Tuesday, August 12, 2014

COISAS ESPANTOSAS

No tempo em que a electrónica ainda não comandava a vida da espécie humana, qualquer iniciado em olhar para as contas de uma pequena ou média empresa topava à primeira vista com a conta de disponibilidades, isto é, depósitos à ordem, dinheiro em caixa e pouco mais porque, regra geral, quem tem disponibilidades não tem muitas se tiver dívidas remuneradas a pagar. De modo que se o balanço exibia, por um lado, disponibilidades chorudas e, por outro, dívidas relativamente elevadas (relativamente ao volume anual de receitas), era caso para pensar que havia gato por ali. Uma das razões mais primárias para tal anomalia era o acumular de vales de caixa, uma habilidade tosca para maquilhar os resultados ocultando custos. A sobrevalorização dos stocks era outra das práticas ingénuas para compor o balanço e convencer os bancos a manterem ou aumentarem os níveis de crédito. Claro que os bancos fiavam-se pouco nos balanços e exigiam avales pessoais, e depois se veria. E muitas vezes viam-se falências das empresas e dos empresários porque os bancos não avaliavam o risco, simplesmente tornavam ilimitadas as responsabilidades dos sócios de sociedades de responsabilidade limitada. 

Foi com estas experiências antigas que me ocorreu hoje dar-me ao trabalho de espreitar as contas da PT, aquele mimo de empresa recheada de génios, onde durante alguns anos brilhou em todo o seu esplendor o superstar das comunicações electrónicas, agora a brilhar no Brasil. E olhei aqui para cinco valores na edição para inglês ver, em milhões de euros:

Gross debt (7227),
Cash, equivalents and short term investments (2348),
Net debt (4879),
Average cost of net debt 5,38%,
Average cost o gross debt 4,80%.

Olha-se, e assalta-nos imediatamente uma pergunta: O que é que estará por detrás da gestão financeira desta empresa, blue chip da bolsa portuguesa, que retem em disponibilidades e equivalentes quase 1/3 do valor que deve? Vales de caixa ou outra daquelas habilidades mal enjorcadas por empresários de meia tijela, não. Poderia admitir-se que as aplicações de curto prazo rendessem mais que os custos da dívida, mas também não: é pior a taxa média de juro da dívida líquida que a da dívida efectiva.

Pois o sr. Zeinal Bava e seus companheiros da alegria, salvo o sr. Granadeiro e o outro senhor que não sei como se chama, afiançam que nunca repararam nisto!

É preciso ter uma grande bava sr. Zeinal!

Monday, August 11, 2014

SEM BLÁ-BLÁ-BLÁ

"Afinal, Oi sabia do investimento da PT no GES. E agora? No último sábado, o Expresso revelou que uma troca de e-mails entre Ricardo Salgado (BES) e Sérgio Andrade (Oi) dava a entender que afinal toda a gente na PT e na Oi sabia dos quase 900 milhões de euros que a empresa portuguesa investiu no Grupo Espírito Santo. Hoje, um analista do BPI Equity Research explica, citado pelo Jornal de Negócios, que esta ‘reviravolta’ nos acontecimentos pode ter consequências a nível da fusão PT/Oi."

Claro que sabia. Qualquer inteligência mediana perceberia que 900 milhões de euros não poderiam passar despercebidos a quem durante tanto tempo deve ter analisado as contas da PT (e da Oi, necessariamente) para avaliar as quotas de participação no conjunto. Anotei isso mesmo aqui quando vi desabar sobre Granadeiro todas as acusações pelo estapafúrdio empréstimo. Era totalmente inverosímil que nenhuma das outras sumidades, com particular destaque para Zeinal Bava, não soubesse, não tivesse aprovado até, uma operação que vinha a rolar desde o começo do século.

Para tão grande tramoia só um imenso desplante, ou uma enorme embriaguês, dos principais protagonistas, incluindo Granadeiro que assumiu o papel de exclusivo responsável. Por que preço, ainda não sabemos. O que vimos foi a sua saída de cabeça baixa e olhar encornado, segundo a expressão que ele mesmo utilizou. A bronca foi enorme demais para poder ser dissimulada. A mentira não poderia caber na mais benevolente das leituras da evolução dos factos. O sr. Zeinal Bava sentou-se no topo da Oi e enviou dois gestores brasileiros para o topo da PT.  Anotei há dias aqui que, "agora que o Sr. Granadeiro foi despedido, outros se seguirão. Um dia calhará a vez do Sr. Zeinal Bava."

Escrevo este caderno de apontamentos como quem faz palavras cruzadas.  Continua a parecer-me  muito óbvio que, no cruzamento destas colunas e linhas a queda de Bava acaba por ser a que, no final do puzzle, melhor se encaixa.
 

FUNDOS E FUNDILHOS

No meio de tanta maroteira financeira continuam de vento em popa os jogos de azar. Agora, com a permissão de apostas on line, que a APC - Associação Portuguesa de Casinos vê como uma sentença de morte aos casinos físicos, e com as apostas nas corridas de cavalos, não falta nenhuma oportunidade ao portuga para ser milionário à velocidade da luz. E, como é normalíssimo em actividades apostantes, há quem faça batota, e no futebol, que é terreno propício a viciações e manipulações de resultados, quem não pode ganhar em campo é tentado a ganhar perdendo.

Mas, para além dos casinos físicos, (o designativo é da APC) e dos casinos online, das apostas da Santa Casa, para o governo das quais o putativo candidato a próximo PR, sr. Santa Lopes, "dá graças a Deus" por lhe ter concedido tão nobre tarefa, existe o casino bancário, o mais tremendo, porque o mais global e exterminador casino de todos, que continua alegre e eficazmente a encher os bolsos dos banqueiros e seus croupiers. Na realidade, não há jogo de azar mais opaco e mais devastador das economias do que o jogo dos chamados fundos de investimento. Quando há dias, o senhor Carlos Costa afirmava que uma das acções a tomar para evitar a repetição de casos como o BES (e como o BPN, o BPP, etc., são mais os casos que as casas) é aumentar a literacia financeira, não estaria, certamente, a pensar elucidar o cidadão comum que, com algumas poupanças, não sabendo onde as arrumar, investe em fundos ditos de investimento que o podem arruinar e ao país. Sendo o sr. Carlos Costa uma personalidade banqueira jamais lhe passará pela cabeça avisar que os bancos de investimento também são casinos físicos, com a grande diferença imposta pelo seu âmbito, que não se resume aos limites físicos dos casinos da APC: arruinam frequentemente as famílias, põem de pantanas as economias nacionais, e apresentam as contas dos desastres aos contribuintes. Por outro lado, os fundos ditos de investimento em acções ou obrigações estrangeiras são um veículo legal de exportação de capitais, retirando capacidade de financiamento ao investimento produtivo nacional, constituindo , com a importação de endividamento, outro factor de debilitação das economias mais frágeis.

Talvez porque me habituei desde muito cedo a ver cada um a ganhar a vida com o suor do rosto, nunca me fiei em jogos de azar, e se, uma vez por outra me tentaram os croupiers, com grande relutância da minha parte, a colocar umas poucas fichas na mesa dos fundos ditos de investimento, os resultados, devo confessá-lo, foram geralmente negativos. O mesmo não se passa, reconheço também, com amigos e conhecidos que, se a conversa nos leva para aí, me dizem ganhar mundos e fundos com os ditos. Azar só meu? 

