Tuesday, August 14, 2007

A BELEZA E O MIGUEL

Miguel Beleza foi ontem entrevistado na SIC-notícias por Mário Crespo, tendo como motivo o actual desconcerto nas bolsas mundiais e as culpas das sub-prime nos EUA no cartório.
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Para além de uma indisfarçada obsessão de Miguel Beleza pelo trocadilho e pelo donjuanismo serôdio, denunciando sintomas de algum trauma mal curado, o entrevistado fez algumas declarações que merecem registo.
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Questionado sobre a perda de independência do Banco de Portugal com a entrada de Portugal no euro, Miguel Beleza, recordou os tempos em que foi Governador do Banco de Portugal, o euro ainda não existia, e a sua preocupação enquanto Governador era tentar adequar a política monetária às opções do BundesBank. De vez em quando, com alguma sorte e bom relacionamento, sabia com breve antecedência para onde iam as intenções dos alemães. Mas o escudo não era independente nem poderia sê-lo no âmbito duma economia integrada. Quando os ingleses decidiram escapar à ligação ao marco, a libra não aguentou e saiu do sistema.
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Se alguém perdeu independência foi o marco alemão.
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E a propósito de uma peça que tinha antecedido a entrevista, e que recolhia a opinião de populares acerca de resultados ontem divulgados segundo os quais os salários em Portugal são os mais baixos (60% da média) da Europa-15 e o custo de vida 20% também abaixo da média do mesmo grupo, Miguel Beleza foi peremptório a classificar de disparate a percepção das pessoas de que a entrada no euro teria gerado um crescimento maior dos preços do que aquele que se verificaria se tivessemos mantido o escudo.
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Pareceres que coincidem com aquilo que aqui tenho escrito acerca dos mesmos assuntos.

Monday, August 13, 2007

E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA? - 3

Afeganistão: a guerra do ópio


As notícias que nos vão chegando do Afeganistão não dão para perceber bem o que lá se passa.Sabemos que se encontra instalada nesse País uma força multinacional, cumprindo um mandato das Nações Unidas e também da NATO para manter a paz e a ordem como forma de prevenção contra ataques terroristas, da qual faz parte um contingente militar português de cerca de duas centenas de membros.Também sabemos que a defesa da paz e da ordem neste caso significam a luta contra um inimigo estranho, os Taliban, com ligações conhecidas à Al Qaeda.Os Taliban dominaram aquele País desde o fim da ocupação soviética (1996) até 2001/2, tendo praticado uma política que não poucas vezes chocou o Ocidente por decisões que atentavam contra elementares valores civilizacionais - tais como a destruição de monumentos históricos e a execução pública de mulheres como forma de punição pela prática de adultério.Por isso (embora não apenas) a campanha militar no Afeganistão é vista no Ocidente como necessária, em contraste, por exemplo, com a que decorre no Iraque.No entanto, sabemos pouco do que se passa no Afeganistão, para além das notícias que de quando em vez – mais nos últimos meses, infelizmente – dão conta da morte de soldados da força internacional e de cidadãos afegãos apanhados em acções militares.Para melhor perceber o que se passa no Afeganistão, bem como a missão da força multinacional, recomendo aos “clientes” do 4R a leitura de uma magnífica reportagem publicada na revista New Yorker, da semana 9-16 de Julho, intitulada “The Taliban’s opium war”.Dessa reportagem se retira a noção da extrema dificuldade da missão da força multinacional para conseguir uma solução estável e duradoura para o País.A economia do Afeganistão depende muito da produção do ópio (base da produção da heroína), que representa mais de 50% do PIB do País.O regime dos Taliban tinha proibido a produção de ópio, impondo penas severas aos prevaricadores, não raro a pena de morte. Talvez essa tenha sido uma das razões da facilidade com que foram derrotados pela força anglo-americana em 2001/2002.Desde então a produção de ópio aumentou significativamente, existindo actualmente perto de 200.000 hectares dedicados ao cultivo da planta.O problema é que a força multinacional pretende também acabar com esta produção, para o que foi criada uma Afghan Eradication Force (AEF) que, juntamente com elementos americanos especializados tem vindo a destruir plantações como forma de dissuasão.Os Taliban, esquecendo as suas convicções religiosas, oferecem agora protecção aos produtores e negociantes da droga, em troca do pagamento de um imposto do ópio – o negócio é bom para ambas as partes.Acresce que muitos protegidos do regime de Cabul beneficiam da complacência do Governo/ força multinacional para manterem a produção de ópio, criando dificuldades à acção da AEF.Um puzzle estranho, que torna muito incerto o futuro do País e também o cumprimento dos objectivos da força multinacional. in Quarta República
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Caro Tavares Moreira, boa tarde!
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Antes de mais, agradeço-lhe a indicação do artigo do New Yorker, que já li, e é tão interessante quanto intrigante, como, aliás, o meu Amigo refere.
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O problema da droga, que felizmente nunca me bateu à porta, mas ninguém está livre de surpresas, é daqueles que, de vez em quando me ocorrem quando tento perceber algumas contradições da economia.
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Os relatórios da ONU vêm dando conta da dimensão e da evolução do negócio a nível mundial. Fiquei verdadeiramente surpreendido quando li, no relatório do PNUD 2000, que "O comércio ilegal de droga, em 1995, foi estimado em 400 mil milhões de dólares, cerca de 8% do comércio mundial, mais do que a parcela de ferro e aço ou de veículos motorizados e aproximadamente o mesmo que a dos têxteis (7,5%) e do gás e petróleo (8,6%).
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Desde então o negócio não deve ter perdido a sua importância relativa, ainda segundo os relatórios especializados da ONU.Um dia ocorreu-me começar a colocar aos meus amigos, se a ocasião se propiciava, a seguinte questão: Se te fosse dada uma varinha mágica que, de um momento para o outro, terminasse com o consumo de droga, o que farias?A pergunta, à primeira vista, é bizarra e nem sequer sei se é original. A mim nunca me tinha sido colocada.
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Os meus amigos, geralmente, acabam por concordar que talvez deixassem a vara mágica de lado até estudarem melhor o assunto.
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Este seu "post" só contribui, perdoe-me a imodéstia, para reforçar a pertinência daquilo que nas minhas palavras cruzadas tenho escrito sob a interrogação:E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA?
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Quanto à presença de tropas portuguesas no Afeganistão é matéria que suscita (deveria suscitar) algum debate político que, ao que parece, os principais partidos evitam.É matéria que se inclui num desafio que coloquei ao Pinho Cardão aí no "post" em baixo.


While destroying a field of opium poppies in Uruzgan Province, members of the Afghan Eradication Force came under fire in an ambush apparently orchestrated by the Taliban. Photograph by Aaron Huey.

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In the main square in Tirin Kot, the capital of Uruzgan Province, in central Afghanistan, a large billboard shows a human skeleton being hanged. The rope is not a normal gallows rope but the stem of an opium poppy. Aside from this jarring image, Tirin Kot is a bucolic-seeming place, a market town of flat-topped adobe houses and little shops on a low bluff on the eastern shore of the Tirinrud River, in a long valley bounded by open desert and jagged, treeless mountains.
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About ten thousand people live in the town. The men are bearded and wear traditional robes and tunics and cover their heads with turbans or sequinned skullcaps. There are virtually no women in sight, and when they do appear they wear all-concealing burkas. A few paved streets join at a traffic circle in the center of town, but within a few blocks they peter out to dirt tracks.
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Almost everything around Tirin Kot is some shade of brown. The river is a khaki-colored wash of silt and snowmelt that flows out of the mountain range to the north, past mud-walled family compounds. On either side of the river, however, running down the valley, there is a narrow strip of wheat fields and poppy fields, and for several weeks in the spring the poppies bloom: lovely, open-petalled white, pink, red, and magenta blossoms, the darker colors indicating the ones with the most opium.

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One afternoon this spring, at the height of the harvest, I drove through the area with Douglas Wankel, a former Drug Enforcement Administration official who was hired by the United States government in 2003 to organize its counter-narcotics effort here. Wankel, who is sixty-one and has piercing blue eyes, was stationed in Kabul as a young D.E.A. official in 1978 and 1979, during the bloody unrest that led up to the Soviet invasion. “I left on a flight to New Delhi a couple of hours before the Soviets rolled in,” he said. “People thought it was because I knew it was coming. I didn’t; I just happened to be leaving on a trip. But the Soviets branded me a C.I.A. agent, and so I couldn’t come back—until now, that is.”

