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Sunday, December 08, 2019

BEM AVENTURADOS SÃO OS PARDAIS



Hum!!!!!, .... comprimidos??? Senti pairar no ar um som qualquer, ... comprimidos ..., será comprimidos? E, se for ou se não for, que me importam os sons, que me importa a luz, que me importa seja que diabo for? Não sei se durmo se estou acordado, agarrou-se-me esta dúvida ao pêlo desde que ensaiei fugir e borreguei no momento decisivo. A partir daquela tarde, apoderou-se de mim esta indolência que me adormece o corpo todo, já não distingo, não me interessa distinguir, o dia da noite, o calor do frio, enfio o focinho entre as mãos, enrolo-me na manta, e atravesso o tempo à espera de nada. Estou velho, velho e doente. Que idade tem ele? Quinze, disse ela há dias, mas faz mal as contas para disfarçar o meu envelhecimento acelerado nos últimos tempos. Sei que sou velho mas não tanto quanto pareço. Talvez tenha dez, quanto muito onze. Nos últimos três anos envelheci uns seis, há muito que não vejo, não quero ver, o reflexo  da minha imagem, se acaso passo por onde me podia ver. Que é feito do meu pêlo preto,  laranja e branco, sedoso, orelhas com madeixas fartas, mescladas de laranja e branco, pendentes, que se arrebitavam ao menor sinal de sentido? A última vez que me vi na água do lago não me reconheci. Aquele não era eu, e agora, certamente, ainda menos que nunca. Sonho repetidamente os mesmos sonhos, sonhando que são sonhos os azares em que me envolveram. Os comprimidos, os comprimidos, ... sonho ou pressinto que a velha os perdeu outra vez? Uma vez, quando contei à Cherry que ... não sei se foi à Cherry se foi à Gipsy, deve ter sido à Gipsy, nunca tive grandes conversas com a Cherry, a Cherry era pouco dada a conversas e, por outro lado, há muito tempo que não vejo a Cherry ... quando contei à Gipsy que andava meio zonzo, mas feliz, porque engolira uns comprimidos da velha, ela, que ouve e regista todas as conversas que capta por onde passa, avisou-me que os comprimidos podem dar-nos uma fólega aos desesperos mas, a pouco e pouco, vão arruinando a nossa memória. Tanto melhor, pensei eu, pior que as situações desesperadas são as recordações que não se apagam. Que me vale agora recordar os tempos em que fui feliz, porque era novo e livre, farejava para comer e namorar, e me trouxeram para aqui onde não tenho préstimo nem amigos? Há uns dois meses que não vejo a Gipsy, a Gipsy é quem me ia dando algumas dicas do que ouvia em casa ou no caminho por onde a levavam a passear, além de que há televisão lá em casa, a primeira vez que ela me falou em televisão e explicou do que se tratava andei uns tempos desconfiado que a Gipsy ou acreditava em bruxas ou no céu dos gambozinos. Mas pus-me atento, e confirmei que sim, que era verdade, aqui e ali, nos caminhos por onde passava vi de relance umas caixas e dessas caixas saía gente a dizer coisas. A Gipsy é, quero dizer era, a minha informadora, sem ela, o mundo que eu imaginava pelo que via e ouvia não tinha sentido, era um caminho repetido de banalidades e pequenas intrigas de amigas e amigos; com as informações da Gipsy, e aqui tenho de esclarecer que Gipsy é codinome, eu nunca denunciaria as minhas fontes de informação, consegui perceber o que se passara no interior desta casa há três meses onde passei a vegetar há uns dez anos. Foi a Gipsy quem me explicou o estranho caso que eu desconhecia, que tinha saltado para os jornais e televisões, e tudo se tinha passado a alguns metros dos meus bigodes sem que os meus sensores olfactivos e auditivos se tivessem activado. Culpas ou vantagens da sobredose de comprimidos da velha, que engoli há tempos, da última vez que ela passou por cá, o certo é que, nos momentos de lucidez que perpassam por mim para me afligir de vez em quando, consegui reunir as peças de um puzzle, que é o mundo em que vivo, se ainda vivo e não sonho que sonho uma realidade surreal num outro mundo a girar em ondas ultramagnéticas de quinta dimensão. 
Contou-me a Gipsy, não querendo ela acreditar que, estando eu dentro da casa quase o dia inteiro, não tivesse percebido que polícias tinham vindo cá a casa e levado as gémeas com eles. É estranho, Gipsy, é muito estranho, mas pode ter uma explicação plausível. Estou velho, como sabes, e vivo sem saber se vivo, os meus sentidos estão frouxos, provavelmente estão tão quase mortos que já não funcionam como deviam, não ouvi, não vi, nenhum odor estranho entrou no raio de acção do meu faro debilitado. Mas posso imaginar que as gémeas não tenham sido arrastadas, à noite, de casa, que a mãe tenha sido surpreendida, durante um passeio de rotina com as filhas, e convidada a acompanhar os polícias destacados para conduzir as crianças para local fora da presença obecessivamente absorvente da mãe. Se assim foi, não ouvi, não vi, não me apercebi de nenhum modo o que se passou, até porque tudo se terá desenrolado longe da minha, agora débil, capacidade de alcance, mas parece-me bem. Parece-me bem que as tenham retirado de um ambiente de subjugação a excentricidades que, só não via quem não queria ver, estavam a transtornar a personalidade daquelas crianças, tornando-as criaturas de um mundo absurdo e, portanto, mentalmente suicida. Mas é revoltante que, só passados três anos,  tenham decidido libertar as crianças. Não sabiam os médicos pediatras, os psicólogos, os   psiquiatras, os juízes, até os vizinhos, que a mãe sofre de uma maluqueira qualquer?  Sabiam. Sabiam e sabiam isso há muito tempo. Eu, que nessa altura ainda tinha o ouvido afinado, escutava a toda a hora, desde o princípio do isolamento das crianças, os impropérios da mãe sanguessuga contra tudo e contra todos porque ela e só ela sabia o que era o melhor para as suas filhas, e, em circuito fechado, quem melhor sabia o que convinha às crianças eram elas mesmas. Apoiava-a insistentemente na obstinação patológica de isolamento a velha dos comprimidos através de conversas telefónicas que quando pareciam que iam terminar continuavam até parecerem que iam terminar outra vez, mas não.
É ela culpada pelos rombos psicológicos que infligiu nas crianças durante um período tão longo? Como estou aqui amarrado a este capacho por incapacidade de deslocação interna e não tenho saído diariamente mais do que o mínimo tempo necessário para levantar a perna ou encolher a coluna nos sítios, muito próximos, do costume, como e durmo e, quando não durmo nem sonho, penso. O pensamento não pára, pensamento parado só a dormir de olhos abertos, e isso não consigo. De modo que desde há uns tempos a esta parte, penso que as culpas, sejam elas de quem forem, andam geralmente mal atribuídas. O doido tem culpa de ser doido? E, sendo doido, é culpado dos actos criminosos que possa cometer? Disse-me a Gipsy que ouviu lá em casa que para emendar os distúrbios ou mal formações do criador do universo e viver em sociedade a espécie humana inventou regras e a polícia, mas pelo que se vê a cada passo, falha mais vezes que acerta. Já agora, a propósito de culpas e culpados, diz-me Gipsy se o feio tem culpa de ser feio? E se o bonito, tem culpa de ser bonito? Pois não. Eu nasci bonito, agora estou velho já não sou bonito, e ninguém, com justiça justa, me pode culpar de ter nascido bonito e de, com a idade e a prisão a que fui condenado por nenhuma lei justa, ter ficado feio. Por que nasci bonito? Por um acaso para o qual não mexi uma palha. Por que me tornei feio? Porque não há modo de travar a nossa viagem pelo tempo nem evitar as consequências, boas ou ruins, que encontramos na rota. 
Por ser bonito, toda a gente admirava o meu porte, o meu pelo, o brilho das minhas cores, a vivacidade inteligente dos meus olhos, encantava-se, e eu e meus irmãos, que também não eram feios, fomos vendidos e trazidos do calor e da maresia, onde brincávamos, corríamos, lutávamos, roubava-mos até, porque era preciso, para estas paragens brancas e tanto tempo frias, compulsivamente parados como esfinges à espera de raros momentos de desentorpecimento das coxas. O Pimpas, da nossa idade, de bonito só tinha o nome, de resto era feio, tão feio que ninguém o quis, lá ficou, a divertir-se na praia, a espantar as gaivotas com corridas de alta velocidade, a dormir à sombra se o calor aperta, a espojar-se na areia da praia a regalar-se com o calor quando o sol anda mais baixo, a fugir quando rouba para comer e a namorar a sério. Nunca mais vi o Pimpas, não sei sequer se ainda é vivo. De qualquer modo, o Pimpas, pelas minhas contas deve ter, até agora, feito pelo menos uns duzentos filhos que lhe deram não menos que quatro mil netos, e perco-me nas contas se quero contar-lhe os bisnetos, trinetos, tetranetos, e por aí fora, com o sangue e as fuças do Pimpas, que ninguém compra, e assim detêm o privilégio monopolista da reprodução exponencial da sua linhagem. Feia? É o que dizem os da espécie humana, da mesma espécie dos que me compraram para me enclausurarem e condenarem a morrer neste capacho, por ter sido por eles considerado lindo. E, com essa irrazoabilidade, cortaram-me cerce a possibilidade de povoar as redondezas de filhos, netos, trinetos, tetranetos, bonitos como eu. E, como eu, desaparecem os pintassilgos e todas as aves canoras e vistosas condenadas a cantar engaioladas, os animais da selva abatidos pelo imbecil mas irreprimivel vício de posse congénito na espécie humana. Às vezes penso que sinto uma enorme inveja do Pimpas mas logo me pergunto se é inveja este querer ter nascido feio como ele. Quando há já algum tempo disse isto à Gipsy ela deu uma gargalhada, e, disse, sempre que nos encontramos vens com a mesma ladainha. 
É verdade que me repito mais do que devia se não me atormentassem as recordações daquilo que vi e que não posso testemunhar senão à Gipsy. Inutilmente, bem sei, porque vivemos em mundos separados dos humanos que nos acorrentam sem outra razão para além do instinto de posse da sua espécie. Eu não me sinto acorrentada, respondeu-me a Gipsy. Livre? Como podes ser livre se tens dono? Aliás, dois, ou quatro se contarmos com os dois filhos do casal. Não tenho dono nem donos, tenho acompanhantes! Desta vez, a gargalhada foi minha. E a trela? Decoração, respondeu-me ela secamente perante a evidência da sua real condição, a conversa ficou por ali, e eu passei a ruminar as minhas conjecturas intermináveis, que abandonado aqui no capacho sem ouvinte nem acompanhante, subjugado a uma tirania de isolamento infame que ninguém quer ver. E desconfortável por ter confrontado a Gipsy com a resposta do cão vadio ao cão com trela na fábula antiga que ela há algum tempo me contou.
Hum! ... afinal para onde levaram as gémeas? Não sei. E como há uns dois meses que não vejo a Gipsy porque nem eu saio daqui porque estou preso e a Gipsy não vem até cá porque tem trela, a minha ignorância é total e, como precisa de alimento, alimenta-se de hipóteses e suposições. O telefone toca todo o dia, é, suponho, a velha dos comprimidos, do que falam não sei porque, já disse, agora ouço muito mal, e porque a doida suspeita de tudo e todos, desconfia talvez que sou espião infiltrado e refugia-se no andar de cima quando o telefone toca. 
Houve tempo em que as ideias se me atropelavam para a saída, agora, talvez porque se tenha partido a mola do tambor das recordações, não vislumbro hipótese de voltar a ver as gémeas, e a minha vida ficou sem qualquer sentido. Por que me pôs o criador no mundo e, ainda por cima, bonito para ser comprado e agora preso, prematuramente cego, surdo e mudo por falta de exercício e atormentado pela maluqueira de uma carcereira perversa, talvez  sem culpa? Recuo na memória e recordo-me em imagens que vêm à superfície continuamente dos tempos do país do sol e do mar, das tropelias de putos a aprender a safarem-se para sobreviverem, quantos andarão ainda por lá? Talvez o Pimpas, se não o Pimpas certamente vários descendentes dele. Mas é  pelas gémeas que o meu coração suporta as minhas angústias. Por que me abandonaram aqui? Porque já não presto, porque já não corro? Porque já não vou e volto vezes sem fim quando saíamos a passear e éramos cinco numa família feliz? Ou já terei morrido e o que de mim sobra a desfazer-se é uma nuvem onde o criador guarda os registos das suas criaturas?



