Monday, October 31, 2005

A VOO DE GAMBOZINO

(A propósito de “Portugal a voo de pássaro” de José Pacheco Pereira, e de “Portugal, Hoje – O Medo de Existir” de José Gil)

Os gambozinos não existem, pensam os gambozinos.

Tal qual os gambozinos, os portugueses, mais do que terem medo de existir (tese que tem rendido ao seu autor muito mais que ele estava à espera, o que comprova o receio generalizado da existência de uma patologia social endémica), os portugueses simplesmente não existem. Para cada português, em geral, o País continua a ser uma choldra e a culpa é dos portugueses.
Que portugueses?

Pois, naturalmente, os outros. De modo que, como da auto exclusão das partes não pode se não resultar a auto exclusão do todo, os portugueses não existem pela mais que óbvia razão de pensarem que não existem.
Todos os portugueses? Nem todos. O Filósofo JG avisa-nos (pg. 43) que

“A leviandade suscitada pela não-inscrição permite que a lei não se cumpra ou que dela se escape, que os programas não se realizem, que não se pense nunca a longo prazo, que as fiscalizações não se façam, que a administração não se transforme realmente, que os projectos de reforma não se executem, que os governos não governem. Nada tem realmente existência.” E (pg. 71) “Portugal arrisca-se a desaparecer.”

Temos de convir que a leviandade de que fala o filósofo não se aplica aqueles que não têm o mínimo entendimento destas questões. E são muitos.

Por outro lado, o Historiador JPP (Publico de 28/4/2005) mostra-nos um “retrato de Portugal bem triste e sinistro, que se agrava todos os dias, numa obra de destruição em que muitos portugueses estão activamente empenhados, perante a complacência e a colaboração activa do Estado e das autarquias...” “Começo. Caminhando pelo ar, a direito, passo por uma ETAR (estação de tratamento de águas residuais) que começou a ser feita num local, depois verificou-se que havia um erro de localização e construção e mudou-se para outro. Parece que a consistência das terras impedia a construção. Responsabilidades? Nenhumas. Depois a mesma ETAR que devia funcionar há muito, não está a funcionar, os esgotos correm em campo aberto perante a indiferença generalizada, com excepção dos mosquitos e moscas.”

E continua a mostrar-nos outros retratos igualmente deprimentes.

JPP habituou-nos a ver nele uma atitude de independência que não cede aos favores que a proximidade do poder geralmente concede e a uma isenção na análise que não concede favores nem aos seus mais próximos.

JG, embora muito menos conhecido dos portugueses, é um pensador prestigiado no estrangeiro, que por ter vindo dizer que em Portugal, hoje, subsiste o medo de existir, pôs muita gente a perguntar: quem é este?

Temos, portanto, duas personalidades de indiscutível bagagem e prestígio que desta feita se juntam à volta da mesa das lamentações onde a generalidade dos portugueses que, quando não se queixam dos árbitros de futebol, se queixam dos outros portugueses. Aliás, à mesma mesa se sentam quase todos os analistas políticos com lugares vitalícios nos jornais, na rádio e na televisão.

Porquê?

Porque é que JPP, que conhece bem a realidade portuguesa e sente certamente o choque dos contrastes todas as muitas vezes que aterra na Portela de Sacavém se lembra, no fim deste Abril, de nos recordar a nossa choldra? Porque é que JG, verbera os nossos medos, as nossas pequenezas e os nossos queixumes, mas a sua verberação não passa, afinal, de um lamento, também?

Percebe-se que a grande maioria dos portugueses não consiga ir além da queixa contra o governo e vote contra quando lhe dão oportunidade para isso e não tem melhor programa para esse dia. Geralmente, neste lado da mesa, o governo, qualquer que ele seja, é o bombo da festa.

Os portugueses deste lado não se recriminam dos outros, normalmente ignoram-se mutuamente e todos esperam que o governo resolva tudo. Se, ocasionalmente, congregam forças é para protestar e pintar a manta.Do outro lado da mesa, abancam as elites, os analistas, os políticos, os “opinion makers”. Aqui, neste outro lado, uns são irredutivelmente pró, outros contra o governo, e todos contra todos. É, sobretudo, deste lado que voam os gambozinos.

O caso da ETAR sobrevoada é só uma prova muito evidente, entre muitas outras (igualmente demasiadamente evidentes) da existência de gambozinos. Os gambozinos, como se sabe, pensam que não existem, sapando, deste modo, a basezinha do racionalismo. Ora o mesmo acontece neste caso pouco singular da ETAR sobrevoada.

JPP sabe muito bem que há responsabilidades e há responsáveis, os gambozinos é que andam por aí a fazer crer o contrário aos burgessos.Porque é que JG não vai além do estafada lamentação das causas do nosso atraso?

“Foi o salazarismo que nos ensinou a irresponsabilidade – reduzindo-nos a crianças, crianças grandes, adultos infantilizados.” Pag. 17.

Note-se como, neste caso, a não auto exclusão (JG seria, também ele, um adulto infantilizado, irresponsável até) funciona como camuflagem de um acto de mágica: o autor não se exclui mas espera que os leitores minimamente preparados o excluam e se excluam a eles também. Restarão os outros, os burgessos, os que se deixaram infantilizar e são, portanto, os responsáveis pela irresponsabilidade do sistema.

O anedotário português remonta as causas do nosso atraso ao Afonso Henriques mas com anedotas não vamos lá. Mesmo as causas da decadência dos povos peninsulares enunciadas por Antero onde é que já vão! Quando o Eça chamou a isto uma choldra, Salazar ainda não era nascido. E a choldra a que o Eça se referia não tinha que ver com as estrumeiras á porta dos casebres nas serras. A única coisa que o Zé Maria conhecia das serras era o arroz de favas, se é que as chegou a provar.

Mas ainda que possamos convergir no elenco das causas que formataram o nosso presente que vantagens temos em tatuar-nos de passado?

Somos um país de chorões que levou demasiado longe a convicção de que quem não chora não mama. O pior serviço que nos podemos prestar é arranjar argumentos para nos justificarmos e expor as nossas mazelas ao espanto alheio.

“Que força ética resta àqueles que não param de se queixar, achando-se vítimas da sociedade e dos outros, da infância e da má sorte, e fazem disso o sentido das suas vidas.?” Pag. 101.

A que lado da mesa se dirige JG? Aos que não tiveram infância? Aos desafortunados? Coitados deles! Mesmo que se queixassem, quem é que os ouviria?

Não, não pode ser a esses que passam a vida sem entender o sentido do caminho que percorrem. E são, lamentavelmente, muitos.Queixam-se, em regra, os que menos razões teriam para se queixar, por que a sorte ou a habilidade os favoreceu. Além, claro dos profissionais da queixa, os tais que fazem disso o sentido das suas vidas.

Uma das pechas da lamentação nacional é que tende para mais infinito: começa-se e só se acaba por esgotamento de qualquer outra coisa e nunca de motivos. Geralmente ninguém sugere propostas, não se discutem soluções porque se afina naturalmente o coro dos lamentos mas não se atina com o tom para uma discussão construtiva. E na próxima oportunidade lá nos sentamos, de novo, à mesa das lamentações.

A mudança, se a queremos, não passa pela lamentação porque já ninguém se comove. E a mudança só pode operar-se se mudarmos as atitudes perante os problemas e a responsabilidade pela mudança de atitudes compete, irrecusavelmente, ao grupo dos mais favorecidos.

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