Tuesday, October 16, 2007

BCE - BODE CENTRAL EXPIATÓRIO

Nouriel Roubini criou recentemente um novo blog dedicado às questões económicas europeias,
Europe EconoMonitor, congregando uma equipa de 25 economistas com méritos reconhecidos. É desse blog que retiro um artigo que aplaude o desempenho do Banco Central Europeu, pese embora o papel de bode expiatório que alguns políticos querem fazer dele.
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Se o autor, Philippe d'Arvisenet, reporta a sua análise às posições assumidas por Sarkozy, não deixa por isso de se dirigir também a todos aqueles que, por não quererem ou não terem sabido tomar as medidas necessárias à convivência com um modelo monetário diferente, tendem a transferir as consequências negativas dessa ausência de medidas para as medidas adoptadas pelo BCE.
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Politicians like scapegoats. There is no shortage of candidates. The European Central Bank is among them especially in France. It is unsurprising for several reasons: it is a bank, it is in Frankfurt, and a general lack of economic understanding mean that the electorate has limited knowledge of a central bank's role and how it should act. As a result, the ECB's positive effect on eurozone growth since 2001 is being completely overlooked.
The ECB is not obsessed with its objective of price stability. It acted pragmatically by reducing its refinancing rate to 2% and then holding it for 29 consecutive months even though inflation was above 2%, long-term bond yields were hitting historical lows, public deficits were expanding and the euro remained substantially undervalued. During this period, real short-term interest rates were zero or even negative. This policy led to a 60% increase in lending to French households, which is hard to square with claims of a restrictive attitude. Without the ECB's accommodative policy, the eurozone's growth – averaging 1.5% per year between 2002 and 2006 – would have been even weaker, by more than half a percentage point. Econometric analysis shows very clearly that the ECB places just as much importance on the economic cycle as the US Federal Reserve. Even today, the ECB is not adopting a restrictive policy, instead moving back to a neutral stance. By doing so, it is regaining some room for manoeuvre that could come in useful in the event of a negative shock.
Its monetary strategy is especially remarkable given the relative stability of eurozone prices. This shows that price stability – the objective assigned to the ECB by European governments – is not incompatible with growth. Nostalgia for the "trente glorieuses" – the 30-year period after World War II when growth and inflation coexisted in France – has led some people to hope for the return of inflation. They are forgetting the high interest rates during this period. Although inflation is now low, so are interest rates, and this is underpinning purchasing power and the ability to borrow long-term. Control over inflation increases visibility over relative price movements and improves the allocation of resources. The credibility of monetary authorities and a firm anchoring of expectations make it easier to attain the objective of overall price stability without having to raise interest rates too high. Conversely, doubts over the central bank's independence and its commitment to price stability would prompt lenders to demand higher returns to compensate for the increased risk. This would push up interest rates, inevitably dragging down growth given the open economy and extensive use of market financing.
Neither can the ECB be accused of ignoring exchange rates. It is true that the euro is allowed to float, and started the decade seriously undervalued, without the ECB intervening. However, contrary to received wisdom, the ECB does take exchange rates into account. It does so indirectly through its inflation target, since a stronger euro puts downward pressure on prices, prompting it to set lower interest rates. It also does so in a more direct way: the euro's effective exchange rate plays a significant role in its reaction function, which describes the way it sets its refinancing rate.
French politicians are keen to attack the ECB because they know how much lending growth has boosted growth and supported job creation. They know that the inevitable slowdown in lending will change the situation and require new economic policies. This will involve innovation incentives, but also greater competition in the services sector. Productivity in services must grow more quickly if per-capita wealth is to increase. However, this would require changes to the existing set-up, which is harder than simply criticising the European Central Bank. However, the resulting increase in purchasing power would be much greater.

ORNAMENTO DO ESTADO

Têm-se entretido os comentadores e analistas com a discussão à volta das subidas absolutas e relativas do orçamento. Para o Governo, o que é importante é a descida relativa da despesa, da receita e do défice relativamente ao PIB; para os críticos, o que se continua a observar é um aumento da despesa e da carga fiscal, resultando um défice menor porque o aumento das receitas supera o aumento das despesas.
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Com toda esta discussão acerca das subidas absolutas e das descidas relativas há um aspecto primordial que continua a ser ignorado pela generalidade dos comentadores: a apreciação crítica das opções do orçamento. Não é possível (impossibilidade absoluta) reduzir os impostos sem reduzir a despesa ou aumentar o défice. A desorçamentação (por definição de orçamento) não é uma alternativa, pode ser, quanto muito um adiamento.De modo que pouco importa, para a discussão séria do problema, essa guerra do alecrim e da manjerona acerca do relativismo e do absolutismo dos algarismos. Se por virtude de uma varinha do condão fossem reduzidos, digamos, 3 pp ao IVA (M. Frasquilho já se contenta com 1) o que é que aconteceria? Aumentaria o défice. A menos que os prazos de pagamento do Estado passassem para 1 ano (em alguns casos já excedem e em muito) ou fosse inventada uma outra engenharia orçamental qualquer. A Contabilidade de Caixa é muito virtuosa, admite vales e tudo.
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O que não vejo questionado, e isso é que mais tarde ou mais cedo tem de ser perguntado é, por exemplo:
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1 - Por que é que se vão gastar 2114,7 milhões de euros com a defesa nacional, qualquer coisa como metade do défice? Por que é que a defesa nacional vai ter um aumento de 8,5%? Por que é que gastamos com a defesa nacional muito mais do que com a Justiça,se é na Justiça que temos mais ameaças?
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2 - Por que é que ciência, tecnologia e ensino superior vão ter aumentos de 8,9% mas a educação fica na mesma, em termos nominais, se as nossas maiores insuficiências estão no ensino pré-primário e no secundário?
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3 - Porque é que a despesa no Ministério da Agricultura vai aumentar 4,9% se o Ministério da Agricultura é um mistério? Se o Ministro prometeu uma redução substancial dos efectivos para onde irão os reforços agora previstos? Porque se gasta neste mistério tanto como na Justiça e no ambiente e ordenamento do território em conjunto?
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4 - Por que é que se aumenta o orçamento da defesa e se reduz o da administração interna, quando as ameaças, se existem, são internas?
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5 - Por que é que o ensino superior tem de continuar a ser quase gratuito?
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Para além, evidentemente, do nó górdio dos efectivos dispensáveis.
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Admito que as minhas questões possam denunciar a minha pouca sensibilidade a alguns intrincados problemas. Leio, por exemplo, um comentário no Expresso que refere que a Defesa se mantem nos 1,2% do PIB, bem abaixo da média de referência de 2% da NATO.Ora a NATO terá as suas referências e nós as nossas insuficiências.
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Já agora: Alguém sabe como vão os submarinos? Há tempos foi notícia que haveria uns negócios suspeitos ligados ao caso. Depois ninguém mais falou no assunto. Submergiram?
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(Comentário a "post" de Pinho Cardão , Realidade e Propaganda do OGE, em Quarta República)
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(...) começa a ser prática corrente na orçamentação, a desorçamentação. A mais falada são as Estradas de Portugal que, só por si, varreu da vista, por agora,(mas não do chão) uns largos milhões. Acontece que nem só da desorçamentação da despesa vive o OGE em Portugal. Também temos desorçamentação da receita, ao que parece. Ao que parece, segundo o Expresso de 5/10, o ministro Pinho combinou com o presidente da EDP Mexia, uma compensação de créditos: nem a EDP paga a renovação das concessões das barragens nem a EDP aumenta as tarifas de forma politicamente incorrecta.
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É legal? (...) qual é o papel do Regulador e a sua numerosa equipa nesta questão tarifária? De embrulho?