  

Sunday, March 17, 2019

OUTRA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Percebi que a sua situação familiar estava desestabilizada desde o momento em que, no decorrer de uma conversa sobre um assunto totalmente diferente, ele, que trabalha nos arredores de Lisboa, me disse que tinha ido ver a filha a Castelo Branco, saíra de lá já era noite, e por essa razão tinha chegado tarde a casa, dormira pouco e mesmo assim tinha-se atrasado para a reunião que marcara connosco.
Dias depois, e no seguimento daquela e de outras reuniões para tratar do assunto que nos levara a conhecê-lo, soube que residia nos arredores de Lisboa, na Parede. 
Não resisti perguntar-lhe:
- Mas não me disse há dias que tinha ido visitar a sua filha que vive em Castelo Branco?
- Vive lá com a mãe. É a minha riqueza. Tem agora nove anos. Vou mostrar-lhe a fotografia dela? Não é um encanto?
...
Não sou casado, vivemos juntos durante seis anos, a minha mãe ia todos os dias levar e trazer a menina da escola, depois, subitamente, ela foi para Castelo Branco, levou a nossa filha, e cortou relações comigo e com a minha família. Os meus pais não vêm a neta há dois anos ...
...
Eu iniciei um caminho de calvário que levou ao tribunal, um caminho que, quase me destroçou mas não me obrigou a desistir. Não têm conta as vezes que tive de me deslocar a Castelo Branco para ver a minha filha e voltar sem conseguir sequer vê-la ao longe. 
Até que o juiz, tendo ouvido e rejeitado todos os argumentos fantasiosos e até infames, apresentados pela mãe para recusar o convívio, previsto na lei, da minha filha comigo, decidiu a meu favor, e, obviamente, mais que a meu favor, a favor da minha filha. Porque destes estúpidos comportamentos de alguns adultos, são os filhos as maiores vítimas. 
...
Ultimamente, as decisões do tribunal têm sido minimamente respeitadas. Mas, não raramente, dez minutos após a entrega, está a telefonar para berrar-me que devo entregar-lhe a filha imediatamente.
Nesta última vez, quando lhe entreguei a nossa filha, à porta do apartamento onde vivem, e comecei a descer o primeiro degrau da escada, deu-me um murro nas costas que quase me fez tombar pelas escadas abaixo. 
Devia retorquir? Pois não devia, e não retorqui. Voltei-me para trás, e sorri-lhe. 
Espero que ela tenha percebido que não é com murros sem testemunhas que me obriga a um gesto que me faça perder a minha filha. O sofrimento com o afastamento da minha filha é muitíssimo  maior do que aquele que uma tentativa dela para me fazer desesperar ou ferir fisicamente  me pode provocar. 

