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Saturday, May 11, 2024

O IDEOLÓMETRO

(O IDEOLÓMETRO, é o nome, não registado nos dicionários nem encontrado nas redes da net,  dado a um objecto criado por um chinês, com o propósito de amansar os instintos irracionais da espécie humana, que encontrei há dias na Baixa)

 
 
Há mais de uma dezena de anos que não atravessava aquela rua na Baixa.
 
Foi essa a última vez que passei por aquela rua, depois de durante uns três anos a ter percorrido num sentido e noutro. Voltei lá há dias, para saborear a recordar as inesquecíveis bifanas e os passarinhos fritos em molho de vinha-d´alhos. Com um prato de sopa e um copo de branco, ficava feita a festa para o resto do dia. Nessa última ocasião, falou-me o proprietário da tendinha, proprietário e empregado único, das razões que o tinham levado, para prosseguir uma vida activa, depois de ter sido dispensado do banco mas, convenientemente indemenizado, a tomar por trespasse aquele espaço, com balcão aberto para a rua, donde se espraiava aquele aroma fortemente convidativo,  o melhor reclamo da casa.
E, lamentavelmente, confirmou-se a recomendação antiga de não se dever voltar aonde já se foi feliz : da tendinha das bifanas e passarinhos fritos não restava nada; agora era um espaço recheado do rés-do-chão ao tecto, de tudo o que se não se encontra em nenhum lado, mas que, vá lá saber-se porquê, há sempre no "chinês".
 
Ao ver-me intrigado a espreitar da rua para o interior do espaço congestionado, apareceu-me não dei conta de onde, um oriental, homem, talvez  na casa dos cinquenta, a perguntar-me se precisava de ajuda. O seu português amável apenas denunciava uma quase imperceptível pronúncia de estrangeiro a residir há longo tempo aqui.

- Hum! Passei por cá porque durante muitos anos atravessei esta rua e esperava voltar a regalar-me com uma bifana frita em vinha-d´alhos, especialidade da casa; para variar de vez em quando saboreava um passarinho frito com o mesmo molho, servido em pão do dia.
- Pois isso deve ter sido há muito tempo ... eu já tomei esta posição há pelo menos uns dez anos, e mudei o estabelecimento de ramo. Eu sei que tinham muita procura as sanduíches que refere, a princípio ainda pensei continuar a servir sanduíches à clientela, mas desisti. Desisti porque dava muito trabalho e pouco rendimento e os clientes habituais, portugueses a trabalhar ou a passar por esta zona, foram a pouco e pouco desaparecendo, surgindo sobretudo turistas estrangeiros, que enjoavam as sanduíches e consideravam horrível, pouco civilizado, a fritura de passarinhos.
- Mas tanto quanto eu sei na China apreciam-se bastante este tipo de petiscos ...
- É verdade que os chineses apreciam petiscos, chineses, claro, mas aqui não estamos na China. Turista na China prefere hamburgers, pisas, coisas dessas. Aqui procura artesanato chinês ou português feito na China. Devemos ir ao encontro das preferências da clientela, não lhe parece?
- Percebo perfeitamente. Recordo-me, contudo, que o dono do estaminé estava a fazer sucesso com a venda de "carismáticos", uma coisa que lhe ocupava espaço no sótão em casa e que ninguém sabia o que era. Trouxe-o para aqui, deu-lhe um nome, e quem vinha pelas bifanas e passarinhos fritos ficava encantado com o carismático, e, sem querer nem saber como, o carismático atingiu procura e preços tais que nem o aumento da oferta, sempre com a garantia de exemplar único, parecia parar.
- Mas parou. Ainda aí tenho alguns exemplares únicos; se veio pelo carismático posso arranjar-lhe um.
- Mas parou porquê? 
- Boa pergunta: A meu ver por duas razões. Por um lado, o carisma passou de coisa rara a vulgar; de um momento para o outro, já havia carismáticos por toda a cidade. E ainda há, cada vez mais: os meios de comunicação social, as televisões, os jornais, as redes sociais, produzem carismáticos com uma cadência nunca antes concebível. Por outro lado, o carismático não era coleccionável, não tinha sequência familiar; um colecionador procura sempre várias emissões distintas de um mesmo tipo de artigos, moedas, selos, caixas de fósforos, vinhos de qualidade, ... Eu tenho à venda "O Ideológico", forma simplificada para designar o "Ideolómetro", um avaliador da intensidade das ideologias impregnadas em cada indivíduo da espécie humana,  que permite uma colecção infindável de membros, distintos mas bem definidos, da mesma família.
- Feito na China...
- Exacto. Tudo o que vendo aqui, aqui e noutras lojas que tenho em sociedade com diferentes sócios, importo da China.
- E vende-se na China ou, como os passarinhos fritos, só se vendem aqui?
- Vende-se em todo o mundo ocidental, penso que é essa designação comum. Posso mostrar-lhe um exemplar. Na China não, o "Ideológico" não se evidencia. Lá, tem procura residual. A ideologia, como fixação de uma ideia adquirida, de forma indelével, e, por isso, muito raramente alterada durante a vida do indivíduo é mais evidente neste lado do mundo, penso eu que já andei por este e pelo outro. Mas, pode adquirir um exemplar para uma semana experimental.
- Gostaria ver...
- Pois está aí mesmo atrás de si.
Reparei e vi um vulgar balão preto, desses com que se enfeitam, com outras cores, os festejos de aniversário, meio cheio, talvez meio vazio.
- É só isto? perguntei, confuso,  pegando, receoso, no balãozinho com os dedos grande e indicador, da mão direita.
- É só isso. 
- Hum! E para que serve?
- Para medir a intensidade da ideologia, ou das ideologias adquiridas de cada um. No interior, está instalado, um sistema digital, hipersensível ao tacto de quem lhe pega, que mede o nível de intensidade ideológica de cada indivíduo. Feito esse reconhecimento pelo contacto, fica conectado ao sistema de modo inequívoco e não transmissível.
- Mas terá, se bem entendo, a mesma vulnerabilidade transaccionável do "Carismático".
- De modo algum. O sistema digital que é introduzido num pequeno balão, uma versão muito reduzida  desse que está exposto, é pago pelo adquirente, consoante a ideologia que cada adquirente pretende avaliar. 
- Nesse caso terá que comprar tantos pequenos balões quantas as ideologias ... Fica a casa cheia de balõezinhos?
- De modo algum. Chinês é esperto. O sistema digital introduzido está configurado consoante a encomenda do freguês. Se pretender avaliar as suas ideologias políticas, clubistícas ou religiosas, tem uma infinidade de hipóteses; o sistema é configurado consoante a encomenda e o preço que pagou. 
- E é o senhor que recebe a encomenda, e a configura, e recebe o preço aqui?
- Não senhor. Só tenho competência para encomendar e transmitir as instruções de cobrança dadas pelos clientes, e entregar o balão configurado. As configurações não são feitas aqui, mas remotamente .
- Remotamente?...
- Na China. 
 
