Showing posts with label incêndios. Show all posts
Showing posts with label incêndios. Show all posts

Thursday, September 19, 2024

SERIA MILAGRE

Em 10 de Julho de 2006, anotei aqui , neste caderno de apontamentos o seguinte:

"A floresta mediterrânica, predominantemente povoado por resinosas, de elevado potencial combustível, é obrigada a viver os meses de Verão em clima quente e seco, num forno.
Em Portugal, essas condições climatéricas são, geralmente, exacerbadas por uma estiagem mais prolongada. É normal, portanto, que a floresta arda.O que é anormal é que arda tanto.
Já muita gente e muitos relatórios explicaram as causas da desgraça e avançaram com terapêuticas para a combater, ainda que, relativamente a este último ponto, haja por vezes substanciais divergências.
Ano após ano, promessa atrás de promessa governamental, investem-se milhões em meios de ataque, em tudo excitantes aos que mobilizam as tropas para a guerra, e o resultado são fífias quando, no pior dos casos, não são bombeiros e populares carbonizados pelos incêndios que combatiam.
Quem não andar completamente distraído, decerto pode observar que a generalidade das nossas florestas é povoada por matos e resíduos secos à espera de um fósforo. Os acessos são, na maior parte de casos, extremamente difíceis, mesmo para viaturas adequadas.

A todas as razões que tornam a floresta portuguesa extremamente vulnerável acresce uma que potencia uma grande parte delas: a extrema pulverização da propriedade rural em Portugal a norte do Tejo. Portugal tem mais de 300 mil proprietários florestais, um número idêntico em valor absoluto ao dos Estados Unidos da América.
Não há, por esta razão preliminar, condições que permitam defender a floresta, porque não há possibilidade de rentabilidade que suporte essas condições. Toda a actividade económica para ser competitiva e possa sobreviver, pressupõe uma dimensão mínima crítica, e esta, claramente, não existe, na generalidade dos casos, na exploração florestal em Portugal.
De modo que só por milagre a floresta em Portugal deixará de arder mais e mais cada ano que passa, até à sua quase extinção.Enquanto não for reconhecido que os investimentos no combate devem ser canalizados para a defesa, continuaremos a ter fogos cada vez mais extensivos.
O problema é que uma defesa eficaz da floresta passa, necessariamente, pela alteração profunda da estrutura fundiária actual.E aí é que reside o busílis da questão: tal alteração pressupõe a tomada de medidas que só um acordo de regime poderia suportar. Mas parece que ninguém quer dar um passo nesse sentido.
Guardadas as inevitáveis diferenças, a questão é em tudo idêntica àquela que está subjacente, na maior parte dos casos, à falta de produtividade da nossa agricultura.
Sem que o Mi(ni)stério da Agricultura pareça dar por isso."
 
18 anos depois não tenho nada a alterar.

Mas devo acrescentar que, sendo falta de dimensão económica crítica em muitas propriedades rústicas. florestais ou agrícolas, a razão da ausência de meios de defesa próprios, deveria ser incentivado o emparcelamento.
Mas acontece o contrário: para além do apego sentimental de muitos proprietários às suas terras. a sua transacção, sujeita a impostos e encargos notariais, torna-a desinteressante para os proprietários mini-fundiários, que olham para o valor líquido e observam que é quase nada
Ouço e leio que o governo promete ajudas à reconstrução dos edifícios e alfaias destruidas pelo fogo.
É o menos que pode fazer.
Para o mais ninguém parece querer por as mãos no fogo. 
O Presidente Marcelo, por outro lado, assobia o Tiro Liro Liro e tira mais umas selfies.

Wednesday, July 05, 2017

INFAME

"Faltam recursos"

é a justificação frequentemente utilizada para todas as calamidades que nos assaltam por falhas graves, incompetência, desleixo ou venalidade daqueles a quem retribuímos os serviços prestados com o pagamento de impostos. Mas não só eles. 
Também os políticos, quando são oposição, arremessam os mesmos argumentos contra os que ocupam o poder sem vergonha do efeito boomerang das suas arremetidas pífias.

