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Tuesday, October 07, 2014

TEMPOS GERALMENTE MUITO NUBLADOS

O FMI acaba de divulgar o "World Economic Outlook" do Outono. Aqui.
O subtítulo resume as conclusões: "Legacies, Clouds, Uncertainities". 
Resumidamente: As políticas de recuperação da crise, que o FMI apadrinhou, não desanuviaram o ambiente e as incertezas são muitas. Do relatório do FMI realça o Financial Times - vd. aqui - o risco de uma nova recessão para a Zona Euro.

Por outra porta entra o muito citado professor Ricardo Reis - vd. aqui - anunciando que não estamos, em Portugal, assim tão longe de um segundo resgate. Ora o mesmo Ricardo Reis previa no início do ano de 2010 - vd. aqui - que "a probabilidade da bancarrota portuguesa estava algures abaixo de 0,5%-1%." Não aconteceu bancarrota, mas aconteceu resgate. Agora, RR, menos optimista, prevê a optimista possibilidade de novo resgate para, novamente, evitar a bancarrota.

Um dia destes teremos este Ricardo Reis no FMI.

Wednesday, June 05, 2013

CALL CENTER

Se há hoje alguma unanimidade acerca do memorando de entendimento assinado pelo trio com a troica é a de que ele foi mal desenhado ou mal negociado, e que as conversações com a troica subsequentes às avaliações de cumprimento, todas positivas até agora, segundo informações publicadas, se regem por uma inflexibilidade formatada em cartilha semelhante aquelas que são distribuídas aos atendedores nos call centers. A troupe da troica, ao que parece, por mais crassos que sejam os erros resultantes de algumas políticas que impuseram e evidentes os desvios observados, não arreda pé do que está escrito na cartilha. Chegam, vêm, concluem, comparam e despacham sem considerar que o ponto de partida estava deslocado e algumas variáveis nunca estiveram nos sítios onde as previram.
 
Nestas condições, não há pachorra nem argumentos que possam demover o agente do call center a mudar de posição. Por um lado, porque não pode exorbitar das suas competências, isto é, proceder de modo diferente do que manda a cartilha, por outro, porque do estrito cumprimento das normas depende a prorrogação do seu posto de trabalho.
 
Só há uma saída, que exige muita persistência e habilidade de persuasão: conseguir o acesso à chefia do turno. Normalmente resulta: os chefes sentem-se mais chefes quando lhes é dada a oportunidade de mostrarem as suas capacidades.
 
O relatório do INE sobre as Contas Nacionais  confirma que a actividade económica continuou a contrair-se a uma cadência superior às previsões do governo, resumindo-se numa quebra de 4% do PIB. Segundo as últimas estimativas do OCDE a dívida pública aumentará em 2014 para 132,1% do PIB e a taxa de desemprego rondará os 20%. A impossibilidade de redução da dívida para níveis suportáveis não é ainda reconhecida pelo governo, que, no entanto, não apresenta uma matriz de medidas que sustentem a coerência e a credibilidade da persistência na sua actuação. Uma actuação decorrente em larga medida do memorando de entendimento que até o ministro das Finanças já considerou, com incompreensível atraso, ter sido mal negociado. Até quando espera o governo que a situação se degrade para reconhecer a impossibilidade que há muito se mete pelos olhos dentro? Revê-se o governo nos superavits históricos observados na balança de comércio externo, mas é impensável que não tenha feito as contas e concluído quanto são insuficientes os valores observados para refrear o cavalgar dos juros e da dívida.
 
Dito de outro modo: até quando espera o governo para bater à porta da senhora Merkel e dizer-lhe que, obviamente, não podemos pagar a dívida que carregamos às costas e que, a continuar a aumentar a carga, demonstra a mais elementar lei da física que a base acabará por colapsar sem remissão possível?
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Correl. - FMI vai reconhecer erros cometidos na ajuda à Grécia.

Friday, March 15, 2013

PREVISÕES

Chuva intensa para amanhã no norte do país.
Chuva intensa para amanhã no centro do país.
Chuva intensa para amanhã no sul do país.
Chuva intensa para amanhã na Madeira.
Chuva intensa para amanhã nos Açores.

Previsivelmente, quaisquer outras previsões anunciadas hoje estarão erradas.