A minha estupefacção era cada vez maior.
- Mas, já agora, diga-me, se pode dizer, para que serve a medição da intensidade das ideologias?
- Toda gente me faz a mesma pergunta, respondo sempre do mesmo modo. Recebemos um curso de formação, muito extenso, dedicado ao assunto.  O senhor mede a tensão arterial, para quê? Para avaliar se deve medicar-se ou alterar o seu comportamento porque a tensão arterial alta é uma  ameaça à sua permanência vivo. Ora o "Ideolómetro" não é um fármaco curativo mas é, à semelhança de um tensiómetro ou de um termómetro, um medidor do estado, não global, evidentemente, da sua saúde, mas, neste caso do seu estado de intensidade ideológica, numa escala que varia entre o quase nada e o fanatismo incontrolado. E assim, como ninguém nasce sem uma tensão arterial mínima ou temperatura do corpo, salvo se for nado-morto, também a ideologia, por mais imperceptível que possa parecer, é inerente à condição da espécie humana. Mas não nos alonguemos em comparações, o veneno está sempre na quantidade do que se toma ou adquire.
- E quanto custa o objecto?
- O preço do sistema depende do segmento ideológico, político, clubístico, religioso, ou outro,  e a ideologia, dentro de cada ideologia cabe um sem número de sub segmentos ideológicos, de que o adquirente pretenda controlar a intensidade. No mínimo, custa-lhe trezentos euros mais IVA. Quer fazer uma aquisição experimental durante uma semana?
- Primeiro, preciso consultar a minha mulher; ela pode querer utilizar o mesmo sistema para controlo da intensidade da sua ideologia religiosa, que eu suspeito ser elevada, com tendência para a alienação sem controlo possível.
- Não funciona. Cada sistema é individual e não pode ser utilizado por terceiros; se for, em caso de reincidência, o sistema auto anula-se automaticamente.
- Compreendo. Devo então levar este balãozinho para uma aquisição experimental identificado como meu?
- A forma deste balão em exposição, podia ser qualquer outra, é um ingénuo argumento de marketing. Podia ter uma aparência menos disforme  Como tem este volume, alterável por qualquer pressão mínima, intriga, e nada mais intrigante para um observador do que aquilo que ele não compreende mesmo com o objecto à frente do nariz. Tal qual a arte abstracta, que atrai irresestívelmente o observador, não iniciado por não ter capacidade para compreender  que está exposto diante de si. Não, não lhe entregarei apenas um balãozinho mas também uma pulseira, de aspecto vulgar, que, neste caso, possui um minúsculo chip que, incrivelmente para mim, contém toda a informação recolhida dos períodos de excitação dos portadores, de irracionalidade, de ódio que estimularam e sustentaram em todas as fases da história a capacidade destrutiva  da espécie humana. É um sistema muito semelhante ao que controla remotamente, por exemplo, o funcionamento cárdio-vascular de um paciente, que sofra ou possa vir a sofrer de uma cardiopatia em situações de esforço acima do normal. Neste caso, o "Ideolómetro" controla, regista, as variações de intensidade das ideologias durante um pré-determinado período ou, aleatoriamente,  durante períodos longos.
 - E para quê?
- Repare: é proibida, é penalizada se for caso disso, a ingestão de alcool acima de determinados níveis fixados na lei, por razões de segurança individual e colectiva.  Parece-lhe bem?
- Parece, claro.
- Nem toda a gente no mundo compreende e aceita pacificamente este tipo de limitações, mas quem desobedece às regras é penalizado, pode até ser condenado a prisão. E, a generalidade, comporta-se em conformidade com as restrições impostas por lei quanto aos níveis de alcool no sangue. Agora repare no ódio acumulado nas bancadas dos espectadores de um jogo de futebol, que, se deixado sem controlos, pode desencadear uma batalha entre ódios guiados por ideologias dos clubes que se confrontam, sustentadas por abstracções, as almas, os elãs, enfim o irracional herdado pela espécie humana na árvore da sua evolução. Proibe-se a entrada de nos estádios de alguns artefactos que são armas susceptíveis de perturbar, suspender  ou até demolir um espectáculo que, aprecie-se ou não, é inegável que tem milhões de espectadores em todo o mundo. A exigência, à entrada dos estádios, do uso de uma pulseira avaliadora automática da intensidade específica ideológica de quem quer entrar, poderá, à partida vedar a entrada aos ânimos mais carregados de intensidade de ódio, evitando-se o crescendo de animosidade em sociedade. Concorda?
- Talvez. Nunca tinha pensado nisso.
- Agora transporte essa avaliação para os campos onde se confrontam ideologias religiosas ou políticas... as guerras mais sangrentas da história foram motivadas por ideologias religiosas,  invocando, frequentemente, a protecção da mesma divindade.  
- A natureza da espécie humana é muito mais complexa.
- Sem dúvida. Tanto mais quanto o ódio entre as ideologias em confronto perdura há séculos, ou até milénios,  acumulando ódios destrutivos num instante do que as capacidades construtivas produziram durante períodos com durações semelhantes. Veja o confronto entre israelitas e palestinianos, alimentados por forças exteriores com interesses conhecidos ou desconhecidos como o desafio do poder, por qualquer dos lados.
- Toda a gente vê ... ou pode ver. Mas que utilidade tem o seu "Ideológico" na solução de um conflito desses com intensidade ideológica máxima de um lado e do outro?
- Nenhuma. O "Ideolómetro" é um instrumento com utilização para avaliação individual. Que pode, no entanto, ser utilizado na moderação de multidões em espaços circunscritos. Também, por exemplo nas assembleias de representantes, nos parlamentos, onde a contenção das ideologias em níveis que ultrapassassem os mínimos do respeito mútuo, permitiriam, certamente, atingir objectivos mais conformes com os interesses do povo que os elegeram. Concorda?
- Difícil é controlar-lhes a intensidade das ideologias. Vou pensar nisso.
- Pois pense e volte quando quiser. Não quer mesmo levar um exemplar para uma experiência gratuita de uma semana? Podia falar nisso à sua mulher com demonstração para os dois ... 
- Não. Isso não faço. Se tentasse com ela conectada ao sistema, a coisa podia explodir por atingir mais que o nível máximo mensurável pelos sistema. Não, nessa não caio. Mas, já agora, diga-me, pode vender-me um dos carismáticos que ainda tem?
- Posso, mas fica-lhe caro ... já restam poucos e agora só é procurado por coleccionadores de coisas bizarras. Posso vender por quinhentos euros; paguei muito mais pelo stock quando tomei o estabelecimento de trespasse. 
 