Sunday, February 10, 2019

TIREM-ME DAQUI, POR FAVOR


Escondidos os comprimidos, deu-me uma vontade estranha de voltar a dormir. Nunca tal me tinha acontecido, quando o sol nasce desperta-me deste nem durmo nem estou acordado, o corpo pede-me a higiene matinal, e enquanto a louva-a-deus não baixa do piso de cima com as crianças, contorço-me no capacho, depois que chegam levanto-me a apertar, a apertar, até que sua excelência se digne colocar-me a coleira e me leve ao sítio do costume. Já tinha contado isto, não tinha? Pois tinha, o que não tinha contado foi o que me aconteceu depois.
Dizia eu que os comprimidos me deram uma sorna que nem abrir olho me apetecia, se os abri foi para que não ficassem os comprimidos à vista das crianças e fossem estas contar à velha onde ela os tinha metido. Eu não sabia o que me ia acontecer quando fosse apanhado naquela modorra em capacho encharcado, mas, pelo sim pelo não, talvez tivesse outra oportunidade de me entregar a novas delícias de um sono profundo e sonhos de chorar por mais, não sei porque os toma a velha, a mim tornaram menos insuportável o mundo cão - curiosa expressão, estaria o seu autor a pensar em mim? - para onde, não sei quem nem porquê, me atirou, de modo que, escondidos os comprimidos, ao meu alcance, dei meia volta no capacho e deixei-me embalar sem travões outra vez pela soneira. Tanto que nem dei pela descida da louva-a-deus e das crianças, só abri um olho, que logo se fechou sem eu mandar, quando pressenti um espanto de boca aberta a espetar-me um olhar esgazeado. A partir daqui não vi nem ouvi mais nada, já disse que se me abriu um olho por conta própria, que assim como se abriu se fechou, depois entrei em modo telepático, ou talvez tenha voltado a sonhar, o certo é que só dei conta que estava acordado no consultório do médico onde levo as vacinas, vim a saber depois que a louva-a-deus, quando me viu ainda a dormir aquelas horas, o capacho encharcado, e não acordar com sacudidelas que me deu no corpo, não sabia se eu estava morto se vivo, telefonara ao doutor a pedir instruções, o clínico não acertou diagnóstico à distância com informações vagas, disse que só vendo podia pronunciar-se, e aí fomos nós a caminho do consultório, mãe e filhas à frente, eu na gaiola, atrás, aproveitei para dar o salto e voltar para a minha terra quente e cheirosa todo o ano, cheia de sol, de cor, de maresia. Dose dupla. Quando me viram de novo junto deles, perguntaram-me os meus irmãos, os meus primos, os meus sobrinhos, já sou tio, não sabia mas já sou, os meus pais, claro, os meus pais não podiam faltar, nem os meus tios, nem os amigos, toda a vagabundagem do porto queria saber se, desta vez, tinha vindo para ficar. Voltaram a perguntar-me se lá no sítio para onde me tinham levado as coisas eram tão boas como se contava ali, paparoca fina e a horas, assistência médica garantida, ambiente aquecido no inverno e refrigerado no verão, e eu ouvia-os e sorria, não queria que lamentassem a minha sorte de emigrante forçado e angustiado, tudo o que eles ouviam dizer era verdade mas não trocava nada daquilo por aquele sítio, o nosso sítio, e sem mas nem mas não lhes dizia porquê.
Estava eu excitadíssimo com a perspectiva do retorno a casa quando, vá lá saber-se porquê, ouço o médico perguntar à louva-a-deus, enquanto tentava arreganhar-me um olho, se a urina no capacho tinha coloração normal ou apresentava vestígios de sangue.
Ela não sabia, a urina tinha-se ensopado no capacho, se havia vestígios de sangue não eram evidentes, até porque estando eu deitado em cima da sopa, se houvesse pinta de sangue teria certamente secado no corpo. Mirou-me o médico o pêlo enquanto me apalpava a barriga, e mais abaixo, e depois disse que, pela apalpação externa e pelas aparências, não me encontrava nenhuma anormalidade, teria que recorrer a outros procedimentos, apalpação interna, para isso precisava bloquear-me os movimentos,  ela devia manter-se junto para me sossegar mas não era recomendável que as crianças presenciassem o acto.
- Por quê?, admirou-se a louva-a-deus enquanto dizia de si para si, mas que ideia mais estúpida!
- O que tenho a fazer provoca algum sofrimento no paciente, que vai estrebuchar, e isso  ferirá, creio eu, a sensibilidade das suas meninas ...
- Hum! Não pode ser. Nem elas nem eu aceitamos, seja em que circunstância for, separar-nos!
- Nunca?
- Nunca.
- Mas ... as meninas não frequentam a escola?
- Frequentam em "home schooling"
- Em casa...
- Em casa. Nunca me separarei das minhas filhas ...
- Já percebi. Mas eu não falei em separação. Há aqui ao lado uma pequena sala onde as crianças podem entreter-se com jogos ou com leitura enquanto os adultos acompanham a observação clínica dos pacientes.
- Impossível. Não me separo delas nem por um instante que seja. Elas podem assistir!
- Poder, podem, mas eu não gostaria de violentar com a minha actuação a sensibilidade das crianças.
(Nem a privacidade dos pacientes ..., disse eu mas nem o vet nem a louva-a-deus ouviram. Eles nem a eles se sabem ouvir)
Desistimos, por agora, de procedimentos complementares, vamos fazer umas análises ao sangue, às fezes e às urinas, e depois veremos como devemos proceder. Aliás suspeito que o paciente sofre de melancolia.
- Melancolia?
- Sim, melancolia, apatia, tristeza profunda. Talvez devesse consultar um psiquiatra ou um psicólogo.
- Psiquiatra ou psicólogo?
- Talvez melhor começar por um psicólogo.
- Mas há psiquiatria e psicologia veterinárias?
- Há, há. Acha estranho?
- Um pouco, e tenho uma péssima impressão deles. 
- Dos psiquiatras?
- Para mim psicólogos e psiquiatras são classes de incompetentes.
- Mas não ignora, certamente, que há casos de animais que chegam a desistir de viver se desaparece o seu tutor. Há milhares de casos impressionantes de dedicação dos animais ou gratidão pelas pessoas que os acarinham. Eles têm sentimentos, e os sentimentos podem sofrer perturbações. Vejo aqui na ficha clínica que o paciente tem dez anos... Já não é novo.
- Mas antes nunca ele demonstrou qualquer sinal de apatia, pelo contrário sempre demonstrou grande vivacidade e motivação para sair a passear. Hoje, pela primeira vez, estava a dormir quando descemos do primeiro andar para o rés-do-chão. E, mais preocupante que isso, só acordou aqui. ... 
... O doutor acredita na reencarnação?
- Se eu acredito em quê?
- Na reencarnação, ... em vidas sucessivas?
- Francamente, não sei do que fala. Disse-me que nunca se separa das suas filhas ...
- Nunca.
- Disse-me também que quando desce sempre encontrou o paciente muito vivaz...
- Sim. Com grande vivacidade, foi o que eu disse.
- Dá no mesmo. Mas será vivacidade ou ansiedade que caracteriza o comportamento dele? A que horas sai com ele para o passeio da noite?
- Deitamos-nos cedo, nunca depois das nove horas da noite.
- E de manhã a que horas o levam para o passeio matinal?
- Cerca das nove da manhã.
(É arguto este vet, daria um bom detective)
- Podemos, então, concluir que o paciente, que já não é jovem, tem de suportar um período de doze horas sem urinar ...
- Foi sempre assim, desde que está connosco, está habituado.
(É mentira! Quando a família estava unida, o homem da casa levava-me a fazer o xixi da manhã antes de ir trabalhar, cerca das seis e meia, e cerca das onze da noite para o passeio nocturno com mijinha a essa hora. Contas feitas, tinha um intervalo de sete horas e meia. Depois deu-se algum transtorno na cabeça da louva-a-deus e o homem, um benza-o-deus, saiu de casa saturado de tanta impertinência da mulher, entregando-lhe tudo por amor às filhas, eu incluído.)
- Até esta manhã, pelo que me disse.
- Sim, até esta manhã.
- Penso que o paciente, por razões de idade e prolongado período de acumulação de fezes e urinas, senão também por outras que averiguaremos mais tarde quando conhecermos os resultados, observou pontual incontinência urinária que pode, a partir de agora, passar a ser regra se não lhe reduzir o período de contenção. Vive em apartamento, suponho?
- Habito uma vivenda.
- Tem jardim?
- Sim temos um pequeno espaço.
- Cem metros quadrados...
- Um pouco mais.
- Cercado?
- Sim, cercado.
- Por que não deixa o paciente no exterior, instalado numa cabine confortável, de modo que possa sair e recolher quando ele quiser?
(Ora aqui temos um vet à maneira. Se me vejo nas traseiras dou o salto sem olhar para trás. Se o chip bufar logo se verá)
- Hum! É difícil, as crianças estão muito habituadas a vê-lo na sala.
(É mentira, passo os dias no capacho, há muito tempo que ninguém repara em mim. Se, por acaso raro, entra alguém e eu me preparo para os ir receber, como manda a boa educação, logo os visitantes recebem aviso para nada de festas no bicho porque não o queremos excitado. Um dia, há mais de um ano, estiveram cá em casa dois jovens, dei conta disso no meu primeiro relatório, e até esses foram instruídos a não me tocar. Foi preciso um deles apanhar  a louva-a-deus de costas para eu receber uns miminhos.
Nunca mais os vi. Por onde andarão eles a estas horas? Por que se evaporam tão rapidamente, como sonhos bons, os raros momentos de felicidade à minha volta?)
- Quer dizer, se bem percebo, que o paciente passa os dias a bocejar de tédio num canto da sala em cima de um capacho ...
(Bruxo!)
- Saímos de manhã para uma volta nas proximidades...
- Uma hora?
- Depende do estado do tempo. Podem ser duas, pode ser meia hora.
- Compreendo, o paciente dissolve-se em tédio.
- Dissolve-se?
- Metaforicamente, claro. Concretamente, esgota-se pelo esforço de uma imobilização forçada.
(Subscrevo)
Disse que saem os quatro ...
- Os quatro? Quatro, como?
- A senhora, as duas crianças e o paciente. O paciente sai convosco para esse passeio breve?
- Sai, sai. Claro que sai.
- Encontra-se nesse passeio com quantos indivíduos da espécie dele?
- Não percebo.
- Presumo que durante o passeio a senhora se cruze com outros passeantes e, nessas oportunidades, o paciente confraternize com outros indivíduos da sua espécie.
- Sim, sim, acontece.
- Com que frequência?
- Posso saber onde quer chegar?
- Avaliar o isolamento forçado do bicho. É por essa razão que lhe pergunto quantas vezes por dia, em média, tem o paciente oportunidade de confraternizar, conviver, com outros, amigos antigos ou recentes.
- Duas, três, por aí.
(Mentira. Agora só fala com uma amiga quando a amiga aparece, o que é raro, com um cachorro, um lulu de trazer ao colo)
- Durante quanto tempo?
- É assim tão importante entrar nesses detalhes?
- É importante perceber em que medida o isolamento em casa é, de algum modo, compensado ou não pela convivência no exterior. O paciente pode, para além do sofrimento de contenção urinária forçada estar em situação de prolongada carência de afectos.
- Não, não pode ser.
(Pode, pode!)
- Se bem percebi o seu universo de relacionamento é muito limitado e essa limitação atinge o paciente.  
- Limitado? Porquê limitado?
- Disse-me que sai de casa uma vez por dia, durante uma, duas horas, meia hora se o tempo não está convidativo, presumo que também sairá para fazer compras, mas a quase totalidade do seu tempo vive-o no espaço da sua casa  com as suas filhas, e o paciente dorme e boceja. É isso?
- ...
- Bom, temos de avançar na preparação das análises. Do sangue, vou de imediato fazer uma colheita. Preciso que agarre, bem agarrado, o paciente, é só uma pequena picada mas ele pode assustar-se e tentar libertar-se impedindo-me de fazer a colheita.
(Vá lá vet, prometo portar-me bem, o efeito dos comprimidos é prolongado... Portei-me bem, hem?)
A recolha das fezes não coloca problemas e para as de urinas tem aqui um folheto explicativo de como deve proceder.
(Fico curioso)
Traga-me as análises e eu mesmo me encarregarei de as fazer chegar ao laboratório, a menos que a senhora possa passar por lá. A morada está no fim do folheto explicativo. Voltamos a ver o paciente de hoje a uma semana. Convém-lhe?
- Não me convém nada, vou ver o que posso fazer. Depois aviso.
- Devo avançar com as análises ao sangue? Não posso reter aqui a recolha feita mais do que durante umas escassas duas, três horas.
- Não sei.
- Não sabe? Quem sabe?
- Não sei. Quanto devo?
- Pague por favor na recepção.

