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Saturday, December 07, 2013

QUEM PODE SER PAPA DE UM VATICANO DESTES?

Jorge Mario Bergoglio é, seguramente, um homem muito bem intencionado. Eleito Papa Francisco, a sua candura tem cativado generalizada admiração que parece, até agora, coexistir bem com um carácter determinado a reformar a Igreja inflectindo-lhe o trajecto para a prossecução dos valores primordiais, de que se desviou frequentemente ao longo dos séculos. Mas a tarefa é titânica mesmo para quem esteja animado por uma força divina.
 
A sua primeira exortação apostólica, um documento extenso revelado há uns dias atrás, - vd. versão integral aqui -  do qual os media destacaram o capítulo "Economia e distribuição das entradas", deixou, certamente, muita gente meio encabulada ou divertida, à espera que a onda passe, o papa resigne ou a lei da vida ponha termo às suas intenções.
 
O Financial Times publica hoje aqui  um extenso artigo, resultante de investigações de jornalistas seus durante onze meses, sobre actividades criminosas, fraudulentas ou aparentadas, cometidas no Banco do Vaticano por gente graúda da hierarquia eclesiástica. Para harmonizar as actividades do Banco do Vaticano (oficialmente IOR - Instituto para Obras de Religião)  com a verdadeira missão da Igreja, o Papa Francisco nomeou, logo no início do seu pontiticado, uma comissão contituida por quatro prelados e um leigo especialista em direito.
 
Não é grande promessa. A nomeação de uma comissão é sempre uma boa partida para não sair do sítio, tanto mais quanto o objecto a deslocar tem o peso da Banco do Vaticano e seus obreiros.
 
 
 
 

Tuesday, May 24, 2011

O ROTO E O NU

O Governo dos EUA aconselha que os países mais vulneráveis a este crime devem criar sistemas de combate à lavagem de capitais, de acordo com as leis internacionais. (aqui)

Entre as nações com nível máximo de preocupação estão o Afeganistão, a Alemanha, a Áustria, a Colômbia, a Espanha, os EUA, a França, a Grécia, Guiné-Bissau, a Holanda, a Inglaterra, o Iraque, o Japão, o Liechenstein e o Luxemburgo.

Portugal está entre os 70 países com grau "preocupante" de ameaça de lavagem de dinheiro, avança o "Diário de Notícias", que cita um relatório elaborado pelo Gabinete para o Controlo Internacional de Narcóticos.
De acordo com o documento, concluído em março, o crime da lavagem de dinheiro está ligado ao tráfico de droga e ao terrorismo, sendo a inflexibilidade do sigilo bancário, a existência de offshores e a falta de legislação eficaz os principais responsáveis pelo crime nestes países.

Além de Portugal, integra o grupo de países com nível "preocupante" deste crime a Bélgica, a Bulgária, a Irlanda ou a República Checa.

Tuesday, June 01, 2010

AFIRMA COPPOLA (ALIÁS, PUZO)

Banco do Vaticano suspeito de lavagem de dinheiro

A justiça italiana está a investigar o banco do Vaticano por suspeita de envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro, avançou hoje o jornal La Repubblica.
O diário adianta que os alvos da investigação são o Instituto das Obras Religiosas (IOR), nome como é conhecido o banco oficial do Vaticano, e dez outros bancos italianos, incluindo grandes instituições como a Intesa San Saolo e a Unicredit.
Segundo o jornal, os investigadores desconfiam que pessoas que têm residência fiscal em Itália estão a usar o IOR como uma “cortina” para esconder diversos crimes, como fraude e evasão fiscal.
O IOR gere contas bancárias das ordens religiosas e associações católicas e beneficia do estatuto off-shore do Vaticano.
Os investigadores descobriram que foram feitas transacções de cerca de 180 milhões de euros, num período de dois anos, numa das contas geridas pelo IOR.
Em Setembro de 2009, o representante do Santander em Itália, Ettore Gotti Tedeschi, foi nomeado presidente executivo do IOR.
O arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, que liderou o banco entre 1971 e 1989, esteve envolvido numa série de escândalos, entre os quais a falência de um banco privado, o Banco Ambrosiano, em 1982, entre acusações de ligações à máfia e terrorismo político

aliás,  The Godfather - Part III (1990)

