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Sunday, September 13, 2015

ADÃO E A COSTELA

O Washington Post de há uma semana atrás publicava circunstanciada reportagem, que registei aqui, sobre a instalação de um novo museu - O Museu da Bíblia - numa zona próxima do Mall e do Capitólio. O assunto não mereceria, certamente, um destaque tão pronunciado se por detrás do empreendimento não estivesse um grupo económico dominado por evangélicos protagonistas de causas fracturantes geralmente adoptadas nos EUA pelos sectores mais radicais conservadores do partido republicano. Opõem-se aos métodos contraceptivos, ao alargamento da segurança social implementado por Obama, fazem uma interpretação literal da Bíblia. Para eles, os fundamentos da biologia moderna decorrentes da teoria da evolução são inaceitáveis, opõem-se ao seu ensino, batem-se pela continuação da explicação da vida através das alegorias bíblicas, a mulher foi criada por Deus a partir de uma costela retirada a Adão.

Tanta ingenuidade ou tanta obcecada ignorância presta-se a comentários satíricos.
Gene Weingarten, habitual colunista no Washington Post Magazine, adopta na edição deste fim-de-semana a costela de Adão para tema da sua diversão.

Resumidamente : uma vez que não tem o homem menos costelas que a mulher, concluiram alguns especialistas que a palavra hebraica "tsela" não terá o significado que durante séculos lhe foi atribuida.
Se Eva foi criada a partir de um osso, tal osso só pode ter sido retirado ... do pénis!
E porquê? Porque há osso (os baculum) no pénis dos gorilas, dos ursos, da foca macho cinzenta, e, ao que parece, na generalidade dos mamíferos. Por que não existe esse auxiliar viagral no homem? Porque o Criador o retirou para criar a sua obra-prima, a mulher.

Não será uma explicação científica mas é, certamente, uma metáfora mais plausível.


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Correl. - Terá sido o "Homo naledi" o doador?


Thursday, May 28, 2015

TIMBUKTU


Timbuktu conta uma versão soft das barbaridades do fundamentalismo islâmico. Há neste filme opções estéticas que, por vezes, retiram-lhe autenticidade. Mas vale a pena ver.   ***
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"A cidade de Tombuctu (em francês: Tombouctou; em koyra chiini: Tumbutu; por vezes, escrita Timbukto) é a capital da região de mesmo nome. Localiza-se no centro do Mali. Apesar de não mostrar o esplendor da sua época áurea, no século XIV e estar a ser engolida pela areia do deserto do Saara, ainda tem uma importância tão grande, como depositório de saber, que foi inscrita pela UNESCO, em 1988, na lista do Patrimônio Mundial. A prestigiosa universidade corânica de Sankoré, donde 50 000 sábios muçulmanos ajudaram a espalhar o Islão através da África Ocidental, ainda funciona, embora com um número mais reduzido: 15 000 estudantes. Tombuctu alberga, ainda, o famoso Instituto Ahmed Baba, com a sua colecção de 20 000 manuscritos árabes antigos, que retratam mais de um milénio de conhecimento científico islâmico e vários madraçais. A cidade tem três mesquitas principais: Djingareyber, construída de barro em 1325, Sankoré et Sidi Yahia. Tombuctu foi inscrita em 1990 na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo." - http://pt.wikipedia.org/wiki/Tombuctu

Pátio da mesquita Djingareiber

Wednesday, April 06, 2011

’Two Tahitian Women’ by Paul Gauguin.



 
Aconteceu na National Gallery em Washington.
Pode acontecer em qualquer momento em qualquer outro lado.
Todos os meios de defesa contra a loucura fanática são permeáveis quando e onde  menos se espera.

Monday, February 21, 2011

OS ÁRABES - 3

A democracia árabe é uma possibilidade improvável.

À medida que os dias passam e as convulsões se traduzem em maior número de vítimas mortais, percebe-se que a democracia árabe não terá um parto fácil e, muito provavelmente, resultará em aborto. Se nas ruas e praças as multidões se parecem agregar com idênticos propósitos, existe um lastro cultural que é inegavelmente antidemocrático, segundo os padrões e valores das culturas com raízes europeias, que acabará por prevalecer depois de eliminados, exilados ou reconvertidos aqueles que hoje lutam convictamente pela democracia.

O perigo de a ditaduras bafientas e caducas se sucederem ditaduras fundadas nas interpretações mais sinistras dos versículos islâmicos é mais eminente que a emergência de sociedades moldadas no respeito da Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

Um dos primeiros sintomas de que esses direitos continuarão a ser ignorados pelos novos poderes recai sobre o papel subalterno da mulher nas sociedades árabes, que poderá mesmo observar um retrocesso em sociedades onde agora se observavam passos significativos na emancipação da condição feminina.

