De volta a casa, entretivemos a viagem com a discussão de algumas das questões com que se indignam os portugueses. Como sempre acontece, nestes casos, começa-se a conversa por uma ponta e, se não se segura bem o novelo, passado pouco tempo perde-se o fio à meada.
- O problema maior de tudo isto é o sistema de segurança social. Um tipo se tem um subsídio de desemprego ou de reinserção social assegurado, dedica-se à vadiagem e manda o trabalho às urtigas. Se perde o emprego, não procura trabalho, vai à procura de subsídio. É por isso que não há crescimento económico. É por isso que há desemprego. É por isso que as contas públicas estão como estão e o Estado está falido.
O discurso instalou-se e o estado social passou a ser o bode expiatório dos nossos descontentamentos.
A confusão entre segurança social e parasitismo social está generalizada, e a auto reclamada esquerda é em grande medida responsável pela percepção de laxismo, oportunismo, golpada, que os casos individualmente conhecidos ou relatados pelos media colam à imagem progressivamente distorcida do estado social.
- Há fulanos a viver do rendimento social de inserção que nunca fizeram nada de verdadeiramente útil na vida. Os ciganos, por exemplo. Mentem, barafustam, ameaçam, vivem dos subsídios do estado, deslocam-se em carros de gama alta, ganham montes de dinheiro com o tráfico de droga.
Não há trabalho? Como não há trabalho? Há ruas sujas, estradas por reparar, jardins públicos por tratar, há terras por cultivar, há tanta coisa para fazer...Como é que não há trabalho?
Quem é que pode contestar consistentemente este discurso?
E, no entanto, ele esquece e branqueia todas as causas maiores que afogaram este país em dívidas, públicas e privadas, fizeram rastejar e cair o crescimento económico, comprometeram o futuro da solidariedade social, sem a qual nenhuma sociedade é humanamente desenvolvida.
- Já não havia dinheiro para pagar salários - quanto mais subsídios ... Na Suíça não há subsídios, e a Suíça é um país rico.
Pois é.
Qualquer observador externo é levado a considerar uma extravagância de um país pobre o pagamento de subsídios de férias e de Natal, esquecendo que esses subsídios são parte da remuneração, são salários, não são subsídios. Um dia propus na empresa onde trabalhava que se pagassem os salários em 12 mensalidades, e não 14, dividindo remunerações anuais por 12. O impacto sasonal negativo sobre a tesouraria em tempos de redução de facturação (Verão e fim do ano) seria eliminado e a propensão dos trabalhadores para gastos perdulários reduzida. A proposta foi violentamente criticada e liminarmente rejeitada pelos sindicatos.
- Os tipos dos sindicatos são estúpidos.
Não diria isso. Diria antes que acima dos interesses dos trabalhadores, que dizem defender, colocam os seus próprios interesses. A contestação permanente faz parte dessa defesa dos interesses próprios dos sindicalistas. Essa é a razão pela qual se eternizam nos cargos.
- Mas, aos pensionistas dos sectores privados também foram cortados os subsídios?
Pois foram.
E não são nem foram funcionários públicos. Os argumentos invocados pelo governo para tratar de modo desigual a função pública não são aplicáveis aos pensionistas do regime geral da segurança social, mas cortaram. Cortaram aquilo a que chamam subsídios mas que são, na realidade, duas prestações das 14 em que dividiram, discricionariamente, os valores das pensões anuais.
Mas nem todos foram atingidos: os bancários, por exemplo, continuam a não estar abrangidos pelo contributo para a solidariedade social. O sistema está eivado de situações parasitárias.
- Seria bem melhor acabar com ele.
Nenhuma sociedade evoluída pode continuar a sê-lo se não existir solidariedade entre os seus membros. Sem solidariedade não há desenvolvimento humano mas retrocesso. Mas é imprescindível desparasitar o sistema. O parasitismo é sempre causa do definhamento da árvore por mais deliciosos e necessários que sejam os seus frutos.