Há militares, incluindo um general e outros oficiais superiores, presos preventivamente por suspeito envolvimento em crimes que lesaram os contribuintes por falcatruas de conivências entre eles e os fornecedores das messes em bases da Força Aérea?
Os cortes dos orçamentos morderam-lhes nos salários e obrigaram-nos a lançar a mão aos abastecimentos, argumentava ontem num programa televisivo um militar do topo sem pejo da infâmia que lançava sobre toda a corporação. Quantas vezes não ouvimos já a mesma justificação para práticas com fins invocadamente idênticos por elementos das forças de segurança?
Ouve-se, e quase ninguém levanta a voz em nome da honra da grande maioria que honestamente cumpre a sua missão. 

Por que aconteceu a tragédia de Pedrogão Grande? Por falta de meios, é o argumento geralmente mais invocado. Da incompetência, da desorganização, da falta de preparação, fala-se em surdina, da irracionalidade económica da estrutura da propriedade fundiária fala-se agora para se deixar de falar quando passar o verão. 

Não há meios humanos nas Forças Armadas que garantam a segurança e a defesa do pessoal, das estruturas e das armas? 
O PSD e o CDS acusaram hoje o Governo de ter retirado meios à tropa, em nome do cumprimento das metas défice e, deste modo, ter impossibilitado o roubo das armas em Tancos. 
Respondeu "o ministro das  Finanças, acusando o anterior Governo de ter reduzido o número de bombeiros em 10% e o número de militares em 15% durante o período da 'troika' por "opção política" - aqui
Quem é mais ridículo?
Por eles, somos todos aos olhos dos que nos vêm de fora: El polvorín de Portugal robado: garitas vacías y soldados sin munición - aqui

Nem a actual Oposição, anterior Governo, nem o actual Governo, anterior Oposição, sabem disto?

"... os países europeus, que têm vindo a diminuir globalmente as suas despesas militares, abrandaram a queda em 2015, mas alguns - incluindo Portugal - subiram significativamente a percentagem do PIB empregue. Lideram a subida a Lituânia (+31,9%), o Luxemburgo (+25,3%) e a Polónia (+21,7%), mas são de destacar os aumentos na Grécia (+10,1%) e Portugal (+8,6%), apesar da crise que os afecta nos últimos anos. Portugal, com 2491 milhões de dólares gastos em 2015, ou seja, 1,39% do PIB."aqui

Forças Armadas contratam segurança privada por "ausência de recursos próprios" 
Nos últimos anos, vários quartéis e instalações militares têm recorrido a serviços de “vigilância e segurança” prestados por empresas privadas. Governo garante que infra-estruturas como o paiol de Tancos “são asseguradas apenas por meios militares”- aqui

Temos 31500 militares, pagamos para a defesa  um preço relativamente superior a outros membros da NATO, e mesmo assim recorrem as Forças Armadas a empresas de segurança privada para a vigilância de instalações militares. 
E, a este respeito, quem deveria falar, cala-se.
Quarenta anos depois da instauração da democracia em Portugal, quem tem medo destes militares? 

---

Correl . OUTRA DE CABO DE ESQUADRA



Sunday, June 25, 2017

O CADASTRO

Depois do coro dos primeiros responsáveis políticos ter ensaiado a teoria da desresponsabilização atribuindo a tragédia a causas naturais, ensaiam-se as promessas, tantas vezes repetidas ao longo de décadas, de redimensionamento e reestruturação da propriedade florestal. 
E, a abrir a lista de acções urgentes, volta a recorrente conclusão: Falta cadastro!
Sem cadastro não é possível avançar com políticas que permitam aumentar o usufruto, económico ou de lazer, da floresta, e reduzir os riscos de incêndio aumentando a sua prevenção.
Mas como cadastrar um território fragmentado em grande parte em propriedades minúsculas e abandonadas?

Até hoje nenhum governo soube ou quis resolver o assunto. Que, aliás, atinge, ou devia atingir, mutatis mutandis, a propriedade urbana.
E, no entanto, a solução não seria difícil se o Governo decidisse mandar fazer o que deve ser feito: penalizar de forma indubitavelmente consequente a ausência ou atrasos dos registos de propriedade em nome de entidades juridicamente reconhecidas (indivíduos, sociedades, associações).