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Working first with the D.E.A. and then with the State Department, Wankel helped create the Afghan Eradication Force, with troops of the Afghan National Police drawn from the Ministry of the Interior. Last year, an estimated four hundred thousand acres of opium poppies were planted in Afghanistan, a fifty-nine-per-cent increase over the previous year. Afghanistan now supplies more than ninety-two per cent of the world’s opium, the raw ingredient of heroin. More than half the country’s annual G.D.P., some $3.1 billion, is believed to come from the drug trade, and narcotics officials believe that part of the money is funding the Taliban insurgency.

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Wankel was in Uruzgan to oversee a poppy-eradication campaign—the first major effort to disrupt the harvest in the province. He had brought with him a two-hundred-and-fifty-man A.E.F. contingent, including forty-odd contractors supplied by DynCorp, a Virginia-based private military company, which has a number of large U.S. government contracts in Iraq, Afghanistan, and other parts of the world. In Colombia, DynCorp helps implement the multibillion-dollar Plan Colombia, to eradicate coca. The A.E.F.’s armed convoy had taken three days to drive from Kabul, and had set up a base on a plateau above a deep wadi. With open land all around, it was a good spot to ward off attacks.
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Much of Uruzgan is classified by the United Nations as “Extreme Risk / Hostile Environment.” The Taliban effectively controls four-fifths of the province, which, like the movement, is primarily Pashtun. Mullah Omar, the fugitive Taliban leader, was born and raised here, as were three other founders of the movement. The Taliban’s seizure of Tirin Kot, in the mid-nineties, was a key stepping stone in their march to Kabul, and their loss of the town in 2001 was a decisive moment in their fall. The Taliban have made a concerted comeback in the past two years; they are the de-facto authority in much of the Pashtun south and east, and have recently spread their violence to parts of the north as well. The debilitating and corrupting effects of the opium trade on the government of President Hamid Karzai is a significant factor in the Taliban’s revival.
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The Taliban instituted a strict Islamist policy against the opium trade during the final years of their regime, and by the time of their overthrow they had virtually eliminated it. But now, Lieutenant General Mohammad Daud-Daud, Afghanistan’s deputy minister of the interior for counter-narcotics, told me, “there has been a coalition between the Taliban and the opium smugglers. This year, they have set up a commission to tax the harvest.” In return, he said, the Taliban had offered opium farmers protection from the government’s eradication efforts. The switch in strategy has an obvious logic: it provides opium money for the Taliban to sustain itself and helps it to win over the farming communities.

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Wankel had flown in from Kabul five days earlier to meet with the governor of Uruzgan, Abdul Hakim Munib, about the eradication operation, only to discover that Munib had left for Kabul the day before. Wankel was told that a sister of the governor had died or fallen ill—there were several versions—but nobody believed this was the real reason for his absence. Munib, a former Taliban deputy minister, was suspected of retaining ties to the movement. And, Wankel noted, there were poppy fields within sight of Munib’s palace.
“We’re not able to destroy all the poppy—that’s not the point. What we’re trying to do is lend an element of threat and risk to the farmers’ calculations, so they won’t plant next year,” Wankel said later. “It’s like robbing a bank. If people see there’s more to be had by robbing a bank than by working in one, they’re going to rob it, until they learn there’s a price to pay.”

EM CASA DE FERREIRO

Há dias atendi um telefonema da Deco a convidarem-me para sócio.
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A ideia que tenho da Deco é a de uma entidade que tem realizado um trabalho com algum mérito, sendo frequentes as referências a estudos seus, geralmente idóneos.
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No entanto, alguns processos de auto promoção utilizados pela própria Deco recorrem a métodos de marketing primário e que, por isso, em nada se distinguem das formas de aliciamento dos consumidores que, supostamente, a Deco deveria arredar.
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A senhora que nos telefonou, depois de confirmar o meu nome, aquele que consta da lista telefónica e que me dá, erradamente, a viver em S. João das Lampas, desbobinou um discurso decorado acerca de uma campanha de angariação de novos sócios, tendo eu direito, se me fizesse sócio ali já, a um conjunto de promoções que não consegui reter mas também não fiz grande esforço por isso. Disse à senhora que poderia, eventualmente, tornar-me sócio da Deco mas, antes de mais, gostaria de receber informação escrita, a começar por saber o que é a Deco. Prometeu a senhora o envio de documentação satisfatória e, uns dias depois, recebo uma ficha de inscrição para preencher e devolver.
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Hoje, fui pessoalmente à Deco. Disse ao que ia e a senhora da recepção, à minha pergunta primeira, o que é a Deco e quais os seus estatutos, respondeu-me que a Deco era uma entidade privada (também eu, também ela, pelo menos até ver) e que não tinha estatutos para distribuir nem nunca ninguém lhe tinha alguma vez pedido semelhante coisa. Entretanto, uma colega que ia a sair entendeu ignorar-me e interromper a recepcionista que me atendia para lhe pedir qualquer coisa.
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Retomado o atendimento a este cidadão e consumidor, que lhes chamou a atenção para a falta flagrante em casa de quem se propõe defender o cidadão consumidor, consegui, após algumas diligências da simpática, mas estupefacta recepcionista com tanta exigência e perguntas tão estranhas, uma cópia dos estatutos, e inscrevi-me como sócio.
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Para casa trouxe, como promoção, duas revistas editadas pela Pró-Teste (gratuitas), um leitor de DVD (sem écran) e um relógio digital que projecta as horas na parede, também gratuitos.
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Agora ando à procura de a quem possa dar os brindes eléctricos que a mim não me servem para nada.

Sunday, August 12, 2007

BUCÓLICA


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A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga - S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937

Miguel Torga nasceu há cem anos, na aldeia de S. Martinho da Anta

A intimidade de Torga no centenário do seu nascimento

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1302003


Era avesso a entrevistas, dispensava mundanidades, recusava autografar os seus livros e dizia que quem o queria conhecer tinha que ler a sua obra. Mas no centenário do nascimento de Miguel Torga, que se comemora hoje (1907-1995), a inauguração da casa que o escritor habitou em Coimbra, durante quarenta anos, desvenda ao público uma parte do espaço íntimo do Orfeu Rebelde.

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A abertura da casa-museu é uma das iniciativas que decorrem durante o dia de hoje, em Coimbra, onde será inaugurado também um memorial ao escritor da autoria do arquitecto José António Bandeirinha e do artista plástico António Olaio.O espólio da casa, doado pela filha do escritor, Clara Rocha, é constituído pelos móveis, objectos pessoais, quadros e livros de Torga e ainda por um espólio documental composto por verdadeiras raridades bibliográficas. "O espólio (...) foi seleccionado e guardado por minha Mãe e é constituído pelos raríssimos manuscritos guardados pelo Poeta, por alguns dactiloscritos emendados à mão de contos e prefácios e pelas primeiras edições dos livros que o autor assinou ainda com o nome Adolfo Rocha", descreve Clara Rocha, por e-mail ao PÚBLICO.

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É na Coimbra dos anos 40 que o escritor, já casado com a professora universitária belga Andrée Crabbé, se muda para casa dos Olivais, depois de ter vivido numa pequena casa na Estrada da Beira, à beira dos laranjais do Mondego, e de ter frequentado a República Estrela do Norte durante o tempo em que estudou Medicina.

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Nem todos os espaços que poderão ser agora visitados pelo público permanecem iguais em relação à casa que o poeta habitou, mas a intimidade de Torga é reconstruída de forma fiel: o mobiliário dos séculos XVII e XVIII que o poeta foi adquirindo, a biblioteca pessoal e ainda as várias peças de arte da casa, das quais Clara Rocha destaca a pintura Ceifeiro de Dordio Gomes. "Foi oferecida a Miguel Torga pelo próprio pintor depois de ter lido o capítulo sobre o Alentejo no livro Portugal", refere. O jardim, no entanto, apesar de ter sido arranjado, está ainda assim longe de ser o que era. Clara Rocha recorda as belas colecções de flores dos Países Baixos que eram cultivadas pela mãe na parte da frente, como tulipas, narcisos e anémonas, e que hoje não fazem parte do jardim. Há, no entanto, uma planta que permanece no local e que sobreviveu décadas e décadas: uma torga, a urze típica das serras de Trás-os-Montes que o poeta adoptou para pseudónimo, e da qual o médico Adolfo Rocha arrancava todos os dias um pedaço para levar para o consultório, no Largo da Portagem. Eram os fragmentos do "reino maravilhoso" de Trás-os-Montes que o poeta gostava de conservar na cidade onde viveu a maior parte da vida

Saturday, August 11, 2007

COSTA DO CASTELO

António Costa, soube-se ontem, cancelou vários consursos de admissão de pessoal, abertos pela administração camarária anterior, deu indicações aos directores para contrairem em 35% os orçamentos dos respectivos departamentos e instruções para reduzirem as depessas de telefone e de viaturas. Intenções boas.
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Quando lhe perguntaram o que pensava de um pedido de indemnização da Sonae Sierra, por atrasos na decisão do projecto das torres Colombo, respondeu que, considerando o estado financeiramente estafado da Câmara, a ideia lhe dava vontade de rir. Má resposta. Independentemente das razões que assistem ou não à Sonae, independentemente da situação da Câmara, o presidente da edilidade não pode responder à maneira de um senhor feudal.
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Tiques da administração pública que António Costa devia eliminar. Mesmo que sejam apenas tiques nervosos.

