Monday, July 14, 2014

O SACO DE PRIMOS

O primo Ricciardi não quer mais sentar-se ao lado de gente não idónea, sendo suposto que se refira, além do mais, ao primo Ricardo. Significa isto que, mesmo no momento de maior turbulência do saco, os primos se continuam a esgatanhar desalmadamente entre si. No entanto, a pública recusa de Ricciardi poderá ter pelo menos uma vantagem para o futuro do BES: a de inviabilizar a insitucionalização de um conselho estratégico, uma ideia enjorcada com o intuito de manter a bordo os espíritos santos e garantir-lhes rendas generosas. Um orgão que será (que seria, espera-se) perturbador se não for (fosse) completamente inútil.

Os accionistas do banco encontram-se representados no conselho de administração, e a gestão  compete à comissão executiva que ontem tomou posse. Para que pode servir um conselho estratégico que, de mais a mais seria constituido por quem o Banco de Portugal impediu que continue a sentar-se no conselho de administração? E que, repetidamente, já mostraram que há muito deixaram de se gramar uns aos outros? Se a gestão do BES será sempre extremamente complicada nos tempos mais próximos a intromissão dos primos, ainda que velada, será um factor de entropia que o mercado não vai deixar de penalizar.

Ao meio dia de hoje, depois do retorno à bolsa com nova administração,  as acções do BES estão a perder cerca de 7%. Enquanto os espíritos santos pairarem por ali não há água benta que, só por si, possa sossegar os outros espíritos. 

E a recapitalização à moda da  troica, intermediada pelo governo, seguir-se-á dentro de alguns dias.
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Correl.- Família Espírito Santo em risco de perder BES
Act. - (15/7) - Incumprimento na PT provocaria insolvência desordenada do GES
Vítor Bento quer confiança dos mercados. Acções estiveram a subir 5% mas voltaram às quedas .
BES afunda 15% para fechar nuns inéditos 0,38 euros por acção
Acções da PT atingiram novo mínimo histórico com receios de incumprimento da Rioforte
Escândalo do GES chega à Suiça ou quando os ricos ficam pobres
(16/7 ) - Carlos Costa conduz BES a uma subida de 20%, a maior de sempre
(17/7) - Intervenção pública na banca é sempre cenário de último recurso
BES pode ser o maior escândalo financeiro da história de Portugal
Presidente da Rioforte abandona "holding" de topo da família Espírito Santo  
M L Albuquerque: Não estamos a preparar a recapitalização do BES
Depois de uma recuperação sensacional de 20%, as acções do BES estão a perder hoje quase 8%. Uma delícia para os especuladores.
(18/7) - Banco de Portugal terá sondado interesse do Santander no BES
(30/7) - BES precisa de 1500 a 3000 milhões de euros de capital após registar prejuízos históricos
"O Governo já assegurou junto do BCE que há 6.400 milhões disponíveis para ajudar recapitalização do BES. O colapso do GES e alegadas actuações ilícitas causaram perdas de 3.250 milhões no banco, ou seja, 90% dos maiores prejuízos da história da banca."

Sunday, July 13, 2014

O PATRIOTA

Pacheco Pereira dedicou os seus mais recentes escritos no Publico aqui, e aqui, à  demonstração de que "a direita deixou de ser patriótica", albergando o historiador, nesta matéria, como direita o PSD, CDS e o PS. Como o BE nem é nem deixa de ser, deduz-se que o patriotismo mora agora no PCP, supondo-se que Pacheco Pereira, que é filiado no PSD admite que existam alguns, raros, tresmalhados da direita ao lado dos comunistas na defesa da independência nacional.

Previne P Pereira que usa o termo “patriotismo” num sentido vago de um sentimento comum de partilha a uma mesma comunidade com identidade histórica e nacional, linguística, cultural, territorial, que define fronteiras e interesses comuns e que pressupõe que esses interesses têm que ser defendidos num quadro de competição ou conflitualidade com outros interesses. É o sentimento de risco permanente, logo de defesa activa, dos interesses de uma comunidade nacional, que é o elemento dinâmico daquilo que se possa chamar patriotismo."  Entre este patriotismo que supõe uma conflitualidade de interesses demarcados por fronteiras territoriais e o nacionalismo que combate a unidade europeia, que se constituiu para primordialmente garantir a paz na Europa, que diferença existe? 
Parece que nenhuma. Pacheco Pereira, aliás, encarece de modo muito saliente o papel dos militares  na defesa activa dos interesses da comunidade nacional, e critica acerbamente "o abandono do patriotismo por parte do actual poder político,  muito evidente no modo como actua em relação  às Forças Armadas". Infere-se daqui que, segundo Pacheco Pereira, Portugal deve dispor de Forças Armadas capazes de garantirem, orgulhosamente sós (deduzo eu), a soberania no interior do seu território. Perante a ameaça ou invasão de quem, não diz. 

Num aspecto concordo com Pacheco Pereira, mas com objectivo diferente: o fim do serviço militar obrigatório foi um erro enorme. A participação na defesa comum europeia deveria pressupor o treino e envolvimento, se necessário,  de todos os cidadãos em idade conveniente. Se assim fosse, a consciencialização da identidade europeia seria mais facilmente adquirida. Lamentavelmente, do meu ponto de vista, assiste-se a um retrocesso na integração europeia em consequência do aceno nacionalista aos mais fustigados pela crise.

Saturday, July 12, 2014

LISBOA VIVA

Andei hoje pela Baixa de Lisboa e regalei-me com a animação que vi, apesar da temperatura elevada convidar muita gente para as praias. Considerei sempre uma aberração que as pessoas que habitam ou visitam Lisboa se encafuem nos espaços fechados dos centros comerciais. Com um céu tão azul e um clima ameno, o sucesso dos centros comerciais sustenta-se num provincianismo lusitano atávico. São os turistas estrangeiros, que, obviamente, não vêm a Lisboa para se enfiarem em shopping centers, os grandes reanimadores de uma cidade que durante os fins-de-semana parecia desertificar-se. E, se estrangeiro vai porque é que  também não hei-de eu ir, observa-se agora uma deserção lógica da clausura do centro comercial para o ar livre das ruas da cidade.

