Showing posts with label Hollande. Show all posts
Showing posts with label Hollande. Show all posts

Thursday, April 24, 2014

VOTAR, PARA QUÊ?

Ouço esta manhã na rádio uma parte do discurso - vd. aqui -  proferido ontem por Jorge Sampaio na  Gulbenkian:  "Este presente não pode ser o nosso futuro. Quarenta anos depois do 25 de Abril de 1974, a melhor maneira de o celebrarmos é usarmos as eleições europeias para fazer renascer a esperança e acreditar no futuro de Portugal e da Europa".

Sampaio mantem o registo que sempre caracterizou os seus discursos políticos: elegantes e redondos."Este presente não pode ser o nosso futuro" é uma senhora afirmação, esbelta, tautológica em todos os sentidos, que dá entrada a um apelo recorrente em vésperas de todas as eleições: votem!, porque é com o voto que renasce a esperança de um futuro diferente! Ou, trocado por miúdos, "votem no PS porque o neoliberalismo deste governo levou-nos a este presente desgraçado!".

Há, ou poderá haver, no Parlamento Europeu, uma bancada socialista, qualquer que seja a ideia política nuclear que lhe dê uma coesão mínima, que possa apontar, e em que sentido, para uma União Europeia significativamente distinta daquela que conhecemos hoje? Certamente que não. Os destinos da União Europeia têm sido guiados fundamentalmente pelos interesses individuais de cada um dos seus membros, e a tão proclamada unidade na diversidade é uma panaceia, porque só uma união política apropriada poderia dar consistência à União, e esse passo não está nos programas de nenhum dos principais vectores políticos representados em Estrasburgo. Mas há, por outro lado, propostas de desagregação defendidas pelos partidos radicais, em crescendo de representatividade no PE. 

Em França, por exemplo, e a França é um exemplo crítico, diz-se socialista o partido que suporta o governo de Monsieur Hollande. Muito provavelmente, o PS francês registará mais uma derrota record e Marine Le Pen poderá ver o seu nacionalismo, o seu racismo, a sua xenofobia, embaladas em propostas de retirada do euro, e da UE, representados de forma muito convincente daquilo que pretendem. Quem é que, sentado nas bancadas socialistas (ou liberais, ou o quer que seja), sobrepõe no hemiciclo europeu os interesses ideológicos do seu sector político aos interesses particulares dos países que representam? Que propostas defenderão os socialistas franceses, que não se acomodem às políticas do seu governo, recentemente remodelado?

Votar nestas eleições europeias sem rumos definidos, exceptuando os daqueles que se propõem fazer voltar ao passado, significa dar crédito a um presente que não augura nenhum futuro diferente para a Europa. A abstenção tem pelo menos o mérito de afirmar quantos, por indiferença (que também existe nos votantes) ou decisão pensada, dizem não a um presente e a um futuro que não será diferente.

Tuesday, June 25, 2013

O PIÃO DAS NICAS

"Durão Barroso é o fomentador da expansão dos radicalismos na Europa."
 
Obviamente, a acusação não é minha mas - vd.  aqui - do senhor Arnaud Montebourg, ministro francês da indústria do governo presidido pelo senhor François Hollande. Há dias atrás tinha-se Hollande encrespado com o senhor Barroso a propósito da eventual exclusão do áudio visual das conversações para a criação da zona económica entre EUA e União Europeia, mas o desaguisado parecia sanado com as explicações de Barroso. Agora, o ataque de Montebourg veio reacender a animosidade dos franceses pela Comissão Europeia, atribuindo-lhe as culpas pelos desastres causados pela política de austeridade que, segundo eles, foi gizada e é comandada a partir de Bruxelas.
 
Marie Le Pen, que recentemente bateu de novo os socialistas em eleições parcelares intercalares num território tradicionalmente socialista, regozija-se - vd. aqui - com esta escaramuça no seio da União Europeia, que ela se propõe abandonar quando um dia for presidente da República Francesa. Segundo as sondagens mais recentes, o partido de extrema direita que Marine lidera nunca esteve tão próximo desse resultado inconcebível ao mesmo tempo que a popularidade de François Hollande caiu nas ruas da amargura.
 
