Sunday, May 25, 2014

POR UMA QUESTÃO DE FÉ

- Então, vais votar ou não?
- Já te disse que não vou votar.
- Podias ter mudado de opinião.
- Mudo muitas vezes, mas neste caso não. E tu, votas?
- Não posso. As pernas não me deixam.  Mas se as pernas me deixassem votava.
- E sabes em quem votarias. 
- Sei, claro que sei. Votei sempre no mesmo partido. E se voltasse a votar, votava mais uma vez no mesmo.
- Mesmo que o partido tome decisões que te desagradam ou que quem lidera o partido pratique acções ou tome atitudes que tu condenas?
- Mesmo assim. Não é por o cavalo estar a mancar que lhe vamos amputar a perna.
- Mesmo que aqueles a quem confiarias o teu voto tenham tomado decisões contra os teus próprios interesses.
- O meu partido nunca tomaria decisões contra os interesses da classe a que pertenço.
- Estás seguro disso?
- Estou seguro disso.
- Então conheces bem quem são os candidatos da lista do teu partido e aquilo que eles podem fazer por ti.
- Não os conheço assim tão bem, não, mas confio no partido. Que não é o partido comunista, fica sabendo que nunca votei nos comunistas. Não gostei do que os vi fazer a seguir ao 25 de Abril.
- Já me tinhas dito. 
- Mas compreendo que muitos trabalhadores votem no partido comunista. O que eu não compreendo é que haja trabalhadores que votem nos partidos dos ricos.
- Por que será?
- Não sei. Talvez por uma questão de fé. Talvez por uma questão clubística. Ou religiosa. Ou tudo isso, à mistura. Talvez porque não estejam suficientemente elucidados. 
- E por isso votam naqueles em quem têm fé.
- Não vejo outra explicação. 
- Mas não achas que quando me dizes que confias no teu partido, independentemente das acções ou atitudes que o partido toma, também estás a ser guiado por alguma dose de fé?
- Não. De modo algum. Tenho perfeita consciência do lado a que pertenço. 
- E esse lado nunca muda de posição?
- Oscila, mas anda sempre à volta do mesmo ponto de equilíbrio. 
- Tens a certeza?
- Confio nisso.

Saturday, May 24, 2014

NECESITO DOS ENTRADAS


 
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El Madrid gana la Décima  Los goles de Cristiano, Bale y Marcelo en la prórroga dan la victoria a los blancos

Friday, May 23, 2014

O DIREITO DE NÃO VOTAR

O direito de votar, essência do exercicio democrático, é também um dever cívico? Não é.
Um direito nunca pode constituir um dever ainda que o seu exercício possa implicar, e frequentemente implica,  a assunção de um ou mais deveres. Decorre do direito de votar algum dever para além daqueles que formalizam esse direito, o dever de se inscrever nos cadernos eleitorais, por exemplo? Não decorre. Em alguns países, onde vigoram regimes pseudo democráticos, o voto é obrigatório por lei. Neste caso a lei não concede ao cidadão eleitor um direito porque lhe impõe um dever, o dever de votar.

Do direito de votar não pode decorrer o dever, dito cívico, de votar. Se o cidadão é livre de expressar o seu voto, pode expressá-lo votando ou não votando, isto é, abstendo-se. Pode a abstenção fundar-se na rejeição de qualquer das candidaturas sujeitas a sufrágio ou simplesmente de ausência de motivação ou conhecimento suficiente para discernir acerca da sua opção de voto. A abstenção é, neste caso, democraticamente mais válida do que o voto daqueles que são empurrados a votar sem que tenham uma percepção aproximada sequer do sentido que deram ao seu voto.

Afirmar, como ouço frequentemente afirmar em Portugal, que um elevado nível de abstenção é sintoma de uma democracia debilitada só não é uma refinada tolice porque a caça partidária ao voto procura empurrar o maior número possível de indecisos para os seus redis. Nos EUA, por exemplo, os níveis de abstenção são geralmente elevados e ninguém dirá, com propriedade, que a democracia norte-americana alguma vez esteve ameaçada por isso.

Há, no entanto, em Portugal uma irregularidade crónica nos cadernos eleitorais que adultera os valores de abstenção. Estarão agora inscritos 9,5 milhões de eleitores, um número claramente exagerado. Corrigir esta situação, que se arrasta desde as primeiras eleições democráticas, é um dever cívico a que deveriam ser chamados a cumprir periodicamente os cidadãos, de dois em dois anos, por exemplo. Por que razão não é cumprido esse dever é uma resposta com que, manhosamente, nenhum partido se parece importar.

Thursday, May 22, 2014

À ESPERA DE QUEM OU DE QUÊ?




Em Janeiro de 2009 anotei aqui:
"...
Uma conclusão parece admissível: Se o Mississípi se endivida (ou a Califórnia) para além do seu nível de resistência (a partir do qual alguma coisa tem de acontecer que inverta a tendência) o consumo e o investimento retrocedem, o desemprego aumenta e a emigração acelera. O Mississípi não emite moeda. Se a dívida externa portuguesa continua a progressão ao ritmo actual alguma coisa acontecerá porque é impensável que possa crescer indefinidamente. E a emigração não parece ser (não parecia mas está) a válvula de escape, sobretudo nas actuais circunstâncias. Alguém sabe que saída vislumbra Vítor Constâncio? Ou, mais metodicamente, alguém sabe fazer umas contas?"

Hoje, soube-se -Vd. Boletim Estatístico do Banco de Portugal, cit. aqui, que

"A dívida pública portuguesa subiu para 132,3% do PIB no primeiro trimestre deste ano face a 129% no fim de dezembro, segundo o Banco de Portugal (BdP). A dívida pública, na óptica de Maastricht, situava-se em 220.684 milhões de euros no final de março, refere o Boletim Estatístico do BdP. O governo estima, no Documento de Estratégia Orçamental, que a dívida pública feche este ano em 130,2% do PIB, começando a cair em 2015 para 128,7% e chegando a 116,7% em 2018." 

As eleições para o PE já arrancaram hoje no Reino Unio e na Holanda. No fim do próximo domingo ficarão eleitos todos os deputados europeus. Depende de algum modo dos resultados destas eleições a capacidade do nosso país inverter a tendência de progressão da dívida pública? Não depende. Os senhores deputados europeus em matérias sensíveis não riscam nada. Então depende de quê? ou de quem? Ouço alguém responder-me que depende de nós. Pergunto: como?, e ninguém me responde com contas feitas.

Pelas minhas, há muito tempo que calculo que, ou há reestruturação da dívida, com alongamento de prazos a perder de vista e juros suportáveis, ou a carga virará de lado de vez.


EVOLUÇÃO


AS CIDADES E OS RIOS

MONDEGO by Daniel Pinheiro from Daniel Pinheiro - Wildlife Films on Vimeo.

(Colocado no Aliás em Dezembro de 2011)


Wednesday, May 21, 2014

SANTOS BANCOS




Outras sobre ...
tantos, nada santos, com estes, que somos obrigados a saber que temos de pagar.
Todos nós cometemos erros, mas nem sempre quem os comete paga o que deveria pagar por eles. Nestes casos, pagam os contribuintes.

Tuesday, May 20, 2014

PORTALEGRE

Hà já uns largos anos já, visitámos  a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. Entristeceu-nos, nessal altura, o aspecto arruinado das instalações, encantou-nos a dedicação e arte das poucas artistas que ainda lá trabalhavam. A semana passada, encontrando-nos por ali perto, decidimos voltar a visitar a cidade e o seu ex-libris. A malha urbana alargou-se, a cidade tem agora uma envolvente moderna que a distingue da urbe parada no tempo que tínhamos encontrado há anos atràs. De qualquer modo, todos os caminhos em Portalegre continuam a levar-nos ao Largo do Rossio.

Já esquecidos da localização da MTP, tentámos descortinar onde se encontrava o posto de turismo. Não vendo à volta indicação alguma, pedimos a um motorista de táxi, ocasionalmente à conversa com um camarada de ofício, que nos dissesse que caminho tomar para ir às Tapeçarias. É fácil, respondeu o homem, sobe aí essa ladeira à direita, e depois, ... Depois disse que, era bem melhor que, antes da visita à manufactura, visitássemos o museu, uma coisa digna de ser vista, inaugurada há pouco tempo. Se vocês jà estiveram na Manufactura há uns anos atrás, não irão encontrar nada de novo porque está tudo mais velho. E onde fica? Suba essa rua ali à direita até encontrar o começo da muralha. É lá que fica a entrada.

