Sunday, March 15, 2020

BOCEJOS EM CLAUSURA


Esta noite, pouco tempo depois de desligarmos a luz, percebi que a Aurora estava a bocejar. 
Talvez não conseguisse dormir. A ouvi-la bocejar, o bocejo é contagioso, comecei a bocejar também.
Conheci em tempos um fulano que se sentava no banco da frente do carro eléctrico da manhã e, propositadamente, bocejava, bocejava, bocejava, até que punha, entretenimento dele, todos os passageiros do eléctrico a bocejar.
Estávamos, eu e a Aurora, cansados ou pouco cansados, ou seria a tensão provocada pelas notícias do dia que não nos deixavam dormir, ou as dezenas de mensagens que os amigos insistem em reencaminhar recomendando-nos  balas de pólvora seca para matar o vírus. Antes de nos deitarmos paramos os pim! nocturnos de chegada de mensagens, desligamos o som dos telemóveis, quem quiser urgentemente falar connosco fora de horas utilize o telefone fixo.
Adormecemos, nenhum de nós sabe a que horas, mas já era tarde.

Talvez, cerca das cinco da manhã, ouço o telemóvel a tocar. Teria deixado o som do meu telemóvel ligado ou teria apenas reduzido ao mínimo o som do aparelho porque o ouvia a tocar em tom baixo? Estendi o braço para calar o intruso, e concluo indignado que aquela era a sexta tentativa de alguém, que não constava da minha lista de contactos, para falar comigo. Intrigado decidi ouvir quem era e o que queria. 
Coloquei o telemóvel ao ouvido debaixo do edredão para não acordar a Aurora mas tinha dificuldade em ouvir a voz que vinha não sabia de onde. Até que, ao fim de algum tempo, pareceu-me perceber Ol-de-mi-ro.
Oldemiro? 
Sim, sou o Ol-de-mi-ro do Va-le, pareceu-me ouvir, com boa vontade da minha parte. Oldemiro, só me recordava de um, tínhamos sido colegas no liceu, já não sabia por onde andava o Oldemiro há umas duas dezenas de anos. Sabia vagamente que vivia sozinho, era solteiro com várias namoradas, segundo uns, vivia em castidade como membro da opus dei, segundo outros.

Cada vez com mais dificuldade em entender o que queria o Oldemiro, a requerer doses adicionais de paciência da minha parte acabei por concluir que o Oldemiro, quando se deitara, começara a bocejar imparavelmente e, tão frequente e intensamente o fez, acabou por deslocar o maxilar. 
E dói-te? 
Se dói, caramba, é uma dor insuportável, quase não consigo falar...
Via-se. Só com muita paciência conseguia compor as respostas do Oldemiro juntando os monossílabos intermitentes com que se expressava.
E como tu seguiste para estomatologista ...
Não Oldemiro, estás equivocado. Segui para engenharia, mas não de maxilares. Já ligaste para o 808242424?
Para quê? Não quero cá médicos em casa. Não quero cá ninguém. Estou em clausura.
Já tomaste um analgésico? Se reduzires a dor e descansares pode acontecer que o maxilar volte à posição normal. 
Já tomei um saridon, estava a guardá-lo para o corona .
Um saridon? Saridon já não se recomenda, Oldemiro, onde é que foste desencantar o saridon?
É o que tenho cá em casa.
Desde quando?
Sei lá, há nos.
Mas, Oldemiro, isso já perdeu o prazo de validade.
Naquele tempo os fármacos não tinham prazo de validade. Depois é que inventaram os prazos de validade para aumentarem as vendas, disseram-me. 
Tretas. Vai à farmácia e compra um analgésico dentro do prazo de validade. E depois arrisquei: não tens ninguém em casa?
Tenho a minha mulher. Mas está na mesma.

Sabe-se lá porquê, dei uma gargalhada que, por inacreditável que pareça, não acordou a Aurora.
Ui!!!!, ouvi do outro lado um longo e doloroso grito.
O que é que te aconteceu agora, Oldemiro?
Uma dor terrível ... com essa gargalhada, esqueci o maxilar e também me ri  de mim, ia para dar uma gargalhada, e foi o maxilar ao sítio.
Agora só a falta a tua mulher ...
É isso agora só falta ela.

Levantei-me, fui à casa de banho e voltei para a cama. Depois comecei a bocejar. 
A clausura não resiste à electrónica.








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