Na recepção pagou a consulta e, manifestamente contrariada, as análises ao sangue.
E aqui vamos nós de volta ao presídio. Continuo com uma soneira ... Talvez venha novamente ao meu encontro a liberdade de sonhar.

Não sei se a sonhar se por telepatia ouço o que pensa a louva-a-deus a caminho de casa, as observações  do vet deixaram-na de rastos. Ou o homem é doido ou quer dar com ela em doida. Período muito prolongado de  contenção urinária ...
(sim, sim, e não sabe ele do sofrimento de imposição de espera pelo almoço colocado à minha frente, a pouco mais de um metro de distância do meu nariz, enquanto não recebo ordens para avançar),
... falta de convivência, o que é isto? quem se julga ele para definir o que é melhor para o equilíbrio psíquico, a confusão dos encontros ou a serenidade da contemplação em sossego dentro de portas? Melancolia ... Psicólogos ... Psiquiatras, aposto que este indivíduo, apesar de veterinário, nunca teve animais de companhia. Devia ter-lhe perguntado, mas não perde pela demora, pergunto na próxima. Na próxima? Mas por que há-de haver próxima, o paciente está velho, ameaça-me passar a molhar a partir de agora, o capacho todos os dias, em consultas, análises e o mais que se verá, ... não tenho dinheiro para tanto... Tudo contado, parece-me que a melhor saída é mesmo comprar uma cabine e deixá-lo à solta no jardim.
(Bravo!)
E talvez ele decida dar o salto e ir por aí fora por conta própria.
(Hum!Hum! Não sei se isto é sonho, telepatia ou desejo enorme)

Chegados a casa, o capacho foi metido no contentor do lixo, agora deito-me numa manta velha, muito usada em tempos por cima da relva quando havia idas até ao lago, mas aceitável. Já eram horas de almoço e, surpresa das surpresas, recebi ordens para avançar logo que a tigela foi colocada à minha frente. Mas não me apetece comer.
Vieram, mãe e filhas, tentar dar-me comida na boca! Mas não comi. Não por birra, que é mais fraca que a fome, mas porque me sentia enjoado, todas drogas têm efeitos colaterais, ouvi um dia o Urs dizer isso a um amigo, na altura não percebi, agora creio que sei o que é.
- O que tem ele, mãe?, perguntou a filha mais nova
- Tem melancolia, respondeu a filha mais velha.
- O que é melancolia?, insistiu a mais nova.
- Não sei, precisa de ir ao psiquiatra.
- E depois?
- Depois fica bom.
Não fui ao psiquiatra mas voltei ao veterinário. Devo ter lambido mais comprimidos que a conta porque no outro dia de manhã só não acordei molhado na manta porque a louva-a-deus desceu muito mais cedo que o costume, abriu-me a porta, deixou-me cá fora, e voltou para cima.
Com o ar fresco da manhã e o cheiro da terra, da erva, de tudo à volta, fiquei mais inebriado do que com a toma dos comprimidos na noite anterior e que, entretanto, já deviam esgotado o efeito. Alcei a perna em sítio que não era o meu, necessidades satisfeitas por agora, dei uma volta à vedação a ver se havia saída. Não havia, a única possibilidade de sair dali era saltar por cima da rede. Três tentativas, três insucessos e três esfoladelas no lombo.
O preço da liberdade é sempre elevado, ouvi o Urs dizer um dia a outro amigo, tenho de contar com isso para não desistir agora que lhe senti os custos mas também as vantagens de me soltar da coleira. Sentei-me junto à porta a aguardar que me mandassem entrar, o frio começou a arrefecer-me o corpo habituado ao ambiente aquecido no interior da casa, ainda apanho uma pneumonia, as feridas começavam a pedir tratamento, receava que a louva-a-deus reagisse mal, e  das duas, uma, ou me abria a porta das traseiras e me libertava pela porta da frente ou recolhia as amostras para análises e voltava ao vet. Não me libertou, fez uns curativos nas feridas. Almocei mais cedo que o costume, e, de barriga confortada, dormi toda a tarde.
Não voltei aos comprimidos, com a saída matinal a horas convenientes, a paparoca sem sofrimento de espera com ela à vista, uma semana depois voltei à consulta do vet. A recolha das urinas, segundo o folheto explicativo, redundou quase em desespero da louva-a-deus depois de lhe ter caído quase toda a micção fora do recipiente, demasiado estreito para quem não guia com a mão a direcção.
As análises não indiciavam qualquer maleita, como se tem portado o paciente, assim-assim, respondeu a louva-a-deus, que deu conta da ocorrência de feridas no lombo logo no primeiro dia em que, seguindo as sugestões do doutor, me tinha posto no jardim cerca das seis e meia da manhã durante meia hora, se tanto, a temperatura baixou bastante e ela ainda não tinha comprado a cabine.
- Não repetiu nos dias seguintes?
- O quê?
- A observação de mais feridas.
- Não.
- E quanto a comportamento, nota-lhe algumas alterações?
- Dorme todo o dia, penso que passa as noites acordado.
- Hum! Deve passar as noites a pensar ...
- A pensar o quê?
- Ah, isso não sei, nem tenho meio de saber. Mas que é estranho, que é interessante, lá isso é. As feridas parecem-me curadas. Se ele não voltou a tentar saltar a vedação ... Sim porque as feridas resultaram de tentativas desesperadas de fuga.
- Acha?
- Não vejo outra razão. Continuo a pensar que o paciente sofre de melancolia
(E ele a dar-lhe com a melancolia ..., pensou louva-a-deus) Falta-lhe convivência durante o dia e, por isso, dorme. Disse-me que ele não dorme de noite. Que indícios tem disso?
- Se dorme de dia ...
- Talvez não durma, talvez apenas esteja de olhos fechados pela tristeza de estar preso quase todo o dia. Ponha-se no lugar dele ...
- Quem, eu?
- É uma forma de dizer. Que faria se fosse obrigada a passar os seus dias num ambiente fechado sem possibilidade de conviver? A reacção dele não será significativamente diferente da de um preso numa cela onde mal se pode mexer. Não tendo mais que fazer, fecha os olhos e pensa. E parece que dorme, mas não dorme, regra geral congemina uma estratégia de fuga como qualquer preso que prese a liberdade.
- Acha isso?
- Se não achasse não dizia. Por que é que ele se arranhou na vedação? Pense nisso. O paciente sofre da ausência de convívio. Pelo que me disse concluo que também o seu relacionamento social, e o das suas meninas, é muito exíguo, o vosso mundo é muito pequenino. É feliz assim?
- Sou, sem dúvida.
- E as suas meninas?
- Felicíssimas!
- Óptimo. Toda a regra tem excepções. O nosso paciente é mais normal.
- !!!
- Não me interprete mal, por favor. Quando digo mais normal quero dizer mais em linha com o comportamento da generalidade dos indivíduos da sua espécie, que segue o comportamento padrão.
- Muito bem. Quanto lhe devo?
- Pela consulta de hoje não deve nada.