Levei o carismático, uma coisa bizarra que se tornou rara e agora foi transformada em coisa raríssima. Difícil vai ser colocá-lo em sítio onde a minha mulher  não veja o carismático e me expulse de casa acusando-me de animista.

Sunday, August 30, 2020

COMO CARNEIROS

 

Os eleitores partidários seguem, geralmente, as pisadas dos líderes.
Os Republicanos andam como carneiros bêbedos, aos tombos, atrás de Trump.
Transcrevo artigo sobre o tema publicado hoje no WP, cf. aqui
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By
President Trump has a knack for getting Republicans to reverse their stances on important policy issues. Free trade is probably the best-known example. For decades, the GOP touted the benefits for American living standards of low tariffs on foreign goods — and often slammed Democrats as economically naive protectionists. In 2015, 56 percent of Republicans and Republican-leaning independents said trade was good for the United States, according to the Pew Research Center. Then Trump came along and bashed international deals with Mexico and China; by October 2016, that figure had dropped to 29 percent.
Republican approval of trade has rebounded somewhat, but this Trump effect is evident across multiple issues. In 2015, 12 percent of Republicans held positive views of Russian President Vladimir Putin, whom Trump has always praised lavishly. By 2017, according to Gallup, the number had climbed to 32 percent. Hawkishness toward Russia — the heart of the onetime “evil empire” that GOP hero Ronald Reagan set himself so stoutly against — faded over the same period. In July 2018, 40 percent of Republicans said Russia was an American ally, nearly double the figure from 2014. Republicans were opposed to withdrawing troops from Syria until Trump announced he would do just that, and then their views shifted. Even on nonpolitical issues, like the National Football League, the president can change minds: About 70 percent of his voters liked the NFL — until Trump attacked players who knelt during the national anthem and approval dropped by more than half.
These trends can seem disconcerting, because they appear to reverse the idealized direction of influence in a democracy, where the views of citizens are supposed to guide their politicians. Leadership surely involves the art of persuasion, but should it really drive such mercurial shifts on core issues?
Political science research shows that this “follow the leader” dynamic is hardly limited to Trump. It occurs throughout history, on both sides of the aisle and in other countries. It happens even when party elites try to stop it. In general, the people who run our political parties — particularly the most prominent and charismatic figures — have the ability to reshape what voters in those parties think.