O senhor Hollande poderia, se tivesse espinha dorsal suficiente, responsabilizar Merkel,  a Alemanha e os amigos do norte se queria sacudir a água do capote e eleger um bode expiatório das suas próprias incapacidades. Mas Hollande é um pusilânime e um confronto, mesmo que discreto, com Merkel exigiria dele temeridade incomparável com o envio de tropas para o Mali, uma ousadia notável, segundo o senhor Mário Soares, que não se lembra de outra.

Precisando de um bode expiatório das suas desventuras, o senhor Hollande e seus amigos viram no senhor José Barroso o exemplar à mão de semear que lhes convinha. O senhor Barroso, enquanto presidente da Comissão Europeia "pinta poco" nas políticas impostas aos membros da zona euro e, muito particularmente, aqueles que estão sob resgate ou por lá perto. Aliás, foi com esse objectivo que se lembraram dele no directório regido pela senhora Merkel, que, efectivamente, decide e os outros obedecem.

O senhor José Barroso só é importante para ele próprio.

Wednesday, February 13, 2013

NA PISTA DO DÓLAREURO

Eurodólares já há. Dólareuros, invenção minha, salvo se já há patente registada, passou a haver*.

Tal designação foi-me sugerida pelas notícias acerca do "Discurso da União" que o Presidente Obama dirigiu ontem aos congressistas, a todos os norte-americanos e, porque não reconhecê-lo, dada a resiliente liderança norte-americana, também ao mundo. Não menos que "Urbi et Orbi", sem intenção de heresia.
 
Os EUA tinham perdido, sobretudo durante os mandantos de Bush II, o respeito do mundo, atolando-se quase isolados em algumas guerras intermináveis e numa teia de aranha financeira gigante que quase sufocou o sistema financeiro global. Obama, o mais improvável de todos os presidentes norte-americanos, foi eleito quando o país quase desabava. Depois de um primeiro mandato, de que não resultou o melhor dos mundos do dr. Pangloss, os EUA, no entanto, recuperaram o respeito perdido internacionalmente, o sistema financeiro, se não melhorou a olhos vistos encontra-se estabilizado, a economia recuperou, o desemprego, ainda alto para os hábitos locais, mantem-se a níveis bem mais baixos que os observados na Europa, o emprego voltou a crescer. O contraste com o que, entretanto, se passou na União Europeia não poderia ser maior.
 
A diferença está em Obama e na sua equipa? Em parte, sim. Mas a grande diferença reside no facto de Obama representar e responder perante todos os norte-americanos enquanto a Chanceller Merkel, o Presidente Hollande, o par do directório que de facto governa a UE, representam e respondem apenas perante os eleitores alemães e franceses, respectivamente. A política da Chanceler Merkel, ou de qualquer outro chanceler alemão, será sempre fixada em função dos votos alemães.
 
Voltando ao "Discurso da União",  que aqui se considera incluir propostas políticamente possíveis, umas, mas implausíveis, outras, Obama presidente reeleito mostrou-se mais decidido e ambicioso do que Obama candidato à reeleição. Normalmente, sucede o contrário. Obama, ao avançar para um conjunto de objectivos, alguns deles fracturantes, implausíveis, pretende, segundo a leitura de Ezra Klein, marcar a agenda política e encostar os republicamos à parede. Na Europa, as regras do jogo são outras, completamente diferentes, a política europeia está enredada em contradições sem desenleio à vista.  
 
Há, no entanto, neste discurso de Obama um ponto, que mais do que qualquer outro, confronta as disparidades e as incongruências da União Europeia na encruzilhada em que se encontra e do qual parece não saber sair. Obama anunciou, e desde logo é estranho que nenhum sinal tenha sido dado da parte da UE a seu propósito, que os EUA e a UE vão entrar em negociações tendo em vista a construção de um espaço económico alargado que incluirá 800 milhões de pessoas.
 
