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Saturday, August 26, 2017

O CALCANHAR DE CENTENO

É a Dívida Pública.

Segundo, aqui,
"O responsável pelas Finanças anunciou (ontem) que "a dívida pública em 2017 reduzirá o seu peso no PIB de 130,3% para 127,7%", objectivo que representa uma revisão em baixa de duas décimas comparativamente com os 127,9% estimados pelo Executivo no PE."

Hoje, em artigo mesmo jornal publicado aqui, a partir dos dados do Banco de Portugal, referentes a Junho, divulgados aqui esta semana, visualizam-se os andamentos mais recentes das dívidas das famílias e das empresas, em baixa, e da dívida pública outra vez a subir. 








Conseguirá Centeno descalçar este par-de-botas e aliviar-nos o calcanhar?
Acredite quem quiser.
Ou sinta obrigação disso. 

Thursday, October 20, 2016

O PARADOXO DO EMPREGO

O facto de os indicadores mostrarem subida de emprego em situação de quase estagnação económica parece estar a causar espanto. Regra geral, dizem, ou diziam, os manuais, é o investimento que promove o crescimento económico, e é este crescimento que cria empregos. De modo que se cresce o emprego em situação económica anémica, pergunta-se porquê.

Se a memória não me falha, a situação inversa - crescimento económico sem crescimento do emprego - baralhava há alguns anos atrás os que se fiavam na lei que supõe regular o crescimento paralelo, ainda que temporariamente desfasado, entre crescimento e emprego. Nessa altura, havia crescimento sem aumento de emprego.

A explicação parece-me relativamente óbvia: a inovação, propulsora da produtividade, impele o crescimento económico, podendo ocorrer aumento do PIB e decréscimo do emprego. 
Inversamente, o retrocesso na produtividade, isto é, a criação de empregos com produtividade média decrescente, impede crescimento económico relevante se o emprego adicional é pouco qualificado.

Monday, August 01, 2016

CHUTAR PARA CANTO EM AGOSTO

Ouço no noticiário das três da tarde que o Banco de Portugal divulgou hoje que a dívida pública voltou a aumentar, situando-se no final do primeiro trimestre deste ano em 240 mil milhões de euros, aumentando pelo quarto mês consecutivo.
E, logo a seguir, o ministro da Economia a desvalorizar o aumento em termos nominais porque, disse ele, o mais importante é a relação entre a dívida e o PIB. 
E disse mais (cito por memória):

"Estamos a trabalhar nos dois lados da equação, promovendo o crescimento para reduzir a dívida, com aumento de investimento. É público que a Fosun* está interessada numa participação relevante no capital do BCP e que o Banco Haitong** está interessado no Novo Banco. O interesse de investidores estrangeiros é uma prova de confiança no futuro do nosso país."- cf. aqui

Pelas minhas contas, a relação entre a dívida e o PIB no final de Junho, deve ter-se situado em 131%.
Em Novembro de 2012, a previsão da trajectória da dívida revista em baixa no sexto exame regular da troica (vd. quadro abaixo - clique para ampliar) apontava para 115,8%. 
Aconteceu há menos de três anos, de nada nos valeu este tipo de investimento financeiro estrangeiro que confiou no nosso país.



"No final do primeiro semestre de 2016, a dívida pública situou-se em 240,0 mil milhões de euros (Gráfico 1), aumentando 2,4 mil milhões de euros relativamente a maio (Gráfico 2). Esta variação no mês de junho reflete principalmente emissões líquidas positivas de títulos (2,0 mil milhões de euros). O crescimento da dívida pública foi acompanhado por uma redução dos ativos em depósitos (0,3 mil milhões de euros), pelo que a dívida pública líquida de depósitos da administração central registou um aumento de 2,8 mil milhões de euros em relação ao mês anterior, ascendendo a 222,0 mil milhões de euros no final do primeiro semestre de 2016." - aqui


Por outro lado, a dívida privada - cf. aqui - ainda que subsistindo a níveis relativamente muito elevados vinha apresentando uma trajectória discretamente descendente. 
Soube-se recentemente, no entanto, - vd. aqui - que a poupança das famílias foi negativa no primeiro trimestre deste ano, uma situação inédita nos, pelo menos, últimos 17 anos. Na origem desta inversão estará o crescimento do consumo e a compra de automóveis. 
Sem os reflexos no crescimento da economia esperados pelo senhor ministro da Economia e companhia.  
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Correl. - (10/08) - Dívida Pública deve ter-se situado entre 131 e 132% do PIB no fim de Junho - aqui

Wednesday, July 13, 2016

IRONIA E REALIDADE

Enquanto Portugal se indigna com a iniquidade das sanções que estão a chegar da União Europeia e o governo português prepara a lista das atenuantes em defesa da redução da pena, os noticiários económicos relatam o espanto dos economistas de todo o mundo pelo crescimento de 26,3% do PIB da Irlanda em 2015. 



Como é que isto aconteceu?
As respostas são unânimes: A baixa taxa de impostos que a Irlanda cobra às empresas (IRC de 12,5%) continuam a atrair cada vez mais multinacionais. - cf. aquiaquiaquiaqui, por exemplo. 

Entretanto, em Portugal a economia continua balbuciante e o sistema financeiro a naufragar, enredado nas malhas rotas que forjou. 


Não de propósito, recebemos hoje de pessoa amiga uma laracha, via e-mail:



"... Os portugueses já podem ser felizes porque têm quem trate das suas coisas ...