 
After hearing President Trump praise President Vladimir Putin, Republicans reported significantly more positive views of the Russian leader, surveys found. (Susan Walsh/AP)
“Leader persuasion” is a well-documented phenomenon in political science. Before the 2000 election, for instance, more than two-thirds of Americans broadly supported giving workers the option to invest Social Security funds in the stock market. Then GOP nominee George W. Bush promoted the idea and Democrat Al Gore opposed it, and the issue became central to the election. Suddenly, as University of California at Berkeley political scientist Gabriel Lenz demonstrated in his 2012 book, “Follow the Leader?,” Gore voters soured on the policy. Between August and late October 2000, ardent Gore supporters became about 60 percentage points more likely to oppose the idea than strong Bush supporters were, according to an analysis of the National Annenberg Election Survey.
The inclination to defer to the party’s leader occurs on both the left and the right. A 2018 survey experiment, conducted by political scientists Michael Barber and Jeremy Pope of Brigham Young University, asked Americans about an asylum policy that placed families and children arrested by the Border Patrol in a detention facility before a hearing. Trump had just introduced such a policy, but it mirrored an earlier Obama practice. Democrats already somewhat backed the idea — they gave it 3.34 average support on a 1 to 5 scale — but when told that the Obama administration had favored it, too, their views became significantly more positive (moving 0.42 points on that scale). My own research found something similar: In a hypothetical scenario, Democrats moved emphatically toward supporting a major free-trade bill — previously backed by Republicans — after they were told that Barack Obama endorsed it.
Leader-following patterns appear at lower levels of government, too. In 2013 and 2014, political scientists David Broockman, of Berkeley, and Daniel Butler, of the University of California at San Diego, had eight sitting state legislators from an anonymous Midwestern state send official communications about policies they favored (on topics such as raising the minimum wage and allowing undocumented immigrants to obtain driver’s licenses). Based on an earlier survey, the researchers knew that these messages would go to constituents who disagreed with them. Recipients of the messages did not necessarily belong to the same party as their representative. When the legislators simply stated their positions — without offering much justification — voters who received a letter were about seven percentage points more likely to agree than those who didn’t get a letter. The constituents’ overall approval ratings of the lawmakers remained unchanged.
Abroad, we see leader persuasion at work, too. In Britain, in 1997, the Conservative Party campaigned hard against further European integration, awakening a dormant issue. Conservative voters, Berkeley’s Lenz notes, subsequently grew more opposed to integration, while Labour Party members — who had previously been only a bit less skeptical than the Tories on this question — increased their support (presaging the Brexit divide two decades later).
I wanted to know whether leaders’ ability to get fellow partisans in line had limits, so I studied two factors that might curb their sway: opposition from other elites in the same party (think members of Congress) and substantial policy details that make clearer to partisans what, exactly, they’re opining on. The hypothesis was that partisans may rely on leaders less when they’re properly informed. In early 2018, I told about 2,500 Republicans and Democrats that their party leaders had taken positions that departed from the party consensus. Supposedly, Trump wanted a major infrastructure bill previously sponsored by Democrats, and Obama wanted a big free-trade bill that had received Republican backing.
I told a random portion of these people that their party’s congressional leaders had opposed Trump’s and Obama’s positions on these questions, and I gave others more information about the policies. To Republicans, I stressed the extraordinary price tag of the infrastructure bill and the federal government’s large role in directing the program. To Democrats, I stressed the pro-business aspects of free trade and the bill’s deregulatory provisions. But it turned out that neither the institutional check from other elites nor the additional information did much to dampen leader influence. Both Democrats and Republicans followed Trump and Obama largely to the same extent with and without these possible constraints in the picture.

 
  
On Oct. 25, 2019, pickup trucks wait to be loaded onto a cargo plane as part of the withdrawal of coalition forces from northern Syria. Most Republicans opposed pulling troops from Syria, polls found, until President Trump announced plans to do so. (Staff Sgt. Joshua Hammock/U.S. Army Reserve/AP)