Friday, August 10, 2007

O QUE DIZ ROUBINI

Worse than LTCM: Not Just a Liquidity Crisis; Rather a Credit Crisis and Crunch
Nouriel Roubini Aug 09, 2007

The global market turmoil got ugly today forcing the ECB and the Fed to inject liquidity in the financial system as the concerns about subprime, credit and debt turned into a full blown liquidity run and crisis. As in 1998 at the time of the LTCM crisis, the Fed and global central banks decided to ease monetary policy in between meetings and injected a large amount of liquidity into the system. Coming two days after the Fed tried to prevent perceptions of a "Bernanke put" by signaling in its FOMC statement no Fed easing and no bail out of the financial system, the Fed actions today are certainly ironic if necessary given the massive liquidity seizure in the financial markets.

But the current market turmoil is much worse than the liquidity crisis experienced by the US and the global economy in the 1998 LTCM episode. Let me explain why. Economists distinguish between liquidity crises and insolvency/debt crises. An agent (household, firm, financial corporation, country) can experience distress either because it is illiquid or because it is insolvent; of course insolvent agents are – in most cases - also illiquid, i.e. they cannot roll over their debts. Illiquidity occurs when the agent is solvent – i.e. it could pay its debts over time as long as such debts can be refinanced or rolled over - but he/she experiences a sudden liquidity crisis, i.e. its creditors are unwilling to roll over or refinance its claims. An insolvent debtor does not only face a liquidity problem (large amounts of debts coming to maturity, little stock of liquid reserves and no ability to refinance). It is also insolvent as it could not pay its claim over time even if there was no liquidity problem; thus, debt crises are more severe than illiquidity crises as they imply that the debtor is insolvent, i.e. bankrupt, and its debt claims will be defaulted and reduced. In emerging market crises of the last decade, we had liquidity crises (i.e. a solvent but illiquid sovereign) in Mexico, Korea, Brazil, Turkey; we had debt/insolvency crises (a sovereign that was both illiquid and insolvent) in Russia, Ecuador, Argentina.
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A PODA

O meu amigo Pinho Cardão continua no Quarta República a abordagem dos benefícios da redução de impostos, assunto que, claramente, não mereceria discussão se fosse exequível sem contrapartidas. Desta vez, recomenda, por paródia, que não interessando a redução da despesa a ninguém, por razões que detalhadamente explica,
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Substituam-se os Senadores!...
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A diminuição da despesa pública parece não interessar a ninguém.Não interessa aos que, por razões ideológicas, querem sempre mais e mais Estado.Não interessa aos membros do Governo, de qualquer Governo, para quem governar se resume, pelas mais diversas vias, a distribuir o dinheiro público, para sua própria honra e glória.Não interessa à Oposição, que não quer ser associada a políticas impopulares no curto prazo!... Não interessa às empresas que sempre têm vivido à sombra dos dinheiros públicosNão interessa aos Sindicatos da função pública ou aos outros, temerosos de restrições salariais.É perfeitamente indiferente para os donos das 153000 empresas que nunca pagaram um cêntimo para o fiscoÉ ainda indiferente para o milhão e cem mil agentes económicos que produzem uma colecta média inferior a 80 euros.Continua a ser indiferente para os 588.000 empresários em nome individual ou profissionais liberais que geram uma colecta média inferior a 190 euros, pela simples razão de que nunca sustentaram os gastos do Estado ou para a sua cobertura contribuem apenas simbolicamente.Finalmente, e mais grave, a diminuição da despesa pública não interessa aos senadores da política e do país, aos comentadores permanentes, aos analistas profissionais, aos economistas académicos, aos velhos do Restelo, formatados no politicamente correcto e de uma forma ou de outra dependentes dos poderes instituídos.Por isso, o contínuo adiar da redefinição das funções do Estado e da reestruturação da função pública tem um suporte fortíssimo e decisivo na cultura vigente.É por uma questão cultural que a despesa pública não diminui, o Estado engorda e a economia não cresce. Está mais que provado.Mas os pensadores continuam com a mesma receita. Substituam-se os senadores!...

Caríssimo Pinho Cardão
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Dizes :"A diminuição da despesa pública parece não interessar a ninguém." Citas vários exemplos, e nisso concordo contigo.Mas acabas por receitar apenas o despedimento dos senadores. Não sou um deles nem tenho procuração mas, claramente, não é por aí que vamos lá.
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Registo que reconheces que a redução da despesa, que poderá ou não envolver a redução da dimensão das atribuições do Estado, é fundamental para o crescimento económico. Parece-me que, entre nós, há apenas uma diferença de timming: tu achas que se devem reduzir os impostos e a redução da despesa virá por acréscimo.Eu (e estou bem acompanhado) sou pela redução da despesa, e só depois pela redução dos impostos. Colocas uma alternativa (aumento da dívida) que me parece que depois descartas. Na realidade o aumento da dívida seria uma saída perigosa, seria dar rédeas ao monstro.
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Assim sendo, e estando de acordo contigo que a muita gente não interessa a redução da despesa (mas, como tu referes, também a muita gente não diz nada a redução dos impostos) e a muito mais gente estas questões nada dizem, sobram, no entanto, estes espaços de liberdade a que chamam blogues para, sem custos nem benefícios pessoais, discutir aquilo que muitos não querem discutir, por interesses próprios ou por ignorância.
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Hoje é pacífico que os Estados cresceram desmesuradamente e que uma poda é fundamental para que o crescimento económico volte a ser irrigado de mais iniciativa individual. Afigura-se-me muito contrapoducente que o PSD insista numa proposta (de redução de impostos) que nem resultaria nem é susceptível de convencer a maioria dos contribuintes.
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Claro que a discussão da redução do perímetro do Estado não é pacífica nem eu sou tão naif que não perceba a relutância de muita gente. Mas é, de todo em todo inconsequente e demagógico, o ataque às medidas deste Governo (tímidas, ou insuficientes que sejam) no sentido de reduzir o Estado. Porque é um facto que este governo tem tomado (ou tem sido obrigado a tomar) medidas que os governos anteriores gostariam de ter tomado e não o fizeram. O PSD não pode continuar a querer afirmar-se pela negativa. Ora é precisamente porque essas medidas têm sido insuficientes que é necessário reclamar mais.
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Para o fazer não precisamos de fazer grandes cálculos porque há muita erva a mondar.Queres exemplos concretos : as despesas com a defesa, as instalações afectas à defesa.Conheces alguma cidade europeia onde quarteirões inteiros estejam ainda dedicados a quarteis com guaritas a cair de podres, como em Lisboa?Porque temos nós um peso de despesas com a defesa, relativamente ao PIB, que excedem os valores da maior parte dos nosso parceiros europeus?
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A lista é longa mas eu já me alonguei bastante.
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É preciso podar o Estado. Precisa-se pois, não de despedir os senadores, porque isso é uma figura de retórica, mas de liderança capaz de convencer os portugueses quanto essa poda é fundamental.
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Discutamos, pois, a poda.

TURISMO PORTUGUÊS

Visitámos o castelo de Silves a acompanhar uns amigos estrangeiros. Estava o castelo em bolandas, poeira por todo o lado, D. Sancho I parecia o sentinela hipnotizado de um quartel assaltado por transformers de uma brigada da Al-Qaeda. Parece que no recinto vão implantar um restaurante ou coisa parecida, no âmbito da recuperação urbana Polis. Não havia ninguém que soubesse dar algumas informações acerca da história do sítio e aquelas que constam dos folhetos disponíveis são manifestamente escassas. A quem cobra as entradas, foi perguntado quando tinham sido construídas aquelas muralhas. Sec. X, respondeu ela, por ter aprendido de ouvido.
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Sec XX, respondeu alguém ao lado; por este andar, daqui a alguns anos, a excrescência em construção será do tempo dos afonsinos.
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Visitámos o castelo Montemor-o-Velho. Um espaço lavado. Procurámos o posto de informações, não estava a porta aberta, mas deixou-se abrir. Lá dentro, ninguém. Self-service? Não. A funcionária terá ido apanhar ar já que o cubículo é apertado. Quando voltou, perguntámos-lhe se havia monografia acerca da história do castelo. Não havia. E sabe quando foram reconstruídas, pela última vez, as muralhas. Não faço a mínima ideia, disse ela sem pestanejar.
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Saímos. Claramente, a senhora das informações não as tinha para dar nem vender.

