Tuesday, December 14, 2010

A DESCULPA DO EURO

O País está numa encruzilhada como nunca esteve, em termos de gravidade e de falta de instrumentos.

E a polémica sobre a entrada ou não do FMI é pouco menos que estéril. Porque em qualquer dos cenários actualmente em cima da mesa não se vislumbra qualquer solução sustentada para os problemas estruturais, que são a mãe de todos os problemas actuais, incluindo o orçamental e o da dívida.

O FMI já cá esteve em 1978 e em 1983 e, como sempre o faz em qualquer parte do mundo e país (Argentina, Rússia, Tailândia, Grécia, …) o que impôs foi austeridade draconiana para os trabalhadores, para a generalidade da população, mas não contribuiu para a solução dos problemas estruturais, antes contribuiu para os agravar.

E o mesmo se passa com as exigências da UE, amplamente sufragadas pelo Governo e pelos aspirantes a Governo, em jeito de bajulação e imitação do comportamento do “bom aluno” inaugurado por Cavaco Silva nos anos 90: redução dos salários, facilitação dos despedimentos, redução das prestações sociais, tudo sacrificado ao sacrossanto défice orçamental (1). Quanto aos problemas estruturais é coisa em que nem sequer pensam. À sra. Merkel o que interessa é a garantia de escoamento dos seus excedentes comerciais.

A verdade é que me parece estarmos perante a história de “uma morte anunciada”. Como há uma dúzia de anos atrás escrevia o velho Paul Samuelson, a criação do euro é “o novo Titanic da experimentação económica” e, em antecipação dos resultados, recomendava: “rezem para que no novo século, os livros de história económica não relembrem a experiência do euro como um erro trágico”. Esse erro trágico está à vista!

Uma moeda única, políticas monetária, cambial e de preços únicas, para países com níveis de desenvolvimento e estruturas produtivas completamente diferentes, é a garantia de crescentes divergências reais e de empobrecimento relativo dos países mais pobres. Mesmo com o reforço da integração política e reforço do orçamento "federal" (vejam-se os casos da Virgínia do Sul ou da Sicília).

Por isso, do meu ponto de vista, e para além da ultrapassagem do problema momentâneo do financiamento da dívida externa (o que está nas mãos da UE e BCE) é esta a questão que merece ser discutida para encontrar a solução menos má.

Manter o status quo é entrar num carrossel de permanentes pacotes de austeridade e de empobrecimento do país e dos portugueses.

A saída imediata do euro poderia ser positiva a longo prazo mas teria custos demasiado pesados nos próximos anos.

Permanecer no euro mas com a possibilidade de seguir uma política de “discriminação positiva” dos nossos bens transaccionáveis como sugere o João Ferreira do Amaral?

Criar dois “euros” como propõe o patrão dos patrões alemães a que ninguém ligou nenhuma (não percebo porquê)?

Esperam-se contribuições…

(1) «Se, do ponto de vista da estabilização, não tem justificação a regra do equilíbrio orçamental em condições de pleno emprego também não o tem, e por muito maior razão, a regra do equilíbrio anual do orçamento. Esta regra, que era geralmente aceite anteriormente à grande depressão dos anos 30, pode dizer-se que já não faz parte da análise económica séria. Contudo, há ainda quem continue hoje, confusamente, a considerá-la como sinónimo de responsabilidade financeira. (…) Faz sentido erguer à categoria de objectivos variáveis como a produção, o emprego, ou a variação do nível de preços, mas não o saldo orçamental. Igualmente, a teoria da política orçamental de estabilização não justifica a regra do equilíbrio cíclico, a qual permite a criação de deficits em períodos de depressão que são compensados por superavits nos períodos de prosperidade pelo que, a longo prazo, há equilíbrio orçamental. (…) Esta regra foi muito discutida na década de 40, principalmente na Suécia, mas hoje está totalmente abandonada.” In, Finanças Públicas e Política Macroeconómica – 1982, Aníbal Cavaco Silva

Caro O.

Achei interessante, e é por aí que começo, que tenhas dado como exemplos de sociedades deprimidas a Virgínia do Sul e a Sicília, porque, tomando estes exemplos e os considerandos que os justificam, teríamos de concluir que, se a Virgínia Ocidental e a Sicília quiserem prosperar, deverão abandonar o dólar e o euro (e a lira, se a Itália abandonar o euro e volta à lira).

A verdade, meu caro, é que quando Portugal teve moeda própria nem por isso prosperou por aí além. Há mesmo uns rapazes que, na busca de bons argumentos para as suas teses, pretendem que o período de maior crescimento (década de 60) se deu quando quem mandava era o "botas". O que põe muita gente a imaginar que o "par de botas" em que estamos apertados se resolve com outro "botas".