That was a carefully controlled experiment, but we see this happening in the real world, too. When Trump moved to withdraw troops from Syria in December 2018, and rank-and-file Republicans shifted their views to match his rhetoric, congressional Republicans, spent months objecting — and the Senate rebuked the president’s plan with a 68-to-23 vote. This hardly dented his influence. Republican public opinion on Syria troop withdrawal — a majority now supporting it — was nearly identical before and after GOP elites pushed back hard.
Maybe a leader’s sway depends on the prominence of an issue? Perhaps leaders can persuade voters on questions that aren’t in the limelight but then fail to influence them on high-profile issues (when many other signals and information might shape opinions)? Some scholarship suggests that’s the case, but the picture isn’t clear. For example, new evidence from Denmark indicates that when leaders from the two parties that formed the country’s center-right coalition government reversed their stances on much-discussed welfare issues in 2010-11 — abruptly cutting unemployment insurance and early retirement programs — ordinary party members shifted their opinions on those issues by a substantial 15 percentage points, in the direction of the parties’ new position.
Issues involving race may be among those where leader influence is weaker than usual — although here, too, evidence is mixed. Republicans warmed up toward the Black Lives Matter movement this year, despite the president’s vocal opposition. But from early to mid-2016, as Trump slammed the earlier incarnation of BLM, one study found that White Trump supporters began expressing more hostile racial views. And in a 2016 survey experiment, exposure to Trump’s prejudiced comments — such as when he called some Mexican immigrants “rapists” — led his voters to voice more offensive opinions about minorities.
The scholarship on leader-following has focused on policy stances. But the influence extends to misinformation, too, with public opinion around voting by mail providing a vivid recent illustration. Trump’s frequent (and unfounded) claim that the system is riddled by fraud appears to have turned Republicans off of the voting method and created a much larger partisan gap. One study estimates that between early April and late May — as Trump launched several Twitter attacks on the voting method — Republicans became 10 percentage points less supportive of expanding voting by mail.
Nowhere are the consequences of voters’ deference more clear than in the coronavirus pandemic. For months, Trump has downplayed the severity of the contagion, condemned shutdowns that public health experts endorsed, ridiculed mask wearers, and pushed to reopen businesses and schools. Unsurprisingly, the resulting partisan divides on recommended behaviors have undermined our collective response to the crisis. In late April and early May, for example, the rate of mask-wearing among Republicans lagged that of Democrats by more than 20 percentage points, according to one survey.
It’s hard to not wonder how different the country’s trajectory might have been had Trump aggressively endorsed masks and social distancing from the start. Yet the follow-the-leader dynamic works both ways: In surveys conducted before and after Trump tweeted a picture of himself wearing a mask and called it patriotic, Republicans became five percentage points more likely to wear a face covering (halving the partisan gap in that data set). In other words, getting out of the current pandemic mess might mean counting on the same mechanism that exacerbated it.
Some observers have suggested that Trump has “hijacked” his party — and in attempting to explain why Republicans would follow him, they have focused on his distinctive (and unarguable) opportunism and disregard for norms. But the lesson of this vein of research is that all political parties are vulnerable to dramatic shifts and “takeovers” by prominent leaders (perhaps especially in presidential systems, which grant the chief executive inordinate prominence). Long after Trump is gone, American politicians who win top positions will be tugging the views of their partisans much closer to their own, adding yet more instability to an already hostile and polarized system.

Alexander Agadjanian @A_agadjanian is a political science PhD Student at the University of California, Berkeley, and recently was a research associate at the MIT Election Lab.

Tuesday, April 28, 2020

O IMPÉRIO DO MEDO

Provavelmente, nunca na história da humanidade a dicotomia entre segurança e liberdade foi tão dramática. Nem Orwell sequer sonhou que a humanidade alguma vez enfrentasse uma situação em que a liberdade pudesse ser sequestrada por meios que, provadamente, garantiram que um vírus sequestrador fosse sequestrado, salvando milhões de vidas. 

A China, onde o maldito vírus deu os primeiros sinais da sua velocidade de contágio e grau de  letalidade, tem cerca 1,4 mil milhões de habitantes, os EUA com cerca de 330 milhões têm menos de 1/4 da população chinesa. Até ontem, segundo dados da OMS, a China registava 4633 mortes, um número que nas últimas semanas não tem observado subidas significativas, do frio ponto de vista numérico. Os EUA tinham atingido 56803 mortes, praticamente na sua totalidade nas últimas semanas, com tendência crescente, doze vezes mais que o número tendencialmente estabilizado, observado na China. 

Mas a China é um país governado por uma ditadura, argumenta-se, ainda que no Japão, governado democraticamente, com 126 milhões de habitantes registasse até ontem 385 mortes. Argumenta-se que os orientais desde há muitos anos se habituaram a proteger-se, nomeadamente,  com máscaras, quando as condições envolventes recomendam essas protecções. 

Por cá leio no JN de hoje:  Medir a febre no trabalho? O que deve ser salvaguardado.  A  Comissão de Protecção de Dados não tem dúvidas: com a lei como está, uma medida deste tipo só é possível no âmbito da medicina do trabalho. O Governo já avisou que vai mudar a lei, mas os sindicatos alertam que há fronteiras que não devem ser transpostas. - cf  aqui

Também é público que predomina, ainda, que a geolocalização dos infectados e daqueles que com eles tiveram contactos, não é tolerável em democracia, uma conquista civilizacional inegociável. Por outro lado, os médicos em geral, aqueles que batalham contra o monstro na linha da frente porque a defesa civil, também desta vez, não compareceu a tempo, avisam que um retorno à normalidade, e o que é isso nas circunstâncias actuais?, é para já prematuro e arrisca despoletar uma segunda vaga com consequências muito mais dramáticas. 