Thursday, October 23, 2008

OS OFF-SHORES DA CRISE


O ministro de Estado e das Finanças apoiaria uma proposta conjunta para acabar com as off-shores, a nível de toda a União Europeia... (mas) disse «duvidar que decisões unilaterais neste domínio sejam eficazes», ou seja, que se um País tomar uma decisão destas, obtenha qualquer resultado. .
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O Ministro tem razão quando diz que uma decisão unilateral não resolverá a questão: as contas do off-shore extinto voariam no mesmo instante da extinção para outro off-shore. Mas esta é também a primeira razão pela qual os off-shores têm vida prometida enquanto a hipocrisia reinar no mundo em que vivemos.
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Entretanto
, os liberais ortodoxos continuam a glorificar os seus ícones para excitação dos fiéis que lhes frequentam os púlpitos.
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Os paraísos fiscais são o ponto de encontro de contas provenientes do tráfico de droga, de armas, de pessoas, de financiamento do terrorismo e da evasão fiscal, além de outros crimes de elevado gabarito.
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Raymond W. Barker, em "Capitalism´s Achilles Heel" escreve um relatório muito circunstanciado acerca da lavagem de dinheiro e das propostas do autor para a renovação do sistema de mercado livre. Foi editado em 2005 e a visão de Raymond W. Barker acertou em cheio no alvo: três anos depois, o sistema financeiro claudicou com as consequências que ainda não sabemos dimensionar. E é muito óbvio que os paraísos fiscais desempenharam um papel importante no comprometimento do sistema. Enquanto subsistirem, o sistema financeiro estará sempre ameaçado de rupturas provocadas a partir do seu interior. Entretanto, e esse é o mal maior, os paraísos fiscais continuam a dar guarida à escória da humanidade.
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Quem defende que os paraísos fiscais se justificam porque dão abrigo aos ameaçados pelos ditadores vira completamente o bico ao prego: porque são precisamente os ditadores que roubam o seus compatriotas e enviam o produto do saque para os paraísos fiscais.

Friday, July 25, 2008

HIPÓCRITAS

Já coloquei aqui no Aliás alguns post sobre o problema do branqueamento de capitais e das actividades criminosas ligadas ao tráfico de drogas, armas, pessoas, etc., que frequentemente se encontram ligadas ao terrorismo e frequentam as mesmas rotas financeiras das evasões fiscais.
À pergunta, E se de repente acabasse a droga?, ainda não encontrei resposta que lhe calculasse as consequências.
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Um dos aspectos que caracteriza a contradição entre o discurso oficial e a prática das nações no combate ao comércio criminoso é o da emissão de papel moeda de elevado valor facial: notas de cem dólares e de quinhentos euros, para citar apenas as mais usadas. Há muito tempo já, abordei este aspecto hipócrita que consiste em emitir moeda cuja finalidade só pode ser a de facilitar o comércio subterrâneo, aquele em que os contratantes não querem deixar rasto.
Se houvesse, mas realmente não há, uma intenção clara de dificultar este comércio, tanta a Fed como o BCE teriam há muito tempo mandado recolher estas notas e permitido apenas a circulação das de pequeno valor. Numa época em que o próprio cheque entrou em desuso, só por razões inconfessáveis as autoridades monetárias mantêm a forma suspeita daquele meio de pagamento.
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Foi sem surpresa, portanto, que ontem li o artigo do Público, "500 euros, as notas que não se vêm", que refere que "para 2006, o BP estimava que as notas de 500 euros constituíssem oito por cento do dinheiro vivo em circulação do país, um valor que compara com os 33,4% do total da Zona Euro. Em Espanha o fenómeno atinge dimensões surpreendentes: 110 milhões de notas de 500, cujo valor corresponde a quase 70% do valor total da massa monetária em circulação, um recorde europeu. Este número impressionante, dizem os especialistas, está relacionado com as redes de droga e prostituição internacional que usam o território espanhol para branquear os seus capitais. O até aqui fulgurante mercado imobiliário espanhol, especialmente do Sul do país, tem servido para muitas dessas operações , sendo habitual realizarem-se vendas de casas de Verão utilizando apenas notas."
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E se houvesse apenas notas de 5, 10 e 20 euros em circulação? Abalava-se a economia porque ela sustenta-se dos negócios criminosos?

Tuesday, May 13, 2008

E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA?