De volta a casa, dentro da gaiola, não sei porque me engaiola ela sempre que vamos de carro, o que pensará quem me vê? Que sou um supeito criminoso a caminho de julgamento ou um criminoso julgado culpado de volta ao presídio? É deprimente. Desta vez mantive os olhos bem abertos para reter imagens do trajecto. 
Está mais que decidido, tenho de sair desta clausura onde há mais de três ou quatro anos, já lhe perdi a conta, perde-se sempre a noção do tempo quando a vida é uma seca, estou condenado a envelhecer neste canto da casa, em paralisação forçada, uma condenação por crime nenhum. Tenho que sair daqui, de há uns tempos a esta parte, não me larga esta ideia, mas todas as hipóteses congeminadas em dias e noites a fazer contas e esquemas me embrenham num labirinto que, quase sempre, me conduzem a um recâmbio ao ponto de partida porque, lá está, o chip anda comigo e não é por muito me coçar que o estupor se avaria e a polícia fica sem saber quem sou. 
Mas tenho que sair daqui!
Quando der o salto, não sei quando nem como, mas acredito que um dia essa oportunidade passará por mim, tenho de conhecer as ruas das proximidades para escapar à perseguição da polícia quando eles forem informados da minha fuga ou,  mesmo sem essa informação, me encontrarem sozinho fora de casa. 
Vinha eu a matutar nisto na gaiola quando vejo, a uma distância de trinta metros, se tanto, no outro lado da rua onde a louva-a-deus costuma fazer as compras para a casa, aquele benza-o-deus que louva-a-deus quer destruir. A ele, a mim, às filhas, ... enfim, até o vet já percebeu o que se passa.
Durante o passeio antes do almoço, fujo. Só tenho que perceber melhor as ruas por onde praticamente não passa gente aquela hora. A  partir de agora, toda a atenção é pouca, logo que a oportunidade surja dou o salto.

Excitado com a ideia da fuga, esta noite passada não preguei olho e durante o dia senti-me molengão, se quero pôr-me ao fresco não posso ir para a voltinha antes de almoço sem os olhos bem abertos, portanto a fuga tem de esperar por melhor oportunidade. 
E se volto a não dormir esta noite? E na outra? E na outra? Se os comprimidos me meteram o vício no corpo, deverei lamber mais um ou dois para acalmar, dormir todo o sono em falta e ficar bem preparado para fugir quando for preciso? Hum! Lambo um ou dois? Ou três? É melhor experimentar dois, se um não resulta e tenho de tomar dois depois, gasto três, um rombo no stock da velha, que não sei quando volta, ... E se a fuga não resulta e fico sem droga?, .... é melhor lamber dois... 

... Está uma manhã linda, de sol por todo o lado, viemos dar a volta da manhã, o tempo está quente mas não muito, está um dia daqueles em que as meninas experimentam correr pelo caminho fora, e eu, ocasionalmente sem coleira, acelero a corrida, mas sou logo repreendido e intimado a voltar para trás, e volto, passo pelas meninas vezes que não conto, que também voltam a correr atrás de mim, e vou e volto, e vou e volto de cada vez mais longe, até ao limite do bosque, até que volto para embrenhar-me no bosque, de onde não volto. 
Vou aguardar por aqui o dia inteiro, os sentidos em alerta máxima, até que a noite chegue e esconda os meus passos no caminho até à casa onde reside nos últimos dois, três anos, o meu amigo. Sim, sei onde ele mora, estive lá um dia, um dia de Natal, o dia de Natal mais sombrio da minha vida.
Vou chegar lá, e bater à porta para lhe dizer, - suave milagre-, aqui estou!

- Milá! Milá! Milá! ...
- Milá! Milá! Milá! ...
- Milá! Milá! Milá! ...
... .... ... ... .... ... .... .
Chamam-me, mas o grupo não se separa, e eu corro no sentido contrário de onde ouço chamarem-me. Volto quando sinto que voltam para trás a caminho de casa. As meninas, agora, chamam por mim a chorar....

E eu a chorar acordo quando ouço a louva-a-deus a descer para o breve momento da minha higiene matinal.

Monday, December 31, 2018

NA CASA DO LOUVA-A-DEUS *


     
         
             ... eh!eh!eh! ... volto a dar conta, daqui deste lugar em que me encontro, do que ouço e vejo e me põe o pelo em pé. Gostaria de vos trazer boas notícias, mas lamento...

O outono ameno já lá vai, chegou o inverno e com ele os dias de neblina, de chuva, de frio, de neve, é tempo dos animais se refugiarem nas luras e os humanos temperarem a agressividade do tempo com gestos de boa vontade, mais comunhão e menos confronto, mais fraternidade e menos ódio, eh! eh! eh!  Boas intenções e muita conversa fiada à mistura, a espécie humana não é a mais hipócrita das espécies porque é a única capaz de o ser. Vive e mata-se adorando e ofendendo deuses, criados à sua imagem e semelhança, implorando-lhes favores, desfavores para outros. Gostaria de imaginar um mundo futuro que removesse o meu desalento e me insuflasse esperança, mas não tenho com quê. Sei que há quem, mesmo nas mais remotas distâncias da esperança, consegue iludir-se e superar-se. Durmo mal, porque dormito muito, e nas intermitências do meu sono sobressaltado assaltam-me pesadelos que só não me destroem de vez  por sobrecarga emotiva porque não sei quem nem como tem tido a gentileza de apagar-mos da memória.

