Friday, May 01, 2020

CONVERSAS EM CLAUSURA


- Estou confinadíssima. Tive de comprar máquina de roupa (ia a um self próximo) ;  avariou a da loiça, substituída por nova (tinha garantia); a nova teve problema e veio o técnico. Já funciona, menos eu que tive de retirar e tapar e depois desinfectar tudo, de todas as vezes que vinha um deles. Montaram por muito pedido meu (sou velhota e sozinha) porque é uma confusão de instruções de protecção, sobretudo sobre as máscaras neste país que se fica como o tonto no meio da ponte.
Quando será que nos abraçamos e aos netos e filhos? Para a semana, cuidadinho, que será a "largada de touros desembolados" a pensar que acabou a comédia e a Santa nem saiu do altar. Tenho andado pouco inspirada, mas irá devagar a mão ao pincel. Entusiasmei-me com pequena jardinagem e arranjo nas duas boas varandas. Só que o corona não nos deixa à vontade. Falta-me piscina, esqueleto queixa-se. Faço yoga em casa. Abraço forte para vocês.

- Tem cuidado porque já não temos garantia e as peças de 43 estão descontinuadas! Temos de ter humor, a ver se resistimos. Abraço grande. 

- É a patine, com ela é-se mais valioso.

Thursday, April 30, 2020

APOCALYPSE NOW - 2020


Estamos a rever Apocalypse Now - Final Cut, realizado em 1979 por Francis Ford Coppola.
Ontem chegámos a cerca de 1/3 do final desta nova versão, apresentada há poucos meses nos cinemas.

Hoje, deu-se o acaso de ser publicado no Washington Post um artigo - Vietnam offers tough lessons for U.S. on coronavirus. Como, provavelmente, o acesso está limitado, transcrevo alguns períodos desse artigo.

"The United States passed a tragic milestone this week in its novel coronavirus outbreak. Less than three months after the first case was confirmed on U.S. soil, more lives have now been lost in the United States from the pandemic than the 58,220 Americans who died over nearly two decades of fighting during the Vietnam War. 
Coincidentally, the fall of Saigon 45 years ago this Thursday ended that conflict. But despite these milestones, in Vietnam many are focused on a very different marker: According to official figures, the country has recorded no new cases of domestic transmission of coronavirus in almost two weeks."
 
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Tuesday, April 28, 2020

O IMPÉRIO DO MEDO

Provavelmente, nunca na história da humanidade a dicotomia entre segurança e liberdade foi tão dramática. Nem Orwell sequer sonhou que a humanidade alguma vez enfrentasse uma situação em que a liberdade pudesse ser sequestrada por meios que, provadamente, garantiram que um vírus sequestrador fosse sequestrado, salvando milhões de vidas. 

A China, onde o maldito vírus deu os primeiros sinais da sua velocidade de contágio e grau de  letalidade, tem cerca 1,4 mil milhões de habitantes, os EUA com cerca de 330 milhões têm menos de 1/4 da população chinesa. Até ontem, segundo dados da OMS, a China registava 4633 mortes, um número que nas últimas semanas não tem observado subidas significativas, do frio ponto de vista numérico. Os EUA tinham atingido 56803 mortes, praticamente na sua totalidade nas últimas semanas, com tendência crescente, doze vezes mais que o número tendencialmente estabilizado, observado na China. 

Mas a China é um país governado por uma ditadura, argumenta-se, ainda que no Japão, governado democraticamente, com 126 milhões de habitantes registasse até ontem 385 mortes. Argumenta-se que os orientais desde há muitos anos se habituaram a proteger-se, nomeadamente,  com máscaras, quando as condições envolventes recomendam essas protecções. 

Por cá leio no JN de hoje:  Medir a febre no trabalho? O que deve ser salvaguardado.  A  Comissão de Protecção de Dados não tem dúvidas: com a lei como está, uma medida deste tipo só é possível no âmbito da medicina do trabalho. O Governo já avisou que vai mudar a lei, mas os sindicatos alertam que há fronteiras que não devem ser transpostas. - cf  aqui

Também é público que predomina, ainda, que a geolocalização dos infectados e daqueles que com eles tiveram contactos, não é tolerável em democracia, uma conquista civilizacional inegociável. Por outro lado, os médicos em geral, aqueles que batalham contra o monstro na linha da frente porque a defesa civil, também desta vez, não compareceu a tempo, avisam que um retorno à normalidade, e o que é isso nas circunstâncias actuais?, é para já prematuro e arrisca despoletar uma segunda vaga com consequências muito mais dramáticas. 

Espera-se que os sindicatos, por um lado, e aqueles que vêem na democracia uma donzela inviolável até nas unhas dos pés, não estejam a ser promotores de um dilúvio em que se afundarão irremediavelmente as democracias liberais.