Lá fomos. Avistámos a muralha, não vislumbrámos qualquer indicação de entrada, de modo que, duzentos metros à frente decidimos voltar para trás. À segunda tentativa, e com a ajuda duma jovem, descobrimos o acesso. O Museu é uma adaptação recente e bem conseguida de um palácio antigo. Vale a pena a visita. Na recepção, quando perguntámos pelo melhor caminho para ir à Manufactura, disseram-nos que estava tudo na mesma mas com menos pessoas a trabalhar. Desistimos da visita à Manufactura. Em Portugal, a indústria vai dando lugar à museologia da indústria. E ao novo riquismo com que os políticos  e os coniventes pōem os pacóvios de boca aberta.

Do lado oposto do acesso ao museu, após a passagem na muralha, contruiram duas quedas de água com uns três metros de altura, encimadas por dois pequenos lagos. Como é habitual, feito o investimento no cimento, faltou o dinheiro para o funcionamento. Os pequenos lagos são agora uns charcos, as àguas deixaram de cair, o sitío está isolado e deserto, por trás um casal fazia sexo ao vivo.
Podemos admitir que tenha sido este o objectivo último do projecto, mas custa caro ao contribuinte.

Uma inutilidade maior e, provavelmente, mais dispendiosa, é uma rampa de acesso a uma passagem encerrada, ao longo da muralha, em aço inox, vidro e um material plástico que não conseguimos identificar. A passagem nunca foi aberta, a rampa dá acesso a um portão fechado onde já crescem trepadeiras.

De volta ao Largo do Rossio, onde um edifício dos sec. XVIII, o palácio dos Póvoa é agora um armazém chinês a troco de uma renda mensal de 4000 euros, segundo informações ouvidas na praça, conseguimos descobrir encoberto nas trazeiras o posto de turismo.

Não há identificação do museu, não há identificação do posto de turismo, ...
Pois não. Mas reclamações não faltam. Por que é que o senhor não pōe também a sua reclamação por escrito?

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21/05/2014 -
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 "Quadros para uma exposição: o veado (de Tróia), D. Fuas e uma fumadora de ópio"
Júlio Pomar, nasc.  1926 (mais)
 tapeçaria da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, fio de lã policromado
assinada e datada de 1986, marcada MTP e numerada 2193 - 3/6
Dim. - 215 x 400 cm 
Vendido por €34.000

Monday, May 19, 2014

SINA

"Os imperativos da hora e os interesses do País não permitem ainda atenuar disciplinas da austeridade e a rudeza dos sacrifícios" ..."O volume dos encargos e a limitação dos recursos exigem sacrifícios fiscais, restrições nos serviços, severidade nos gastos"... "Os dinheiros da Nação, em consequência da maior pressão fiscal suportada, embora possam vir a diluir-se pelo acréscimo do produto nacional, têm como contrapartida as exigências de parcimónia, o rigor intransigente da aplicação" .
- do discurso de Ulisses Cortês na tomada de posse como ministro das Finanças em meados de Junho de 1965.

Ulisses Cortês sucedia a Pinto Barbosa, que se mantivera no cargo durante os dez anos anteriores, foi exonerado do cargo três anos depois, em Agosto de 1968. Salazar ficaria inválido um mês. Entre as intensões do discurso de Ulisses Cortês, que resumiam os objectivos que Salazar lhe traçara, e os resultados atingidos, nomeadamente no campo da parcimónia dos gastos, observou o ditador uma distância que o levou a enviar a Ulisses o cartão da praxe, de agradecimento pelos serviços prestados.
Até Abril de 74 o ministério teve mais dois ocupantes. Desde então, a austeridade deixou de fazer parte das listas de preocupações dos governos até ao princípio da década de oitenta, quando a fragilidade estrutural das finanças públicas foram abaladas por uma crise mundial dupla. Voltou essa fragillidade a acirrar-se a partir de 2008 num contexto de nova e mais agressiva das economias ocidentais.

Por culpa do estado social ou da ausência de parcimónia na gestão dos dinheiros públicos, que são coisas diferentes ainda que nos queiram fazer crer que são a mesma coisa?

Sunday, May 18, 2014

UMA SAÍDA LIMPA COM UM OSSO DURO DE ROER

Ontem terminou o programa de ajustamento saindo Portugal de debaixo da tutela da troica sem qualquer programa cautelar, uma saída limpa segundo a versão oficial apadrinhada pelos media em geral. Curiosamente, hoje, o primeiro dia em que estamos limpos, ouviu-se alguns governantes afirmarem que "se tudo correr mal ... se voltarmos a fazer as mesmas asneiras, poderá haver necessidade de um segundo resgate".

O aviso parece óbvio e decalcado daquele que os pais fazem aos filhos traquinas que acabaram de recuperar o andar depois de terem partido uma perna. Mas não é. Desde logo não é preciso que tudo corra mal nem que o país faça as mesmas asneiras para que o fantasma de um segundo resgate nos venha bater outra vez à porta. Basta que nada se altere na política europeia de resolução das dívidas públicas dos países com endividamento excessivo para que dentro de um ou dois anos Portugal esteja, novamente, cercado pelos credores.

E esta questão - da impossibilidade de autonomamente podermos inverter a tendência de crescimento da dívida e cumprir o tratado orçamental - ninguém a aborda, ninguém nos explica como é que isso se faz, salvo os partidos dos extremos que defendem soluções extremas, políticamente inviáveis num quadro político dominado pelos partidos que governam na Europa e, muito sobretudo, na Alemanha.

É neste contexto de enorme indefinição, em que a saída será limpa, porque sim, mas tem atrelado um notável osso duro de roer, que o senhor Passos Coelho, em entrevista concedida à CNBC, citada aqui, recusa que o BCE deva ter um papel interventivo no crescimento económico - numa altura em que mesmo em países membros economica e financeiramente robustos experimentam crescimentos titubeantes - e, nomeadamente, é contrário a uma política de injecção de liquidez, quantitative easing, no jargão anglo-saxónico.

Está doido ou iluminado?

