Tuesday, December 31, 2019

ALGUÉM ESTÁ A BATER À PORTA


31 de Dezembro de 1950

Quando hoje cheguei a casa do avô, às seis e meia como é costume, diz-me ele: Rico, hoje não vamos deitar-nos à hora habitual. É fim-de-ano e começo da segunda metade deste século. Vou ficar pelo caminho, vai ser a tua metade, temos de estar acordados, estas coisas só acontecem uma vez na vida, são poucos os que atravessam um século de ponta a ponta. Já trouxe lenha para dentro, temos quanta precisamos para manter o lume bem acesso até à meia-noite, Temos ovos para estrelar com chouriço às rodelas, temos pão, temos marmelada, eu não posso comer marmelada mas hoje vou pecar um bocadito, um dia não são dias, ainda temos também uns filhoses que sobraram da noite de natal, e, como sempre temos a nossa sopazinha, é só aquecê-la e ela aquece-nos.

O avô Alves ficou viúvo há uns meses, andava muito macambúzio e a mãe disse-me: Rico, tu é que podias fazer companhia ao avô. E, a partir dali, passei a ir para casa do avô ao sol-pôr. 
Ceamos uma sopita, geralmente acompanhada com o que mais há em cada altura do ano. Entre o natal e a entrada do fim-do-ano, temos filhoses, temos papas de porco, que são uma delícia para quem as sabe apreciar, temos torresmos, o avô não come muito porque não deve, eu como pouco porque nunca tenho fome. Mas em se tratando de guloseimas, pelo natal e o ano novo, o avô peca e eu lambo-me todo. 

Depois da paparoca, entretemo-nos a jogar à bisca lambida, ao burro, ao rapa. 
Para jogar ao rapa o avô fez um de madeira de oliveira com o canivete, cada um parte com dez feijões no bolso, e começa por ir a jogo cada um com um feijão no monte. Roda o rapa, se sai P mete um feijão no monte, se sai D, nem tira nem põe, se sai T tira um, se sai R tira tudo o que houver no monte. Talvez por o rapa estar muito equilibrado por ser bem feito demais, nunca nenhum de nós foi à glória antes do sono nos mandar para a cama.

A casa do avô tem duas janelas de guilhotina voltadas para a rua, que dão para a sala onde o avô tem uma secretária, entre as duas janelas, onde regista, diz ele, compromissos e haveres. Na parede à esquerda, há uma cómada para arrumar roupas, em cima uma talha bordada, uma jarra com flores de vez em quando, e coisas várias, algumas caixas de medicamentos. Na parede oposta às janelas, entra-se para dois quartos resguardados por cortinas. Agora, que o avô está viúvo, ele dorme no quarto da direita, eu no quarto da esquerda, o que fica mais próximo da janela de entrada na sala; antes, o avô dormia com a avó num quarto e as suas duas filhas, enquanto solteiras, no outro. Os filhos dormiam no sotão, com acesso por escada a partir da porta de entrada. Na parte oposta da casa, com vista para o quintal e para os campos, fica a cozinha e na cozinha a mesa onde se come. Quando o tempo convida, sentamo-nos no alpendre de onde se sai descendo seis degraus porque o quintal é em plano inclinado. Anexos ao quintal ficam a adega, o alambique, e, em baixo, de um lado e do outro, os alojamentos dos animais, bovinos, galináceos, coelhos, a égua e os seus arreios. Isto era dantes, agora o avô já não desce do alpendre, entregou todas as terras e actividades aos filhos. 

Geralmente, dependendo da hora do pôr do sol, deitamo-nos entre as nove e as dez, levanto-nos entre as seis e as sete. Esta noite, pelos vistos iremos estar acordados até à meia noite. Talvez, desta vez, alguém perca tudo ao rapa. Para nos mantermos acordados vamos contando histórias um ao outro, cada um inventando patranhas que nos façam rir e aquecer para que não dos deixemos adormecer.

Com as pestanas carregadas como nunca, às tantas julgo ouvir alguém bater à porta.
- Avô, estão a bater à porta?
Ele olha para mim como quem não compreende o que digo e diz, hem?
- Parece aque alguém está a bater à porta, digo eu, no mesmo momento em que se ouvem claramente batidas na porta.
- Pois assim parece. Alguém deve estar a bater à porta. Queres ir abrir?
Fiquei varado de medo.
- Eu?
- Sim, tu. És capaz de ir ver quem é que está bater à porta?
- Eu ....eu, não.
- Fazes bem. É meia noite. Deve ser o ano novo a querer entrar. Como será, não sabemos? Por cautela, não se deve abrir a porta a gente desconhecida.

Disse isto, sorriu.
- Bom ano, Rico!
- Bom ano, avô!
- Agora vamos para a cama.

Fomos para a cama mas eu, que estava com tanto sono, estremunhei com o susto das pancadas na porta e, agora, fresco como uma alface não conseguia deixar de recordar o ar maroto do avô quando me perguntara e insistira se eu era capaz de ir abrir a porta.
Bati três vezes na madeira da cabeceira da minha cama e,
- Avô?, perguntei no meio da noite escura. 
- Han? O que é?
- Penso que deveria ir abrir a porta ao ano novo.
Deve ter sorrido, porque fez um compasso de espera até responder.
- Na! Não vale a pena. Afinal, com ou sem a porta aberta, ele já entrou. Ah! Ah! Ah! Bom ano Rico! 
- Bom ano, avô!

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