Espera-se que os sindicatos, por um lado, e aqueles que vêem na democracia uma donzela inviolável até nas unhas dos pés, não estejam a ser promotores de um dilúvio em que se afundarão irremediavelmente as democracias liberais.

Se uma empresa, em fase de retorno às suas actividades, pretende defender os que nela trabalham, garantindo-lhes segurança e confiança, quem é que, racionalmente, se opõe? 

Numa perspectiva doméstica, que confiança tenho na não infecção de um técnico, e ele em mim, se tenho a máquina da roupa avariada desde ontem, ou a máquina da louça, ou o frigorífico, ou a televisão, por exemplo? Posso lavar a louça à mão, a roupa será mais difícil porque abandonámos o tanque há muitos anos, dispensamos o frigorífico comendo apenas alimentos comprados nos últimos dois dias, sem nenhuma tristeza dispensamos a televisão, mas se a canalização da água ou do gás se rompem? Podemos sobreviver sem gás, mas podemos sobreviver sem água? Não podemos. Chamamos o técnico da companhia das águas. Posso confiadamente  deixá-lo entrar em minha casa, e virá ele confiante que em minha casa ainda não entrou o invisível e imprevisível monstro?

Fala-se pouco destas ninharias, as discussões, as opiniões, mais correntes, situam-se a níveis de abstracção incompreensíveis quando o mal galgar a terra  em nome da tal donzela inviolável, mesmo até no dedo do pé, que se afundará quando já não tiver pé.

Monday, March 06, 2017

A CAIXA DE LOUÇÃ

O Prof. Louçã afirmou, em entrevista publicada aqui, que o plano de negócios da Caixa Geral de Depósitos é errado. E, do meu ponto de vista, é. Mas por algumas razões diferentes das apresentadas por Louçã. 

Do que conheço das suas linhas gerais, por terem vindo a público algumas apreciações críticas do documento, o plano de negócios elaborado pelo sr. António Domingues e a sua equipa conforma-se com as exigências do BCE, como condição sine qua non para a recapitalização da Caixa, em grande parte com dinheiros públicos, não ser considerada ajuda do Estado e, portanto, não agravar o défice das contas públicas. E as exigências do BCE impõem que a Caixa seja governada segundo critérios idênticos aos que estão subjacentes à banca privada. Com uma condição espúria: a suposta independência concedida à administração da Caixa sobreleva qualquer outra dominante em bancos de capitais privados, coibindo o governo em funções, enquanto representante do accionista, o Estado, entidade onde convergem os interesses e responsabilidades de todos os portugueses, de decidir em qualquer matéria que restrinja a capacidade pretensamente quase ilimitada da administração proceder como entender. Comentei aqui esta vertente do documento.

Critica Louçã que a seguradora Fidelidade tenha sido vendida (foram as perdas da Caixa que obrigaram esta e outras alienações de activos) e a Caixa amputada de um sector primordial como complemento da actividade bancária. A questão é, no mínimo, discutível e, de momento, inoportuna.

Defende Louçã que a Caixa não deverá reduzir a sua rede balcões, e, se as actividades em Espanha foram um desastre, há balcões no estrangeiro junto de comunidades emigrantes que justificam a presença da Caixa junto dessas comunidades.  
O acidente espanhol, sem que o condutor tenha sido julgado e condenado, mas transferido e promovido, deveu-se a arriscados créditos concedidos que se revelaram incobráveis. Se a Portugal faltam recursos financeiros parece absurdo que a Caixa exporte fundos que deveriam promover o crescimento em Portugal. Se a intenção é a canalização das poupanças dos emigrantes para Portugal, a forma mais eficaz é a recuperação da confiança perdida pelo sistema financeiro, tendo a Caixa enormes culpas no cartório. E não é visível, nem Louçã demonstra o contrário, que  a Caixa possa sair do atoleiro onde a meteram sem reduzir custos, o mesmo é dizer, sem dispensar os meios excessivos.

Mas é sobretudo a missão da Caixa, que Louçã não aborda nesta entrevista, que deveria merecer um debate avaliador do nível de consenso possível sobre o que se espera de um banco público, administrado como banco privado, que justifique a sua razão de existir. Do ponto de vista de Louçã, a propriedade pública sustenta-se em princípios ideológicos que sobrelevam quaisquer outros, tão inamovíveis quanto os sacrossantos direitos da propriedade privada defendidos pelos ultra liberais. Qualquer discussão balizada por cerradas barreiras ideológicas é inútil. 

Louçã poderia, por exemplo, defender que a Caixa, como banco público, fosse exemplar no repúdio de actividades especulativas, as eufemisticamente designadas operações de intermediação em fundos de investimento, ou transacções com offshores. Há muito tempo já, anotei neste caderno de apontamentos a necessidade de criar "bancos verdes", não poluídos, nem susceptíveis de virem a ser, de activos tóxicos; e que só esses poderiam contar, em última instância, do respaldo dos contribuintes. 

Poderia, mas nisso cairia em contradição com as suas convicções ideológicas, um chapéu de abas mais largas que as da teoria económica em que Louçã é catedrático.