Há uns atrás, conversava em fim de tarde e de várias reuniões, com pessoa personalidade pública e fama de gestor de excepção. Quando a conversa o sugeriu, perguntei-lhe que impressão tinha das aplicações em fundos ditos de investimento, que eu considerava um jogo de azar sem freios. 
A melhor!, respondeu-me ele, sem hesitar. Tenho ganho muita massa com a bolsa e, muitas vezes, invisto em fundos. Claro que é preciso acompanhar o mercado ... sem acompanhamento, nada feito.
Calei-me, resignado com a minha inabilidade. O meu interlocutor entendeu, então, dar-me uma prova real da sua sageza financeira. Pegou do telemóvel, marcou um número, atenderam do outro lado. Está lá, ligue-me com F., Oh! F., como é que está hoje a bolsa por aí? Hum! A Sonae, quanto é que está a fazer agora a Sonae? Ah, sim?!, compro trinta mil. Isso, trinta mil. Debita na conta tal.
Olhou para mim, sorridente e vencedor. Está ver? É assim.

Daí a três dias o mercado dava um senhor trambolhão. Meti-me com ele: Desta vez deu raia, não?
Qual raia qual carapuça, não comprei para vender, aquilo é para manter, para deixar estar. 
Fiquei inteirado.  
---
Correl.- "Fundos sofrem primeiro impacto do BES. Fundos nacionais abalados com desvalorização da Bolsa - Expresso/Economia (9/8) - Gestoras estão tranquilas e referem que, apesar da crise no GES, o mês de Julho foi positivo, sem registo de resgates significativos ou receios dos investidores neste tipo de produtos"    
Até mais ver.

 

Sunday, August 10, 2014

SPORT LISBOA E ESPÍRITO SANTO

"O Novo Banco cancelou uma conta caucionada de perto de 70 milhões de euros ao Benfica. A notícia aparece na pior altura para os encarnados, que se encontram sob forte pressão de financiamento..."- cf. aqui - "Este é o resultado de uma ordem do Banco de Portugal para que este tipo de créditos que o BES tinha junto de vários clientes fosse encerrado."

Se isto é verdade, estamos perante uma flagrante distorção das regras de concorrência. Não há SAD que não jogue com empréstimos bancários que muito claramente excedem as suas capacidades de reembolso dos contratos assinados. Retirar à SAD encarnada o crescimento dos financiamentos bancários equivale a obrigá-la a vender o plantel ao desbarato, cortar determina a descida aos abismos.  Equivale à decisão de um árbitro comprado que expulssasse nos primeiros momentos do encontro quase toda a equipa, incluindo o guarda redes, ficando inteira em campo a equipa adversária 

Cortem-se os financiamentos bancários às empresas de futebol mas cortem-se a todas. E se não houver sequer dinheiro para comprar chuteiras, que joguem todos descalços!

---
Correl.- As dívidas dos futebóis

Saturday, August 09, 2014

MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL

O jornalista perguntou a Vitor Bento, naquele jeito dele de perguntar afirmando,  se o "Banco Novo" não teria de ser reestruturado, implicando isso redução de balcões e trabalhadores. O entrevistado, depois de considerar que, obviamente, ainda não tinha tido tempo para poder precisar as medidas a adoptar, foi admitindo que "é provável que o "Novo Banco" tenha que reduzir balcões e trabalhadores", uma forma de adiar dizer que é inevitável. 

Quando Vitor Bento foi convidado por Ricardo Salgado para presidir ao BES, em consequência da imposição feita por Carlos Costa a Salgado de o afastar da presidência do banco, o discurso do governador do Banco de Portugal garantia a solvabilidade do BES, havia apenas uma dívida provavelmente incobrável  do GES mas acomodável por uma almofada sem colocar em risco os níveis exigidos. Vitor Bento aceitou o cargo mas colocou como condição o prévio encerramento das contas pela gerência cessante. Acabou, pressionado pelo andamento turbulento, e provavelmente criminoso, dos acontecimentos subsequentes, por assumir a presidência sem as contas fechadas. E foi apanhado numa rede de que muito dificilmente se poderá desenvencilhar airosamente. 

O "Novo Banco", apesar de supostamente desvinculado dos activos problemáticos, encontra-se no centro de um emaranhado de conflitos de interesses que, inevitavelmente, agravarão ainda mais as ameaças que impendem sobre os trabalhos de metamorfose para uma entidade de que ninguém conhece a forma definitiva. Os conflitos laborais decorrentes da inevitabilidade do redimensionamento não serão, certamente, os de resolução mais complexa. Os mais imediatos decorrerão da capacidade do sistema financeiro se entender acerca do modo mais conveniente para todos de o "Novo Banco" subsistir, com esse ou outro nome, autónomo ou integrado pelos concorrentes. Em qualquer caso, é de supor que se Ricardo Salgado não tivesse mentido a Vitor Bento, se a situação real do banco fosse conhecida, isto é, se as contas tivessem sido encerradas antes da sua tomada de posse, como ele pretendia, Vitor Bento não teria aceitado a missão impossível. 

Há alguns tempos atrás, não imaginava que o BCP pudesse vir a reembolsar o Estado do empréstimo troica para recapitalização. Errei, mas ainda não sei como - o BCP tem vindo a declarar desde então milhões de prejuízos - pois apesar do recente aumento de capital e da alienação de alguns activos, é estranho que tenha gerado cash flow suficiente para amortizar o empréstimo, agora em cadência acelerada, sem desequilibrar os níveis que repôs com a recapitalização. Espero que esteja a errar também agora quando considero quase impossível a tarefa que Vitor Bento tem às costas, e com a qual, na parte mais pesada, ele não contava.
 --- 
A discussão do escândalo BES tem sido polarizada na via adoptada, mas é uma discussão sem sentido. Nas circunstâncias que a determinaram todas as soluções seriam más. Esta é, possivelmente, a menos má. O que aconteceu, e não devia ter acontecido, foi a reincidência na distracção, na incompetência, dos reguladores, claramente ludibriados por quem eles sabiam se tinha declarado já inequivocamente dolosamente faltoso. 
---
Correl. - Seguro contra despedimentos no "Novo Banco"
O Expresso publica hoje resultados de uma sondagem que coloca a coligação PSD/CDS à frente do PS se as eleições legislativas de realizassem agora: uma quase impossibilidade que Seguro tornou possível.

Friday, August 08, 2014

TEM ZEINAL QUE É CEGO

Há três semanas atrás, estranhei aqui que no conúbio entre a PT e o BES só entrasse o Sr. Granadeiro e um outro que é director financeiro (ou, de modo mais fino, CFO), e que nem o Sr. Zeinal Bava, nem nenhum dos outros administradores, nem nenhum dos outros membros da comissão executiva, nem os parceiros da Oi,  nem os auditores, ia a escrever nem os ROCs mas é redundante já que os ROCs são desde sempre e em todo o lado verbos de encher, principescamente remunerados por isso mesmo, tivessem dado pelas núpcias, que já vinham de longe como o brandy Constantino. E logo por um valor que chegou a ser, com a última remessa feita no princípio deste ano, metade do valor da PT.

É obra!
Vivemos num país onde há mais histórias mal contadas que moscas à volta de uma estrumeira. Mas o mais estranho é que tudo parece ser aceite e ficar impune sem que se observe mais que, aqui e além, uns esgares inconsequentes. Está tudo a dormir? 
Anteontem, a Oi S.A., "veio informar aos seus accionistas e ao mercado que o Sr. Zeinal Bava, Diretor Presidente da Oi, deixará o cargo de Presidente do Conselho de Administração da nossa controlada PT Portugal SGPS, SA.,..." e que, na mesma data, "o Conselho de Administração da Companhia aprovou propor a nomeação do Sr. Armando Almeida ao cargo de Presidente do Conselho de Administração da PT Portugal."
Ontem, foi a vez do Conselho de Administração da  PT SGPS dar conta da renúncia do Sr. Granadeiro dos cargos de Presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva da PT e, adicionalmente, "clarificar que, em relação às aplicações de tesouraria na Rio Forte Investments, nem o Conselho de Administração nem a Comissão Executiva da PT aprovaram ou discutiram, antes das notícias veiculadas na comunicação social no final de junho, essas aplicações."