Um dia, já lá vão muitos anos, prognostiquei que "com o clima que temos o shopping das amoreiras não vai durar mais que dez anos". Enganei-me compridamente. Espero, agora, ter começado a acertar.
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De cima para baixo: No Terreiro do Paço,
vendedores de "ginjinha" (com ou sem elas), aluguer de yellow-cars e cerejas do Fundão.

Friday, July 11, 2014

CONSTÂNCIO, CULPADO NÚMERO UM DA NOSSA DESGRAÇA

A acusação é de Daniel Bessa. Na realidade, Bessa refugiou a acusação numa expressão dissimulada: "O responsável número um da nossa desgraça é um banqueiro central".

"O engenheiro Sócrates é muito responsabilizado, e não há ninguém que o responsabilize mais do que eu, mas eu vejo-o como aquele egípcio que tomou os comandos do Boeing que se precipitou sobre as Torres Gémeas". Mas essa não é a responsabilidade maior. A responsabilidade maior é do mentor, não é do executante, e o mentor estava no Banco de Portugal", disse Bessa, fazendo rir a assistência." "o mentor "disse que a partir da entrada no Euro, uma pequena economia aberta e financeiramente integrada, no regime de moeda única, não tem restrições financeiras. Endividar até sempre".

Acerca das responsabilidades de Constâncio na nossa desgraça (para usar a expressão de Bessa) já anotei neste caderno muitas dezenas de apontamentos durante os últimos oito anos, começando a observar-lhe a pusilanimidade muito antes do espoletar da crise. Concordando, embora, em alguma medida, com a acusação de Bessa, considero-a inexplicavelmente extemporânea e implicitamente desculpabilizadora de outros grandes culpados, com particular destaque para os banqueiros. Bessa sempre dispôs de muitos palcos para se pronunciar. Alguém o ouviu em tempo oportuno contrariar a tese que citou de Constâncio? Se o fez, fê-lo de modo inaudível. 

Atribuir a Constâncio a responsabilidade primeira pela nossa desgraça sem citar nenhum dos outros participantes - a banca em geral - e considerar o papel dos políticos, com especial destaque para Sócrates, como de executantes de um desígnio errado, é manifestamente redutor de uma realidade mais complexa. Não fomos, sem somos todos culpados - a generalização é desculpabilizadora -, mas também não houve, nem há, o maior culpado -  a designação, ainda que encapotada, de um bode expiatório é igualmente subliminarmente desculpabilizadora de todos os outros.
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Correl.- A cada qual, o principal responsável 

Thursday, July 10, 2014

DIVINO ESPÍRITO SANTO

- Então,  e quando é que voltam para o Continente?
- Quinta-feira, dia 10.
- Fazem mal ... Deviam ficar mais uma semana. As Festas do Divino Espírito Santo começam precisamente na quinta-feira. É uma alegria. Nós vimos cá para as festas por esta altura todos os anos. Pagamos uma entrada, este ano ainda não sabemos quanto vai ser, mas podemos comer de tudo e quanto nos apetecer!
- E onde é que vivem?
- Nós vivemos em Toronto, no Canadá, há quase trinta anos; estes meus amigos em Westport River, Rhode Island...
E os senhores, estão a gostar dos Açores?
- Estamos a gostar muito.
- É a primeira vez?
- Estivemos cá há trinta e dois anos. Tinham naquele tempo os nosso filhos a idade que têm agora os nosso netos.
- E do que gostaram mais até agora?
- Da natureza. É uma maravilha.
- Muito melhor que a Madeira, não é? Só não temos casinos ... mas também não fazem cá falta, não senhor.
- Para nós, é uma maravilha incomparável. 
- Bom peixe ...
- Óptimo. 
- E o que é que já comeram?
- Até agora, garoupa, albacora, peixão, chicharro, no continente chamamos-lhes carapaus ...
- Aqui, o carapau é um goraz pequeno. Depois é peixão, e só depois goraz. Mas o que lhe recomendo é um enxaréu no forno. É uma maravilha. 
- Hoje vamos ao cozido nas furnas ...
- Fazem bem. Os restaurantes fazem o cozido em panelas, fica mais suado, eu faço-o num saco, fica mais enxuto, fica melhor. Fique cá mais uns dias e vai lá a casa comer um cozido feito por mim.
- Obrigado mas não vai ser possível.
- Quais foram as maiores diferenças que encontrou passados trinta e tal anos?
- A natureza é a mesma, espectacular, grandiosa demais para ser descrita. O que mais nos surpreendeu foi, no entanto, a rede de estradas e vias rápidas ...
- Uh!Uh! Agora vai-se a toda a parte numa hora onde dantes se gastava um dia. 
- E as casas. São raríssimas as casas degradadas, e encantou-nos a variedade de cores com que cada um pinta a sua habitação. Pintam todos os anos?
- Bem, todos os anos, acho que não. Mas com alguma frequência, sim.
- Os portugeses do Continente deveriam aprender com os açoreanos a conservar as casas e a cuidar do ambiente. Nesta altura do ano, São Miguel é um jardim de ponta a ponta. Vêm-se, sobretudo, hortênsias e agapanthus ao longo de quase todas as estradas.
- Mau mesmo só o serviço da SATA. Por causa da SATA é que o turismo não se desenvolve. Quem é que pode pagar as passagens aos preços que estão?
- Protestem.
- Oh senhor, fartamos-nos de protestar e é o mesmo que nada...
Está-se aqui bem, nesta piscina de água férrea. Venho aqui todos os anos. Vir a São Miguel e não entrar nesta piscina é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
-  É também o que me acontece quando lá vou.
- Pois fica a perder duas coisas imperdíveis: as festas do Divino Espírito Santo e estas águas férreas que são um regalo.
- Fica para a próxima.
- Daqui a outros trinta anos, não.