Monday, October 15, 2007

COZINHADOS

Está em discussão o Orçamento Geral do Estado e, como sempre, divergem as opiniões acerca das opções. O que é natural e imprescindível em Democracia. Aliás, pena é que questões menores se sobreponham a uma discussão mais aprofundada acerca dos fundos atribuídos a cada função do Estado e a cada Ministério. Já é menos natural a discussão, por vezes preponderante, que se levanta à volta de conceitos e critérios utilizados no cozinhado das contas. Retiro esta terminologia culinária de um "post" de Tavares Moreira no "Quarta República com o sugestivo título Culinária Orçamental e Cozinheiro Chefe e onde o autor, depois de afirmar que se os critérios adoptados na leitura deste orçamento fossem os mesmos que o "Cozinheiro-Chefe" utilizou na rectificação do Orçamento de 2005, o déficit não seria o anunciado mas superior (cerca de 4%), conclui que o "Cozinheiro-Chefe" se auto-inibiu de repetir o cozinhado.
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Comentei:
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Caro Tavares Moreira,
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Leio este seu "post" e não posso deixar de ficar ainda mais confuso com o que leio nos comentários feitos à volta deste Orçamento. Eu, que nunca me perdi nos meandros da administração pública, (porque nunca neles me aventurei), pasmo como é que gente que deveria ser minimamente responsável não quer acertar uma coisa que, para mim, ingénuo me confesso, seria, se a honestidade de processos assim quisesse, uma coisa muito simples: definir critérios e conceitos obrigatórios na contabilização das contas públicas.
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Por várias vezes já, escrevi nas minhas palavras cruzadas que me pareceu (e parece) indigno o papel a que se prestou Vitor Constâncio. Se Vitor Constâncio tivesse feito jus ao prestígio que o aureolava deveria ter rejeitado a incumbência. Poderia, isso sim, e teria prestado um serviço ao país, se se tivesse disponibilizado para, em tempo útil, ter participado na definição de critérios e conceitos, a partir dos quais todos poderiam interpretar (sem sofismas nem habilidades) as contas públicas.
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Assim continuamos a assistir, com frequência que enjoa, às bolandas em que andam as contas do Estado em Portugal.Desorçamentar, por exemplo, passou a ser uma forma original de orçamentação e ninguém vai poder fazer nada contra isso. Pelos vistos.

SEM PERDÃO

O que está a acontecer no BCP é imperdoável.
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Jardim Gonçalves deve ter enlouquecido. É incompreensível que alguém, que é senhor de uma fortuna imensa, consinta que o seu nome e o do Banco que criou tenham caído na lama em consequência de perdões de créditos concedidos pelo Banco a um filho seu. E que diga com a maior desfaçatez deste mundo que desconhecia o assunto.
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É, por outro lado, imperdoável que os órgãos de fiscalização das contas do Banco (auditores, revisor oficial de contas), o Banco de Portugal e a CMVM aos costumes tenham, até agora, dito nada.
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Tanto mais que às negociatas familiares se juntam agora as negociatas com um dos accionistas com participação qualificada, segundo noticia hoje o Jornal de Negócios
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Imperdoável, se não vivessemos num país de maus costumes.

RECADO DA MANUELA

"Aplaudida de pé, Manuela Ferreira Leite fez um dos discursos mais aguardados do Congresso...

Ferreira Leite deixou alguns recados à liderança do PSD. Aconselhou o partido a não avançar com a discussão "fracturante" sobre a regionalização e a manter o silêncio quanto ao referendo europeu, já que não quer ver o PSD "de braço dado com Sócrates". Nos impostos, a ordem é para não pedir para baixar." (Diário Económico, de hoje).
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Se as posições de Ferreira Leite sobre a regionalização e impostos são sobejamente conhecidas (e contrariam num caso as intenções de Filipe Menezes e, no outro, as reclamações de Marques Mendes) já o pedido de silêncio sobre o referendo europeu "para não ver de braço dado o PSD com Sócrates" é intrigante: porque o silêncio significa ou indefinição ou puro calculismo político. Como não é razoável supor-se que Ferreira Leite não tem uma posição clara sobre o assunto, o facto de não querer desvendá-la nem querer que PSD desvende só pode ter a segunda interpretação. Podem os seus correligionários aplaudir a recomendação mas ela está longe de merecer aplausos de quem não se pauta por oportunismos, qualquer que seja a espécie.
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Além de que Sócrates, também ele se remeteu ao silêncio invocando que o Tratado se encontra ainda em discussão.
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De braço dado com Manuel Ferreira Leite, portanto.

Sunday, October 14, 2007

AVES NEGRAS

É surpreendente, ou talvez não, a frequência com que alguns intelectuais tropeçam nos seus próprios argumentos, em consequência da teimosia com que se agarram a alguns tabus muito seus, que são mais credos que convicções.
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Há dias era, mais uma vez, Pacheco Pereira que augurava um descarrilamento para a União Europeia desprotegida de um referendo geral que faça pulsar (se fizer) a unanimidade dos corações europeus. Não lhe importa que o documento a referendar seja complexo e esteja fora do alcance do entendimento da grande maioria. O que importa, segundo Pacheco Pereira, é que ao cidadão seja dada a oportunidade de dizer sim ou sopas. Como aquela crente que no Santuário de Fátima confessava não ter entendido patavina da mensagem do Papa mas concordava em absoluto.
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No Público de hoje, António Barreto escreve ("Uma semana negra"), a propósito da próxima reunião em Lisboa, que "para os dirigentes europeus, a União é mais importante que a democracia". Segundo AB, "a Europa vai bem. A União também... Mesmo a ovelha ronhosa da União, Portugal, cuja economia cresce pouco e cujo desemprego sobe muito, tem um razoável estado de saúde. Tudo isto, sem Constituição...Tarde ou cedo, haverá acordo e Tratado. E quase todos estão disponíveis para evitar os referendos e proceder, assim, sem a voz dos povos, à liquidação dos parlamentos nacionais..."
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Para AB, por um lado, a democracia é a democracia directa. Sem referendo a democracia, neste caso, deixa de o ser. E, acrescenta, de forma patética que "a presidência portuguesa é a agência funerária da morte da democracia nacional, sem que haja uma democracia europeia que a substitua e a melhore... lamentando que o primeiro-ministro seja o mestre-cerimónias e que o cangalheiro, presidente da Comissão, seja também português...". Por outro lado, AB chora a perda de importância dos parlamentos nacionais mas não reconhece a estes capacidade democrática para aprovar o Tratado.
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Do mesmo lado da barricada, entre outros, Pacheco Pereira, António Barreto e Francisco Louçã.
Mas Francisco Louçã, percebe-se: tudo o que servir para excitar as massas, serve-lhe a ele.
Quanto a António Barreto, neste texto, passou-se.

ALTERNATIVAS

O "Expresso" deste fim-de-semana noticia que "a Itália vai ser mãe de uma nova criatura que será a experiência política mais avançada, podendo iniciar uma nova era na geografia política do continente. Os "pais" baptizaram-no com o nome de Partido Democrático e, inovação total, os seus dirigentes serão escolhidos por todos os eleitores italianos, com mais de 16 anos, que queiram participar amanhã numa votação directa. Com dois boletins de voto na mão e um euro de contribuição para os gastos..."
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A democracia representativa, nascida em contexto que não adivinhava a televisão nem a internet, está cada vez mais ameaçada pelos discursos populistas que deslocam o discurso político dos parlamentos para os media, onde o debate, quando existe, tende a ser esgrimido com armas demagógicas. O populismo, que não nasceu com a televisão e a internet, encontra, contudo, nestes novos meios de comunicação um potente instrumento de propaganda sem paralelo em qualquer outra fase histórica.
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E não se vislumbra, por enquanto, como é que esta trajectória que privilegia os comunicadores e engole acriticamente os comunicados, do mesmo modo que engorda as ideias com doses maciças de telenovelas e "reality shows", possa ser travada. Uma conclusão parece poder retirar-se: a democracia representativa ou se adapta aos novos desafios ou está condenada a ser submergida pelas insinuações da participação directa. Com todas as imponderabilidades que ela implica.

Saturday, October 13, 2007

FÁBRICAS DE MEDÍOCRES

A generalidade dos comentadores portugueses, em blogues, nos jornais, na televisão, criticam tudo o que mexe, quase nunca arriscam propostas alternativas.

