Wednesday, May 05, 2021

DEMASIADA TRANSPARÊNCIA - 2

Diogo Lacerda Machado: o melhor amigo agora é lobbyista - aqui

Num país que conhecesse o significado da expressão “conflito de interesses” isto seria um escândalo. Em Portugal, é mais um dia normal.

Graças ao novo semanário Novo ficámos a conhecer há dias mais um capítulo de uma história antiga: Diogo Lacerda Machado, melhor amigo de António Costa e seu negociador favorito em matérias sensíveis, é agora consultor de uma empresa privada britânica num megaempreendimento em Sines de 3,5 mil milhões de euros, que Costa anunciou com pompa e circunstância a 23 de Abril.

Lacerda Machado às vezes é representante do Governo em negócios com privados; outras vezes é representante de privados em negócios com o Governo; e salta de uma posição para a outra como se fosse uma abelhinha na Primavera, pulando de flor em flor. Num país que conhecesse o significado da expressão “conflito de interesses”, isto seria um escândalo. Em Portugal, é mais um dia normal.

Desde que António Costa assumiu o cargo de primeiro-ministro já tivemos Diogo Lacerda Machado envolvido na negociação do acordo com a associação dos lesados do BES, na renegociação da privatização da TAP e na negociação do acordo entre o CaixaBank e Isabel dos Santos no BPI. A coisa sempre foi esquisita, no sentido em que Lacerda agia como um ministro-sombra sem vínculo ao Estado. E, após muitos protestos, o primeiro-ministro lá se decidiu a estabelecer um contrato com Lacerda Machado, por ridículos 2000 euros mensais.

Em 2017, acabou a consultoria oficial, e Lacerda entrou para a administração da TAP. Reparem: em 2017 administrou a TAP, em 2016 tinha assegurado a reversão da privatização, e em 2005 já tinha estado envolvido na compra da famosa empresa de manutenção do Brasil que deu prejuízos de mais de 500 milhões de euros à TAP e uma investigação judicial por suspeitas de gestão danosa. Essa era a época – já depois de Lacerda ter saído do Governo de António Guterres, no qual foi secretário de Estado da Justiça entre 1999 e 2002, era então António Costa ministro da Justiça – em que trabalhava para Stanley Ho, que conheceu nos tempos de Macau, através da empresa Geocapital. Foi também através de Ho e de sociedades suas participadas que Lacerda acabou em conselhos de administração de bancos de Moçambique (Moza Banco), Guiné-Bissau (BAO – Banco da África Ocidental) e Cabo Verde (Caixa Económica).

Em 2015, não quis regressar ao governo como ministro, mas acabaria por regressar como consultor, aproveitando para colocar na primeira linha do seu currículo uma frase que vale muitíssimo mais do que 2000 euros por mês: “Consultor do Gabinete do Primeiro-Ministro em assuntos estratégicos e jurídicos de elevada especialidade e complexidade.” E, mesmo terminada a consultoria e finda a aventura na administração da TAP (em que não terá sido especialmente feliz com Pedro Nuno Santos), ninguém duvida que Lacerda continue a conversar sobre “assuntos estratégicos” com António Costa. E isso é pago a peso de ouro.

Ao semanário Novo Diogo Lacerda Machado confirmou que sim, que é mesmo consultor de uma empresa que vai investir 3,5 mil milhões em Sines e que já andava a ter contactos com membros do Governo sobre o tema enquanto ainda administrava a TAP como representante do Estado. É espantosa a facilidade com que se assume à descarada este tipo de promiscuidade. Bem podem inventar novos crimes, novas estratégias e novos pacotes. Enquanto um primeiro-ministro achar que o seu melhor amigo pode trabalhar para o Estado de manhã, fechar negócios privados à tarde e ir jantar lá a casa à noite, nunca passaremos do simulacro de uma democracia desenvolvida.

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