Wednesday, July 09, 2014

SATA

Aeroporto de Lisboa

- Bom dia! Pode dizer-me, por favor, para que horas está agora
 prevista a saída do vôo de Boston que deveria chegar às sete e 
trinta desta manhã a Ponta Delgada?
- A previsão é que saia às quatro da tarde e chegue às nove e 
trinta da noite.
- Quatro da tarde em Boston ou Ponta Delgada? Como entre 
Boston e Ponta Delgada há uma diferença fuso horária de quatro 
horas talvez haja confusão com as horas, não? Ontem recebemos 
informação que o avião saía hoje de Boston ao meio dia ...
- Não. Vai sair às quatro da tarde.
- Desculpe-me mas há na sua informação incompatibilidade entre
 a hora da saída e a hora de chegada: se o vôo sai às quatro, hora 
de Boston, sai às oito horas de Ponta Delgada. Se sai às oito 
de Boston ...
- Não sai às oito, sai às quatro.
- Às quatro de Boston são oito em Ponta Delgada ...
- Pois são.
- Portanto, ou não sai às quatro horas de Boston ou 
não vai chegar às nove e trinta a Ponta Delgada ... não lhe parece?
- A mim não me parece nem deixa de parecer. Estou a dar-lhe a 
informação que tenho disponível neste papel, que para mim conta
 como se fosse a Bíblia ...
- Já percebi. Fico é sem saber a que horas vai chegar o 
avião que deveria aterrar em Ponta Delgada às sete e trinta 
da manhã mas foi cancelado, e depois anunciada a saída 
hoje ao meio dia de Boston ... Aconteceu o mesmo a uns 
familiares nossos há duas semanas atrás. E, naturalmente,
 ficamos preocupados.
- Não percebo porquê ...
- Pois se não percebe também não vou conseguir 
fazer nada por si. Posso falar com o seu supervisor?
...
- Qual é o seu problema?
- Quero saber para que horas está prevista a chegada
 a Ponta Delgada do vôo procedente de Boston, que deveria 
ter saído às vinte e duas horas de ontem e foi cancelado ...
- Não foi cancelado, foi adiado catorze horas.
- Então sai hoje de Boston a que horas?
- Ao meio dia.
- Muito bem. Sugiro-lhe, então, mande rectificar a informação 
escrita que entregaram às suas colegas.
- Mais alguma questão?
- Qual a razão destes repetidos cancelamentos, 
ou atrasos como lhes chama? A uns familiares meus aconteceu 
precisamente o mesmo há cerca de duas semanas. 
- A razão está na falta de pessoal ... Se um vôo se atrasa, o pessoal 
não tem tempo de descanso para retomar o serviço 
de volta dentro do horário ...
- Agora entendi. As suas colegas, segundo me foi dado perceber, 
foram dadas instruções para justificar os atrasos com a pouca sorte. 
A culpa não deve ser delas mas de quem as chefia, suponho.
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A bordo do avião do vôo Lisboa Delgada

Costuma fazer serviço até Boston?
- Sim senhor. Geralmente duas vezes por semana ... Mas por que 
é que pergunta?
- Porque sei que têm havido ultimamente vários cancelamentos 
de vôos. Ontem, voltou a acontecer. Sabe por quê?
- Sei, sei, razões técnicas ...
- O que é isso?
- Problemas de manutenção ...
- Com essa você assusta-me ... No aeroporto ouvi dizer que a razão 
está na falta de pessoal ...
- Também, também, são as duas coisas ... Manutenção e falta de 
pessoal. Mas nenhum piloto inicia um serviço sem estar consciente 
de que a aeronave está em perfeitas condições para viajar.

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Em Ponta Delgada

- V., que são passageiros frequentes da SATA, qual é a vossa opinião 
acerca dela?
- Péssima!
- Péssima!
- Péssima!
- É um monopólio, faz o que quer.
- O ano passado deu 16 milhões de prejuízos ao governo 
da Região.
- Os bilhetes entre o Continente e os Açores são caríssimos.
Eu tenho três filhos ainda crianças, entre os cinco e os dois anos, 
se vamos ao Continente os cinco, pago 1200 euros só pela viagem.
 Quem não se pode queixar são os juízes e outros quadros do 
Ministério da Justiça que têm direito a uma passagem 
gratuita anual, para o próprio e familiares. A política 
de transportes aéreos nos Açores está completamente errada, 
sujeita a desígnios meramente políticos. 
Desde logo porque a SATA tem o monopólio, 
nenhuma outra companhia pode aqui operar. Depois é absurdo 
fazer transportes em aviões Airbus para cinco aeroportos 
do arquipélago. 
Os vôos entre as ilhas deveriam ser feitos com os aviões 
pequenos e os vôos de longo curso apenas a partir de São Miguel. 
Mas a demagogia faz as contas de outro modo e os resultados
 operacionais e económicos são desastrosos.
- Mas isto prejudica os Açores...
- Sem dúvida. Mas o que é curioso é que toda a gente 
tem as suas razões: 
desde logo as tripulações, que têm direito aos tempos de descanso 
estipulados na lei, sobretudo por questões de segurança, 
os residentes, os imigrantes, os turistas, pela sensação de 
desorganização e insegurança, pelos atrasos e cancelamentos, 
pelos preços elevadíssimos sobretudo entre os Açores e o Continente,
 os contribuintes pelos prejuízos. 
- Então, que solução?
- A solução natural: privatizar a SATA e abrir o espaço aéreo a todas 
as companhias que se candidatem a operar aqui. Assim é que não.



Tuesday, July 08, 2014

VEXAME DOS VEXAMES

O título é do Globoesporte e resume um desencanto que pode voltar a fermentar uma revolta social agora com resultados políticos imprevisíveis. A organização da "Copa 2014", envolvendo despesas que excederam perdulariamente tudo o que tinha sido atingido em organizações anteriores, foi violentamente atacada nas ruas das grandes cidades brasileiras. O início do torneio acalmou os ânimos mas aumentou as esperanças num resultado desportivo pelo menos honroso.

O resultado de hoje não augura nada de bom para o Brasil. Ou, talvez, sim. Talvez a queda dos ídolos da bola alargue a consciência cívica do povo brasileiro. E do português, já agora.

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Correl. - (14/7)
Depois da ressaca no futebol chegará a ressaca financeira

Sunday, July 06, 2014

SEJA COMO FOR, SOU CONTRA

Leio aqui que os três partidos da oposição critiam a nomeação de Vitor Bento para a presidência da comissão executiva do BES. Leio, e a primeira pergunta que me faço é: o que é que eles têm com isso? O BES é um banco privado, não foi recapitalizado com intermediação do Estado, é à assembleia geral de accionistas que compete, e a mais ninguém,  confirmar a nomeação provisória daqueles que têm o apoio dos dois maiores accionistas do banco e que representam cerca de 40% do capital do banco.