A ausência ou não actualização dos registos de propriedade, além do mais, não só dificulta a adopção de políticas de racionalização da utilização dos solos rústicos e urbanos, como é causa de iniquidade fiscal e é obstaculizante da transacção da propriedade.

O que é que, então, impede que haja registo predial actualizado dos direitos de propriedade?
Temos em Portugal cerca de 360 mil "propriedades" florestais, mais ou menos o mesmo número de proprietários florestais norte-americanos.
Alguém, com responsabilidades políticas na matéria ignora o absurdo esta realidade? Não é credível.
Então porque não actuam?
Porque não querem meter a mão neste fogo que queima, e não dá votos.
A calamidade incendiária que se repete ano ano após ano em Portugal também é resultante do confronto partidário que desenvergonhadamente usa os incêndios florestais como arma de arremesso político.
---
Correlacionados:

Monday, June 19, 2017

FOGO!, GRITARIA O CERCOPITECO

O que tem a linguagem humana de tão especial relativamente às formas de comunicação dos outros animais? Há 70 mil anos "um cercopiteco podia gritar aos seus camaradas "Cuidado! Um leão", mas um ser humano ( ) podia, (na mesma altura)  dizer aos seus amigos que, naquela manhã, perto da curva do rio, viu um leão a seguir uma manada de bisontes. Podia descrever a localização exacta, incluindo os diferentes caminhos que conduzem a essa área. Com tal informação, os restantes membros do bando podiam reunir-se e debater se deviam aproximar-se do rio para afugentar o leão e caçar os bisontes" - História Breve da Humanidade - Árvore do Conhecimento / Yuval Noah Harari

Leio aqui (notícia de 10/11/2016)  que "vão ser instalados sistemas de videovigilância de prevenção de incêndios a partir de 2017 e que esta instalação estará concluída em 2019" mas que "até à instalação, entrada em funcionamento e teste real dos primeiros sistemas (de vídeo vigilância), a rede nacional dos postos de vigia não será alterada. Os postos de vigia são da responsabilidade da GNR e durante a fase crítica em incêndios florestais estão a funcionar 236."

A GNR, entidade coordenadora das acções de vigilância, detecção e fiscalização no âmbito do sistema nacional de defesa da floresta contra incêndios, conhecedora do elevado grau de risco de incêndio da mancha florestal na área em que perderam a vida 62 pessoas e quase centena e meia ficaram feridas, tinha certamente instalados postos de vigia naquela zona.

Se assim for, e não vejo razão nenhuma para que não seja, volto à pergunta que ontem me assaltou quando ouvi a notícia na Antena 1 e que anotei aqui: "se havia gente nos postos de observação de fogos, activos e atentos, quando o fogo deflagrou, se observaram o início e a progressão do fogo foram avisadas imediatamente, entre outros, as entidades que poderiam ter encerrado as entradas nos fornos crematórios em que, provavelmente, se iriam transformar as principais comunicações rodoviárias naquela área?" 

Esta a questão chave que não pode deixar de ter uma resposta. 
Porque até um cercopiteco sabe, por uma questão de sobrevivência, avisar o grupo "Cuidado! Fogo!". 
Porque hoje a tecnologia de comunicações disponível, desde os satélites até aos telemóveis, passando pelos media capazes de comunicar em tempo real, rádio e televisão, constituem uma parafernália de alcance quase inesgotável.  
E, no entanto, quando as estações de rádio e televisão iniciaram a transmissão de notícias já o fogo estava incontrolado, tinha assaltado as comunicações rodoviárias, as vítimas já tinham caído na emboscada do crematório. 