- da banca, os espanhóis;
- da electricidade, os chineses;
- dos combustíveis, os angolanos;
- da TAP, os brasileiros e os chineses;
- dos aeroportos e espaço aéreo, os franceses;
- dos correios, os ingleses, os franceses, os alemães e os noruegueses; (os noruegueses também nos tratam do bacalhau, acrescento eu)
- das comunicações, os angolanos e os franceses;
- da moeda, o Banco Central Europeu;
- do governo, a Comissão Europeia;"

A lista está longe de ser completa (ocorrem-me, por exemplo, os holandeses na Sociedade Central de Cervejas (100%) e os dinamarqueses na Unicer (44%).

É a presença do investimento estrangeiro culpada do nosso arrastamento?
É muito óbvio que não, e o exemplo irlandês é a prova concludente do contrário. 
Sem investimento estrangeiro Portugal não conseguirá atingir níveis de crescimento que o desafoguem das águas estagnadas em que mergulhou. Do que Portugal não precisa é de investimento financeiro, improdutivo, aquele que entra para comprar o que existe e cobrar as rendas dos capitais aplicados em actividades de monopólio de facto. 

Observe-se que a Irlanda não oferece apenas taxas reduzidas de impostos às multinacionais. Oferece-lhes também competências. Ao Reino Unido, após o Brexit, presta-se para oferecer-se como relais nas relações financeiras com a UE. 
E, nós, como vamos de competências futuras?

Porquê?  O ministro Mário Nogueira deve saber. 
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Wednesday, December 16, 2015

O QUE FIZEMOS NÓS DOS ÚLTIMOS 15 ANOS?

A recente divulgação do ranking das escolas secundárias provocou os comentários habituais: genericamente, para uns o ranking é um instrumento útil de avaliação, para outros é um instrumento sem precisão  suficiente para dele poderem ser retiradas conclusões fiáveis.  Depende da perspectiva em que assenta o observador. A mim, subsiste-me uma dúvida: por que razão o ensino secundário privado é geralmente melhor sucedido que o ensino secundário público mas o ensino superior público é, com excepção da U. Católica, geralmente melhor sucedido que o ensino superior privado? 

Entretanto um outro ranking, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) anualmente editado pelas Nações Unidas, foi praticamente ignorado. Com uma evolução que, nos últimos 15 anos, se traduziu numa queda da posição de Portugal na 28ª. posição no Relatório de 2002 (indicadores de 2000) para a 43ª no Relatório de 2015 (indicadores de 2014), o ranking é incómodo. E, sendo incómodo, talvez, dirão alguns, seja pouco fiável.   

A edição deste ano tem a dignificação do trabalho como tema central e inclui o habitual  anexo estatístico, e, como sempre, o ranking do IDH dos países membros decomposto nos indicadores considerados. Vejamos, a voo de pássaro, a evolução de Portugal no ranking  nos últimos 15 anos observada pelos relatório do PNUD de 2002 e 2015.

Mantiveram-se nos primeiros 27 lugares do ranking de 2002, com excepção da Grécia que desceu da 24ª para a 29ª posição, todos os países que antecediam Portugal, ainda que se tenham observado algumas alterações significativas: p.e. A Suécia desceu do 2º. lugar para 14º., a Suiça subiu do 11º. para o 3º. Só a Noruega se manteve o mesmo lugar, de liderança.

Tendo descolado do pelotão da frente, Portugal foi ultrapassado pela Eslovénia, Rep. Checa, Estónia, Eslováquia, Polónia, Lituânia, Malta, Argentina, Chile. E ainda, por razões não relevantes para este efeito, o Brunei, a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos. O Liechtenstein (13ª. posição em 2015) e Andorra (34ª.) não integravam o ranking divulgado em 2002.


Mesmo uma análise expedita permite facilmente concluir que, segundo os critérios do PNUD, os dois componentes de avaliação "educação" no índice de desenvolvimento humano têm um peso relativo nitidamente superior aos restantes. E, destes dois, sobreleva-se a média de anos de escolaridade. Em Portugal este número (8,2) é o mais baixo do conjunto de países que nos antecedem no ranking e cerca de metade do número de anos (16,3) de escolaridade esperada. O abandono escolar é, em Portugal, uma calamidade que persistiu ao longo dos últimos 15 anos, tendo-se eventualmente agravado, em termos relativos, considerando o índice de educação (94% para um máximo de 98% na Noruega) atribuido no ranking de 2002.


A este respeito é também interessante a comparação dos indicadores de Portugal com os da Grécia.

À Grécia, que ocupa agora a 29ª. posição, i.e., 14 posições acima da posição portuguesa é atribuido um IDH de 0,865 (0,830 a Portugal)

No entanto 

- a "esperança de vida à nascença" -  na Grécia, 80,9 anos (H/M), é um valor igual ao calculado para Portugal.
- o "PIB/capita em paridade de poder de compra" - na Grécia, 24 524 dólares; em Portugal, 25 757 dólares.  
- o "número esperado de anos de escolaridade" - 17,6 na Grécia compara com 16,3 em Portugal. 

mas

- o "a média de anos de escolaridade" - 10,3 na Grécia, é superior em 2 anos à média observada em Portugal (8,2).

Justificam, só por si, estes dois anos de escolaridade efectiva a diferença de 14 posições no ranking, independentemente  de ser nitidamente mais favorável a Portugal o indicador PIB/capita (PPP)?

Para os administradores do PNUD, sim.
Para nós, tem dias.



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O Relatório de 2002 incluía um quadro - "Tendências Demográficas" - que vale sobretudo pela análise comparativa que permite fazer com outros países. O défice demográfico refletido na evolução destes valores antecipava há muito tempo a crise demográfica estrutural reflectida nos dados divulgados em Junho deste ano pelo INE, vd. aqui

Friday, April 24, 2015

ONDE MORA A FELICIDADE?