Não encontro outra resposta que não seja a que decorre desta estreiteza política que leva a oposição, qualquer que ela seja, de aproveitar tudo o que vê à mão como arma de arremesso. E, naturalmente, a banalização do movimento acaba sempre por aumentar a indiferença dos cidadãos relativamente à vida política pelo uso e abuso de questões menores ou, como é o caso, de assuntos que não são da sua conta enquanto agentes partidários. Precisa o senhor Seguro de desviar as atenções da opinião pública da confusão reinante na casa que ainda lidera? Precisa. Ė da natureza do seu partido que o senhor Jerónimo de Sousa capitalize todos os trocos que encontra? É. Impõe-se ao partido do senhor João Semedo fazer prova de vida de hora a hora considerando o estado crítico em que se encontra? Impõe.

Percebem-se as intenções. O que não se percebe é que com a pulverização de acusações ao governo, algumas delas atiradas sem olhar quaquer alvo, estejam os da oposição a minimizar as medidas realmente críticas que o governo tomou ou se prepara para tomar.

Friday, July 04, 2014

O VALOR DAS COISAS

Ia a subir a Rua do Alecrim, estava adiantado em tempo, entrei num dos antiquários para gastar algum. Durante os cinco, dez minutos, em que percorri o olhar pelas estantes de livros e pelas poucas peças expostas, um cliente, octogenário, pelo menos, de corpo franzino, cabelo raro e branco, de indumentária clássica, colocou em cima do balcão uma meia dúzia de livros de aspecto bastante coçado. Quando deu por terminada a colheita, pediu a conta e mandou embrulhar. São dez euros, ouvi dizer ao vendedor, ao mesmo tempo que lhe enfiava as obras num saco de plástico branco. Cumprimentaram-se, o cliente saiu, e eu, obrigado, bom dia, saí pouco depois.

Já na rua, reparei que o comprador olhava encantado para o interior do saco. Que livros teria comprado, não sei. Pelo preço pago seriam monos que o dono do estabelecimento terá ficado satisfeito de ver pelas costas. Pela satisfação estampada na cara do ancião, calculo que ele teria pago muito mais se o vendedor tivesse podido avaliar o tamanho do seu interesse.

Há uns bons anos atrás, aconteceu-me precisar de um livro que fazia parte de uma colecção editada pelo então INII (Instituto Nacional de Investigação Industrial). Estava esgotadíssimo. Procurei-o em todos os alfarrabistas da cidade, sem sucesso. Um dia, ao atravessar a rua em direcção ao restaurante onde costumava almoçar, reparei que, do outro lado, um pouco abaixo, à direita, havia um atado de vários livros, coisa que, vim a saber depois, pesava cerca de 20 quilos, e, no topo, o famigerado livro, novinho em folha, que eu procurara durante semanas em vão. Pertencia o lote a um pobre homem que ganhava a vida a recolher papeis velhos para reciclagem, que não demorou a aparecer.

- Pode vender-me esse livro?
- Qual deles?
- Esse, esse que está mesmo em cima.
- Esse só, não vendo.
- Então?
- A vender, vendo-os todos.
- Hum! Não preciso de todos. Só preciso desse.
- Percebo. Mas eu ou os vendo todos ou nenhum.
- E quanto me custariam todos?

O homem pegou no fardo pela corda que o abraçava, flectiu o braço duas vezes a avaliar-lhe o peso e disse, - São vinte e cinco tostões, não vendo por menos. 
Dei-lhe mais. Para quem não esteja identificado com a moeda da transacção, vinte e cinco tostões era a designação popular de dois escudos e cinquenta centavos. Um almoço aceitável, num restaurante popular, naquele tempo, custava cerca de trinta escudos.

Thursday, July 03, 2014

ESPÍRITO SANTO DE ORELHA

Hoje, dois comunicados da PT sobre os empréstimos à Rioforte: um, publicado de manhã. a pedido da CMVM, divulgando um comunicado da "Oi", que remata:  

"A Oi não foi informada, nem participou das decisões que levaram à realização das aplicações de recursos em questão, que foram realizadas anteriormente à subscrição e integralização do capital da Oi pela Portugal Telecom."
outro, divulgado agora, defendendo que 
"a PT ... que, tendo sempre prestado à Oi S.A. (“Oi”) toda a informação por esta solicitada, está fortemente empenhada na resolução desta questão. Neste sentido, a PT está a prestar todo o suporte à Oi nas diligências necessárias para garantir à Oi a máxima proteção da aplicação de tesouraria em papel comercial da Rioforte. A PT está convicta de que as várias partes, PT, Oi e GES, serão capazes de encontrar as soluções adequadas para proteger os interesses dos acionistas da PT e da Oi."   

Parece que os senhores Henrique Granadeiro, Presidente do Conselho de Administração e Presidente da Comissão Executiva, e Luís Pacheco de Melo Administrador Executivo, Chief Financial Officer, estão em apuros. Porque, claramente, a sua resposta não responde às acusações da "Oi". Por onde andará o senhor Zeinal Bava no meio de tudo isto? Num grupo de telecomunicações é absurdo pensar que não tenham falado uns com os outros por falta de meios de transmissão de informações. 

Aparentemente, o senhor Granadeiro terá sido mal aconselhado pela sua devoção ao Espírito Santo. Aos profundamente devotos acontece, por vezes, ficarem desiludidos com certas impotências dos seus santos.
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Comunicado  |  Lisboa  | 3 de julho de 2014 Facto relevante divulgado pela Oi
A pedido da CMVM, a Portugal Telecom, SGPS S.A. (“PT”) informa sobre o facto relevante divulgado pela Oi, S.A. (“Oi”), de acordo com o documento da empresa em anexo.    
 
