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Sunday, October 27, 2024

IGNORÂNCIA CONSCIENTE

A mira dos media, esteve e continua a estar, voltada, na maior parte do tempo, para o nosso umbigo.
O que é muito compreensível. Assustam-nos mais os acidentes próximos que os desastres longínquos.
E, também compreensivelmente, mas duma perspectiva diferente, os sustos são mais atractivos para o consumidor de imagens que os sucessos. E quem consome imagens consome os produtos publicitados entre elas. 

Os estragos humanos e materiais provocados por um tiro mal pensado tem ocupado a maior parte do tempo em emissão e discussão que qualquer outro que possa, eventualmente, ter maior impacto social. 
Dizendo isto não se diz que o caso não mereça reflexão. Porque merece.
Não sendo, nem de longe nem de perto, conhecedor dos factos, das motivações, dos ambientes, não vou resumir o que já foi dito e redito. 
Mas o caso, muito longe de ser único ou original, recordou-me uma dúvida para a qual não encontro resposta, ainda que casos como este estejam, continuem e prometem continuar a estar, a ser observados, sobretudo tele-visionados,  em periferias de cidades maiores e mais afluentes que as nossas.
 
Parto de uma explicação mais divulgada. 
 
Os distúrbios são motivados, sobretudo, por filhos de imigrantes, nascidos portugueses, da segunda e terceira geração dos imigrantes iniciais.
A primeira geração adaptou-se porque procurou e encontrou meios de vida melhor do que os que tinha nos locais de onde saiu. Eventualmente, habitaram em bairros de barracas, melhoraram-lhe as condições de habitabilidade com a destruição das barracas e atribuição de uma casa com instalações minimamente condignas da sua condição humana. Mas a família cresceu, voltou a crescer, e, às tantas, há três famílias a habitar o espaço inicialmente previsto para uma.

Porquê?, pergunta um ignorante.

Porque a segunda e terceira gerações não encontraram meios que lhe pudessem, pelo menos, garantir um nível de vida proporcionado aos seus avós?
Por falta de trabalho?
Por falta de formação?
Por dedicação a actividades e hábitos ilegais germinados pelo desemprego generalizado no meio em que nasceram e cresceram?
 
Outra pergunta, do mesmo ignorante.

Se Portugal necessita de receber, e continua a receber, imigrantes, por muitas razões suficientemente divulgadas, por que razão não entram no mercado de trabalho os sem trabalho que habitam nos guetos que circundam as grandes cidades?

Sou mesmo ignorante, pois sou. À espera de informação que reduza o meu grau de ignorância.

Thursday, January 06, 2022

TODOS CONTRA UM

A,
 
Afinal estás em desacordo com quê?

É ou não é verdade que o Ventura joga para o ar um dos seus, mais que usados, clichês e põe em alvoroço o país político?
Reparaste que, imediatamente, António Costa e Catarina Martins, aproveitaram para desancar no Rio. Era esse o objectivo do Ventura.
Ainda ontem, Isabel Moreira, na RTP, aproveitou para enaltecer Costa e bater no Rio. Ganha o Ventura.
Aquilo que J M Tavares escreve no Público, que não está na órbita da Sic, é claro como água. O "artista" exibe os seus números e se for interpelado tem preparada a fuga para o lado. É imbatível? Não é. Rio poderia ter cortado a paródia pela base se tivesse dito que era o Ventura que tinha de escolher, após conhecidos os resultados das eleições, se apoiava Rio ou Costa, ou um alternativo de Costa, se a sua posição pesar na maioria parlamentar.
Disse-o depois mas já tinha dado muita corda ao papagaio num país onde meio mundo anda a olhar para o balão.
O problema, sim existe um problema, é que Ventura atira para o ar algumas afirmações que vão direitinhas ao que muitos portugueses pensam, e é desastroso para a democracia ignorar isto.

Desde logo a questão da prisão perpétua, que desencadeou uma reacção histérica da oposição a Rio.

Se houvesse um referendo (em países alguns democráticos este tipo de questões são decididos por referendo) quantos portugueses seriam favoráveis à aplicação desta pena em crimes que repugnam a qualquer cidadão? Apertado Ventura saiu-se com a prisão perpétua eventualmente reversível.
É um facto que na União Europeia
(transcrevo daqui : 
mas se é fonte suspeita, farás o favor de me indicar melhor)
em apenas dois países - Portugal e Croácia - não existe a pena de prisão perpétua.
Nos restantes 25 países existe, de facto, a figura de prisão perpétua ainda que com modalidades diferentes — desde logo, porque prevê a liberdade condicional depois de um período mínimo de pena.São eles: Alemanha (15 anos), Áustria (15 anos), Bélgica (15 anos), Chipre (12 anos), Dinamarca (12 anos), Eslovénia (25 anos), Espanha (25 anos), Estónia (30 anos), Finlândia (12 anos), França (18 anos), Grécia (19 anos), Irlanda (12 anos), Itália (26 anos), Letónia (25 anos), Luxemburgo (15 anos), Polónia (25 anos), República Checa (20 anos) e Suécia (18 anos)".
Vivem todos estes países em situação de barbárie civilizacional, segundo Isabel Moreira e Catarina Martins, entre outras e outros?
Sejamos lúcidos.
Ventura é, reconhecidamente, racista. Mas o seu ódio às pessoas de etnia cigana não encontra acolhimento junto de muitos portugueses? Encontra.
Ele, Ventura diz, a respeito dos ciganos, que não é racista. O que ele, diz ele, driblando,  condena é o facto de os ciganos não obedecerem às leis do país. Quem discorda? Todos, e não só os ciganos, os que habitam neste país devem obediência às suas leis. Mas se vamos por este caminho, o Ventura já está lá à frente a exibir-se noutro palco.
E é assim que  se abre caminho para a progressão do demagogo Ventura, discutindo demagogicamente Ventura.