No começo deste mês comentei aqui os resultados de uma avaliação do Eurostat sobre o nível de felicidade dos povos da União Europeia publicados no Economist. Anteontem, foi publicado o relatório da ONU -World Happiness Report 2015 - com intenção idêntica mas de âmbito mundial e metodologia diferente. E se as conclusões do Eurostat reflectiam um grau de menos felicidade declarada pelos portugueses que colocava Portugal nos lugares da cauda do ranking, a transposição para o contexto mundial no relatório da ONU piora a posição relativa da felicidade portuguesa colocando o nosso país muito abaixo dos lugares ocupados nos rankings do Programa de Desenvolvimento Humano (PNUD), também das Nações Unidas, que conjugam os indicadores que, em princípio, deveriam ser forjadores de felicidade: PIB per capita, sistema de saúde, escolaridade, esperança de vida.

Que falta aos portugueses para serem felizes?

(clicar no quadro)

Por que são mais felizes os panamianos (25ª. posição) que os italianos (50ª. posição) e os moldavos (52ª. posição) que os portugueses (88ª. posição)?

Veja-se no relatório, aqui.
A explicação dos factores de avaliação encontram-se nas págs. 22 e 23 do relatório.
Os rankings a págs. 26, 27 e 28.
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Correl. - Há mais suicídios em Portugal que mortes nas estradas. Em média, três portugueses por dia decidiram por termo à vida, segundo o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses.

Monday, June 30, 2014

ACERCA DA APROPRIAÇÃO FINANCEIRA

O Economist publicou esta semana um vídeo  - Heads they win - sobre a evolução da participação do sector financeiro no PIB em quatro países: Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos da América nos últimos cinquenta anos. A progressão em cada um dos países observados é impressionante mas das tendências contidas num intervalo relativamente estreito destaca-se o sprint do Reino Unido nos últimos dez anos.  

O cálculo do PIB tem muito que se lhe diga. Em princípio, idealmente a finalidade da avaliação do PIB seria a medição da riqueza produzida por uma nação, um grupo, ou a totalidade delas. De facto o PIB mede o valor da riqueza adquirida por uma nação, uma sociedade, ou um conjunto delas, e só no valor total se iguala a riqueza produzida à riqueza adquirida. É um conceito económico desprendido de qualquer restrição moral, que agora até acolhe actividades não só moral como legalmente condenáveis. 

Entre produção e apropriação de riqueza já tudo foi dito ainda que quase tudo continue discutível. Indiscutível, no entanto, é a evidência de que a riqueza registada em nome dos agentes financeiros, mesmo desconsiderando a legitimidade dos meios como foi obtida, tinha, na generalidade dos casos, a consistência das areias movediças. Entre nós, lamentavelmente, são poucos os casos que, pelo menos por enquanto, se podem considerar escapados à vaga de escândalos em que se atascou o sistema. 

À escalada da progressão financeira correspondeu a progressão generalizada da desindustrialização ocidental. A excepção mais notável é a Alemanha. Não por acaso, é Frau Merkel Frau Europa.



Sunday, March 02, 2014

ISAÍAS E SAMUEL


Caro E.,

Voltas ao teu tema preferido: a necessidade de corte das gorduras do Estado. E, a este propósito, recordo-me da história dos "Ratos reunidos em conselho". Até agora, não apareceu o rato capaz de colocar o guizo no pescoço do gato. Talvez por falta de força para chegarem às gorduras, até agora têm-nos cortado a pele.

Depois, caro E., sem te contestar as conclusões, permite que repita a minha discordância de algumas contas. E também, a propósito de contas, me ocorre uma laracha antiga:

Há muito tempo que Isaías, o patrão, se esquecera de rever o salário de Samuel. Decidiu-se então Samuel a falar com Isaías para lhe lembrar quanto o seu salário estava corroido pela inflação e não lhe permitir o cinto mais aperto. Isaías mirou Samuel por uns instantes, e depois disse-lhe, muito bem, vamos lá fazer umas contas: O ano tem 365 dias (366 de quatro em quatro anos), certo? Certo. Pois bem. Quantas horas trabalhas por dia? Oito. Ou seja o equivalente a um terço dos dias do ano, contas feitas, trabalhas 122 dias por ano. Certo?. Certo.  Mas não trabalhas ao sábado, que é dia guardado da nossa religião, e também não trabalhas ao domingo porque estão os outros fechados, ou seja  cerca de cento e quatro dias. Certo? Certo. Quem de 122 tira 104 ficam 8. Agora tira-lhe os feriados e as férias e faz as contas. Afinal, Samuel, ainda me deves dinheiro.

A anedota tem barbas e o ludíbrio das contas é mais que evidente. E, no entanto, uma história parecida anda para aí a  ser contada e recontada e, mais espantoso que isso, engolida pela generalidade dos Samueis deste país. 

