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Friday, December 09, 2016

DRAGHI NÃO CHEGA PARA AS ENCOMENDAS*

Concordo com a leitura que faz da mensagem de Draghi.

Draghi tem desempenhado com bastante competência e ousadia quanto baste para manter em funcionamento a caranguejola europeia. Tivesse sido o seu antecessor menos atento venerador e obrigado ao diktat alemão e o desastre das dívidas soberanas europeias não teria atingido, irremediavelmente, os níveis desastrosos que atingiu.

Em resumo: Draghi tem cumprido e promete continuar a cumprir.

Mas o cumprimento de Draghi não chega para as encomendas, que a outros competiria cumprir mas não cumprem. E a Europa, atingida de novo pelo vírus nacionalista, com agressivas estirpes racistas, que a destruiu na primeira metade do século passado, é outra vez o mesmo sonâmbulo a caminho do abismo.

O grotesco da ironia deste destino europeu avalia-se na esperança depositada na chanceler alemã continuar no posto e conseguir reunir os cacos que, no passado recente, a sua liderança política, ou a do seu ministro das finanças causaram. Afinal, se não for ela, quem pode ser?


Draghi faz o que pode e sabe fazer. Mas não chega para curar a Europa da furunculose que ameaça cobrir-lhe o corpo todo.   

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* Comentário colocado aqui

Wednesday, September 17, 2014

OH! MAMA DELA

A taxa de inflação na Zona Euro em Agosto situou-se, vd. aqui, em 0,4%, bem abaixo do "target" do BCE (2%) mas ligeiramente melhor que a primeira indicação (0,3%) publicada no fim do mês. As economias europeias continuam globalmente estagnadas e até a Alemanha está agora atolada na situação resultante das medidas de combate à crise que tem quase intransigentemente liderado. E digo quase, porque o sr. Draghi tem-se aventurado na conquista de um espaço de manobra que os estatutos do BCE, numa interpretação restritiva, não lhe consentiriam. Se alguém até agora segurou o euro, a Draghi deve ser reconhecido o papel mais relevante, se não único, nessa missão, tanto mais que, segundo Berlim, essa tarefa não lhe foi encomendada nem consentida. Se alguém ou alguma coisa aliviou os juros das dívidas públicas dos mais endividados com as suas declarações (aplicando uma receita dos manuais a que Berlim torce o nariz) foi o que disse Draghi. 

E agora? Recuperará a Europa com o sr. Junker em Berlaymont?  É duvidoso. De índole conciliadora Junker não parece capaz de imitar Draghi na conquista de um espaço de intervenção que o torne não subalterno do diktat alemão até porque a sua capacidade depende da dimensão do orçamento comunitário e este depende das contribuições dos estados membros onde a Alemanha é maioritária. 

É esta falta de confiança num futuro próximo liberto da anemia que se apossou das economias europeias em vésperas de mudança dos orgãos da União Europeia que justifica (não me apercebo doutras razões) a contínua procura de refúgio de capitais na Alemanha. Lê-se aqui, no Expresso online desta tarde, que investidores aceitaram pagar para ter dívida alemã a dois anos. Dito de outro modo, a Alemanha volta a ganhar dinheiro com os empréstimos que contrai; não só não paga juros como ainda recebe um prémio pelo favor de receber os dinheiros que lhe emprestam. Que grande mama!

Mas, é da lei da física das leitarias, mais dia menos dia, a mama acaba-se. Se Junker & Companhia não ajudar, Draghi não faz milagres, e a União Europeia desmantela-se por falta de coesão das massas do edifício.