Thursday, December 18, 2014

A DERIVA EUROPEIA


No Financial Times afirmava-se anteontem que, vd. aqui, o crescimento dos partidos europeus de protesto, aqueles que capitalizam o descontentamento popular mas que não reunem, nem é provável que venham a reunir, suporte eleitoral suficiente para governar, assustam os investidores, travam o potencial
de crescimento económico na Europa e reduzem o crescimento económico global. 

Também anteontem o Público publicava uma excelente análise política do eurodeputado Paulo Rangel - Factor "i": o factor europeu que Portugal ignora - acerca do crescimento do radicalismo político, de esquerda e de direita, frequentemente convergentes por razões tácticas,  na Europa. Em Portugal, não é, pelo menos por agora, tão evidente esse radicalismo, que se manifesta em reacções racistas, chauvinistas e xenófobas, porque não é também tão relevante o impacto da imigração na sociedade portuguesa. Aliás, em Portugal  o saldo migratório voltou, nos últimos cinco anos, a ser bastante negativo excedendo o fluxo emigratório largamente o fluxo inverso.

Resume o eurodeputado: "Temos de encontrar uma solução equilibrada, que respeite profundamente a dignidade dos migrantes, que não ponha em causa a liberdade de circulação e que crie perspectivas de segurança e de identidade aos povos de acolhimento. Para o nosso futuro político (europeu e português) tão importante como o factor "e" (economia) vai ser o factor "i" (imigração)".

"Temos de encontrar uma solução ....", diz Rangel. 
Mas, quem? 
Este é o maior desafio que se coloca ao Parlamento de uma União Europeia à deriva. E ou o desafio é ganho, e a União safa-se, ou perdido, e a União Europeia afundar-se-á no meio de um turbilhão que pode ser inimaginavelmente sangrento.

Wednesday, January 15, 2014

LORENZO

Sou de Colômbia, falo um pouco de português. Você é português de Portugal, de Portugal mesmo? Por aqui passam muitos brasileiros. É por isso que falo português, um pouco. Já sabe que o Cristiano ganhou a bola de ouro? É um grande jogador, sim senhor, mas este ano quem deveria ganhar era o Ribery. Ganhou tudo o que havia para ganhar. Pois não, não foi só ele, mas ele é o maior da equipa, não há dúvida. E quem é que acha que vai ganhar a Copa? Hum! A Argentina tem um bom team, é verdade, o Brasil também, e joga em casa, mas eu acho que vai ser a Alemanha. Por que é que vê tanto judeu por aí? Estou cá há doze anos, esta zona está cheia de judeus, sobretudo destes ortodoxos, de barbicha e trancinha, quico na cabeça por baixo do chapéu de abas negro, casaco negro comprido, camisa branca, calças pretas, sempre curtas, meias pretas, sapatos pretos. Alguns andam de alpargatas, mas não deve ser por falta de dinheiro, eles são assim. Vêm visitar familiares e instalam-se nos hotéis das redondezas. Não sabem fazer nada, estão sempre a pedir-nos auxílio para tudo. Com eles, todas as portas do hotel ficam encravadas. No elevador, não sabem carregar no botão. Há judeus em Portugal? Na Colômbia não havia até há pouco tempo, quando de lá saí, vai fazer agora quinze anos, não havia nenhum judeu na Colômbia. Quando lá voltei o ano passado, já vi judeu por todo o lado. Estes daqui vieram do Sul, de South Beach, há quarenta e tal anos, depois instalaram-se lá os cubanos fugidos ao Fidel Castro. O que é que aconteceu aos judeus portugueses? Se não saíam queimavam-nos? Pois, estou a ver. Grande perda para Portugal, não é? Com toda essa gente instruída a fugir, fugiu muito conhecimento, pois claro. É o que acontece na Colômbia. Na Colômbia, em El Salvador, no Equador, no México, vem gente de toda a parte para aqui. Trabalham aqui, não trabalham lá, empobrece o país de onde sai o trabalho, e o conhecimento, pois claro, fica a ganhar este. Eu não sei porque é que está a  entrar agora tanto judeu na Colômbia. Talvez seja bom para a Colômbia, quem sabe? Se a Holanda ganhou com a entrada de judeus saídos de Portugal, perdeu Portugal, talvez a Colômbia também ganhe com a entrada de judeus vindos não sei de onde. Quem sabe? E depois, há judeus e judeus, não é? Nem todos os judeus usam essa fatiota ridícula que se vê por aí.Também há judeus decentes, espero eu. 