Ouve-se, abisma-se e interroga-se: onde é que ele, ou eles, querem chegar? E, mais do que, aonde, como? Com uma moeda única, o dólareuro? Sem moeda única, e fé em Deus? Pode um espaço económico comum funcionar guerreando-se as moedas de parte a parte? Escapa-me completamente a
plausibilidade desta intenção de Obama e de mais não sabemos quem.  
---
* Designação que, de tão obtusa, também por essa razão, nunca seria usada

Wednesday, January 23, 2013

ALGUMA COISA ESTÁ A MUDAR NA EUROPA

- Por que é que o franco suíço, que chegou quase à paridade com o euro, obrigando o Banco Nacional Suiço a fixar em 1,20 o limite máximo do câmbio relativamente ao euro para suster a  sobrevalorização da moeda suiça, está agora a desvalorizar-se notoriamente contra a moeda única europeia?
- A melhor justificação para o movimento brusco que se observou nos últimos dias é a percepção que passou a existir de que finalmente alguma coisa está agora a mudar na Europa. Não apenas por mérito próprio, Portugal acaba de ver subscrita por investidores estrangeiros dívida a cinco anos a menos de 5%. O Banco Nacional Suíço investiu cerca de 80 mil milhões de euros em dívida dos países do núcleo da zona euro - Alemanha, Áustria, Holanda, Finlândia e  França - quando os rumores abalavam a moeda única e o franco suíço se sobrevalorizava imparavelmente. Se a situação está a mudar na Europa o câmbio euro/franco suiço reflecte essa mudança. Para já a barreira psicológica situar-se-á entre os 1,25/1,30.
.
Estará realmente algum coisa a mudar na Europa?
Provavelmente, sim, e em vários aspectos. O compromisso conjunto de Merkel e Hollande em Berlim
de apresentarem até Maio propostas  conjuntas para reforçar a Zona Euro, que contemplem o incentivo à competitividade e ao crescimento tanto podem ser consideradas reprise de declarações  inconsequentes de índole idêntica do anterior directório Merkel-Sarkozy como uma intenção que finalmente arranca por obra e graça da evolução política na Alemanha, agora menos favorável a Merkel, e a insuspeitada imposição de Monsieur Hollande.
.
Por outro lado, a opinião pública britânica, em dessintonia com a opinião dos negócios, continua a percorrer o seu caminho preferido de sempre no sentido de abandonar a União Europeia. David Cameron, dividido entre os votos da opinião pública  os votos da economia, prometeu um referendo depois de 2015,  com o objectivo óbvio de obter novas concessões da UE e, até lá, mudar a opinião do voto popular. O directório Merkel e Hollande respondeu imediatamente à letra:  A União Europeia não se serve "à la carte".
Oxalá ao nosso cepticismo responda a nossa esperança numa Europa Unida : Eppur Si Muove. 
 ---
É anedótica a forma como disputam os partidários os resultados do retorno aos mercados, replicando
no campo político a religiosidade observada no campo futebolístico. Porque nem o senhor ministro Vitor Gaspar faz milagres nem o senhor secretário-geral António José Seguro é vidente. O senhor ministro foi ao mercado quando lhe disseram que havia uma aberta, mas não foi o senhor Seguro que a abriu.
---
Correl.- Eurostat diz que divida pública  portuguesa superou os 120% do PIB em Setembro.

Thursday, January 17, 2013

OBJECTIVO NACIONAL


Entrevistado ontem pela Sic notícias, o líder do PS reafirmou estar preparado para governar o país,  está só à espera que o governo caia e que as eleições antecipadas lhe garantam maioria absoluta para governar com estabilidade, considerando, no entanto, "impossível governar" o país, "em particular no momento em que está", sem "um diálogo permanente, consensos e concertação social", mesmo "com maioria absoluta", que a “situação é difícil, não há soluções fáceis nem mágicas, mas temos alternativas”, dentro do “rigor orçamental, mas com prioridade no crescimento, que o tempo não está para aventuras. E que, o acesso aos mercados financeiros, que permitirá dispensar mais empréstimos da troika, deve ser encarado como um “objectivo nacional”.