Thursday, April 03, 2014

O PODER DA PALAVRA DE DRAGHI

Quando Draghi afirmou em Julho de 2012 que "faria tudo para defender o euro, e que, acreditassem, isso seria suficiente", provocou o início do recuo da galopada dos juros implícitos das dívidas soberanas dos países mais fragilizados nos mercados secundários. Hoje, disse que a compra de dívida pública e privada, conhecida como "quantitative easing" (programa de expansão monetária), tinha sido discutida na reunião do Conselho de Governadores, existindo unanimidade em torno da necessidade de utilizar mais medidas não convencionais tendo como objectivo lidar com um longo período de inflação baixa, ou, dito de outro modo, evitar a deflação na zona euro. E a confirmação da tendência de queda dos juros manifestou-se imediatamente.

Nada de imprevisível. Sabe-se que os países financeiramente mais fragilizados pagaram com língua de palmo o preço da ausência de um banco central na zona euro com capacidade para eventualmente intervir como financiador de último recurso. E foram os efeitos perversos de uma política monetária manifestamente desagregadora da União, que fustigou os mais débeis e favoreceu os mais ricos - a Alemanha, entretanto, financiou-se a taxas negativas com capitais refugiados em consequência daquela política -, ameaçando a implosão da zona euro há dois anos atrás e, agora, a uma crise deflacionista na União Europeia, que permitiram a Draghi ganhar espaço de manobra junto dos guardiões do Bunbesbank. 

Gavyn Davies, multimilionário (ex-Goldman Sachs, ex-BBC, entre outras posições confortáveis) comentou há duas horas atrás, no FT, como habitualmente, as declarações de Draghi. "ECB adresses the lower bound" vale bem uma leitura atenta. Vindo de quem vem, a opinião de G Davies poderá soar suspeita aos ouvidos de alguns. Mas é difícil não concordar com as suas afirmações finais: "Subsistem ainda muitos riscos... E o QE poderá não funcionar  em algumas situações... No entanto, o BCE atravessou um outro Ribicão. É difícil imaginar Jean-Caude Trichet a proferir as palavras que o sr. Draghi disse hoje."

Discute-se muito se no próximo mês Portugal optará por uma saída de cabeça ao léu ou com chapéu de chuva, mas é uma conversa de impotentes porque os factores decisivos são dominados a partir de Berlim. 
E Frankfurt, segundo parece agora. 

Friday, October 26, 2012

GOOD BYE EURO

O Financial Times publica hoje um artigo da directora editorial nos Estados Unidos, Gillian Tett, que não pode deixar de merecer a reflexão de todos quantos se interessam minimamente por descortinar os caminhos por onde, possivelmente, poderá passar o futuro dos europeus e, muito particularmente, daqueles que hoje têm o euro como moeda.
 
Em "A Finnish parallel currency is imaginable ", Gillian Tett descobre e discorre sobre as congeminações em curso na Finlândia de simulação dos cenários exequíveis para uma saída do euro, com reintrodução da markka sem abandono, pelo menos temporário, do euro. Ainda que, pelo menos por enquanto, a saída da Finlândia da zona euro não seja um tema recorrente na discussão política finlandesa e a maioria, por agora, continue a considerar que essa eventual saída poderá nunca vir a concretizar-se, o tema não é tabu e há informações públicas de que há trabalhos de preparação para essa eventualidade.
 
Não há nada de substancialmente novo neste artigo do FT. A hipótese da saída do euro por cima há muito que vem sendo abordada em artigos de opinião, reportando-se em geral há possibilidade da saída da Alemanha que, inevitavelmente, rebocaria no mesmo sentido os países em situação financeira confortável. Sair de uma moeda forte, mas ameaçada, para uma moeda garantidamente forte, não colocará nunca problemas operacionais relevantes. Complicadíssima, é a operacionalidade da  saída de uma moeda forte (o euro) para uma moeda fraca (o drakma, o escudo, a peseta, a lira) ou mesmo a coexistência num mesmo país de uma moeda forte (o euro) e uma moeda fraca (o escudo, por exemplo).
 
Gillian Tett termina o seu escrito recomendando a Draghi que visite a Finlândia, mas a sugestão é metafórica. Draghi não ignora, ninguém minimamente informado ignora, que, à medida que o tempo passa e tarda a implementação das medidas que poderão ajudar a ultrapassar a crise financeira na Europa, o stress social a norte e a sul, por razões opostas, encaminha os europeus para um confronto de consequências incalculáveis.
 