Cá em casa continua a viver-se em regime de prisão domiciliária, somos os mesmos seis nos últimos dois anos e picos, contando comigo e os dois gatos. De vez em quando aparece aí um casal, sem filhos, raramente entra uma criança para convivência com as duas cá da casa. Quem vem regularmente umas quatro vezes por ano é uma velhota que fica uma semana na casa, anda sempre a esquecer-se onde deixou a caixa dos comprimidos,  e depois desaparece até à próxima.
Ultimamente, as garotas, que ficavam sempre encantadas quando alguma visita batia à porta, têm vindo a mostrar-se irrequietas, indisciplinadas e pouco entusiasmadas com estas visitas velhas que não lhes trazem gente das idades delas. A velhota bem tenta manter relacionamento amigável contando-lhes histórias contadas vezes sem conta, elas mantêm-se concentradas por algum tempo mas não tarda saltarem-lhe para as costas, como faziam quando eram mais leves e a velhota menos velhota. Há dias, a brincadeira terminou com a velha a praguejar em surdina quando viu, com elas às costas, caírem e quebrarem-se os óculos no chão.
O dia-a-dia das crianças, para mim monótono e sonolento, preenchido com o contar de histórias e trabalhos manuais, sem actividades que lhes desperte e fortaleça os músculos e os ossos, atormenta-lhes o corpo que pede relaxamento e distensão física que este encarceramento não consente. Falo por mim, esta clausura, que me tolhe os movimentos, está a tornar-me paralítico à medida que os anos passam. Não gemo quando me levanto, como a velha da caixa dos comprimidos, por uma questão de dignidade, mas apostaria que não me doem menos as articulações a mim que a ela. 
Entre mãe e filhas o relacionamento é gomoso, reforçado pela repetição, a despropósito, que o pai é mau, ele é mau, é mau, ele quer que elas frequentem a escola mas a escola é má, quem sabe o que quer aprender são as crianças, a escola é má porque quer ensinar o que as crianças não querem aprender... É verdade, é verdade, concorda e abana a cabeça a velhota dos comprimidos. Ele é mau, o pai há muito que agora é ele, os avós são maus, são, concorda e abana-se a velhota, os tios são maus, os primos são maus... o que são avós? o que são tios? o que são primos? ... O que são?, são maus! São todos maus, concorda e abana-se repetidamente a velhota, que acrescenta, o mundo é mau, é mesmo muito mau. O que é mundo? O mundo, explica a mãe e repete a velhota, o mundo é uma coisa má, mesmo muito má, apagam-se os nomes e os rostos na memória das crianças, submergidos na maldade generalizada. 

À noite, não sei o que se passa lá em cima de noite. No primeiro andar da casa há quatro quartos mas mãe e filhas dormem juntas na cama que antes foi cama do casal. Ouço-as a rirem-se, talvez estejam a fazer cócegas umas às outras, porque o riso  solta-se em crescendo até ao esgotamento que as sossega. Que tara, que desejos, que carências, que aberrações incitam esta mãe a esta colagem que não a despega das filhas por um instante sequer?

Forçado a dormitar de dia, passo as noites meio a dormir meio acordado até o sol nascer e a vontade de ir à rua para a mijinha matinal me acordar de vez e me contorcer o corpo em sofrimento.
Antes, quando o pai das crianças habitava na casa e saía cedo para trabalhar, levava-me à rua a horas convenientes, agora tenho que aguentar que mãe e filhas desçam coladas do andar de cima, geralmente duas horas mais tarde que antes da saída do homem da casa.
Se, enquanto espero e desespero que desçam, passa um amigo meu na rua, um daqueles que encontro durante a volta antes do almoço, e lhe envio um sinal de cumprimentos, ui!ui!, o que tu fizeste! aqui só abres a boca para bocejar e comer ..., impera lei da rolha, se a violas, por mais discreto que sejas, levas um berro de fazer tremer a casa de alto a baixo e um pano encharcado por cima do lombo.
Se, por acaso que penso ser muito improvável, o que aqui se diz chegasse ao conhecimento da carcereira seria, calculo eu, condenado a solitária, na cave, onde, aliás, nunca me foi consentido meter as patas, sem luz nem aquecimento, quase certamente sem paparoca, a verdade é muitas vezes inacreditável e perigosa. Mas manda a verdade que aqui se diga que certa noite ouvi entre a velha e a mulher que nos tem encarcerados uma conversa daquelas para acreditar quem quiser: falavam de vidas passadas, as crianças, todas as crianças são, até ao momento do nascimento, um repositório de conhecimento que se apaga quando inspiram o primeiro oxigénio, a sua alma é superior à dos adultos, o tamanho aumenta em cada reencarnação, daí que sejam, as crianças, entenda-se bem, mais capazes de decidirem sobre elas do que os adultos por elas e, daí, ser uma violência obrigá-las a frequentar a escola. Na mesma ocasião ouvi, pasmem!, se ainda não fecharam a boca de espanto, que alguém, mas não entendi quem, teria consultado uma vidente para conhecer quem fora seu antepassado. O resultado compensara o custo, em vida passada o consulente tinha sido não menos que Luís XVI. Esperançada, recorreu a esposa à mesma vidente, sem informar com quem era casada, e saiu-lhe a Maria Antonieta na rifa. Foi um delicioso delírio até ao momento em que, numa altura de confidências, souberam que a tão consultada vidente tinha atribuído a mesma antecedência a um casal amigo.
E a mim, que vida passada me tramou?
Perguntei insistentemente à velhota da caixa dos comprimidos quando a apanhei a jeito, mas, como a outra, ela não ouviu o meu olhar. 

Continuo a passar os dias e as noites sentado ou deitado no capacho, num canto da sala, se me levanto é para três saídas à rua, uma de manhã, outra à noite para alçar a perna, muito breves, tão breves que quando volto para o capacho sinto uma vontade intensa de voltar logo lá fora por não ter despejado quanto devia. É durante a saída, antes de almoço, para um giro nas redondezas que alço a perna à vontade ou encurvo as costas para fazer força no sítio devido. 
Depois dormito, se me levanto não ultrapasso aquela linha imaginária que circunscreve o território, uns quatro metros quadrados, em que posso dar meia volta e voltar ao capacho. Uma linha imaginária que se, por inocente distracção, a toco, desencadeio um berro dela capaz de acordar um morto. A primeira vez, logo no dia em que entrei cá em casa, o impacto do grito saído de um silêncio  estranho, estranho para quem deixara há poucas horas o sol, o mar, a vozearia nas ruas cheias de gente a qualquer hora, atravessou-me a espinha como um raio. E disse-lhe, com calma, não com medo, porque grita tão alto estando eu aqui tão perto? Mas ela não me ouviu, não compreendeu. Temos formas de expressão diferentes, a dela e os da espécie dela pelo som, geralmente em tom baixo, ela, comigo, pelo berro,  só não ouve quem não tiver bom ouvido, a minha, a da nossa espécie, lê-se nos nossos olhos, e ela não repara, nunca reparou no meu olhar. 
Hoje, dez anos depois, reconheço que fui tanso quando não respondi à estridência bruta daquele electrocutante primeiro grito com uma resposta à medida. Talvez ela me tivesse devolvido à procedência e eu estaria agora a regalar-me com o calor do sol e  a maresia do lugar onde fui parido e cresci até ser trazido para esta casa. Talvez tivesse, nesse caso, que fazer pela vida, mordiscar o que aparecesse, dado ou roubado, e não apodrecer neste capacho à espera que a bruta me faça sinal mudo para me aproximar da tigela apenas uma vez por dia. Primeiro come ela e as filhas, depois eu. Nada a reclamar se eu pudesse avançar logo que a tigela é colocada junto da linha invisível, normalmente meia hora depois de terminado o almoço delas. Mas não senhor, a tigela está ali a uns dois metros do meu faro esgalgado, contorço-me no capacho, sigo-lhe ansioso  todos os movimentos, e só após uma longa espera sou autorizado a avançar. Tanta fome, recordo que não me entra pitada na goela há um dia, precipita-me para o tacho e, de vez em quando, o tacho tomba. 
E lá vem o grito assustador pelo crime cometido pela larica, sem atenuantes. Pior que isso é ficar a tigela vazia, o chão sujo, de onde ela não me consente comer, limpa tudo para o lixo, e a fica-me a barriga a dar mais vinte e quatro horas em vazio.
Ponham-se no meu lugar: imaginem-se sentados a uma mesa para almoçar onde todos, naturalmente, começam a comer logo que a comida chegue e o dono da casa diz bom proveito! mas, tu não. A comida está à tua frente, tens tanta ou mais vontade comer que os outros, já não petiscas nada há pelo menos um dia, mas não podes começar a comer enquanto os outros não terminam e não tiveres permissão para comer. Não é a mesma coisa? Por que não? Somos diferentes, pois somos, mas todos somos animais que para viver precisam de comer. Ou não? Qual a diferença no funcionamento dos sistemas básicos entre os humanos e os outros animais?
E não se fica a tortura da espera pela tigela da paparoca. De manhã, quando ela se decide a colocar-me a coleira para a saída da mijinha matinal, já estou torcido e contorcido de tanto aguentar a apertar, um dia destes, a velhice trás destas coisas e eu agora já não sou assim novo, ainda mijo no capacho, e não sei, nesse caso, o que me possa acontecer, talvez lhe dê uma dentada bem ferrada se ela se atrever a ir além do grito histérico, e seja o que Deus quiser.
Durante o passeio antes do almoço assalta-me sempre a ideia de aproveitar a oportunidade de, nos breves momentos que ela me solta a corda, pôr-me ao fresco, dizer-lhe adeus de longe, passe bem que eu vou à minha vida, mas seria uma tentativa frustrada em poucas horas, porque quando aqui cheguei meteram-me debaixo do pelo uma coisa que depois vim a saber se chama chip, uma espécie de bufo que informa a polícia, a fuga é possível mas seria inconsequente, e lá volto eu para o capacho. 