Saturday, May 17, 2014

OS MEUS UCRANIANOS


O Arnold ligou esta manhã para me dizer que o anúncio tinha sido publicado no DN, sem dizer bom dia. Já leste o DN de hoje? Não tinha lido. Aliás, não leio o DN, embirro com o título gótico. Mas onde ele queria chegar vinha na sequência de uma conversa que tivemos há duas semanas durante um almoço no Ritz. Eu já não via o Arnold há uns vinte e tal anos nem tinha tido notícias dele desde aquele dia em que o Diniz da Gama decidira acabar com o programa de reorganização da fábrica porque, disse ele, tinha encontrado alternativa mais conveniente. Que alternativa era essa, nem ele me disse nem eu perguntei, afinal o termo do contrato libertava-me de um fardo emocional que o acaso me tinha posto às costas dois meses antes, e qualquer razão era boa para não recair sobre mim o ónus da rescisão do contrato.
Havia no edifício administrativo da fábrica uma sala de reuniões vigiada pelos retratos dos fundadores, e duas vitrinas de exposição dos momentos mais marcantes da empresa. À volta dessa mesa, pesada e comprida, de castanho português, podiam sentar-se, à vontade, trinta e seis pessoas, disse-me Diniz da Gama, quando me mostrou as instalações, no mesmo tom grave de orgulho com que me garantira que a fábrica podia produzir mais de uma centena de toneladas de peles e cabedais por mês. Nas vitrinas tinha lugar de destaque o "alvará concedido por sua magestade o senhor Dom Luís em mil oitocentos e trinta e cinco, mil oitocentos e trinta e cinco não pode ser, aquele oito parece um três, foi em mil oitocentos e oitenta e cinco, tinha, então, o meu bisavô trinta e cinco anos, antes já negociava em peles em fresco". Era naquela sala que eu me reunia com os responsáveis pelas secções da produção e a contabilista, a Júlia, uma mulher vistosa, morena, na casa dos trinta, casada, sem filhos, com o engenheiro director, o Vieira, que não cheguei a conhecer, estava doente há largos meses. Com o passar do tempo, a Júlia começou a aparecer na sala de reuniões com ar cada vez mais perturbado. A princípio entendi que a atormentava a doença prolongada do marido, mas depois suspeitei que haveria outras razões que não poderia descortinar. Um dia, ia a sair da sala onde me reunira com a contabilista, quando passa no corredor Diniz da Gama e me convida a entrar para o seu gabinete. Visivelmente incomodado por alguma razão que, naquele momento, não entendi, disse-me que me via demasiadamente ocupado com as contas e menos com os processos industriais. Se as contas me preocupassem, não teria contratado um consultor engenheiro mas um auditor! Respondi-lhe que sem um bom entendimento dos custos dificilmente se poderia reorganizar a fábrica sem colocar em causa tudo o que nela, bom ou menos bom, existia. Pois muito bem, engenheiro, ainda bem que estamos de acordo. Isto não tem ponta por onde se lhe pegue, desisto do seu projecto e vou por em marcha outra alternativa. Só depois do almoço com o Arnold, há duas semanas, consegui reconstituir o puzzle das razões que levaram Diniz da Gama a tomar decisão de terminar o contrato.
Quando entrei no Ritz o Arnold ainda não tinha chegado. Sentei-me na sala, a olhar o parque, naquele dia envolto por uma morrinha que prometia durar o dia inteiro, e a recordar o percurso da casualidade que me tinha levado até ali. Depois de terminado o secundário no colégio alemão, tinha visto o Arnold duas ou três vezes em almoços de antigos alunos e, anos mais tarde, no dia em que deparei com ele na empresa de Diniz da Gama. Inesperadamente, o Arnold telefonou-me, não sei onde desencantou o número do meu telemóvel, para me convidar para aquele almoço no Ritz.
Chegou afogueado, com menos cabelo e mais peso, louro, alto e rosado, com mais trinta anos em cima é uma edição aumentada e usada do rapaz esguio e trunfa loura e comprida que todas as miúdas daquele tempo gostariam de ter em casa. Depois dos reconhecimentos e cumprimentos, atirou-se para um canto do sofá onde eu me sentara,  estendendo lateralmente as gâmbias, aparando a barriga com os dedos cruzados, ao mesmo tempo que abria o seu sorriso largo, sempre satisfeito com a vida, eu, no outro lado, intrigado com a convocatória sem agenda, e foi ele o primeiro a mentir: Estás na mesma, pá! O que é que tu fazes para estares sempre na mesma? O mesmo digo eu. Que é feito de ti, grande malandro? Há quanto tempo é que a gente já não se via? Dez anos, vinte,  hem?!, não menos que dez anos... Pelas minhas contas, não menos que vinte.
Depois do colégio, cada um foi à sua vida, e a vida de cada um de nós andava por caminhos que só por acaso  se voltariam a encontrar: o Arnold foi para Inglaterra, onde frequentou engenharia automóvel, casou com uma italiana que tinha conhecido em Turim, tem sete filhos, foi corredor de ralis durante anos, até à morte prematura do pai, tornando-se, então, sócio e seu sucessor na firma de representação de duas ou três marcas de carros de gama altíssima; eu fiquei por Lisboa, andei no Técnico, estive três anos na tropa, dois em Moçambique, voltei em Novembro de 74.
Em Outubro de 1983, era então engenheiro consultor de processos industriais, recebo uma chamada da parte de um tal senhor Diniz da Gama, de quem não tinha qualquer referência para além da informação de que era amigo ou conhecido de um outro cliente meu. Percebi depois que estava preocupado com a competitividade da sua indústria de curtumes, arrasada, dizia ele, pelas reivindicações absurdas dos sindicatos. Combinámos uma visita à fábrica, e, uns dias depois, viajámos até lá no carro do industrial. Diniz da Gama era um homem de estatura baixa, desempenado, na casa dos sessenta e muitos,  e apareceu acompanhado de um sujeito alto, cujo nome naquele momento não retive, aparentando sensivelmente a mesma idade. Feitas as apresentações, eles sentaram-se atrás, eu à frente, ao lado do condutor. Logo que o carro entrou na auto estrada, a conversa no banco de trás passou a ser audível à frente, e cada vez mais perceptível a intenção deles de me juntarem à discussão do tema que os animava naquela manhã de outono a despedir-se: a situação política e económica do país tinha-se degradado a um ponto de onde, conclusão unânime do duo várias vezes repetida, não sairia sem um novo golpe que restaurasse a ordem e acabasse com os sindicatos. Quando chegámos, eram quase horas de almoço, fomos almoçar. A conversa à mesa continuou o mesmo tema que tinha entretido a viagem, eu ouvia, mostrava-me interessado, mas não dizia nada. Inesperadamente, Diniz da Gama, volta-se para mim, e dispara: O que diz a isto, engenheiro? Perante a minha hesitação, ajudada pelo vai vem do garfo entre o prato e a boca, ele reforçou a pergunta: Não lhe parece que com estes sindicatos é impossível aguentarmos a indústria? John Falconer, era esse o nome do amigo de Diniz da Gama, interpôs-se com um "eu acho!", prevenindo-me, subliminarmente, que poderia com uma resposta inadequada estragar o almoço e a encomenda. Depois de fazer umas contas dir-lhe-ei quanto lhe custa isso, respondi, e o industrial, aparentemente, acomodou-se com a resposta.
Muito bem, vamos às contas!, pagou a factura e fomos ver a fábrica.
Diniz da Gama tinha boas razões para se sentir preocupado com o andamento da sua actividade industrial, tecnologicamente obsoleta, abalada de um dia para o outro pelas alterações desencadeadas a partir de Abril de 74, agravadas pela recessão dupla mundial em 1980 e 1982, que lhe derrocaram a fortaleza onde vivera tantos anos de prosperidade tranquila. Subiram os preços, subiram os juros, e, incompreensivelmente para ele, subiam as reclamações de aumentos de salários. Como é que posso, diga-me lá engenheiro, aumentar os salários e manter os preços se quiser vender?
Tem de investir ...
Não tenho feito outra coisa toda a vida, engenheiro. Está aqui enterrado tudo o que ganhei! Se não tivesse outros negócios, esses sim, deixam alguma coisa, estaria hoje na penúria.
Que negócios eram esses, não disse.
Eram seis da tarde quando nos reunimos com os encarregados das secções da fábrica e a contabilista para lhes anunciar uma primeira observação da minha parte, que não duraria mais que duas semanas, seguida, se assim fosse decidido, por uma intervenção que se prolongaria por cerca de três meses.
Em meados de Dezembro, cruzo-me no corredor do edifício dos escritórios com um fulano que tive a imediata sensação de conhecer mas não me recordava de onde. Estou a conhecer-te de algum lado, não estou? Eh! pá! O que é que fazes aqui? Isso mesmo pergunto eu. Era o Arnold.
O Arnold, Arnold Falconer, era sobrinho de Diniz da Gama, filho do John Falconer e da irmã do Diniz. Fomos almoçar, passámos em revista os anos passados desde a saída do colégio, comentámos a situação política do momento, acabámos por falar daquilo a que o Arnold chamava as idiossincrasias do Didi, o tio Diniz. Vinha de vez em quando até à fábrica, se o tio o convidava, porque, dizia o Didi, como não tenho filhos nem mais sobrinhos, um dia destes quem tem de tomar conta disto és tu. De forma que é melhor que vás aparecendo, preparando-te para alombar com a cruz que os tipos que tomaram conta disto nos colocaram às costas. Uma vez por outra, o Didi convidava o cunhado para umas patuscadas, umas aventuras fora de portas, para John Falconer a indústria das peles e cabedais era um negócio repelente.
Segundo Arnold, Diniz da Gama tinha durante toda a vida papado as papas na cabeça da irmã.
Quando o avô Gama morreu, o Diniz voltou a casa, depois de vadiar e estoirar a pródiga mesada paterna durante anos, e tomou conta dos negócios da família. Casou-se tarde, quarentão, e não teve filhos. Nos dias em que se deixava embalar pelos espíritos, em reuniões de amigos, culpava a mulher, alto e bom som, pela falta de descendência. E gabava-se de ter multiplicado por dez a dimensão dos  negócios de curtumes. Mas nunca, mesmo em tais circunstâncias de visível obnubilação alcoólica, abrira a porta ao segredo da compatibilização dos escassos dividendos dos negócios familiares e a exibição da vida que levava. O Arnold suspeitava que ele, conluiado com os agentes no estrangeiro, partia a meias as comissões creditadas a cada um, tornando-se agente geral de todas as exportações da fábrica. Mas provar isso, o Didi não deixava provar.  E não voltei a ver o Arnold até aquele dia em que, trinta anos mais tarde, almoçávamos no Ritz.

