Thursday, February 02, 2006

O EURO OU EU



Meu caro Luciano,


Já tentei adquirir o livro do Prof. Amaral mas não consegui. A obra parece estar esgotada, aliás é uma edição de 2002, eu pensava que fosse coisa recente mas não é. De qualquer modo deve ter consistência suficiente para resistir às agruras do tempo, quando puder comprar, compro.

Até lá, e para testar as minhas impertinências com as sapiências vou alinhavar umas quantas questões acerca do tema que levou o homem a ficar encrespado comigo, ao que parece.

Disse ele, que existiam fundamentalmente duas ordens de razões que justificavam a nossa crise e impediam que dela saíssemos: uma, indiscutível, tem a ver com a conjuntura envolvente: somos uma pequena economia aberta, quando os parceiros dormem nós ressonamos; outra, que para o Prof é igualmente indiscutível mas que, para quem não leu sequer as duas primeiras páginas dos manuais persistem em não ver, parece menos nítida: o Euro.

O Euro, segundo o Prof. Amaral (mas também segundo o Manual Monteiro, que foi do CDS, crismou em PP, e depois fundou a Nova Democracia) foi a peste que nos entrou em casa. Com o Euro lá se foram as nossas possibilidades de fazermos as nossas desvalorizações, com o Euro, enfim, e isto é que é verdadeiramente dramático, perdemos competitividade. Segundo o Prof. Amaral, cerca de 25%.

Ora, como sabes, eu quando não percebo digo que não percebo, quando não estou de acordo digo que discordo. Foi o que aconteceu há dias.
É claro como água do Mondego, quando não vai turva, que se se desvaloriza a moeda em que pago os meus custos e facturo em moeda forte o que produzo, arrecado a desvalorização. Até aqui não há dúvidas nem necessidade de ir aos Manuais. Passar-se-ia o mesmo se eu não pagasse os encargos sociais ou não aumentasse ou reduzisse os salários dos meus colaboradores. Os chineses são competitivos porque não têm essas chinesisses a que os ocidentais chamam o sistema social europeu, nem toleram greves, e ainda por cima são eles, e não o mercado, quem diz quanto vale um yuan. A propósito consulta www.chinarevaluation.com.
Claro que quem paga a conta são os chineses: podiam viver melhor mas persistem em continuar a fornecer-nos a preços da Maria Caxuxa. Até quando, veremos. Os chineses são competitivos porque ganham muito mal mesmo quando comparados com os nossos baixos salários mínimos.

Se, para dar vigor às nossas indústrias decadentes, desvalorizássemos, o efeito seria como o do viagra: era para o momento e punha-se a andar. Ora, ao que parece, o uso do viagra acaba por dar cabo do canastro a médio prazo. O mesmo aconteceria com a desvalorização para aumentar a competitividade: momentaneamente havia a ilusão do vigor regressado e depois o desconsolo da realidade dura.

Se não vejamos:

Quem é que o soçobrou? Fundamentalmente as indústrias do sector têxtil, das confecções, do vestuário e, em certa medida, do calçado. Perante quem? Perante os produtores de custos mais baixos, chineses e tutti quanti.

Se desvalorizássemos para competir com eles, quanto teríamos que desvalorizar? Os tais 25% de que fala o Prof. Amaral? Não davam. Todos sabemos que não davam.
Mas admitindo que desvalorizávamos, teríamos desde logo que pagar mais caras as matérias-primas e a energia importadas. Estamos de acordo, não?

Mas a desvalorização pressupõe inflação, uma coisa arrasta a outra, sobretudo se somos, e somos, muito pouco auto suficientes. Ora se os preços aumentam os trabalhadores ou vêm os seus salários aumentados (e lá se vai a vantagem competitiva da desvalorização) ou passam realmente a ganhar menos. Continuamos a estar de acordo?

Entretanto passar-se-á uma coisa que só quem não quiser ver não vê: os “empresários” dos sectores em crise ao receberem as vantagens imediatas da desvalorização que fazem? Investem para se tornarem mais competitivos em termos de custos dos factores? Inovam para competir a outros níveis de qualidade? Não fizeram nem uma coisa nem outra quando tiveram essas possibilidades. Muitos compraram carros de luxo, abriram contas no estrangeiro, passaram-se para o imobiliário.

Que o problema não é o Euro demonstra-o o facto de salvo alguns, poucos, persistirem no argumento, praticamente ninguém saiu a terreiro contra o Euro. A Auto Europa ameaçou, recentemente, sair daqui, ficou toda a gente alarmada, o governo ter-lhe-á dado garantias e mais vantagens mas ninguém falou do Euro.

Diz o Prof Amaral que o Euro é como a guerra em África: não se sabe quando, mas um dia vai acabar. Tudo é possível, claro. Até as aparições.

Só não compreendo é como é que ele acha possível acabar com o Euro sem acabar com a União Europeia. Pus-lhe a questão, como viste, respondeu-me que as desvalorizações teriam de ser negociadas. Sempre ouvi dizer que as desvalorizações se fazem muito secretamente às sextas-feiras à tarde. É possível anunciá-las com antecedência?

Eu não tenho lá grande coisa para safar, de qualquer modo com vinte e quatro horas de antecedência sou capaz de abrir o meu pequeno chapéu-de-chuva.

1 comment:

Luciano Machado said...