900 milhões!, senhores, escrevem-se assim, 900.000.000, com nove dígitos. 
E não deram por ela?
Administradores executivos e não executivos são quase duas dúzias. Estiveram todos todo o tempo a dormir enquanto o Sr. Granadeiro e o director financeiro, pé-ante-pé transferiam, à socapa, para a Rio Forte metade do valor da Companhia que administram?
Agora que o Sr. Granadeiro foi despedido, outros se seguirão. Um dia calhará a vez do Sr. Zeinal Bava.

Thursday, August 07, 2014

ONDE ESTAVA O GOVERNADOR?

O senhor Carlos Costa tem muita gente que defende a sua incapacidade para ter detetado a tempo e horas a mascambilha que o senhor Ricardo Salgado e sua trupe engendraram à volta do banco que levava o nome do seu bisavô, usando mais ou menos argumentos com que outros, ou os mesmos, absolveram quatro anos antes a confessada distracção do senhor Vítor Constâncio, e promoveram-no a vice-presidente do BCE, responsável pela supervisão!

Um destes preclaros benevolentes defensores dos reguladores atira-se no Público de hoje - O precog lusitano - aqueles que, naturalmente menos informados mas mais tramados pelas consequências dos crimes praticados, ousam perguntar:  
“Onde estava o regulador?”.
Vê cair o BPN e questiona: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o BPP e inquere: “Onde estava o regulador?”
Vê cair a Dona Branca e interroga: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o Lehman Brothers e demanda: “Onde estava o regulador?”
Vê cair o Northern Rock e indaga: “Onde estava o regulador?”
Vê cair Bernard Madoff e interpela: “Onde estava o regulador?” 
Vê cair Alves dos Reis e perquire: “Onde estava o regulador?”

Perguntas pertinentes que o articulista considera bisonhas, despropositadas, porque, argumenta ele, os reguladores não são capazes de identificar e punir os culpados antes dos crimes serem cometidos. Pois não. Os reguladores não são paranormais capazes de tal proeza. Mas pede-se que façam o trabalho para que são excepcionalmente pagos, não por antecipação mas no momento próprio. Se depois dos casos "Alves dos Reis", "Dona Branca", "Madoff", " Northern Rock", "Lehman Brothers", "BPN", "BPP", para usar a lista do plumitivo,  os contribuintes continuam sujeitos aos pesados pagamentos dos descaminhos em proveito próprio dos banqueiros e coniventes, o governador deve explicar muito bem porquê. Parece que vai começar a fazê-lo hoje, e é de supor que dispensa testemunhas abonatórias certamente ignorantes da matéria.

Ao português comum, pagante, assiste o direito de perguntar porquê. Ou paga e não bufa, por recomendação do senhor jornalista?

Wednesday, August 06, 2014

MISERICÓRDIA DE ALTO A BAIXO

Há duas semanas atrás o senhor Santana Lopes, e entrevista do Expresso, - vd. aqui -, dava graças a Deus por lhe ter dado a oportunidade de ser Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e, para começar a abrir caminho para Belém, entre outra latoaria disse que,  se tivesse continuado primeiro-ministro o país teria poupado tempo e dinheiro ... não teríamos navegado nesta lógica de fazer agora e pagar depois". 

Ontem lia-se no Público que - vd. aqui - Dizem os auditores que futuro da Misericórdia de Lisboa pode estar em causa. As contas do ano passado, divulgadas há duas semanas no site da Misericórdia revelam um resultado operacional negativo de 8,7 milhões de euros, devido em grande parte a um aumento de 10 milhões nos custos de pessoal.  
.
Hoje, o mesmo diário - vd. aqui - descobre que "lugares-chave" da Misericórdia são ocupados por militantes do PSD e CDS, que controlam grande parte dos serviços desde a posse de Santana Lopes em Setembro de 2011. O número de dirigentes cresceu 23% entre 2012 e 2013, passando de 190 para 233.  Mesmo assim, a SCML tem contratos com as duas mais importantes empresas de comunicação do país, para além de possuir a sua própria diecção de comunicação e marketing com vários assessores de comunicação. Justificação dos contratos de assessoria externa: ausência de recursos próprios.

Em misericórdia para amigos o senhor Santana Lopes é um mãos rotas.  

Tuesday, August 05, 2014

MORALMENTE INACEITÁVEL, DIZEM ELES

No dia seguinte, lê-se aqui*, "O contributo da banca irá totalizar 500 milhões (incluindo os 187 milhões que já lá estão), pelo que o Estado fará um adiantamento de 4400 milhões ao Fundo de Resolução. Como colateral, o sector recebe o Novo Banco. E assim que este for colocado no mercado, até ao Verão de 2016, obterá ou uma mais-valia, ou ficará a zero ou encaixará um prejuízo."
Quem encaixará um prejuízo? O sector, isto é, os outros bancos? 
Mas se o "contributo da banca" irá totalizar 500 milhões (sendo a maior quota da responsabilidade da CGD, isto é do Estado, isto é, dos contribuintes) por deter a maior quota de mercado, se a diferença entre o valor da venda do banco e as perdas totais observadas no fim do encerramento do processo (que pode exceder dois anos) superar o "contributo da banca" quem pagará o que faltar?
.
Dizem o governador do Banco de Portugal e o Governo que não serão os contribuintes.
Dizem, até quando?
A propósito, vale a pena ler "Otro rescate portugués" e
(6/8) - Paul de Grauwe : O Governo português está a enganar os portugueses
----
Act. Notícia de última hora está a ser transmitida pela SIC notícias dá conta que os presidentes dos principais bancos estiveram reunidos hoje com o governador do BP e decidiram aumentar em mais 635 milhões a contribuição do sector para o "Fundo de Resolução" reduzindo o empréstimo do Estado para 3,4 mil milhões de euros. Quanto valerá o "Novo Banco" é uma das enormes dúvidas que só tempo virá a esclarecer. O BPN foi vendido, expurgado dos activos tóxicos,  por menos de 50 milhões. O BPN era muito mais pequeno que o BES mas 4 mil milhões de euros são 80 vezes 50 milhões ... Pode o "Novo Banco" valer mais que 80 BPNs? Ou o BPN foi vendido por um valor ridiculamente pequeno? O senhor Mira Amaral recusou integrar no BIC todo o pessoal do BPN. O Novo Banco manterá todo o pessoal do BES, segundo o comunicado. Até quando?
----
*"O sector financeiro só soube durante o fim-de-semana que ia ser chamado a resgatar o Banco Espírito Santo (BES), apoiado num empréstimo do Estado, o que apanhou de surpresa a generalidade dos banqueiros portugueses. Foi no sábado que os banqueiros portugueses, nomeadamente da CGD, do BCP, do BPI e do Santander, foram informados pelo Banco de Portugal do caminho adoptado para salvar o segundo maior banco português, uma solução que envolvia o sistema. E que não era esperada pela banca, apurou o PÚBLICO, ainda que não constituísse uma verdadeira surpresa, dado que é uma das vias previstas na lei da recapitalização. Havia ainda, segundo as mesmas fontes, outros sinais de alerta: as acções do BES estavam numa trajectória imparável de queda e sexta-feira fecharam a 12 cêntimos; o BCE deu indicações de que teria de ser encontrada uma solução rápida; a agência de notação canadiana reviu o rating do BES para baixo do grau de investimento (o que fecha o acesso ao financiamento interbancário e do BCE). Alguns responsáveis financeiros consultados pelo PÚBLICO nesta segunda-feira admitiram que apesar de esta ser uma solução “compreensível” do ponto de vista político, pois evita que os contribuintes sejam penalizados, é moralmente “inaceitável”: a banca é chamada a responsabilizar-se pela dívida “de alguém [Ricardo Salgado] que fez o que fez e está de férias”. 