Nunca mais voltaste à fábrica?
Nunca mais. O Diniz não voltou a chamar-me e, eu, mesmo que ele me tivesse chamado, não tinha posto lá mais os pés.
O projecto de reestruturação da fábrica foi à viola ...
Foi completamente abandonado. Andou às turras com os sindicatos, incompatibilizou-se com os encarregados, os únicos que poderiam amortecer os conflitos com os operários. Soube mais tarde que um dia descobriu que tinha o problema resolvido empregando uma dúzia de ucranianos que tinham arribado por lá perto. Qual reestruturação, qual modernização, qual investimento, qual carapuça, com os meus ucranianos vou dar a volta a isto em três tempos!
A falta de carácter de certos indivíduos traduz-se frequentemente numa frase dita com a maior naturalidade deste mundo. Numa reunião, a que assisti, com os encarregados, soube que o Vieira, seu braço direito durante muitos anos, continuava doente. Displicentemente, sem o mínimo clique emocional, perguntou por perguntar Diniz da Gama: E quando é que ele morre? Quando me recordo disto ainda hoje me recordo da náusea que aquele vómito me provocou. Soube mais tarde que o Vieira morreu pouco tempo depois
Era um tipo intratável, concordo...
Era?!! Deixou de ser, ou já morreu?
Nem uma coisa nem outra, está doido, numa situação de insanidade total! Abandonou a mulher doente, e vive desde há algum tempo com a Júlia, lembras-te da Júlia? a Júlia era a a mulher do Vieira, e uma filha que, dizem, é filha de um dos ucranianos, talvez engenheiro, que substituiu o Vieira no cargo e na cama. Mãe e filha deram-lhe a volta ao miolo e o doido perfilhou a filha da Júlia, tornando-a sua herdeira universal...
E não pode?
Não pode porque está doido! Já lançámos acção de impugnação por insanidade do perfilhante.
Agora percebo tudo. Só não percebo a razão porque me contas tudo isso. Seria um razoável argumento para uma telenovela mas não acredito que me estejas a convidar para escrever o guião, em toda a minha vida só vi uma telenovela, a Gabriela, a preto e branco.
Preciso de testemunhas, e pensei que tu, que o conheceste quando estava mentalmente são, que pudesses depor no processo de impugnação. Enfim, ganharíamos todos com isso. Tanto quanto conseguimos saber até agora, a fortuna dele ascende a uns larguíssimos milhões ... em risco de cair  toda nas mãos  da Júlia e da filha.
Nem penses! respondi de imediato.
Vá lá, vá lá, não é preciso decidires já, um dia destes telefono-te a informar sobre o anúncio da entrada do processo no tribunal. Está muita massa em jogo...
Não falámos mais sobre o assunto durante o almoço, e não voltámos a falar até ao telefonema de há momentos.

Então, já decidiste?, insistiu ele
Já tinha decidido. E não volto atrás com a decisão. Não tenho nada a testemunhar. Não vejo o Diniz há trinta anos, sei lá se está doido ou não ... Além de que, tanto quanto julgo saber, o pai da filha da Júlia não é o engenheiro ucraniano.
Não é??? Como é que sabes isso?
Disse-me a Júlia.
Ela mesmo?
Ela mesmo.
Hum! Não te fazia tão próximo da Júlia ...
Ficámos amigos. Um bom consultor nunca perde os contactos ...
Mas se não é filha do ucraniano, de quem é? Do velho não é. Há muito tempo que se sabe na família que a infertilidade do casal vem do lado dele e não do lado dela.
Pois não, não é.
É do ucraniano. Sempre se disse que é do ucraniano.
Não. Também não é do ucraniano.
Ah! Ah! Ah! Não me digas que é tua!
Não, não é.
Então de quem é?
É tua.
Minha???
Posso estar mal informado. Mas não é nada que tu não possas provar com um teste ADN.
Estás doido?
Não. Estou a avisar-te.
A avisar-me? De quê, pode saber-se?
Claro que pode. Somos amigos, e aqui entre amigos te digo que julgo saber que se o processo de impugnação de perfilhação da filha da Júlia pelo Diniz não for retirado, a Júlia e a filha podem avançar com um processo de reclamação de perfilhação contra ti. Agora, escolhe.

...

Desligou-me o telefone.


Friday, May 16, 2014

SUBPRIME À PORTUGUESA

Volto ao tema do difícil equilíbrio da balança comercial.
Ontem referi que, ou o problema se resolve no âmbito do crédito concedido e da estratégia dos grandes grupos de distribuição, o que envolve um número relativamente reduzido de "responsáveis", ou o desequilíbrio assomará de novo às portas de entrada e saída do país.

Para além do crédito bancário às importações, a política dos bancos e das "grandes superfícies" de pressionarem o consumo a crédito voltou e mais agressiva que nunca. Mas, para além deles, não há cão nem gato que não "ofereça" crédito directo, na hora, ou cartões de crédito a taxas de juro "a partir de 9,5%". Pechinchas que só aqueles que estão aflitos ou a caminho disso aproveitam, perante a passividade do senhor Carlos Costa, que espera, talvez, receber pela distracção recompensa semelhante aquela que foi atribuida ao seu antecessor, o "distraído" senhor Vítor Constâncio.

A crise desencadeada pela erupção dos créditos sub prime aconteceu nos EUA há seis anos. Em Portugal há muitos que culparam os portugueses em geral por "terem vivido acima das suas possilidades."

Mas esses fazem-se esquecidos de que o envididamento excessivo decorre frequentemente de um logro em que são embrulhados os cidadãos. Que, tendo também responsabilidades no cartório, são muitíssimo menos culpados que os seus credores por disporem de muitíssimo menos informação que aqules. Ninguém ignora as consequências devastadoras do logro em que caem frequentemente os menos  informados ou mais incautos. Mas todos quantos deveriam prevenir a repetição do desastre continuam a assobiar para o ar.

Thursday, May 15, 2014

O BURRO E AS COUVES

Há dias recebi e-mails trocados entre amigos e conhecidos acerca do conflito entre a necessidade de defender a produção nacional e a possibilidade de o fazer sem infringir as regras que subscrevemos no âmbito das convenções sobre a liberdade do comércio e, muito particularmente, daquelas a que estamos submetidos enquanto membros da UE.

Há quem, pura e simplesmente, defenda a saída da zona Euro e da UE. Uma proposta que, contudo, é
muito minoritária. Invocam, por outro lado, muitos daqueles que defendem a permanência no euro e na UE que é impraticável qualquer medida ou prática que possa contrariar os princípios da liberdade de comércio. E que, além de impraticável, poderia desencadear efeitos de retaliação e ter resultados contrários aos pretendidos. Adicionalmente, referem que qualquer campanha de promoção
publicitária das vantagens do made in Portugal para os portugueses esbarra com os interesses particulares de cada um. Recordo-me, a propósito, de uma amiga minha que detesta os chineses e compra regularmente "os trapos" nos chineses...

Do meu ponto de vista só há uma via para evitar que a balança comercial se inverta de novo. Essa via passa pelos bancos - são os bancos que financiam as importações - e pelos maiores grupos de distribuição. São estes senhores que têm de convencer-se ou têm de ser convencidos de que deverão mudar de estratégias. Se o não fizerem, e foram eles os grandes responsáveis pelo nível de endividamento público e privado atingidos, voltará muito rapidamente o burro para as couves.

Wednesday, May 14, 2014

OLHÓ DESASTRE!


No tempo em que os jornais eram vendidos por ardinas, volta e meia ouvia-se o pregão que rendia em Lisboa:
Olhó Notícias,  Lisboa! República! Popular! Olhá Bola! Olhó Recór!!  Traz o desastre! Olhó desastre!
E, muitas vezes, o desastre era a derrota do Benfica ou do Sporting.

O desastre é uma coisa que vende bem, e os ardinas sabiam bem disso.
O desastre desta noite foi celebrado com um beijo na boca entre Carriço, do Sevilha, e Rakitic,  o capitão da equipa -vd. aqui -

Os desastres já não são o que eram.

Tuesday, May 13, 2014

JUÍZES EM CAUSA PRÓPRIA

Pergunta-se hoje no Expresso: se os juízes são bons porque é que a população não acredita na justiça? "As avaliações dos juízes portugueses são excelentes: só um por cento tiveram nota negativa e 30 por cento conseguiram a nota máxima de Muito Bom. Mesmo assim, só 28 por cento dos portugueses confiam na Justiça".

"Nuno Garoupa, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, diz que há “uma inflação grosseira das notas, uma vez que a nota bom é na verdade menos boa do que parece em termos de progressão de carreira” e que “o CSM devia alterar a denominação para evitar confusões”. “Os números das avaliações são reais: a esmagadora maioria dos juízes é boa ou muito boa e só uma escassa maioria não tem aptidão para o trabalho e por isso sai”, defende Mouraz Lopes, da Associação Sindical dos Juízes."

Houve, certamente, lapsus linguae ou erro de transcrição das declarações do desembargador Mouraz Lopes (uma escassa maioria não tem aptidão ...), mas o que o presidente da Associação dos Juízes não conseguirá desmentir é a realidade dos números que caracterizam a gritante ineficiência da Justiça em Portugal.

 “Good news, no news está a matar a Justiça”, terá ainda dito o desembargador, e venha o diabo e o entenda, a menos que se tenha dado o caso de outro lapsus linguae ou outro erro de transcrição. "No news, good news" seria realmente sintomático de que os senhores juízes portugueses seriam tão bons quanto se julgam. Acontece, desembargador Moura Vaz, que é raro o dia em que os portugueses não sejam contemplados com más notícias do lado da Justiça.