Esta é já uma questão recorrente aqui no Aliás. Ando à procura de uma resposta que, até hoje, não encontrei nem vi respondida em parte alguma. Volto ao assunto na sequência de um comentário que fiz a uma indignação relacionada com um dos conteúdos do site do Instituto da Droga e da Toxicodependência : Lê-se, e não se acredita:
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(...) O Instituto da Droga e da Toxicodependência visa lutar contra a droga (...) publicou um “dicionário do calão” para jovens a partir dos 11 anos, em que a droga é apresentada em termos entusiásticos, como “cativante e vaporosa” ou como de sedução e atracção irresistíveis e são descritos processos de a obter “pedrinha branca, pronta a snifar”. Ao mesmo tempo, qualquer não consumidor é definido como “conservador, desprezível e desinteressante”.Exemplos, apenas, entre muitos, mas suficientes para evidenciar como, objectivamente, algumas Instituições oficiais fazem a propaganda do que dizem combater.Os senhores da droga agradecem comovidamente tal fervor combatente!... "
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Comentei:
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Há muito tempo que coloquei a mim próprio esta questão: porque razão está tão facilitado o comércio da droga?
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Dito de outro modo, parece-me (mas provavelmente estou redondamente enganado) que se houvesse uma intenção séria e global para reduzir o consumo de drogas esse objectivo poderia ser conseguido com relativa facilidade. A minha presunção, admito-o, decorre de, felizmente, não ter tido até agora o azar de lidar directamente com o flagelo. E também há muito tempo já que me coloquei, e a alguns amigos meus, esta outra questão: E se, de repente, acabasse a droga?
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Dito de outro modo (..) : Se tivesses nas tuas mãos uma varinha de condão que, brandindo-a, cessaria imediatamente a produção de droga (e, portanto o seu consumo) brandias a varinha ou não?
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Para teu governo na tomada de decisão transcrevo do Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 1999 (...):"O comércio ilegal de droga, em 1995, foi estimado em 400 biliões de dólares, cerca de 8% do comércio mundial, mais do que a parcela de ferro e aço ou de veículos motorizados e aproximadamente o mesmo que a dos têxteis (7,5%) e do gás e petróleo (8,6%).
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Raymond W. Barker em Capitalism´s Achilles Heel - Dirty Money and How to Renew the Free Market System escreve "(...) all the global efforts made to combat drugs, the weakest link is our feeble anti-money laundering efforts. Basically, drug kingpins know that, once the sale is made, the cash is easy to move and legitimize."
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O número de toneladas confiscadas em todo o mundo representa, ainda segundo este autor, apenas 0,1% dos valores totais envolvidos.
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Mais adiante:"(...)The war on terror cannot be won without wawing an equal war on drugs, and the war on drugs cannot be won without wawing an equal war on drug money"
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Ora, meu caro Amigo, o problema está no facto de a lavagem de dinheiro (seja ele procedente de tráfico de dogas, de armas, de pessoas, etc.) utilizar os mesmos caminhos da evasão fiscal. E aqui é que a porca torce o rabo. Se vais atrás do rasto do dinheiro canalizado para uma quadrilha terrorista arriscas-te a encontrar pelo caminho capitais fugidos ao fisco, geralmente pertencente a pessoas consideradas muito idóneas, filantrópicas até.
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Chegado aqui, volto a perguntar: Então o que fazes com a varinha? Abanas ou não abanas?
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Não te esqueças que se a agitas deitas abaixo 8% (ou mais) do comércio mundial de um instante para o outro.Pergunta cínica, não é? Pois é.
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Ao pé de tudo isto estes tipos do IDT são uns aprendizes de feiticeiro. Acho eu. E tu?

Friday, June 29, 2007

E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA? - 2

Em Janeiro, 9, de 2006 coloquei interrogação igual à deste "post" de hoje: E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA?. Tenho, entretanto, registado a mesma interrogação em outros "post", a propósito de outros temas.

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Volto a ele, motivado por um "post" do Pura Economia , onde é comentado o negócio de drogas, remetendo para o Relatório deste ano da ONU, United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC), sobre DROGAS E CRIMES.
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Coloquei as seguintes interrgações:

...O negócio das drogas intriga-me, além do mais, porque nunca vi escrito algum acerca das consequências que teria para a economia mundial (e para a economia portuguesa) o colapso do negócio.
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Trata-se, evidentemente, de uma hipótese meramente teórica(utópica se quiser), mas que, no fundo, pretende responder a esta questão: em que medida é que a economia depende do crime?Dito de outro modo: Se a si lhe fosse dado o condão de, com um simples gesto da vara mágica, poder acabar com o negócio da droga, brandia a vara?
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Que consequências prevê que pudessem resultar do seu gesto?Sobre a economia portuguesa; sobre a construção civil, por exemplo.
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Há muito dinheiro envolvido, segundo as estatísticas da ONU. Ele anda por aí. Por aí, por onde?
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Resposta:

Do ponto de vista da análise económica, a actividade de produção e distribuição de drogas ilegais tem exactamente o mesmo efeito que qualquer outra actividade económica, legal ou não, prestigiada ou não: gera empregos, cria riqueza. A economia não consegue distinguir uma folha de couve de uma folha de coca. Os empregos que as actividades ilícitas criam e a sua contribuição para o PIB são importantes. Se desaparecessem teriam um efeito recessivo na economia. Os principais afectados seriam os que estão directamente ocupados na produção e comercialização - incluindo agricultores pobres da Colômbia, do Magrebe ou do Afeganistão. Indirectamente seriam afectados os negócios (em geral legítimos) onde os rendimentos desta actividade são aplicados.Não estou a defender a existência destas actividades: o lado puramente económico é positivo, mas há outros aspectos (sociais, médicos, etc) altamente negativos. Em todo o caso, dada a sua ilegalidade, não pagam impostos e proporcionam, por isso, rendimentos elevados. Há quem defenda a legalização do consumo com base neste argumento: uma vez legalizadas e sujeitas a imposto, o consumo de drogas diminuiria.Grande parte dos contributos dos países membros para a UE são estipulados em função do valor do PIB, incluindo uma estimativa da economia paralela. Esta (talvez 20 a 25% do PIB) inclui quer os biscateiros que fogem aos impostos e restaurantes que não passam facturas, quer a economia da droga.A classificação destas actividades como ilegais é legítima e deve ser cumprida. Não sei se o faria de um dia para o outro, mas fá-lo-ia de qualquer modo.
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Pergunta:

Obrigado pelo seu esclarecimento.Contudo, suponho que a lavagem de dinheiro prefere mais umas actividades que outras. A construção civil é uma dessas actividades que, pela dimensão e pelo valor consistente que oferecem como contrapartida, deve ser das mais entusiasmadas para o efeito.Ora a economia portuguesa é muito dependente da construção civil. Se esta escorregar, a economia, em geral, corre sérios riscos de cair.Ou são fantasias minhas?
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Se a economia da droga (e em geral de todas as actividades que recorrem ao branqueamento de capitais) é assim tão importante para a economia (percebi que não brandia a varinha mágica, pelo menos até fazer umas contas)não será essa a grande razão pela qual o combate à droga não intercepta se não uma pequeníssima parte do negócio? Dito de outro modo, não será por essa razão que, também a polícia ( ou seja quem for que o possa fazer), está relutante em brandir a varinha mágica?
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Resposta:
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Bem, os sectores económicos são como qualquer outro organismo: têm muito amor à pele. Nós também somos assim: se fosse por nossa vontade não morríamos nunca e ficaríamos cada vez mais ricos. Não faz sentido acusar um sector económico de "querer" isto ou aquilo. Também não sei se faz muito sentido exigir responsabilidade social às empresas. Essa responsabilidade reside nos indivíduos, que devem elaborar leis e normas para definir o que é legal ou ilegal, desejável ou indesejável, e atribuir incentivos ou desincentivos em função dessa definição.Parece que as polícias e os tribunais funcionam mal. Resta saber se devemos empurrar a responsabilidade disso para cima, para as "grandes empresas", para os "sectores económicos", etc. ou se devemos procurar a causa ao nível dos comportamentos dos indivíduos. Quantas leis e normas, incluindo coisas como o estacionamento automóvel, chegar a horas, trabalhar com diligência, quantas vezes por dia incumprimos isso ou encolhemos os ombros perante o incumprimento dos outros?Eu creio que a nossa grande dependência do sector da construção é má para a economia (independentemente de haver actividades de branqueamento de dinheiro associadas). Mas o que é que os cidadãos pensam disso? Estarão dispostos a aceitar as consequências de se redimensionar e modernizar esse sector? Já se sabe que os governos andam a toque de caixa dos lóbis (até os economistas têm modelos para explicar isso), mas ainda não percebi o que pensam os trabalhadores e os consumidores de tudo isso. Protestam e atribuem culpas mas não parece existir uma lógica por detrás de toda a agitação, a não ser talvez o desejo de manter tudo como está. E não me refiro à contestação de medidas governativas: aí protesta-se contra a diminuição de direitos, tudo bem. Mas supondo que o governo não fazia nada, o que é que a sociedade estaria a exigir? Eu não consigo saber. Às vezes faço esta pergunta a pessoas informadas e as respostas são confrangedoras.