E os supervisores não actuaram atempadamente e permitiram que o “carro descarrilasse”, pois não equacionaram o pior dos cenários: a exposição do BES ao universo empresarial Espírito Santo revelou-se muito maior do que o expectável, pois foi ao banco que os problemas do GES (com as holdings sob gestão de falências) foram desaguar. E o GES ruiu em menos de um mês. Não só a equipa de Salgado desobedeceu às orientações do BdP, já depois de ter sido afastado, aumentando os financiamentos ao grupo, como foram, entretanto, detectadas novas irregularidades. Como resultado o BdP teve de realizar emendas sucessivas às contas o que culminou num prejuízo semestral de 3600 milhões.
Foi neste quadro de pressão que o BES, transformado em Novo Banco, reabriu nesta segunda-feira. Dividido em dois: num banco mau (que mantém a marca BES, os seus accionistas, mas sem licença de actividade e sob a alçada de uma comissão liquidatária) e num banco novo, alvo de uma injecção de fundos de 4900 milhões. Para os clientes com créditos bons ou recuperáveis, os depositantes e os trabalhadores nada mudou, apenas a marca.
É no Novo Banco que o sistema financeiro vai entrar através do Fundo de Resolução, gerido pelo Banco de Portugal, mas fundeado pelo sector, na proporção da quota de mercado de cada instituição. O contributo da banca irá totalizar 500 milhões (incluindo os 187 milhões que já lá estão), pelo que o Estado fará um adiantamento de 4400 milhões ao Fundo de Resolução. Como colateral, o sector recebe o Novo Banco. E assim que este for colocado no mercado, até ao Verão de 2016, obterá ou uma mais-valia, ou ficará a zero ou encaixará um prejuízo.
A ministra das Finanças deu nesta segunda-feira uma entrevista à SIC, em que esclareceu que os 4400 milhões de euros serão emprestados pelo Estado a 2,8% (mais 15 pontos base para custos) à taxa média a que o Tesouro se financia junto da troika. A linha será renovada de três em três meses (até dois anos), com um acréscimo do spread de cinco pontos-base.
O  Novo Banco vai ficar livre de "quaisquer responsabilidades ou contingências decorrentes de dolo, fraude, violações de disposições regulatórias, penais ou contra-ordenacionais", assim como de "quaisquer responsabilidades ou contingências do BES relativas a emissões de acções ou dívida subordinada." Os possíveis pedidos de indemnização e processos interpostos por fraudes vão visar o banco mau, que fica com as posições no BES Angola, no banco na Líbia (Aman Bank) e em Miami (Espirito Santo Bank). Outra imposição do BdP, inédita, é que os depósitos e aplicações de gestores, familiares ou outras pessoas que tenham sido coniventes com actos de gestão irregulares ficam na esfera do banco mau, o que impede o acesso dos detentores a estas verbas. A comissão liquidatária do BES - banco mau, liderada por Luiz Máximo dos Santos, vai receber 10 milhões de euros para recuperar o valor dos activos tóxicos e suportar os custos com as diligências. Se no final tiver um lucro, tudo indica, será transferido para o Novo Banco.

Monday, August 04, 2014

O BES NÃO É O BPN

Segundo Carlos Costa o "Novo Banco " está já esta manhã convenientemente financiado, consoante os regulamentos de Basileia III e as novas regras da União Europeia de recapitalização dos bancos com a borda debaixo de água e risco de afundamento. E, enquanto o senhor Costa esfregava um olho, foi criado um banco novo em folha, sem espinhas, que garante sem contaminações tóxicas a continuidade das boas práticas do intoxicado, os depósitos aos excelentíssimos depositantes e, milagre dos milagres, sem custar um cêntimo aos contribuintes. E, para que não restem dúvidas, ao longo do seu comunicado de ontem à noite, o senhor Carlos Costa repetiu e repisou vezes que nem contei, a sua garantia de intocabilidade dos depósitos e dos contribuintes. É de génio!

Quanto vale a garantia dada pelo senhor Carlos Costa? 
Tanto quanto valeram as suas repetidas e repisadas declarações anteriores recentes de que o banco estava isento de contaminações tóxicas que pudessem abalar a sua solvabilidade e livre de impor o socorro do Estado. Enganou-se estrondosamente. Enquanto assistia divertido no Porto a uma dissertação do professor Bessa, que ridicularizou o seu antecessor Constâncio, o senhor Ricardo Salgado comia-lhe as papas na cabeça e entornava o prato sobre os senhores contribuintes. Ele próprio reconheceu ontem à noite não ter prendido com rédea curta o senhor Ricardo Salgado depois de o  ter despedido e à família da  gestão do banco. Como não fez o que era elementar fazer, considerando os antecedentes próximos e remotos, o senhor Carlos Costa permitiu que o senhor Ricardo Salgado fizesse ao buraco do banco a que presidia o que os gestores da Caixa Geral de Depósitos fizeram ao buraco do BPN: duplicaram-no. 

Garante o senhor Costa os depósitos? Não garante nada. Quem garante os depósitos é o empréstimo da troica intermediado pelo Estado, isto é, garantido pelos impostos dos contribuintes. Se  o banco, limpo e suficientemente financiado for vendido por um valor muito inferior ao empréstimo de quase cinco mil milhões de euros - o BPN foi vendido por 50 milhões menos uns quantos acertos ainda em vias de discussão - por quanto será vendido o "Novo Banco"?  Quem paga a diferença? Os outros bancos? Se assim fosse, por que se atravessaria o Estado no negócio assumindo a quase totalidade do capital do anedótico "Fundo de Resolução"

Disse-se que o BPN e o BPP eram casos de polícia pelos indícios de crimes e desmandos, ainda por julgar, praticados pelos que propositadamente os desgovernavam. O senhor Carlos Costa referiu-se ontem à noite a actos do mesmo estilo praticados pela administração presidida por Ricardo Salgado.

BPN, BPP, BES, que diferença fazem, excepto nos tamanhos?
---
(5/8) - "Novo Banco" vale 4,4 mil milhões de euros?"
(5/8) - Otro rescate portugués
 El Gobierno portugués ha acudido con prontitud al rescate del Banco Espírito Santo (BES), cuya mala gestión durante la crisis financiera ha provocado unas pérdidas semestrales de 3.577 millones de euros, el hundimiento casi total de sus acciones y una situación de quiebra. El caso Espírito Santo confirma que todavía colean en la banca europea los efectos de la crisis financiera, agudizados por una gestión muy deficiente. El equipo económico de Passos Coelho pretende convencer de que el rescate del banco no costará dinero a los contribuyentes lusos; pero este objetivo sólo es una declaración de intenciones. Como ha demostrado la capitalización de una parte de la banca española, es muy difícil evitar que los contribuyentes acaben pagando una parte de la reestructuración del banco.
Según el plan expuesto por el gobernador del Banco de Portugal, Carlos Costa, los activos solventes del BES se integrarán en Novo Banco, que se adjudica al Fondo de Resolución Bancaria (formado con capital de bancos privados) y dotado con una inyección de capital de unos 4.400 millones aportados por el Estado (se supone que de forma transitoria) que proceden, a su vez, del dinero aportado por Bruselas para la reestructuración bancaria portuguesa. Los activos insolventes quedan en el BES bajo la responsabilidad de los accionistas actuales (la familia Espírito Santo y Crédit Agricole principalmente). La idea básica es devolver los 4.400 millones con lo que se obtenga de la venta de Novo Banco.