Sunday, September 08, 2013

IDEOLOGIA E ESPÍRITO DE PORCO

Depois de amanhã, Obama vai dirigir-se aos norte-americanos sobre a questão síria numa altura em que é indefenida a tendência da votação na Câmara dos Representantes. Acerca deste assunto, decisivo para a geopolítica mundial, e da eventual intervenção dos EUA, enquanto superpotência, cada qual terá a sua opinião mas muitos, também neste caso, opinam ou opõem-se por mero espírito de contradição.  

Invoca Obama que não é sua credibilidade que está em causa se os EUA não intervierem no conflito, mas a humanidade. "I didn´t set a red line, the world set a red line", respondeu durante a conferência de imprensa em Estocolmo, na quarta-feira, sustentando a sua afirmação no facto do acordo de probição do uso de armas químicas ter sido aprovado pela quase totalidade dos países representados nas Nações Unidas.

A generalidade dos comentadores norte-americanos vê numa eventual rejeição do Congresso um rombo sério na credibilidade interna e externa do seu presidente apesar de ninguém contestar a sua opção de ter colocado nos representantes do povo norte-americano a co-responsabilidade de os EUA intervirem nesta e em situações idênticas no futuro. David Cameron fez uma opção idêntica, a sua proposta de intervenção na Síria foi rejeitada pela maioria no Parlamento, e Cameron declinou a participação do Reino Unido. Aliás, tendo já Obama declarado que uma intervenção norte-americana contra o regime de Assad seria remota, sem intervenção de soldados no terreno, "no boots on the groun in Syria", e um ataque realizado agora contra a votação maioritária no Congresso poderia, segundo John McCaine, provocar o impeachement do presidente, com ou sem Reino Unido ao lado dos EUA, Obama está condenado a ser culpabilizado pela opinião pública qualquer que seja a sua decisão final.

Mas será a votação do Congresso a resultante das convicções ideológicas dos seus membros e, por delegação, a expressão da vontade dos cidadãos eleitores? Não será. Perfila-se uma votação que, se for maioritariamente contra no Congresso,  resultará da conjugação de votações coerentemente assumidas com as suas convicções acerca das responsabilidades que impendem ou não sobre os EUA como superpotência, e dos votos de vários membros do Congresso que votarão contra pela única razão de votar contra Obama. Aqui, como aí, prevalecem frequentemente as obstinações clubistas: se é assim, são contra; se for assado, também.

Demagogia e espírito porco andam por aí frequentemente de mãos dadas.

Wednesday, August 28, 2013

A IDEOLOGIA ESTÁ PRIMEIRO

Afirma Proença de Carvalho em entrevista do DE que  
"alguns magistrados do Tribunal Constitucional se deixam influenciar por motivações ideológicas e políticas”, acrescentando que “no Tribunal Constitucional isso é quase natural”.  
Porquê? "a Constituição do País tem “ideias totalmente desadequadas à realidade”.  
Remédio? "Uma revisão alargada da Constituição do País, bem como a sua “interpretação actualista”, uma vez que comporta “ideias totalmente desadequadas à realidade”.

Não é difícil, para quem não esteja subordinado a baias ideológicas, concordar em grande medida com o diagnóstico de PC. A administração da justiça, sobretudo quando os recursos chegam ao TC, dificilmente poderá escapar-se a uma ponderação com pesos ideológicos mas a Constituição que temos, marcadamente ideológica na época em que foi votada, abriga interpretações que podem tornar-se conflituantes com as competências do governo.

Mas PC sabe, toda a gente sabe, que uma revisão constitucional exige o acordo de uma maioria qualificada de dois terços na AR, e é altamente improvável que um governo que não consegue obter o acordo do PS para as propostas de reforma do Estado que pretende levar a cabo e que, em grande medida por esse motivo acabam por ser remetidas para o TC, endossando para os juízes a tomada de decisões políticas que pertencem constitucionalmente ao executivo, consiga realizar uma tarefa muito mais complexa e demorada. 

Enquanto subsistirem os confrontos de interesses partidários com arremessos ideológicos entre as principais forças políticas, dificilmente poderá esperar-se dos juízes do TC uma neutralidade em matérias onde os políticos se recusam a negociar compromissos.

"La politique d´abord", clamou Maurras na primeira parte do século passado, mas para Maurras a política era a da Igreja Católica e a sua ideologia um dogma. Em democracia, a política é o seu cerne mas a sua composição ideológica é diversa e obriga a compromissos se a intenção é garanti-la.

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A propósito: Até que ponto os macro economistas, subjugados pelas suas convicções ideológicas, são "não cientistas"? O tema, recorrente, é hoje abordado, mais uma vez, aqui.

Wednesday, January 30, 2013

POR QUE HÁ TANTOS IMBECIS NESTE PAÍS?

 A maioria parlamentar vai sugerir ao Governo a recuperação do histórico programa televisivo da RTP "TV-Rural" como forma de cumprir o serviço público.

Toda a Oposição está contra. Está contra porque considera uma ingerência da maioria na programação da televisão do Estado. Poderia ter estado contra todas as ingerências de todos os governos, sem excepção, na estação pública de televisão mas só está contra esta porquê? E logo a propósito de um tema que, não sendo garantidamente ideologicamente neutro, será dos menos vocacionados para propósitos de proselitismo ideológico.