Thursday, June 07, 2007

O DOCE DE COCAÍNA

Ontem foram apreendidas 6 toneladas de cocaína, em Esposende, com um valor estimado de 1500 mil euros, traduzido o preço em gramas, 250 euros/grama, se ninguém se enganou nos zeros. Trata-se, segundo a polícia, de um novo recorde de apreensão de droga, fiquei na dúvida se nacional, europeu ou mundial. No mesmo canal de televisão onde ouvi esta notícia, informavam pouco depois, que, segundo resultados de um trabalho realizado recentemente, 70% das notas de euros apresentavam vestígios de cocaína. Segundo a "Visão" desta semana, "na segunda-feira, 4, um colectivo de juízes absolveu e pôs em liberdade, por "fragilidade de provas" Franquelim Lobo, de 52 nos, que a PJ sempre apresentou como um dos maiores traficantes de droga portugueses. O Franquelim foi à prisão de Monsanto buscar os seus pertences e anunciou uma acção indemnizatória contra o Estado. Para a história fica uma sucessão de erros judiciais e policiais."
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Para além de ridicularizam frequentemente a polícia de investigação e os tribunais em Portugal, configuram-se estes relatos frequentes sobre recordes de apreensão de droga, que se banalizam e já não são notícias, como efectivas acções promocionais do negócio.
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Sabe-se que apenas uma pequena parte do tráfico de droga, a nível mundial, é interceptado pela polícia; sabe-se que o negócio da droga tem uma dimensão, valorizada em termos monetários, equivalente ao da energia, segundo o relatório do PNUD de 1999; sabe-se que essa dimensão sustenta uma parte importante de actividades económicas regulares, a construção civil, por exemplo; sabe-se que para facilitação da conexão entre o dinheiro da droga e as actividades legalmente admitidas, as entidades emissoras de moeda não esqueceram a competitividade dos meios de pagamento (notas de 100 dólares às quais o BCE respondeu com notas de 500 euros); sabe-se que esse dinheiro anda por aí em toda a parte; sabe-se que parte (que parte, ninguém sabe) desse dinheiro justifica a possibilidade de muita gente viver bem acima das suas possibilidades aparentes, exemplificando o adágio popular: "quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vem".
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E sabe-se que, representando estas apreensões, por mais recordistas que sejam, uma gota de água no oceano da droga, a sua publicitação é um meio promocional do negócio na medida em que, sem reduzir significativamente a oferta, aumenta nos consumidores a ansiedade pela manutenção de stok de segurança e disponibilidade de resignação para crescentes aumentos de preços.
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E sabem os lobos impunes que captura melhor quem captura no fim.

Thursday, March 01, 2007

E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA?

Há pouco mais de um ano reflectíamos aqui
acerca da dimensão da economia perversa e nos prováveis efeitos sobre a economia global que a sua extinção ou redução significativa poderia induzir.
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Ontem o Público publicava um artigo (Produção de ópio no Afeganistão atinge recorde) de onde se retiraram as seguintes conclusões de um relatório do Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) divulgado esta semana em Viena:
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- A produção de ópio no Afeganistão aumentou o ano passado 64% e está a atingir níveis-recorde;
- O país voltou a ser, desde o início da guerra conduzida nos últimos anos pelos Estados Unidos, a principal fonte mundial do ópio e da heroína dele derivada, voltando aos níveis que tinha na década de 1990, quando representava 70% do fornecimento global destes produtos;
- A CIA considera que 1/3 do PNB afegão vem da exportação do ópio;
- A papoila dormideira é agora uma constante nas 32 províncias do Afeganistão, sendo cultivada em 165 mil hectares e dando origem a 6100 toneladas de ópio, que rendem anualmente o equivalente a 18.800 milhões de euros;
- Meio milhão de pessoas participa no tráfico do produto afegão, que segue especialmente para o Paquistão, o Irão e a Europa Ocidental e leva a ONU a temer que se esteja ali a gerar um Estado de traficantes;
- António Maria Costa, italiano, subsecretário-geral das Nações Unidas propôs, esta semana, um plano de acção para melhorar a segurança fronteiriça, que inclui patrulhas paralelas e conjuntas e exercícios conjuntos de treino por parte das forças do Afeganistão, do Paquistão e do Irão.
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Entretanto, o Economist desta semana publica um relatório, com conclusões contraditórias, acerca dos malefícios e benefícios dos "offshore" financeiros.
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Por cá exaltam-se os ânimos a propósito de extinções de maternidades, serviços hospitalares de urgências e esquadras da polícia.
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O que é que há de comum em tudo isto?
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Se, de repente, acabasse a droga abalava-se a economia mundial. Até que ponto? Ninguém sabe e parece que ninguém quer saber. A extinção da produção de ópio afegão seria mais eficaz se fossem destruídos os campos de cultivo. Como isso implicaria destruir cerca de 1/3 da economia daquele país, as Nações Unidas ( e as desunidas também) preferem jogar ao faz-de-conta; Entretanto, o jogo do gato e do rato no tráfico entre as fronteiras do Afeganistão e a venda a retalho nos centros consumidores, garante emprego directo e indirecto. Indirecto, por exemplo, na construção civil. A construção civil é um dos maiores sectores receptores e branqueadores de dinheiro sujo. Mas a construção civil, em Portugal, concorre com cerca de 50% de todo o investimento realizado;
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A perseguição dos traficantes pelos caminhos do dinheiro encontraria, por outro lado, gente nos mesmos caminhos que não quer ser incomodada;
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A racionalização (entenda-se, o aumento da eficiência e da produtividade ) dos serviços públicos implica a redução de milhares de funcionários, polícias incluídos: Portugal tem um dos mais elevados rácios de polícias por cada 100 mil habitantes; tem dos mais elevados rácios de tribunais, juízes, funcionários judiciais, por 100 mil habitantes... Se toda essa gente fosse dispensada em nome da racionalidade o que é que aconteceria à economia?
Acerca da discussão de ontem na AR, escreve o Público de hoje:
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"Se o anúncio da reforma da administração interna pelo primeiro-ministro foi relativamente pacífico, o mesmo não se poderá dizer do debate paralelo ocorrido sobre o desemprego.
O líder do principal partido da oposição, (... ) , cedo fez resvalar a discussão para o "ponto mais negro" da governação(... ). "Isto é um desastre social" (...) , a taxa de desemprego subiu par 8,2%, em Dezembro de 2006, "a mais alta dos últimos 20 anos"
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A teoria que pressupõe comportarem-se os agentes económicos de forma racional nas suas decisões tem os seus truques. A racionalidade das decisões políticas é ainda mais intrincada.
Ou a razão já não é o que era.

