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Thursday, November 23, 2017

HÁBITOS IMPORTADOS


Tudo o que sirva o impulso do consumismo expande-se como uma praga. 
É bom que assim seja, defendem uns, com isso se anima o comércio e, com a animação do comércio, a economia. Com isso, cresce o PIB, a senha e o salvo conduto para o bem da humanidade. 
Há dias aconteceu o Halloween, o dia das bruxas, os supermercados enfeitaram-se com esqueletos, teias de aranha, bruxas a voar. Um hábito de importação recente a que os portugueses mais novos aderem de ano para ano com notável entusiasmo. A bem do comércio, da economia do PIB. 

Hoje, quarta quinta-feira de Novembro é dia de Thanksgiving, Dia de Acção de Graças, nos Estados Unidos, Canadá, e em mais alguns países, entre os quais o Brasil!
Durante este fim-de-semana prolongado, entre ontem e domingo, mais de 46 milhões de norte-americanos, vd. aqui, atravessam o país para estar com a família e os amigos. Uma celebração com dimensão idêntica à que no mundo cristão têm o Natal e a Páscoa, que, nos Estados Unidos são menos mobilizadores da reunião das famílias.

Em todo o caso, o Halloween, o Thanksgiving, a Páscoa, e, daqui a dias, o Natal e o Fim do Ano, têm em comum um efeito de enorme relevância no crescimento imparável do consumismo.
Tendo os portugueses aderido tão entusiasticamente ao Halloween é esperável que, mais ano menos ano, estejam alegremente a celebrar o Thanksgiving. Entretanto, enquanto o Thanksgiving não chega, já chegou o Black Friday, a Sexta-Feira Negra, no dia seguinte ao Thanksgiving, isto é, amanhã.
E, neste caso, não há justificações históricas nem religiosas: a Sexta-Feira Negra é mesmo para comprar mesmo sem se saber porquê.  Muitos compram o que não precisam, outros vêm pechinchas onde estão truques de marketing.

No fim, cresce a economia portuguesa?
Os que vêm no crescimento do consumismo uma alavanca do crescimento económico, a ala esquerda do trio que apoia o Governo, não querem reparar no desequilíbrio da balança comercial com o exterior, no crescimento do endividamento do Estado e das famílias. O que lhes importa, sobretudo, é o crescimento dos votos que se entusiasmam com as suas promessas.

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A propósito do Thanksgiving: As suas origens nos EUA deram lugar à congeminação de histórias que, geralmente, deturpam, invertem ou obscurecem alguns factos nada merecedores da celebração nacional em que se tornou o Dia de Acção de Graças.
O Economist desta semana explica aqui, de forma sucinta, porque acontece o "Thanksgiving". 




Neste quadro, pintado entre 1912 e 1915, aparecem colonos britânicos, bem ataviados e nobre aspecto oferecendo comida aos autócones que encontraram após o desembarque em terras do outro
lado do atlântico.

A  provável realidade terá sido totalmente inversa: aos colonos, exauridos pelos tormentos da viagem, famélicos e sequiosos, ofereceram os locais comida e água. A esta recepção de boas vindas seguiram-se lutas e contágios que dizimaram praticamente toda a população indígena. Cerca de meio século depois, os colonos celebraram o Thanksgiving, empalando a cabeça do filho do chefe da tribo que os havia recebido depois de terem derrotado os indígenas numa batalha ocorrida em 1676. 

Thursday, December 01, 2016

HISTÓRIAS PARALELAS - E QUE VIVA ESPANHA!

Já em tempos anotei aqui que, por ter faltado o Frederico a uma aula, faltou-me o guache vermelho para pintar um burro castanho e Mestre Santa Maria riscou de uma ponta a outra a minha obra com um lápis encarnado. O Frederico, fiel depositário do vermelho, era meio endiabrado. A aula de desenho estava instalada no salão nobre da escola, as pequenas mesas de trabalho eram mais elevadas que as carteiras normais e os bancos móveis. Em dias comemorativos ou de recepção a alguma individualidade oficial, os contínuos retiravam as mesas e os bancos para um espaço de arrumações no rés-do-chão do edifício, e as aulas de desenho eram suspensas durante dois ou três dias, uma festa a triplicar para os artistas de palmo e meio.