Monday, May 12, 2014

A WIKIPEDIA FALA POR ELE

O jornalista considerou imerecida  a atribuição, pelo Presidente da República, da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique a quem, segundo o jornalista, "durante o seu mandato a CGD gastou recursos que não tinha numa aposta ruinosa para fazer crescer as operações da Caixa em Espanha, aposta que se traduziu em muitas centenas de milhões de Euros de prejuízos diretos das participadas no país vizinho ... e  que permitiu a concessão de créditos de centenas de milhões de Euros a investidores que apenas queriam especular nos mercados com esse dinheiro, nomeadamente na tomada de poder no BCP (…)"

Sem contraditar cabalmente os factos, remete o atingido as razões dos resultados danosos deles resultantes para o imponderabilidade dos actos de gestão, por um lado,  e, por outro, para os outros gestores envolvidos nesses actos, também eles, provavelmente vítimas da mesma fatal imponderabilidade. Actos de que resultaram perdas que arruinaram o banco do Estado e, consequentemente, os bolsos dos contribuintes portugueses. 
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E, como testemunha abonatória do seu comportamento notável, remete o acusado para o seu curriculum vitae  na Wikipedia* que, diz ele, "fala por si". De notável, lê-se na Wikipedia, que se que licenciou em economia pelo Instituto Superior Técnico em 1965; Segundo a APB, Associação Portuguesa de Bancos, licenciou-se no mesmo ano, e no mesmo Instituto, em engenharia mecânica.

Sunday, May 11, 2014

COMO ELES TIRARAM OS CAVALOS DA CHUVA


De que os bancos foram, destacadamente, os maiores culpados pela crise que os contribuintes, por força de um costume perversamente iníquo, têm de pagar, só discordam os banqueiros e os coniventes. 

Que os bancos, e particularmente os banqueiros alemães, franceses, britânicos, holandeses, embalaram desenfreados durante vários anos na inundação incontrolada de crédito na Europa do sul, é matéria de facto indesmentível. 

Que quando o mar ficou mais alto que a terra, os colectores de crédito foram bruscamente tamponados, e surgiram os programas de ajuda externa, foram apresentadas facturas aos contribuintes e, em Portugal, muito particularmente aqueles que estão prepotentemente subjugados a um iníquo imposto de classe. 

Denúncias deste ciclo perverso têm sido ouvidas de todos os quadrantes. Ajudas a Portugal e à Grécia foram resgates dos bancos alemães é mais uma. Quem o afirma é Philippe Legrain, que foi conselheiro do presidente de Durão Barroso, ainda presidente da Comissão Europeia num livro que pode ser espreitado aqui clicando em "Look inside" ou aqui numa entrevista do Público.

Amanhã começa oficialmente (emprego o adjectivo do costume sem lhe perceber o sentido), a caça ao voto. Já alguém ouviu algum dos que provavelmente serão eleitos, aqueles que vão sentar-se em Estrasburgo, falar disto? Pois não. A caça ao voto não é um assunto sério*.
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Correl.- Há quase tantas listas quantos os deputados

Saturday, May 10, 2014

O JOGO DA CABRA CEGA

O Ministério quer novo julgamento do caso dos submarinos  porque “Salvo o devido respeito, estamos perante um erro crasso do acórdão" do colectivo que há três meses absolveu 10 arguidos (sete portugueses e três alemães)

Finalmente um julgamento isento em perspectiva?
Que ninguém se preocupe, isto é apenas um jogo.

Friday, May 09, 2014

DECLARAÇÃO DE SCHUMAN

A Declaração de Schuman é a semente primordial da actual União Europeia. Proferida a 9 de Maio de 1950, pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros francês Robert Schuman, ninguém poderá negar que o objectivo mais premente do documento fundador era, e quero acreditar que deverá ser ainda, agora e no futuro, a garantia da paz na Europa. 

Hoje é dia de celebração do sexagésimo quarto ano consecutivo de paz dentro dos territórios dos estados membros da União Europeia, mas o fogo da guerra já se reacendeu, entretanto, bem perto dos seus limites e não está garantido que não possa propagar-se para dentro deles quando menos se espera por acumulação de matéria incandescente.

A União Europeia é ainda um edifício em construção e, parafraseando Schuman, enquanto a Europa não for construída, os europeus poderão voltar a matarem-se uns aos outros. Ou a União Europeia caminha decididamente para uma federação que minimamente suporte consistentemente o edifício ou ele estará sempre sujeito a ser derrubado pelos populismos barricados detrás dos nacionalismos com raízes milenárias que ninguém parece querer erradicar. 

Ao contrário, na véspera de eleições para o Parlamento Europeu, são os ventos nacionalistas que sopram desenfreados contra os muros por consolidar. E ninguém, em lado algum, vem a terreiro proclamar que sejam cumpridos os factores que primordialmente poderão consistentemente garantir o objectivo primordial da Declaração de Schuman.

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A Declaração Schuman de 9 de maio de 1950

A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criadores à medida dos perigos que a ameaçam.
A contribuição que uma Europa organizada e viva pode dar à civilização é indispensável para a mauntenção de relações pacificas. A França, ao assumir-se desde há mais de 20 anos como defensora de uma Europa unida, teve sempre por objectivo essencial servir a paz. A Europa não foi construida, tivemos a guerra.
A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-à por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto. A união das nações europeias exige que seja eliminada a secular oposição entre a França e a Alemanha.
Com esse objectivo, o Governo francês propõe actuar imediatamente num plano limitado mas decisivo.
O Governo francês propõe subordinar o cunjunto da produção franco-alemã de carvaõ e de aço a uma Alta Autoridade, numa organização aberta à participação dos outros paises da Europa.
A comunitarização das produções de carvão e de aço assegura imediatamente o estabelecimento de bases comuns de desenvolvimento económico, primeira etapa da federação europeia, e mudará o destino das regiões durante muito tempo condenadas ao fabrico de armas de guerra, das quais constituiram as mais constantes vítimas.
A solidariedade de produção assim alcançada revelará que qualquer guerra entre a França e a Alemanha se tornará não apenas impensável como também materialmente impossivel. O estabelecimento desta poderosa unidade de produção aberta a todos os paises que nela queiram participar, que permitirá o fornecimento a todos os países que a compõem dos elementos fundamentais da produção industrial em idênticas condições, lançará os fundamentos reais da sua unificação económica.
Esta produção será oferecida a todos os países do mundo sem distinção nem exclusão, a fim de participar na melhoria do nível de vida e no desenvolvimento das obras de paz. Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano. Assim se realizará, simples e rapidamente, a fusão de interesses indispensável à criação de uma comunidade económica e introduzirá o fermento de uma comunidade mais vasta e mais profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas.
Esta proposta, por intermédio da comunitarização de produções de base e da instituição de uma nova Alta Autoridade cujas decisões vincularão a França, a Alemanha e os países aderentes, realizará as primeiras bases concretas de uma federação europeia indispensável à preservação da paz.
O Governo francês, a fim de prosseguir a realização dos objectivos assim definidos, está disposto a iniciar negociações nas seguintes bases.
A missão atribuida à Alta Autoridade comum consistirá em, nos mais breves prazos, assegurar: a modernização da produção e a mehoria da sua qualidade; o fornecimento nos mercados francês, alemão e nos países aderentes de carvão e de aço em condições idênticas; o desenvolvimento da exportação comum para outros países; a harmonização no progresso das condições de vida da mão-de-obra dessas indústrias.
Para atingir estes objectivos a partir das condições muito diversas em que se encontram actualmente as produções dos países aderentes, deverão ser postas em prática, a titulo provisório, determinadas disposições, incluindo a aplicação de um plano de produção e de investimentos, a instituição de mecanismos de perequação dos preços e a criação de um fundo de reconversão destinado a facilitar a racionalização da produção. A circulação do carvão e do aço entre países aderentes será imediatamente isenta de qualqer direito aduaneiro e não poderá ser afectada por tarifas de transportes distintas. Criar-se-õ progressivamente as condições para assegurar espontaneamente a repartição mais racional da produção ao nivel de produtividade mais elevada.
Ao contrário de um cartel internacional que tende a repartir e a explorar os mercados nacionais com base em práticas restritivas e na manutenção de elevados lucros, a organização projectada assegurará a fusão dos mercados e a expansão da produção.
Os principios e os compromissos essenciais acima definidos serão objecto de um tratado assinado entre os estados. As negociações indispensáveis a fim de precisar as medidas de aplicação serão realizadas com a assistência de um mediador designado por comum acordo; este terá a missão de velar para que os acordos sejam conformes com os principios e, em caso de oposição irredutivel, fixará a solução a adoptar.
A Alta Autoridade comum, responsável pelo funcionamento de todo o regime, será composta por personalidades independentes e designada numa base paritária pelos governos; será escolhido um presidente por comum acordo entre os governos; as suas deciões serão de execução obrigatoria em França, na Alemanha e nos restantes países aderentes. As necessárias vias de recurso contra as decisões da Alta Autoridade serão asseguradas por disposições adequadas.
Será eleborado semestralmente por um representante das Nações Unidas junto da referida Alta Autoridade um relatório público destinado à ONU e dando conta do funcionamento do novo organismo, nomeadamente no que diz respeito à salvaguarda dos seus fins pacíficos.
A instituição de Alta Autoridade em nada prejudica o regime de propriedade das empresas. No exercicio da sua função, a Alta Autoridade comum terá em conta os poderes conferidos à autoridade internacional da região do Rur e as obrigações de qualquer natureza impostas à Alemanha, enquanto estas subsistirem. 