Se uma empresa, em fase de retorno às suas actividades, pretende defender os que nela trabalham, garantindo-lhes segurança e confiança, quem é que, racionalmente, se opõe? 

Numa perspectiva doméstica, que confiança tenho na não infecção de um técnico, e ele em mim, se tenho a máquina da roupa avariada desde ontem, ou a máquina da louça, ou o frigorífico, ou a televisão, por exemplo? Posso lavar a louça à mão, a roupa será mais difícil porque abandonámos o tanque há muitos anos, dispensamos o frigorífico comendo apenas alimentos comprados nos últimos dois dias, sem nenhuma tristeza dispensamos a televisão, mas se a canalização da água ou do gás se rompem? Podemos sobreviver sem gás, mas podemos sobreviver sem água? Não podemos. Chamamos o técnico da companhia das águas. Posso confiadamente  deixá-lo entrar em minha casa, e virá ele confiante que em minha casa ainda não entrou o invisível e imprevisível monstro?

Fala-se pouco destas ninharias, as discussões, as opiniões, mais correntes, situam-se a níveis de abstracção incompreensíveis quando o mal galgar a terra  em nome da tal donzela inviolável, mesmo até no dedo do pé, que se afundará quando já não tiver pé.

Saturday, April 25, 2020

25 DE ABRIL SEM CLAUSURA


Revi esta noite num espaço televisivo "... a madrugada que eu esperava, o dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio, e livres habitamos a substância do tempo"*, emocionaram-me, emocionam-me sempre que revejo, as imagens, os sons, as canções, os testemunhos dos revoltosos que realizaram o golpe de estado imediatamente abraçado pelo portugueses movidos por um impulso libertador enclausurado durante quase meio século, e que, com esse abraço decisivo fizeram uma revolução.

Mas foi uma revolução que tropeçou, frequentemente, ao longo de um ano e meio, em golpes e contra golpes, alguns dos quais tinham como objectivo explícito destruir a liberdade conquistada pelo povo nas ruas e instalar outra ditadura camuflada de liberdade condicionada por outro partido único. A democracia, como expressão livre da vontade do povo, só viria a consolidar-se a 25 de Novembro do ano seguinte.

Escrevo ao mesmo tempo que ouço a transmissão dos discursos na Assembleia da República, repetidos e requentados, os partidos a acusarem-se, reciprocamente, como sempre, das causas do nosso descontentamento colectivo, tendo este ano, em tempos de pandemia, a celebração na AR  como prato forte das querelas partidárias. A terminar, o Presidente da República gastou cerca de metade do seu tempo de discurso com a sua nunca dúvida de que o 25 de Abril, também este ano, (ainda que não o tenha sido sempre), teria que ser celebrado na AR.

Quantos portugueses terão ouvido estes discursos de princípio ao fim?

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* Obviamente, Sofia de Mello Breyner Andersen

Friday, April 24, 2020

CONVERSAS SEM CLAUSURA


 ONTEM
...
-  Sabes por que razão desinfectam ruas e prédios por onde é suposto terem passado ou habitado pessoas infectadas com o corona? Aliás, vêem-se na televisão imagens se pulverização de desinfectante na Coreia do Sul, por exemplo. Desinfectam as ruas mas também as pessoas que desembarcam em aeroportos ...
- Naturalmente, para matar o vírus.
- O vírus pode pegar-se aos sapatos se caminhamos na rua?
- Claro que pode pegar-se.
- E, como é que fazes: chegas a casa e descalças os sapatos ...
... descalço os sapatos e calço outros.
- E desinfectas os tapetes do carro?
- Não, isso não. Mas agora ando pouco de carro, e o vírus, se entrou, morre ao fim de algum tempo.
- Quanto tempo?
- Umas horas, quanto muito um ou dois dias.
- E quem anda diariamente de carro, que entra e sai do carro várias vezes por dia?
- Não sei como faz. Imagino que desinfecte o carro no fim de cada dia, antes de entrar em casa.
- Mas se desinfecta antes de entrar em casa, e não arruma em garagem do prédio, como é que vai para casa sem voltar a pisar a rua?
- Não sei.
- Mas, voltando à desinfecção das ruas, se o desinfectante mata o vírus porque é que não pensam os cientistas em desinfectar os infectados por dentro?
- Por dentro? Estás a gozar comigo ...

HOJE

...
- Recordas-te da nossa conversa de ontem?
- Qual delas?
- A desinfecção dos infectados.
- Lembro. ...
- Repara nesta notícia publicada hoje: Trump propõe curar Covid com injeção de desinfetante nos pulmões ou tratamentos de calor.
- Como é que isso se faz?
- Lê a notícia toda.
- Mas tu dás algum crédito ao que Trump diz?
- Eu não! Mas, mas mais ou menos, metade dos norte-americanos dá.
- É preocupante, não?
- Se é!
- Mas ontem tu não disseste o que o Trump hoje disse?
- Disse, mas não esperava que ele me ouvisse ...