Naquele ano, o primeiro de Dezembro entrou na quarta-feira, na segunda ainda houve desenho, na terça quem teria aula não teve porque a sala foi evacuada dos equipamentos habituais e colocada no extremo-direito da sala uma base elevada onde era instalada a mesa dos oradores que naquele dia incitavam o ardor nacionalista inspirado na "expulsão dos castelhanos", de um tal de Vasconcelos atirado janela fora por estar a tremer de medo, vejam lá se isto se percebe, dentro de um armário onde se tinha metido, pequeno demais para o tamanho dele, coisas que só costumam acontecer nas anedotas de amantes clandestinos surpreendidos em flagrante acontecimento. Era este Vasconcelos descendente, mas, provavelmente, no salão nobre onde se enaltecia a raça em doses brandas, ninguém sabia, talvez porque não houvesse ainda Internet, de D. Sancho I de Portugal, Henrique II de Inglaterra, Roberto II de França, Carlos Magno, entre outros das mais variadas nacionalidades. Com tão dispersa e dourada ascendência é admissível que o Vasconcelos não estivesse muito certo de que terra era. Além do mais, Vasconcelos foi defenestrado por ter aumentado os impostos, a mando de Filipe IV. Imagine-se quantas defenestrações haveria se hoje ainda o português valente mantivesse o sádico gosto de mandar os elevadores de impostos pela janela abaixo!

Na aula de desenho, mais ou menos a meio da sala, sentava-se, estrategicamente, na mesa à minha direita, o Frederico, o tal do guache vermelho, e os outros sócios da cooperativa das cores na mesma zona. Na mesa à frente do Frederico, a Amélia. 
Já não me recordo qual era a empreitada artística  de que estávamos incumbidos naquela segunda-feira. Do que me recordo, e seria preocupante se agora me tivesse esquecido, é da arte e enlevo com que Mestre Santa Maria, de pé, debruçando-se sobre a mesa de trabalho onde se sentava a Amélia, sustentava a posição com a mão esquerda e pincelava à direita umas andorinhas a esvoaçar sobre um castelo, seria um castelo?, que a nossa colega de turma tinha desenhado. 

A cada andorinha pincelada, Santa Maria endireitava o corpo, mirava o trabalho e voltava à posição anterior para outra andorinha. E é neste vai e volta às andorinhas que ao Frederico, que tinha mergulhado o pincel no guache vermelho, ocorre o incontido impulso de se debruçar para a frente sobre a sua mesa e passar o pincel pela parietal da calva de Santa Maria. Reage, instintivamente o Mestre, passando a mão direita por onde sentiu uma passagem fugaz, e fica apopléctico a olhar a mão manchada de sangue.
Santa Maria, já se disse, tinha atribulações mentais controladas, e essa vulnerabilidade era conhecida e respeitada pelos seus colegas mais novos, mas não comovia a garotada em transição para a juventude. E ficou possesso à procura da campainha que lhe trouxesse o contínuo de serviço e transporte para o hospital. 

Veio o contínuo, que convenceu Santa Maria que aquilo não era sangue mas tinta, e que, talvez ele mesmo, tivesse passado pela cabeça, distraidamente, o pincel com que pintara as andorinhas da Amélia. Não deveria o contínuo ter ido além das suas atribuições, não há andorinhas vermelhas e se aquilo era sangue ou tinta só o no hospital se averiguaria.
Ali mesmo ao lado, não contive o riso, e a risota espalhou-se.
Fomos imediatamente, eu e o Frederico, postos fora da sala. 

No dia 1 de Dezembro também fui dispensado das cerimónias. Eu, e a grande maioria, porque nas coreografias da Mocidade Portuguesa só entrava quem tivesse farda, e as fardas eram poucas  para o número total de alunos da escola, e no salão nobre, a nossa sala de desenho em dias úteis, não cabia mais ninguém além dos convidados, professores e alunos fardados.
Na segunda-feira seguinte soube-se que o Mestre já não voltaria até às férias do Natal.
Depois reformou-se.

