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Thursday, July 10, 2014

DIVINO ESPÍRITO SANTO

- Então,  e quando é que voltam para o Continente?
- Quinta-feira, dia 10.
- Fazem mal ... Deviam ficar mais uma semana. As Festas do Divino Espírito Santo começam precisamente na quinta-feira. É uma alegria. Nós vimos cá para as festas por esta altura todos os anos. Pagamos uma entrada, este ano ainda não sabemos quanto vai ser, mas podemos comer de tudo e quanto nos apetecer!
- E onde é que vivem?
- Nós vivemos em Toronto, no Canadá, há quase trinta anos; estes meus amigos em Westport River, Rhode Island...
E os senhores, estão a gostar dos Açores?
- Estamos a gostar muito.
- É a primeira vez?
- Estivemos cá há trinta e dois anos. Tinham naquele tempo os nosso filhos a idade que têm agora os nosso netos.
- E do que gostaram mais até agora?
- Da natureza. É uma maravilha.
- Muito melhor que a Madeira, não é? Só não temos casinos ... mas também não fazem cá falta, não senhor.
- Para nós, é uma maravilha incomparável. 
- Bom peixe ...
- Óptimo. 
- E o que é que já comeram?
- Até agora, garoupa, albacora, peixão, chicharro, no continente chamamos-lhes carapaus ...
- Aqui, o carapau é um goraz pequeno. Depois é peixão, e só depois goraz. Mas o que lhe recomendo é um enxaréu no forno. É uma maravilha. 
- Hoje vamos ao cozido nas furnas ...
- Fazem bem. Os restaurantes fazem o cozido em panelas, fica mais suado, eu faço-o num saco, fica mais enxuto, fica melhor. Fique cá mais uns dias e vai lá a casa comer um cozido feito por mim.
- Obrigado mas não vai ser possível.
- Quais foram as maiores diferenças que encontrou passados trinta e tal anos?
- A natureza é a mesma, espectacular, grandiosa demais para ser descrita. O que mais nos surpreendeu foi, no entanto, a rede de estradas e vias rápidas ...
- Uh!Uh! Agora vai-se a toda a parte numa hora onde dantes se gastava um dia. 
- E as casas. São raríssimas as casas degradadas, e encantou-nos a variedade de cores com que cada um pinta a sua habitação. Pintam todos os anos?
- Bem, todos os anos, acho que não. Mas com alguma frequência, sim.
- Os portugeses do Continente deveriam aprender com os açoreanos a conservar as casas e a cuidar do ambiente. Nesta altura do ano, São Miguel é um jardim de ponta a ponta. Vêm-se, sobretudo, hortênsias e agapanthus ao longo de quase todas as estradas.
- Mau mesmo só o serviço da SATA. Por causa da SATA é que o turismo não se desenvolve. Quem é que pode pagar as passagens aos preços que estão?
- Protestem.
- Oh senhor, fartamos-nos de protestar e é o mesmo que nada...
Está-se aqui bem, nesta piscina de água férrea. Venho aqui todos os anos. Vir a São Miguel e não entrar nesta piscina é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
-  É também o que me acontece quando lá vou.
- Pois fica a perder duas coisas imperdíveis: as festas do Divino Espírito Santo e estas águas férreas que são um regalo.
- Fica para a próxima.
- Daqui a outros trinta anos, não.



