Friday, August 22, 2014

A OUTRA COSTELA

A longa guerra israelo-árabe parece interminável.
As sugestões para alcançar a paz são muitas, as tentativas poucas e débeis, de qualquer modo já foram atribuidos até agora nada menos que cinco prémios Nobel a título de grandes contributos para a paz no Médio Oriente: em 1978 a Mohamed Answar El-Sadat (presidente égípcio, que seria assassinado por fundamentalistas islâmicos três anos depois) e Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel; em 1994, a Yasser Arafat, presidente da Autoridade Nacional Palestina, Shimon Peres e Ytzhak Rabin, primeiros-ministros de Israel. Para além de outros também envolvidos em esforços pela paz naquela zona do globo.

Como em qualquer conflito internacional, extremam-se as posições dos cidadãos comuns observadores externos sem nenhuma influência nos percursos da guerra. Regra geral, apoiam os palestinianos aqueles que, por uma razão ou outra, são críticos do domínio norte-americano, e vêm em Israel um posto avançado desse domínio no meio do mundo islâmico. Alinham por Israel aqueles, entre os quais me me incluo, que, olhando para a enormíssima desproporção de territórios e populações envolventes que ameaçam ou apoiam a ameaça da sua destruição, reconhecem-lhe o direito vital de se defender.
Têm os palestinianos direito a um território que seja a sua pátria? Sem dúvida.
Têm os judeus a um direito igual? Como negar-lho?
Se dois direitos são igualmente legítimos sobre o mesmo território, a única forma consentida pela lógica e pela física é a constituição de uma pátria israelo-palestiniana (ou vice versa) comum.
Mas esta é uma solução que os extremistas do Hamas, incitados pelo fundamentalismo islâmico apostado em dominar o mundo, liminarmente rejeitam, reclamando o fim da ocupação israelita, isto é, a expulsão dos judeus da terra que constituiu ao longo dos milénios em que foram obrigados a peregrinar pelo mundo a sua pátria de referência.

Não cabem, portanto, numa ponderação que rejeite em absoluto quaisquer argumentos, mais ou menos capciosos, de superioridade rácica de um povo sobre os restantes*, outras razões que não decorram da impossibilidade de alcançar a paz sem a coabitação dos povos envolvidos no conflito, eventualmente garantida durante o tempo julgado necessário por forças de intervenção da ONU no terreno.

Mas se é absurdo, e, mais que absurdo, detestável, porque relembra propósitos fundados em ideologias racistas, de que os judeus foram vítimas através da sua longa história de quatro milénios, não é racionalmente aceitável, por eventualmente politicamente incorrecto, que se ignore o sucesso dos judeus no meio de uma travessia frequentemente assaltada por perseguições e genocídios. É um facto ineludível que cientistas com ascendentes judeus têm contribuido, mais que nenhum outro, para os avanços da ciência observados nos últimos cem anos. Mas foi sempre assim?
Antes de mais, importa relembrar que a condição de "povo judeu" não se estabelece no mesmo plano de "povo americano" ou "povo português". A grande maioria dos galardoados de ascendência judaica por contributos relevantes para o avanço das ciências nasceu ou residiu, ou reside, nos EUA, sendo portanto jus solis ou por naturalização norte-americanos. Se essa fosse a intenção, o sucesso do "povo judeu" deveria comparar-se com o sucesso do "povo católico" independentemente das diferentes nacionalidades envolvidas em cada grupo. Mas a questão, como anotei ontem aqui é outra, a que não se responde fingindo ignorá-la: a que se deve o sucesso no campo científico dos descendentes judeus?

Importa, desde logo, referir que, tendo o povo judeu (ou a religião judaica, porque o judeu se caracteriza por pertencer originalmente a um grupo étnico que professa a religião judaica, admitindo no entanto no seu seio convertidos  e excluindo os convertidos a outras religiões) cerca de 4000 anos, o seu ascendente científico é relativamente tardio.