Do Blasfémias retirei o "post" de

Carlos de Abreu Amorim, também publicado no Correio da Manhã, que a seguir transcrevo e comento..

"Fábricas de medíocres

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Nas directas do PSD, vinte mil militantes apenas escolheram um provável futuro primeiro-ministro. Menos de um por cento da população designa, em eleições primárias, quem pode vir a dirigir os destinos do país. Já assim tinha sido no PS, na aclamação interna de Sócrates. Os militantes partidários transformaram-se nos grandes accionistas da democracia portuguesa.Mas há ainda pior: as juventudes partidárias, hoje sem expressão nos liceus e universidades, possuem, no entanto, uma relevância enorme nos aparelhos. Aliás, é dessa triste colheita que se fazem grande parte dos dirigentes de topo dos partidos e, por afinidade, do Governo e da Administração. Gente que vagueia nas assessorias, nos gabinetes do poder, sem nunca ter trabalhado, sem se cultivar, sem qualquer preparação.Olhem bem para eles no Congresso que agora começa: são os ministros de amanhã…"

Haverá, certamente, muito pouca gente que, lendo este seu "post", não concorde e não se sinta tocado por ele. Que, no entanto, não é original porque reproduz, em síntese e de forma menos radical, o desabafo mais constante dos portugueses: somos governados por uma cambada de incompetentes e corruptos. Que é também, como bem sabe, a posição de colunistas admirados como Vasco P.Valente, por exemplo (....)

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De modo que pergunte-lhe, e pergunto a todos os que, provavelmente com toda a razão desconfiam dos políticos que temos, por que não avançam para a disputa de lugares apetecíveis que, pelos vistos, estão ao alcance de gente pouco habilitada? Ou dito, de outro modo: Se este sistema é mau que sistema propõem?

Friday, October 12, 2007

RECEITA DO FMI

No relatório sobre Portugal o FMI elogia a retoma moderada que se tem vindo a registar mas saliantam que há ainda muito a fazer para alcançar uma tendência de crescimento mais elevado e a convergência do rendimento com a UE. O Fundo pede mais reformas que aumentem a competitividade do país:

- mais flexibilidade laboral;
- aumento da concorrência;
- sistema fiscal mais amigo do investimento (mas sem cortes nas taxas dos impostos no curto prazo);
- aceleração do processo de consolidação orçamental.

Caso estas reformas não sejam realizadas, defende, a evolução do investimento e das exportações pode estar comprometido. ( Público, de hoje)

As receitas do FMI nem sempre foram amigas do doente. No caso português presente, as recomendações são coincidentes com a generalidade das perspectivas mais conhecidas.
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Saliente-se, ainda assim, a ressalva que o FMI coloca à redução das taxas de juro sobre as empresas numa altura em que o Governo anuncia o propósito de beneficiar aquelas que estão instaladas ou se venham a instalar no interior do país. Será por tudo isto que Miguel Frasquilho no seu "post" de hoje no Quarta República limita a sua proposta de redução dos impostos a um ponto percentual no IVA?
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Está quase lá.

CONTOS AMERICANOS : PESSIMISMO PERSISTE

de: http://www.rgemonitor.com/blog/roubini  

AEI Event on the Deflating Mortgage and Housing Bubble, Part II --> Nouriel Roubini Oct 12, 2007 I presented yesterday at a AEI event on Deflating Mortgage and Housing Bubble, Part II. The first event was last March when the subprime carnage was emerging; this one was a follow-up debate on what is happening now and next to housing, mortgages, subprime and the financial system. The presentations at this event - by Desmond Lachman, Thomas Zimmerman, John Makin, Chris Whalen and myself - are also available at the event site. All the presenters were very pessimistic about the worsening housing recession, about the severity of the credit crunch in mortgage markets and about the risks of an economy wide recession.

CASA DE TIAS

A frequência com que desovam as broncas só é comparável com a das denúncias sem provas.
Como a Justiça é cabra-cega a que escapam facilmente os que se divertem e aproveitam da sua desorientação, o espectáculo promete não lavar mas durar.
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Vasco P. Valente dizia há dias no Público que "Cravinho descreve o "choque" que sofreu com a complacência do PS perante a corrupção do Estado. Sofreria com certeza um "choque" igual, e talvez pior, no PSD. A verdade é que o "bloco central" se fundiu com o Estado. Não existe um estado independente do "bloco central" e muito menos dos "negócios", que apoiam e sustentam: da banca e da energia a quatro ou cinco advogados. Cravinho, como Cavaco, não percebeu ou preferiu omitir, que hoje não se trata de reformar uma parte inaceitável do regime, mas pura e simplesmente de mudar o regime. Se por acaso caísse do céu a "transparência" de que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso."
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Perante esta acusação grave, que não se sabe quem acusa, a primorosa elite está de acordo que o Vasco P. Valente é uma grande cabeça.
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O que permite ao conivente Valente continuar a passar o conveniente recibo.
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Entretanto, Catalina Pestana pousou para o Sol e denunciou que continua pedofilia na Casa Pia, mas sem dizer quem. Terá, também ela, passado recibo?

Thursday, October 11, 2007

CAMADA RASCA

Há uns anos atrás, Vicente Jorge Silva cunhava a expressão "geração rasca", que se não foi muito pertinente relativamente ao alvo atingido, porque todas as gerações tiveram e terão as suas camadas rascas, denunciou com mordacidade acutilante o retrocesso cultural, a falta de desígnios, a longevidade da infantilidade, espelhada na cara de uma parte cada vez mais numerosa da juventude portuguesa.
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Houve um tempo, quando Coimbra era a "cidade dos doutores", em que a imagem de marca da Universidade, promovida por muitos filhos-família que a frequentavam para uns anos de boémia, era a do estudante especializado na pilhagem de galinhas, bebedeiras, serenatas e namoros de ocasião. A realidade, se era diferente, não era suficientemente capaz de se sobrepor ao embasbacamento que as estúrdias da rapaziada provocavam. Estudar, estudavam poucos, a maioria divertia-se e "queimava as pestanas" de vez em quando nas sebentas. Nesse tempo, iam para Coimbra "os que tinham posses" e, com sorte, um ou outro protegido que mostrasse ter cabeça. Com outra sorte, iam para os seminários.
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Mudaram-se os tempos e multiplicaram-se as "cidades dos doutores". E, se Coimbra não era modelo a seguir na tradição sebenteira, a rapaziada de outras paragens copiou-lhe a tradição da bebedeira. Com capa e batina.
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Vem isto a propósito de um ajuntamento que ontem observei no Rossio, em Lisboa, à volta do fontenário do lado Sul: os de capa e batina entretinham-se a tirar àgua do lago com um penico de plástico que deixavam cair sobre as cabeças dos caloiros, de caras pintadas. Bem sei que se tratava de uma versão "light", mas não menos imbecil, das barbaridades daquilo a que chamam "praxe".
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Despejavam a água e riam-se, após a cerimónia, padrinho e afilhado, como broncos a rirem-se das suas manifestações primárias. Os outros, à volta, tinham cara de enterro ou de ressaca. Seguramente, nada preocupados com as verbas que o Orçamento Geral do Estado, que será hoje entregue na Assembleia da República, lhes vai continuar a garantir. A maioria, aliás, não terá ideia precisa do que se trata. Mas também a quase totalidade daqueles que passavam, olhavam, e sorriam daquela inesperada parada de corvos não fazia a mínima ideia de que o triste espectáculo lhes fica caro.