Thursday, August 09, 2007

JOE MANHOSO

O Joe vendia alfaces até ao dia em que foi garimpar ouro deitado à rua, e fez uma fortuna desmedida. Depois tornou-se jogador na bolsa. Voltou a ganhar, sem pagar impostos à medida. Tornou-se coleccionador de arte e coleccionador de colecções. Com tanto dinheiro e arte, dá-se a ao luxo de dizer umas verdades e algumas barbaridades, isentas de impostos. A mais recente diatribe contra Jardim e outros identificados seria caso para ficar alguém gravemente esmurrado se não vivêssemos sob a alçada de uma justiça de insondáveis costumes. Noutros tempos, estas coisas discutiam-se em duelo e o mais certo era um dos atiradores ir desta para a outra mais cedo.
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Nos tempos que correm, talvez, ainda um dia destes, os vejamos de mãos dadas.

Wednesday, August 08, 2007

NOT BAD


Se em Portugal fossem realizados testes a alunos finalistas do ensino secundário acerca da sua literacia económica e financeira que resultados se obteriam? Nos EUA os resultados de um tal teste foram animadores. Considerando que, tal como cá, nos EUA os alunos que terminam o secundário apresentam grandes fragilidades no vocabulário, na leitura, em matemática, a relativa boa performance em conhecimentos nas áreas da economia e finanças parece confirmar o interesse que o sentido prático dedica a matérias que afectam materialmente os indivíduos. Dito de outro modo, se o ensino da matemática fosse mais dirigido para as aplicações
em cada área não seriam melhores os resultados? Nuno Crato, na sua coluna habitual do Expresso, último número, conclui que "Uma boa preparação em matemática facilita o estudo em cada uma das (...) outras disciplinas estudadas. Os números, a prática do raciocínio rigoroso e o treino da abstracção valem a pena". Pois valem. Mas, como dizia Pessoa, a propósito da beleza do binómio de Newton, há pouca gente a dar por isso.
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Test Finds 42% of Seniors Proficient in Economics

'Results Are Not Discouraging,' Says Official
By
Michael Alison ChandlerWashington Post Staff WriterWednesday, August 8, 2007;

One out of 10 high school seniors who took a new national test could analyze the impact of the unemployment rate on the economy. Two out of five knew enough about tariffs to determine why domestic industries would push for them. And three out of five could identify factors that drive up the national debt.

Those were some of the key results released this morning from the first National Assessment of Educational Progress to measure economics literacy among high school students. NAEP for decades has measured proficiency in reading, math and other subjects through periodic examinations given to a sampling of students.

Known as the nation's report card, the federally funded test turned to economics because of a rise in the past 20 years of high school economics courses, officials said. Officials also pointed to the rising importance of fluency in the language of markets, finance, labor and related topics in an increasingly global economy.

"While there is clear room for improvement, the results are not discouraging," said Darvin M. Winick, chairman of the National Assessment Governing Board, which oversees policy for the NAEP tests, in a statement before a news conference in Washington this morning. "Given the number of students who finish high school with a limited vocabulary, not reading well, and weak in math, the results may be as good as or better than we should expect."

Slightly more than four out of 10 12th-graders tested, or 42 percent, demonstrated proficiency in economics, the data showed. That meant they were able to identify and apply important economic concepts in national and international arenas, according to a news release, as well as work with key terms in personal finance.

About 11,500 students were included in the nationally representative sample from 590 public and private schools.
Economics courses are required for graduation in only about a third of the states, the study found, but 87 percent of seniors reported some exposure to economics in high school. The study found achievement gaps among demographic groups similar to the historic trends in reading and math. Fifty-one percent of white students scored at or above proficient on the test, compared with 16 percent of black students and 21 percent of Hispanic students.

In other findings:
**72 percent of test takers described a benefit and a risk of leaving a full-time job to further one's education;
**60 percent identified factors that lead to an increase in the national debt;
**52 percent identified how commercial banks use money deposited into checking accounts;
** 40 percent determined why industries can successfully lobby for tariff protection;
** 32 percent identified how investment in education can impact economic growth; and
** 11% analyzed how a change in the unemployment rate affects income, spending, and production.

ALGAR SECO


VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA - 8

Nem sempre tenho estado de acordo com os textos de Tiago Mendes publicados no Diário Económico. Mas não posso estar mais de acordo com o de hoje: Repensar o PEC. Falta saber o que pensam os amigos neo-liberais.
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In Diário Económico
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Repensar o PEC
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A existência de entidades independentes com certos poderes pode ser positiva para uma democracia liberal.
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Tiago Mendes
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Uma notícia desagradável para cada um, porém boa para todos: o preço da água deverá subir entre 25% a 30% até 2010, por pressão da Comissão Europeia. Como outras medidas impopulares mas necessárias, esta subida de preço recorda-nos de como a existência de entidades independentes com certos poderes pode ser positiva para uma democracia liberal.
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É neste quadro que devemos reflectir sobre o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). Os “números” do PEC continuam a ser motivo de demagogias incompreensíveis. Diversos políticos e comentadores – economistas, muitos deles – falam desses números com o desdém de quem não lhes reconhece qualquer lógica. E, no entanto, ela é simples: uma gestão sustentável das finanças públicas requer solvabilidade a longo prazo; um défice temporário (”fluxo”) pode ser financiado através da emissão de dívida pública (‘stock’); quando esta é igual a 60% do PIB e a taxa de juro relevante se fixa nos 5%, a restrição orçamental de longo prazo impõe que o défice orçamental não exceda os 3% do PIB.
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Numa Europa a envelhecer e com um Estado social generoso, acabar com o PEC – como defenderam, nestas páginas e em tons diferentes, Domingos Amaral e Ricardo Reis – parece-me muito arriscado. Inerente à moeda única é a premissa forte de que uma série de variáveis macroeconómicas não derrapará nos países que a adoptaram. Com regras menos apertadas e um número crescente de países-membros, a instabilidade espreitará. Acresce que o BCE tem ganho credibilidade, mas não tem a autoridade de um “Papa” (recorde-se Greenspan), o que implica ainda que a reorientação da sua política monetária – com maior peso para o crescimento económico – não possa ser vista como uma ruptura. Depois dos incumprimentos da França e da Alemanha, a revisão do procedimento relativo aos défices excessivos adquire uma importância central na reforma do PEC, sendo essencial distinguir o impacto de políticas governativas do de outras variáveis económicas e enquadrar as reformas estruturais. Esta flexibilização exige duas contrapartidas: situar em 1%-2% o objectivo para o défice em períodos de crescimento económico e atribuir maior independência aos responsáveis por fazer cumprir o acordo revisto. Optar pelo facilitismo, cedendo às pressões eleitorais de cada país, poderá ser fatal para o projecto europeu.
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____Tiago Mendes, Economista e tutor no Christ Church College, Oxford tiago.mendes@economics.oxford.ac.uk

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA - 7

Eduardo Catroga: "Não estão criadas condições para baixar os impostos" 07.08.2007 - 18h50 Lusa, PUBLICO.PT

O antigo ministro das Finanças Eduardo Catroga reconheceu hoje que não existem ainda condições para reduzir os impostos, argumentando que só no final da actual legislatura deverá ser dado "um sinal de alívio da carga fiscal".