A LANCHEIRA

Um filme que vale a pena ver.  
Trailer aqui.
Classif. - ***

Thursday, May 08, 2014

POR 31,5 MILHÕES DE DÓLARES


'Le sauvetage', de Picasso, vendido pela Sotheby´s de Nova Iorque por 31.500.000 dólares (22.624.757 euros)
 vd. aqui

Um valor equivalente daquele em que terão sido avaliados os 82 Mirós que alguns, de entre os quais se tem destacado excitadamente a ex-ministra da cultura Gabriela Canavilhas, que considera um espólio artístico importantíssimo que não deve ser deixado sair de Portugal.

Wednesday, May 07, 2014

OS JOÕES FERREIRA TOCAM-SE


"João Ferreira do Amaral, em defesa da independência nacional"
"Defender o povo, defender o país", João Ferreira, 1º. candidato da CDU ao PE

Os nacionalismos estiveram sempre na origem dos conflitos bélicos que destruiram a Europa.
Eles aí estão de novo por detrás de diversas barricadas, algumas das quais simpatiquíssimas aos olhos mais desprevenidos.

Tuesday, May 06, 2014

VOTO PIM, PAM, PUM

euandi-banner 

A ideia,  que encontrei aqui, é boa para ajudar a decisão de voto de quem ainda acredita em promessas. Por curiosidade, também respondi ao questionário e saiu-me como candidato mais conforme com as minhas preferências um partido chamado PAN. Conhecem? Nem eu.  

Mas ainda que conhecesse em honra de quê ou de quem iria eu perder tempo para depositar um voto favorável a quem come 2,9 milhões de euros do orçamento, que eu também pago, contrariado, mas pago, e que não serve, realmente, para nada? E quem diz o PAN, diz todos os pequenos grupos de amigos e conhecidos que se juntaram para comer igual maquia. 

Quanto aos outros, os que se farão representar em Estrasburgo, sabemos que prometem o que não cumprem até porque, valha a verdade, não têm na generalidade dos casos capacidade para fazer cumprir. Na UE, as estratégias políticas decorrem dos interesses nacionais em jogo. No PE, com excepção dos que defendem o fim da UE e do euro, os partidos limitam-se a abanar a cabeça para o lado para onde sopra o vento de Berlim. Não há nenhuma proposta de estratégia para uma democracia  europeia plena. Assim sendo, daqui a três semanas, os votos são de faz de conta.

Monday, May 05, 2014

CHUTO PARA CANTO

Cavaco Silva quer programa cautelar para Portugal
Portugal deve optar por um programa cautelar
Cavaco e Barroso preferiam cautelar

"O que mais me vem à memória, no dia de hoje, são as afirmações perentórias de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora?

Neste tempo pré-eleitoral
é apenas isto que respondo a todos aqueles que pedem a minha reação ao anúncio de ontem de que Portugal não recorrerá a qualquer programa cautelar, ao mesmo tempo que lhes recomendo a leitura integral – e não truncada – do prefácio que escrevi para Roteiros VIII, disponível na página oficial da Presidência da República na Internet.- aqui"

Peremptoriamente, chuto para canto é medida cautelar e saída limpa.


Sunday, May 04, 2014

O OVO DA SERPENTE

Pedro Madeira, português, e a mulher, italiana, trabalham no Reino Unido, ambos têm pós graduações, falam varias línguas e são quadros superiores nas empresas onde trabalham: ele, para uma nova empresa tecnológica, ela numa empresa internacional de publicidade. No princípio da sua carreira, Pedro teve dois empregos: um, sem remuneração, que lhe permitiu subir na escada do emprego, outro, como recepcionista de hotel, para sobreviver. Nunca dependeram da segurança social. 

Esta semana, conta Pedro ao Financial Times, "a minha mulher recebeu um panfleto do UKip (UK Independence party), pessoalmente endereçado, afirmando que "estão a chegar ao Reino Unido, provenientes da UE, 4000 pessoas por semana", apresentando a notícia como uma coisa má."
Pergunta P Madeira: Está o UKip preocupado com a entrada de pessoas altamente qualificadas, estrangeiros com ambições, ou com a "mão-de-obra barata" que pressiona os salários britânicos no sentido da baixa, como diz no panfleto?" "Quem está com medo de um pouco de concorrência da UE?".  
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É a terceira vez que uso o título do apontamento de hoje neste bloco de notas (as outras, aqui e aqui), aquele que Bergman foi buscar a Shakespeare para a sua visão cinematográfica da eclosão do nazismo na Alemanha. Os nacionalismos, que estão longe de se expressar apenas através das palavras e dos actos dos partidos racistas e xenófobos, estão inscritos na generalidade no ADN dos povos europeus e são o maior obstáculo a uma integração politica que possa suficientemente consolidar a UE. Mas quando esse sentimento arreigado de nacionalismo é aproveitado pelas circunstâncias da crise pelos extremistas, as estruturas já levantadas correm sério risco de desabar e esmagar a paz europeia sonhada pelos homens que lançaram os alicerces da União. Nenhum espaço económico ou monetário é sustentável apenas na livre circulação de mercadorias e capitais.


No Parlamento Europeu, toda a gente sabe isso, não estão representadas diferentes visões estratégicas para o futuro da Europa sustentadas por convicções transversais aos interesses de cada país membro. Os nacionalistas defendem, coerentemente, reconheça-se, o fim da UE e o encerramento de portas aos trabalhadores estrangeiros, incluindo os da actual UE. Os outros, por oportunismo manhoso, nem querem falar do assunto. Se, como diz o outro, o futuro de Portugal passa pela Europa, que futuro vislumbram aqueles que se dizem europeístas convictos e se vão sentar em Estrasburgo após as eleições deste mês? Nenhum. Só querem garantir um emprego bem remunerado e demais honrarias anexas.
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[…] qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado. Hans Vergerus / c/p aqui

Saturday, May 03, 2014

OS PERIGOS DE UMA DEMOCRACIA MENOR

Andamos às voltas e não encontramos uma saída para uma democracia maior, nem em casa nem no clube europeu. Comparada com esta névoa que nos turva a vista e não permite vislumbrar uma convivência pacífica na Europa, a discussão acerca da, em qualquer caso aparente, saída limpa, ou limpa mas pouco, de Portugal da tutela da troica, não passa de um entretenimento para ocupação do tempo político. Porque é irrelevante, porque é para eleitor ver, porque sem rede, visível ou invisível, o estatelanço seria fatal para o trapezista e para a assistência em baixo.

Preocupante mesmo é outra vez o resvalar da Europa para os nacionalismos e o cortejo de fanáticos que os acompanha, de xenófobos e racistas, de variadas e variáveis espécies. Se os extremismos se impuserem maioritariamente no UK e na França o que será feito da União Europeia no dia seguinte às eleições?, perguntava-se aqui há dias, e ninguém responde, porque aqueles que se dizem europeístas se recusam, por cedência ao oportunismo, que muitas vezes se traduz em falta de vergonha,  a propor a submição ao voto popular a cedência da porção de soberania necessária à consolidação da União. E aos outros, os populistas, os que apregoam o nacionalismo e exigem a desunião europeia, que se atrelam ao desânimo dos mais fustigados por uma crise sem fim à vista, correm os ventos de feição nas intenções de voto.

- E a culpa é de quê? Ou de quem?
- Sei lá quem é o culpado... O que sei é que, se a democracia é isto, prefiro voltar à ditadura.
- Já estiveram mais longe, mas as perspectivas não são boas, para não dizer que são horríveis. Com o retorno dos nacionalismos, a guerra é mais que certa.
- Então que venha a guerra. Pior é impossível...

É este o drama europeu, o de desembocar a suturação de feridas antigas, sempre mal saradas, em tentações de novos conflitos que lhe reabrem os lanhos e impossibilitam a paz. Há doença colectiva pior que a tentação da guerra? Só de ânimo leve se pode dizer que sim.



 

Friday, May 02, 2014

DE ONTEM PARA HOJE

Ao contrário do camarada Abel, que optou por outros percursos até desembarcar em Bruxelas para presidir à Comissão Europeia, o Amigo Fernando C.P. permaneceu no seu posto e não perde oportunidade para denunciar "o poder incontrolado dos monopólios e a perversa aliança com o capitalismo de Estado. O que fazer? Conscencializar o povo. Leva tempo, pois leva, mas não há outro caminho". Um discurso que, inevitavelmente, recorda o camarada "grande educador da classe operária", agora advogado com barriga em curvilínea linha da felicidade. Temas, alguém recordou hoje ao almoço em sede emblemática, que excitavam a generosidade da juventude dos anos 70. 