Pero, se mire como se mire, los 4.400 millones son capital público y están avalados por el Estado. Lisboa tendrá que devolver el capital recibido de la troika. Es pronto para decirlo, pero parece improbable que la venta del banco proporcione los 4.900 millones que ha costado su recapitalización al Estado y el Fondo de Resolución; también es poco probable, por tanto, que no haya pérdida para el contribuyente.

Sunday, August 03, 2014

TODOS PARA O BAD

A comunicação do senhor Carlos Costa sobre a engenharia jurídico-financeira que manterá o BES de pé a partir de amanhã está marcada para as 22h 30 de hoje - vd. aqui. Como sempre, atrasado,  porque o senhor Marques Mendes, que costuma ter melhor ouvido, já se antecipou e deu ontem a conhecer aos senhores telespectadores as linhas gerais do projecto que se suporta na criação de um (mais um) bad bank* para onde serão remetidos os "activos tóxicos" do BES, conjuntamente com todos os actuais accionistas. Depois, limpinho, sem ossos, o BES será vendido a quem der mais daqui a uns seis meses. Contada por Marques Mendes, esta será uma história com um final feliz.

Mas como, mesmo desintoxicado de activos e accionistas, precisa o BES de ser recapitalizado, o que significa necessitar de qualquer coisa como quatro mil milhões de euros frescos, entrará em funcionamento um veículo recentemente inventado (o que eles inventam!) chamado Fundo de Resolução que será accionista único, e que, como o nome indica, irá, como previsto, receber um empréstimo tipo troica para resolver o berbicacho que faz quase o pleno da bandalheira banqueira portuguesa.

Quem paga o empréstimo?
O senhor Marques Mendes afirmou que, desta vez, não serão os contribuintes portugueses porque "o Fundo de Resolução não é do Estado mas (é) abastecido financeiramente pelos bancos todos do país".
.
Deve ter ouvido mal. Se o Fundo de Resolução é abastecido financeiramente pelos bancos todos do país para que servirá o empréstimo troica, imperativamente intermediado pelo Estado? Como as contribuições dos bancos para o Fundo de Resolução serão agora da ordem dos 380 milhões** e a recapitalização necessária da ordem dos quatro mil e novecentos milhões de euros**, quem pagará a diferença?   Por este andar ainda nos voltarão a contar que os empréstimos da troica para recapitalização dos bancos têm sido rentáveis para o orçamento do Estado. Recapitalizações de bancos com empréstimos da troica ergo quanto mais melhor!
---
*Porque é que estas criaturas não têm nome em português não sei, mas suspeito que mau banco ou banco mau seriam designações imprecisas considerando que não se sabe hoje o que é um bom banco ou um banco bom.
** Valores corrigidos (4/8)
Act.- Não são claras as indicações acerca dos valores efectivamente disponóveis no FR. Pelo que se lê aqui, o "Fundo de Resolução bancária" tem 367 milhões de euros.
---
(4/8) - Três perguntas que parece ninguém querer fazer sobre o "novo banco"

Saturday, August 02, 2014

CONSTÂNCIO SEGUNDO

O governador do Banco de Portugal é capa da revista do "Expresso" de hoje em pose de comandante de barco encalhado. À pergunta que introduz o tema da entrevista ao senhor Carlos Costa, "Forte ou fraco?", a resposta que reflexamente me ocorre é "gato-sapato"

Desde que se começaram a cair notícias da erupção do escândalo-mor em que se enrolara o   grupo Espírito Santo, cantavam em coro com o governador, o governo e os media, que o BES, o banco, estava quase safo de dívidas do grupo, que saltavam cada dia mais violentas do buracão, por obra e graça de uma barreira paciente e silenciosamente construida à volta do banco ao longo de um ano ou dois pelo senhor Carlos Costa, uma espécie de cinto de castidade pouco violado, que deste modo esperto evitara que alguma contaminação passada tivesse engrossado com o inesperado desconchavo do mais poderoso personagem  cá do sítio.

Considerando a extensão dos escândalos financeiros que a distração do governo do senhor Constâncio consentira, era esperada uma supervisão como deve ser de um banco central.  Durante o consulado da troica foi-nos insistentemente insuflada a convicção que a banca portuguesa se comportara lindamente, salvo os casos entregues à justiça, do BPN, do BPP, do BCP, e que a solidez do sistema não estava em causa.Viu-se depois que os analistas eram zarolhos: CGD, BCP, BPI e Banif foram recapitalizados com fundos da troica intermediados pelo Estado. O BES dispensou a troica e o Estado, e recapitalizou-se com fundos dos accionistas.

Não ocorreu ao senhor Carlos Costa & Companhia indagar onde teriam os Espíritos Santos ido desencantar os capitais com que assistiram ao aumento de capital do banco? Ocorreu, certamente, mas o senhor Carlos Costa demorou tempo demais a perceber que o senhor Ricardo Salgado estava a bandarilhá-lo.
.
Agora, tendo Ricardo Salgado feito gato-sapato do senhor Carlos Costa  serão os contribuintes portugueses, mais uma vez, chamados a pagar a conta dos estragos das acrobacias do senhor Salgado e as desatenções do senhor Costa. A justiça, essa passa muito vagarosamente ao lado. 
Prr!, senhor Carlos Costa, demita-se! Mostre que resta ainda alguma dignidade no meio desta bandalheira toda!


Friday, August 01, 2014

QUEM PROMETE CONTINUAR A TRAMAR OS REFORMADOS

O socialista professor doutor constitucionalista, ouvido numa das estações televisivas acerca da sentença do Tribunal Constitucional que julgou constitucionalmente procedente o alargamento da CES às pensões e reformas a partir de 1000 euros mensais, opinou que não competia ao TC julgar da justeza política da medida mas da sua conformidade com a Constituição. Assim, segundo o constitucionalista, sendo a medida, do seu ponto de vista, profundamente politicamente errada foi inteiramente acertada a sentença de sete entre treze exegetas constitucionais. E por quê?

Porque o TC vem sustentando a constitucionalidade da medida, políticamente errada, no carácter transitório da mesma. Resumindo, a medida do governo é meio errada, mas a sentença dos juízes é acertada ainda que  por uma toga negra e um critério que não lembraria ao diabo.

Alguns momentos depois, no mesmo canal televisivo, António Costa, um dos putativos candidatos a "próximo primeiro ministro", usava quase "ipsis verbis" o mesmo argumento do camarada constitucionalista ouvido no programa anterior, acrescentando, relativamente à proposta do governo de substituição da CES pela sucedânea CS - contribuição de sustentabilidade - que "será interessante saber que sentença irá ditar o Tribunal Constitucional relativamente à CS, com carácter definitivo, mas subsidiada com aumento do IVA e da TSU". E guardou, mal, na manga os seus propósitos, também  sobre este assunto, se vierem a concretizar-se os seus intentos de se sentar em São Bento.

