 
Há peixe no Danúbio?
Na internet afiança-se que sim.
Mas desde o delta, junto ao Mar Negro, até aqui em Budapeste comemos uma vez um desenxabido meio "red mullet", outra vez, salmão (bem) grelhado. 

Ao lado do mercado, voltado para o Danúbio, está o grandioso edifício da Universidade. Também a precisar de restauro.


Budapeste é monumental. Uma monumentalidade construída sobretudo no séc. XIX, quando a Hungria era parte do Império Áustro-Húngaro. Em cima o palácio real. 
Há muita renovação das majestosas construções daquela época. E também muita construção recente onde se instalam companhias multinacionais.


O ex-libris arquitectónico da cidade é o Parlamento, que se reclama o segundo maior do mundo, a  seguir a Westminster. Outros posicionam-no em terceiro, depois do actual Parlamento de Bucareste, que Ceaucescu quis inaugurar mas foi morto antes que a construção tivesse acabado. 
É muito visitado. Quisemos entrar, teríamos de aguardar uma tarde inteira. Desistimos.
O Parlamento de Budapeste, começado a construir em 1902 é, pelo menos mais recente, mais de um século que a reconstrução de Westminster após um incêndio. Se é segundo em dimensão não tem comparação com o perfil neo-gótico de Westminster. 
Budapeste tem um Parlamento enorme, mas quando foi construído já a arquitectura e as artes plásticas em geral tinham enveredado por outros caminhos. É enorme, sem dúvida, em termos volumétricos, mas é uma volumetria de gótico plástico.

Curiosamente, o Palácio da Regaleira, em Sintra, começou a ser construído depois de ter começado a construção do Parlamento húngaro. Também em gótico plástico. Quem o mandou construir tinha milhões e como "O Milhões" era conhecido.
Com milhões constrói-se o que se queira. Até ao excesso.


Saindo do mercado, passa-se à frente do monumental edifício da Universidade, atrás referido, e atravessa-se a mais icónica das várias pontes que ligam Buda a Peste. Ao fundo vê-se o Hotel Gellért.
Ao lado fica o edifício dos "Banhos Públicos".


Entrada para os "Banhos Públicos"
Não tomámos banho ali.