Thursday, April 23, 2020

GRAÇAS A ZEUS?


Obrigado pelo seu comentário.

Num ponto estamos de acordo: "vamos ser um dos países do mundo com mais dificuldade para retomar a nossa vida anterior. Aqui também manda quem é mais rico e pode suportar melhor casos destes."

Mas não me parece que a relação entre número de infectados e PIB/capita seja a relação mais determinante para enfrentar as consequências da pandemia sobre a economia quando ocorrerem condições para a retoma da utilização da capacidade instalada. O que é mais preocupante para os países é o endividamento que têm de enfrentar e a capacidade para o pagar. Também é muito relevante a estrutura da actividade económica: o peso do turismo na economia portuguesa é um significativo handicap para a recuperação.
A dívida portuguesa já era enorme antes da pandemia, a que níveis irá subir, ninguém sabe, mas serão certamente elevadíssimos. 

Este o nó górdio que ou as instituições europeias, neste momento em negociações complicadíssimas conseguem desatar, avançando para uma cooperação só possível naquilo a que há muito tempo chamei neste caderno de apontamentos uma federação mínima, ou a União Europeia desintegra-se.

Portugal, mas não apenas Portugal, também a Itália, a Espanha, até a França, entre outros (e a Grécia?, é muito estranho que ninguém fale da Grécia, tem um número relativamente reduzido de infectados, para já, mas a dívida grega não deixou de ser enorme, ou deixou?) *

Resumindo: Sendo a pandemia uma ameaça global, as suas consequências na esfera económica serão também globais. Piores para uns, os mais pobres, que para outros, os mais ricos, certamente. Mas, relativamente, muito piores para os mais endividados no fim da pandemia, se não houver cooperação entre países. 

Há muita gente a dizer o mesmo, mas nem todos o que dizem o mesmo estão a pensar o mesmo.

 ---
* No dia 11 deste mês, podia lar-se num artigo do Público, vid. aqui,
que
       "... Por trás do sucesso está a entrada do país em regime de quarentena muito antes de a epidemia ganhar dimensão. Ao contrário de Itália ou de Espanha, as autoridades gregas esperaram menos de duas semanas desde o primeiro caso de confirmado encerrar as escolas e cancelar grandes eventos - nos dois países mais afectados, por outro lado, passou mais de um mês até que essas decisões fossem tomadas"...

"O analista da Fundação Helénica para a Política Externa e Europeia, George Pagoulatos, disse à Al-Jazeera que “talvez tenha ajudado o facto de a Grécia estar num estado quase constante de gestão de crise desde 2010”.

“Não sofremos do tipo de complacência que as  economias que estão em bom estado podem dar-se ao luxo de ter” .... "O Governo conservador liderado por Kyriakos Mitsotakis não esconde que uma boa gestão da pandemia se tornou numa forma de o país recuperar credibilidade junto dos parceiros europeus. “A Grécia emergiu de uma crise económica de dez anos com a sua credibilidade atingida e queríamos ultrapassar o rótulo de ovelha negra da Europa”, disse à Al-Jazeera o conselheiro económico de Mitsotakis, Alex Patelis"...

A propósito das consequências económicas e financeiras destas políticas de contenção da pandemia, que, segundo os últimos dados, continuam a ser bem sucedidas, não vi, desde então, nenhuma informação, nenhuma referência nos noticiários na rádio ou na televisão. 
No news, good news?




 

Monday, April 20, 2020

VACINA EM OUTUBRO?

Cientistas suíços esperam ter vacina contra o coronavírus em outubro

Uma vacina contra o novo coronavírus pode estar pronta para uso na Suíça em outubro próximo, anunciaram hoje cientistas de uma equipa que trabalha no desenvolvimento deste produto no Hospital Universitário de Berna e na indústria de biotecnologia. 
 
Cientistas suíços esperam ter vacina contra o coronavírus em outubro
Bloomberg
 20 de abril de 2020 às 21:48  
      
(publicado hoje 20/04 aqui)
 
"Esta será a primeira ou uma das primeiras vacinas" a conter a pandemia do covid-19", disse em conferência de imprensa o chefe do Departamento de Imunologia do Hospital Universitário de Berna (também conhecido como Inselspital), Martin Bachmann, que lidera o trabalho de pesquisa.

Este trabalho de pesquisa da vacina está agora no estágio de teste de eficácia e de segurança.

O especialista garantiu que existem "possibilidades realistas" para iniciar uma vacinação em massa da população suíça em outubro, um período muito mais curto do que o de 12 a 18 meses, com base no qual especialistas e empresas do setor farmacêutico trabalham.

