Não me
venham contar histórias,
já tantas
vezes repetidas,
de heróis de
intenções generosas e almas puras
que o povo
idolatrou,
porque me
repugnam as idolatrias.
Não me
venham contar histórias de heróis impolutos,
que
arriscaram a vida
rumo ao sul
para
soltarem a ave encarcerada por outros seus iguais,
igualmente
idolatrados,
de norte a
sul,
quarenta e
seis anos antes.
É verdade,
só quarenta e seis anos antes,
uma
imensidão de tempo para quem nasceu há menos de cinquenta!
Conheço
essas histórias contadas e recontadas como contos de fadas
embrulhadas,
enfeitadas, perfumadas de poemas piegas,
discursadas com vozes cheias
de intenções
ocas.
Conheço-as
todas.
E vi, porque senti, que a avezinha solta naquela manhã de primavera
desenhou no
céu puro e limpo um perfeito e único golpe de asa
como eu
nunca antes tinha visto.
E que, como
um raio me tivesse trespassado,
e
emocionalmente tivesse fulminado as minhas congénitas reacções
à irracionalidade
das emoções das turbas.
Porque
também eu me juntei aos que idolatravam os heróis do dia
que tinham
aberto a gaiola onde outros parecidos,
também
idolatrados,
como libertadores do povo,
por terem
engaiolado a avezinha quarenta e seis anos antes.
Até me
aperceber que a intenção dos heróis daquele dia,
de libertação
da avezinha,
não era tão
desinteressada e pura como a turba tinha acreditado,
e como, num
qualquer catecismo, ainda continua a querer acreditar.
Ainda a
avezinha não se tinha regalado de voar,
levou uma
chumbada numa asa,
atirada por
quem tinha chumbo para atirar,
a avezinha,
deu de lado
mas não caiu ao chão,
batendo desesperadamente
as asas feridas,
depois de a
uma chumbada ter sido atingida por outras,
piando, desesperadamente
por clemência,
até pararem
as chumbadas quase dois anos e meio depois.
A avezinha sobreviveu, tem-se mantido viva,
ao longo de quase mais quarenta e seis anos,
mas não está garantido que se mantenha sempre solta e viva.
Há sempre alguém à espreita
para ensaiar a pontaria com uma chumbada,
reflectida.