Os mais destacados pioneiros da teoria científica surgiram na Grécia (Tales de Mileto - c. 624 AC, Pitágoras - 580-500 AC, Zeno - c. 450 AC, Euclides - 323-285 AC, Arquimedes - 287-212 AC, além de outros), na China, Liu-Hui, - c.263 DC,  determinou o valor de pi com 4 decimais, Tsu Ch´ung-Chih e Tsu Keng-Chih, também chineses, no sec V DC, determinaram o valor de pi, com 7 decimais. A invenção do zero no sec. VI AD, é produto das civilizações chinesas e hindus, ibn Yhahya al-Samaw´al, no sec XII foi o primeiro a teorizar sobre o valor do zero. Note-se que al-Samaw´al nasceu em Fez, Marrocos, professava a religião islâmica mas seu pai era judeu. É ainda no fim do sec VI, princípios do sec VII que  hindus, com particular destaque para os tratados de Brahmagupta, tornam a álgebra  um ramo separado nas matemáticas. A história das matemáticas na Índia é cheia de exemplos de pessoas, algumas das quais, não académicos, possuiam uma extraordinária intuição matemática. Mas foram os islâmicos que unificaram o pensamento matemático de civilizações anteriores, desde a álgebra e aritmética tradicionais da Babilónia, da Índia e da China com as contribuições da geometria grega e helenística. Muhammad bin Musa al-Khuwarazmi (sec IX). persa, foi o fundador da álgebra tal como a conhecemos hoje. O nome álgebra deriva do título do seu compêndio. No sec XII, Al-Samaw´al, islâmico, filho de um judeu,  rabi de Marrocos, foi o primeiro a usar símbolos nos cálculo algébricos.  Durante seis séculos foi no Islão que floresceu a ciência. Copérnico (1473-1543), nascido em território actualmente polaco, realizou os seus estudos astronómicos a partir dos desenvolvimentos teóricos realizados no campo da trigonometria pelo persa Al-Tusi no sec XIII.

A partir do sec XVI o desenvolvimento do conhecimento científico transfere-se para a Europa mas nenhum dos grandes construtores da matemática até ao sec. XIX   (Napier, Pascal, Leibnitz, Berkeley, Isaac Newton Euler, Galois, Bolle, Cantor) tinha antepassados judeus.

Por quê, então, a tão flagrante quanto inusitada prevalência judaica nas listas dos vencedores dos prémios Nobel de ciência, atribuidos desde o primeiro ano do sec. XX?  Provavelmente existem muitas explicações mas, do meu ponto de vista, deve excluir-se, não por ser eventualmente politicamente incorrecta, mas por que nem a biologia nem a observação empírica o confirmam, qualquer superioridade rácica. E se a diferença não está no tipo de indivíduos terá de existir nas circunstâncias envolventes ao grupo: a religião que os incita a demonstrar que são parte do "povo eleito" e o ambiente de florescimento científico observado nas universidades dos EUA, o país que acolheu a grande maioria deles.
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Correl. - aqui
Comentei: Admitamos que a sugestão (aqui) BSS é ridícula, estúpida, sem sentido, enfim o que HM quiser. Qual é a sua? Esperar que se dizimem uns aos outros?
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Hamas fuzilou hoje 18 homens acusados de espionagem
À esquerda, rapaz na casa da família, destruida num ataque de Israel à cidade de Gaza

ng3524995

9 comments:

osátiro said...

huumm
muita ignorância histórica

desde maomé (há 1600 anos) que

ISLÃO significa selvajaria, barbárie, carnificina

está provado historicamente

as carnificinas entre xiitas e sunitas quase diárias são a PROVA MAIS Q PROVADA disso mesmo

os califados sempre......sempre se impuseram com selvajaria e barbárie

atualmente, há uma permanente defesa da barbárie islâmica, por omissão ou ação, curiosamente feita por ateus jacobinos e esquerdóides frustrados.

enfim

por pobres diabos


Rui Fonseca said...

Osátiro,

Obrigado pelo seu comentário com o qual só parcialmente concordo.

Houve tempo, e durante muito tempo depois da Hégira, que no Islão floresceu uma cultura superior aquela que predominava na Europa.

Mas é irrazoável pretender abordar este tema em termos históricos ou sequer de direitos adquiridos.
O terrorismo islâmico, como qualquer outro, deve ser combatido sem tréguas.

Mas, como tem sido regra nos últimos cem anos, a Europa volta-se para os EUA de braços cruzados, ou atados, à espera que os norte-americanos façam o dirty job. Que muitos de pois criticam.

aix said...

Rui, o teu ‘apontamento’ é perigoso para não dizer incendiário como mostra a reação de «osátiro». Sem tomar posição – admiro a tua – considero que as tuas culturais considerações são ‘apenas’ considerações possíveis…talvez sem o quereres revelam ‘yancofilia’ (sem sentido pejorativo. Desde logo a questão do ‘território’ israelita. O que é o ‘Povo judeu’?...se é o povo descendente do povo da ‘Terra Prometida’ então desde a destruição do 1º Templo (5865 a.c.) que andam em diáspora (Babilónia)…e qual é o problema?...há mais povos que não têm Estado (curdos, ciganos…).A ideia de constituição de um Estado judaico moderno partiu do pai do sionismo –Herzel no princípio do séc. passado - que chegou a conseguir terreno no Uganda, porque os britânicos – que administravam o território da Palestina – se opuseram. ‘Aliás’ houve (e há) judeus que se opõem à ideia…mas finalmente lá se constituiu o Estado de Israel (1948) com o interesse inegável dos americanos ganhadores. A deia de ‘Judeu errante’ tem raízes na própria tradição judaica e confirma-se pela existência de fortes comunidades judaicas espalhadas pelo mundo inteiro. Agora, feita a asneira histórica, penso que não é destruindo o Estado de Israel que tudo se compõe; mas, como dizem na minha terra, ‘o mundo dá muitas voltas’…
Quanto a cientistas e prémios nobéis só te lembro que muitos com apodo de ‘judeu’ o recusavam.
Abç

aix said...