Bachmann explicou que a pesquisa que dirige está a ser feita em colaboração com instituições científicas do Reino Unido, Letónia e China, bem como da Universidade de Zurique.

A investigação está numa fase em que foram resolvidos problemas que possibilitarão a realização de ensaios médicos (com pessoas) em agosto e uma comercialização da vacina dois meses depois, adiantou.

A tecnologia escolhida gera alta imunogenicidade, o que a torna adaptada para idosos, não possui contraindicações para quem sofre de doenças crónicas e é muito produtiva, pois com uma pequena quantidade de vacina podem ser produzidas 20 milhões de doses, explicou, nesta conferência de imprensa virtual, a partir de Berna.

Sobre a segurança oferecida pela vacina, Bachmann afirmou que "tudo está a ser feito de acordo com os padrões, mas de maneira acelerada", acrescentando que estão a ser seguidas as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além disso, o especialista argumentou que a vacina ou as vacinas usadas contra o novo coronavírus provavelmente oferecem proteção a longo prazo e não é necessário renová-las a cada ano, como no caso da gripe.

Isso, explicou, ocorre porque o SARS-CoV-2, que causa a doença da covid-19, é um vírus "estável" e não foram encontrados motivos para pensar que seja suscetível a mutações de curto prazo e, portanto, "uma eventual vacina provavelmente não será proteger por toda a vida, mas por um período de cerca de 10 a 15 anos".

A equipa de Bachmann trabalha com a Saiba, uma empresa de biotecnologia especializada em vacinas e que lida com questões de regulação e de financiamento desse projeto, que seria realizado em parte por uma fundação da Universidade de Zurique.

No processo de pesquisa e desenvolvimento, o diretor de operações da Saiba, Gary Jennings, disse que há conversas com os farmacêuticos suíços Novartis e Lonza sobre a futura produção da vacina.

O executivo e médico em bioquímica explicou que espera chegar a um acordo com as agências reguladoras e as autoridades suíças para realizar uma vacinação em massa, considerando "a longa história de pragmatismo" que o país possui. "Acreditamos que podemos chegar a um acordo com o Governo suíço para tornar a vacina uma realidade rapidamente", estimou.

Também garantiu que a equipa que trabalha neste projeto está disposta a facilitar a transferência de tecnologia para que a vacina possa ser produzida noutros países a preços muito acessíveis.

A nível global, segundo um balanço de hoje da AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 165 mil mortos e infetou quase 2,5 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Mais de 537 mil doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 735 pessoas das 20.863 registadas como infetadas, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China

Sunday, April 12, 2020

FOLARES DA PÁSCOA



Este é o nosso preferido.
Original, elegante, uma gostosura, mesmo sem o podermos provar.
Chegou-nos, só em fotografia, dos EUA.
Mas encantou-nos.

Vão longe os tempos em que, pela Páscoa, na minha aldeia as padarias, nove, hoje resta uma, agora com produção restrita a três especialidades da terra, se dedicavam quase exclusivamente à satisfação de encomendas, que eram muitas, durante vários dias e noites.

Feitos de farinha de trigo, ovos, açúcar, fermento e água. Em cima colocavam-se um, dois, três ou quatro ovos, conforme os pedidos dos padrinhos que ofereciam o folar doce aos afilhados. Os ovos eram cozidos em água com cascas de cebola e seguros ao folar por finas tiras de massa não fermentada. Antes de ir ao forno os folares eram pincelados com gema de ovo batida.



Folar de 4 ovos feito em casa para esta Páscoa, na nossa aldeia.
Também não provámos, mas basta olhar e recordar para sentir-lhe o sabor tradicional.
Obrigado, Irmão, pela recordação.

Tuesday, April 07, 2020

PÔR OU NÃO PÔR MÁSCARA





JACINTO GONÇALVES
VICE-PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA DE CARDIOLOGIA