O artigo publicado hoje no Washington Post - Are the Mideast revolutions bad for women's rights?* - é muito revelador das tendências observadas no meio do furacão revolucionário que varre o Norte de África e o Médio Oriente árabes.

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* On Friday, Egyptians again gathered in Cairo's Tahrir Square, this time in a victory celebration, one week after their revolution unseated President Hosni Mubarak. Tunisians have also been sampling new freedoms of speech and press along a boulevard that is no longer a war zone. But even as the exultation lingers, women in both countries have launched new protests. They want to make sure that democracy does not erode their rights.

In Tunisia, several hundred women have already taken to the streets to voice their concern about what an Islamic revival, should it come, could mean for them. In Egypt, women's rights activists immediately mounted a petition drive when the committee named to draft a new constitution included not a single woman (although many noted female Egyptian lawyers could easily serve on that committee).

In both countries, there is popular support for a broader establishment of sharia, or Islamic law, developed from the Koran and religious writings. Of course, there is no single sharia; interpretations vary throughout the Middle East and are subject to change. Morocco, for example, sets the legal age of female marriage at 18, based on its more progressive version of sharia, whereas in Saudi Arabia girls as young as 8 are married to much older men, based on its version. As new leaders in the region grapple with how to blend some version of sharia with some version of democracy, women's rights will become a central element of the debate.

The laws affecting women in Tunisia, and to some extent in Egypt, are among the most progressive in the Middle East, so the potential for backsliding under Islamic pressure in those countries is real. And women in Yemen, Bahrain, Libya and Iraq, where the spreading unrest has been met with government force, have also struggled for their rights and likewise have reason to be concerned if their governments fall or start handing out concessions.

Wednesday, February 02, 2011

CONVERSAS AO ALMOÇO

- Então o que é me diz desta confusão no Egipto e arredores?
- Digo-lhe o que quase toda a gente diz: Sabemos como estas coisas começam, nunca sabemos como acabam. Tanto pode instalar-se a democracia como uma ditadura islâmica. Se for este caso, propagar-se-á a todo o mundo árabe ainda não sujeito ao fundamentalismo islâmico.
- Pois é. Há quem queira levar a democracia a toda a parte a qualquer custo...
- Acha que sim? Acha mesmo que todas estas convulsões no Norte de África são fomentadas do exterior?
- Acho que sim. São os núcleos de emigrantes, intelectuais ou pseudo intelectuais radicais, que fomentam as revoltas a partir de Paris, Londres, e por aí fora ...
- É natural. Quando não há liberdade de expressão no país, quem preza a liberdade tende a refugiar-se no estrangeiro e lutar por ela  a partir do refúgio. O que nada garante é que aqueles que lutam pela liberdade não acabem por proporcionar o acesso ao poder dos radicais religiosos. Se isso acontecer é a segurança do mundo que globalmente ficará em causa.
- É a guerra.
- Esperemos que não seja.
- Lá vão os EUA meter-se noutro atoleiro.
- Têm alternativa? Não creio que Obama, se a situação obrigar a uma intervenção militar em larga escala, enverede  por uma estratégia que não envolva as maiores potências mundiais, incluindo a China e a Rússia.
- O que é pode obrigar a uma intervenção militar?
- O alastramento do fundamentalismo islâmico ao Golfo Pérsico, aos recursos petrolíferos essenciais às economias de quase todo o mundo.
- O petróleo, ainda e sempre o petróleo.
- Enquanto for, em grande parte, insubstituível pode incendiar o mundo.

Sunday, February 14, 2010

FÁTIMA

Fátima tem 31 anos, era teenager quando emigrou de Marrocos para Cunit, nas proximidades de Barcelona, onde obteve um mestrado, é mediadora cultural no ayuntamiento local, onde trabalha essencialmente com os 1000 marroquinos residentes em Cunit. O pai de Fátima era sheik de uma mesquita em Marrocos, e Fátima usou lenço até há pouco tempo. Mas decidiu mudar, mandou o véu às urtigas e passou a andar de cabelo ao sabor do vento. E a conduzir o seu carro, ir jantar fora com os amigos. Como mediadora cultural, o seu exemplo virou a obdiência do rebanho ao avesso.
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O que é que tu foste fazer Fátima?!
Cairam-lhe em cima o sheik e o presidente da associação islâmica do sítio com ameaças que já a obrigaram a passar pelo hospital com ataques de ansiedade. Chamado a pronunciar-se, o tribunal deu razão a Fátima e sentenciou detenções para os agressores. Amedrontou-se a presidente, socialista, do ayuntamiento, com um choque de civilizações em terreno tão apertado.
E quer que Fátima retire a queixa e vá à vida para outro lado. Os cunitenses, na sua grande maioria, porém, não estão de acordo com a presidente e apoiam Fátima.
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Um busilis que os suíços resolvem, silenciosamente, com referendos. Há outras vias? Há, mas são piores.