Botas aparte, ao euro o que é do euro, e não todas as causas desta embrulhada. Evidentemente, que não soubemos, nem nos ensinaram a coabitar com uma moeda forte. Antes pelo contrário,muita gente inteligente afirmou que, estando no euro, as questões da dívida eram coisas passadas. Se a moeda era única, a dívida também. E gastou-se o que tínhamos e o que não tínhamos imaginando que poderíamos ter tudo sem fazer força. Acontece que, como é sabido mas raramente falado, ao mesmo tempo que entrava o euro começaram a entrar no mercado os chineses e outros pobres a oferecer o que produziam aos preços da uva mijona.

Com moeda forte e preços cada vez mais baixos, que fizemos nós? Comprámos.

Entretanto, culpa do euro, os juros baixaram como nunca se tinha visto. Se o dinheiro é barato, o que é que eu faço? Invisto. E foi uma abençoação de construção. Temos muito mais habitações que famílias (cerca de 30%), temos o maior número de quilómetros de autoestrada por quilómetro quadrado de território, temos mais telemóveis que habitantes, enfim temos o que ganhámos mais o que pedimos emprestado.

Aqui há uns anos atrás começaram uns desmancha prazeres a rosnar que isto de gastar muito mais do que se produz não iria durar mas o encolher de ombros foi quase geral.

Eu sei que esta é uma história já mil vezes contada, a mim o que me admira é que, tal como o credo, muitos dos que o papagueiam não sabem o que está lá dentro.

Ora o que está lá dentro, na nossa encruzilhada, não é só o euro mas, sobretudo, as consequências da globalização, da entrada de novos e potentes actores em cena. Quem bebe vodka e laranja deve perceber que o que embriaga é o vodka, não é a laranja. A laranja é apenas facilitador da bebedeira para os iniciados na paródia.

Foi o que se passou connosco: a laranja não nos embebedou, simplesmente iludiu a presença do álcool.

Cortemos, então, a conversa com os chineses? Não podemos nem ganharíamos com isso.

Se repararmos para o que se passou nos últimos dez anos (o livro do Vitor Bento é muito esclarecedor) é muito claro que os chamados transaccionáveis foram as grandes vítimas da grande ilusão provocada pelo euro. Se a indústria nunca tinha tido grande desempenho e a agricultura há séculos que andava de rastos, a euforia de uma riqueza aparente foi fatal.

Mas não foi o euro que provocou a derrocada. Sem o euro, todo o tecido industrial que teria de competir com os chineses & Cª. iria sossobrar porque a diferença de custos directos reais seria sempre abissal. Se lhes juntarmos os custos de contexto, as hipóteses de sobrevivência da maior parte desse tecido eram remotas. Quanto muito, teriam durado mais uns anitos.

Trabalhei na indústria durante muitos anos e percebi bem que as desvalorizações competitivas só aparentemente nos ajudavam. A empresa operava, e opera, comercialmente em todo o mundo e sobretudo na Europa. Perdeu competitividade com o euro? Não. Ganhou. Ganhou porque foi obrigada a tornar-se competitiva sem muletas.

Muda na Virgínia Ocidental ou na Sicília de moeda e não lhes mudas a vida.

Para terminar e não continuar a abusar da tua paciência: Esqueçamos o euro como bode expiatório dos nossos fracassos. Esqueçamos até a indiferença da Merkel às nossas aflições. Não é lá que reside o busilis da encruzilhada.
Concordo com Ferreira do Amaral (alguma vez teria de ser) na discriminação positiva dos transaccionáveis. Mas não chega.

Há dias li no Expresso que a reabilitação urbana (pelo facto de se ter casas a mais não significa que se abandonem as mais velhas) confronta-se fundamentalmente com perdas burocráticas e a exigência pelos donos de balúrdios pelos seus escombros.

Que fazer? Prioridade absoluta nas câmaras à reabilitação e forte penalização fiscal à propriedade abandonada.

Li também que, apesar do elevado desemprego, muitos sectores não encontram quem trabalhe e estão a recrutar no estrangeiro.
Que fazer? O que há que fazer nada tem a ver com o euro.

8 comments:

O Raio said...

"os chamados transaccionáveis foram as grandes vítimas da grande ilusão provocada pelo euro"

E é este um dos grandes problemas que o Euro causou, deu indicações erradas à economia e aos investidores.

É fácil dizer que se investiu nos bens não transaccionáveis ignorando-se os que realmente interessavam, os transaccionáveis, transaccionáveis e exportáveis.

Com o Euro tornou-se mais rentável e menos arriscado investir, por exemplo, no imobiliário do que na indústria.