Ninguém minimamente responsável e informado pode contestar o alargamento acelerado observado nas últimas décadas do perímetro do Estado na economia. O que, só por si, poderia não ter consequências negativas no crescimento económico se as prestações da função pública tivessem sido eficientes e os investimentos públicos rentáveis. Sabemos que não foram. Aos investimentos públicos realizados nos últimos vinte anos corresponderam crescimentos anémicos e pela perda de velocidade da economia são responsáveis as ineficiências de algumas das funções nucleares do Estado, nomeadamente a justiça, e a redundância de numerosos institutos, observatórios, fundações, etc.
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Mas é sobretudo a segurança social quem geralmente paga as favas quase todas, e, muito particularmente, as prestações sociais. No Expresso deste fim-se-semana, por exemplo, lá vem mais uma bicada de um dos subdirectores do semanário, que elegeu os reformados como as "bêtes à abattre", reportando-se a um gráfico publicado num estudo editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.Em 2010, segundo o tal estudo, as prestações sociais representavam 43% da despesa pública e a despesa pública 50% do PIB. Em 1986 as prestações sociais representavam 10% do PIB, 12% em 1993, 13% em 2000 e 22% em 2010

É inquestionável o crescimento das prestações sociais na primeira década do século. Mas é o peso das reformas e pensões tão acentuado quanto dizem os Isaías cá do sítio? Não é. E não é porque as contas têm sofisma que, estranhamente,quase toda a gente, mesmo a mais ilustrada, engole sem lhe dar pelo sabor a treta. Antes de avançar na desmontagem (fácil) do logro convém retirar da análise algumas opacidades que não têm qualquer correlação com a questão que abordo.
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Uma delas é o crescimento dos apoios sociais decorrentes da situação de crise, nomeadamente o subsídio de desemprego, uma questão que só a retoma da economia resolve, a menos que resolvam os Isaías acabar com ele, o subsídio. Nada disto invalida o facto de em muitos casos estarem a ser atribuidos subsídios a quem, por ter recursos próprios, a palavra "segurança social" carece de sentido. Em igualdade de absurdas circunstâncias estão as reformas pagas a não contributivos, e portanto consideradas "segurança social", que dispõem de meios próprios mais que suficientes à sua subsistência em condições condignas.
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Também carece de sentido incluir na rubrica  "segurança social" a reforma paga à senhora presidente da AR, reformada aos 42 anos (!), e a todos os políticos e ex-políticos, e a tantos mais que leis disléxicas chamam "segurança social" do mesmo modo que lhe poderiam chamar "apito".
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Dito isto, e muito mais haveria a acrescentar, vamos então às contas dos Isaías quanto aos sistemas de pensões. Mas não sem antes apontar o mais tenebroso raciocínio que leva à consideração da  tributação em CES dos complementos de reforma privados, geridos por privados, sem qualquer intervenção da função pública, responsabilidade, nem risco do Estado, como redução da despesa pública! 

Desde logo, os Isaías, metem no mesmo saco as contas do regime geral da segurança social, financiada pelas prestações sociais pagas pelo sector privado - mais de 1/3 dos salários brutos - com os sistemas dos reformados da função pública e situações afins, financiadas por impostos, e ainda as contribuições sociais a não contributivos que, naturalmente deveriam ser financiadas por impostos. A prática de tudo no mesmo saco tem servido aos vários governos para se apropriarem dos saldos positivos da segurança social dos privados, e agora clamarem os Isaías que o sistema é insustentável!
Qual sistema, caramba? O do regime geral da segurança social? Não parece. Lendo o Relatório do OE 2014, págs. 55, ( o sistema português de segurança social é que menos riscos corre nos próximos 50 anos). Tudo no mesmo saco serve ainda a outros propósitos: Como a única forma de cortar gorduras no Estado tem sido a reforma antecipada de muitos funcionários, reduzem-se as despesas de pessoal, aumentam as "despesas sociais", e os resultados da engenharia levados à conta da insustentabilidade do sistema!

Uma forma honesta de saber onde nos encontramos em matéria de sustentabilidade do sistema deveria começar pela separação das contas do regime geral da segurança social do sistema de segurança social da função pública e funções correlativas. E, feito isto, considerar que, efectivamente, as reformas pagas aos contributivos do regime geral não são despesa pública, porque não correspondem a um serviço prestado pela função pública que apenas gere as transferências entre contribuitivos activos e contributivos reformados. Apenas os custos dessa gestão, que representarão não mais que 1% do total gerido, é efectivamente despesa pública. Esta correcção da despesa pública, dir-te-á qualquer Samuel mais avisado determinará um valor substancial daquilo a que os Isaías insistem chamar despesa pública, qualquer coisa como oito pontos percentuais.

Mas há mais: Quem recebe pensões ou refomas não recebe os valores que os Isaías dizem pagar. Salvo o caso das refomas mais baixas, e se o reformado não tem outros rendimentos, todas as reformas estão sujeitas a IRS, além da confiscatória CES, que pode elevar a carga tributária para cima de 60%. É despesa o valor pago e a receita do imposto deduzido?*

Samuel que faça contas chegará à conclusão que os oito pontos percentuais atrás referidos montam a cerca de 12 pontos percentuais se uma receita não for considerada receita, como parece a qualquer Samuel atento.


Thursday, January 02, 2014

ENFIM, CADA UM O QUE QUER APROVA

 
  
"Vendas de carros reanimam-se e regressam à barreira dos 100 mil veículos. A recuperação contrasta com a trajectória negativa do mercado no conjunto da União Europeia (uma queda forçada por dois gigantes do comércio de carros, Alemanha e França). A compra de automóveis tem sido a principal razão do crescimento homólogo do consumo de bens duradouros. E o aumento da procura e de algum investimento dos particulares é uma das razões que a Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA) encontra para este comportamento do mercado. Mas também o “crescimento significativo das vendas para rent-a-car num ano turístico muito bom”(aqui)

Há quem veja nesta reanimação da procura de carros mais um sintoma de recuperação sustentada da economia. Há quem repare que o crescimento das compras de viaturas, à excepção das realizadas para "rent-a-car", não sendo sustentada pelo crescimento da economia - que voltou ainda a decrescer em 2013, apesar da evolução debilmente positiva observada na segunda metade do ano - só pode ter sido financiada, em geral, pela redução da poupança privada ou pelo aumento do crédito a particulares. Por outro lado, confirma que mesmo a mais ténue recuperação das expectivas dos portugueses se reflecte imediatamente na importação de bens duradouros.