Pacheco Pereira tentou, no seu turno do programa, obter de Costa a uma posição firme afirmando que "qualquer dos candidatos socialistas a primeiro-ministro já prometeu repor as pensões e refomas amputadas por este governo" mas Costa calou-se, o que, nas areias movediças da política, não significa que tenha concordado com a  afirmação do filósofo da Marmeleira. Em conclusão: Se a 14 de Agosto o TC se pronunciar pela constitucionalidade da CS, o senhor António Costa sentir-se-á confortado por não ter de procurar onde buscar recursos equivalentes aos garantidos pela CS, apesar  do seu repetido discurso de fé nos frutos do crescimento económico que há-de abençoar Portugal quando for ele a mandar.

Quanto ao senhor Seguro, o outro putativo, que não entrou na cena de ontem à noite, não se cansa de repetir que, com ele, os cortes de pensões e reformas serão abolidos, e pronto, não sabemos o que acontecerá em vez de. Para além do tal crescimento económico que está à espera que entre um socialista em São Bento para entrar ele ao mesmo tempo.

Em qualquer dos casos, se os Rattoneiros mantiverem a 14 de Agosto o critério da saga persecutória contra reformados e pensionistas, salvo os da sua laia, tanto faz Pedro como qualquer António, o processo de amputação iníqua será definitivo e irreversível.

Thursday, July 31, 2014

NÃO SÃO COINCIDÊNCIAS

No mesmo dia em que foi anunciado o prejuízo do BES de quase 3600 milhões de euros no primeiro semestre por reconhecimento de imparidades que a administação presidida por Ricardo Salgado tinha desconsiderado, parte das quais devidas a operações realizadas à revelia de determinação do Banco de Portugal que as havia proibido, o Tribunal Constitucional decidiu renovar o seu aval à sanha contra os reformados e pensionistas julgando constitucional o alargamento do imposto extraordinário sobre reformas e pensões a partir de 1000 euros mensais.

Para a maioria dos juízes do Tribunal Constitucional a prepotente imposição de um tributo sobre uma classe,  "não constitui um sacrifício particularmente excessivo e desrazoável", uma sentença tanto mais insana quanto a sua obliquidade se agrava pelo facto de que - vd. aqui - "nem todos os reformados com pensões elevadas (agora, a aprtir de 1000 euros) saem a perder com a decisão do Tribunal Constitucional (TC). Os juízes e os diplomatas jubilados não são afectados pela polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES), viabilizada pelos juízes do Palácio Ratton."

Pelas acrobacias a que se dedicou a grande velocidade a fina flor dos banqueiros deste país, estatelando-se sobre o coiro dos contribuintes, com particular impacto sobre os ombros mais frágeis e indefesos dos reformados (atenção!, excepto se forem juízes ou diplomatas)  levarão os tribunais largos e dormentes anos à espera que o tempo prescreva e apague na fraca memória colectiva os fautores dos monumentais estatelanços. O sacrifício dos CESquestrados, "com carácter excepcional e transitório,  nem particularmente excessivo nem desrazoável, segundo os de Ratton, esse, já entrou imediatamente em vigor há quatro anos.Tudo em nome de um pseudo estado de direito em que se entorna uma democracia fluida.

Wednesday, July 30, 2014

O GARGANTA PÚBLICA / Act.

Neste caso, o crónico e sempre insondável mistério do Ministério Público, ou o jogo da cabra-cega na muito gozada variante da violação do segredo de justiça pelo garganta pública.

Lê-se aqui que "a revista "Sábado" noticia, na sua edição desta quinta-feira, que José Sócrates está sob vigilância do Ministério Público há bastantes meses, por suspeita de envolvimento no escândalo Monte Branco. De acordo com a notícia, que faz a capa da revista, o Ministério Público pondera deter o ex-primeiro-ministro para interrogatório e constituí-lo arguido. Também estará sob suspeita Hugo Monteiro, o primo de José Sócrates que foi um dos protagonistas do caso Freeport. Fonte da revista adiantou ao Expresso que Sócrates foi contactado antes da publicação da notícia e confrontado com as suspeitas de que será alvo, mas não quis comentar."

---
Act. -  "Na sequência de notícias vindas a público nas últimas horas, esclarece-se que José Sócrates não está a ser investigado nem se encontra entre os arguidos constituídos no Processo Monte Branco", diz a PGR em comunicado. "Em declarações prestadas entretanto à RTP, José Sócrates garante: "A minha família não faz tráfico de capitais nem movimenta largas somas". E acusa: "Constrói-se uma notícia falsa com o objetivo de me difamar". - vd. aqui

Já nada nos espanta neste país de generalizada irresponsabilidade ilimitada.
Se nada do que a "Sábado" relatou tem fundamento, espera-se que a PGR faça o difamador pagar exemplarmente pela suposta atoarda. Mas não costuma.
Pagaria para ver.

 

Tuesday, July 29, 2014

COMO SE FOSSE A COISA MAIS NATURAL DESTE MUNDO

A PT SGPS e a Oi anunciaram acordo sobre os termos para prosseguir com a Combinação de Negócios, e que,  quanto a matéria relevante,  não constituem novidade: em consequência de um empréstimo de 897 milhões de euros ao Grupo Espírito Santo, por razões que devem ter sido ponderosas e muito ponderadas, mas que até agora ninguém disse quais nem quem foi responsável por quanto, a participação da PT na coligação com a Oi sofre um rombo notável: de 37,3% para 25,6%. A recuperação desta queda depende da capacidade da PT recuperar o exótico empréstimo feito ao GES dentro num calendário de amortizações que se extingue ao fim de seis anos.

Dizem as notícias que Granadeiro e o administrador financeiro da PT ficarão de fora da administração do grupo resultante da fusão.

Leio, e continuo a perguntar-me (aliás, tanta gente pergunta) como aqui: Mais ninguém sabia da existência de uma prática que remontava a 2001? Granadeiro é culpado único, e nesse caso como é que se mantém ainda na presidência da PT, ou o cordeiro imolado a troca de uma pretensa inimputabilidade de todos os outros que, pelos cargos que exerciam, de administração, fiscalização, auditoria, revisão de contas, são tanto ou mais culpados que Granadeiro? Espera-se que as assembleias gerais que terão de se pronunciar sobre as consequências deste negócio bizarro (a PT endividava-se ao mesmo tempo que emprestava ao GES muito mais do que poderia estar autorizado a emprestar qualquer banco) obriguem o seu esclarecimento.

---
A PT e a Oi reviram os termos do acordo e a PT irá deter 25,6% do capital em vez dos 38% inicialmente previstos - esta participação já tinha sido revista para 37,3% com o exercício do lote suplementar de acções no aumento de capital da Oi. Ou seja, a participação dos accionistas portugueses na CorpCo passa de cerca de 12% para 8,95%.