Em que é que o senhor Seguro se distingue do senhor Passos Coelho se ambos têm o mesmo objectivo nacional? Na proposta de diálogo, consenso e concertação social de Seguro.  Um wishful thinking que se não garantir mais nada pode garantir a Seguro sustentar-se à frente das sondagens se Passos Coelho continuar a deixá-lo solto das responsabilidades que o PS teve no recrudescimento da crise. Até há bem pouco tempo o discurso  de Seguro centrava-se numa política de crescimento e de emprego. A propósito: a prioridade da produção de bens e serviços transaccionáveis, que foi  o tema mais  abordado durante as eleições legislativas que colocaram Passos Coelho em primeiro-ministro, por onde anda? Mudou Seguro, e tornou-se, também ele, inevitavelmente discípulo do rigor orçamental por sugestão de Monsieur Hollande?

Subitamente, o regresso aos mercados financeiros tornou-se o objectivo nacional quase comum. Hollande prometeu hoje a Passos Coelho apoiar a proposta de Junker de premiar os cumpridores*. Não sabemos o que pensa a Dona Ângela sobre o assunto. Mas, se não for garantido um prémio suficientemente generoso antes da troica ser dispensada, o objectivo nacional de governar-se Portugal com os seus próprios meios a partir de Setembro é uma miragem de inverno para um verão tórrido.
 ---
 Correl.-
* Hollande diz que proposta de Juncker para Portugal é boa

Lagarde diz que Portugal tem trabalho de consolidação orçamental a fazer
Não há nenhum regresso antecipado aos mercado, disse Passos Coelho

Monday, August 27, 2012

A CULPA DAS CALÇAS

Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI, co-autor de "This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly", professor em Harvard, afirmou numa entrevista à rádio BBC, na quinta -feira, citada aqui,  que a "Europa tem de decidir se quer romper com o euro", resumindo, deste modo tão simples de enunciar quanto complexo de atingir, o resultado da sua análise das diferentes posições que agora se confrontam na União Europeia e, mais prementemente, na zona euro.
.
Segundo Rogoff,  muito poucos acreditam que a Grécia ainda estará no euro daqui a uma década, uma vez que a probabilidade de abandonar a moeda única é muito elevada, mas não é certo que o país abandone o euro se o financiamento for cortado porque a Grécia poderá dizer que “não pagamos, mas vamos ficar no euro”.  

Os responsáveis políticos devem decidir se querem seguir adiante ou romper com o projecto da moeda única, o que implica, por sua vez, decidir se querem ou não “seguir adiante e ser um país”.
A “grande tensão” nesta decisão localiza-se entre a Alemanha e França, já que os franceses acreditam que o euro pode existir sem “um centro forte”, enquanto os alemães discordam dessa visão, mas  “à maneira francesa não vai funcionar".

A Alemanha tomou uma posição coerente, dizendo que está disposta a pagar, desde que haja um sistema, e não transferências abertas sem “governação”.

Na edição de sábado, a Der Spiegel noticiava  (cit aqui) que  Angela Merkel quer que os líderes da União Europeia (UE) cheguem a acordo ainda este ano sobre um grupo de trabalho para um novo tratado que reforce a integração dos 27 países-membros, e que o assessor de Merkel para a política europeia, já comunicou a intenção da chanceler em conversações em Bruxelas. Merkel pretende que na cimeira da UE que se realiza em Dezembro se estabeleça uma data concreta para a convocatória do grupo de trabalho que irá redigir o novo tratado da UE. Merkel tem pressionado desde há algum tempo os seus parceiros europeus para completar o pacto fiscal acordado pelos países do Eurogrupo com uma união política.

Mas a iniciativa alemã não foi bem recebida por parte dos parceiros europeus, e num encontro do chamado 'grupo do futuro', uma reunião informal de trabalho de dez ministros dos Negócios Estrangeiros, a maioria opôs-se à proposta alemã. Países como a Irlanda querem evitar o risco de convocar um novo referendo, uma obrigação imposta em caso de um novo tratado, e outros países, como a Polónia, são contrários à iniciativa de Merkel por considerarem que são escassas as possibilidades de um compromisso entre os 27 países da UE.