Wednesday, October 10, 2007

CONTOS CHINESES : A LEI DA ROLHA



A maior interrogação que se coloca quanto à evolução da China a médio prazo prende-se, sem dúvida, ao caminho que terá de percorrer no sentido da liberdade de expressão e, portanto, da democracia. Por agora as classes mais favorecidas sentem-se confortáveis com o regime que lhes garante rendimentos crescentes, exponenciais para alguns, e os contestatários não têm, por agora, expressão que possa sequer beliscar a nomenclatura no poder. Os media são submissos, praticamente não se vêm jornais à venda, os canais televisivos estão controlados, a net também.
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Mas os serviços telecom observam um boom imparável: Entre 2002 e 2006, segundo o China Daily de 22/9, os telefones fixos passaram de 214,2 milhões para 367,8 milhões, os telemóveis de 206 milhões para 461 milhões, a Internet de 59,1 milhões de utilizadores para 137 milhões.
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Trata-se, portanto, de um mercado interno que já atingiu, no caso dos telemóveis, cotas que nenhum outro pode atingir, com um potencial ímpar.
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Mas se, conforme tudo leva a crer, a ambição de liberdade desalojar um dia destes a satisfação material que hoje adormece as consciências, a liberdade de expressão dispensará o papel.
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O papel que os chineses inventaram, recorde-se.

TRATADO EUROPEU

Em O Cachimbo de Magritte está publicada a versão em discussão do Tratado Europeu.
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Trata-se, conforme já se sabia, de um intrincado documento essencialmente jurídico cuja interpretação está muito longe do alcance de entendimento da esmagadora maioria dos cidadãos
europeus.
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Um referendo, basicamente, é um instrumento de auscultação da vontade popular que deverá exprimir-se em "sim" ou "não". Faz algum sentido uma tal questão acerca de um documento denso de 152 páginas? Faz, para quem é contra a União Europeia mas prefere levar a água ao seu moínho por outras levadas.

ENGENHARIAS ORÇAMENTAIS

De vez em quando, mas mais frequentemente do que devia, somos confrontados com habilidades orçamentais ou contabilísticas, ou uma coisa e outra, que nos fazem pensar estarmos na pré-história das disciplinas das contas. Ontem, Tavares Moreira denunciava no Quarta República mais uma engenhoca para reduzir artificialmente o défice das contas públicas a curto prazo. Tavares Moreira, que teve a amabilidade no seu "post" de me interpelar acerca do assunto, clama novamente contra as massagens dadas pelo governo aos números das contas públicas. Cito:
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ARS convertidas em EPE's? Só faltava esta!
Soube ontem que começou uma estranha transformação no Sector Público: as Administrações Regionais de Saúde estão a “virar” Entidades Públicas Empresariais (EPE), vulgo Empresas Públicas.Já não nos bastava a transformação do Instituto de Estradas de Portugal em EPE, para que as suas despesas possam futuramente escapar à disciplina orçamental.Agora são as próprias ARS, organismos integrados na estrutura do Ministério da Saúde com funções muito importantes na gestão descentralizada (regionalizada) do respectivo orçamento de despesas, que passam também a integrar o sector empresarial do Estado.Confesso a minha estranheza perante este fenómeno, cuja única explicação plausível consistirá na futura retirada de uma boa parte das despesas com a saúde pública do Orçamento do Estado – desorçamentação pura e dura.Por este andar, as CCDR’s também poderão passar a EPE’s, assim como as Direcções Regionais do Ministério da Agricultura, as Direcções Regionais de Finanças, etc,etc.Na minha perspectiva, existe um grande equívoco em todas estas operações: poder pensar-se que, uma vez saídas do Orçamento, estas despesas perdem o seu carácter “nocivo”, deixando de pesar negativamente no desempenho da economia.Nada de mais errado.O facto de estarem ou não inscritas no Orçamento é irrelevante quanto ao efeito económico destas despesas.E a sua retirada do Orçamento vai prejudicar ainda mais a transparência das contas públicas bem como o controlo da efectiva despesa pública, facilitando a realização de gastos não prioritários ou mesmo indesejáveis.Por estes e por outros episódios semelhantes é que continuo a dizer – embora com a noção de estar a pregar no deserto – que em Portugal não existe, mesmo ao mais alto nível, uma noção clara das implicações económicas da adesão a uma zona de moeda única.Por este caminho, os problemas estruturais da economia portuguesa nunca mais terão solução, tenderão a perpetuar-se ou mesmo a agravar-se indefinidamente.Está a entender-me, caro Rui Fonseca?Muito curioso que isto se passe no total silêncio por parte das Oposições.Como explicar este silêncio?
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Comentei.
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Caro Tavares Moreira,
Entendo-o perfeitamente. E também fico espantado com a indiferença das oposições. Esta e muitas outras questões deveriam ser objecto de séria discussão se as oposições não andassem demasiado ocupadas com os seus umbigos ou não estivessem, porventura, também elas envolvidas neste varrer de lixo para debaixo do tapete. Há, contudo, nesta prática de limpesa pouco limpa uma questão que sobra: Os prejuízos destas entidades colectoras de déficites acabarão por cair mais tarde ou mais cedo no orçamento. Alguém (nós, certamente) terá de pagar as facturas desorçamentadas. O Tribunal de Contas, a quem deveria caber a prevenção destas varredelas sorrateiras, está distraído ou peado de ir além de uma função de carro-vassoura?Só há, até prova em contrário, duas formas de Portugal acomodar a sua economia ao euro-ambiente: aumentar a produtividade ou/e reduzir o défice. Varrer o défice para debaixo do tapete não é, seguramente, solução. Aumentar a produtividade é coisa que não se faz de um dia para o outro. Lamentavelmente, não parece que se caminhe no PSD para uma proposta de separação de águas. Há um bloco central de interesses a opor-se a um quadro de reformas precisas.
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É o que se ouve dizer por aí acerca de um tal "gang do multibanco". Mas eu não sei de que se trata.

Monday, October 08, 2007

O DESEMPREGO DA DEMAGOGIA

A proposta do Orçamento Geral do Estado tem anúncio prometido para a próxima semana. Com o Congresso do PSD em Torres Vedras pelo meio, a aclamação do novo líder não vai, certamente, dar tempo e lugar à discussão de ideias programáticas que possam confrontar-se com os caminhos prosseguidos pelo actual governo. Ainda que fosse essa a idiossincrasia ( e não parece que seja) do "gang do multibanco" que, segundo Pacheco Pereira, tomou conta do PSD.

Pinho Cardão escreve no Quarta República, sob o título "A demagogia e o desemprego", a propósito da promessa de Sócrates, muito provavelmente falhada, de criação de 150 mil postos de trabalho e da realidade recentemente anunciada de aumento da taxa de desemprego para níveis que já excedem a média europeia.
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"...Ao contrário, o emprego em Espanha não se fez pela contratação de mais funcionários públicos, mas por políticas públicas equilibradas que não forçaram a componente fiscal e permitiram a racionalização empresarial. A economia espanhola, partindo de uma base similar, tornou-se competitiva, diminuiu o desemprego e, ironicamente, tem sido um dos motores, através das importações, do nosso débil crescimento.O aumento da despesa pública, em Portugal, não explica certamente tudo, mas seguramente explica muito. E, esgotada a possibilidade de novas admissões no Estado, a racionalização que se pede às empresas só poderá trazer mais desemprego por um bom par de anos. O resto é demagogia. Fariam melhor o Governo e, já agora, as Oposições responsáveis, ir prevenindo os portugueses".
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A questão da redução da despesa pública tem-me levado a trocar argumentos com Pinho Cardão, mais adepto do corte nos impostos (com Tavares Moreira e Miguel Frasquilho) e depois logo se verá. Ressalto desta parte do "post" de Pinho Cardão a sua inclusão das "oposições" ( também a dele, portanto) na obrigação de prevenir os portugueses. Ângelo Correia, que pertence ao gang (Pacheco Pereira dixit) respondia, ontem, muito convictamente a uma pergunta sobre o assunto, que Menezes iria ser muito claro sobre a questão da inevitabilidade da redução do número de funcionários públicos.
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Comentei, a propósito, no Quarta República:
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A comparação da evolução da taxa de desemprego entre Portugal e Espanha passa, forçosamente, pela comparação da evolução das políticas de emprego seguidas nos últimos 30 anos num caso e noutro.
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Filipe Gonzalez, que assumiu o Governo de Espanha após um período muito curto que se seguiu à queda do franquismo, optou por dar às empresas a possibilidade de se reestruturarem, em grande parte à custa do aumento de desemprego.Em Portugal, na ressaca de uma transição que envolveu nacionalizações e outros desvarios, a opção foi sempre a de manter o emprego sacrificando a reestruturação. Depois aconteceu que se viu: A economia espanhola ganhou consistência (ainda que o sector imobiliário possa vir a causar graves dissabores), a economia portuguesa sofreu vários rombos com as deslocalizações. O emprego, entretanto, foi assegurado em grande parte pelo aumento da despesa pública. Poderia ter sido diferente. Claro que podia. Mas não foi.O que importa agora é saber o que importa fazer, hoje.E, hoje, o que importa fazer é reduzir a despesa pública. Claro que, deste modo, o desemprego vai aumentar. Mas a alternativa é continuar (se fosse possível...) a política anterior, enrolando a manta até a respiração se tornar impossível.
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Ora é uma proposta política que defina claramente COMO deve reduzir-se a despesa, e POR QUE é que deve reduzir-se, que deve ser colocada aos portugueses.
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Quanto ao resto são lamentações junto a um muro que não se comove.