E como qualquer investidor racional, investe os seus capitais onde estes são mais rentáveis e onde o risco é menor, os investimentos na indústria, agricultura, etc., foram preteridos.

Foi o que aconteceu e culpar-se os portugueses por terem ido por caminhos errados é absurdo, estes limitaram-se a ser investidores racionais.

Deveria competir ao Governo orientar a economia noutro sentido mas, como o fazer quando praticamente todos os instrumentos de política macroeconómica estão nas mãos de Frankfurt ou de Bruxelas?

Assim estas defesas do Euro tentando atirar para as costas do povo português o descalabro em que o Euro nos meteu, são no fundo uma critica mordaz à opção que se tomou de aderir ao Euro!

rui fonseca said...

"E é este um dos grandes problemas que o Euro causou, deu indicações erradas à economia e aos investidores."

Mas não deu indicações erradas aos consumidores e investidores dos países do Norte da Europa, porquê?


"... como o fazer quando praticamente todos os instrumentos de política macroeconómica estão nas mãos de Frankfurt ou de Bruxelas?"

E os finlandeses, os holandeses, os austríacos, como se governaram?

Luciano Machado said...

Caro Rui
O amigo O fala em problemas estruturais da economia portuguesa mas não os nomeia. Admitamos que se refere à dependência energética, à baixa produtividade do capital e do trabalho (daí a falta de competitividade e o crescimento reduzido), aos níveis de consumo elevados e ao desemprego crescente.
É obvio que não há varinha mágica, seja do FMI, BCE ou outro, para resolver estes problemas. Temos que ser nós a criar condições para que eles sejam progressivamente atenuados ou mesmo eliminados para que possamos retomar a via do crescimento e da melhoria do bem-estar.
A crise veio obrigar-nos a estas reflexões sadias de saber o que correu mal para podermos corrigir os erros.
O euro veio fazer-nos adormecer perante a globalização. Oa bancos endividaram-se para financiar o consumo e a actividade imobiliária
(segundo Felix Ribeiro, citando um relatório da ANEOP, absorveu em 2009 72% do total do crédito concedido e representou 8% do PIB) mas lá íamos cantando e rindo.
Com a desaceleração, para não dizer paragem, desta actividade são óbvias as consequências imediatas sobre o restante tecido económico.
A precariedade do emprego sustentado pelo desenvolvimento das actividades de serviços faz-nos sentir que, a manter-se a situação actual, a tendencia é para um agravanento acelerado do desemprego.
A única forma de agora darmos a volta esta situação, sem continuarmos a comprometer inexoravelmente o futuro, é sermos capazes de criar condições para atrair investimento produtivo.
E não é só a discriminação positiva: para uma fábrica de automóveis pode ser decisiva, mas para investimentos tecnológicos não o será.
Esta é a questão fundamental que tem que ser debatida e consensualisada: O que deve ser feito para atrair o investimento?
Quanto ao endividamento, se ele for canalizado para o investimento produtivo estamos a contribuir para melhorar a situação, se for para alimentar défices orçamentais crescentes estamos a agravá-la.
O défice só é questão se se mantiver superior à taxa de crescimento do PIB.
Reafirmo que temos que retomar urgentemente o crescimento.
Relativamente ao euro não consigo imaginar um cenário de saida. E essa dos dois euros também não consigo vislumbrar. Porquê 2 e não 3 ou 4? mas isso não é equivalente à saida de alguns?
Sobre a situação que se vive actualmente de forte especulação sobre as dívidas soberanas e das medidas draconianas a que estão a ser obrigados os países mais dependentes, recomendo a leitura do artigo de James Galbraith publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em Junho passado, aqui vai o link http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=706&PHPSESSID=2beea938ea605a504f069e4db6af7478
Para Portugal a correção dos erros do passado é importante que seja feita mas o futuro, não só o nosso mas de toda a Europa, passa certamente por um aprofundamento da União para poder funcionar activamente o pricípio da convergência, económica, política e social.
São os meus votos para 2011.
Abrç

Luciano Machado said...
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Luciano Machado said...
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Luciano Machado said...
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Luciano Machado said...
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rui fonseca said...

Caro Luciano,

Obrigado pelo teu comentário, com o qual concordo. Sugiro-te, se é que ainda não o fizeste, que o envies ao nosso amigo O.

Deves ter feito várias tentativas para colocar o teu comentário de modo que el saiu em quintuplicado, essa a razão pela qual aparecem, agora, vários "delete".

Por vezes o sistema leva algum tempo a processar e o output não sai imediatamente.

Foi, certamente, o que se passou. Supunhas que não tinha sido aceite e foi cinco vezes.