Ontem, há quarenta anos, todos os que tinham acedido ao palco político e dali se apresentavam aos cidadãos, ainda confundidos com as novas referências desencadeadas a partir de 25 de Abril, estavam ou diziam estar a caminho do socialismo: Sá Carneiro estava a caminho, Freitas do Amaral prometia ir já lá ter, Soares já lá estava  de pedra e cal, Cunhal, desde menino e moço. O camarada Abel era, então, assanhadíssimo devoto de José Estaline, "o maior baluarte socialista", segundo Abel.

Hoje, passados 40 anos, ninguém sabe onde mora o socialismo. 
À excepção do senhor Bernardino Soares que desconfia que ele mora em Pyongyang.

Thursday, May 01, 2014

À ATENÇÃO DE QUEM VÊ MAL


from: Rui Fonseca 
to: novosite@expresso.pt
date: Thu, May 1, 2014 at 12:21 PM
subject: À atenção do Sr. João Vieira Pereira
mailed-by: gmail.com
Com não consigo fazer o registo para comentar o seu post, porque o vosso sistema não responde, uso este meio para chamar a sua atenção para dois factos indesmentíveis e que, por razões que não conheço, sistematicamente ignora nas suas crónicas sobre o assunto, provocando uma série de comentários de gente mal informada.

Primeiro - Os fundos de pensões criados por empresas privadas, sem intervenção do Estado, risco ou qualquer contribuição, de gestão sequer, são tributados em CES, vão continuar a ser* e, no entanto, nenhum dos senhores que berra contra as actuais reformas pagas está a pagar, já pagou ou vai pagar, qualquer contribuição para esses complementos de reforma.

Segundo - Não está provado em lado algum que as pensões pagas a contributivos da segurança social (sector privado) estejam a ser financiadas com contribuições do OE. Pelo contrário, os saldos positivos da segurança social foram durante muitos anos absorvidos pelo défice do OE através de utilizações ilegítimas feitas por todos os governos. Por outro lado, se ler o Relatório do OE 2014, verificará a pags. 55 que o sistema de segurança social em Portugal é dos que menos riscos de ruptura apresenta num horizonte de 50 anos.

Agradecia que me informasse do contrário, se souber.

Cumprimentos,

Rui Fonseca

* "Tal como a CES, as contribuições incidirão “de igual forma sobre as pensões do Regime Geral da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, tendo natureza contributiva e garantindo solidariedade inter-geracional”. Os fundos de pensões também continuarão a ser afectados. A garantia foi dada pelo ministro Mota Soares na conferência de imprensa para apresentar o Documento de Estratégia Orçamental (DEO): a nova contribuição aplica-se "exactamente ao mesmo universo de pensionistas da actual CES", disse." 
Público de hoje

LEVITAÇÕES

Se te acontecesse dar de chofre com um tipo dado como morto há uma data de anos atrás, o que é que pensavas? Também pensei nisso depois. Que é um tipo bastante  parecido, um sósia ou um irmão gémeo idêntico. É impressionante a prodigiosa diversidade de uma infinidade de indivíduos nascidos desde o começo do mundo, uma vez por outra aparecem uns exemplares que parecem cópias exactas de outros. Mas, assim, de repente, quem se lembra que pode ser sósia ou gémeo, se a figura que vemos é tal e qual a que conhecemos bem e sabemos que há muito tempo foi dado por morto?
Tremi toda.
E perguntei-me: Estou a sonhar ou também já passei para o lado de lá?
Fui ao shopping fazer compras, ia a meter uma garrafa de azeite no carrinho, e que vejo eu de lado, a uns dez metros de mim, à espera de ser atendido no talho? Ia-me caindo a garrafa do azeite ao chão, distraída, quase errei o  carro das compras, ao ver um grandalhão de barba e cabelos compridos, podia ser um orc mas, garantidamente, disse para comigo, aquele gajo ou é o Vicente ou o diabo por ele. Na surra,  fui empurrando o carrinho, e quanto mais perto me encontrava do bicho mais se confirmavam as minhas suspeitas, mas foi só quando chegou a vez dele, e o ouvi encomendar um quilo de carne do lombo, que ficaria sem grandes dúvidas de quem ele era se não se desse o caso de o Vicente ter sido dado como morto uns dez anos atrás e, ainda para ofuscar mais a nitidez da imagem, o Vicente que eu conhecera não ter massa para comprar umas asas de frango quanto mais um quilo de carne de vaca, e logo do lombo.
Ah! Este Vicente não só se alimentava agora do bom e do melhor como vestia roupa de marca. Como há dez anos atrás já tinha cara de cinquenta quando ainda não tinha chegado aos quarenta, a expressão dos olhos e do rosto, mas sobretudo a voz, tinham-se mantido inalterados. Teria o Vicente estado este tempo todo em câmara frigorífica, uma hipótese que na devida altura ninguém se tinha lembrado de averiguar? Raios me partam se não ponho isto em pratos limpos. Desculpe-me a pergunta: Tu és o Vicente, não és?
Meteu demoradamente o lombo no cesto, todos os gestos do Vicente eram demorados, encarou-me com aquele olhar parado e inocente que lhe conhecíamos tão bem, piscou os olhos, sou, e tu és a Magda. Pois sou.
E calou-se, outra vez o olhar parado, a vaguear entre mim e o lombo. Fiquei varada, sem fala.
Que é que tens feito estes anos todos, arrisquei a perguntar depois de engolir em seco outras perguntas tolas, do género, mas tu não morreste?