OI S.A. CNPJ/MF Nº 76.535.764/0001-43 NIRE 33.30029520-8 Companhia Aberta 
FATO RELEVANTE
Aplicações Financeiras - Portugal Telecom
Oi S.A. (“Oi” ou “Companhia”, Bovespa: OIBR3, OIBR4; NYSE: OIBR e OIBR.C), conforme o disposto no art. 157, §4º da Lei nº 6.404/76 (“Lei das S.A.”) e na Instrução CVM nº 358/02, informa aos seus acionistas e ao mercado em geral, que teve conhecimento de comunicado  (http://www.telecom.pt/InternetResource/PTSite/ PT/Canais/Investidores/Pressrel/Noticias/2014/COM30JUN2014.htm) divulgado pela Portugal Telecom, SGPS, S.A. (“Portugal Telecom”), relativamente à aplicação de recursos da Portugal Telecom em papel comercial da Rio Forte Investments S.A. (“Rio Forte”), sociedade integrante do grupo português Espírito Santo (“GES”), além de matérias jornalísticas divulgadas sobre o assunto.
Segundo o citado comunicado:
“A PT subscreveu, através das então subsidiárias PT International Finance BV e PT Portugal SGPS SA, um total de 897 milhões de euros em papel comercial da Rioforte com uma remuneração média anual de 3,6%. Todas as aplicações de tesouraria em papel comercial da Rioforte atualmente em carteira têm vencimento em 15 e 17 de julho de 2014 (847 e 50 milhões de euros, respectivamente). As operações de tesouraria são realizadas num contexto de análise de várias opções de investimento de curto prazo disponíveis no mercado, tendo como referência a atratividade da remuneração oferecida, e têm acompanhamento e são sufragadas pela Comissão Executiva.  (...)
A esta data o montante total de aplicações em papel comercial do GES ascende a 897 milhões de euros, relativo ao investimento em papel comercial da
Rioforte. Desde 28 de abril de 2014 não foram realizadas quaisquer aplicações e / ou renovações deste tipo de investimentos. Adicionalmente, nesta data a PT International Finance BV e a PT Portugal SGPS SA mantêm depósitos bancários junto do BES num total de 22 milhões de euros e a Portugal Telecom, SGPS, S.A. depósitos bancários de 106 milhões de euros. Os valores acima representam a totalidade da exposição ao GES/BES.”  

A Oi não foi informada, nem participou das decisões que levaram à realização das aplicações de recursos em questão, que foram realizadas anteriormente à subscrição e integralização do capital da Oi pela Portugal Telecom.
A Oi já solicitou esclarecimentos adicionais à Portugal Telecom, analisará as informações recebidas e tomará as medidas necessárias à defesa de seus interesses, mantendo os seus acionistas e o mercado informados sobre as evoluções acerca do assunto. 
Rio de Janeiro, 2 de Julho de 2014. 
OI S.A. Bayard De Paoli Gontijo Diretor de Finanças e Relações com Investidores
 
Comunicado  |  Lisboa  | 3 de julho de 2014 Esclarecimentos adicionais relativos a aplicações de tesouraria 
Na sequência do press release da Portugal Telecom, SGPS, S.A. (“PT”) divulgado em 30 de Junho de 2014 relativo às notícias veiculadas na comunicação social relacionadas com a aplicação de tesouraria em papel comercial da Rio Forte Investments S.A. (“Rioforte”), sociedade do Grupo Espírito Santo (“GES”), a PT vem informar que, tendo sempre prestado à Oi S.A. (“Oi”) toda a informação por esta solicitada, está fortemente empenhada na resolução desta questão. 
Neste sentido, a PT está a prestar todo o suporte à Oi nas diligências necessárias para garantir à Oi a máxima proteção da aplicação de tesouraria em papel comercial da Rioforte. 
A PT está convicta de que as várias partes, PT, Oi e GES, serão capazes de encontrar as soluções adequadas para proteger os interesses dos acionistas da PT e da Oi.   
Henrique Granadeiro Presidente do Conselho de Administração e Presidente da Comissão Executiva 
Luís Pacheco de Melo Administrador Executivo, Chief Financial Officer

LOCKE

Um filme excepcional. A não perder.
*****         

Wednesday, July 02, 2014

O VALOR DAS COISAS

"As coisas valem o que dão por elas", nem mais nem menos.
Num leilão realizado hoje pela Christie´s de Londres "My Bed", de Tracy Emin, foi arrematada por 2,2 milhões de libras, mais de 3 milhões de euros. 



"My Bed", criada em 1998, foi incluida na "shortlist" de obras concorrentes ao Turner Prize para jovens artistas britânicos em 1999. Não ganhou o prémio mas ganhou notoriedade que persiste. Encontrava-me em Londres, na altura, e dei um salto à Tate Gallery. No espaço da exposição, destacava-se pelo número de observadores à sua volta, uma cama desfeita, marcada por nódoas denunciantes de múltiplas e variadas fornicações, preservativos, cuecas com manchas de menstruação, drogas, seringas, comprimidos, e outros lixos.  À saída fiz-me a pergunta imberbe: Que faria eu com uma porra daquelas se ela me calhasse numa rifa? Charles Saatchi, sponsor do Young British Artists (YBAs) adquiriu a cama por 150 mil libras e instalou-a num quarto em sua casa. Mudou hoje de mãos por vinte vezes mais. Três milhões de euros equivale a uma acumulação mensal de cerca de 5555 euros de poupanças mensais durante 45 anos, o espaço de tempo normal de trabalho de um indivíduo bem remunerado. À redundância de que "as coisas valem o que dão por elas" pode juntar-se uma outra: há gente que vale muito e depressa. As transmissões do mundial deste ano são frequentemente ilustradas com os valores fabulosos porque foram ou esperam ser vendidos os craques da bola. Não poucos deles valem mais do que uma dúzia de "My Bed". 
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Noutra igualmente badalada obra de Emin Tracy, Everyone I Have Ever Slept With 1963–1995, a artista colocou dentro de uma tenda de campismo os nomes de todos aqueles com quem terá dormido desde 1963 (ano em que nasceu a 3 de Julho, faz amanhã 51 anos) até 1995, ano em que deu à luz a tenda.
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No mesmo leilão da Christie´s foram ainda vedetas "Gran ocra amb incisions" de Antoni Tàpies, por mais de dois milhões de euros, constituindo um record das obras do artista em leilão, e "Study for Head of Lucian Freud' de Francis Bacon, vendida por mais de 14 milhões de euros!

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Fora deste leilão, ocorre-me repetir neste caderno, uma obra mural sobre a imoralidade que já coloquei há uns dias atrás.