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Correl. - Passos Coelho: "Devemos procurar desmentir estas previsões" do Governo

Wednesday, February 20, 2013

QUANDO A PORCA NÃO DÁ MAIS APERTO

O ministro Vitor Gaspar só hoje reconheceu que a recessão este ano será superior aquela que o Governo ainda há pouco tempo considerou nas variáveis macroeconómicas do OE aprovado pela maioria na AR. Ao mesmo tempo que anunciava a sua revisão em baixa de 1% para 2% do PIB, V Gaspar reconhecia ainda que o comportamento da realização orçamental no último trimestre de 2012 iria forçar à necessidade de mais uma ano para o reajustamento previsto no memorando de ajuda externa.
 
Não reconheceu ainda V Gaspar que todos os signatários do memorando - troica, governo, e os partidos que co-subscreveram o documento, que aquele documento, logo à partida, apontava para alguns objectivos nucleares de realização virtualmente impossível. E que essa impossibilidade não só subsiste como se agravou em consequência dos efeitos exógenos decorrentes da perda generalizada de actividade económica observada na União Europeia e, em particular, na Zona Euro.
 
É aliás muito sintomático desta alegada falta de visão (e, digo alegada porque não é crível que esta gente não tenha uma compreensão exacta da dimensão do problema), a reacção do comissário europeu do pelouro a este tímido e tardio reconhecimento de V Gaspar ao declarar que o comportamento da economia portuguesa está a ser decepcionante e que é ainda muito cedo para considerar a possibilidade de prolongamento do período de ajustamento.
 
Não faço a mínima ideia até que ponto o ministro Vitos Gaspar estará disposto a empenhar todos os seus créditos numa rota que ele certamente já percebeu não vai conduzir a bom porto. Portugal, garantia insistentemente até agora Passos & Gaspar, não necessita nem de mais tempo nem de mais dinheiro. E de facto, não necessita. Do que Portugal precisa é de uma carga do custo da dívida suportável, isto é, compatível com o crescimento económico. Enquanto essa condição não se cumprir, e ela só pode ser cumprida com o reconhecimento de que o interesse final dos credores passa também por aí. Mais ano menos ano para o ajustamento pode ter um efeito paliativo mas não salva a situação.
 
É do mais elementar bom senso peceber que quando a porta não dá mais aperto é insano continuar a apertar o parafuso.

Wednesday, December 19, 2012

AS LÁGRIMAS DO CROCODILO

"Temos de ter particularmente cautela para que a carga fiscal que estamos a impor não se revele intolerável e insustentável para a sociedade portuguesa", disse anteontem o ministro das Finanças perante a comissão parlamentar de Orçamento e Finanças.

Ouve-se, e à primeira reflexão, concorda-se. Afinal, se o ministro das Finanças está preocupado com os efeitos de intolerabilidade e insustentabilidade da carga fiscal, pode haver esperança que alivie a carga que  estão a impor. Quem está? Ao dizer, estamos, o ministro das Finanças assume a sua quota parte de responsabilidade no carregamento, e é admissível que se subentenda naquele estamos a participação do chefe do executivo. Mas será assim?

Admita-se, até por assumpção pública dessa decisão, que o chefe do executivo com o amen do ministro das Finanças, ou vice-versa, foi mais troiquista que a troica, e carregou o burro mais do que lhe exigiam os compromissos assumidos. Em todo o caso, é público, a dose principal foi prescrita pela troica. De modo que aquele estamos é um estamos assumido por quem foi incumbido de executar ordens que recebeu e, eventualmente, exagerou para ficar bem visto pelo ordenante. 

Se assim é, e não parece que possa entender-se de outro modo, faz algum sentido que o ministro diga aquilo ao burro em vez de o dizer a quem lhe mandou carregar o animal? Se o senhor Vitor Gaspar sinceramente reconhece que o burro já está a dar de lado e um dia destes cai mesmo, faz algum sentido que se volte para o asno e lhe diga, estás aqui estás a cair, em vez de dizer à troica, se não lhe aliviamos a carga temos o animal no chão?  Não faz.

Mas o senhor ministro das Finanças não é tolo. O senhor ministro das Finanças goza até de pública reputação junto dos seus pares europeus, mormente do senhor Schäuble, que é quem manda mais. Então por que razão o senhor Vitor Gaspar troca as marcações no palco e declama para o lado errado?

Só pode haver uma explicação: o senhor ministro das Finanças Vitor Gaspar está a brincar com o burro cabisbaixo.