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Tuesday, May 16, 2017

MUDAR DE MÃOS

No mercado da arte, o valor acrescentado mede-se, sobretudo, pelas comissões cobradas pelas galerias e agências. O valor recebido por quem vende não tem expressão económica real - troca sem produção de riqueza - mas as mais-valias obtidas pelo vendedor são estatisticamente relevantes. 


La Muse Endormie 
Constantin Brancusi
(clicar para aumentar)

La Muse Endormie de Constantin Brancusi mudou ontem de mãos num leilão da Christie´s, que atingiu um volume de transacções, 289 milhões de dólares, não conseguido desde 2010.
O valor da obra do escultor romeno, foi transaccionado por 51 milhões de dólares, o que, adicionadas as comissões da Christie´s, colocou em 57,4 milhões de dólares o preço pago pelo comprador. 


Femme assise, robe bleue
Picasso

Femme assise, robe bleue, de Picasso, foi transaccionado por 45 milhões de dólares, comissões incluídas.


Friday, April 29, 2016

Wednesday, August 26, 2015

O TEU VOTO POR UM CARAMELO

É geralmente admitido que o eleitorado do PCP tem demonstrado ao longo das últimas quatro décadas  um grau de fidelização partidária que não tem paralelo no espectro político português. Uma adesão tão firme e perdurável só é visível em ambientes religiosos ou futebolísticos. É mais provável mudar de cônjuge que mudar de clube, dizem orgulhosamente convictos os indefectíveis clubistas e o mesmo dirão, presumo eu, os irredutíveis eleitores comunistas portugueses. 

Não obstante contar o PCP com uma tão arreigada vinculação ideológica, cf. aqui, a CDU prevê gastar 1,5 milhões de euros nesta campanha eleitoral, mais meio milhão euros do que o valor orçamentado para a  campanha de 2011, dos quais

. 550 mil euros em "custos administrativos e operacionais"
. 400 mil euros em "propaganda, comunicação impressa e digital"
. 300 mil euros em  "comícios, espectáculos e caravanas"
. 160 mil em "outdoors"

Por que se esforça tanto o PCP por convencer os seus convencidos? Uma razão é porque dispõe de recursos próprios superiores a qualquer outro partido, resultantes em grande parte da "Festa do Avante".
Outra,  decorrerá do facto de o grau de fidelização não ser tão elevado quanto se supõe e o PCP pretender segurar os seus e aliciar outros.

"A CDU teve um resultado de 7,8% nas eleições de 2011 e a média das sondagens até ao momento atribui 9,6% dos votos aos comunistas, o que pode justificar o aumento da despesa (uma vez que, quanto mais votos tiverem, mais dinheiro do Estado os partidos recebem)."

Resumidamente, trata-se de um negócio, por mais que o termo repugne aos comunistas para todas as estações.

Thursday, September 09, 2010

OS CUSTOS ESQUECIDOS DO COMÉRCIO LIVRE




























A teoria económica garante que o comércio livre impulsiona o crescimento económico global, e a história tem confirmado a tese ricardiana, ainda que não pouca gente duvide da bondade da teoria.

De um efeito ninguém duvida: O comércio livre impulsionou o desenvolvimento dos transportes e a redução dos custos de transportes promoveu o comércio em todas as direcções do globo. Resultado: Os mares são cruzados incessantemente, em terra, as vias de ligações transnacionais, ou transestaduais, estão saturadas de comboios de camiões porque os comboios de vagões ou não existem, ou não são competitivos, ou são insuficientes.

Até quando será possível este desatino? Enquanto houver petróleo?
E se, de repente, alguém põe a mão na torneira principal e corta ou reduz o fluxo vital?
Ninguém pensa nisso, pelos vistos. É um dado adquirido que o petróleo não se esgota tão cedo. E que se não se esgota ninguém fechará ou reduzirá o volume na torneira.