Hoje (cit aqui), o ministro alemão das Finanças anunciou que Alemanha e França estão de acordo sobre a criação de um grupo de trabalho para preparar soluções para concretizar os avanços prometidos para a Zona Euro, que deverá caminhar para uma união bancária e no caminho de maior integração orçamental e monetária.

Obviamente, como afirmou Rogoff, "a Europa tem de decidir se quer romper com o euro", os europeus têm de decidir se "se querem ou não seguir adiante e ser um país”. Como referiu Rogoff, não pode assacar-se à Alemanha a culpa de não apresentar uma solução. No entanto, trata-se de uma solução exequível, na melhor das hipóteses, a médio prazo, enquanto no imediato a Alemanha e a França continuam a colocar dívida a taxas de juro negativas e, por exemplo, a Espanha continua a ver o seu prémio de risco situar-se acima dos 500 pontos (cit aqui).  
.
É neste caldo de cultura do salve-se quem puder enquanto há tempo  que continua a afogar-se a Europa.

---
Cor.- Depósitos em bancos espanhóis registam maior queda mensal desde 1997
- A ministra das Finanças da Áustria diz que é preciso pesar as consequências da saída de um país da zona euro.
- La banca espanõla sufre en julio una fuga récord de depósitos - Los depósitos del sector privado en los bancos españoles sumaron el pasado mes de julio un total de 1,508 billones de euros, lo que representa una caída mensual del 4,6%, equivalente a la retirada de 74.228 millones de euros, la mayor salida de depósitos privados de las entidades españolas desde septiembre de 1997, según los datos del Banco Central Europeo (BCE). De este modo, el importe de los depósitos del sector privado en bancos comerciales españoles registrado en julio representa el cuarto descenso mensual consecutivo del dato, que se sitúa en su nivel más bajo desde mayo de 2008, cuando los depósitos sumaban 1,507 billones.

Thursday, May 10, 2012

O QUE DEVE DIZER FRANÇOIS À ANGELA

"What Holland must tell Germany", segundo Martin Wolf, na sequência do recado de Jens Weidmann.

No seu habitual artigo publicado ontem no FT começa por recordar que se a União Europeia não for mais do que uma união monetária (como reafirmou Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank em artigo no mesmo FT, que comentei aqui ), não sobreviverá. Os colapsos dos sistemas do padrão ouro na década de 30 e Bretton Woods na década de 70 evidenciaram a insustentabilidade dos acordos das taxas fixas de câmbio. As medidas de austeridade impostas por uma política exclusivamente dirigida à credibilidade do euro acabarão por desintegrar a união monetária e, inevitavelmente, a União Europeia.

Segundo o FMI, o peso da dívida pública no PIB continuará a crescer até 2013 na Itália, Espanha, Portugal e Irlanda (na Grécia há um ligeiro decréscimo em consequência da reestruturação) mas, pior que o crescimento da dívida, é o crescimento do desemprego, sobretudo entre os jovens dos 15 aos 25 anos. A emigração é uma alternativa para os mais capazes mas uma perda para os seus países. Em França, a situação é melhor mas não muito: um em cada cinco jovens está sem emprego. Sarkozy foi o oitavo líder de um país da Zona Euro a deixar o cargo em pouco mais de um ano.

Contrariamente ao que pretende Weidmann, os resultados das reformas estruturais não são imediatos e não produzirão as alterações susceptíveis de promover a recuperação das economias em recessão. Na década de 80, quando a conjuntura externa era mais favorável, as reformas de Thatcher só produziram efeitos significativos uma década depois.    