Porque o assunto não é, nem poderá nunca ser escamoteado da opinião pública, a erosão da confiança entre os que, a sul, pagam juros com língua de palmo e aqueles que, a norte, se sentam confortavelmente nos depósitos  e investimentos e cobram juros pelo abrigo, potencia-se com estas notícias. Daí, até à desintegração da zona euro e o consequente desmembramento da União Europeia pode ir um passo que hoje todos dizem não querer dar mas amanhã pode ocorrer de um dia para o outro.
 
Gillian Tett não vai tão longe, mas, como súbdita de sua magestade britânica, sentir-se-á uma observadora distante e imune às consequências destes potenciais confrontos entre continentais. Definitivamente, hoje, a ligação mais substantiva do Reino Unido ao Continente é o túnel sob o Canal da Mancha.
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Correl.- Desemprego ultrapassa os 25% em Espanha.
Juros a dez anos sobem para 8% após quinta avaliação da troica
Vai Portugal conseguir pagar a dívida pública?
32,4 mil-milhões de euros voaram para fora do pais nos primeiros nove meses do ano
Louçã diz que Portugal não devia pagar juros da dívida
Berlim nega que haja hoje uma decisão final sobre a permanência da Grécia no euro

Friday, June 08, 2012

A EUROPA À BEIRA DO RESGATE*

Será já amanhã que a Espanha irá juntar-se ao Clube dos Intervencionados?** 
As dúvidas persistem entre as declarações do governo espanhol, que diz aguardar o resultado das auditorias  aos bancos na próxima segunda-feira e a insistência da generalidade da imprensa europeia nas notícias dos últimos dias de que o resgate é agora inevitável e será anunciado amanhã.

Fuentes europeas dicen que se pedirá la ayuda el sábado , são os títulos em destaque no El País de hoje.

Para o Financial Times "A Espanha está à beira de ser resgatada" e o pedido de resgate poderá ser feito amanhã através de tele conferências entre os 17 ministros da zona euro de modo a evitar maior incerteza nos mercados financeiros (após o corte realizado pela Fitch no rating da dívida soberana espanhola). Os relatórios dos auditores deveriam ser conhecidos no dia 21 mas a imprevisibilidade dos resultados das eleições gregas a 17 - que podem dar a vitória ao Syriza, provocar a renúncia dos compromissos assumidos em contrapartida da ajuda externa de 174 mil milhões de dólares e colocar em risco a permanência da Grécia na zona euro -, impõe que a questão espanhola seja solucionada antes de serem conhecido os resultados das eleições gregas.  

Se dúvidas existem do lado do governo de Espanha elas não parecem situar-se na necessidade do pedido do resgate mas do montante necessário, entre 40 mil milhões, segundo os banqueiros espanhóis, e 80 a  90 mil milhões, segundo os analistas financeiros. De qualquer modo, o pedido pode ser feito sem fixação definitiva do valor envolvido, segundo um quadro superior da UE. Tudo indica, portanto, que a Espanha será o quarto membro do CI e, muito provavelmente, Chipre, o quinto.

Que implicações é que o resgate de Espanha poderá ter para a situação portuguesa no futuro próximo?
As exigências de austeridade serão diferentes das aplicadas até agora porque a Espanha não pode suportar medidas que agravem significativamente o seu recorde mundial de desemprego (  Obama a España: “No se puede recortar y recortar mientras crece el paro”, lê-se também no El País de hoje). A suavização dessas medidas em Espanha constituirá, certamente, mais um forte argumento para rever as que estão em curso na Grécia, em Portugal e na Irlanda. 