"Não estão criadas condições para baixar os impostos", admitiu Eduardo Catroga, no final da primeira reunião do grupo que colabora na elaboração da moção de estratégia global que Marques Mendes vai apresentar nas eleições para a presidência do PSD.Catroga entende que "é preciso dar um sinal de alívio da carga fiscal para as empresas e famílias" — o que poderá acontecer "em 2008 ou 2009" —, mas sublinhou que até lá os esforços devem concentrar-se na criação de condições para baixar os impostos."Não defendo uma baixa sem a diminuição da despesa pública corrente e o Governo ainda não tem tido muito sucesso na diminuição da despesa pública", disse.
A posição assumida pelo antigo ministro de Cavaco Silva contraria uma posição tornada pública há alguns meses pelo líder do PSD, que desafiou o Governo a baixar de imediato a carga fiscal para estimular o crescimento da economia. O primeiro-ministro, José Sócrates, rejeitou uma descida imediata dos impostos, escusando-se a revelar quando tal será possível.Relativamente à participação na campanha do líder social-democrata, Eduardo Catroga disse que se trata de "uma colaboração pontual"."Sou amigo de Marques Mendes desde que estivemos juntos no Governo de Cavaco Silva. Tenho com ele uma óptima relação e é uma colaboração pontual. Não estou na vida política activa", declarou. O antigo ministro sublinhou ainda que é defensor da estabilidade política, não apenas nos Governos, que devem completar os quatro anos da legislatura para que são eleitos, salvo "circunstâncias especiais", como também na oposição.
"É preciso estabilidade na oposição, é preciso dar-lhe tempo. O líder da oposição deve ter o mesmo tempo, quatro anos, e deve ser julgado ao fim desse período", salientou.

QUANTOS SÃO? - 2

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Há, certamente, em toda esta confusão de números acerca de quantos funcionários são pagos pela Administração Pública uma qualquer subtileza que o meu entendimento não alcança.
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A mesma questão foi há algum tempo abordada (...) no Quarta República, tendo eu tido, na oportunidade, a leviandade de afirmar que era bem capaz de propor um método para acabar de vez com a discussão. Não me apareceu a encomenda do serviço, que tinha proposto realizar gratuitamente.
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Meti a viola no saco, mas a minha estranheza é tanta que a minha curiosidade não se contem, lendo este seu "post" de perguntar, novamente: Que diabo, para mim invisível, impede a contagem, em cada momento, dos funcionários públicos (por ministérios, direcções-gerais, serviços etc., por categorias profissionais, por idades, etc)?
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A questão parece-me importante, porque sendo um dos objectivos do Governo reduzir o número dos funcionários do Estado, o cumprimento desse objectivo exige a contagem permanente dos mesmos. Ou não?
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Assim sendo, porque não exige a Oposição no Parlamento a informação necessária?
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É certo que, ainda anteontem, o sistema de contagemde votos do BCP deu a barraca que deu, mas admite-se que tenha havido sabotagem.
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No caso da contagem dos funcionários públicos, o que é que há?
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Desculpem a ingenuidade deste pagador de impostos.

TORGA

Costuma dizer-se que os Poetas não têm biogra­fia. No caso de Torga assim não acontece. A sua vida constitui o húmus de toda a sua escrita, tanto na poe­sia, como na prosa (o romance autobiográ­fico A Criação do Mundo, representa o percurso inteiro de uma vida e quem a lê fica ciente de tudo o que res­peita ao homem e ao escritor) ...

Cristóvão de Aguiar (A destreza das dúvidas)

Em Setembro de 79, a Arcádia publicou um livro “Miguel Torga - poeta ibérico”, de Jesús Herrero, um basco que estudou Psicologia em Lisboa, e se dedicou à psico-sociologia de Ortega y Gasset (que também tinha residido em Lisboa por um largo período da sua vida).
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O ensaio de Herrero recorre, ao longo de todo o texto, ao pensamento do filósofo espanhol para propor a sua compreensão da vida, da atitude, e da poesia de Torga.
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“Os críticos estruturalistas não tomam em conta, geralmente, a biografia dos poetas criticados…” “Em contraste com a tendência objectivante apresenta-se a tendência personalista. Todo o processo criador é sempre duplo, diz Jung: humano-pessoal e impessoal.” Para Ortega y Gasset “cada obra de arte é um troço de vida de um homem e da sua intimidade, que se exprime por meio da obra”
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“Canto e cuento es la poesía.
Se canta una viva historia
contando su melodía”
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(António Machado)
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“Se me perguntam o que é a minha poesia, terei que dizer-lhes: não sei. Mas se o perguntam à minha poesia, ela lhes dirá quem sou” - Pablo Neruda.
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Eu, que me confesso um impenitente admirador de Torga, não vejo que possa separar-se nele o homem, o poeta, e a sua circunstância. Tivesse Torga nascido em Lisboa, e não deixaria de o abanar a sua alma de poeta. Mas não seria Torga. Maior ou menor, é questão que não pode colocar-se. Provavelmente, seria o mesmo, mas outro.

Tuesday, August 07, 2007

CASTELO DE MONTEMOR-O-VELHO


COM A CORDA NA GARGANTA

No mesmo dia em que eram anunciados aumentos nas taxas de juro no crédito à habitação, o Diário Económico inseria um artigo onde dava conta da crescente concorrência no sector bancário:
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"Bancos menos exigentes quando concedem crédito" "As pressões da concorrência motivam os bancos a descer os "spreads" e a alargar o prazo dos empréstimos para a compra de casa" ..."No primeiro semestre deste ano, as cinco maiores instituições financeiras nacionais reportaram um crescimento dos lucros na ordem dos 21,1% para um total de 1,63 mil milhões de euros" ..."No entanto (indiciam-se) (...) alguns sinais de preocupação neste segmento no que se refere à capacidade dos consumidores assegurarem o serviço da dívida, bem como em relação às perspectivas no mercado do crédito à habitação".
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Resumindo e concluindo: os Bancos continuam alegremente a explorar o segmento do crédito à habitação como produto privilegiado para o crescimento da sua dimensão e dos seus resultados.
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Parece escapar, propositadamente ou não, aos analistas um facto que ilude a aparente displicência com que os Bancos analisam a capacidade de crédito dos seus clientes: a exigência de garantias pessoais (fiança dos tomadores dos empréstimos ou de terceiros com solvabilidade suficiente) em sobreposição das garantias reais (hipoteca do prédio financiado). As garantias pessoais são, com efeito, o travão mais eficiente dos bancos para o incumprimento das prestações de capital e juros ou a entrega da propriedade aos bancos em caso de total impossibilidade de cumprimento por parte do tomadores dos empréstimos ou de descida acentuada dos preços das habitações. As garantias pessoais são a corda na garganta dos tomadores dos empréstimos que garantem aos bancos prioridade sobre todos os outros compromissos e, além disso, o bloqueamento à revogação dos contratos em caso de decréscimo acentuado dos preços das casas. Dito de outro modo, se ocorrer uma descida acentuada do preço das casas, ou um aumento incomportável dos juros, os tomadores dos empréstimos estão condenados a suportar para toda a vida (do empréstimo, que tende a ser cada vez mais próxima da vida média dos tomadores) o pagamento de um activo desvalorizado.
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Se não existissem garantias pessoais seguramente que os bancos seriam mais cuidadosos na análise da solvência dos seus clientes de crédito para habitação. Assim, não.
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Até que o laço se enlace nos lançadores do laço.

Monday, August 06, 2007

SENHORA DO Ó

Castelo de Montemor-o-Velho

SOMA, E SEGUE?