Comunicado  |  Lisboa  | 28 de julho de 2014 A PT SGPS e a Oi anunciam acordo sobre os termos para prosseguir com a Combinação de Negócios 
A Portugal Telecom, SGPS S.A. (“PT SGPS”) e a Oi S.A. (“Oi”) anunciam que chegaram a acordo sobre os termos definitivos dos principais contratos a celebrar na sequência do Memorando de Entendimentos (“MoU”) anunciado em 16 de julho de 2014. 
A celebração da documentação definitiva está sujeita à aprovação pela Assembleia Geral de Acionistas da PT SGPS e pelo Conselho de Administração da Oi. A documentação estabelece que: 
 A PT SGPS irá permutar (“Permuta”) com a Oi as aplicações de tesouraria na Rio Forte Investments, SA (“Dívida da Rioforte”) no montante de 897 milhões de euros, em contrapartida de 474.348.720 ações ON mais 948.697.440 ações PN da Oi (“Ações da Oi Objeto da Opção”):  À PT SGPS será atribuída uma opção de compra não transferível de tipo Americano (“Opção de Compra”) para readquirir as Ações da Oi Objeto da Opção (com o preço de exercício de R$2,0104 para ações ON e R$1,8529 para ações PN), a qual será ajustada pela taxa brasileira CDI acrescida de 1,5% por ano;  A Opção de Compra sobre as Ações da Oi Objeto da Opção entrará em vigor à data da Permuta, terá uma maturidade de 6 anos, expirando a possibilidade de exercício pela PT SGPS em 10% das Ações da Oi Objeto da Opção no fim do primeiro ano e 18% em cada ano seguinte;  Qualquer montante recebido como resultado da monetização da Opção de Compra através da emissão de instrumentos derivados tem de ser utilizado para o exercício da Opção de Compra;   A PT SGPS só pode adquirir ações da Oi ou da CorpCo através do exercício da Opção de Compra;  A Opção de Compra será cancelada se (i) os estatutos da PT SGPS forem voluntariamente alterados para remover a limitação de voto de 10%, (ii) a PT SGPS atuar como concorrente da Oi, ou (iii) a PT SGPS violar certas obrigações decorrentes da documentação definitiva, e  Os contratos serão celebrados assim que todas as aprovações societárias sejam obtidas e a Permuta está sujeita à aprovação da Comissão de Valores Mobiliários no Brasil e deve ser executada em ou antes de março 2015. 
O Conselho de Administração da PT SGPS irá solicitar ao Presidente da Assembleia Geral de Acionistas que convoque, nos próximos dias, uma Assembleia Geral de Acionistas da PT SGPS, a ser realizada até 8 de setembro de 2014, para deliberar sobre os termos dos acordos a serem celebrados com a Oi relacionados com a combinação de negócios entre a PT SGPS e a Oi.  
Os termos dos acordos a serem apresentados pelo Conselho de Administração à Assembleia Geral de Acionistas até vinte e um dias antes da realização da Assembleia também irão incluir uma estrutura acordada alternativa à incorporação da PT SGPS na CorpCo anunciada previamente, de modo a atingir os seguintes objetivos: 

  |  Comunicado   2/2  
 Permitir que a incorporação da Oi na CorpCo e a migração para o Novo Mercado sejam implementadas o mais rapidamente possível, com a cotação da CorpCo na BM&F Bovespa, Euronext Lisboa e NYSE;  Sujeito a aprovação dos acionistas em Assembleia Geral de Acionistas, convocada especificamente para o efeito, os acionistas da PT SGPS irão receber todas as ações da CorpCo detidas pela PT SGPS, após a execução da Permuta e antes que qualquer exercício da Opção de Compra, correspondendo a uma participação de 25,6% na CorpCo, ajustada pelas ações em tesouraria, e  A PT SGPS continuará cotada com a participação na Dívida da Rioforte e a Opção de Compra como os seus únicos ativos relevantes.

Monday, July 28, 2014

LINHAS SUBURBANAS

A., voou para os EUA há quase vinte anos, volta uma vez por ano por períodos de duas a três semanas. O irmão, que voou poucos anos depois na mesma direcção para se radicar mais tarde no centro da Europa, raramente aparece por cá, talvez desencantado com o país onde nasceu. A., gosta de voltar a pisar os caminhos antes percorridos. Há dias, ela e o marido, estrangeiro,  para se deslocarem a Lisboa preferiram o combóio à viatura à sua disposição. Voltaram antes da meia noite e A., vinha chocada com que viram e ouviram à juventude que vinha no combóio: uma linguagem altamente desbragada a acompanhar comportamentos insólitos. 
- É corrente, agora, este tipo de conversas em Portugal?, perguntava incrédula.
- Não sabemos. Não andamos de comboio, fica-te mais dispendiosa a viagem de combóio que o transporte em viatura própria se residires longe das estações e não haver, como geralmente não há, ligações de autocarro adequadas.
- Não pode ser.
- Pode, pode, as contas são fáceis de fazer. Mas, a propósito desse tipo de conversas, também te devo dizer que, não andando nós de combóio, não nos podemos escapar de vez em quando à audição desse tipo de linguagem de gente jovem, entre rapazes e raparigas, em qualquer local público.
- É espantoso.
- Não tanto. A moda não é recente, creio eu. Simplesmente, generalizou-se. Talvez por verem as séries made in USA ... Sabes que a quase totalidade das produções de origem estrangeira que passam nos canais de televisão ou nos écrans dos cinemas são de origem norte-americana. A população portuguesa bebe o north american lifestyle às litradas, e a juventude é naturalmente a mais permeável.
- Não acredito. Nunca, que me lembre, alguma vez ouvi nos Estados Unidos alguma coisa, sequer parecida, com o que ouvimos neste combóio entre Lisboa e Cascais. Lá, aquela linguagem, garanto-te, simplesmente não existe.
- Talvez exista em meios que não frequentas ...
- Hollywood, queres tu dizer?
- Hollywood não conta as histórias de pessoas normais, as pessoas normais, já se sabe, não têm histórias que interessem às pessoas normais. Para a juventude que as vê, as histórias de hollywood sustentam-se em estereótipos que induzem a imitação tanto nos comportamentos como nas expressões. 
- É possível. Lá em casa vê-se pouca televisão. 
- O puritanismo norte-americano também tem rombos de alto lá com eles ...
- ... mas a sociedade em geral comporta-se com grande civismo. Por exemplo, as carruagens dos comboios não apresentam o aspecto degradado das que se vêm aqui e, 
- ... pelo aspecto da carruagem imagina-se quem vai lá dentro.
-  É isso mesmo, é o princípio das janelas partidas.
- Voltando à linguagem e ao comportamento juvenil de hoje, aconteceu-me assistir há dias a uma cena macaca: estavam uns miúdos numa sala a ver televisão, atentos, comprometidos. Chega o avô à sala e percebe que os garotos deliciavam-se com uma cena de um filme da Fox que envolvia conversa sobre sexo oral. Desligou o aparelho e deu conta do sucedido aos adultos. Ficou mal visto por todos. Afinal aquilo era apenas uma história de uma violação, um filme da Fox, convém que os miúdos aprendam que há monstros à solta nesta selva em que vivem.
- Incrível teoria, não é?
- É uma teoria. E, nesta matéria, a cada qual a sua.
- Eu não compreendo.
- Ah! Voltamos a falar disso daqui a um ano. Valeu? Talvez nessa altura já  tenham lavado a cara às carruagens dos tranvias.

Sunday, July 27, 2014

CARLOS SILVA

Antes de sair de casa à procura da residência que nos tinham indicado, pedimos ajuda à internet e, munidos do print do itinerário recomendado pela electrónica lá fomos confiantes e a horas de não falhar a hora combinada. Já nas próximidades do local de destino, começaram as complicações na primeira rotunda. Será por aqui ou por ali? Deve ser por aqui, para o centro. Não era. Por sorte, encontrámos algumas voltas depois três polícias em tranquila cavaqueira, e um deles, o mais novo, deu-nos indicações para voltar para trás, depois sobe, depois corta à direita, depois corta à esquerda, depois ... depois é por aí, é uma questão de ir lendo as placas. E era por ali, mas até lá passámos por várias ruas sem qualquer identificação nas esquinas. Será esta? É rua ou avenida? É avenida. Então deve ser larga? Nem sempre. Se o homenageado foi tido por graúdo na altura da consagração, se não há avenida por nomear, ou ele morou ou andou por ali,  promovem uma rua a avenida. Deve te sido  esse o caso: a avenida é uma rua, aliás com trânsito, em grande parte da sua pequena extensão, num só sentido, obrigando o automobilista a contornar o bairro para descer a avenida de um sentido só.