Sunday, October 07, 2007

REFERENDO & SEMI DEMAGOGIA

Pacheco Pereira escreve no Público de ontem, 6/10, mais uma vez acerca da sua já bem conhecida posição a favor do referendo do tratado europeu, ainda em negociações. Para o conhecido comentador e historiador, "os governos e os grandes partidos substituíram a democracia por decisões iluminadas, tomadas in camera", "Uma UE semidemocrática, semieuropeia, semiunião" .
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O conteúdo do artigo em questão está, desde logo, sintetisado no título e no seu primeiro período: "Numa altura em que se perde de vez a possibilidade de os portugueses se pronunciarem sobre o novo tratado europeu, com o abandono do compromisso pela actual liderança do PSD de fazer um referendo, dá-se mais um passo num triste caminho de criar uma entidade internacional que é cada vez menos democrática e a quem entregamos cada vez mais a nossa soberania nacional."
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Pacheco Pereira, que é reconhecidamente um dos intervenientes políticos com mais sólidos conhecimentos em história contemporânea, é dotado de uma personalidade inquieta e inquietante, fez um percurso de vivências políticas de sentidos díspares, mas, talvez por tudo isso, nem sempre da sua bagagem, que é pesada, a sua inquietação faz sair as conclusões mais coerentes.
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A sua posição, de princípio, relativamente aos referendos, e neste caso relativamente ao tratado europeu, choca-se frontalmente com o populismo que ele denunciou, sem papas na língua, em Santana Lopes e que agora aponta, outra vez sem rodeios, à volta de Menezes.
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"Populismo é, em substância, uma doutrina ou uma prática que nega ou tenta enfraquecer o princípio da representação. O populismo promete ao "homem da rua" ou "às bases do partido" (ao "povo" numa variante ou noutra) o exercício directo do poder.", escreve no mesmo jornal e no mesmo dia, Vasco P. Valente, outro historiador com banca montada no mesmo diário, e com o qual, desta vez concordo.
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Ainda no mesmo jornal, e no mesmo dia, Peter Sutherland, um irlandês que participou na fulgurante transformação do seu país após a sua entrada na União Europeia, foi comissário na União Europeia e é hoje presidente da Goldman Sachs e da BP, afirma, sem ressalvas, que "Fazer um referendo neste tratado é ridículo. Aliás, nunca se deveria ter promovido referendos. Os britânicos começaram, os franceses e os holandeses seguiram-nos. Em França e na Holanda votou-se "não" a muitas coisas, mas muito poucos foram os que votaram "não" à Europa. Votaram não à globalização, a Chirac, à Turquia, à imigração. Ter 28 países a fazer um referendo sem nenhum preço a pagar por dizer "não" significaria paralizar a Europa, pois será inevitável que algum país vote não. No futuro, como neste tratado já há uma regra explícita que permite aos paíeses abandonar a União, se algum país quiser perguntar à sua população se quer continuar ou sair poderá fazê-lo. Isso seria um referendo adequado, mas a resposta seria sempre a favor de continuar. E se um primeiro-ministro qualquer decidir que vai pôr a culpa de tudo na Europa, passaremos a poder dizer-lhe que tem a possibilidade de negociar a saída."
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Já escrevi qualquer coisa parecida sobre este assunto, a última das quais a 8/7, (Democracia & Referendo):
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"sou contra o referendo de tratados. E sou contra o referendo por uma razão simples: um tratado é sempre um documento extremamente complexo, a sua apreensão consciente não está ao alcance da esmagadora maioria. De modo que o referendo, se vier a acontecer, suscitará, não a discussão do seu conteúdo (das ideias) mas a batalha demagógica dos que se baterão pelo sim e pelo não, dos fulanos, portanto. Parece-me, por outro lado, que não pode a Europa construir-se ao sabor das vicissitudes locais e, é inquestionável,que um referendo deste tipo trará (traria, espero eu) sempre para a batalha política as questões internas do momento em cada país.No caso da Polónia, os manos gémeos têm necessidade de se afirmarem perante a opinião pública numa altura em que as coisas lhes correm menos bem por outros motivos.Concordaria com o referendo, sim, se ele sufragasse a permanência na UE.
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Dito de outro modo, havendo referendo, os países que votassem pelo não, deveriam abandonar o clube."
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Por que é que Pacheco Pereira não entende isto e persiste em defender pontos de vista que são os do Bloco de Esquerda?
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As razões do Bloco de Esquerda, contudo, percebem-se.

Thursday, October 04, 2007

ACERCA DA HABITAÇÃO

O Público de ontem publicava um artigo que titulava "Necessidades habitacionais contabilizam-se em 200 mil novos fogos e obras em 190 mil. Resumia ainda a autora do artigo que, segundo um estudo realizado pelo ISCTE sob orientação de Nuno Portas, Augusto Mateus (sempre ele) e Isabel Guerra, que pode ser consultado em http://www.planoestrategicohabitacao.com/, o mercado não resolve as necessidades de 20% da população, que precisa de apoios publicos para acesso à habitação. A sobrelotação de fogos -existirá cerca de meio milhão de casas sobrelotadas em Portugal - e a existência de famílias alojadas em situações precárias foram os principais elementos que permitiram chegar a uma avaliação quantitativa.
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Para quem tenha estado minimamente atento, as notícias acerca do mercado da habitação em Portugal têm frequentemente referido o aumento crescente do stock de habitações para venda atingindo o tempo médio de retenção cerca de dois anos. Aliás, segundo os mesmos dados, Portugal contará com um dos índices mais elevado de habitações por famílias residentes: cerca de 1,3.
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Parece, portanto, inexplicável o comportamento dos empresários que se dedicam sobretudo à construção de casas de colocação difícil quando um conjunto considerável de compradores não vê no mercado habitações à sua medida.
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A resolução da questão, contrariamente ao que geralmente se quer fazer crer, não estará na lei do arrendamento, ainda que a actual esteja bem longe de ser boa. Porque o arrendamento existe, os senhorios são os bancos. A menos que se queira remeter para o mercado do arrendamento os sem casa nem garantias pessoais suficientes, gerando um mercado de "sub-prime" à portuguesa.
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A solução passa pela criação de condições que permitam a construção em condições mais económicas. E há várias maneiras de o realizar. Nenhuma, no entanto, passa pelo Estado-construtor.