Já, por diversas vezes, trouxe aqui para o Aliás opiniões de Nouriel Roubini (RGE monitor), nomeadamente, acerca da crise latente que atravessa o sector financeiro nos EUA em consequência do desmoronamento que se observa no mercado das sub-prime. E a propósito desse facto, tenho-o comparado com os riscos múltiplos que impendem sobre a economia portuguesa, fortemente dependente da construção civil, do mercado imobiliário, do crescente endividamento das famílias.
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Transcrevo:
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Tem sido largamente debatida na imprensa especializada a questão da crise que se abateu sobre o mercado de crédito hipotecário nos USA, normalmente conhecido por “sub-prime loan market”.Trata-se de um mercado em que se transaccionam créditos hipotecários concedidos a devedores de alto risco (pelos bancos chamados originadores) – um pouco à imagem do crédito que entre nós é concedido pelas múltiplas empresas financeiras (IFIC’s e outras) que concedem crédito a particulares por métodos simplificados (sem uma análise de risco minimamente cuidada).Essa crise no “sub-prime” acentuou-se nos últimos dias, tendo causado já sérias dificuldades em instituições financeiras não só nos USA mas noutros Países como a Alemanha.Em consequência dessa crise é hoje muito mais dificil obter crédito bancário em alguns segmentos do mercado, por exemplo o crédito que até agora era generosamente concedido aos fundos de “private equity” para aquisição de participações no capital de empresas.Outra das consequências é a maior dificuldade dos bancos originadores em alienar os créditos concedidos para o mercado através do método da securitização (ou titularização).Este último método, da securitização de partes da sua carteira de crédito - com destaque para o crédito à habitação – tem sido abundantemente utilizado pelos bancos portugueses nos últimos anos para financiar a expansão da sua actividade creditícia face ao escasso crescimento da poupança interna, ou seja dos depósitos dos particulares e das empresas.É a esta luz que interpreto a notícia divulgada esta manhã de subida acentuada das taxas do crédito à habitação, que estão agora acima de 6% e poderão ainda aumentar.Quer isto dizer que em 2 anos as taxas de juro aumentaram mais de 100%.Os bancos devem estar a reagir por antecipação, prevendo maior dificuldade em obter “funding”- via securitização - para refinanciar o crédito que concedem.Maior dificuldade e também “spreads” mais elevados.O agravamento dos “spreads” deverá transmitir-se ao crédito às empresas, resta saber com que amplitude.Face a esta evolução, valerá a pena recordar a famosa história dos “arredondamentos” que Pinho Cardão e eu próprio aqui criticamos pela sua irrelevância salvo quanto ao efeito de propaganda, o tal marketing oficial.É hoje bem visível a inutilidade de tais arredondamentos face a estas subidas dos juros dos empréstimos.E o que dizer em relação ao forte crescimento dos resultados dos bancos?Mas muito mais importante do que isso tudo é o excesso de endividamento que não tem solução à vista – a tendência continua a ser para maior agravamento.São cada vez mais visíveis os riscos desse excesso de endividamento a que nos entregamos quando entramos no Euro muito alegres, felicíssimos, mas de olhos fechados.
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Comentei:
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Pois, pela minha parte, não vejo que possa haver grandes discordâncias.
Um dos economistas que nos USA mais se tem dedicado a este assunto das sub-prime (o seu blog http://www.rgemonitor.com/blog/roubini) é um dos "paineis de bordo" mais consultados, segundo o Washington Post), tem vindo a prognosticar com grande grau de acerto, a evolução da situação e a sua influência na economia em geral.
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Há quem argumente, e suponho que é esse o alcance da pergunta de T., que a comparação do endividamento das famílias pressupõe, para ser correcta, a comparação do endividamento sem amortizações por aquisição de casa própria.
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Nos USA, tem-se observado ultimamente um número elevado de resolução de contratos de empréstimos bancários por entrega de casas que no mercado valem muito menos do que o valor de aquisição. Em Portugal, as garantias pessoais inibem os compradores de procederem de igual modo e, esse facto, do meu ponto de vista, é um dos factores de sustentação dos preços num mercado que cada dia que passa acumula stocks.
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Até quando?

Sunday, August 05, 2007

OS DONOS DA BOLA

1951, Setembro


Toda a gente passa na vida por encruzilhadas complicadas, daquelas que ninguém sabe se deve ir por aqui ou por acolá, ou, quando não há outro caminho, aguentar a ver o que dá, e logo se verá. Mas quando quem está na encruzilhada é um puto, e não há por perto quem dê um palpite, o mais certo é começar a dar-lhe volta a barriga.

Foi o que me aconteceu, tinha nove anos, e o António desapareceu por cima de um telhado a buscar uma bola, passou uma eternidade e eu sem saber que volta dar à vida. Para subir ao telhado faltava-me comprimento ou uma ajuda, voltar para casa sozinho nem pensar, que diria eu, que tinha saído de casa com ele, de modo que fiquei ali especado atrás do poste de iluminação pública, não era o melhor sítio porque me tirava visibilidade, mas escondia-me do dono do telhado de onde o António não aparecia, sem eu saber por quê.

Era Setembro, tínhamos estado a jogar a bola no largo da loja, em frente ficava uma casa térrea com uma platibanda a encobrir o telhado, uma daquelas coisas que nunca deveriam ter sido inventadas porque bola que fosse lá para cima ou caía para o quintal das traseiras ou ficava presa na aberração. Os telhados com beirais são muito mais amáveis, se lhes mandamos com uma bola eles depressa a devolvem.

Eu e o António tínhamos coleccionado as estampas que saíam enroladas em rebuçados, os capitais eram reduzidos, a sociedade surgira naturalmente como forma de menos dificilmente financiarmos o investimento, uma bola a valer.

A estampa numerada era a bandeira do Brasil; do escudo de Portugal, viemos a saber mais tarde, havia só cinco estampas, as outras eram mais ou menos difíceis mas havia várias. Quando a lata foi aberta, houve quem tivesse feito correr o boato que a bandeira do México era das mais difíceis, mas depressa se percebeu que não era: ao Barrigana, por dois tostões, saíram três bandeiras mexicanas de uma assentada, que não lhe serviram de muito porque ninguém as quis por troca. Mas, antes disso acontecer, tinham chegado a estar no mercado das trocas, cada uma por dez das outras.

O Barrigana depressa percebeu o funcionamento do mercado e, por uns dias, desandou para outra freguesia a tentar trocar as sobras. Quando voltou, tinha a colecção completa, só lhe faltava a bandeira do Brasil. A ele, a nós, e a mais dois ou três.

Era a primeira vez que aparecia pelas nossas bandas uma promoção de rebuçados com estampas, mas quase sempre os rebuçados iam fora e a colecção só servia ao sortudo a quem saísse a senha numerada, uma por lata, porque era ele levava a bola. Só depois dessa colecção das bandeiras e escudos apareceram as dos jogadores de futebol.

Eu partilhava a colecção com o meu primo António, e ele, mais abonado, conseguira que a sorte e mais tostões lhe tivessem dado dois escudos de Portugal. Trocámos o excedente por quase um terço da colecção com o Serôdio, que comprava noutra loja, e onde o escudo nacional estava chato de sair. Quando o Serôdio veio a saber que, afinal, o escudo de Portugal era, na lata de onde ele gastava, a estampa numerada, quis desfazer o negócio, e a divergência só não deu pancada porque o António concedeu entregar-lhe mais algumas estampas que tínhamos várias vezes repetidas.

Por essa altura, já havia, conhecidas, quatro colecções à espera da senha numerada, ninguém dispunha, contudo, de capital suficiente para arrematar o que sobrava ainda na lata.

Entretanto, a bola de cautchoug "cosida à mão e câmara-de-ar ultra resistente" continuava lá em cima, inacessível e insinuante, à espera que a lata se esvaziasse, porque era certo e sabido que o dono da loja metia sempre a senha numerada no fundo, de outro modo não venderia os rebuçados que não interessavam a ninguém.

Enquanto a lata não esgotava e não saia a redondinha, jogava-se a bola de trapos enfiados numa meia, surripiada muito antes de ter sido considerada inválida por falta de resistência a mais remendos. Encarregava-se de arranjar uma meia o Constantino, porque a mãe dele tinha as pernas grossas, e a bola de trapos enfiados numa meia das dela, depois de cheia, comportava-se bem ainda que não pudesse comparar-se com uma de cautchoug.

Sempre que algum dos coleccionadores inventava maneira de descobrir uns trocos esquecidos e os trocava por meia dúzia de rebuçados da bola, parava o jogo e a trupe toda ia ver o nível da lata e assistir ao desembrulhar das estampas. Para bem assegurar este controlo permanente, transferiu-se o campo de jogos do adro da igreja para o largo da loja, em frente do fornecedor.
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Quando cinco colecções já estavam quase completas, faltava-nos apenas a senha numerada, a bandeira do Brasil, começaram a rarear as compras: ninguém, a menos que estivesse distraído ou não soubesse fazer contas, queria facilitar o acesso à senha da bola, baixando desinteressadamente o nível do stock e facilitando a compra do resto. Para a compra por atacado do que sobrava não havia capital disponível. Ainda me ocorreu alargarmos a sociedade e juntar os meios dispersos mas o António opôs-se e os outros também não acharam conveniente a proposta.

Até que, uma tarde, já quase ao lusco-fusco, estava a loja quase a fechar e o jogo a terminar, o António, surpreendendo todos, e também a mim que era seu sócio, sacou dos bolsos duas moedas de vinte e cinco tostões com a convicção de um jogador sabido, entrou na loja e esvaziou a lata arrematando os quase cem rebuçados que restavam, e ainda sobrou dinheiro. Acercou-se a malta, mais curiosa e ansiosa que nunca: chegara a hora dos chutos numa bola a sério, aos gomos, com câmara-de-ar e tudo.

A ninguém passava pela cabeça que, saída a bola, os donos fossem brincar sozinhos com ela para um canto. A vantagem de ser o dono da bola não passava, portanto, de um ilusório sentido de posse.

Caprichou a sorte em manter o suspense até quase ao fim, faltava já pouco para desembrulhar quando o António, que metera prudentemente a tonelagem comprada nos bolsos e tirava de lá um exemplar de cada vez, exibiu orgulhoso a estampa da bandeira do Brasil, numerada no verso, que valia a bola.

