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Monday, August 14, 2023

PONTES QUE DESUNEM

Mais de 11.000 pessoas assinaram petição contra nome da Ponte D. Manuel Clemente 

Chovem as petições de um lado e do outro, uns a favor outros contra, a maioria, como sempre, ignora e abstém-se.

Este atavismo de dar nomes a tudo o que é construido com o dinheiro de todos, ao sabor das circunstâncias políticas preponderantes de cada momento, é reflexo de uma cultura social habituada a gerar e adorar ídolos de barro, que o tempo se encarregará de desmoronar. 

Construiu-se uma ponte pedonal sobre o Rio Trancão. É a ponte do Rio Trancão, um rio que todos os que, ainda há poucos anos, se aproximavam da entrada de Lisboa reconheciam pelo fedor nauseabundo com que a mínima brisa intoxicava o ar. O Trancão, que desagua no estuário do Tejo, chegou a ser considerado um dos rios mais poluídos da Europa. 

Já não é, e na ponte sobre o Trancão, construída a jusante do viaduto sobre a auto-estrada, ligando, naquele ponto, os concelhos de Lisboa e Loures, e por onde ainda não passei, pode agora, certamente, respirar-se ar quase puro. Esta é uma boa notícia, sem ela a travessia pedonal sobre o Trancão seria atravessar um esgoto intenso a céu aberto.

A Ponte do Trancão é um nome que deixou de envergonhar o rio. Porquê mudar-lhe o nome e gerar discussões que não servem para nada nem para ninguém? Ficará o nome de Dom Manuel Clemente mais limpo se a Ponte do Trancão passar a ser a Ponte Dom Manuel Clemente? A Ponte do Trancão será sempre a Ponte do Trancão como o aeroporto de Lisboa, ali tão perto, será sempre o aeroporto da Portela até que o tirem de lá; como a Praça do Areeiro será sempre Praça do Areeiro e o Terreiro do Paço o Terreiro do Paço; o Rossio será sempre o Rossio, quem passa pelo Rossio quer lá saber quem é aquele que colocaram em cima de um pedestal, só as pombas o mimoseam no cocuruto com defecações por turnos;  se à primeira Ponte sobre o Tejo tivesse sido dado o nome de Ponte de Almada, os nomes que lhe deram não se apagariam com o tempo como já aconteceu ao primeiro e, possivelmente, acontecerá ao segundo. 

A espécie humana, e nisto também se distingue dos outros seres vivos, parece não poder viver sem ídolos, incensa-os nos coliseus, nos estádios e em toda a parte para onde as convicções de cada momento os convocam  e, mais tarde ou mais cedo os derrubam ou, mais desprezivelmente, os ignoram.

Nós, portugueses, temos uma tradição, congénita talvez, de idolatrar em grande. Um exemplo, entre vários à escolha, a estátua do Marquês de Pombal, com 55 metros de altura total, uma dimensão claramente excessiva para a dimensão daquela rotunda, compete em grandeza de pedra e bronze com a de Nelson em Trafalgar Square.

Num ranking de estátuas equestres, Lisboa pede meças a qualquer capital do mundo porque certamente ficará bem alto, se não pelos feitos que celebram, pelos números.

 --- Bom senso às 13:45 de hoje : O cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, pediu para que o seu nome não seja atribuído à ponte ciclopedonal sobre o rio Trancão, na sequência da polémica gerada nos últimos dias.

Thursday, June 02, 2016

SEM PREÇO

"O meu salário equivale ao de um defesa direito de um clube do meio da tabela", afirma Mexia.
(O presidente da EDP é um dos gestores mais bem pagos de Portugal. No ano passado levou 1,9 milhões de euros para casa. E este ano pode vir a ganhar 2,6 milhões, mais 36% face a 2015)

Tem sido muito comentada a elevada disparidade entre o salário médio nas empresas cotadas em bolsa e as remunerações dos presidentes executivos das mesmas. Por imposição legal, as remunerações dos gestores das cotadas são públicas e as reacções são quase unânimes: Tais remunerações são escandalosas! 
E talvez sejam. 

Mas não se escandaliza a opinião pública, nem cá dentro nem lá fora, com as verbas pagas aos artistas do ponta pé na bola e outras actividades essencialmente musculares. E aos presidentes dos clubes, e aos "místeres", e aos agentes deles, a toda a trupe, em geral, que arrecadam por temporada vezes sem conta aquilo que um profissional competente no seu ofício conseguirá receber durante toda a sua vida. 
E não só são não se escandaliza como se embasbaca feliz pelas dimensões estratosféricas dos contratos dos seus ídolos. 

A idolatria nunca regateia preços.