Wednesday, October 03, 2007

ACERCA DO DESEMPREGO

Tavares Moreira comenta em Quarta República as notícias acerca do aumento da taxa de desemprego em Portugal.
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Implicitamente, Tavares Moreira atribui as culpas do aumento do desemprego à adesão ao euro sem a adopção de medidas prévias de política económica que permitissem acomodar as exigências que a entrada no clube nos iriam impor.
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Cito
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"-Temos de aderir ao Euro..." porque nos fica bem, somos a guarda avançada da Europa...
"-Pelotão da frente" pois claro,não podemos ficar para trás...-
"-Europa, o nosso futuro", nem se admite outra coisa.
É tudo assim, não se medita no essencial e a verdade é que na opção de entrada no Euro o essencial - que era a adopção de políticas adequadas de afectação de recursos e de agilização dos mercados de factores e de produtos - ficou para trás.Estamos há anos a pagar os enormes custos dessa tremenda falta de seriedade na tomada de decisões fundamentais.E vamos continuar a pagar, o que não se sabe é por quantos anos mais...e se a factura nunca mais fica paga?O grave problema do défice da Balança de Rendimentos, ou seja a gigantesca factura dos juros que temos de pagar ao exterior, que este ano deve ultrapassar € 7 mil milhões, ou 4,5% do PIB e deverá continuar a subir nos próximos anos, sugere que ainda vamos ter enormes dores de cabeça por força das opções erradamente tomadas.
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Não parece que possa merecer razoável contestação a posição de Tavares Moreira.
Contudo, também não parece ajudar grande coisa, "chorar (agora) sobre o leite derramado". Se as devidas medidas não foram tomadas na devida altura (e por via delas o desemprego teria subido nessa altura, talvez à altura a que subiu em Espanha) a questão que se coloca é se hoje estão a ser adoptadas as medidas que as circunstâncias presentes impõem.
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É o que, salvo melhor opinião, importa agora discutir. Porque, como dizia Daniel Bessa há alguns tempos, e nisso concordo com ele, o desemprego vai fatalmente aumentar em Portugal. Se tivermos sorte talvez aumente moderadamente.

Tuesday, October 02, 2007

GROUND(SLOW)FORCE

Chegámos a Portugal!, dizia alguém à uma da manhã, depois de mais de uma hora de espera pelas malas no aeroporto.

A Groundforce não tem Livro de Reclamações. Tem um mas só para os voos da TAP.

A espera das malas no aeroporto de Lisboa é equivalente à duração de uma viagem Madrid-Lisboa.

Por que é que a Groundforce não emprega chineses?

Monday, October 01, 2007

A COR DO GATO



Não importa se o gato é branco ou preto, o que importa é que cace os ratos - Deng Xiaoping
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O aforismo proclamado por Deng Xiaoping como o caminho a seguir pela China a partir do momento em que tomou conta das rédeas do Partido Comunista Chinês, na ressaca da esquizofrenia colectiva que constituiu a revolução cultural e deixou a China em estado de coma, vai ficar na história como o marco inspirador da reviravolta operada que mudou tudo para sobrevivência do nome do partido.
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Do partido comunista sobra pouco mais que o nome e o retrato de Mao pendurado na porta da dinastia Ming da Cidade Proíbida. E a ditadura dos novos mandarins, obviamente. Quanto ao resto, a China é hoje dominada por um sistema económico que o chefe de qualquer central sindical dominada pelos comunistas classificará, com toda a razão, de capitalismo selvagem. Aquele que construiu as pirâmides do Egipto, por exemplo, num tempo em que também sobravam multidões para trabalhar e não reclamar.
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Seria, contudo, insconsciente não reconhecer o enorme salto em frente que a China observou nos últimos vinte anos, e que não tem paralelo na história da humanidade. E seria tolice não observar que esse crescimento vai catapultar dentro de pouco tempo o Império do Meio para a liderança da economia mundial.
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Há, no entanto, neste combóio de sucesso da China, para além das desigualdades crescentes que forja entre os passageiros de primeira e os que se empilham no vagão J, e que o podem fazer abanar, um grão de areia dura que o pode fazer descarrilar se o abanão for forte: na China não tive acesso ao meu blog. Um exército técnico de 30 mil censores policia a web.
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Poderia ser de outro modo? Até quando?
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BEIGING, SETEMBRO 14/15
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Chegamos a Beijing às 8,15 da manhã. A viatura que nos leva ao hotel vai por uma autoestrada que deve ter sido construída há poucos anos. Há quase catorze, a ligação entre o aeroporto e a cidade passava por uma estrada que atravessava os campos, ladeada por velhos plátanos ao lado dos quais caminhava uma multidão infinita de camponeses que transportavam para a cidade frutos e legumes à cabeça, às costas, ou em carroças que eles próprios puxavam.
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Era o tempo que uma pequena abertura concedia aos camponeses alguma liberdade de iniciativa individual e de gestão de pequenas parcelas de terreno por conta própria. Hoje, a auto-estrada afasta-nos da visão próxima dos campos à volta mas os camponeses continuam lá. Em menor número, mas ainda assim bem acima de metade dos 1,3 biliões de pessoas que habitam na China. Muitos dos que, entretanto, abandonaram os campos construíram, e continuam a construir, esta e outras auto-estradas que tornam este país menos imenso. Muitos outros arrasam as milenárias "hutongs" (vilas à volta de um páteo, lembrando-nos de algum modo as antigas vilas lisboetas) e erguem florestas de arranha céus, a mando e para orgulho dos novos manadrins, e espanto incontido para os nossos sentidos.
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O hotel que nos albergará durante os dois primeiros dias tem 25 anos, o lobby é amplo e a decoração um compromisso estético equilibrado entre o ocidente e a China. Acusa já algumas torturas do tempo mas vai ser restaurado a tempo de receber turistas durante os jogos olímpicos do próximo ano. O pequeno almoço não augurou nada de bom para os próximos dias: a qualidade nada convidativa, o serviço desleixado, um simples copo de água adicional tem de ser negociado.
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Já no autocarro, a caminho do centro da cidade para iniciar a visita programada, a guia alerta-nos para a inexistência de papel higiénico nos sanitários públicos e para a necessidade de nos munirmos de garrafas de água engarrafada por não ser potável a água que corre nas torneiras. Providencialmente, os motoristas carregam sempre a seu lado uma quantidade suficiente de garrafas para abastecer os clientes (aproximadamente 1 euro por 3 garrafas de 2,5 decilitros de água). As garrafas de água são uma presença constante à nossa volta mas, naturalmente, mais intensamente junto aos locais turísticos. Estranhei que a China, apesar do progresso evidente por todos os lados, continue a não dispor se sistemas de tratamento eficiente da água que consome nos seus domicílios. A guia disse-nos que os chineses mantêm o hábito ancestral de ferver toda a água que bebem, não apreciam a água fria, nem a cerveja muito fresca. E as primeiras cervejas que nos serviram ao almoço não vinham frescas nem vivas. Mas parece óbvio que as unidades hoteleiras mais sofisticadas têm sistemas de tratamento de águas privativo.



A visita ao Templo do Céu (primeira fotografia) surpreende-nos, desta vez, pelo número de visitantes chineses que sem esconder toda a sua curiosidade espreitam espantados para o interior da construção do tempo da dinastia Ming (1368-1644), e arregalam os olhos para os outros edifícios envolventes. Há alguns anos atrás viam-se quase apenas pequenos grupos de estrangeiros, turistas ou turistas acidentais em viagens de negócios, e muito poucos chineses. Agora não: o peso do número dos seus habitantes, que é a mais vincada marca chinesa, faz-se sentir quase por toda a parte onde há marcos da história milenar da China.
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O parque envolvente ao complexo de Tian Tan, no qual o Templo do Céu era o salão de oração onde o imperador oferecia sacrifícios e orava aos céus e aos seus antepassados no solstício de Inverno, encontrava-se vedado às populações durante as dinastias Ming e Qing. Hoje acolhe multidões surpreendidas com o fausto das construções imperiais e os modernos e arrojados arranha céus que, ao longe, os olham de cima.
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Alguns citadinos aproveitam a tranquilidade do espaço para o canto coral ou o tai ji quan, um exercício coreográfico de ralaxamento. Outros prosseguem intermináveis desforras de xadrês chinês, que não são necessariamente jogados a dois.

Esta postura chinesa de cócoras é ainda frequente, apesar da celeridade e a turbulência envolvente dos tempos que correm cada vez a consentirem cada vez menos.