Caro Rui

Relativamente à moeda única e às posições do Prof. Ferreira do Amaral, foi pena não conseguires encontrar o "Contra o Centralismo Europeu - Um Manifesto Autonomista" que sendo de facto de 2002 mantém-se actual relativamente quer às posiçõs defendidas pelo autor, que eu subscrevo, quer aos cenários pessimistas por ele descritos. Daí que ache ieressante transcrever-te algumas passagens do dito:
Sobre o erro teórico do euro, que levou o Prof a remeter-te para os manuais de Economia:
-"...Para além de outras razões foi argumentado mutas vezes que a justifacação da moeda única europeia estava na necessidade de adaptar as economias europeias às condições criadas pela globalização e financeira. Erro gave. Pransformou-se o espaço económoco europeu num espaço paquidermico e rígido, impedindo a resposta flexível e adaptada ás necessidades de cada Estado que seria permitida pelas autoridades monetárias de cada país.
Um exemplo baseado na teoria económica basta para demonstrar que a moeda única é um projecto de quem nada entende de macro-economia ou de aprendizes de feiticeiro... . A longo prazo a taxa de juro de uma economia deve estar próxima do seu ritmo de crescimento económico. De outra forma, o crescimento será desequilibrado e não sustentável. Ora, a União Europeia consagrou nos seus objectivos (e bem) o princípio da convergência real entre as respectivas economias. Isto significa que ...devendo as regiões mais pobres crescer a um ritmo superior às regiões mais ricas.Ora, com a moeda única ...a taxa de juro será idêntica para toda as regiões comunitárias que façam parte da zona euro ...deixa de se cumprir a condição de equilíbrio... . Se, por exemplo, a taxa de juro for inferior à taxa de crescimento, tal gerará uma permanente tensão inflacionista que fará perder a competitividade às regiões que crescem mais. Esaa perda de competitividade levará ao endividamento progressivo desas regiões em relação ao exterior e, a breve trecho, ao fim do crescimento económico.... Não é por acaso que, desde o início dos anos 90, com o começo da política de convergência para a moeda única e depois com a sua implantação, em 1999, a economia europeia não tem visto senão baixo crescimento económico e aumento do desemprego. Situação que se tornou verdadeiramente dramática para alguns países - em particular, Portugal." (ibd. pgs 68-70).
Quanto a alternativas diz ele o seguinte:
"... O actual sistema monetário da zona euro é certamente o pior sistema internacional alguma vez posto em prática. E isto porque é de uma enorme rigidez.... Pior que o padrão-ouro. a moeda única europeia impede a existência de políticas monetárias autónomas. o que torna as economias nacionais praticamente indefesas face a choques exógenos. Toda a gente sabe isso. Muita gente sabe também que teria sido possível criar um sistema monetário na UE que combinasse a desejável estabilidade (mas não fixidez) cambial com a adaptação das políticas monetárias e cambiais a choques exógenos. Bastaria alterar as regras do SME. pondo ao dispor de uma instituição monetária central (que se poderia chamar Banco Central Europeu ou, preferencialmente, Fundo Monetário Europeu) os meios de intervenção necessários para assegurar, atrvés de intervenções nos mercados cambiais, uma suficiente estabilidade das moedas. Mas esta solução, que teria sido mais razoável, não chegou sequer a ser equacionada, porque imperaram as concepções centralistas, para as quais o objectivo final é a criação de um superestado europeu...É hoje indesmentível para quem tenha um mínimo de independência de julgamento que a moeda única...tem prejudicado fortemente a economia portuguesa. faz-lhe perder mais de 20% da sua competitividade externa e fez descer as taxas de juro numa altura em que a situação da economia portuguesa aconselhava a que subissem. O resultado é um enorme endividamento da nossa economia em relação ao exterior e um enorme endividamento das famílias(Nota minha: segundo referido na aula já ascende a 118% de rendimento disponível). Tudo isto acompanhado por um crescimento económico muito baixo e um profundo desequilíbrio entre a produçao de bens transaccionáveis e não transaccionáveis, sendo que a produção destes, impulsionada pela valorização real do escudo durante a política de convergência para a moeda única, tem crescido muito mais que a dos bens transaccionáveis, pondo em causa o progresso futuro do país.Aliás, em termos de produção de bens transaccionáveis, que são os que permitem um crescimento sustentável a longo prazo, divergimos em relação à media comunitária.... O balanço da moeda única em Portugal é trágico e ultrapassa muito o que os mais críticos sobre a adesão à moeda única (entre os quais nos encontávamos) puderam prever no início dos anos 90. Pelos seus nocivos efeitos, que se irão fazer sentir durante muitos anos, provavelmente décadas, a decisão de aderir à moeda única pode ter paralelo no não menos funesto tratado de Methuen, que atrasou durante muito tempo o desenvolvimento industrial português. Temos, no entanto a esperança de que a moeda única, à semelhança de outros projectos decorrentes de concepções utópicas (no caso o superestado europeu), não seja irreversível, já que é bem possível que a rigidez do sistema torne insustentável o próprio funcionamento da economias europeias. Em qualquer caso, para Portugal, a permanencia na moeda única constituirá um obstáculo permanente ao nosso desenvolvimento, pelo que teremos toda a vantagem em abandonar a zona euro logo que as circunstâncias o permitam...." (pgs 115-120).

Espero poder ter contribuido para o teu esclarecimento. Se não podes mandar mais que me esforçarei por replicar.