Sunday, April 12, 2015

INFÂMIA

A conversa começou quando alguém perguntou se o T. sempre tinha ido de comboio para o Porto num daqueles dias em que os revisores (ou teriam sido os maquinistas? ou os vendedores de bilhetes?) estavam em greve. O T. é um jovem de doze anos, que faz a viagem Porto-Lisboa-Porto, sozinho, com alguma regularidade. Por sorte, o Intercidades da CP tinha saído de Lisboa naquele dia de greve.

A mim, que muito raramente utilizo os transportes públicos, indigna-me ouvir no noticiário das oito da manhã as notícias sobre as greves frequentes da CP, do Metropolitano, ou de outros operadores de serviços de transportes públicos, e considero uma infâmia o comportamento dos sindicatos que mobilizam os seus associados para greves que prejudicam gravemente aqueles que não têm recursos para dispensar os transportes públicos. Os défices das empresas públicas de transportes colectivos são pagos pelos contribuintes mas são os utilizadores dos serviços por elas prestados aqueles que pagam a factura maior, até porque também são contribuintes, das greves decorrentes de um direito que, como todos os direitos, tem, ou deveria ter, limites de razoabilidade.
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- Mas és contra o direito à greve?
- Sou contra a capacidade negocial desmesurada dos grevistas quando estão em causa serviços públicos. Os sindicatos, enquadrados na CGTP, o mesmo é dizer no Partido Comunista, abusam de um direito que não é, ou não deveria ser ilimitado.
- Mas os maquinistas da CP, nem sequer estão filiados na CGTP, têm, tal como os pilotos da TAP, sindicatos independentes.

Os sindicatos enquadrados na CGTP, aqueles que dominam na função pública e nas empresas de serviços públicos, inventaram uma entidade abstracta: a entidade patronal. Os sindicatos de empregados em serviços públicos não enquadrados de direito na CGTP apropriam-se, também eles, de facto, dessa invenção mirabolante. De facto, não há uma entidade patronal na função pública ou nas empresas de serviços públicos com capacidade negocial de interesses próprios. O governo central, ou seus delegados nas negociações com os sindicatos, poderá defender, quanto muito, os interesses dispersos dos contribuintes e dos utentes, mas em última análise ou cede às exigências dos grevistas, e pagam os utentes como contribuintes as reivindicações satisfeitas, ou são os utentes, nessa condição, que pagam as principais consequências das greves decretadas pelos sindicatos, pagando serviços que não usufruem.

A defesa dos interesses dispersos de contribuintes, mas principalmente dos utentes, praticamente não tem barreiras. A prova desta ausência de barreiras espelha-se nas respostas geralmente dadas pelos utentes que pagaram os bilhetes para os transportes em greve.

- Sabia da existência desta greve?
- Não sabia, não. 
- E, agora?
- Agora, não vou trabalhar hoje.
- O que é que pensa desta greve?
- Penso que é justa. Os trabalhadores têm o direito de lutar pelos seus direitos. Por melhores salários e melhores condições de trabalho.
- Sabe quanto ganha um maquinista da CP? Ou do Metro?
- Por acaso não sei.

1 comment:

Antonio Cristovao said...

Neste faz de conta os sindicatos fazem de conta que representam os interesses dos trabalhadores, mas as tutelas tambem fazem de conta que tomam contados interesses públicos.
Quantos subsidios e medidas são tomadas para favorecer os "comparsas"?
Por ter dado mal a compra do painel solar-com subsidio publico de 60% com o montador Norquente, fui ler o contrato e li que uma empresa YUNITE- que nuna tinha ouvido falar era o contratante. Afinal a empresa era uma das fantasmos do BES para receber os subsidios, já que nunca contratei nada com ela.