Demos um salto a casa, que ainda era longe dali, a buscar a colecção e ainda chegámos a tempo de levantar a bola naquele dia. Foi o Tubarão, o mais velho e espigado, quem procedeu ao controlo de qualidade, sacando, de repente, a bola das mãos do António para a apertar entra as mãos até ela chiar; repetiu o gesto duas ou três vezes e sentenciou que era boa mas podia ser melhor. Se fosse dele, foi o que toda a gente pensou, mas ninguém abriu a boca.
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De boca aberta ficou a malta toda quando o Tubarão, feita a inspecção afinfou na bola um chuto com tanta gana que ela voou como um foguete, fez pááá!!!, e foi aterrar no telhado da casa mesmo em frente, a tal que tinha a platibanda.

Ao António vieram-lhe as lágrimas aos olhos, mas só eu é que reparei, se a fraqueza dele desse nas vistas dos outros era uma vergonha, e o António percebendo isso a tempo, foi o primeiro a escalar o muro que cercava a propriedade, para, a partir dele, subir ao telhado onde parava a bola, empoleirado nos ombros no Tubarão, o autor do desastre.

Na ânsia de chegar à bola antes que fosse tarde, o António descurou as telhas onde punha as botas e deve ter rachado algumas porque o dono da casa abriu a porta e saiu para a rua intrigado sem saber porque lhe estava o telhado a ruir. Mal a porta deu sinal que ia abrir-se, levantou a pardalada, cada um para seu canto, a caminho de casa, e a jornada daquele dia acabou ali. O António, ainda em cima do telhado, agachou-se o mais que pôde para não ser visto, e com a ajuda da chegada da noite, que não era de lua, aguentou até que o homem desconfiado voltou para dentro.

Tínhamos concordado, eu e o António, que na primeira semana a bola seria dele, que morava mais longe e tinha outro grupo, na semana seguinte ficaria à minha guarda. E assim por diante, enquanto houvesse bola. Fiquei ali, portanto, por solidariedade com o sócio e pelo direito de propriedade conjunta.

Passado um tempo sem fim, o António não dava sinais de vida, e a mim começou-me a barriga às voltas, com intensidade imparável. O que é que se faz numa ocasião destas? Foi o que eu fiz, e melhorou mas não passou. Depois assobiei, primeiro baixinho, depois mais forte. Continuei sem saber do António, e o Serafim, era assim que se chamava o dono da casa, talvez alertado pelo assobio, veio outra vez cá fora, de radar às voltas. Esteve ali, descansadamente, de vez em quando parecia que ia regressar para dentro, era o voltavas, a certa altura encostou-se à ombreira da porta, a palitar os dentes e a contar as estrelas. Voltou-me o aperto de barriga sem que eu pudesse descolar-me do poste que me escondia.

Só quando a mulher, de dentro de casa, o chamou por uma razão qualquer que não percebi, é que o Serafim desamparou a loja. O Serafim a fechar a porta e o Tubarão, de mãos nos bolsos, a voltar ao local do crime. Assobiei-lhe e contei-lhe o que se passava.

Combinámos então que, sendo eu mais leve e ele mais alto, repetiríamos manobra que tinha colocado o António no telhado. Uma vez lá em cima, puxei-me até à altura da base da platibanda, mas não vi o António. Fiquei desesperado. O Tubarão deve ter ficado assustado porque sugeriu que invertêssemos as posições, ele subiria para os meus ombros e tentaria alcançar o telhado para um reconhecimento total. Por pouco não caímos os dois do muro para o chão, mas depressa o Tubarão parecia um gato a subir pelo cunhal da casa. Eu voltei ao poste, ansioso de notícias.

Nada. O António tinha-se sumido.

Sem mais opções, o Tubarão encolheu os ombros e pôs-se a andar. A esta hora, está em casa, rematou quando já ia longe.

Ia eu a caminho de casa, de vagar porque quanto mais depressa fosse mais depressa aumentariam os sarilhos, quando vejo à minha frente, a coxear, o vulto do António. Tinha-se esgueirado pelo lado oposto quando viu o Serafim na rua e ninguém no largo. Ao saltar do muro torcera um pé. Mas não era por isso que lhe corriam as lágrimas em bica: a bola, a nossa ambicionada bola, tinha-se rompido com o bruto chuto do Tubarão.

Ainda por cima, o António tinha de mentir à mãe que perdera as duas moedas que ela lhe dera para comprar um quilo de bacalhau na loja.

Saturday, August 04, 2007

VANDALISMO NO ALGAR SECO

Um exemplo do excesso de generosidade com que a Natureza brindou os portugueses. Lamentavelmente, é um entre muitos outros. O Algarve está cheio deles.

Friday, August 03, 2007

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA - 6

Teixeira dos Santos concedeu uma entrevista a Helena Garrido ( Diário Económico ) e, relativamente a algumas questões, o menos que se pode dizer é que para o rendez-vous o ministro levou a cartola de político e deixou o chapéu de economista em casa. Porque se é certo que as despesas do Estado apresentam uma rigidez que só pode ser quebrada à força de muita pancada, é atentar contra qualquer inteligência média afirmar que " a despesa não pode cair em termos nominais", e, logo de seguida, querendo emendar a mão, resumir a despesa às despesas com a saúde e as pensões, para afirmar: "Não sei como se reduzem essas despesas em termos nominais e merece o prémio Nobel quem me disser como se faz".
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Ainda que estas não fossem reduzíveis, também não o são as outras? Porquê?
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O ministro não disse, a entrevistadora também não insistiu com ele.
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Por outro lado, a entrevistadora deixou passar uma imprecisão flagrante: as pensões a que o ministro se referia são as pensões pagas pela Caixa Nacional de Pensões aos funcionários públicos reformados. Ora as condições de atribuição de reforma aos funcionários públicos continuam a ser muito mais favoráveis do que aquelas que são concedidas aos beneficiários do regime geral da segurança social. Porquê?
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Tenho comentado várias vezes, sobretudo no Quarta República a opinião daqueles que insistem em reclamar a redução dos impostos sem elucidarem que contrapartidas propõem na redução da despesa. Por razões de tacticismo político, não se descosem.
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Agora é o ministro que atribui o Nobel a quem disser como se reduz a despesa. Pelos mesmos motivos tácticos, escusa-se a enfrentar a questão e apoia-se a uma blague.
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A receita tem subido sempre acima do produto nominal e a despesa não tem caído em termos nominais
…Mas a despesa não pode cair em termos nominais.
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Alguns economistas consideram que existe um tal grau de ineficiência no Estado que isso seria possível.
Se olhar para as componentes da despesa, em particular em 2006, constata que as despesas com a saúde e com as pensões têm um elevado peso. Não sei como se reduzem essas despesas em termos nominais e merece o prémio Nobel quem me disser como se faz. Noutras despesas existiram diminuições nominais, designadamente nos gastos com pessoal. Se os preços aumentam é óbvio que, mesmo comprando o mesmo, a despesa tem de aumentar. Esta ideia de que a despesa nominal tem de baixar é uma bizarria que não tem fundamento económico. Temos reduzido o peso da despesa no produto e é isso que dizem todos os manuais de economia e todas as análises de consolidação orçamental.
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A redução do défice nesse quadro faz-se por via da receita.
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Não. Dois terços da redução do défice foi com redução do peso da despesa no PIB. O outro terço foi com aumento da receita e ainda bem. Só na receita fiscal fomos buscar mais de 1500 milhões de euros de cobrança de dívidas fiscais. É 1% do PIB. O que conseguimos foi fazer com que portugueses que tinham impostos em atraso ou não pagavam impostos os pagassem. Reflecte-se nos indicadores da carga fiscal que aumenta um ponto percentual.