Friday, April 14, 2006

O QUE NÃO MATA ENGORDA

O insuspeito de alinhamento com os republicanos, Washington Post, do passado dia 9 de Abril, publicava, no seu Magazine, suplemento do jornal aos domingos, um artigo sintomático do estado de espírito dos norte-americanos que habitam na capital e redondezas, Norte da Virgínia e Marilândia, depois do 11 de Setembro de 2001: “Rallying ´round the flag” , de William Duke.

É importante realçar o facto de a população que habita em Washington DC e à sua volta votar, tradicionalmente, no partido democrático. Bush obteve nas duas eleições os piores resultados nesta área.

O artigo é relativamente longo mas o que o autor procura é ilustrar com alguns dados a evolução da situação nesta zona depois dos acontecimentos que abalaram a América de uma forma que até aí nunca experimentara no seu próprio território.

“E o facto é que, desde o 11 de Setembro de 2001, a vida tem corrido bem ... A área de Washington tem desfrutado, de longe, das melhores condições económicas de toda a nação durante os últimos quatro anos. O que não nos mata enriquece-nos”, conclui, à partida.

“Era isto o que bin Laden pretendia?”

“O colapso das torres gémeas transmitido em directo pelas televisões, e o ataque ao Pentágono, polarizou as preocupações do governo – isto é, a despesa – de uma forma tão intensa nunca observada desde Pearl Harbor”.

O efeito conjugado de aumento das despesas federais, em grande parte aplicadas em sistemas digitais de segurança e defesa, e das reduções de impostos, têm propulsionado o consumo e a construção civil a ritmos de crescimento sem precedentes. As consequências sobre o déficit gémeo não parecem preocupar a maioria dos americanos, satisfeitos com os chineses que lhes fornecem a preços imbatíveis os produtos que eles deixaram de estar interessados em produzir e a financiar-lhes, em grande medida, o consumo e investimentos públicos através da compra de títulos de dívida pública. O Banco da China, aliás, detêm já o mais elevado volume de reservas, tendo ultrapassado recentemente o Japão, não vai deixar de aplicar os seus excedentes, em grande parte, em dólares. Mas os americanos não contam apenas com as remessas dos chineses. Há mais remetentes.

Segundo os cálculos do Centro de Análise Regional da Universidade George Mason, divulgados pelo seu director, Stephen Fuller, citado no mesmo artigo, “sem o 11 de Setembro, os contratos com o governo federal ter-se-iam situado em 5,5 biliões de dólares nos últimos quatro anos, mas com o 9/11 o seu valor subiu para 18 biliões...determinando a criação de 200 mil novos empregos... principalmente nas áreas científicas, técnicas, da gestão, consultoria e novos programas informáticos, mas também baby-sit, cortadores de relva, limpeza de casas”.

“Uma amostra, referente a Janeiro, do Washington Technology magazine dá uma ideia do tipo de contratos que estão a ser celebrados com o governo federal:
Man Tech International Corp., Fairfax, Va, ganhou um contrato de 300 milhões de dólares, …para a prestação de serviços ao Exército no Afeganistão e no Iraque...
Multimax Inc., Md, ganhou um contrato... de 75,7 milhões de dólares para fornecer serviços na área das telecomunicações à Força Aérea...
Science Applications International Corp. …ganhou dois contratos no valor de 68,4 milhões de dólares ... com os Centros de Prevenção e Controle de Doenças”

O reverso desta medalha é, no mínimo, preocupante. Ao mesmo tempo que a economia norte-americana, e em particular na área da capital, produz aceleradamente software e sensores, as economias dos estados muçulmanos produzem extremistas ao mesmo ritmo, receia ainda o autor do artigo.

A ideia de um Plano Marshall para o Médio Oriente que possibilitasse o crescimento económico e a melhoria das condições de vida naquela área do globo, reduzindo assim as condições ambientais em que se choca o terrorismo, não parece ter alguma hipóteses de vingar porque não existem nela nem as competências nem a conjunção de vontades que permitiram o sucesso daquele Plano na reconstrução da Europa do pós-guerra.

Aliás, continuam as dificuldades na recuperação da área devastada pelo Katrina, em New Orleans, onde se confrontam interesses muito divergentes, ainda que todos eles norte-americanos. De modo que é difícil contrariar aqueles que duvidam da capacidade dos Estados Unidos para reconstruírem o Iraque quando têm tido tanta dificuldade em recuperar uma parte do seu próprio território.