Monday, January 09, 2006

E SE, DE REPENTE, ACABASSE A DROGA

Se a morte morresse já sabemos a confusão que seria: o Bem Amado teve uma ameaça dessas quando, há já uns bons anos, quis inaugurar o cemitério e não apareciam fregueses; há dias Saramago, sarcástico como sempre, voltou ao assunto enredando muitas situações trágicas ou cómicas ou uma coisa e outra. As tentativas que têm sido feitas, desde que o mundo é mundo, para matar a morte apenas a têm feito esperar, e nem sempre com os melhores resultados.

E se, de repente, acabasse a droga?

O esforço para acabar com o tráfico da droga parece ser, ao mesmo tempo, tão sério quanto inglório como aquele que é feito para nos garantir a vida.
Um prognóstico sociológico acerca do tema daria igualmente para encher um saco avantajado de dramas e comédias. Mas não se vá por aí, ainda que o assunto seja demasiado sério, não é essa a intenção da pergunta.

Frequentemente recebemos notícias de apreensões de droga, e tão frequentes são os recordes de quantidades ou os valores de mercado apreendidos, que facilmente se deduz que ou as polícias estão cada vez mais eficientes ou o negócio está em crescimento exponencial. Lamentavelmente, tudo leva a crer que os traficantes, apesar da porventura cada vez mais apertada vigilância policial, estão cada vez mais activos e as apreensões, por mais recordistas que sejam, representarão uma parte pequena da montanha, em expansão, traficada. Se assim não fosse, a crescente eficácia da polícia interceptaria mais cargas mas estas seriam cada vez mais reduzidas. Aliás, os relatórios dos observatórios da droga são inequívocos acerca do crescimento dos consumos de drogas em quase todas as partes do mundo, ocorrendo embora transferências de uns tipos para outros.

O negócio da droga inscreve-se no quadro estatístico da economia suja que regista outros abomináveis comparsas: o tráfico de armas, o tráfico de órgãos humanos, o tráfico de crianças, o tráfico sexual, além do mais, por que a lista está aberta à imaginação humana perversa, que é, por natureza, insondável. Designemo-lo por Quadro 1.

Os caminhos dos dinheiros destes tráficos cruzam-se com os de outros crimes, não tão execráveis mas igualmente condenáveis: a corrupção e o roubo a altos níveis, o contrabando de tabaco e a fuga aos impostos, além de outros delitos de natureza geralmente fiscal. Designemos este outro quadro por Quadro 2.
Os montantes envolvidos nos negócios abrangidos pelo Quadro nº.1 não são, evidentemente, facilmente computáveis, mas já o Relatório Anual do PNUD de 2001, o ano do fatídico 11/9, admitia que só o tráfico de droga a nível mundial envolvesse montantes financeiros equiparáveis aos da energia.

Desde a produção ao consumo a cadeia de traficantes de droga estrutura-se de forma altamente hierarquizada de modo que o passador na rua, embora lidando com o valor unitário mais elevado encaixa margens mínimas quando comparadas com os valores abocanhados pelos tubarões, e mesmo os proveitos desses distribuidores são frequentemente regurgitados para pagamento do auto consumo já que a maior parte deles são drogados. As receitas da droga não se distribuem portanto, ao contrário do que poderia fazer pressupor uma cadeia de distribuição muito ramificada, por um grande número de agentes, e concentra-se nas mãos de um número muito restrito e, consequentemente, muito próspero de patrões do negócio.