E assim continuo sequestrado nesta sala, sentado ou deitado no capacho quase todo o dia de todos os dias. Um sequestro que me obriga a ver e ouvir o que me revolta sobretudo nesta época do ano quando, durante a curta saída diária vejo os sons, as luzes, o encanto estampado no rosto das pessoas pela celebração em família do milagre do nascimento, e me assaltam mais intensamente saudades dos meus irmãos, que será feito deles a estas horas, estarão também condenados a uma vida vegetativa, a servir de bibelots vivos em regime de sequestro? Para que sirvo eu, aqui, condenado em prisão perpétua a envelhecer neste capacho, neste canto da sala, a ver a entrar e sair os dois gatos pela gateira, também eles condenados a clausura, mas menos sofrida, perpétua mas menos sofrida, porque têm licença de saída para as traseiras e a vaguear por toda a casa,  e ser a clausura doméstica mais conforme à sua natureza independente mas aconchegada? Em tempos idos, os gatos caçavam ratos, agora a caça ao rato pode matar o gato que se regale a comer um rato semi morto por envenenamento, já não se passeia pelos telhados a miar por amor, brinca com o que calha quando é juvenil, come o que lhe põem na taça, e dorme a sono desprendido quando é adulto e velho, quer dizer, também não presta para nada.
De frio ou calor em casa, não me queixo. Não sei o que pensam os gatos, a arrastar a barriga da velhice ou mais a dormir que acordados no poleiro, já tenho tentado entendê-los pelos olhares,  cada vez mais embaciados, inexpressivos, quem sabe se já quase cegos, e não lhes descortino senão tédio cristalizado pelo conforto, pela papinha e uma inutilidade sem limites que só lhes exige submissão em troca. Bibelots vivos, ou meio vivos, como eu, que gozo, que prazer, que interesse, desfrutam os carcereiros da posse destes prisioneiros castrados sem crimes cometidos?
Se vissem o que eu vejo, manteriam os gatos aquele ar de múmia se sentissem o que eu sinto? Somos diferentes, não é por eles estarem velhos, meios cegos e surdos, que estes gatos sentados no poleiro não mexem um pelo, insensíveis ao que se passa na sala à frente dos seus bigodes. Não a mim, contorço-me no capacho, revolvem-se-me os interiores, apertam-se-me as meninges, por ver o estendal de perversidade que testemunho sem poder depor.
Quando, durante algum tempo acompanhei o Urs e a Cherry, o Urs parava a conversar com quem se cruzava nos nossos  passeios matinais. Com um discutia política internacional, com outro economia doméstica, com outro o mérito da homeopatia, com outro as potencialidades da parapsicologia, com outro curiosidades e aberrações da natureza, neste caso, do mundo animal.
Como a Cherry não era o meu tipo nem eu o dela, não havia conversas entre nós e eu ouvia o que dizia o Urs.

Foi por ele que fiquei a saber que há bichos fêmeas que matam e comem o macho depois que, truca-truca, os dois fizeram filhos, um tema que desencadeou uma discussão longa acerca da culpa e do livre-arbítrio, se sabem de que se trata, ainda bem porque a mim escapam-me.
Para o Urs o canibalismo sexual de alguns bichos fêmeas não é  uma aberração da natureza mas uma consequência da evolução das suas espécies ao longo de muitos milhões de anos. É assim e não há nada que demova a fêmea canibal a deixar de ser.
E o bicho homem, o maior predador de todas as espécies, e, sobretudo, da sua, que culpa tem dos actos que pratica se o caminho do livre arbítrio o conduz para a prática de tantas atrocidades? perguntou-lhe o outro.
O livre arbítrio é uma armadilha em que cada um pode cair consoante a fórmula dinâmica gerada no instante da concepção e das circunstâncias que defronta uma vez lançado no lago amniótico e depois no mar exterior. O homem, só em parte é um ser racional porque nunca se livra de alguns instintos primitivos comuns a todos os bichos. A alienação parental, por exemplo ...
... A quê?, perguntou o outro, um sujeito idoso, meio surdo, ao mesmo tempo que ajustava sintonia das orelhas e eu espevitava as minhas.
Alienação parental é o aprisionamento dos filhos de um casal por um dos seus progenitores, quase sempre a mãe, impossibilitando o pai de conviver com os filhos de ambos.
É possível? É legal?
É ilegal mas a justiça é lenta e a sequestradora aproveita a morosidade para fazer esquecer aos filhos que o pai existe e sofre com a perversidade montada pela mãe. É uma fórmula de canibalismo sexual feminino, que difere da do escorpião ou do louva-a-deus porque a deglutição da fêmea humana canibal é muito mais prolongada que a de outras fêmeas canibais. Se a espécie humana evoluiu para formas de comportamento diferentes das outras espécies foi porque, no ramo da árvore de evolução das espécies  subiu a patamares superiores de minimização de funcionamento dos seus instintos mais primitivos.
Percebo o que dizes, Urs, mas considero exagerada a comparação ...
E é, aparentemente, é, mas porquê? Porque a humanidade evoluiu sociologicamente e a fêmea canibal humana não mata o pai dos filhos porque o homicídio é crime pesadamente penalizado,  mas, ao recusar a convivência dos filhos com o pai, pretende matá-lo pela angústia da ausência e esquecimento dos filhos. As acções são diferentes mas os instintos que as comandam são os mesmos. Curioso é que o comportamento da fêmea canibal humana imita bem o do louva-a-deus que, em permanente oração, parece incapaz de matar uma mosca mas mata o parceiro sexual após copular com ele.
Queres dizer que poderíamos confirmar a validade da tua comparação se o homicídio e o canibalismo não fossem punidos? Que, nesse caso, a fêmea humana mataria e comeria o macho?
Que te parece?
Hum! ... Não sei. De entre um incontável número de espécies de seres vivos apenas um reduzidíssimo número mata e come o parceiro sexual...
... mas também apenas um reduzidíssimo de humanos, homens e mulheres, mas sobretudo mulheres, rejeita o parceiro sexual e rapta os filhos de ambos. 
A rejeição do parceiro não é condenável...
Não, é óbvio que não, aliás,  a ninguém pode ser imposto o martírio de viver com quem deixou de querer continuar a viver. Mas o rapto dos filhos é um crime, salvo motivo reconhecidamente grave, que só os meandros da justiça consentem que subsista traumatizando profundamente o pai, ou a mãe, e os filhos envolvidos no sequestro. É um crime motivado por instintos perversos do sequestrador. 
Por quê?
O perverso alimenta-se da dor provocada às suas vítimas.
Incluindo os filhos? Não é possível.
Pois não. O perverso inverte os efeitos perniciosos da perversão, neste caso sobre os filhos, invocando benefícios dos meios que lhe justificam os fins. A felicidade do perverso está no gozo da infelicidade das suas vítimas.