De qualquer modo, se o petróleo não faltará tão cedo, a saturação das vias de comunicação rodoviária é crescente por todo o lado. Há custos esquecidos que consentem este desvario.

Tuesday, February 16, 2010

IMPUREZAS ECONÓMICAS

Ensaios de Economia Impura

Não é a primeira vez que solto aqui o meu espanto perante as afirmações de muitos académicos (nacionais e estrangeiros) responsabilizando a teoria económica prevalecente na gestação da crise, e, portanto, atribuindo no cartório grande parte das culpas às universidade, deste modo desculpando as manobras e os crimes cometidos por aqueles que forjaram e impingiram a banha da cobra.

Universidades em que eles ensinam e não consta que em alguma circunstância tenham sido compelidos a não expor e divulgar as suas teorias puras pelos meios que bem entendessem. Vivemos em ditadura? Houve bloqueios à liberdade de expressão intra-muros universitários? E ninguém se queixou? Ninguém ousou dizer não? Foi o Professor Reis* (e muitos outros) compelido a guardar secretamente os seus escritos na gaveta à espera que a crise escancarasse o armário? Foi a sua Universidade alvo das buscas e escutas de alguns esbirros ao serviço de um ditador da verdade oficial?

Não vale a pena repetir aqui os factores mediatos e imediatos de fomento da crise, nem sequer discutir se o ensino universitário (aqui e, pelos vistos, em quase todo o lado) está na génese do descalabro. É uma questão para-científica porque qualquer afirmação feita à sua volta, não sendo demonstrável, só admite teses opinativas.

O meu espanto, que é um espanto de um não académico, volta-se, sobretudo, para a forma generalizada com que vejo académicos subverterem conceitos epistemológicos fundamentais. Escreve José Reis no prefácio à sua obra que "a teoria económica que se arroga clarividente, dona de respostas sempre prontas para muitos aspectos da vida – mesmo aqueles em que se torna óbvio que não tem nada a dizer – é afinal, uma construção frágil"

Que o professor catedrático me desculpe a ousadia mas qualquer teoria (económica ou qualquer outra) que se arrogue clarividente e definitiva é uma tolice. Nada é definitivo e o conhecimento é uma evolução incessante e permanentemente posta à prova. Se escapa ao escrutínio permanente ou é opinião, superstição ou dogma.

De modo que, a menos que alguém se dê ao trabalho de explicar, eu não consigo entender o que é uma teoria económica dominante (ou má teoria, como alguns lhes chamam) desde logo porque não concebo o que seja uma teoria económica unificada. O que pode haver são explicações parcelares da realidade económica. Que ou são confirmadas ou rebatidas.

Fora dessa esfera em que a explicação da realidade física ou social tem de conter-se e ser posta à prova não vejo que se possa espremer sumo científico doseado mas tão somente um fluxo controverso inesgotável.