Tuesday, July 01, 2014

À PESCA COM MINHOCA PODRE*

Senhor Provedor,

Enviei-lhe há dias um resumo de diálogos com pessoas dos vossos "call center", que diga-se em abono da verdade são na generalidade cortezes no atendimento e percebe-se bem que cumprem as regras fixadas por quem lhes paga, relativamente aos esclarecimento de várias questões, que não considerei cabalmente esclarecidas e aguardo agora que me enviem cópia integral do contrato que assinei em Fevereiro de 2013 e de que, vim a constatar recentemente,  foi-me entregue uma cópia incompleta.

Recebi poucos dias depois da parte do senhor provedor um telefonema que procurou, de modo pouco consentâneo com o respeito que os clientes lhe devem merecer, repetir aquilo que dos "call center" me haviam dito. E boa tarde, tive que lhe lembrar que, pelo menos, deveria apresentar desculpas pelos transtornos causados. E, só então, lamentou o sucedido.

Ontem recebi uma carta laudatória dos vossos serviços informando-me que não poderiam confirmar pelas gravações o que eu transmiti por escrito porque
"apenas" 5% das comunicações são gravadas ...", apesar de na mensagem inicial de cada chamada atendida ser referido  que "por razões de ... a chamada será gravada." Uma contradição evidente que decidi não valorizar e arquivei o escrito.

Hoje recebo uma circular informando que vou passar do M4O para o M5O, com vantagens várias,
rematadas com um "cheque-desconto" de 150 euros em compras a realizar em lojas MEO até ao fim deste ano e, sumidamente, no verso do "cheque-desconto"
que a utilização deste "pressupõe que ...o cliente permaneça com o serviço actual activo durante o período de 24 meses".

Como a diferença entre o MEO e a concorrência NOS, para serviços comparáveis, é de 25 euros por mês, trocado por miúdos, quem subscreve a carta, ou quem lhe mandou subscrevê-la, oferece-me uma compensação de seis meses em troca  de um compromisso de pagar mais 25 euros durante dezoito meses. Isto é, recebo 150 em material da casa se aceitar pagar 450 em notas do BCE.

Por que razão nos tomam a todos, senhor provedor, tão descaradamente por ignorantes?
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*Enviado para aqui
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Act. - Telefonema da parte do procurador argumentando que a proposta da PT é geral, para todos os clientes M4O, e só aceita quem quer. Muito elucidativo, portanto.

Monday, June 30, 2014

ACERCA DA APROPRIAÇÃO FINANCEIRA

O Economist publicou esta semana um vídeo  - Heads they win - sobre a evolução da participação do sector financeiro no PIB em quatro países: Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos da América nos últimos cinquenta anos. A progressão em cada um dos países observados é impressionante mas das tendências contidas num intervalo relativamente estreito destaca-se o sprint do Reino Unido nos últimos dez anos.  

O cálculo do PIB tem muito que se lhe diga. Em princípio, idealmente a finalidade da avaliação do PIB seria a medição da riqueza produzida por uma nação, um grupo, ou a totalidade delas. De facto o PIB mede o valor da riqueza adquirida por uma nação, uma sociedade, ou um conjunto delas, e só no valor total se iguala a riqueza produzida à riqueza adquirida. É um conceito económico desprendido de qualquer restrição moral, que agora até acolhe actividades não só moral como legalmente condenáveis. 

Entre produção e apropriação de riqueza já tudo foi dito ainda que quase tudo continue discutível. Indiscutível, no entanto, é a evidência de que a riqueza registada em nome dos agentes financeiros, mesmo desconsiderando a legitimidade dos meios como foi obtida, tinha, na generalidade dos casos, a consistência das areias movediças. Entre nós, lamentavelmente, são poucos os casos que, pelo menos por enquanto, se podem considerar escapados à vaga de escândalos em que se atascou o sistema. 

À escalada da progressão financeira correspondeu a progressão generalizada da desindustrialização ocidental. A excepção mais notável é a Alemanha. Não por acaso, é Frau Merkel Frau Europa.



Sunday, June 29, 2014

MORDEI-VOS UNS AOS OUTROS

O craque uruguaio ferrou o dente no ombro do defesa italiano, e, por ser reincidente, foi suspenso por nove jogos, banido por quatro meses de qualquer atividade relacionada ao futebol, ficando fora dos jogos restantes do campeonato mundial de futebol. Que, afinal, foi apenas um, o de ontem, por ter a equipa uruguaia tombado perante a colombiana nos oitavos de final. De regresso forçado a Montevidéu foi recebido como herói nacional pela população, felicitado pelo Presidente da República e pela classe política uruguaia em geral.

Mordeu, na oportunidade, o presidente uruguaio nos juízes da FIFA acusando-os de terem penalizado pesadamente o herói por este não ter frequentado a universidade ... Uma acusação que só pode entender-se como subtil chalaça sarcástica considerando que, se Suárez tivesse tido a oportunidade de frequentar a universidade, poderia ser hoje craque noutra arte qualquer, onde, se mordesse, morderia de outro modo, mas muito provavelmente não seria o craque de futebol que se regala de vez em quando a morder adversários, e paga por isso.
Vista como subtileza, a tirada do presidente uruguaio, exemplifica-se a cada passo, a cada virar da esquina, aqui e em qualquer parte do mundo, já que morder, qualquer que seja a acepção de uma palavra tão multi significante, é instintivo na condição humana. Sem ir mais longe nem recuar no tempo atente-se, por exemplo, nos casos públicos,  nas mordidelas a que assistimos ininterruptamente entre políticos, com destaque actual para aquelas com que mimoseia o senhor Seguro o senhor Costa, e vice-versa. Não tivessem eles passado pela universidade e, Mujica dixit, já cada um teria uns quilitos a menos. Sem intervenção da FIFA.

Friday, June 27, 2014

BÊBADO E PERIGOSO

"Jean-Claude Juncker é perigoso, bêbado, anti-britânico, arqui-eurofederalista, o pai foi recrutado pela Wehrmacht.  É assim que em caricatura - vd. aqui - a imprensa britânica vê Jean-Claude Juncker, o ex-primeiro ministro luxemburguês que os líderes da União Europeia (UE) escolheram hoje como próximo presidente da Comissão Europeia, uma escolha que será sujeita à votação do Parlamento Europeu no próximo dia 16 de Julho. "Tudo indica que os  primeiros-ministros do Reino Unido e da Hungria, David Cameron e Viktor Orban, foram os únicos que se opuseram à escolha do ex-primeiro-ministro do Luxemburgo, por causa das suas convicções marcadamente federalistas. - cf. aqui".
 