Porque era Sábado, pensámos, havia muito mais turistas nacionais de visita aos monumentos mais emblemáticos da capital. Errámos. As multidões de visitantes chineses que vimos no Templo do Céu, na Cidade Proíbida, no Palácio de Verão, em Pequim, durante o fim-se-semana, voltámos a encontrá-las em outros locais durante os dias seguintes em outros locais bem longe dali. Na Praça de Tian´an Men, onde havia preparativos para as celebrações da proclamação da República Popular da China a 1 de Outubro (em 1949), passeavam-se entre a neblina, que também era de poluição, grupos que se distinguiam uns dos outros pelas cores dos bonés: vermelhos, laranjas, brancos, nenhum verde, por ter conotações menos honrosas.
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À saída do Templo do Céu somos assediados por uma pequena multidão de vendedores de coisas pequenas, do Livro Vermelho de Citações de Mao Tsé-Tung e de imitações de marcas conhecidas. São imigrantes nacionais que abandonaram os campos e estão sem emprego ou procuram melhor recompensa. Quase que não se vêm pedintes, deparámos com três ou quatro casos de pessoas com grandes deformações físicas que nos estendiam a mão, uma ou outra velhinha a murmurar qualquer pedido de ajuda, mas são sobretudo os vendedores de pechinchas que mais aparecem a interpelar-nos em alguns locais de Beijing.
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Beijing que quase não reconhecemos. Onde antes havia um formigueiro humano que se deslocava em ondas densas de bicicletas há agora avenidas de arranha-céus congestionadas de automóveis. Mas há limpesa nas ruas e uma notável actividade de florestação e ajardinamento nos locais mais concorridos da cidade.
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Beijing, que ocupa uma área que é cerca de 1/5 do território português, tem mais de 16 milhões de habitantes, prepara-se para exibir a todo o mundo, durante os jogos olímpicos do próximo ano, a ímpar e imparável transformação que a China está a realizar.

Ofuscada pela neblina, a figura tutelar de Mao pendurada à porta da Cidade Proíbida da Dinastia Ming é bem a imagem já renegada que ninguém ousa apear.
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SETEMBRO, 16
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A visita à Cidade Interdita confirmou o ambiente observado no Parque de Tian Tan (do Templo do Céu): multidões de turistas, a maior parte dos quais nacionais, impedem uma apreciação saboreada do ambiente formado pelo conjunto de edifícios, de arquitectura repetitiva, por onde em tempos distantes só era permitido acesso aos altos dignatários do Império do Meio, às concubinas e aos eunucos, polivalentes servidores dos Imperadores.
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Mas se tanta gente esgota a atmosfera de história que enche os recintos vazios também a enche da animação que aquece de bulício, de cor e confusão as romarias. A maior parte não vai para ver, porque nem sabe o que vai ver, vai para estar e só isso lhe chega e sobra. Estive lá. Vejam só esta fotografia.


Para além dos tesouros históricos que a cultura chinesa forjou ao longo dos milénios, e que constituem um dos mais importantes acervos da humanidade, a expressão artístistica mais relevante na actualidade expressa-se na arquitectura.
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A oferta cultural, para além do riquíssimo patrimómio histórico, ressente-se do atrofiamento que o regime ainda impõe à criatividade e à liberdade de expressão.
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A Ópera de Pequim atrai muitos turistas estrangeiros mas é praticamente ignorada pelos nacionais. É um misto de um canto exótico e algumas acrobacias, obedecendo a um figurino que se tem mantido com as mesmas indumentárias, as mesmas histórias, as mesmas melodias, os mesmos saltos. Os chineses devem pensar, e bem, que uma vez na vida chega.


SETEMBRO 17
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Visita à Grande Muralha. Pelo menos uma vez na vida, é o que manda a regra. Fui lá pela terceira. Desta vez, subi até onde antes não tinha subido. Foi pena estar o tempo tão nublado. Na China há muitos séculos que trabalham para o Guiness: A Grande Muralha, o Grande Canal (quase 2000 quilómetros a ligar Xangai a Pequim) e, agora, a maior barragem do mundo a ser inaugurada no próximo ano.
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Perguntam-me, na descida: Mas como é que desciam estas escadas tão íngremes os cavaleiros do Imperador? Não sei. Provavelmente aquilo era sítio reservado à infantaria, os cavaleiros aborreciam-se a cavalgar ao longo das muralhas.

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A distância entre Beijing e este troço da muralha é relativamente curta, cerca de 50 quilómetros, a maior parte dos quais em auto-estrada. Há catorze anos caminhava-se por uma estrada relativamente estreita, entre campos e povoações.

À noite, viagem de combóio, 8 horas, entre Beijing e Datong, em carruagens camas. Saída e chegada dentro do horário previsto. As estações estão limpas. À entrada da estação central de Beijing vêm-se muitas pessoas deitadas no chão à espera que chegue a hora do combóio. Pelos vistos não lhes é consentida a mesma posição no interior das instalações, argumentou-me a guia. E é possível que assim seja por que lá dentro só havia pessoas sentadas ou de pé.

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Durante o percurso de regresso a Beijing e, antes de jantar à a guia sugere-nos uma massagem gratuita dos pés. Lá fomos por os pés de molho. Entretanto ouvimos uma prelecção sobre medicina tradicional, um diagnóstico por tomada de pulso, e no fim alguns compraram medicamentos. Afinal, há massagens gratuitas, mas não todas.




DATONG, SETEMBRO 18
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Grutas de Yungang, património mundial. Trata-se de um conjunto de mais de 51 mil estátuas, cujos tamanhos variam entre o minúsculo e o gigantesco, iniciado durante a dinastia dos Wei do Norte em 453 d.C., como expiação das perseguições que promoveram contra os Budistas. O Buda Principal (na fotografia) salienta-se pela grandiosidade na simplicidade e harmonia da escultura talhada na rocha.
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Também aqui a afluência de turistas, dominada por nacionais, é muito elevada. A manter-se o ritmo actual de visitas e a não restrição do número de presenças simultâneas em algumas grutas, é muito provável que as estruturas e o que resta das pinturas venham a ressentir-se do peso dessas presença massiva. A disponibilidade das autoridades no consentimento para o contacto directo com a cultura antiga parece querer compensar as restrições que impõe ao contacto com a modernidade cultural em muitos aspectos.
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Para além do seu património cultural, Datong, que foi capital durante as dinastias dos Wei do Norte (386-534 d.C.) e dos Liao (907-1125 d.C.), foi, e continua ser, um importante centro mineiro: 10 mil minas, das quais já foram fechadas 3000 por não oferecerem condições mínimas de segurança e mais 4000 serão fechadas proximamente. Uma das razões que fazem da China um país com elevados índices de poluição é o recurso ao carvão para a produção de energia eléctrica.
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Fortemente defecitária de recursos energéticos, a China tem vindo a assumir um papel cada vez mais decisivo na disputa pelas reservas de crude, tanto no Médio Oriente como em África (Angola, por exemplo) e América do Sul. Neste, como em muitos outros casos de aprovisonamento de matérias-primas básicas, as autoridades chinesas vêm demonstrando um pragmatismo que faz inveja ao mais frio capitalismo. No Sudão, por exemplo, a China ajudou a construir o pipeline que permitiu desenvolver as reservas sudanesas de crudeo, e agora compra-lhe dois terços das suas extracções, oferecendo ao presidente sudanês um empréstimo sem juros para a construção do seu fabuloso palácio. Quando confrontado, em 2006, com a chacina de 200 mil pessoas em Darfur pelas forças do Sudão, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Zhou Wenzhong respondeu: "Negócio é negócio" (Farndon, China Rises)



SETEMBRO 19

Datong é, certamente, uma das cidades mais poluídas da China, sobretudo em consequência da actividade de mineração de carvão à sua volta. Mas é também uma cidade onde as autoridades, à semelhança do que se observa em outras, pelo menos, nesta zona mais desenvolvida e mais turística do leste, estão a desenvolver um trabalho notável de limpesa e de ordenamento do território: não pinchagens, não há lixo no chão, não há plásticos lançados para a beira das estradas. Dir-se-á: Há muita gente a limpar. Eu penso que há pouca gente a sujar.

