Thursday, September 11, 2014

AS LATAS DOS TROCA TINTAS*

Não me parece que a apreciação dos imbróglios BES e PT  a partir do eu disse, tu disseste, ele disse, de alguns dos intervenientes possa conduzir-nos alguma vez ao esclarecimento dos factos, e, se em Portugal não prevalecesse a recíproca desculpabilização dos implicados, à responsabilização severa dos seus actos ou omissões.

Tanto no caso da PT como do BES, na sequência de uma tradição perversa que inclui vários outros anteriores, que a banalização faz esquecer, é impressionante a candura, a lata, com que, no fim de contas, todos afirmam que não sabiam o que se passava. 

Mas se a lata deles é de tal quilate, o efeito por eles pretendido resulta se os avaliarmos pelo que dizem e não por aquilo de que são responsáveis considerando as funções que desempenhavam, e a maior parte ainda desempenha. Poderia o senhor Bava ignorar os empréstimos da PT ao GES, a maior fatia dos quais fluiu no tempo em que ele era CEO da PT? Ou os seus novos amigos da Oi, que acertaram num contrato de tamanha dimensão, ignorar a consistência dos activos do parceiro? Não podiam. Estamos perante uma mentira enorme que pretende servir os principais envolvidos e sabsolver os comparsas. Se a CMVM der luz verde à decisão da AG da PT do dia 8, o senhor Bava consolida no seu novo poleiro dourado os resultados da sua desfaçatez.

No caso do BES, à tentativa de desculpabilização recíproca (p.e., o presidente da KPMG disse ao Expresso que "a auditora, o Banco de Portugal e a CMVM estão de parabéns) seguiu-se a acusação recíproca, directa ou velada (p.e. dois dias depois a KPMG afimava que o Banco de Portugal foi alertado antes do que diz). É este esgrimir simulado (porque ninguém quer ficar ferido) que deve ser ignorado por quem quiser apreciar o assunto de forma consciente.

O Banco de Portugal tem responsabilidades que, mais uma vez, não cumpriu, a KPMG fez o que costumam fazer os auditores - fechar os olhos ou, pior, nem sequer os abrir, e receber o cheque -, a CMVM não fez  que devia, os administradores são culpados por acção ou conivência com Ricardo Salgado. As acusações mais ou menos veladas entre, por um lado, o Governo e o Banco de Portugal, e entre o Governo e o Presidente da República, por outro, não os desvincula a todos mas é evidente que, nesta matéria, as maiores responsabilidades têm de atribuir-se ao governador Carlos Costa e, se é
verdade o que dizem os jornais de hoje, e reprovar-se o que disse o primeiro-ministro por argumentar que o "se o PR não sabia mais foi porque não perguntou". Em matéria de informações do governo ao PR existe um direito do PR e uma obrigação do primeiro-ministro. Ou houve mal entendido do jornalista ou entende-se mal o que disse o primeiro-ministro.

No fim de contas, tudo isto acontece porque a justiça continua a dormir a sono solto.
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* Corrigido do colocado aqui

1 comment:

Antonio Cristovao said...

Bem apontada tanta i responabilidade.