Este conjunto de reflexões suscita várias leituras, a mais apressada das quais nos sugere os benefícios da guerra, e só depois uma outra, inevitavelmente, nos impõe a interrogação acerca dos seus prováveis horrores.

Três dias após a publicação deste artigo, dia 12 de Abril, o mesmo Washington Post, noticiava no topo da primeira página que:

“No dia 29 de Maio de 2003, 50 dias após a que de Baghdad, o Presidente Bush proclamou uma vitória prematura no Iraque: Dois pequenos atrelados capturados pelas tropas norte-americanas e curdas foram tidos como o objectivo longamente perseguido de encontrar os laboratórios biológicos e ele declarou: Encontrámos as armas de destruição maciça.”

“A informação de uma missão enviada nessa altura ao Irão, e da qual até agora não tinha sido dado conhecimento público, concluía que os atrelados nada tinham a ver com armas biológicas. Essa informação foi prestada ao presidente a 27 de Setembro, dois dias antes da proclamação”

e, ao lado desta notícia, esta outra:

“O Irão conseguiu enriquecer urânio a níveis mais elevados, disse o Presidente Mahmoud Ahmadinejad, ... Anuncio oficialmente que o Irão junta-se ao grupo de nações que dispõem de tecnologia nuclear... Este é um momento histórico... é o começo do progresso do nosso país” .

Até hoje, as previsões mais insistentes acerca da evolução da guerra no Médio Oriente em geral e no Iraque em particular, e das suas consequências, têm caprichado por atirarem em sentido contrário ao da evolução observada:

- Bush mentiu ao povo americano, invocando como razão fundamental para a invasão do Iraque a existência de armas de destruição maciça que, soube-se depois, não existirem de todo; a famigerada encenação à volta dos atrelados acabou agora por confirmar a precipitação dos propósitos da administração americana ao invocar as razões que invocou para a invasão; contudo, o povo americano acabou por atribuir a Bush, contrariando muitos prognósticos que o davam por vencido, um segundo mandato sem as dúvidas e atribulações de toda a espécie que lhe conferiram o primeiro.

- A redução dos impostos agravou o déficit do orçamento e incentivou o consumo, agravando o déficit comercial; aparentemente, e contrariamente ao que muitos pressagiaram, os fluxos de entrada de capitais têm sustentado bem os desequilíbrios observados;

- A economia dos Estados Unidos no pós 11 de Março não se ressentiu do esforço da guerra; antes, pelo contrário, tem crescido com consistência a ritmos superiores aos da União Europeia;

- O dólar, tem mantido a sua paridade relativamente ao euro dentro de um intervalo de variação bem longe das previsões que auguravam desvalorizações substanciais;

- A ameaça do terrorismo não pôs em debandada a população residente à volta da capital; o crescimento económico na região envolvente do Distrito de Colúmbia tem atraído muitos profissionais e milhares de emigrantes;
O problema da emigração ilegal, aliás, tem sido objecto, um pouco por toda a parte nos Estados Unidos, de movimentações e manifestações que são o reflexo da atracção que o País exerce sobretudo sobre as populações latino-americanas vizinhas, em particular do México, e das posições divergentes dos norte-americanos, também nas duas câmaras, sobre o assunto;

É espantoso, no entanto, que raramente a causa da presença dos Estados Unidos no Médio Oriente seja atribuída à necessidade de assegurar à sua economia aquilo que lhe é vital e procede em grande parte daquela área do globo: o petróleo.

Até agora, aqueles que davam como certa a retirada americana do Iraque tão sendeira como aquela que os empurrou do Vietname, não se confirmou nem é previsível que venha a confirmar-se por uma simples razão: os americanos não podem retirar do Médio Oriente enquanto não for descoberta alternativa economicamente viável para o petróleo.

Todas as civilizações, segundo Jared Diamond, in Collapse, se extinguiram à míngua de energia. Talvez a sua conclusão seja forçada ou demasiadamente simplista, mas é inegável que a sobrevivência da economia-norte americana, e, por idênticas razões, de todas as economias desenvolvidas depende indiscutivelmente do petróleo, e fundamentalmente do petróleo do Médio Oriente.

Atolados no Afeganistão e no Iraque que podem os Estados Unidos fazer agora relativamente ao Irão, que se gaba de ter entrado no clube do nuclear, e onde os chineses pretendem marcar posições sólidas quanto à exploração do crude? Que pode fazer a comunidade internacional se os norte-americanos lhe endossarem o problema?
Provavelmente, nada.

Até ao dia em que desabe sobre o mundo a histeria do petróleo. Ontem, o preço do barril já ultrapassou os 70 dólares. Há quem preveja que atinja os 200 dólares até ao fim desta década. Oxalá se engane.

Porque as árvores não crescem até ao céu e os déficits também não.
E porque o que não mata só engorda enquanto não mata.