David Dinis, director do Público brinda-nos em cada manhã com a oferta de um resumo das ocorrências, aqui e no mundo, "enquanto dormimos". Esta manhã, a propósito das 62 vidas caídas anteontem perguntava Porquê? a iniciar o que, para memória futura, transcrevo a seguir. 
Interrogo-me porquê entre um número muito significativo de jornalistas ou colunistas parece escapar a pergunta que considero mais pertinente: A informação que podia ter poupado tantas vidas e permitido uma estratégia de ataque ao fogo, falhou. Porquê?
Por que é que os media, tão disponíveis para transmitir horas e horas e horas seguidas as mesmas imagens de horror não anteciparam o que era altamente provável - não há verão sem incêndios, sabia-se que as temperaturas iam atingir níveis elevados e aquela mancha florestal é das mais sensíveis - não se colocaram alerta e a postos para saberem notícias junto de quem tem responsabilidades pelos postos de vigilância, detecção e fiscalização no âmbito do sistema nacional de defesa da floresta contra incêndios. 

Há responsáveis. Não nos façam crer do contrário.





----

Porquê? 

 Porquê? Pelo menos 62 vezes "porquê?". Andamos há anos e anos — 50 anos pelo menos — a ouvir os especialistas dizer a mesma coisa. Todos os anos perguntamos, todos os anos nos respondem que agora vai ser diferente. Nunca é. Porquê? 


Como escreve a Ana Fernandes, no texto que lança o nosso trabalho sobre Pedrógão, que é também sobre a maior das nossas tragédias, os incêndios: “Não há rigorosamente nada de novo a dizer. Já tudo foi estudado, explicado e escrito na última década e meia. Houve comissões para todos os gostos e feitios. E foi feito muito trabalho sério. Faltou tudo o resto.” E de novo perguntamos: porquê?
Na procura das respostas a esse porquê, é preciso começar por este texto: "O que é que falhou neste sábado? Tudo, tal como falha há décadas". E é preciso seguir caminho pelo Pinhal Interior (colonizado pelo eucalipto), para perceber melhor o que escreve o Manuel Carvalho ("Um desastre a interpelar o nosso futuro"), a pergunta de Henrique Pereira dos Santos ("Imprevisível?"), a de Fernando Santos Pessoa (“Estás a ver no que dá terem acabado com os Serviços Florestais?”) ou estas respostas de Paulo Fernandes às nossas primeiras dúvidas ("O mínimo era que encerrassem estradas a tempo e horas"). As nossas dúvidas não acabam: como lidar com os campos ao abandono? E teria sido possível evitar esta tragédia? 
E vamos ter que voltar atrás, às horas mais terríveis, para respondermos ao porquê: hora a hora, em Pedrógão, como foi? E ler também o que é a trovoada seca, que se diz ter sido o causador do incêndio. Mas o nosso "porquê" continua aceso. Porque não chega um raio seco para explicar como aquela imensidão de território passa do paraíso para este inferno, visto pelas lentes do Paulo Pimenta. Para explicar o que viu e ouviu a Patrícia Carvalho ("Começou a chover lume e Dora pediu a Dulce que lhe levasse os filhos para os salvar"), a Sandra Rodrigues e o Adriano Miranda (“Num segundo as chamas estavam a quilómetros, noutro já estavam em cima de nós”), ou a Liliana Valente ("não têm casa por uma noite ou não têm casa de todo?").
Na sua hora mais triste, o país juntou-se para ajudar os sobreviventes. A entreajuda, de que fala o Rui Tavares, aconteceu em tal dimensão que a ministra já veio pedir para que não se mande mais comida. Mas não é só de alimentos, que as famílias e bombeiros precisam: ainda há muito que podemos fazer , antes mesmo de nos dedicarmos a "devolver ao mundo a sua normalização", como explica o Márcio Berenguer, com a ajuda dos que ajudaram a recuperar dos incêndios na Madeira, no Verão passado.
Com o país de luto face à tragédia, com o Presidente a pedir que se adiem as "interrogações", nós continuaremos por aqui. A registar as primeiras páginas (nossas e as de lá de fora), a anotar textos na concorrência que vale a pena ler, a acompanhar tudo ao minuto. A fazer a pergunta que tem muitas perguntas dentro: "porquê?". Porque já são anos demais a fazer o luto. Porque não podemos repetir a mesma pergunta outra vez. Porque só assim Portugal poderá, sem medo nem vergonha, voltar a olhar-se ao espelho. Porque é esta a nossa missão: fazer perguntas, até que alguém nos responda.