Em qualquer caso, o crescimento da procura interna, seja ela em que for, não vem do lado daqueles que estão as ser vítimas das medidas de austeridade que o governo entende dever ser paga por quem menos contribuiu para as causas que lhe deram origem. 

Thursday, May 09, 2013

OPTIMISMO POR UMA ERRATA

A notícia corria mundo e coloquei aqui um apontamento sobre o assunto pouco convencido que ele tivesse a relevância correspondente ao bruaá que tinha levantado: Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff tinham concluído num paper de 2010 - "Growth in a Time of Debt" - que um nível de endividamento público superior a 90% do PIB determinava um decréscimo do crescimento económico. Numa altura em que a discussão acerca dos malefícios da dívida estava no auge, o trabalho dos professores de Harvard era arvorado pelos defensores da austeridade como a terapia adequada à criação de condições necessárias à recuperação económica. Mas, afinal, o documento continha erros e omissões que comprometiam a solidez das suas conclusões. De um momento para o outro só não ruíram as convicções dos próceres da austeridade custe-o-que-custar porque a fé é mais inabalável que a ciência.
 
E, apesar da confirmação pelos autores dos erros observados, a política de austeridade não cedeu um milímetro por causa da alegada inconsistência dos resultados do celebrado paper. Hoje, - vd aqui - ficámos a saber que a Carmen e o Kenneth corrigiram o documento mas mantêm as conclusões, i.e., endividamento acima de 90% do PIB, quod est demonstratum, reduz o crescimento económico. Note-se, contudo, que os dois economistas não afirmam agora nem afirmaram antes que a saída de uma fase económica recessiva passe pela austeridade, i.e., pela redução forçada do endividamento. O que eles afirmam é que, analisadas séries muito longas significativas de crescimento e endividamento, a tendência vai no sentido que eles referem: dívida pública acima de 90% do PIB determina perda de crescimento económico.
 
A conclusão só é surpreendente pelo nível de 90% de referência calculado. Um dos critérios de Convergência de Maastricht impõe aos países membros a adopção de políticas que façam convergir a sua dívida pública para 60% do PIB, uma meta que fica muito além dos benevolentes 90% descobertos pela Carmen e pelo Kenneth. Fica é muito aquém dos níveis atingidos nos países fragilizados, e nomeadamente em Portugal onde já terá atingido os 126%.
 
O ministro das finanças Vítor Gaspar afirmava há dias que Portugal levará 25 anos a atingir o nível comprometido em Maastricht.  No fim de contas, as contas de Reinhart e Rogoff são um lenitivo para a nossa desesperança.

Monday, March 11, 2013

SOL GERALMENTE NUBLADO

A OCDE divulgou hoje o seu boletim de Março com os "indicadores compósito avançados" (valores de Janeiro de 2013) com os quais é pretendido antecipar os momentos de inflexão da tendência da actividade económica. Resumidamente: Nos EUA e no Japão, os indicadores assinalam um crescimento económico sustentado; Na zone euro, e em particular na Alemanha, observar-se-á uma retoma do crescimento, mas uma estagnação em França e na Itália. No Reino Unido, um crescimento próximo da tendência, mas a um ritmo lento. Na China e na Índia, e em menor grau, o crescimento ficará aquem da tendência; Na Rússia, uma rretoma do crescimento. Globalmente, haverá um crescimento sustentado no conjunto dos países da OCDE.

Para Portugal, os indicadores avançados, situam a evolução económica próximo da tendência (99,7) depois de uma aproximação persistente nos últimos nove meses, o que permite considerar, se a metodologia da OCDE não desiludir,  que a inflexão estará próxima. Boas notícias? Sem dúvida alguma. Mas muito longe da solução do mais intrincado problema que se coloca por ser insuficiente o crescimento possível, atendendo ao potencial da economia portugesa, para se colocar acima do crescimento dos custos da dívida.   
 
Também hoje, o INE divulgou o seu comunicado habitual - vd aqui - e, para além de confirmar as previsões que já tinha adiantado da diminuição de 3,2% do PIB em 2012, com a redução de 3,8% no 4º. trimestre, calcula o PIB em 165,4 mil milhões de euros no fim do ano passado. Segundo dados do Banco de Portugal -vd aqui - a dívida pública terá atingido, também no final de 2012,  203,4 mil milhões de euros, equivalente a 122,5% do PIB (123% se considerarmos o valor do PIB hoje divulgado pelo INE).
 
Vale isto por dizer que, mesmo se os indicadores compósitos avançados da OCDE não nos desiludirem, a progressão da dívida manter-se-á imparável com um crescimento anémico por falta evidente de fôlego próprio ainda por cima condicionado por uma carga insuportável do custo da dívida.
 

Saturday, March 09, 2013

É TEMPO DEMAIS

Chega? Não chega? É demais.
É demais porque é mais um ano em que a dívida cresce, o PIB rasteja, e a questão de fundo - o peso do custo da dívida - persiste adiada.

Durante algum tempo o ministro das Finanças foi considerado, pela generalidade dos analistas e colunistas políticos, sobretudo pelo seu curriculo passado nas instituições europeias como um trunfo nas negociações com a Troica. Ainda hoje, segundo os jornalistas correspondentes em Bruxelas, Vitor Gaspar mantem um nível elevado de reconhecimento técnico junto dos seus pares europeus. Em Portugal a sua estrela empalideceu com a sistemática falta de pontaria das suas previsões, a persistente perda de velocidade da economia, o crescimento da dívida e do desemprego.