As fortunas acumuladas deste modo têm absoluta necessidade de se infiltrarem nos fluxos financeiros limpos e têm, portanto, que ser sujeitas a lavagens. Os lavadores de dinheiro sujo procuram, naturalmente, os instrumentos legais de processamento de entradas de fluxos financeiros supostamente limpos. É nesta fase de entrada no sistema financeiro regular que o dinheiro sujo proveniente dos negócios do Quadro 1 se encontram com os oriundos dos negócios abrangidos pelo Quadro 2.

E porquê?

Muito simplesmente porque as portas de entrada de parte do dinheiro do Quadro 2 são cegas e não distinguem, ou não querem distinguir, o que está sujo do que é limpo. Situam-se, normalmente, naquilo que passou a designar-se por “paraísos fiscais”. O paraíso fiscal é uma invenção suíça que, ao contrário do relógio de cuco, foi adoptado, e muito adaptado à ocorrência de novas circunstâncias, com grande sucesso em várias partes do mundo.

No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, os suíços aperceberam-se que as grandes convulsões sociais espantam tanto as fortunas como os movimentos bruscos a passarada, e concluíram que era negócio dar-lhes abrigo. Zurique tornou-se, então, uma praça financeira capaz de rivalizar com Londres, especializando-se no ramo das contas numeradas, altamente confidenciais, demonstrando que, indiscutivelmente, o segredo é a alma deste negócio. Não tardou que essas contas numeradas fossem utilizadas para acolher dinheiro das mais diversas origens e ilegalidades.

Hoje, os paraísos fiscais, divergindo em muitos aspectos do figurino suíço, são um regalo para quem tem dinheiro e vícios, e os atractivos oferecidos constituem uma panóplia mais diversificada e apetecível que qualquer menu de um restaurante de luxo. Num ponto, contudo, todos coincidem e não abdicam da receita: o segredo bancário, sustentáculo de quaisquer engenharias que a imaginação conceba.

A partir do momento em que o paraíso fiscal existe com o objectivo inegável de permitir a evasão fiscal, se não teria outro nome, abre-se o canal com entrada franca para todas as habilidades sujas: corrupção e roubo de primeira grandeza e suas variantes, que constam do Quadro 2. Com efeito, nunca passaria pela cabeça de um paraíso fiscal indagar se o pretendente a cliente roubou o dinheiro ou só quer minimizar impostos. Mas ainda que fosse tão escrupuloso, há várias maneiras, aliás de construção simples, que permitem dar brancura aparente ao dinheiro sujo. Tão simples que não vale a pena ensinar a missa ao vigário; nunca os grandes ladrões e corruptos deste mundo tiveram dificuldade em por a salvo os encaixes das suas acções criminosas. Muitos destes personagens são conhecidos do grande público, a nível mundial, e os montantes dos valores extorquidos só são conhecidos quando eles caem. Mobutu e Pinochet são apenas dois exemplos de uma longa lista.

E como por onde passam os ladrões passam todos, os crápulas do Quadro 1 não têm que inventar nada para lavarem as fortunas que os negócios espúrios lhes proporcionam.

Claro que a lavagem de dinheiro sujo nem sempre pressupõe a passagem por um paraíso fiscal nem a evasão fiscal tem de passar obrigatoriamente por ali. O sistema financeiro mundial tornou-se, geralmente, suficientemente permissivo para competir com as vantagens oferecidas pelos paraísos fiscais; por outro lado, muitas vezes o próprio sistema financeiro não intervém directa ou indirectamente no branqueamento de capitais, sobretudo quando os montantes em causa, por serem relativamente pequenos, se infiltram no sistema da forma mais óbvia: todos nós já ouvimos falar, por exemplo, de vivendas ou apartamentos de luxo, transaccionados realmente acima de 1 milhão de euros serem pagos na totalidade em notas, e escriturados por muito menos.

O dinheiro sujo sujeito a lavagem assume valores astronómicos e dirige-se, naturalmente, para abrigos seguros, nomeadamente nos Estados Unidos e na Europa. Rondará 3 triliões a montanha de dólares que todos os anos é transferida de países do terceiro mundo para os países desenvolvidos e, sobretudo, os europeus e Estados Unidos da América.

É muito dinheiro e a influência desta transferência colossal nas economias europeias e norte-americana tem sido tão decisiva para o seu crescimento como a sua fuga tem deprimido constantemente os países subdesenvolvidos donde ele provem. É por demais evidente que, para além desta corrente de dinheiro branqueado, afluem às economias ocidentais, à procura de aplicações rentáveis, montantes também elevadíssimos provenientes de transacções inteiramente legais, destacando-se entre eles os provenientes dos países produtores de petróleo e, nos últimos anos, os excedentes de liquidez chineses, mas o saldo líquido das transferências para o ocidente desenvolvido oriundo de operações lícitas ficam flagrantemente aquém dos valores nascidos de operações condenáveis.