Anonymous aix said...
Rui, o teu ‘apontamento’ é perigoso para não dizer incendiário como mostra a reação de «osátiro». Sem tomar posição – admiro a tua – considero que as tuas culturais considerações são ‘apenas’ considerações possíveis…talvez sem o quereres revelam ‘yancofilia’ (sem sentido pejorativo. Desde logo a questão do ‘território’ israelita. O que é o ‘Povo judeu’?...se é o povo descendente do povo da ‘Terra Prometida’ então desde a destruição do 1º Templo (5865 a.c.) que andam em diáspora (Babilónia)…e qual é o problema?...há mais povos que não têm Estado (curdos, ciganos…).A ideia de constituição de um Estado judaico moderno partiu do pai do sionismo –Herzel no princípio do séc. passado - que chegou a conseguir terreno no Uganda, porque os britânicos – que administravam o território da Palestina – se opuseram. ‘Aliás’ houve (e há) judeus que se opõem à ideia…mas finalmente lá se constituiu o Estado de Israel (1948) com o interesse inegável dos americanos ganhadores. A deia de ‘Judeu errante’ tem raízes na própria tradição judaica e confirma-se pela existência de fortes comunidades judaicas espalhadas pelo mundo inteiro. Agora, feita a asneira histórica, penso que não é destruindo o Estado de Israel que tudo se compõe; mas, como dizem na minha terra, ‘o mundo dá muitas voltas’…
Quanto a cientistas e prémios nobéis só te lembro que muitos com apodo de ‘judeu’ o recusavam.
Abç

Antonio Cristovao said...

Aponto para a organização da comunidade judia seja em que país for para o sucesso que os seus membros atigem com frequencia em muitos ramos, desde os negocios, as letras ou ciencias.
Presumo que não escapa a ninguemque todos os que foram ganhando "momemtum" no caminho duma paz ali foram assassinados.
Presumo que tambem não escapa a ninguem que certas atitudes concretas(abstraiam-se das palavras)dos jiadistas e hamas são as mais convenientes para justificar a chacina dos palestinianos que apesar do nitido controle dos medias mundiais tem na opiniao publica sido desfavoravel aos sionistas.
Aqui como em muitos casos da vida colectiva global é necessario cabeça fria e saber colocar em colunas diferentes as palavras e os actos para que a soma que se obtem no fim - a nossa opinião, não seja a contraria ao que devia ser.

aix said...

A. Cristóvão, venho apreciando as suas intervenções neste blog (incluindo esta). Mas essa de
«...são as mais convenientes para justificar a chacina dos palestinianos...» deixa-me perplexo...mas admito que, nos tempos que correm não se pode ser pacifista 'à outrance'...

Rui Fonseca said...

Filósofo Francisco,

Obrigado pelo teu comentário.
Não sei porque consideras incendiário o meu comentário.
Peguei num e-mail que me mandaram, que já anda na internet há uns anos, e que evidencia uma verdade incontestável -a excepcional atribuição do Nobel a judeus ou descendentes de judeus - e retira a conclusão (errada, como procuro demonstrar) que os judeus são por isso um povo de excepção intelectual e merecem o nosso apoio, e os islâmicos que, por não quase não terem prémios Nobel, merecem a nossa repulsa.

Foi, essencialmente, para contestar isto que escrevi.

Mas para não passar pela questão sem tomar posição sobre a guerra que há tanto tempo lavra por aquelas bandas do mundo, disse que o diferendo só pode resolver-se com a coabitação de palestinianos e judeus no mesmo território. É utópico? É. Mas é utópico porque o fanatismo de uma parte dos islâmicos, agora reacendido de forma abominável pelo "Exército Islâmico" não consente a paz porque procura destruir todos quantos não alinhem com eles. E matam indiscriminadamente também povos islâmicos.

Nos israelitas admiro, além do mais, a sua capacidade de viverem em democracia. Se outra razão não existisse essa bastava-me para alinhar do lado contrário onde prevalece generalizadamente a opressão, a negação da liberdade de pensar.

aix said...

Rui, tens razão, o termo
'incendiário' foi um «evidente exagero». Porém foi provocado pelo comentário do 'Osátiro' e de muitos extremistas exacerbados em relação a esse conflito. As minhas desculpas, pois bem conheço as tuas posições - sensatas e respeitadoras das opiniões contrárias...boa estadia e um abç...

Rui Fonseca said...

Francisco,

Não são, nunca foram, nunca serão devidas desculpas entre amigos de verdade e da verdade.

Abç