Monday, June 02, 2014

OLHA QUE DOIS

Não é novidade para ninguém, salvo para os comparados, que são mais perturbadoras as semelhanças que as diferenças entre as ideologias fascistas/nazis e comunistas, ainda que esta comparação possa fazer espumar de raiva e dar saltos de corça aos extremos que se tocam. Afirma, por um lado,  Marine Le Pen: "Quero destruir a União Europeia ... A Europa é a guerra. A guerra económica, um aumento das hostilidades entre os países. Os alemães são insultados e acusados  de crueldades, os gregos são acusados de gastadores e os franceses de vagos". E, do outro lado extremo, ouve-se que "foi o PCP  ainda o primeiro, e até hoje o único, partido a colocar como objectivo político, a luta pelo fim da União Económica e Monetária".

Não estão sós. Com mais ou menos as mesmas intenções de destruição da União Europeia, invocadamente, para salvar a Europa, estarão representados no futuro PE um leque de partidos que, sendo, por enquanto bastante minoritários, e impossivelmente miscíveis num mesmo quadrante parlamentar, irão continuar a cantar a canção do nacionalismo que encanta cada vez mais gente de norte a sul da Europa. Num continente milenarmente fracturado, a ideia fundadora da contrução da União Europeia e, mais tarde, a criação do euro, confrontam-se com um nacionalismo atávico, e aqueles que se dizem defensores da integração europeia coibem-se, por adaptação manhosa às circunstâncias ou vacilação nas convicções, de opor à prevalência do discurso nacionalista o da integração política que só pode ser tendencialmente federativa. 

Há quem defenda, e eu concordo, que a extensão da abstenção nas eleições e a progressão dos nacionalistas, digam-se eles de direita ou de esquerda, irá obrigar aqueles que se lhes opõem a um posicionamento claro que até agora não assumiram, e a procederem em conformidade. O avanço nacionalista, com todo o seu cortejo de racismo, xenofobia e chauvinismo,  é agora de tal modo evidente, que só uma defesa forte e determinada dos valores postos em causa, ainda que de modo camuflado, pode conter e evitar a repetição da endémica tradição de confronto bélico entre europeus.

Os próximos anos serão cruciais para garantir a paz na Europa. Quando, em 1960, De Gaulle lançou a ideia de uma Europa das nações (também repescada por Le Pen) estava longe de supor a evolução do resto do mundo, agora transformado numa aldeia global, um termo cunhado poucos anos depois da designação gaullista. Muitas das palavras do chefe de Estado francês* subsistem ainda hoje como principal argumentário, eficazmente convincente, dos nacionalistas contra a integração federativa da Europa.

Mas o mundo mudou, e mudou muito. E se a Europa não mudar continuará a ver  passar por si o mundo.

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cit. adapt. a partir daqui

Europa das nações em 1960

Para De Gaulle importava actuar, não de acordo com os sonhos, mas sim em conformidade com as realidades, para construir a Europa, isto é, unificá-la. Ora quais são as realidades da Europa? Quais são os alicerces sobre os quais queremos construi-la? Na verdade, são os Estados que, de certo são muito diferentes uns dos outros, que têm cada um a sua alma para si, a sua história para si, a sua língua para si, os seus infortúnios, as suas glórias, as suas ambições para si, mas Estados que são as únicas entidades que  têm o direito de ordenar e a autoridade para agir. Fingir-se que pode construir-se qualquer coisa  que seja eficaz para a acção e que seja aprovado pelos povos por fora e por cima dos Estados, é uma quimera. Seguramente, esperando qu'on a pris corps à corps e no seu conjunto o  problema da Europa, é verdade que se pôde  instituir certos organismos mais ou menos  extranacionais. Estes organismos têm o seu valor técnico mas não têm nem podem ter autoridade e  por conseguinte eficácia política.


Defesa da cooperação política

Assim, propõe que se ultrapasse o problema da instituição daquilo que qualifica como cooperação política: assegurar a cooperação regular da Europa ocidental, é o que a França considera como sendo desejável, como sendo possível e como sendo prático no domínio político, no domínio cultural e no da defesa. Isso implica um concerto organizado e regular dos governos  responsáveis e em seguida o trabalho de organismos especializados em cada um dos domínios comuns  e subordinados aos governos; isso implica a deliberação periódica de uma Assembleia que seja formada  pelos delegados dos Parlamentos nacionais e, em meu entender, isso deve implicar a mais cedo possível, um solene referendo europeu de maneira a dar a tal  ponto de partida da Europa o carácter de adesão e de intervenção popular que lhe é indispensável. Conclui, assim, que se enveredarmos por esse caminho ... forjar-se-ão elos, adquirir-se-ão hábitos e, com o tempo, é possível que venham a dar-se outros passos para a unidade europeia.

A Europa como confederação de nações 
  
O mesmo De Gaulle, numa conferência de imprensa de  31 de Dezembro de 1960,  proclama: nós faremos, em 1961, o que temos de fazer: ajudar a construir  a Europa que, confederando as suas Nações, pode e deve ser para o bem dos homens a maior  potência política, económica, militar e cultural que jamais existiu. Este mesmo De Gaulle, considerava  num artigo de 1948 que  A Europa deverá ser uma federação de povos livres.  Em Abril de 1962  considerará: Se a União Política não for instituída, que ficará do Mercado Comum? Não deixava,  no entanto, de salientar em privado:  A Europa é um meio para a França tornar a ser o que era antes  de Waterloo: a primeira no Mundo (Agosto de 1962). Também, em privado, salientava em  Setembro de 1962: o interesse egoísta da França é que a Alemanha continue dividida o mais  tempo possível. Mas nisto não será eterno. Adenauer pensa-o, engana-se. O futuro vai desmenti-lo.  A natureza das coisas será a mais forte. A Alemanha há-de reunificar-se.  Na mesma altura  salientava que  as únicas realidades internacionais são as nações.

 A Rússia secará o comunismo como o mata borrão seca a tinta.

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Correl. - A União Europeia vai destruir a Europa - José Gil
 

1 comment:

Antonio Cristovao said...

Dou voltas aos diferentes argumentos explicativos e volto sempre a realçar que fazer a politica com guiões repetidos de 4 dezenas de anos e a realidade mostrando que com muita frequencia o que se tornou central foi as benesses retiradas pelos actores da farsa, nãopode ter outra resposta que uma maioria abstencionista que não papa mais grupos mas tambem não sente força para contariar a parodia. Quando lhe aparece um laivo de esperança)MarinhoPinto) ainda acorre com vamos ver se resulat algo. Na UE o filme parece-me com guiao parecido só que em ecran gigante e qualidade HD.