Sunday, October 27, 2013

O PREÇO DA DESCONFIANÇA

Sorrateiramente, os fornecedores de serviços pagos por débitos periódicos, normalmente mensais, em conta bancária, se o cliente confia e não confere as facturas com olhos de ver, metem-lhe a mão ao bolso e encaixam uma fortuna. Como os clientes se contam, em vários casos, em milhões ou, pelo menos, em centenas de milhares, meia dúzia de euros sacados a cada cliente distraído somam vários milhões por mês e uma receita astronómica no fim de cada ano. 
 
Para além da distracção, disponibilidade de tempo ou falta de hábito para conferir contas, confiam as empresas de telecomunicações, gás, água, electricidade, etc., e os bancos (convém ter atenção aos bancos), na confiança da clientela ou na sua passividade para reclamar resultante da relação entre o custo e o benefício do incómodo: vale a pena por uma ninharia de meia dúzia de euros, ou mesmo poucas dezenas que seja, perder tempo e torrar o sistema nervoso com exposições ou discussões que podem arrastar-se por tempo indeterminado? Para a esmagadora maioria não vale, e assim o encaixe pelos abusadores subsiste quase sempre intocado.
 
Há três semanas atrás, observei na minha conta bancária um débito, desses que não são objecto de factura nem nota débito, que confrontei com o valor debitado por igual serviço no ano anterior. O valor debitado agora era superior em cerca de 10%, quase cinco euros. Telefonei para o fornecedor do serviço, que neste caso é o banco, reclamando pelo abuso de um débito para o qual não tinha dado o meu consentimento. Responderam-me que é normal esta prática, os serviços são renovados automaticamente e as tabelas respectivas aumentadas e aplicadas com consentimento implícito dos clientes que não reclamam! Prometeram resolver o assunto, creditando os valores abusivamente debitados no prazo máximo de cinco dias. Volvidos cinco dias, não havia resposta nem crédito nenhum. Veio anteontem a resposta via e-mail, o crédito deve entrar a partir de amanhã, depois de múltiplas insistências, perdas de tempo e de paciência.
 
Valeu a pena tanto incómodo por tão pouco?
Ouvia dizer, com alguma frequência, há muitos anos, a um homem bom: quanto mais desconfio menos me engano. O que é verdade, mas tem custos desproporcionados. E é com isso que se governam os abusadores.
 
Que deixariam de ser se as entidades reguladoras estivessem atentas e determinassem que todos os casos denunciados e confirmados fossem obrigatoriamente objecto de correcção. O óbice é que, geralmente, os reguladores estão mais do lado de lá que do lado de cá.

2 comments:

Antonio Cristovao said...

Como a norma não é a transparencia e a avaliação séria nem as entidades reguladoras fazem o seu trabalho com transparencia e seriedade- veja-se os escandalos do Banco P e a sua inutilidade cara.
Num banco um informatico criou um sistema informatico que arredondava os centimos transferindo-os para uma conta propria. Se não fosse a troca de carros caros demais todos os anos provavelmente ainda hoje lá estava.Entidades reguladoras? só para rir.

Rui Fonseca said...

De acordo.
Por isso concluí que "O óbice é que, geralmente, os reguladores estão mais do lado de lá que do lado de cá."