A atitude da Organização Mundial de Saúde (OMS) na gestão da crise do coronavírus mostra, à exaustão, o risco que existe para todos nós, cidadãos do mundo, de eleger para cargos internacionais indivíduos escolhidos por consenso, geralmente político, e não seleccionados pelo seu mérito, competência ou inteligência.
Nesta crise a OMS foi sucessivamente ambígua, ziguezagueante e contraditória. A gestão da crise assemelhou-se mais à que faria um criador de carneiros na Austrália perante uma infeção nos animais. Foi preciso deixar morrer uns tantos animais para salvar o rebanho! O objetivo não era “comprimir a mola”, “ atrasar o pico” ou “aplanar a curva”.
Ao ouvir estas afirmações parece que estamos a falar de ensaios de laboratório com ratinhos. Por muito boa vontade que tenham as nossas autoridades, não devem ir a reboque de orientações estúpidas da OMS. Oiçam pessoas com experiência clínica, como o Professor Fausto Pinto.
O primeiro objetivo nesta crise é reduzir ao máximo o número de infetados, e não aceitar como uma fatalidade que tem de haver muitos doentes e que devemos apenas distribui-los no tempo. E o único meio de reduzir o número de infeções é tomar medidas drásticas de isolamento social. E nestas eu incluo o uso de máscaras, de luvas e de óculos, para toda a gente, em sítios públicos.
Sobretudo a máscara é essencial para fortalecer o isolamento social. E não são necessárias máscaras cirúrgicas difíceis de conseguir. A República Checa deu o exemplo de como as máscaras caseiras são eficazes. Uma echarpe ou um lenço a tapar a boca e o nariz são melhor que nada. Porque o objetivo não é proteger-nos a nós. É proteger os outros da nossa infeção potencial que ainda não deu sintomas mas já é infetante. E se for necessário um contato de proximidade use luvas e óculos. Luvas de borracha, de plástico, ou mesmo de pano. Que pode recuperar mergulhando-as durante meia hora numa mistura de água com lixívia a 1/10.
Os óculos não são especiais, são os seus. Todas estas medidas têm de ser musculadas e obrigatórias para toda a gente. Porque eu não quero ver os meus colegas nas Unidades de Cuidados Intensivos a arriscar a vida longe das famílias, enquanto todos nós já aceitámos que tem de morrer muita gente, incluindo muitos médicos e enfermeiros, enquanto a curva se vai aplanando.

Artigo publicado hoje no Expresso

POUPAS EM DUETO


- Então, já voltou a poupa por aí?
- Já, já, esteve a cantar,  um regalo durante uns dias seguidos. Cantava perto mas  não sabíamos onde. Afinal estava a cantar em cima do nosso telhado. Tiro uma fotografia, não tiro porque a posso espantar. Fiquei sem prova fotográfica.
Depois, apareceu por aí o gato cinzento, o preto não sabemos o que é feito dele, não tem aparecido, e deixámos de ouvir a poupa.
Teria o safado do gato deitado a luva à nossa soprano alada? Entretanto, voltaram os dias de neblina e chuva, a poupa não gosta de cantar à chuva.

clicar para ampliar

Hoje, voltou o sol.
Ouves a poupa a cantar?
Ouço. E não está longe.
Talvez esteja em cima do nosso telhado. Não estava. Estava em cima do telhado do vizinho. E, daqui, sem perigo da assustar, saquei uma foto da soprano.
E está outra do outro lado, não no telhado vizinho mas no outro atrás.
Desisti da fotografia do tenor, com o zoom do telemóvel  não se conseguem fotos aquela distância. Mas para quê a foto, se a foto não regista o canto e é o canto que encanta?

Monday, April 06, 2020

MÁSCARA

https://int.nyt.com/data/documenthelper/6860-printable-face-mask-tutorial/ded6e67bb78f2599a7ff/optimized/full.pdf


- Agora, finalmente, a DGS parece ter recomendado o uso de máscaras.
- Finalmente, agora, porque não havia nem há máscaras para quem as queira comprar.
- Telefonei para três farmácias, uma não tinha, outra não tinha mas aceitou inscrição em lista de espera, prometeram telefonar quando recebessem nova remessa, outra tem, custa €14,75 cada uma. E é reutilizável? Pode ser se quando a retirar a colocar ao sol...
- Na Internet vêem-se várias sugestões, vídeos ou artigos escritos, para as confeccionar em casa. Mas como é que se procede quando a retiramos? Faltam, do meu ponto de vista, programas de esclarecimento da população. As camisas, camisolas, cuecas, etc. eram costuradas em casa antes de a sua produção ter sido industrializada. Por que não se ensinam as pessoas a confeccionar as suas máscaras e, sobretudo, a forma de lidar com elas?
- Já fizeste alguma?
- Já. Mas não sei se a fiz bem, e, sobretudo, não sei como lidar com ela. Os canais de televisão, que tanto espaço dedicam a ensinar receitas de culinária, por que não dedicam também algum espaço 
a ensinar com que se confeccionam, como se confeccionam, e, sobretudo, como devem os utilizadores lidar com elas sem aumentar o risco com o seu uso?

Está alguém em casa?