O contraste entre a apreciação positiva externa e o crescente desagrado interno tem uma explicação: Vítor Gaspar não é mais o negociador que Portugal precisa para conseguir as condições imprescindíveis ao cumprimento de um acordo exequível. Vítor Gaspar e a Troica estão de acordo naquilo por onde essencialmente se têm pautado as obrigações dos portugueses assumidas no chamado plano de ajustamento. Trimestralmente, a nota da troica atribuida a esse cumprimento tem sido positiva mas os resultados, na área da economia e do emprego, um flop. Em consequência, o sucesso do plano dito de ajustamento está cada vez mais desajustado e mais distante a possibilidade do seu cabal cumprimento.

Portugal precisa de um pertinaz advogado de defesa, Vítor Gaspar não é, e talvez nunca tenha sido, o homem para o lugar.

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Correl.- Troica dá mais um ano a Portugal para atingir metas do défice (11/3)
Ceteris paribus, nem em 10 anos

Friday, March 08, 2013

SÃO OS JUROS ESTÚPIDOS!*

Por que é que o Gaspar anda à procura de 4 mil milhões? É simples: No OE 2013 prevê-se uma arrecadação de 70,5 mil milhões de receita corrente e de capital, e uma despesa corrente 74,5 mil milhões. A diferença são os badalados 4 mil milhões. (Conversa ao almoço)

Para quê?

Entre 2010 e 2012 as receitas correntes terão evoluido como segue:

2010 - 66,9 mil milhões, a que se adicionaram 4,7 mil milhões de receitas de capital
2011 - 69,3 mil milhões, mais 7,6 mil milhões de receitas de capital
2012 - 65,3 mil milhões, mais 2,1 mil milhões de receitas de capital

A previsão de receitas correntes para 2013, é sensivelmente idêntica aos valores observados em 2010 e 2011 mas, considerando a revisão em baixa da recessão da economia é muito mais provável que se situe ao nível observado em 2012.

A despesa corrente evoluiu, no mesmo intervalo de tempo, assim:

2010 - 73,7 mil milhões
2011 - 70,7 mil milhões
2012 - 65,7 mil milhões

E os juros:

2010 - 4,9 mil milhões
2011 - 6,9 mil milhões
2012 - 7,0 mil milhões
2013 - 7,2 mil milhões (OE 2013)

A divida pública:

2010 - 161,5 mil milhões
2011 - 184,9 mil milhões
2012 - 199,7 mil milhões
2013 - 203,8 mil milhões  (OE 2013)

O PIB:

2010 - 172,7 mil milhões
2011 - 171,0 mil milhões
2012 - 166,3 mil milhões
2013 - 166,8 mil milhões

Estes valores não esgotam as possibilidades de análise mas são inequivocamente reveladores de que ou há uma renegociação com a troica que permita uma redução dos juros para níveis suportáveis pela economia portuguesa, com todas as fragilidades que a caracterizam e que só são removíveis, se forem, a longo prazo, ou, repito-me, andam a enganar-nos, porque não acredito que a troica e o Governo português estejam enganados acerca da viabilidade de outra alternativa.
 
As trajectórias observadas do PIB e da dívida pública só podem ter uma leitura, considerando as medidas de austeridade observadas, e a contracção das receitas correntes em consequência do grau de redução dos rendimentos das famílias. Uma trajectória que não tem reequilibrado de forma consistente o saldo corrente nem contido o crescimento dos juros. Mesmo recorrendo à mobilização sistemática de receitas extraordinárias, que não podem repetir-se, e algumas delas (pensões dos bancários) implicam responsabilidades futuras não reveladas na dívida pública nos anos em que foram contabilizadas as receitas.
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* Estúpidos são os juros, entenda-se. Aqui, o mesmo tema, quase o mesmo título.
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Correl.- Christine Lagarde diz que há espaço para o Banco Central Europeu (BCE) baixar juros para combater a recessão. - vd aqui

Paul de Grauwe and the Rhen of the Terror
Não são os sapatos elegantes e a austeridade que vão salvar Portugal
Moody´s vê com agrado alargamento nos prazos de pagamento dos empréstimos a Portugal mas quer alterações aos juros (11/3) Até a Moody´s!
Portugal com saldo positivo externo pela primeira vez nos últimos 18 anos.  (11/3) - Mas o PIB continuou a cair e a dívida continuou a crescer.
Indicador avançado da OCDE continua a apontar para recuperação da economia (11/3) - Percebe-se. Não há queda que sempre dure. Mas o problema da dívida subsistirá enquanto a progressão do custo da dívida exceder a progressão do crescimento. E esse cruzamento das curvas não vai acontecer se nada for feito do lado da redução drástica dos juros. Que não só impedem a inversão da tendência de crescimento da dívida pública como fustigam a competitividade das empresas portuguesas.

Wednesday, September 05, 2012

E, DEPOIS DA TROICA?


O crescimento da competitividade impulsiona o crescimento da riqueza, esta, as condições para o crescimento do desenvolvimento humano
A correlação nem sempre é estreita, mas é inquestionável que as sociedades progridem na escala do desenvolvimento da personalidade dos seus membros competindo pacificamente entre si.

Portugal não fica bem nesta fotografia. Ocupa o 46º. lugar no ranking da competitividade (vd pag 298 do relatório), o 41º. no índice de desenvolvimento humano e o 42º do PIB. E não fica bem porque a sua posição relativa tem vindo a cair imparavelmente nos últimos 12 anos.

