Tuesday, August 12, 2014

COISAS ESPANTOSAS

No tempo em que a electrónica ainda não comandava a vida da espécie humana, qualquer iniciado em olhar para as contas de uma pequena ou média empresa topava à primeira vista com a conta de disponibilidades, isto é, depósitos à ordem, dinheiro em caixa e pouco mais porque, regra geral, quem tem disponibilidades não tem muitas se tiver dívidas remuneradas a pagar. De modo que se o balanço exibia, por um lado, disponibilidades chorudas e, por outro, dívidas relativamente elevadas (relativamente ao volume anual de receitas), era caso para pensar que havia gato por ali. Uma das razões mais primárias para tal anomalia era o acumular de vales de caixa, uma habilidade tosca para maquilhar os resultados ocultando custos. A sobrevalorização dos stocks era outra das práticas ingénuas para compor o balanço e convencer os bancos a manterem ou aumentarem os níveis de crédito. Claro que os bancos fiavam-se pouco nos balanços e exigiam avales pessoais, e depois se veria. E muitas vezes viam-se falências das empresas e dos empresários porque os bancos não avaliavam o risco, simplesmente tornavam ilimitadas as responsabilidades dos sócios de sociedades de responsabilidade limitada. 

Foi com estas experiências antigas que me ocorreu hoje dar-me ao trabalho de espreitar as contas da PT, aquele mimo de empresa recheada de génios, onde durante alguns anos brilhou em todo o seu esplendor o superstar das comunicações electrónicas, agora a brilhar no Brasil. E olhei aqui para cinco valores na edição para inglês ver, em milhões de euros:

Gross debt (7227),
Cash, equivalents and short term investments (2348),
Net debt (4879),
Average cost of net debt 5,38%,
Average cost o gross debt 4,80%.

Olha-se, e assalta-nos imediatamente uma pergunta: O que é que estará por detrás da gestão financeira desta empresa, blue chip da bolsa portuguesa, que retem em disponibilidades e equivalentes quase 1/3 do valor que deve? Vales de caixa ou outra daquelas habilidades mal enjorcadas por empresários de meia tijela, não. Poderia admitir-se que as aplicações de curto prazo rendessem mais que os custos da dívida, mas também não: é pior a taxa média de juro da dívida líquida que a da dívida efectiva.

Pois o sr. Zeinal Bava e seus companheiros da alegria, salvo o sr. Granadeiro e o outro senhor que não sei como se chama, afiançam que nunca repararam nisto!

É preciso ter uma grande bava sr. Zeinal!

1 comment:

Antonio Cristovao said...

Bem dito. Estas mentiras travestidas de gestão precisam de ser chamadas pelo que realmente são =fantasias.
Imagino a vacina que não provocam nos pequenos acionistas estas cambalhotas de nababos com muito pouca vergonha.