---- (20/6)

Dúvidas, muitas dúvidas sobre Pedrógão (e o que vem de trás)

Voltando à pergunta de ontem, já com as primeiras respostas:
Porquê?
Por que é que estivemos tanto tempo parados? Conta-nos a Maria Lopes hoje que o Plano contra incêndios não é avaliado há quatro anos - e que o último andou perdido até ela fazer perguntas ao Governo. Acrescenta ela que hoje será publicado o último desses relatórios, relativo ao ano de... 2012 (e que todos os outros terão sido pedidos por estes dias). Mas há mais: as novas leis para proteger a floresta (e afastar o eucalipto) estão presas na Assembleia desde Abril - e já não vão ser aprovadas antes de os deputados irem de férias (essa história também está aqui).
Entretanto, a 
área ardida deste ano já é 12 vezes superior ao mesmo período de 2016. E o incêndio de Pedrógão já é o maior de sempre em Portugal. E o ministro da Agricultura, o que fez ontem foi isto: anunciou 20 novas equipas de sapadores florestais, que já tinha prometido em 2016.
Por que é que isto aconteceu em Pedrógão? O Governo reconheceu ontem à noite que pediu uma investigação sobre algumas falhas prováveis no terreno, no último sábado: a falha no sistema de comunicações, que ainda nem está a funcionar; e a falha no fecho de estradas, que chegou tarde demais.
Mas há outras questões que precisam de respostas claras. Dois exemplos: será verdade, como dizia o Expresso de ontem, que Marcelo foi para o centro de operações e 
o encontrou num caos? Como é que se explica que o IPMA não tivesse registo de trovoadas no sábado? Politicamente, disse ontem o líder do PSD, chegará o momento em que as perguntas também vão ser feitas. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de as fazer desde já.
64 vezes porquê. Tantas vezes quanto o número das vítimas que Pedrógão fez. Mais do que essas, porque há histórias de sobreviventes que serão sempre vítimas, como Mário - o homem que mandou a mulher e as filhas fugir do fogo e as viu morrer (“Por que é que eu me fui salvar?”, conta ele à Natália Faria, no início de uma reportagem que nos deixa a chorar por dentro). E porque há nomes e histórias por trás dos números das vítimas de Pedrógão Grande, que começamos agora a conhecer. 
É por isso que, no Editorial de hoje, deixamos sete perguntas que vamos repetir até termos as devidas respostas. Porque não é por memória às vítimas que o jornalismo deve fazer silêncio - é por honrar a sua memória que não se pode calar.
Sobre esta tragédia que vai demorar a sair das nossas vidas, vale a pena ler também a Opinião que aqui temos: o "Basta!" de Bagão Félix, as "Notas dos e nos dias da devastação" de Paulo Rangel; o "Começar do zero" do Miguel Esteves Cardoso; o pedido de João Camargo para "Tirar a floresta das mãos do eucalipto"; e o do João Miguel Tavares: "Deixem-se de lágrimas de crocodilo". E também a nota do António Guerreiro sobre "As vítimas dos incêndios e da televisão".
A informação continua a ser actualizada, minuto a minuto, neste texto - acreditando a Protecção Civil que o incêndio será dominado em 24 horas. O registo das últimas 36 horas ficará aqui, para memória futura.


Sunday, June 18, 2017

TERIA SIDO POSSÍVEL EVITAR UMA TRAGÉDIA TÃO GRANDE?

Quando, esta manhã, ouvi a notícia da tragédia perguntei-me se não havia gente nos postos de observação de fogos, activos e atentos, quando o fogo deflagrou a meio da noite. E se, tendo observado fogo, foram avisadas imediatamente, entre outros, as entidades que poderiam ter encerrado as entradas nos fornos crematórios em que, provavelmente, se iriam transformar as principais comunicações rodoviárias naquela área.  

Algumas horas depois ouvi uma entrevista, depois publicada aqui, e que transcrevo a seguir.
Como o engenheiro Paulo Fernandes, também considero irresponsável o coro que se apressou a desresponsabilizar tudo e todos porque as causas foram naturais e, segundo o coro, foi feito tudo o que poderia ter sido feito.
Não foi, senhor Presidente da República, não foi, senhor Primeiro-Ministro. 
Mandem averiguar. 
Aqueles que foram sacrificados pela eventual incúria de alguém impõem-nos que o assunto não seja sumariamente encerrado com o convencimento de que vivemos no melhor dos mundos quando a dimensão desta tragédia nos avisa do contrário.  