Para Cameron a nomeação de Juncker poderá precipitar a saída do Reino Unido da UE.  
Mas são desculpas de mau pagador. Cameron sabe que o apoio, decisivo, de Merkel, ou a sua não oposição, à nomeação de Juncker, é praticamente inócuo para o futuro próximo da UE. O senhor Juncker será federalista quanto a chanceler alemã e os seus aliados do norte lhe consentirem. Se, realmente, a presidência da Comissão Europeia tivesse capacidade suficiente para conduzir os destinos da UE, quem se candidataria ao lugar seria Merkel e não um qualquer segundo plano da elite política europeia.

Cameron sabe que se não quiser ou não puder estancar o crescente populismo, que se alimenta de um eurocepticismo que não é mais que um travesti de nacionalismo, o referendo justificará os seus propósitos de abandonar a UE. O senhor Juncker nada atrasará nem adiantará quanto ao assunto. Nem quanto a todos os outros realmente relevantes. Bêbado, ou não, não sei. Perigoso, pelas acusações britânicas, não será, até porque não pode.

Thursday, June 26, 2014

AQUELA RUA

Aquela foi a rua da minha infância feliz, despreocupada. Aos quatro, cinco anos, saía de casa dos avós, à tardinha, e ia até nossa casa, a um quilómetro de distância. A avó recomendava-me "vai sempre pela bordinha", que, naquele tempo, queria dizer caminhar pela berma direita da rua. O trânsito era reduzido e lento, a minha confiança ilimitada. Tanto, que um dia olhava para uns telheiros derrubados de uma velha vizinha, que morava no outro extremo da aldeia, e perguntei-lhe por que razão não arranjava ela os muros caídos. Respondeu-me, sorrindo, sempre a conheci com um sorriso no rosto rosado, que não tinha dinheiro para as obras. Eu já tinha ouvido que o homem dela tinha emigrado para a Venezuela, soube mais tarde que trabalhava no porto de La Guaira, deixando-lhe a responsabilidade de criar e educar quatro filhos menores. Após um ou dois meses de espera por notícias, começaram a chegar alguns parcos dinheiros para sustento da casa num fluxo irregular que secaria três ou quatro anos depois. Na altura, era tanta a minha ingenuidade quanta a curiosidade, à resposta da velha senhora (deveria ter ela, então, quarenta e poucos anos...) correspondi eu com uma garantia de peso.
- Eu arranjo o dinheiro!
Ela deu uma gargalhada, e, naturalmente, quis saber onde iria eu desencantar os recursos. Mas eu tinha fisgado toda a estratégia e respondi de imediato:
- Vou à Venezuela!
 Nova gargalhada.
- À Venezuela? Que vais tu fazer à Venezuela?
- Vou ter com o seu homem e pedir-lhe o dinheiro para as obras.
- Boa!, disse ela. E como vais tu até à Venezuela, meu querido?
- Vou sempre pela bordinha.

Hoje, sempre que passo por aquela rua, desperta-se-me a curiosidade e a ingenuidade dos meus cinco a olhar as casas caídas, abandonadas.
- Quantas pessoas habitam ainda aqui?
- Deste lado da rua, somos sete. Daquele lado, há um casal de velhos, aqui em frente mora F., mas está acamada, ali mais para cima já não mora ninguém. Ao todo já não chega à dúzia.
- Mas há muita construção nova, não há?
- Muita, não digo. Alguma há, mas nos extremos da terra. As pessoas não querem casas velhas e constroem fora daqui, onde há terrenos à venda.
- E, no entanto, há aqui casas que foram casas boas... Com quintais bem bonitos ...
- Então, não há?! A melhor de todas é essa aí em cima, um palacete abandonado há dezenas de anos.
- Pertenceu, não sei se ainda pertence, a um senhor que foi presidente da Assembleia da República.
- Nunca o vi por cá.
- E aquelas duas, ali?
- Aquelas duas estão encravadas com problemas de partilhas. Uma situação que não devia acontecer.
- Pois não. Deveriam os herdeiros ser obrigados a resolver a partilha da herança dentro de um prazo razoável, um ano deveria chegar, se o não fizessem deveriam os prédios ser vendidos pelos tribunais a quem mais desse e distribuido o produto da venda, deduzidos os custos da intervenção oficial, a quem provasse ter direito a ele.
-  Ui! Ui! Nessa não caem eles. Já não dão conta dos recados que agora têm. E daria trabalho sem dar votos.
-  E aquela, ali em baixo, a quem pertence agora?
- Foi comprada por um comerciante de móveis aqui há uns anos atrás. Comprou aquela e a outra ao lado. Disse-se na altura que iria ali construir uns armazéns. Mas não fez nada.
- E não há quem esteja interessado naquelas casas?
- Talvez. Mas parece que o dono actual não está interessado em vendê-las. Pelo menos é o que consta.
- Por quê?
- Sabe-se lá porquê!
-  E parece-lhe bem?
- Parece-me mal. Quem não habita deveria deixar habitar. Haverá sempre quem esteja interessado. Tudo depende das condições. Falam tanto em reabilitação urbana e veja o que por aí vai. É horrível que nos condenem a viver entre ruínas.
- Aquela que foi a principal rua da aldeia é hoje a rua mais abandonada da vila, porque agora a aldeia passou a vila, sabia?
- Sei, então não sei?! Caganças é o que não falta na nossa terra. 

Wednesday, June 25, 2014

AS MONTANHAS E OS RATOS

- Não me demito! afiançou esta tarde Paulo Bento durante uma conferência de imprensa com a presença de Pepe, que, por sua vez, acredita em milagres e deposita as suas esperanças milagreiras nos jogos de amanhã. 

O futebol não é um tema que me agrade discutir, mas sei que os sucessos ou insucessos dos profissionais, seja de que área de actividade for, se avaliam pelos resultados. E os resultados da sua intervenção, se melhoraram relativamente ao período anterior, foram medíocres durante a fase de apuramento para o mundial, qualificando-se (pela terceira vez) in-extremis num playoff discutido, desta vez, com a Suécia. Apesar dos adversários reconhecidamente menos qualificados do grupo das eliminatórias da Europa, consentiu um empate com a Irlanda do Norte, no Porto, e dois empates com Israel,  em Telavive e em Lisboa. 