O Vicente era, ou é, agora já nem sei se era ou se é, um indolente que trabalhava no Instituto, quando eu entrei já ele por lá andava. A primeira vez que o vi, tinha entrado há dois ou três dias no Instituto, apanhei o primeiro susto com a aparição do Vicente à minha frente. Ia a sair da sala onde trabalhava quando vejo ao fundo do corredor, um corredor frio, até no verão, comprido e alto, típico dos edifícios do estado do tempo em que as ideologias se exibiam em arquitecturas pesadas, cinzento, escuro, iluminado apenas pelas duas janelas abertas em cada topo e a luz eléctrica de meia dúzia de lâmpadas frouxas penduradas do teto, a uma distância de sei lá, de trinta metros, não menos, um grandalhão de roupas largas, recortado pela luz que entrava pela janela atrás dele. Caminhava aos saltos, abrindo e fechando os braços e urrando Uh! Uh! Uh!  à cadência de cada salto em frente. Medonho! Recuei imediatamente, e fechei a porta com a força de todo o medo que se apoderou de mim perante aquela visão sinistra. 
Trabalhávamos três na mesma sala, duas mulheres e um homem. Mas ele tinha tirado férias e ela tinha saído da sala poucos minutos antes. Sozinha e  apavorada, como não havia chave na porta, empurrei a secretária para bloquear a entrada não fosse a bisarma, que  continuava a urrar no corredor, entrar por ali dentro. Os urros soavam cada vez mais próximo, tentei ligar para alguns gabinetes ao lado mas ninguém atendeu. Entretanto, a onda ululante passou rente à porta e passei a ouvi-la a distanciar-se no lado oposto, até que sumiu. Pouco depois, percebi que alguém empurrava a porta, acelera-se-me o ritmo cardíaco e o calor no corpo, tremem-me as pernas, tremem-me os braços, treme-me tudo, até que quem empurra a porta passa a bater nela com os nós dos dedos e a chamar por mim. Magda, estás aí dentro? Era a   colega que voltava à sala. Quem é esse bípede que anda aí fora aos saltos e a urrar pelo corredor?
É o Vicente, diz-me ela como se dissesse aqui toda a gente sabe quem é o Vicente.
Vicente era, é, filho, de uma ninhada de seis, de um engenheiro geógrafo que trabalhara  para o Instituto no Vale do Douro, de uma família de uns viscondes arruinados do norte nos tempos do Dom Pedro.  Já não me recordo bem do nome completo, que era comprido, mas sei que era Vicente qualquer coisa Vilas Boas Monteverde. O pai geógrafo fez o melhor que sabia pelos filhos, e pelo Vicente meteu uma cunha para ele entrar no Instituto como praticante já que o rapaz não sabia fazer nada de útil na vida. Meteram-no a dar entrada e saída do correio da divisão e a distribui-lo pelos serviços. Um trabalho que até  Vicente fazia em meia hora de manhã e outra meia hora à tarde, e ele, que estava habituadinho ao ar livre, e tinha pouco que fazer, volta e meia hora dizia que ia ao 18, que era a número da porta dos sanitários dos homens, e aproveitava para umas demoradas passeatas pelo corredor. Até que um dia, começou a ensaiar levitações e a urrar para facilitar a prática do exercício. No começo, a coisa deu que falar, o Vicente foi alertado que deveria abster-se de saltos e ruídos no local e dentro das horas de trabalho, chegou a falar-se em despedimento, mas depois, porque o padrinho era de peso, e o Vicente era inofensivo, foi dado como doido e aceite a título definitivo para o serviço. 
Sosseguei. Vim a saber depois que o Vicente não era caso único. A instituição, aquela e outras, da alçada do Estado, era albergue de todos quantos, mais ou menos incapazes, se penduravam no orçamento por não terem mais onde se pendurar mas tinham quem os pendurasse lá.
De vez em quando passava por ele no corredor, lá ia o Vicente, Uh! Uh! Uh!, a exercitar levitações. Diziam, nunca se soube se era verdade, que o Vicente frequentava aulas de ciências transcendentais, que acreditava que um dia iria para o céu, e por que não? por que não?, perguntava ele a quem duvidasse, e, sendo assim, como se dizia, o melhor mesmo era preparar a ascensão na altura própria, com suficiente tempo de antecedência. De orc repugnante o Vicente tornou-se com o passar do tempo, sobretudo aos olhos das mulheres, que viam nele cintilações de vestígios de nobreza antiga, um mascote enorme, terno como um enorme urso de peluche, que lhes apetecia acariciar e levar para casa.
Outra singularidade que dava popularidade ao Vicente era o seu escrupuloso cumprimento no pagamento das dívidas que tinha em toda aquela ala do edifício.
Vivia sozinho, num quarto alugado, quem melhor lhe conhecia os hábitos era a Laurinda, a colega com quem partilhava a sala de entrada e saída de correspondência, uns bons anos mais velha que ele, e não escondiam que eram amigos íntimos. Mensalmente, no dia de pagamento, o Caixa entrava com os envelopes com o dinheiro contado e o recibo anexo, a malta assinava o recibo, conferia a massa e nos próximos dias a vida era uma alegria. A primeira vez que recebi um ordenado, ainda estava a conferir o recibo, entra o Vicente pela porta da nossa sala de modo calmo. Trazia na mão um maço de notas de vinte, colocou ao ralenti, como que a provar que, sem margem para dúvidas, a colocava, uma nota de vinte em cima de cada uma das secretárias dos meus colegas, depois disse obrigado, e saiu. Fiquei intrigada, e ainda mais porque nenhum deles tirou a nota do sítio onde o Vicente a tinha deixado, mas olharam para mim e para a minha incredulidade, como quem diz já vais ver o que vai acontecer. Aconteceu dai a meia hora, se tanto. Entra o Vicente outra vez mansamente, e pede emprestada uma nota de vinte a cada a cada um deles, prometendo pagar no fim do mês. Ninguém disse que sim nem que não, o Vicente recolheu as duas notas de vinte que tinha devolvido pouco antes, e pôs-se a olhar especado para mim. Que é que podia eu fazer, com aquela bisarma ululante a estender-me a mão?  Ainda olhei para os outros, responderam-me com silêncio inexpressivo. Abri o envelope, tirei uma nota de vinte  e estendi-a ao Vicente.
Fica descansada que no fim do mês ele paga. E pagou. Pagou e voltou a levar emprestado no fim de cada mês seguinte.
Ocorreu-me então a dúvida à forma como podia o Vicente ajustar as dívidas ao salário mensal se as dívidas aumentavam quando entrava mais pessoal. Descobri mais tarde que funcionava o salário da amiga dele como volante. Às tantas, declaradamente, o Vicente e a Laurinda tinham dívidas conjuntas.
Até ao dia em que o Vicente não apareceu no escritório e nem a amiga sabia o paradeiro dele. Soube-se pela dona da casa que tinha pago a renda de aluguer do quarto, ainda que há alguns meses não voltasse a pernoitar lá. Passada uma semana, a Laurinda, que se definhava dia para dia, foi à polícia dar conta do desaparecimento do colega e amigo. E ficámos todos à espera.
Um mês depois, feitas as diligências conforme os manuais, incluindo observação dos ares, já que se punha a hipótese dos exercícios de levitação terem dado algum resultado, e dos mares litorais, não fosse o Vicente ter ido experimentar caminhar sobre as águas, a polícia decidiu considerar o Vicente no rol dos desaparecidos, e colocar o processo em suspenso "a aguardar melhor prova". Entretanto, com o acontecimento tinha sido aberta uma vaga nos serviços, sem que a actividade dos serviços tivesse dado pela falta, começaram a chover os empenhos de todos os padrinhos dos Vicentes em fila de espera,  mas o director confrontou-se com uma dificuldade inesperada: o Vicente tinha sido dado como desaparecido, mas poderia eventualmente aparecer de um dia para o outro e reclamar, legitimamente, a reocupação do lugar, invocando uma razão justificável, o rapto, por exemplo, segundo o advogado do Instituto. Não se conformou o director com o parecer do advogado da casa, se havia uma vaga, havia que preenchê-la para não prejudicar a eficiência dos serviços, e obteve autorização para recorrer a um jurisconsulto externo. Tinham entretanto passados três meses, o Vicente continuava desaparecido, e a vaga por preencher. Chegou entretanto o parecer do jurisconsulto e o director com parecer na mão, para ultrapassar  o impedimento por desaparecimento do Vicente emitiu despacho, em cumprimento do disposto no Regulamento, dando público conhecimento "que o praticante Vicente Vilas Boas Monteverde, pertencente ao mapa de pessoal da Divisão de Obras do Instituto, cessou o contrato de trabalho por tempo indeterminado, por motivo de eventual falecimento". Se ele um dia ressuscitar, alegou o director, algum lugar se lhe  há-de arranjar. E, por aquele lado, ficou encerrado o assunto. Mas ficaram por pagar as dívidas do Vicente, outro problema às costas do director.
Não pelo valor que o Vicente tinha ficado a dever a cada um, segundo o que era público não mais que uma nota de vinte, salvo o que ele devia à Laurinda, que ninguém sabia, nem ela, talvez, mas porque o Vicente tinha desaparecido do mapa antes de receber o ordenado, e ninguém estava disposto a doar o dinheiro do ordenado por receber ao Instituto. Recorreu o director de novo aos serviços do jurisconsulto, agora por ser o advogado privativo parte interessada, também ele credor de uma nota de vinte. Na posse de novo parecer do jurisconsulto, e tendo já o director despachado o Vicente para o limbo dos eventualmente mortos, pôde o dinheiro ser levantado e entregue aos credores.
Quanto te devia a ti, Laurinda? A amiga, consumida pelo desaparecimento sem aviso do Vicente, acabou por não querer receber nada, de modo que ficaram as contas saldadas, toda a gente se deu por ressarcida. Desde então, o Vicente passou à história, mas de vez em quando, sempre que a conversa proporciona, ainda vêm para a mesa as extravagâncias do Vicente.

Agora imagina o que é uma pessoa dar de caras, de repente, com alguém que devia ter morrido há uns anos atrás? Que tens feito Vicente que nunca mais ninguém soube nada de ti? Andou meio mundo à tua procura, sabes?
Sabia, sabia, nem ele sabia outra coisa. Quando abandonou o Instituto e a amiga sem dizer quando nem para onde, o Vicente acolheu-se a casa de uma viúva, especialista bem sucedida em tarot, com programa televisivo no canal mais popular, directora na universidade de ciências transcendentais e da fenomenologia paranormal para a terceira idade nos arredores da cidade. Conhecerem-se e amarem-se foi obra de uma complementaridade impressionante: ele solteiro e endividado, ela abonada e viúva, ambos devotados por inteiro, livres de outros compromissos, às teorias e práticas da transcendentalidade. O Vicente dá aulas de levitação, só as teóricas, para as práticas tem como assistente uma filha da viúva, licenciada em motricidade humana. Os alunos pagam uma mensalidade simbólica, o que lhes rende mais é o tarot e a venda de trampolins e outros equipamentos para práticas de levitação em casa.
E ganhas bem? 
Dá para os bifes. E, como não existo, não pago impostos.
Ainda lhe perguntei se alguém já levitou, respondeu-me que não há provas concretas mas de vez em quando há uma baixa na classe. Presume-se que tenham levitado, concluiu sorridente e confiante como nunca o tinha visto antes.
Voltei-lhe as costas e vim por aí fora desenfreada. O velhaco deve ter ficado a dever, segundo as minhas contas, mais de uma nota de mil à colega de sala. E a mim, vê bem, ficou a dever-me quase outro tanto. Tudo quanto era colega mulher condoía-se com a miséria do bicho e, malvado instinto de maternidade que deita por fora quando não tem a quem se dar por dentro, entrava por baixo da mesa com mais que a nota de vinte que ele pagava e levantava todos os meses. Mas quem é que ia declarar naquela altura que tinha andado a fazer concorrência à Laurinda?