Tuesday, March 24, 2020

COM TERNURA, PARA SAX TENOR


A tua mulher ressona?
Foi assim mesmo, de rompante, sem bom dia nem boa tarde: A tua mulher ressona?
Era o Teófilo, o velho Teófilo Braga, assim registado pelo pai, o Joaquim Braga, entusiasmado com as promessas dos republicanos, que, quando chegavam aquele mundo de curto diâmetro já tinham corrigido várias vezes a rota sem que se quebrasse nem desanimasse a esperança do pai Braga num mundo melhor, sem reis nem duques.
Já não ouvia o Teófilo há algum tempo. Está retido em casa há meses.
Sabes, não saio, não posso sair, eu bem queria mas não posso, as minhas pernas, estás a ver, o reumatismo, o reumatismo está a dar conta de mim, a vida é uma gaita, uma grande chatice, às vezes dou comigo a pensar que só são  felizes os que não nasceram, mas não, também tive muitos momentos felizes, só momentos, momentaneamente, percebes-me? Passo a maior parte do dia sentado, as minhas pernas, dizem que é reumatismo, mas, penso eu, isto não é só reumatismo, o reumatismo já não se usa, conheces alguém preso em casa, como eu, só por causa do reumatismo? Não conheces, tenho a certeza que não conheces, não há, o reumatismo, simplesmente, já não se usa. Não tenho pernas, agora não tenho pernas, tenho trambolhos, percebes?
O maior tormento do Teófilo não era ter de passar os dias sentado, não poder sair, não ir onde lhe desse na gana, o que mais lhe doía era ter sido obrigado a deixar a banda depois de mais de meio século a  tirar delícias de som do seu maior amigo, um fiel saxofone, que ele estimava acima de tudo. Preso em casa por ordem das pernas, ainda abraça o seu sax e tira dele o que em cada momento lhe ocorre, sabe-se lá vindo de onde, mas é agora um desespero improvisado aquele tocar solitário.
Há cinquenta anos, terminado trabalho, o Teófilo refugiava-se no sótão da casa a ensaiar o que, a princípio, a vizinhança não entendia que fosse música o que saía daquela dedicação do Teófilo.
O que é isto? É música, dizem, ouvi dizer que é jaze. A mim, sempre me pareceu que ele não tem queda para a música, quem não sabe tocar coisa que valha a pena toca jaze. O problema é que somos obrigados a ouvi-lo. Quem não gosta que tape os ouvidos. Hum! E achas que é fácil tapar os ouvidos para não ouvir esta trapalhada sonora? Pois, ele bem podia ir tocar para a casa da eira, lá em baixo, no vale. Ele fazia o que queria sem obrigar ninguém a ouvir o que não gosta. Eu gosto!| Pois ninguém te impediria de ir até ao vale ouvi-lo, se gostas. Há gostos para tudo. Talvez até talvez possas vir a casar com ele. Está livre. Sempre esteve livre. Casar, ele?, e a música?, se aquilo é música. 
Música mesmo era a que os punha a dançar, ao som afinado quanto possível de orquestras de amadores formadas nas redondezas, de composição ocasional e variável, geralmente, o apresentador e vocalista, dois violinos, um baixo, um trompete, um baterista, e o sax do Teófilo a deixar o jazz em casa e acompanhar a moda no clube. A menina dança? Dançavam-se modas e o jazz, por ali, não estava, nem nunca chegou a estar na moda.
Até aquela noite de baile quando o Teófilo pediu ao baixista e ao baterista que o acompanhassem e que os outros descansassem até à moda seguinte. Era uma estreia local absoluta de Tenderly, uma pérola de swing que, por mero acaso, tinha caído nas mãos do Teófilo num disco que comprara e ensaiara, tentando seguir Ben Webster durante semanas a fio com a paixão que aquela musicalidade, ali fora da moda, desprendia em cada fôlego do saxofonista. O sax do Teófilo tocava e cantava, assim cantasse o vocalista.
Mas isto é jaze? É, dizem que sim. Se isto é jaze, gosto disto.
A orquestra passou a "Jaze", "Jazz Band" desenhado a letras bem gordas, bem visíveis mesmo ao longe, no tambor da bateria, os bailes passaram a ser abrilhantados, era o termo usado, pelos "Jazes!" onde antes abrilhantavam as orquestras, mas as modas continuaram as mesmas, só perdurou, no meio do sempre o mesmo, o Tenderly e a voz inimitável do sax do Teófilo.
Mais tarde o Teófilo casou-se, nasceram dois filhos, e o sax continuou a animar-lhe a alma depois do trabalho e do jantar, aos domingos no clube, na filarmónica, conforme o calendário dos compromissos.