São estes fluxos enormes que ajudam a economia americana crescer e criar empregos sem que o duplo déficit (do orçamento e de transacções correntes) restrinja esse crescimento e, o que é ainda mais saliente, sem que o dólar entre em perda descontrolada como muitos auguraram. As operações financeiras, por outro lado, garantem aos seus agentes rendimentos que se situam geralmente bem acima dos proporcionados pelas outras actividades económicas em geral e dão um contributo decisivo para o crescimento económico, pelo menos nos termos em que este é geralmente medido.
Um exemplo muito nítido desta maior apropriação é o da economia luxemburguesa que consegue situar-se no primeiro lugar do ranking da produtividade mundial sem que tenha sido alguma vez notada a etiqueta “made in Luxembourg”. Até os emigrantes portugueses que trabalham naquele simpático membro da União Europeia gozam do prestígio inerente a quem participa na confecção de tão saboroso bolo.
Muito bem se canta na Sé mas é para quem é e para quem lá está ao pé!
Na realidade a produtividade dos luxemburgueses deve tanto ao seu dinamismo e criatividade como o recheio do Museu Britânico à cultura anglo-saxónica.

Estes fluxos financeiros, uns de proveniências lícitas, outros branqueados, com destaque nestes últimos para os provenientes da droga, canalizam-se para o financiamento de actividades especulativas, por serem estas as que acenam com rendimentos mais elevados e de realização mais imediata. De entre essas actividades, uma das mais tentadoras e que confere uma aparência sólida porque assenta em bens reais, é a especulação imobiliária.

Segundo a Bond Market Association, que consultou economistas de 29 empresas suas associadas, a maioria das quais grandes companhias de investimentos, a economia norte-americana deve crescer 3,4% em 2006. No entanto, a possibilidade de uma retracção do mercado imobiliário constitui, este ano, o maior risco para a economia norte-americana, tendo em conta a possibilidade de aumento das taxas de juro e o excesso de oferta
sobre a procura de casas.

Economistas da Wells Fargo & Cº. analisaram o crescimento do emprego nos Estados Unidos desde 2001 e concluíram que metade desse crescimento ficou a dever-se a empregos criados em actividades directamente no sector da construção civil. Se, para além dos empregos directos criados por este sector, forem também considerados os empregos por ele criados indirectamente, a dependência do crescimento norte-americano do sector imobiliário, nestes últimos anos, tem sido muito elevada e a probabilidade de uma recessão, em 2006, causada pela eventualidade de uma contracção da procura imobiliária é cerca de 10%, segundo a Economy.com (Washington Post, January, 1)

Um exercício de transposição para a economia portuguesa das consequências que poderiam decorrer de uma contracção da procura de casas para habitação não parece admitir qualquer paralelismo com aquilo que ficou atrás referido para a economia norte americana. E, talvez, ainda bem que não admite.

As últimas estimativas do Banco de Portugal para o crescimento económico em Portugal para 2006 não vão além de 0,8% com tendência para revisão em baixa se atendermos às estimativas anteriores feitas pelo BP. A economia portuguesa é excessivamente dependente do sector de construção e obras públicas e essa dependência estende-se também ao desporto, a partidos políticos, a câmaras municipais, a autarcas, que convivem, muitas vezes de forma promíscua com construtores civis e companhia.

Por mais que digam o contrário, nem o governo central nem os autarcas prescindem de um bom programa de cimento armado. Podem jurar a pés juntos que doravante vão apostar na formação, na técnica, na ciência, na cultura, etc., mas não tiram o olho do cimento armado. O cimento paga muita coisa e dá direito a destapar tabuleta para a posteridade.

E depois temos o problema da habitação por resolver. Um problema crónico de famílias a viver em condições infra-humanas ao mesmo tempo que temos um stock de casas que dá para albergar mais do dobro da população actual: para cada família portuguesa já temos, em média, 2,3 alojamentos, há centenas de milhar de apartamentos e vivendas para venda e continuamos alegremente a construir!

E Deus nos livre de parar! Se a construção civil parar ou abrandar a sério o carrossel sai das calhas desconjuntado.

De onde vem o dinheiro para financiar todo este stock enorme? Como é que pode uma indústria continuar indefinidamente produzir para stock?

Na Casa Branca, pelos vistos, mora a Dona Branca. E cá, quem mora?