----
Teria sido possível evitar uma tragédia tão grande? Especialista acredita que sim
“No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o engenheiro florestal e especialista Paulo Fernandes.

A pergunta que todos fazem agora é: teria sido possível evitar esta tragédia? Paulo Fernandes, engenheiro florestal e professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, acredita que pelo menos teria sido possível minimizar a sua dimensão. Desde logo porque era possível antecipar que existia um potencial de factores combinados, como a temperatura elevada, ventos muito fortes e, sobretudo, a instabilidade atmosférica (trovoadas e raios), que já estava prevista há dias, explica. “Uma mistura fatal”, sintetiza.
PUB
“Estas coisas nunca são totalmente previsíveis, mas o sistema tem de estar preparado. No mínimo, pedia-se que se tivessem encerrado as estradas a tempo e horas”, defende o especialista, que se espanta com a surpesa manifestada por vários responsáveis no terreno. “Estou é surpreendido por isto não ter acontecido antes e mais vezes”, enfatiza.
Paulo Fernandes faz um paralelo com o que aconteceu em 2003 [ano em que arderam 152 mil hectares de floresta e morreram 21 pessoas], “com incêndios enormes causados por raios” e lamenta que os fogos naturais sejam em Portugal sistematicamente desvalorizados por representarem apenas 2% do total.
“Temos de estar preparados. Em Portugal, não há pessoas especializadas em meteorologia de incêndios, há académicos, mas não há operacionais”, diz, notando que qualquer país com este potencial adverso tem de ter pessoas a trabalhar nestas áreas “a tempo inteiro”.
Todo o sistema de prevenção e combate a incêndios precisa, aliás, de ser reformado, defende. “Esta originalidade portuguesa de ter fases alfa charlie não faz sentido hoje. Um sistema moderno não pode estar dependente do calendário, tem de ter flexibilidade para responder sempre que necessário, até por causa das alterações climáticas.”

A própria concepção do sistema, “pulverizado por várias forças com pouca massa crítica, torna tudo mais difícil”, acrescenta, lembrando que temos “um sistema muito focado no combate”, em que 90% do investimento é para esta área.
Mas Paulo Fernandes também acentua que se lembrou dos incêndios ocorridos em 2009 na Austrália, “um dos países mais avançados na prevenção e combate e até na preparação das pessoas” para lidarem com este tipo de situações. Nesse ano, morreram na Austrália cerca de 170 pessoas, “quase todas quando tentavam fugir”. Mas a frente das chamas chegou a ser de 200 quilómetros e as projecções (de materiais, como cascas) chegaram a 30 quilómetros, nota.

Agora, o que pede é que se retirem ilações desta tragédia. “Acho inconcebível que responsáveis do Governo e até o Presidente da República comecem logo a declarar à queima-roupa que tudo correu muito bem”, porque isto, acredita, contribui para “a desresponsabilização”. 

Friday, August 12, 2016

PORTUGAL AO NATURAL*

Fogos florestais são normais.

O que não devia ser normal é a enormíssima área atingida todos os anos. Anos há em que a calamidade extravasa tudo o que seria esperável num país em que o verão é quente e seco e os ventos sopram com a intensidade que as amplitudes térmicas obrigam.

Quanto aos factores naturais não podemos fazer nada.

Podemos, mas não fazemos, reduzir a biomassa acumulada. Que se não arde este ano, arderá para o ano. Fatalmente.
Reduzir o combustível deveria ser o objectivo a atingir. Para isso, no entanto, seria necessário reformular a propriedade florestal.
Que está distribuída por cerca de 360 000 parcelas, mais ou menos tantas quantas existem em todos os EUA.

Mas nenhum partido quer meter-se nesse "fogo" ...
Falta competência, conhecimento e muita coragem.
Coisa que não abunda por cá, infelizmente. 

Digo isto no meu bloco de notas há quase doze anos.
---
---
* Comentário colocado aqui.