Considerando a irregularidade durante a fase de qualificação, ouviu-se o comentário de que "a equipa sempre fez melhor nos campeonatos do que nas fases de qualificação". Não, desta vez. A equipa está fisicamente arrasada e o milagre em que Pepe, certamente com pesados problemas de consciência, quer acreditar, não vai acontecer. Culpa do treinador? Paulo Bento já se assumiu responsável único pelo desastre. O que é incompreensível é que sendo ele tido por um homem frontal seja peremptório na recusa sequer de colocar o seu lugar à disposição dos responsáveis federativos. Paulo Bento não é um treinador qualquer. Segundo notícias vindas a público ele é o 12º. treinador mais bem pago do mundo. Porquê? Os portugueses merecem uma explicação já que a FPF é beneficiária de contribuições pagas com os impostos pagos pelos contribuintes.
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À volta das notícias que têm sido publicadas acerca da situação em que se encontra o Grupo Espírito Santo, alguns comentadores minimizam os resultados hoje conhecidos remetendo para o mérito de Ricardo Salgado na reconstituição do grupo familiar após a reprivatização e o crescimento que lhe imprimiu depois. Mas esplendores banqueiros foi espectáculo que não faltou neste país durante mais de duas décadas, montados por Jardim Gonçalves, Horácio Roque, Santos Silva, Oliveira e Costa, João Rendeiro, entre outros. Os resultados, são os mais ou menos conhecidos. De todos, só a dupla Santos Silva/Ulrich, se resvalou, não caiu.
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Correl. - Avião que vai trazer a selecção de volta

Tuesday, June 24, 2014

O GRANDE KILAPI

Há dias os jornais noticiaram que não tendo Ricardo Salgado obtido o apoio do governo português para obter um empréstimo de 2,5 milhões de euros, tanto quanto precisa para resolver a insolvência do segmento não financeiro do grupo, junto da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, teria voado para Luanda à procura desses meios. E mais não se sabe.

E, no entanto, as relações financeiras entre os dois países nunca foram tão intensas como hoje. O que se passa em Angola passou a ser muito relevante para Portugal considerando o fluxo de investimentos financeiros de angolanos no nosso país. A inversa já é menos evidente. Em todo o caso o vôo  a Luanda do ainda presidente do BES confirma que é pela normal interconexão de interesses particulares entre personalidades dos dois países que se suporta a crescente interdependência económica entre Portugal e Angola.

Nada de anormal se dessa interconexão não resultarem efeitos colaterais negativos para os povos de um lado e de outro e infectarem as relações entre os dois povos. A propósito, recebi hoje via e-mail  um artigo publicado em  "Rede Angola" - "O Grande Kilapi", interessantíssimo na forma como revela um caso onde a sugestão de um palalelismo com o que se passou em Portugal não passa despercebido mesmo ao leitor menos atento.

Transcrevo parte, mas o artigo merece uma leitura inteira:

 "Foi notícia muito recentemente que o BESA (Banco Espírito Santo Angola), a sucursal local do BES (Banco Espírito Santo) foi desfalcado em cerca de 525 milhões de dólares, que são simplesmente um décimo dos 5,7 mil milhões de dólares que o banco emprestou sem proceder ao registo de quem recebia estes valores". ... "O capital vem do estrangeiro, ou pelo menos é de um banco estrangeiro. É, portanto, dinheiro privado. É emprestado a privados também. Mas, os valores não são devolvidos (pela simples razão de que os funcionários do banco nem sequer se deram o trabalho de registar os nomes das pessoas a quem se emprestava dinheiro). E aí o Estado entra. Parece que o Estado está a salvar o banco, e com isso salvar a economia angolana. Mas o que se passa na verdade é uma transferência de capitais do Estado para privados, através de intermediação de capitais estrangeiros. Ainda não temos uma bolsa de valores, mas já fazemos parte da grande finança internacional".



Monday, June 23, 2014

VIRA O DISCO

Num comunicado divulgado hoje, disponível aqui*, "os CTT – Correios de Portugal, S.A. (“CTT”) informam sobre a intenção de formalizar o acordo de parceria com o BNP Paribas Personal Finance (Grupo BNP Paribas) para distribuição de produtos de crédito ao consumo, no âmbito do Memorando de Entendimento (MOU) assinado em 8 de maio de 2014." A avaliar pelo comportamento ascendente das acções em bolsa, num dia de queda generalizada, os accionistas parecem apreciar o acordo anunciado.

Tanto a Cetelem como a Cofidis, ambas filhas do mesmo progenitor, o BNP, já estão há vários anos muito activas no mercado português no negócio da concessão de crédito pessoal a quem terá dificuldade em pagá-lo. São estúpidos? Não devem ser, mas é difícil compreender que alguém que saiba fazer contas e conte pagar o que deve contraia empréstimos junto da Cofidis a taxas de juro de TAEG 10,5%, após "análise da capacidade financeira"ou da Cetelem, a uma "ótima (!) taxa para os seus projetos: TAN desde 8,90% e TAEG desde 10,7%. Crédito remodelações, crédito electrodomésticos, crédito mobiliário"
Nos EUA esta prática ficou conhecida por "subprime" e os "produtos" a que deu origem causadores da crise iniciada em 2008, depois de descoberta a marosca, foram considerados tóxicos e a factura da mixórdia apresentada para pagamento, de um modo ou de outro, aqueles que não foram vistos nem achados no enredo da moscambilha.

Já está toda a gente esquecida disto?
Nos EUA, ninguém o ignora, os contratos "subprime" foram embrulhados (securitizados, dizem os especialistas no bródio) em papel baço e atados com fitas actrativas, e vendidos  através de  "fundos de investimento" por todo o mundo. Estarão os CTT a preparar-se para participar num esquema idêntico? E quantos estarão neste mundo  a virar o disco e a tocar o mesmo, já que não é crível que sejam os CTT pioneiros na matéria? 

O que disse o Banco de Portugal, por onde certamente passou o licenciamento do negócio?
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* Nova comunicação aqui