Se a minha mulher ressona, perguntas tu?
Só respondes se quiseres. A minha ressona. E a tua?
Provavelmente, ressonamos os dois. Um empate é sempre um bom resultado nestas circunstâncias, penso eu, agora que me colocaste a pergunta. E tu, ressonas?
A minha mulher diz que sim, que ressono, mas não muito. Ela ressona muito.
Como sabes que ressonas menos que ela?
Tens razão. É possível que ressonemos o mesmo, o problema estará na falta de afinação para ressonar ao mesmo tempo. Como pouco me mexo, durmo de dia mais do que devia, quando chega à noite é o dormes. E agora, nestes últimos dias, com quase todo o mundo em quarentena, tenho o sono completamente virado do avesso. Sabes, habituei-me ao som da rua, à passagem do pessoal, do trânsito, agora não se ouve vivalma na rua, e durmo menos de dia. O silêncio acorda-me. Sinto então um contentamento irreprimível de que logo me condeno, penso no mundo aprisionado em casa como eu, e sinto-me acompanhado, vê lá tu. Não devia dizer isto, mas é verdade, é o pensamento numa igualdade perversa num mundo congenitamente muito desigual. Que mal fiz eu a quem para não poder andar? À noite, nestes últimos dias, já me tinha habituado ao ressonar dela, e estava a dormir alguma coisa. Mas esta noite, sem explicação visível, ela não ressonou e eu, preocupado com o que poderia estar a acontecer-lhe, ali mesmo ao lado de mim, mas receoso de a acordar, porque é que não ressonava?, ela, que ressona todas as noites, estaria a respirar?, não estaria a respirar? Não preguei olho toda a noite. De manhã, perguntei-lhe, como dormiste? Dormi bem, dormi até muito bem, há muito tempo que não dormia tão bem. Mas por que é que perguntas? Não costumas perguntar. Porque não te ouvi ressonar. Porque também dormiste bem, não? Dormi nada. Nada, mesmo.
Talvez este silêncio assustador me tenha bloqueado o subconsciente, em auto defesa, e nem sequer sonhei. E ainda bem porque, quando sonho, é cada coisa mais disparatada ou pesadelo de matar um inocente.

Que me recomendas? Agora que preciso, para dormir, que ela ressone e ela não ressona?
Amanhã telefono-te. Fazia-te bem, e à vizinhança, em clausura, que lhe oferecesses as velhas melodias que o teu sax sabe cantar tão bem. E, sobretudo, não te esqueças de lhes dar dose dobrada do Tenderly, a abrir, e, no final como encore do concerto.

Hoje, 25, liguei ao Teófilo. Atendeu-me a mulher. Então o que é feito do Teófilo a estas horas. São onze da manhã, ou tenho relógio avariado?
O Teófilo está bem. Está a dormir que nem um penedo. Doze horas seguidas.
Tomou algum soporífero?
Qual soporífero, qual quê. Se tomou soporífero só se foi sem eu saber. Mas creio que não. Não há disso cá em casa, ele não foi à farmácia porque, como sabes, não pode, e a farmácia, por estes dias tem mais que fazer que entregar soporíferos ao domicilio. De modo que ele continua a dormir a sono solto porque não dormia há duas noites seguidas. Ah! Ao almoço, bocejou e disse-me que não dormia porque eu agora não ressonava. Alguém, com juízo, entende isto. Ri-me, o que é que podia fazer? Mas está descansado que quando ele acordar, liga-te.

E ligou. Felizmente, disse ele, ela tinha voltado a ressonar.

Monday, March 23, 2020

SÓ NÃO GOSTA QUEM TEM ALTERNATIVA


E dos pássaros, por aqui, continuamos sem cantos, sem saltitos, sem voos. Só este silêncio de limbo.
Porquê? Não sei.
Diz-nos uma amiga nossa que é preciso dar-lhes de comer para aparecerem. No jardim dela tem comedouro e os pardais chegam em bandos e bulham uns com os outros.
A nós, parece-nos estranho que a passarada tenha desaparecido porque nunca os habituámos a dar-lhes comidinha no prato. Chegavam, saltitavam, debicavam na relva, onde quer que encontrassem o que procuravam, e agora sumiram-se. Porquê?
Seguimos a sugestão da nossa amiga e, desde esta manhã, têm ao dispor prato com arroz descascado, carolino, e flocos finos de aveia. É do que se consome cá em casa.
Por outro lado, recordo-me bem que em casa de meus pais se alimentavam os pintainhos, acabados de sair das cascas, com arroz. Rondava a passarada para petiscar mas a mãe galinha mantinha-os de fora a ver os seus pequenotes comer.
Os pássaros não aparecem, salvo um outro melro para se banhar na piscina deles, cá em casa não temos outra piscina. Porquê?
Dê-lhes alpista, diz-nos a nossa amiga.
Não tivemos alpista em casa. Nunca tivemos aves em cativeiro a pedir alpista, alpista nunca fez parte do nosso rol de compras.

Por outro lado, só não gosta quem tem alternativa.
Nunca ninguém morreu com fome tendo comida à sua frente.
Assim, sendo, concluo: a passarada anda por outro lado onde fisgou melhor petisco, alternativo ao que aqui sempre tiveram à sua vontade, e à ementa que, excepcionalmente, colocámos hoje à sua disposição.
Que lhes faça bom proveito.
Voltem quando entenderem.
Serão sempre bem vindos.