O sucesso da economia alemã (que Hollande tanto enfatizou no  frente-a-frente com Sarkozy) não se deve tanto às reformas de Gerhard Schröder, como pensam muitos alemães mas sobretudo à sua soberba base industrial e ao crédito desmedido que alimentou o crescimento do consumo  (e as dívidas) por todo o lado. Há alguma hipótese da Alemanha devolver agora esse favor? Praticamente, nenhuma. É Weidmann que o assegura: Se alguém pensa que a Alemanha vai promover o consumo interno e aumentar a inflação interna, esqueça. Até à ocorrência do crash, a inflação foi consistentemente mais elevada na Zona Euro excepto na Alemanha. Logicamente, agora deveria ocorrer o contrário, mas isso não vai acontecer segundo as previsões do FMI (e Weinmann garante).  

Paul de Grauwe, escreveu  num artigo recente que o processo de ajustamento em curso é assimétrico: os países em dificuldades desinflacionam mas os que estão em boa situação não inflacionam. Ora esta situação não é típica de uma união monetária, é, antes, mais parecida com um império.  

Nestas circunstâncias, o que pode fazer François Hollande? Primeiro, tem de esquecer as promessas que fez aos franceses, não só porque a sua concretização não ajudará a França mas também porque os líderes alemães não o levarão a sério.

François Hollande deve começar por uma discussão séria com os alemães acerca do modo como eles pensam acabar com a crise na Zona Euro. Deve pegar na sugestão recente de Wolfgang Schäuble de  aumento do salários na Alemanha. Depois deve demonstrar aos seus interlocutores que: ou o ajustamento dos desequilíbrios que provocaram a crise se realiza com medidas simétricas, ao mesmo tempo que prosseguem as reformas nos países em dificuldades, ou há transferência permanente de recursos dos países com excedentes para aqueles onde subsistam défices, ou a Zona Euro, total ou parcialmente, tem os dias contados.

A escolha mais razoável é a primeira. A política de austeridade tem de dar lugar a políticas simultâneas de ajustamento realistícas e de reformas estrurais. 

São reduzidas as hipóteses de Hollande ser bem sucedido. Mas tem de tentar.

Tuesday, May 08, 2012

A EUROPA NÃO SE CURA COM POLÍTICAS MONETÁRIAS

"Monetary policy is no panacea for Europe´s ills", escreve Jens Weidmann, presidente do Deutsche Bundesbank, no Financial Times de hoje. 
 
E não é. Toda a gente sabe que não é, mas Weidmann também sabe que nenhuma cirurgia é prudente se o corpo a ser intervencionado estiver febril. E Weidmann, alinhado com Merkel, não avança qualquer intervenção política para além da medicação que normalize as temperaturas à custa de sangrias, uma terapêutica que, só por si, certamente não curará a Europa.

O texto de Jen Weidmmann não acrescenta nada ao que já se sabe acerca da ortodoxia alemã em matéria de controlo da inflação na Zona Euro. Tudo o resto tem de subordinar-se a este objectivo exclusivo. E o objectivo deste texto é a renovação de um aviso a Hollande, Draghi, Monti, e Rajoy. Em que medida o levarão em conta é o que falta saber para sabermos para onde vai a União Europeia a partir de agora.
 
Cito, resumidamente:

"Agora que os estímulos fiscais atingiram os limites viáveis, as políticas monetárias são vistas frequentemente como o último reduto. Tendo dominado a inflação nas últimas décadas, os bancos centrais têm agora dado substanciais contributos para combater as crises financeira, económica e das dívidas soberanas, e, mesmo assim, pedem-lhes mais. 

O Sistema Monetário Europeu (SME) tem mantido as taxas de juro a níveis reduzidos, injectado liquidez  eefectuado compras de activos em larga escala.

Convém, no entanto, advertir que, contrariamente à muito divulgada ideia, a política monetária não é uma panaceia e o poder de fogo dos bancos centrais é limitado, especialmente numa união monetária. Antes de mais, para proteger a sua independência os bancos centrais na Zona Euro enfrentam evidentes restrições nos riscos que podem assumir.