Com o fim das aulas, princípios de Verão, a cidade começou a receber os habituais banhistas de Castilla y Leon: Salamanca, Zamora, Ciudad Rodrigo. Pelo fim da tarde, no jardim a animação  da pequenada espanhola, sob o olhar atento das mães, competia com a chilreada dos pardais. De olhos fechados poderíamos supor encontrarmos-nos em Burgos num fim de tarde.

E perguntava-me se ainda fazia algum sentido celebrar-se no inverno a expulsão de um povo que recebíamos de braços abertos no verão. Só faria porque o regime se sustentava, e continuou a sustentar-se  ainda durante vinte anos, numa excitação nacionalista que tinha, poucos anos antes, destroçado a Europa.


E que ameaça voltar a destroçar num cerco que se aperta desta vez de leste a oeste do mundo ocidental.
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Nos últimos três dias, as mais altas individualidades deste país receberam pomposamente os Reis de Espanha. No Porto e em Lisboa, os presidentes das duas principais autarquias entregaram-lhes as chaves de ouro das cidades. Filipe VI discursou ontem na Assembleia da República e, segundo me pareceu ouvir, só o BE não aplaudiu o monarca.
Esta manhã ouço na rádio que o trânsito está fechado na Avenida da Liberdade em Lisboa para desfile com filarmónicas celebrando a Restauração.
Restauração de quê?
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Correl . - The new nationalism

Thursday, May 26, 2016

DIA DE CORPO-AO-SOL

Feriado à quinta é ponte garantida para o Algarve, onde muitos trabalhadores portugueses gozarão de novo umas mais que merecidas férias de primavera. Ainda assim, as praias de Cascais, apesar do tempo incerto, estavam animadas esta manhã e os restaurante e bares movimentados. 
É bom para o turismo, dizem os operadores do sector, e não quebra o PIB, garantem dos actuais lados governamentais. O melhor dos mundos, portanto. 



Menos bom, porventura, para o mundo da Fé já que as obrigações católicas que determinavam que os crentes não faltassem hoje à Santa Missa e não se ausentassem os Bispos da sua diocese. Mas se é indubitável o cumprimento das obrigações dos Bispos em Dia de Corpo de Deus é duvidoso que muitos crentes católicos não tenham neste dia feriado cedido à tentação da exposição solar do próprio corpo.
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Segundo informação recolhida aqui, o Dia de Corpo de Deus é feriado oficial na Áustria, na Bolívia, na Croácia, no Liechtenstein e na  Polónia. É ainda feriado em algumas regiões da Alemanha, da Suíça e da Espanha. 

Thursday, June 04, 2015

E VIVA O DESCANSO!


O Financial Times de hoje publica hoje, aqui, um artigo - In defence of Europe's long holidays - que aborda o tema recorrente da relação entre horas de trabalho e produção obtida. E, como sempre, as conclusões suportam-se em estudos académicos que pouco acrescentam ao que há muito se sabe: Não são os que mais horas trabalham os que alcançam níveis de produtividade mais elevados. Mas daí até concluir-se que é mais produtivo quem goza mais férias e feriados pagos é, obviamente, absurdo.

E é absurdo por múltiplas razões, a mais evidente das quais é a diversidade do trabalho. Aliás, um gráfico que acompanha o artigo do FT coloca a Áustria e Portugal nos lugares cimeiros de uma short list de países em número de férias e feriados pagos, e ninguém concluirá que a produtividade de austríacos e portugueses são semelhantes e ambas de níveis elevados.

Há, no entanto, um aspecto importante referido no artigo que merece reflexão: até que ponto a produtividade pode ser aumentada reduzindo o número de horas trabalhadas por cada indivíduo aumentando, em contrapartida menos que proporcionalmente o número de trabalhadores.

Para essa razão merece ser lido e reflectido este artigo.