A caminho de Taiyuan passamos pelo templo suspenso de Xuangong Si (nas fotos acima). Sustentado por esguios pilares de madeira, o templo parece precariamente agarrado às paredes do desfiladeiro. Os Wei do Norte (386-581) foram os primeiros a construir neste espaço, apesar das cheias do rio Heng terem frequentemente destruído os edifícios. O templo actual data da dinastia Qing (1644-1911). Os cerca de 40 salões foram escavados nas grutas e cobertos com fachadas em madeira. Estão ligados por passagens e pontes, contendo estátuas em pedra, ferro e bronze de deuses budistas, confucionistas e tauistas. O Sanjiao Dian (Salão das Três Religiões) apresenta estátuas de Confúcio, Buda e Lao-Tsé sentados juntos. (in Guia do American Express).

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Também neste caso, apesar dos visíveis cuidados dedicados ao enquadramento do curioso templo, a massificação turística acabará, mais tarde ou mais cedo, por destruir esta relíquia do passado remoto. É evidente que as estruturas estarão a ser reparadas e substituídas à medida que o tempo e a carga turística as abalam. Um dia chegará, contudo, em que dessa manutenção intensa não restará senão a originalidade da ideia dos fundadores.
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Mas não será esse, afinal, o resultado da massificação em que embarcam todas as sociedades, hoje?





YINGXIAN, SETEMBRO, 19

O Pagode de Yingxian, construído em madeira, é um dos mais belos pagodes aida existentes. Datado de 1056, tem uma forma octogonal e é também chamado Pagode de Sakyamuni ... Os pagodes evoluíram ao longo de 1500 anos para uma diversidade de formas, desde os túmulos baixos a torres altaneiras de vários andares...Originário da Índia, ao tornarem-se exclusivamente chineses, adquiriraram diferentes usos e finalidades...passaram a estar isolados nas montanhas, fora das cidades, ou sobranceiros aos rios para trazer boa sorte ou prevenir as cheias. (in Guia do American Express)
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Com tanta gente a subir e a descer, é admirável que todas aquelas estruturas de madeira, à semelhança do que já constatáramos no Templo Suspenso de Xuangong Si, não dessem sinais de ranger. O Pagode de Yingxian foi fortemente danificado pelos bombardeamentos japoneses durante a ocupação nipónica. Admirável, portanto, também todo o trabalho de reconstrução e manutenção que tem preservado a traça original do monumento.
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O acesso ao Pagode faz-se, conforme pode observar-se na foto acima, atravessando um bairro de casa de madeira construídas em estilo tipicamente chinês, essencialmente dedicado ao comércio e ao turismo. Dos andares cimeiros do pagode avista-se a cidade toda: de um lado, arrumam-se os bairros ocupados pelas classes de rendimentos baixos, no outro crescem os edifícios dos apartamentos das classes afluentes. A separação entre operários, comerciantes e funcionários e empresários não poderia ser mais vincada.

(vista de Yingxian do terceiro andar do Pagode)

Voltamos à auto-estrada a caminho de Taywan. Deixámos as montanhas, estamos na planície de milheirais a perder de vista. Ao longo da auto-estrada há renques largos de árvores plantadas recentemente. Nas encostas que a auto-estrada rasgou os muros de sustentação têm o acabamento requintado que a disponibilidade de muita obra barata permite mas que são também um chocante contraste com o estado de degradação de habitações em povoados que se vêm da auto-estrada de vez em quando.
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Tanta extensão de milheirais causou-nos alguma perplexidade por não se conformarem, segundo as nossas perspectivas, com a exploração individual que caracteriza a actual actividade agrícola na China. Na realidade ela é muito mais compatível com a exploração em latifúndio do que com a economia de subsistência, geralmente de produções diversificadas. Garantiram-nos que não: Trata-se mesmo de pequenas propriedades, que naquela zona não excedem um hectare de terreno por família. Em zonas onde os solos são mais pobres ou a densidade populacional é menor, a dimensão dos terrenos atribuídos pode ser maior.
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O camponês não é dono da terra, explora-a em regime de arrendamento, podendo subalugar quando vai procurar na cidade outra ocupação. O campesinato é, deste modo, a única classe na China a quem não é concedido o direito de propriedade dos meios de produção (neste caso a terra). É também a classe a quem não é garantida qualquer assistência médica, educativa, ou de reforma por velhice.
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Tendo sido expropriados, e fusilados em muitos casos, os anteriores proprietários na sequência da proclamação de República Popular da China, a atribuição de terras aos camponeses em regime comunitário foi um dos emblemas dos revolucionários. O sistema, contudo, nunca produziu bons frutos. Com a reviravolta promovida por Deng Xiaoping, aos camponeses foi atribuída capacidade de gestão individualizada das parcelas de terreno e as produções aumentaram. Mas, ao mesmo tempo que lhes outorgaram o direito de trabalharem por conta própria, foram-lhes retiradas todas as funções de assistência do Estado. Recentemente foram isentados do pagamento de impostos.
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A exploração extensiva de produção de milho (e trigo, uma vez que na planície que atravessámos, as terras são suficientemente férteis para sustentarem duas culturas anuais) parece justificar-se na vantagem que os camponeses sentem em manter a produção de milho naquela zona, reservando pequenas áreas para outras produções. O baixo nível de rendimentos do campesinato decorrerá não só da pequena dimensão das parcelas agrícolas mas, certamente, também dos preços esmagados por uma concorrência extremamente pulverizada e onde qualquer concertação de defesa não não é consentida.
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É nos campos ou dos campos, portanto, que reside ou provem a enorme população que sustenta, ainda docilmente, o espantoso crescimento económico da China actual.
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E também os baixos preços de muita coisa que consumimos no Ocidente, diga-se em abono da verdade.





TAYWAN, SETEMBRO 20
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Taywan, a 408 km de Beijing, com uma população de cerca de 2 milhões de habitantes, tem no templo de Jinci Si, exemplo perfeito dos jardins da China do Norte, uma atracção turística que quer incluir no circuito turístico que vai ser potenciado com os Jogos Olímpicos na capital, no próximo ano. A azáfama é por demais evidente. Atravessamos uma avenida sem fim ladeada de árvores adultas recentemente plantadas e escoradas, passa por nós um camião transportando um exemplar de gingobiloba com uma idade venerável a caminho da entrada do ajardinamento em curso à entrada do Jardim histórico, lá dentro escoram-se árvores milenárias. Por agora temos de atravessar a poeira que resta de um antigo bairro da cidade arrasado em nome do progresso. A nova avenida de acesso passa mesmo ao lado.


Na China, a história e a cultura medem-se frequentemente em milhares de anos. A árvore amparada que aparece no conjunto de fotografias anteriores tem mais de 3000 anos. Onde é que, no Ocidente, podemos fotografar uma situação semelhante?
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Lamentavelmente, temos de acrescentar que durante a chamada revolução cultural, centenas de jardins chineses foram ocupados e destruidos. Por vezes, na história da humanidade, a estupidez não teve limites nem fronteiras.

PINGYAO, SETEMBRO 21


Cercadas por uma das ainda intactas muralhas do período Ming (1368-1644) da cidade, as ruas de Pingyao estão repletas edifícios tradicionais chineses, sobretudo casa com pátio, templos e mais de 5000 lojas históricas. O legado das arquitecturas Ming e Qing resulta da época em que a cidade era um afluente centro bancário, período que teve o seu culminar quando a dinastia Qing cessou os fundos financeiros, esvaziando os bancos da cidade. A transferência do centro financeiro para Xangai e Hong Kong desertificou a cidade e afastou daqui o desenvolvimento, permitindo a sua preservação. (in Guia do American Express)
Para além do interesse da visita à cidade, verdadeiro museu vivo, tivemos a oportunidade de ver uma exposição-festival fotográfica com muitas obras de grande valor artístico. Como aqueles que saem dos autódromos a acelerar saimos de lá a fotografar. E havia muitos e bons motivos.
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Hospedaram-nos num albergue, uma adaptação de uma casa (grande) antiga a uma simpática pousada chinesa.