Por exemplo, se o financiamento concedido pelos bancos não é garantido de forma sólida, os riscos serão pagos pelos contribuintes nacionais. Ora esta transferência implícita está fora das competências dos mandatos dos bancos centrais da Zona Euro. O resgate dos bancos através de impostos pagos pelos contribuintes só pode ser decidido pelos parlamentos nacionais.

O cumprimento das  regras de estabilidade monetária, muitas das quais fazem parte do tratado europeu, não é uma obesessão  legalista: é a chave da aceitação da união monetária pelos cidadãos europeus. Ignorar estas restrições não é uma solução pragmática e os efeitos das suas violações podem ser corrosivos da confiança na moeda única.     

Depois, quaisquer práticas complacentes no futuro terão de ignorar as lições da crise financeira. (...)
A política de juros próximos de zero combinada com a intervenção em larga escala nos mercados financeiros terá efeitos secundários que serão tanto mais severos quanto maior for o período de administração da droga. 

A investigação sugere que a assimetria de políticas monetárias de ajustamento incondicional, para combater a correcção de um excesso no sector financeiro, encoraja a tomada mais agressiva de riscos. Estudos do Banco para as Compensações Internacionais tem consistentemente sublinhada a necessidade da política monetária ser mais simétrica com o ciclo económico de modo a evitar a produção de desequilíbrios que ponham em causa a estabilidade futura.

Ao mesmo tempo que reduziu as taxas de juro, o SME activou um conjunto de medidas que não se coadunam com o propósito único que lhe está atribuido de manter estáveis os preços e garantir a estabilidade financeira ameaçada pela crise.  De tudo isto resulta que os bancos centrais que, antes da crise, injectavam no sistema níveis reduzidos de liquidez, agora estão a substituir ou a dispensar os investidores privados.

Esta prática cria o risco de alguns bancos se tornarem sobretudo dependentes do financiamento do banco central, reduzindo deste modo o incentivo para as reformas necessárias. Até agora os progressos observados em vários países da Zona Euro têm sido debeis, apesar das experiências das crises financeiras do passado, na Suécia e no Japão, por exemplo, nos ensinarem os benefícios da mudança e os perigos de continuar tudo como dantes. Os regularores devem mantar a pressão no sentido dos bancos reestruturarem os seus capitais,  e expurgar os bancos inviáveis.    
Pelas mesmas razões, se for reduzida a pressão sobre as dívidas soberanas nos mercados abrandam-se as medidas de reequilíbrio das finanças públicas em situação precária.  Os desequilíbrios macroeconómicos detectados e os níveis insustentáveis da dívida pública e privada em alguns estados membros estão na origem da crise actual das dívidas soberanas. O apelo ao políticos para se absterem de tomar decisões impopulares e resolver a crise através de políticas monetárias de facilitação deve ser enfrentado pelos bancos centrais. É portanto vital que não haja ambiguidades acerca da natureza temporária das medidas não convencionais que vêm sendo adoptadas.

Para ultrapassar a crise, as medidas de curto prazo devem ser consistentes com a estabilização a longo prazo em que todos estamos empenhados. (...) A política monetária da Zona Euro é conduzida da união monetária como um todo; uma política expansionista para a Alemanha tem de ser conduzida com outros instrumentos nacionais.

 Contudo, isto também implica que as preocupações acerca de uma política menos expansionista na periferia não devem levar os dirigentes políticos a tomarem medidas que possam por em risco os níveis de inflação na Zona Euro. 
Mantendo como seu principal objectivo controlo da inflação é o primeiro requisito para salvaguardar o mais precioso recurso de um banco central: credibilidade.

Em política monetária, como na vida, serás amanhã o que fizeres hoje. 
.

Monday, May 07, 2012

MERKOLANDE OU MERKO-SUL

Logo que foram conhecidos os resultados  das eleições presidenciais em França, Merkel mandou recado a Hollande para este se apresentar em Berlim para umas conversas de pé-de-orelha. Uns dias antes, Monti tinha manifestado o seu agrado com as sondagens que davam o favoritismo a Hollande, porque, com este será possível uma frente do Sul - França, Itália e Espanha -, Portugal e Grécia não contam para estas contas, enfrentar as intransigências alemãs.