ADSE

A reter, a posição de Vital Moreira no Causa Nossa
acerca da resposta dada por Teixeira dos Santos à pergunta de Helena Garrido (Diário Económico) acerca da continuidade da ADSE:
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Na mesma entrevista Fernando Teixeira Santos exclui também a hipótese de extinção da ADSE, argumentando que se trata de um «subsistema de saúde importante para a função pública».
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Por minha parte, continuo a pensar que a ADSE não se justifica tal como está. Primeiro, não faz sentido que, sustentando o Estado o SNS como "serviço universal", mantenha depois um subsistema de saúde privativo para os seus funcionários. Segundo, não se compreende que os contribuintes paguem cumulativamente o SNS para toda a gente e um subsistema próprio dos funcionários públicos.
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Resta esperar que o Governo assegure a "(auto) sustentabilidade financeira" da ADSE, como promete o Ministro das Finanças, o que só pode ser alcançado com o aumento das contribuições. Tal como sucede no sector privado, devem ser os beneficiários a sustentar financeiramene os subsistemas de saúde de que usufruem. É uma questão de equidade social e fiscal.
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A reter ainda, o comentário de VM a propósito da resposta de TS à questão da redução das deduções fiscais com despesas de saúde:
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Perguntado pelo Diário Económico sobre se está a considerar reduzir as deduções fiscais com despesas de saúde, o ministro das Finanças declarou que «essa matéria não está sobre a mesa [e que] não há intenção de mudar nada».É pena, como já escrevi várias vezes. Primeiro, as referidas deduções ficais representam uma pesada despesa orçamental. Segundo, elas beneficiam sobretudo as camadas socias mais abastadas, que recorrem a serviços de saúde privados. Terceiro, elas disrtorcem a proporcionalidade do IRS a favor de quem mais ganha. Quarto, elas constituem um meio de "opting out" furtivo do SNS. Quinto, a redução ou eliminação dessas deduções permitiria baixar as taxas de IRS sem perda de receita fiscalO mesmo se diga aliás das deduções relativas às despesas de educação.Não é compreensível esse conservadorismo fiscal de um Governo socialista. Cada vez mais, a política fiscal é um dos padrões decisivos da distinção entre a esquerda e a direita.

Thursday, August 02, 2007

O POPULISMO NÃO É UMA INEVITABILIDADE

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Leio as suas reflexões no Quarta República , e leio nelas os seus receios de no PSD se estar a armadilhar uma tendência que poderá comprometer o futuro do PSD a médio prazo.
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Eu, que (...) me confesso não iniciado nas subtilezas políticas, comungo dos seus receios mas não da inevitabilidade que me parece angustiá-lo.O populismo não será a via que o país precisa para a Oposição e fracturará o PSD.
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Não me parece, por outro lado, que as funções de um líder da Oposição se encontrem bloqueadas pela maioria absoluta que suporta acriticamente o Governo, por um marketing político enganoso ou uma imprensa favorável e submissa. Este Governo assumiu compromissos reportados num programa e reafirmados nos discursos. Cumpre à Oposição confrontá-lo com as não realizações.
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Mas também lhe cumpre não meter golos na própria baliza, perdoe-me o prosaico futebolístico. E, do meu ponto de vista, tem feito demasiados autogolos.O caso de Lisboa foi paradigmático: Coerentemente, Marques Mendes retirou a confiança a Carmona. Se o não tivesse feito para onde se teria arrastado a situação?Uniu-se o PSD à volta do líder? Claro que não. A oposição interna apressou-se a empurrar o que já escorregava em plano inclinado.
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É então que ressurge o Grande Líder, qual monstro Loch Ness no lago do embasbacamento.
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Se em Setembro as opções forem entre um populismo assumido e um populismo de recurso, seguramente que a populismo será uma inevitabilidade.
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Mas não há alternativa? Não há em todo o PSD uma equipa que tenha capacidade de liderança para desenhar um projecto de futuro e explicar a bondade das suas intenções aos portugueses?

Wednesday, August 01, 2007

OS PORTUGUESES - Segundo os algarismos (5)

Segundo Relatório da OCDE a que já me referi no "post" Os Portugueses segundo os algarismos (4), Portugal dispõe de mais médicos por 1000 habitantes que a média dos países da OCDE (3) e os mesmos que a Alemanha (3,4).
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Hoje, no Algarve (Carvoeiro), tivemos que recorrer a um médico para assistir uma criança. Eram nove horas da noite. O médico disponível, de uma organização de médicos alemães que presta assistência durante qualquer hora do dia, foi um jovem médico alemão.

A QUEDA JÁ COMEÇOU?

In RGE monitor

Are We at The Peak of a Minsky Credit Cycle?
Nouriel Roubini Jul 30, 2007

It is always risky to call an equity market peak and the beginning of a bear market in equities; so I will not try to do that. But leaving aside equity valuations, it increasingly looks like we are at the peak of a credit/debt cycle, in the US and globally.

Specifically, the crucial macro question that we should ask ourselves today is whether we are at the peak of a Minsky Credit Cycle. Or as the UBS economist George Magnus – an expert of financial instability - put it: “Have we reached a Minsky moment?”

DIREITOS DE PROPRIEDADE - CHINA

in The Economist

One household, one vote
Jul 12th 2007 JIUXIANQIAOFrom The Economist print edition
A novel approach to conflict-resolution

RETIRED workers who once made everything from nuclear-bomb components to wireless equipment are now living miserably in cockroach-infested slums in this corner of north-east Beijing. Many of them are also disgruntled with the compensation offered by developers who want to move them out. Disputes over relocation are rife across China, but this one is stirring a broader debate: about the meaning of democracy.

Dashanzi is a well-known trendy part of the capital, where avant-garde artists have set up studios in the abandoned factories that once formed the proud hub of China's military-electronics industry. Far less visited is Jiuxianqiao to its south, where the workers lived. Their blocks of flats, built by the Russians and East Germans in the 1950s, were once among the best in Beijing. These days, the 20,000 former workers and family members who still live in them mostly agree that housing in Beijing does not get much worse.

But they cannot agree on a common approach to the developer that wants to knock down their buildings and, reportedly, to build them new ones, as well as luxury-apartment blocks. The company will give them new flats free of charge, and cash to tide them over until these are built. Some residents say the offer is inadequate. Others, desperate to leave the cramped barrack-like buildings, where kitchens and lavatories are often shared between families, are happy to take it.
For the first reported time in the fractious history of China's recent urban makeover, residents on June 9th had a chance to vote on the offer. A month later state-owned newspapers are still poring over that event. Some called it a referendum, a term not used lightly in China. Under the Communist Party there should be no need for referendums since the party represents the will of the people. The party's dim view of this technique is evident in its dealings with Taiwan (see
article).

Ba Changrui, deputy party chief of Jiuxianqiao, which includes the slums as well as Dashanzi and its now arty factories, says he is angry with the Chinese media for portraying this as a referendum. It was, he says, merely a way of canvassing public opinion. The result imposed no obligations on the developer. In any event, it was not clear-cut: 44.8% of households voted in favour of the offer and 22.4% against, and the rest did not vote at all. But Mr Ba's denials have not stopped a torrent of media comment, some of it pasted by residents on outdoor walls.

Many Jiuxianqiao residents are long-term tenants rather than owner-occupiers. A wave of property privatisation in the late 1990s passed the area by because of the difficulty of dealing with the shared facilities. Many press articles have nevertheless denounced the use of a referendum to decide the fate of individuals' private property. Property rights, argued one commentator, were a “core human right” that could not be taken away by democracy.

But as the Legal Daily noted this week, democracies could tamper with property rights by imposing taxes. And to say that a referendum was a tyranny of the majority was a misunderstanding. “Modern democracy also means protecting the minority,” it argued. Democracy can also be confusing. In Jiuxianqiao a simple majority has approved the developer's offer. But no one knows what to make of that. As those with more experience of ballots could have told them: voting is the easy part.

Tuesday, July 31, 2007

PRÓ CRIAÇÃO E PRÓ EDUCAÇÃO

De vez em quando, lamenta-se a reduzida natalidade na maior parte das sociedades europeias. Portugal não foge à regra e situa-se entre os menos progenitores. Os incentivos do governo não passam de paliativos que não alterarão a tendência. Quem é que mudará de ideias por um reduzido subsídio monetário pontual? Provavelmente, sobretudo os mais necessitados para quem mais filho menos filho não altera a indigência, e o subsídio, mesmo que seja curto, é uma tentação que não lhes pede responsabilidades.

Enquanto as despesas de infantário e depois as de ensino pré-primário excederem as despesas do ensino universitário, e todos se conformarem com isso, haverá cada vez menos candidatos a esta última fase.

Monday, July 30, 2007

EM DEFESA DO SISTEMA

Em entrevista publicada hoje no Público, Jardim Gonçalves repete o que tem dito nos últimos dias e acrescenta (ou intui) um ponto: vê a posição do BPI (de votar contra as propostas dos (por ora) amigos de Teixeira Pinto como uma natural atitude de preservar o sistema. Por outras palavras: Hoje por mim, amanhã quem sabe por quem, o sistema deve rejeitar os arrivistas.
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Se não podes derrotar o teu inimigo, junta-te aos inimigos dele. Ulrich continua ganhador. Virá ele a ser o futuro CEO da coligação à vista?
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Não há almoços grátis. Desta vez é Jardim quem pagará a conta.