Tudo se conjuga para a realização de significativas mudanças no caminho que a UE prosseguiu até hoje. Angela Merkel traçou ontem as coordenadas de algumas dessas mudanças. A bola está agora no campo dos outros membros do clube. A UE, a partir de agora, ou avança empurrada pelas menos boas razões, o que não é bom augúrio mas é a menos má saída possível da encruzilhada a que se deixou chegar, ou, é desconjuntada pelos nacionalismos dos extremos ideológicos.
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*modificado (10/6).
** O resgate, em princípio, limita-se ao sector bancário de Espanha mas por imposição das regras (ainda) em vigor o empréstimo para a recapitalização dos bancos espanhóis terá de ser veiculado através do Estado. Draghi pronunciou-se hoje favorável ao financiamento directo aos bancos, sem intervenção do Estado.  

Saturday, November 12, 2011

À ESPERA DE DRÁGHI?

- E depois de toda esta embrulhada subsistirá a democracia?

A democracia não é uma garantia inabalável porque não é um facto irreversívelmente adquirido por mais que as circunstâncias passam dar uma ilusão da sua perenidade.

Nas últimas semanas, o desenvolvimento acelerado de acontecimentos tem evidenciado a complexidade do labirinto em que nos encontramos e as dificuldades que se colocam à descoberta de saídas que evitem que o pânico se instale e a guerra (sim, a guerra) entre os sitiados pela crise volte à Europa, paradoxalmente, provocada pelo desenvolvimento das instituições iniciadas há sessenta anos para a prevenir.

A ameaça agudizou-se com a entrada da Itália no banco das urgências. A partir de agora, ou se mobilizam meios eficazes de modo extraordinário ou o perigo de contágio vai, incontroladamente, alastrar-se urbi et orbi.

Soube-se, praticamente poucos dias depois da sua aprovação, que o reforço do Fundo de Estabilidade da Zona Euro, imediatamente tabelado pela Standard & Poor´s com rating AAA, não comoveu, antes pelo contrário os investidores, ou especuladores, consoante se queira. As taxas de juro da dívida italiana ultrapassaram os 6% e prometem uma escalada que nenhum fundo limitado, por mais fundo que seja, conseguirá dissuadir. E aquilo que para alguns parecia impensável começa a impor-se como condição sine qua non para a ultrapassagem da vertente financeira da crise: dispor o BCE de capacidade ilimitada, idêntica à dos outros bancos centrais, de emitir moeda que as circunstâncias impuserem.  E isto porque essa capacidade, e só essa capacidade, pelo simples facto existir, será capaz de enfrentar a desconfiança dos mercados (ou outra coisa, consoante se queira), fazendo-os recuar para limites que poderão reduzir a zero a mobilização daquela capacidade.

A construção da Zona Euro, desprovida daquela capacidade ilimitada, está irremediavelmente condenada à
derrocada a partir do momento que os mercados abalaram as dívidas soberanas e concluiram que estão totalmente desprotegidas. Como poderá evitar-se a destruição da Zona Euro, eventualmente a destruição da União Europeia, a morte precoce de algumas democracias, a guerra, se os tratados europeus não consentem porque, desde logo, a constituição alemã  impede a utilização daquela capacidade?

Não sei.

Mário Drághi, o italiano que é desde há dias o presidente do BCE, será pressionado pelas circunstâncias a prosseguir o quê?
A defesa do euro e a estabilidade do sistema monetário europeu (e, por tabela, o sistema monetário internacional) ultrapassando os limites do enquadramento do seu mandato, correndo o risco de ser acusado de violação dos seus compromissos,
ou o estrito cumprimento dos estatutos do BCE correndo o risco de continuar a percorrer o caminho que pode levar a um abalo de dimensões incalculáveis?

Esperemos que os países membros da Zona Euro, com particular destaque para a Alemanha e a França, se ponham de acordo sobre o assunto em tempo útil, na certeza de que, se a Itália entrasse em default, seriam poucos os que, sobretudo na Europa, escapariam aos efeitos em dominó de  uma derrocada inicial com a dimensão de um bilião de euros.