Wednesday, July 09, 2014

SATA

Aeroporto de Lisboa

- Bom dia! Pode dizer-me, por favor, para que horas está agora
 prevista a saída do vôo de Boston que deveria chegar às sete e 
trinta desta manhã a Ponta Delgada?
- A previsão é que saia às quatro da tarde e chegue às nove e 
trinta da noite.
- Quatro da tarde em Boston ou Ponta Delgada? Como entre 
Boston e Ponta Delgada há uma diferença fuso horária de quatro 
horas talvez haja confusão com as horas, não? Ontem recebemos 
informação que o avião saía hoje de Boston ao meio dia ...
- Não. Vai sair às quatro da tarde.
- Desculpe-me mas há na sua informação incompatibilidade entre
 a hora da saída e a hora de chegada: se o vôo sai às quatro, hora 
de Boston, sai às oito horas de Ponta Delgada. Se sai às oito 
de Boston ...
- Não sai às oito, sai às quatro.
- Às quatro de Boston são oito em Ponta Delgada ...
- Pois são.
- Portanto, ou não sai às quatro horas de Boston ou 
não vai chegar às nove e trinta a Ponta Delgada ... não lhe parece?
- A mim não me parece nem deixa de parecer. Estou a dar-lhe a 
informação que tenho disponível neste papel, que para mim conta
 como se fosse a Bíblia ...
- Já percebi. Fico é sem saber a que horas vai chegar o 
avião que deveria aterrar em Ponta Delgada às sete e trinta 
da manhã mas foi cancelado, e depois anunciada a saída 
hoje ao meio dia de Boston ... Aconteceu o mesmo a uns 
familiares nossos há duas semanas atrás. E, naturalmente,
 ficamos preocupados.
- Não percebo porquê ...
- Pois se não percebe também não vou conseguir 
fazer nada por si. Posso falar com o seu supervisor?
...
- Qual é o seu problema?
- Quero saber para que horas está prevista a chegada
 a Ponta Delgada do vôo procedente de Boston, que deveria 
ter saído às vinte e duas horas de ontem e foi cancelado ...
- Não foi cancelado, foi adiado catorze horas.
- Então sai hoje de Boston a que horas?
- Ao meio dia.
- Muito bem. Sugiro-lhe, então, mande rectificar a informação 
escrita que entregaram às suas colegas.
- Mais alguma questão?
- Qual a razão destes repetidos cancelamentos, 
ou atrasos como lhes chama? A uns familiares meus aconteceu 
precisamente o mesmo há cerca de duas semanas. 
- A razão está na falta de pessoal ... Se um vôo se atrasa, o pessoal 
não tem tempo de descanso para retomar o serviço 
de volta dentro do horário ...
- Agora entendi. As suas colegas, segundo me foi dado perceber, 
foram dadas instruções para justificar os atrasos com a pouca sorte. 
A culpa não deve ser delas mas de quem as chefia, suponho.
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A bordo do avião do vôo Lisboa Delgada

Costuma fazer serviço até Boston?
- Sim senhor. Geralmente duas vezes por semana ... Mas por que 
é que pergunta?
- Porque sei que têm havido ultimamente vários cancelamentos 
de vôos. Ontem, voltou a acontecer. Sabe por quê?
- Sei, sei, razões técnicas ...
- O que é isso?
- Problemas de manutenção ...
- Com essa você assusta-me ... No aeroporto ouvi dizer que a razão 
está na falta de pessoal ...
- Também, também, são as duas coisas ... Manutenção e falta de 
pessoal. Mas nenhum piloto inicia um serviço sem estar consciente 
de que a aeronave está em perfeitas condições para viajar.

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Em Ponta Delgada

- V., que são passageiros frequentes da SATA, qual é a vossa opinião 
acerca dela?
- Péssima!
- Péssima!
- Péssima!
- É um monopólio, faz o que quer.
- O ano passado deu 16 milhões de prejuízos ao governo 
da Região.
- Os bilhetes entre o Continente e os Açores são caríssimos.
Eu tenho três filhos ainda crianças, entre os cinco e os dois anos, 
se vamos ao Continente os cinco, pago 1200 euros só pela viagem.
 Quem não se pode queixar são os juízes e outros quadros do 
Ministério da Justiça que têm direito a uma passagem 
gratuita anual, para o próprio e familiares. A política 
de transportes aéreos nos Açores está completamente errada, 
sujeita a desígnios meramente políticos. 
Desde logo porque a SATA tem o monopólio, 
nenhuma outra companhia pode aqui operar. Depois é absurdo 
fazer transportes em aviões Airbus para cinco aeroportos 
do arquipélago. 
Os vôos entre as ilhas deveriam ser feitos com os aviões 
pequenos e os vôos de longo curso apenas a partir de São Miguel. 
Mas a demagogia faz as contas de outro modo e os resultados
 operacionais e económicos são desastrosos.
- Mas isto prejudica os Açores...
- Sem dúvida. Mas o que é curioso é que toda a gente 
tem as suas razões: 
desde logo as tripulações, que têm direito aos tempos de descanso 
estipulados na lei, sobretudo por questões de segurança, 
os residentes, os imigrantes, os turistas, pela sensação de 
desorganização e insegurança, pelos atrasos e cancelamentos, 
pelos preços elevadíssimos sobretudo entre os Açores e o Continente,
 os contribuintes pelos prejuízos. 
- Então, que solução?
- A solução natural: privatizar a SATA e abrir o espaço aéreo a todas 
as companhias que se candidatem a operar aqui. Assim é que não.