Entretanto, na Grécia andam atrás da rolha após as eleições legislativas que, confirmando as sondagens, resultaram numa dispersão de votos que aumentou ainda mais, se possível, a ingovernabilidade democrática do país. Merkel, sempre ela, já fez saber que o plano europeu é para se cumprir, é a melhor via para os gregos, e rejeita mudança de regras.

A partir daqui, a União Europeia entra numa fase ainda mais crítica no sobressaltado caminho dos últimos dois anos. Até onde podem os sulistas convencer os alemães a aceitarem uma política que possa despertar o fantasma da inflação que os continua a assustar, sem o apertado controlo das rédeas que impôs aos descontrolados? Até onde vai Monsieur Hollande alienar os compromissos que assumiu com os eleitores franceses para manter funcionável o eixo Paris-Berlim? Hollande confrontou Sarkozy, durante o frente-a-frente que antecedeu as eleições, com o sucesso alemão relativamente ao fracasso do seu governo, mas foi eleito sustentado numa plataforma que Merkel não subscreve.

E, agora, François?
Perante Merkel, és intransigente ou abdicas, porque os meios termos apenas podem prolongar a crise e desacreditar-te a curto prazo? Aposto que abdicas. A pouco e pouco, entrarás no bolso da Ângela. Porque nem a política dela nem a que tu prometeste resolvem o imbróglio europeu. Porque a solução é nuclearmente política e tanto ela como tu, como Monti, como Rajoy, como todos os outros que contam menos, não arriscam avançar: o federalismo, mínimo, suficiente para garantir a estabilidade do edifício que continua sem alicerces. E ainda por cima arrombado em várias frentes.

Uma frente Merko-Sul, se avançar, não contribuirá, antes pelo contrário, para a unidade política que a União Europeia precisa para ser união. 

Thursday, May 03, 2012

MERKOLANDE VERSUS MERKOZY

O longo confronto verbal entre Sarkozy e Hollande, transmitido pela Sic ontem à noite, não deve ter alterado o sentido de voto dos eleitores franceses que as sondagens atribuem folgadamente favorável a Hollande. François Hollande será eleito presidente da França no próximo domingo, a menos que ocorra qualquer imprevisível nos três dias que restam a Sarkozy para inverter a desvantagem. Os media de hoje dividem-se entre o resultado do debate de ontem, o que significará um empate técnico. Os candidatos envolveram-se, sempre de forma muito crispada, numa discussão sustentada em cifras que, quando lançadas em catadupa, anulam-se mutuamente.  

Do meu ponto de vista, Hollande caiu numa contradição insanável: Sendo, como por convicção política lhe compete,  um acérrimo crítico da política de Merkel, comparou várias vezes o insucesso do governo de Sarkozy em França com o sucesso de Merkel na Alemanha. Sarkozy, obviamente, aproveitou para lhe verberar essa contradição.

Pois se Hollande reconhece que a economia alemã se comportou durante este período de crise de forma claramente melhor que a francesa como é que ele se propõe fazer melhor que Sarkozy adoptando políticas que claramente divergem das de Merkel? Dir-se-ia que por longos momentos Merkel se sentou entre eles.
Hollande voltou a referir a sua promessa de não ratificar o tratado de controlo orçamental ao mesmo tempo que criticava Sarkozy pela sua incapacidade de não ter controlado o défice. Merkel, nesse momento, deve ter acordado da sonolência que a disputa abespinhada e frequentemente contraditória dos dois franceses lhe terá provocado. 

Num ponto socialmente sensível,  Sarkozy poderá ter capturado as intenções de voto de muitos votantes em Marine Le Pen na primeira volta: aquilo a que poderá designar-se por lei da burka  e envolve toda a política de imigração, com especial incidência da islâmica. Será suficiente para lhe renovar o mandato? Creio que não. Mas, tendo em conta a expressividade do eleitorado nacionalista em França, a diferença entre Hollande e Mercozy será bem menor do que aquela que as sondagens recolheram antes deste debate.