E esta conversa ficou por ali.

Recordo-me também que um dia, não sei a que propósito, o Urs demorou um tempão a convencer com quem conversava que os cães têm capacidades de telepatia que lhes permitem entender à distância o pensamento do seu acompanhante. Talvez o Urs tenha razão, mas nunca me pareceu que houvesse entre ele e a Cherry algum canal de comunicação telepática, a Cherry era de temperamento desobediente. Quando agora me recordo dessa revelação do Urs, fixo, por períodos longos, o meu olhar nos gatos tentando estabelecer com a mente deles uma comunicação de pensamento mas, ou os emissores estão apagados ou as linhas de comunicação não se ligam, não recebo qualquer sinal daquelas cabeças duras.
Curiosamente, leio com estranha precisão o que passa pela cabeça da nossa carcereira. Estranha precisão porque, como tenho dito e redito, um velho repete-se muito, não existe entre mim e aquela mulher, agora ali a três ou quatro metros à minha frente, a mínima vibração de empatia. E pergunto-me se leio por telepatia ou por inevitável conhecimento da extrema previsibilidade comportamental dela. Aliás, esta foi a diferença que separou a opinião do Urs, que andava a ler tudo sobre telepatia, da do amigo, que disse não haver evidências científicas de transmissão de pensamentos sem utilização dos cinco sentidos, reconhecendo, no entanto, sem dificuldade que a acuidade de cada um deles varia muito de espécie para espécie.
 A mim, cá em casa, cheira-me sempre a esturro,  mas não é pelo faro que chego lá ... 
E o que é que vai na mente desta carcereira na véspera deste Natal?
Nada de novo.
Em tempo oportuno comprou o quadro do advento, um abeto, velas finas de cera branca, que vai acender esta noite de véspera de Natal, depois senta-se com as filhas à volta da árvore, cantam as canções da época, de louvor ao Senhor, a mim vêm-me as lágrimas a ver tanta solidão quando o momento deveria ser de comunhão de alegria pela celebração do milagre do nascimento. Os gatos dormitam, como sempre, não há alegrias nem tristezas alheias que os comovam. 
Não estará pai, nem os avós, nem os tios, nem os primos das filhas da carcereira. Só elas três.

Há dias passou por aqui a velhota, visita habitual da casa duas ou três vezes por ano, que se esqueceu cá, aqui debaixo do sofá a caixa dos comprimidos, a não mais que um metro da borda do capacho. Telefonou no dia seguinte a perguntar se, por acaso, não tinha sido encontrada a sua caixa dos comprimidos. Estava preocupada, não por causa dos comprimidos, já tinha comprado outros, mas porque poderiam ser encontrados pelas crianças, receava que elas pudessem, por curiosidade, provar-lhes o gosto. Disparate! As miúdas não eram bebés, sabiam bastante bem o que era e o que não era bom para elas, melhor que os adultos. 
É verdade, é verdade, respondeu a velha do outro lado, e ninguém mais pensou na caixa dos comprimidos. Ali mesmo, ao meu alcance, reparei eu uns dias depois.
Hoje, depois dos cânticos do trio ao mesmo tempo que se extinguiam as velas, e a casa ficar às escuras, estendi a mão direita e puxei a caixa dos comprimidos para o capacho. Ao puxar a caixa, não sei que jeito lhe dei, saltaram os comprimidos. Cheirei-os, gostei do cheiro, provei um ou dois, não eram desagradáveis, para evitar problemas devolvi a caixa à procedência e os comprimidos à solta. 

Horas depois, não sei quantas nem como estava a muitas milhas dali, entre familiares e amigos que não via há tanto tempo. Estavam os meus pais, os meus sobrinhos, os meus tios, estavam os meus amigos, além de outros que eu não conhecia. Estavam também os meus irmãos vendidos e embarcados há mais de dez anos. Não os via desde o dia em que nos encontrámos numa reunião de convívio de indivíduos da nossa espécie. Todos me gabaram o pelo sedoso e a graciosidade máscula das minhas orelhas. Corremos atrás uns dos outros, nunca corri tanto em toda a minha vida, desforrei-me de anos de atrofia e tédio sem que os músculos, os ossos ou o coração reclamassem. Foram horas e horas a encher o papo de brincadeira, e ninguém estava exausto. Só não foi uma paródia infindável porque me ocorreu perguntar aos meus irmãos imigrantes como lhes corria a vida. Nada mal, depreendi, estavam em casa de gente cordata, que os estimavam, eram, se assim se pode exagerar, tratados como fazendo parte das famílias. 
E a ti, perguntou-me um deles, como te tratam?
Para não fazer figura de pouca sorte do grupo, engoli em seco as minhas angústias, os dias e as noites passadas no capacho e  o espaço limitado pela linha invisível que não me permite ir além de dois metros fora dele, a tortura da espera das horas da mijinha e da tigela à frente de tanta fome sem pode comer, dos berros que me arrepiam o sistema nervoso, do chip que não me permite evadir-me do cárcere, daquilo que vejo e me tortura sem poder denunciar.
Hum! Acabou-se a paródia, está a nascer o sol ... 
E, oh! diabos a levem, mijei no capacho... E agora?
Se ela me berra, leva uma dentada! Algum dia teria que ser. E talvez me entregue no canil... Mal por mal prefiro o canil.

E, já que tenho que esperar que desçam ao rés-do-chão, vou apanhar e esconder os comprimidos que sobraram.
Logo à noite, talvez haja mais farra.

---
* Sequência de COR DE ROSA SHOCKING

Tuesday, July 10, 2018

ME TOO

...

- É curioso, muito curioso, tenho um paciente numa situação clínica semelhante à sua, é avô, e tem um filho que está preso em Macau em consequência de um erro do tribunal, as autoridades macaenses já reconheceram o erro, pediram desculpas mas o homem continua encarcerado à espera que as formalidades burocráticas o libertem.
Esse avô, apesar da sua situação clínica, deslocou-se de Lisboa a Macau para visitar o filho. Viu-o numa cela em conjunto com outros presos, vinte, se bem me recordo falou-me em vinte, e teve de voltar sem ter a oportunidade da alegria de abraçar o filho em liberdade.
E tudo isto, porquê?
Porque a mulher, uma macaense de quem teve um filho, ou dois, não sei precisar, acusou o pai das crianças de as molestar. Foi-lhe imediatamente ordenado não se aproximar mais do local onde residiam e, pouco depois, foi preso. Está preso há um ano e meio, agora à espera que os burocratas o libertem.
Entretanto, a mulher voou para Portugal e, segundo se supõe, reside agora na área de Lisboa. 
...

Há mulheres, muitas mulheres, que são vítimas de atrocidades daqueles com quem vivem ou intimamente se relacionam, que em alguns casos provocam a morte.

Mas também há mulheres víboras. 
Silenciosas e perversas, que atacam até engolir todos os que vê à sua volta. 

Friday, March 30, 2018

ENTRE A SERPENTE E O TOURO BRAVO



Ela arroga-se o direito da propriedade exclusiva dos seus filhos em contrapartida de todas as liberdades que lhes concede e de poucas obrigações que lhes exige. Ela, serpente, manipula os filhos, convencendo-os que é a boa mãe, que deve ser amada por eles, e o pai um touro bruto que os filhos devem odiar.
O tribunal pronuncia-se pelo cumprimento da lei confirmando a atribuição da custódia dos filhos a ambos os pais.
Ela, como é habitual nestes casos, desdobra-se em manobras para dificultar o cumprimento da decisão do tribunal.
Ele, o touro enraivecido pelas humilhações a que ela, a serpente, o sujeita,  enfurece-se, perde as estribeiras, e acaba por ser detido pela polícia e enviado para a prisão.
Ganha a serpente.