Thursday, April 04, 2013

A CULPA DAS CALÇAS*

A Destreza das Dúvidas: Falsidade transformada em dogma?

"A geração de hoje é melhor preparada de sempre" é uma afirmação que não me suscita, olhando para trás, e já é longo o percurso, qualquer contestação se ela se reporta às qualificações médias das gerações anteriores de portugueses. Mas, por outro lado, não me parece, contudo, que o facto de se assistir actualmente a uma emigração massiva de gente qualificada, como nunca antes, possa confirmar a afirmação inicial.
 
Porque:
1 - "A actual geração é a melhor preparada de sempre" mas a progressão observada nas últimas décadas ficou aquem da atingida por outras gerações concorrentes a nível global. Os jovens portugueses estão, sem dúvida, melhor preparados que os de ontem mas o seu posicionamento caiu no ranking mundial. Essa perda competitiva a nível mundial não aconteceu apenas em Portugal, mas sendo baixa a base, a perda relativa deixou-nos mais afundados a nós que a outros.
Aliás, essa perda contínua é nítida até no ranking de desenvolvimento humano do PNUD quase desde a criação desse índice há, salvo erro, quinze anos atrás. É só um índice, é verdade, mas reflecte, de algum modo, a perda de qualidade dos nossos recursos humanos no contexto global.
 
2 - A emigração de gente qualificada não representa uma abundância de oferta em Portugal mas antes a escassez de procura. A progressão do conhecimento é apenas uma condição necessária, mas não suficiente, ao desenvolvimento económico e social. Os movimentos migratórios de baixa ou elevada qualificação, comportam-se como os ventos: sopram das altas para as baixas pressões. Por razões conhecidas, há muito que se instalou na Noruega, por exemplo, um centro de baixas pressões. 
Em Portugal, lamentavelmente, continuamos sujeitos a um crónico centro de altas pressões, e não se vislumbra como soprá-lo de cá.
 
A partidocracia, que muitos confundem com democracia, e com que se entretêm os governantes e os candidatos, tem contribuido bastante para a imobilidade destas condições cronicamente adversas.

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* Comentário que tentei, sem sucesso, talvez por inabilidade minha, colocar no blog "A Destreza das Dúvidas" 

Thursday, June 30, 2011

BRUNO

Sou da Rondónia, isso, não longe de Manaus, não, já na Amazónia. De onde lhe vem o nome de Rondónia, não sei, não. Eh! mas posso ver no google, e da próxima já sei dizer ao senhor de onde vem esse nome. Rondon?* Não, nunca ouvi falar. De Ferreira de Castro? Também não. Nunca. É brasileiro? Ah!, é português? Pois também nunca ouvi falar, não. E saiu daqui com doze anos para o Brasil? Para Rondónia?!! Uh! Sozinho? Há cem anos? Incrível, não é? Sair daqui há cem anos para a Rondónia ... com doze anos? Verdade? Nesse tempo a Rondónia ficava no fim do mundo, senhor. O seringal era o inferno para quem lá caía. De fora, é uma coisa, lá dentro é outra. Agora o negócio da borracha não existe mais. Não li, não. Como se chama esse livro? A Selva? Não, esse não li. Mas conheço o rio Madeira, sim senhor, nem podia deixar de conhecer, passa por Porto Velho, nós vivíamos pertinho de Porto Velho ... Se, um dia destes, arrumar esse livro, vou ler. Eu vim para cá há quatro anos com a mãe e quatro irmãs. Pai? Não... Pai não tenho... Lá, em Porto Velho, Porto Velho é a capital do estado, a coisa estava ruim, por isso viemos, eu, a mãe, e minhas quatro irmãs da parte da mãe. Da parte do pai tenho mais sete irmãs. Onze, no total.  Tudo mulher, menos eu. Uma é surda-muda. Você sabe como é: não ouve, não fala. Devia estar em ensino especial, mas sabe como é, não dá. As outras irmãs? Oh! Estudam... Eu, na Rondónia, estudava. A mãe era doméstica, como aqui. As outras, as da parte de pai, não sei. Faz muito tempo que não sei nada delas. Eh! Gosto de cá estar. Mas isto agora começou a ficar mal, não começou? Esperemos que melhore, se não lá terei de voltar a Porto Velho. Pois fica combinado: vou ao google, e na próxima,  já sei de onde veio esse nome de Rondónia.

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Ferreira de Castro, O Instinto Supremo, romance que narra a missão de pacificação dos índios parintintins, na selva amazónica, por um grupo de discípulos do general Cândido Rondon, no início dos anos 20 do século XX. O famoso lema de Rondon orienta a acção dos homens enviados pelo Serviço de Protecção aos índios e transmite-se aos trabalhadores por eles recrutados: «Morrer se necessário for; matar, nunca!».

O etnólogo Curt Nimuenda jú, um alemão naturalizado brasileiro, é a personagem que assume maior relevância, servindo de porta-voz do autor, na defesa da civilização indígena. c/p de aqui