Culpados: os mesmos do costume. 
Os maiores afastamentos relativamente aos valores médios do grupo dos "innovation-driven economies" situam-se na insuficiência de qualidade das instituições (a da Justiça é notória), da sofisticação dos negócios, do desenvolvimento financeiro, da eficiência do mercado de trabalho, do envolvimento macroeconómico.

Isto, AT (antes da troica). DT, ver-se-á.

Tuesday, June 05, 2012

Sunday, April 29, 2012

O ESTADO DA DESUNIÃO - 2



O Economist publica esta semana  nova edição do seu mapa interactivo dos principais indicadores que caracterizam a situação económica, financeira e social da União Europeia em cada dos seus países membros. Basta clicar para espreitar.

O artigo que incorpora este mapa - funny money, fuzzi maths - reporta as dificuldades que se colocam ao financiamento do ajustamento imposto por uma política de austeridade que está a ser cada vez mais contestada pelas classes sociais mais atingidas pela crise e colocada em dúvida a sua eficácia por reputados economistas e analistas, por empresários e, obviamente, pelos sindicatos. 

No centro de um furacão em grande medida provocado pelo risco moral em que os bancos depositaram a sua irresponsabilidade nos créditos concedidos sem medida do risco assumido confrontam-se agora duas frentes que são irreconciliáveis se não forem prosseguidos caminhos de aproximação para uma união política.

Dentro de dias é muito provável que François Hollande, que o Economist considera um homem muito perigoso, será eleito presidente da França, até com a ajuda de Merkel, que ao apoiar Sarkozy despertou ainda mais os brios nacionalistas gauleses. E ainda que aquilo que o candidato à eleição promete não corresponda, frequentemente, em grande parte, ao que o candidato eleito acaba por fazer (ou ser obrigado a tal), é, nas actuais circunstâncias, pouco provável que Hollande venha a manter intacto o eixo Mercozy franco-alemão com outro nome, Mercollande, por exemplo.

Merkel já se antecipou e anunciou alguma abertura quanto à ampliação das atribuições do BCE para a solução da crise, mas nem tudo o que Merkel anuncia acaba por confirmar. Por outro lado, e ao mesmo tempo, fez saber que não altera os alvos acordados no tratado de consolidação orçamental dos países subscritores.

Continuam carregadas de tensão as nuvens negras que pairam sobre a Europa. E não há perspectivas de que o estado da desunião se distenta quando o Verão chegar.



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Act. - Aqueles que atribuem ao euro as culpas da crise europeia ofereço um pastel de nata se conseguirem estabelecer correlação entre os indicadores do mapa e cada uma das três situações: membro da Zona Euro, ligado ao Euro, fora do Euro.  

Monday, February 27, 2012

JÁ RECUÁMOS 10 ANOS!

clicar para ampliar

Ontem referi-me a dois indicadores construídos pelo Economist, publicados recentemente: O já consagrado "Big Mac Index" e o custo dos ingredientes para fazer uma panqueca. No dia anterior tinha-me entretido a comentar os graus de felicidade declarados (auto avaliação) por diferentes povos.

Se não deve haver duas sem três, embora eu não saiba porquê, hoje deu-me para contemplar (o tal efeito sexy dos gráficos) a avaliação feita pelo Economist do recuo que a presente crise já representou para um conjunto de países, de entre os quais, hélas!, desta vez também inclui Portugal.

Contas feitas, e explicadas aqui, Portugal já recuou 10 anos! Voltámos a 2002.
Mas há quem tenha recuado mais, ainda que na consideração destes recuos, evidentemente, se tenham de considerar os diferentes pontos de onde recuaram.
Os EUA recuaram um pouco mais, o que quer dizer que as diferenças médias relativas entre nós e os norte-americanos quase se mantêm.
A Islândia recuou 12 anos, mas há 12 anos a Islânda já estava muito à frente de Portugal. .
A Grécia já recuou 13 anos mas desconheço se o gráfico já contempla os últimos estragos. Em qualquer caso, os gregos parecem condenados a recuar ainda mais. Oxalá não nos reboquem com eles, é sempre arriscado que alguém se aproxime de um náufrago sem bóias de salvação.

Há alguma correlação à vista entre os recuos e a presença na Zona Euro? Aparentemente, não.
A Grécia, que está na Zona Euro, recua 13 anos, mas a Islândia, que não está, recua 12.
Os EUA recuam 10, e imprimem os dólares que lhes dá na real gana.
Portugal e a Letónia recuam 10, a Irlanda 9. Estão no euro.
A Hungria está fora do euro, recua 8, mas tudo leva a acreditar que vai recuar mais.
O Reino Unido, agarra-se à libra com unhas e dentes, recua 8.
No euro, a Espanha recua 8, a Itália 7,5, a França 6 e a Alemanha 3.

Aliás, a Alemanha é, dos países do gráfico, o único país onde o desemprego não subiu.
Juntamente com a Austrália, que não está incluida no gráfico, Alemanha e Austrália são as maiores resilientes à crise entre os países ditos de economias avançadas.

Saturday, September 10, 2011

ASCENSÃO E QUEDA

ou a alternância do poder económico

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A União Europeia não conta. Contará em 2030? Essa é, do meu ponto de vista, a maior dúvida que este quadro suscita. 

mais detalhes, aqui

Wednesday, February 16, 2011

QUESTÕES DE LINGUAGEM E GATUNAGEM

"...é dito muitas vezes (até por economistas!) que o PIB é a riqueza produzida no País. Isto é um disparate que nem por ser muitas vezes repetido deixa de o ser"- Ferreira do Amaral, na Conferência de ontem na Culturgeste.