- Quem foi este Carlos Silva?
- Não faço a mínima ideia, Carlos Silva há, e sempre houve, muitos.
- Este costume de dar a cada rua, ruela, ou beco sem saída, o nome de um sujeito que não passou à história baralha qualquer um que procure uma morada e não esteja munido de GPS actualizado ou não encontre polícia ou carteiro por perto.
- Hum! Não estás em Nova Iorque ou Washington DC. Aqui, às vezes, nem a vizinhança consegue ajudar. Quanto a glorificar em placas os nomes de efémeros pequenos notáveis é um hábito que os políticos não dispensam: por um lado, enquanto vivos cortam fitas e descerram placas evocativas da sua passagem por todo o lado,  e, por outro, logo que apanham um corelegionário morto tratam de lhe por o nome na esquina duma rua para que não se esqueçam deles quando chegar a sua vez.
- E depois, ao fim de pouco tempo, a vez de serem só nomes de quem ninguém sabe quem foi.
- Li ontem no Expresso que em Lisboa o número de nomes candidatos a um lugar na toponímia  da cidade excede largamente o número de ruas por nomear. A cidade não cresce, a população envelhece,  e a lista de espera de notáveis mortos não para de crescer.  De modo que a Câmara decidiu agora atribuir às freguesias, alguma coisa elas terão de fazer, a incumbência de escolher os preferidos. Os preteridos serão glorificados na denominação de bairros, conjuntos arquitectónicos, equipamentos e infraestruturas de ensino, saúde, culturais e desportivos, os parques e recintos associados a áreas verdes, de recreio e lazer, as pontes e os viadutos. A colocação de placas evocativas serão também alternativas para os não contemplados com a placana esquina de um beco, rua ou avenida. 

- Subdesenvolvimento cultural?
- Não, não é. É cultural. A cultura não é sobre nem subdesenvolvida. E nós por cá continuamos assim.

Friday, July 25, 2014

SANTA CLARA-A-VELHA

Santa Clara-a-Velha esteve semi soterrada por séculos de assoreamentos do Mondego quando o curso das suas águas não estava regularizado pela barragem da Aguieira. O "basófias" agigantava-se geralmente a partir de finais de Setembro depois de se ter encolhido a níveis mínimos, ficando quase invisível no pino do Verão ao passar por Coimbra. Uns quilómetros mais abaixo, quando o Inverno se antecipava, inundava os arrozais até princípios da década de 80 do século passado,  obrigando  os agricultores a ceifarem de barco  as espigas quase afogadas. Aos arquitectos do século XIII passaram despercebidos os caudais de terras e calhaus que o rio arrastava das serras e depositava quando o seu curso se aplanava subindo-lhe os níveis do leito. Aperceberam-se as clarissas, franciscanas, quando as águas começaram a inundar-lhes o Convento e a obrigarem à mudança de instalações para Santa Clara-a-Nova, no cimo do monte sobranceiro. Nesse dia, começou o enterramento secular de Santa Clara-a-Velha e a invasão dos silvados. Considerado monumento nacional em 1910, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha só em 2009 viria a ser aberto ao público após trabalhos de arqueologia, remoção de terras, recuperação possível e reconstrução sem lhe retirar carácter, um trabalho notável, merecedor de vários prémios, que merece ser visitado.


Não escapam, contudo, ao visitante menos espantado com as colagens recentes, alguns aspectos menos merecedores de aplauso. Desde logo, a entrada para a visita às ruínas do convento colocada no lado oposto do vasto logradouro não é convidativa a quem passa pelas principais vias de onde se lobriga o monumento. Isolado da malha urbana, a entrada escondida e distante aumenta-lhe o isolamento. 

Passada a porta de acesso, sobe o visitante para um edifício sobrelevado, projectado para materiais pretensiosos, dedicado a bilheteira, loja, bar, sala de visionamento de um vídeo explicativo, sala de exposição permanente de peças recuperadas durante as escavações ou alusivas à vida em clausura monacal, e ainda outra de exposições temporárias, de bordados de Castelo Branco, quando passámos por lá. Entre a estrutura elevada do edifício e o solo estão depositadas as pedras que escaparam aos desvios cometidos ao longo dos séculos e agora não têm com quem dialogar. Vistas as exposições e o vídeo, tem o visitante de percorrer não menos que uns trezentos metros por passadeiras de materiais igualmente pretensiosos, desenquadrados dos votos daquelas que há quase oitocentos anos habitaram o convento. No começo da jornada pode o visitante descer por rampa do mesmo estilo para visitar uma horta meio abandonada. Chegados à frente das ruinas,  surpreende-nos no lado direito da frente principal do convento um elevador exterior, qual cogumelo de aço gigante, que liga a entrada ao nível do solo com a saída ao nível do terreno adjacente. Podiam os acessos ser muito mais curtos, de laje de pedra ou terra batida e com desnível suficiente para evitar o insólito elevador, que um dia destes deixará de funcionar por falta de verba para a manutenção?

Podiam, mas não haveria o requinte do provincianismo que põe o pagode de boca aberta, dá votos, e faz as delícias de alguns arquitectos e construtores civis.

Thursday, July 24, 2014

MELHORES, MAS MUITO POUCO



 As Nações Unidas divulgaram ontem o "Human Development Report 2014".

No ranking do índice (a pgs. 160), Portugal é colocado na 41ª. posição. Subiu duas posições relativamente ao HDR 2013. Caiu 28 posições relativamente ao HDR 2002 (dados de 2000). Em 2000, Portugal era antecedido pelos países da Europa Ocidental, Estados Unidos da América, Japão, Nova Zelândia, Hong Kong, Singapura e Coreia do Sul. Ainda em 2000, Portugal situava-se na 26ª  posição do ranking do PIB per capita, significando isto que tinha, então, piores posições nos rankings da expectativa de vida e da escolaridade que no índice complexivo (esperança de vida, educação e PIB per capita). 

Em 2013 (HDR 2014) situavam-se acima de Portugal todos os países que já se encontravam acima em 2000, tendo sido apanhado pelo Chile (efeitos esperança de vida e educação), Emiratos Árabes Unidos (forte efeito PIB per capita e educação), Eslováquia (efeito PIB pc e educação), Polónia (educação), Lituânia (educação), Arábia Saudita (PIB,educação), Estónia (educação), Qatar (PIB, educação), Brunei (PIB, educação), República Checa (educação), Eslovénia (PIB, educação), e ainda Andorra e Liechtenstein, que não constavam dos rankings do HDR 2002. 

O efeito educação favoreceu todos os países que ultrapassaram Portugal.  Mesmo que se excluam da análise comparativa os países produtores de petróleo, a conclusão é a mesma. 

Ouve-se, com muita frequência dizer que "esta geração de portugueses é a melhor preparada de sempre". A propósito, tenho apontado neste bloco de notas que se trata de uma afimação que olha para o nosso passado e não repara para a evolução observada nos outros países com os quais essa geração melhor preparada tem de competir. Olha para trás, não olha para o lado. Pior ainda: uma larga maioria dessa (mal presumida) geração mais bem reparada de sempre emigrou ou está a preparar as malas.