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*(...) Não me parece exagerado dizer que entre os temas que a crise pôs em primeiro plano estão certamente as relações da economia com os valores, a confiança, a subordinação do económico a padrões morais, a não redução da vida ao mercado. Também se percebeu, com dramática clareza, que a teoria económica que se arroga clarividente, dona de respostas sempre prontas para muitos aspectos da vida – mesmo aqueles em que se torna óbvio que não tem nada a dizer – é afinal, uma construção frágil, recorrentemente desafiada pela renovada complexidade da realidade, que com grande agilidade lhe evidencia os limites e as falhas. Seria preciso eclodir uma crise tão dramática como aquela que decorre para que isto acontecesse? Seria preciso que a produção de desigualdades, a fortíssima inversão dos padrões de repartição do rendimento, o desapossamento da esperança de gerações inteiras se tivessem disseminado pelo mundo para que, enfim, se rediscutisse na praça pública a economia, o saber económico e o poder económico? Certamente que não. Poderíamos aí ter chegado apenas através de um escrutínio crítico mais profundo. Poderíamos aí ter chegado se a academia onde se ensina economia fosse mais aberta, mais plural, mais crítica e, portanto, mais conhecedora. Também poderíamos aí ter chegado se a vida pública estivesse menos dependente de formas de pensamento monistas, e cultivasse a contraposição e o debate. É aqui que este livro reencontra o seu lugar, ao propor uma concepção larga da problemática económica. Por estas e outras razões compreendemos hoje melhor que aqui. Não foram apenas excessos, erros ou defeitos que desmoronaram o sistema bancário e financeiro, com profundas implicações na sociedade e na vida das pessoas (de umas, muito mais do que de outras). Na razão mais profunda da crise estão as convicções que se impuseram sobre o papel e o lugar que cabem ao mercado nas sociedades de hoje. O mercado como instrumento de optimização da sociedade foi uma ideia a que não resistiram mesmo alguns dos que se presumem interessados na justiça social. Mas estes estavam enganados. Ao acomodarem-se a visões quase tão liberais como a dos liberais pensaram que podiam ser eles a fazer da regulação dos mercados um instrumento sofisticado, com que, de maneira subserviente e cerimoniosa, iam aperfeiçoar o capitalismo, que queriam entender como um sistema de concorrência que nada desafiasse. Mas não foi assim.Por isso, os desafios estão aí. Desafios ao Estado, para que não seja apenas o bombeiro que salva acidentes e socializa prejuízos. Desafios ao mercado, para que se limite ao que é próprio da capacidade de iniciativa – gerar lucros através do exercício da liberdade para criar riqueza e não da submissão à lógica especulativa de todas as esferas da vida em sociedade, incluindo aquilo que, como a educação, a saúde, as poupanças, o bem-estar futuro das pessoas, só a esfera pública pode colocar num contexto onde impere a justiça. São, pois, claras as fronteiras entre o que deve ser próprio da provisão pública e o que é próprio da iniciativa privada. Mas a arbitragem só pode ser feita por um intenso escrutínio colectivo. (...)

José Reis. Prof. Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Investigador do Centro de Estudos Sociais.

transcrito, parcialmente, de aqui

Friday, February 05, 2010

O GRANDE ECONOMISTA

"(...) começou algo. Para mim, o princípio da solução que, como prefiro, será feita pelos mercados… É que não há mesmo outra via, em regime de economia aberta. De notar que tudo está a acontecer sem os tais investimentos, em resultado da resposta (deste e demais governos europeus) à crise. Vamos ver os episódios que se seguem; como responde a Comissão, se o FMI vem aí como recomenda o FT de hoje, se vai haver subida de impostos. Ou se saímos do euro, coisa que está seguramente já em cima da mesa de algumas pessoas importantes." - Pedro Lains
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(A resposta) fica para a conversa aprazada.
É pena. Porque se o tempo tudo resolve, o mercado também, mas à sua maneira.
J.E.Sitiglitz, no seu livro mais recente, Freefall, insiste vementemente na tese contrária: O mercado não é, só por si, solução. Foi a aplicação da convicção contrária que esteve na gestação da crise.
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Um economista, razoavelmente conhecido, costumava empilhar os processos que lhe eram submetidos a despacho em cima da secretária, de tal modo que, quem lhe entrasse no gabinete não sabia se ele estava ausente ou presente por detrás da papelada acumulada.
Segundo ele, o tempo tudo resolve. De modo que os processos transitavam de "pendentes de análise" para "a aguardar despacho" para "à espera que o tempo resolva". E nunca, assegurava ele, um problema tinha ficado por resolver.
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Assim, a preferência de PLains: Para quê soluções intrincadas e politicamente indigestas se o mercado, isto é, o tempo, tudo resolve?
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E resolve, não há dúvida, à sua maneira.
Não há mal que sempre dure, lá diz o povo. Ficamos é sem perceber porque é que existem economistas.