E João Ferreira do Amaral exemplificou: Quando um cabeleireiro corta o cabelo a um cliente cria riqueza? É óbvio que não cria. E, no entanto, o valor do seu trabalho é uma parcela do PIB produzido no País.
Trata-se de uma questão menor? Não parece, a julgar pela relevância que JFA lhe deu.
Se JFA tivesse optado por um montador de cadeiras concluiria de forma diferente? A julgar pela dedução de JFA para o trabalho de corte de cabelo, o montador de cadeiras cria riqueza, acrescenta valor à cadeira desmontada comprada no IKEA? Temos duas hipóteses: Ou o comprador da cadeira desmontada é ele próprio montador da cadeira, e neste caso o valor acrescentado não é relevado estatisticamente e não é considerado como parcela do PIB, ou o comprador é inábil para montar a cadeira e recorre aos serviços de apoio do IKEA que lhe debita o custo do serviço e, neste caso, o preço pago é parcela do PIB. Temos, portanto, três serviços que podem ser considerados economicamente de forma diferente: o corte do cabelo, que segundo JFA não cria riqueza mas é parte do PIB, a montagem faça você mesmo que, estatisticamente nem é PIB nem criação de riqueza, e a montagem feita por um terceiro que é PIB e criação de riqueza.

Se a discrepância entre o segundo e o terceiro casos se deve a pressupostos que decorrem de um gap entre a evolução da técnica de fazer e vender cadeiras e a metodologia estatística em vigor, o caso do corte de cabelo não pode deixar de nos interrogar se não formos atentos veneradores e obrigados do prof. João Ferreira do Amaral.

Porque se, claramente, o conceito de riqueza aponta para um stock de bens (um indivíduo é rico, não por já ter cortado o cabelo quinhentas vezes na vida mas, por exemplo, ser proprietário de quinhentas mil cadeiras) também não é menos verdade que o stock cresce (ou decresce) consoante a produção realizada, isto é, consoante o PIB, uma medida de avaliação anual.

A ser consistente a opinião de JFA e estúpida a minha conclusão, para além de relapsa depois de o ter ouvido, teremos de concluir que o cabeleireiro cria riqueza mas o carpinteiro não. Ora eu que não sou uma coisa nem outra, mas estive mais próxima da última que da primeira, não posso deixar de oficiosamente defender aqui a classe dos cabeleireiros.

O cabeleireiro não produz riqueza? Claro que produz. Tem uma perdurabilidade quase efémera porque passado mais ou menos um  mês o cliente deve voltar à tosquia. Mas o que acontece com o cabeleireiro acontece com todos os serviços. Uma vez feito e consumido, sai do stock. Não há riqueza eterna. A cadeira pode ser um orgulho do comprador no acto de compra mas lá virá o dia em que é passada a lenha para a lareira. É tudo uma questão de tempo. Quem vai ao cabeleireiro vem de lá a valer mais? Geralmente deve vir, caso contrário por que compraria o serviço?

Uma coisa é o stock de riqueza, geralmente constituído por bens e direitos (uma concessão para exploração petrolífera é parte do stock mas nunca é, enquanto tal, parte do PIB), outra a formação desse stock que pode ter origens diversas. Mas parece-me não ser disparate, como JFA qualifica, conceder ao trabalho do cabeleireiros a mesma função criadora de riqueza que temos de atribuir aos carpinteiros. A menos que JFA a recuse também a estes e a riqueza quem a quiser que a herde. 
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A intenção das conferências (4) de Ferreira do Amaral, segundo pode ler-se no folheto distribuido, "fornecer a quem não é economista os meios de compreensão necessários ...". Mas FA não foi ontem feliz em uma ou outra das afirmações que fez. FA continua a reclamar que a microeconomia é uma disciplina que continua a usar os mesmos instrumentos de há 150 anos, que nas universidades o mainstream bloqueia o avanço da ciência económica naquele campo, que quem não se incorpora no rebanho (designação minha) não se safa. Já há coloquei neste caderno uns apontamentos a refutar este pensamento recorrente de J Ferreira do Amaral. E não só. Diga-se em abono da verdade que JFA tem muitos companheiros de barricada. Mas é uma barricada da qual não ousam ou não sabem saltar.

A propósito os malefícios das teses mainstream JFA deu o exemplo do princípio do equilíbrio dos mercados financeiros e a culpa desse princípio no forjar da crise financeira que deflagrou há três anos. Estou certo que JFA não ignora que o princío do equilíbrio dos mercados financeiros foi colocado em causa há mais de vinte anos, pelo menos. Hyman P. Minsky*, que foi provavelmente o mais dedicado mas também o mais crítico discípulo de Keynes, dedicou-se na maior parte da sua carreira à demonstração de que a especulação é inerente aos mercados financeiros e que no fim surgirão inevitavelmente as crises. Nouriel Roubini, alguns meses antes emergência da crise de 2008, interrogava perante os indicadores de que dispunha: Teremos já atingido o ponto de Minsky?

É para mim muito claro que, mesmo para aqueles que foram os principais mentores das batotas que excitaram os demónios da crise e cobraram lucros e prémios estratosféricos, os estudos de Minsky não eram desconhecidos. Nem tão pouco eram desconhecidas as consequências das acções condenáveis que praticavam. Mas alguma vez um gatuno, por mais letrado que seja, se preocupa com o que consta dos manuais?

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* Para quem quiser aprofundar recomendo: "Stabilizing an unstable economy"- Hyman P. Minsky