Está contra, desde logo, porque em Portugal ser oposição é cumprir exactamente o sentido etimológico do termo. Se a maioria propõe, a oposição opõe-se. Quando mudam (os que mudam) de posição, o exacto cumprimento mantêm-se. Depois, porque a própria maioria, ou por encadeamento instantâneo do brilho que viram na ideia ou porque quiseram mostrar serviço aos olhos dos seus fiéis, entendeu fazer o que não devia: levar o assunto à apreciação da AR.

A maioria poderia ter feito chegar à RTP da forma mais inocente possível, e não lhe faltavam canais, o senhor Miguel Relvas é simultâneamente ministro para os assuntos parlamentares e televisivos, uma sugestão que, do meu ponto de vista, merece todo o acolhimento. O senhor Miguel Relvas falava com o senhor Alberto da Ponte, o senhor Alberto da Ponte com quem deve, e o programa estaria no ar um dia destes, geralmente aplaudido, até pela oposição.

Assim, foi um ar que lhe deu, que o terá matado antes dele ter nascido.
 
 
 
 

Tuesday, January 11, 2011

TODDY



Toddy contem porque contem mesmo!

Sunday, September 26, 2010

VOTOLOGIA

Com a queda do muro de Berlim, sentenciou-se logo a seguir, acabaram as ideologias.
Terão mesmo acabado?
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Se não acabaram ficaram estonteadas, sem saber por onde seguiam os caminhos subitamente interrompidos.
E, no entanto, assiste-se hoje a um ressuscitar do conceito criado no final do século XVIII, e que desde logo sofreu evoluções semânticas que o desfiguraram e o deslocaram para o terreiro da política.
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A propósito desta degeneração conceptual feita ao sabor das circunstâncias de cada tempo político já apontei algumas reflexões neste caderno. Por exemplo, aqui.

Se volto de novo ao tema é porque o momento político do País é dominado por uma escaramuça à volta  da execução do OE em 2010 e do OE para 2011. Uma escaramuça, porque da luta partidária dominante não resultará certamente o aniquilamento de qualquer dos contendores, mas, quanto muito, algumas feridas a lamber. Uma escaramuça feita em nome de ideologias supostamente diferentes. Serão?

De modo algum.
A equação do reequilíbrio das contas públicas é elementar: ou se aumentam os impostos, ou se reduz a despesa pública, ou se doseiam em quantidades variáveis aumentos e reduções. As opções são ideológicas?
São essencialmente votológicas, isto é, são determinadas sobretudo em função dos votos que colocam em risco já que tanto o aumento dos impostos como a redução da despesa pública afectará um numero muito elevado de eleitores. Dito de outro modo: Se o PSD fosse governo imporia a redução da despesa e manteria os impostos? E se o PS fosse oposição seria tão condescendente em facilitar a vida ao governo permitindo o aumento dos impostos?

Mais do que opções ideológicas estão em causa interesses partidários. Ao elevar o IVA para 23% e cortar nas deduções fiscais o governo pretende, sobretudo, não colidir com os interesses dos funcionários públicos reduzindo-lhes os vencimentos nem os suplementos. Ao pretender a redução da despesa, o PSD quer forçar o governo à tomada de medidas que sabe susceptíveis de provocar reacções extremas do funcionalismo.
Porque ainda que atinja mais eleitores, porque os atinge todos, o aumento do IVA é menos sentido porque é muito mais diluído.
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Independentemente do efeito virtuoso da redução da despesa pública sobre a recuperação económica.
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Argumenta o PM que o PSD quer abalar a universalidade do Estado Social. O Estado Social não é universal em Portugal. O funcionalismo público dispõe de condições de reforma e assistência médica (ADSE) claramente mais favoráveis que o resto da população portuguesa. Se a opção do governo fosse ideológica o sistema seria único, e não é. É por demais evidente que, também neste caso, preponderam razões de voto e não objectivos ideológicos.

Esta incapacidade sistémica, que caracteriza a governação em Portugal* há muito tempo, decorre da existência, por um lado, de uma "esquerda" comunista ortodoxa e outra "populista" com peso parlamentar conjunto significativo mas sem vocação governativa e, por outro, à direita, de um partido conservador-populista incapaz de progredir eleitoralmente de forma consistente. O governo ao centro encontra-se permanentemente ameaçado pelo populismo dos extremos. É a perseguição dos votos e os compadrios partidários e não as ideologias que comandam os destinos do País.

A clivagem ao centro, reduzindo a propensão para o bloco central que muitos rejeitam, e que poderia tornar a vida política mais transparente em Portugal, passa por um sistema eleitoral que priviligie, mais do que o actual, a formação de maiorias parlamentares. Tal sistema seria menos representativo na AR das diferentes "ideologias" mas garantiria mais capacidade de intervenção de quem governa e menos clientelismo de conivência intrapartidária e interpartidária.
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* Mesmo dispondo de maioria absoluta na AR, o anterior Governo Sócrates recuou muitas vezes nos seus ímpetos reformistas.