Sunday, March 22, 2020

PARA ONDE FOSTE PRIMAVERA?


20 de Março, começa hoje a primavera.

Ouviste cantar a poupa?
Não. E, tu?
Também não?
É estranho...
Hum! Ela aparece e desaparece, depois volta.
O mais estranho é que também não vejo os nossos melros. Nem a alvéola azul, que todos os dias nos visita, nem o pisco, nem a toutinegra, nem o rabi ruivo, nem os chapins, nem em voo alto, diário, de ida e regresso, a garça real, nem, quando menos se espera, o gaio.
Devem ter ido dar um giro, voltarão ao fim do dia.
E os pardais? Desapareceram os pardais?
Pardais é bicho que nunca desaparece.
Dizem os ecologistas que até os pardais estão a desaparecer.

21 de Março

Estás a ouvir a poupa?
Estou. A poupa voltou.
Voltou e já a vi hoje aqui a picar no jardim.
Mas não vejo os melros nem pardais. O que mais me intriga é que não se veja um único pardal, para amostra. Nem o gato que, sorrateiramente, costuma vir até cá tentar deitar unha em petisco alado distraído
É do frio e do vento. Arrefeceu o tempo, estão escondidos.

Hoje, 22 de Março

Ainda hoje não ouvi a poupa.
Nem os melros, nem os pardais.
E o dia está lindo. Há sol, o céu azul, o castanheiro mostra vigorosos ramos de folhas viçosas, os callistemon thomasi estão exuberante de flores, os outros mais atrasados, nas gravíleas vêem-se todos os dias mais flores, as felícias estão lindas, as rosas sevilhanas estão prenhes de botões e um deles partiu hoje o cálice, a estrelícia mostra ao sol, vaidosa, três exuberantes cristas, os malmequeres vestem-se ufanos de branco rosa, os leptospermum voltaram a ser fantásticas bolas de florinhas rosa, que perduram assim meses sem que o vento ou frio as desanime. Até no jacarandá, que plantámos o ano passado, já estão a apontar rebentos. O ginkgo, que o Miguel plantou há quinze anos, há muito que cresceu mais alto que o plantador, que também cresceu bem, é o gigante da família. Os loureiros estão vigorosos, o pinheiro plantado pela Rita anda em competição de crescimento com o loureiro que ela também plantou.
O loureiro maior, plantado em dia de celebração conjugal, abrigo de melros e pardais, quando precisam, é agora um garboso cone com não menos de uma dúzia de metros de altura.
Tudo tão bonito, mas tudo tão silencioso. Com um dia tão bonito por que razão não comparecem os melros, por que não recreiam os nossos olhos os pardais, por que não voltou a poupa, porque nem sequer a ouvimos cantar?
E as abelhas? Já reparaste que não se vêem abelhas? Ainda há dias saltavam milhares delas nos muitos milhares de florinhas dos leptospermum, das gravíleas, dos callistemon? Por que razão fugiram daqui, agora quando chegou a primavera?

Amanhã voltarão todos: a poupa, os melros, os verdilhões, os pardais, de vez em quando o gaio, a alvéola, a toutinegra, os chapins, o pisco, o rabi ruivo, a garça real, as garças brancas a passear do outro lado da vedação, as gaivotas a dar sinal de temporal, o bando de estorninhos a chegar e a por-se a andar, todos!

Notícia de última hora: cerca do meio dia, foi avistada a alvéola, também o gato já foi visto a rondar.



O tempo do azevinho (à frente na foto) pintar-se de bolinhas vermelhas aconteceu por alturas do Natal. Agora é o tempo dos vizinhos, atrás, os leptospermum se revestirem de flores rosa.

Friday, March 20, 2020

SUPER ABEL


Fomos clientes durante seis anos de um estabelecimento de venda de mercearia e produtos geralmente consumidos em casa, aqui nas proximidades, que orgulhosamente se afirma "SUPER ABEL".
Depois instalou-se, também relativamente próximo de nós, um supermercado de uma cadeia super conhecida. Tinha mais espaço, melhor apresentação de produtos, os preços não se distanciavam significativamente dos praticados no SUPER ABEL, o pessoal era geralmente amável.
Depois aconteceu o bloqueio, entrámos em clausura, tínhamos que comprar o necessário. Fomos lá, como de costume, e o costume era praticamente diário, ainda não havia muita gente, ainda que mais que o normal.
Como os nossos hábitos compram à medida que precisamos, comprámos o normal. 
Daí a três dias voltámos e encontrámos uma fila à espera de entrar, suportando o vento e o frio. 
Tentámos telefonar para saber se faziam entregas ao domicílio. Fazemos, disseram, mas neste momento não aceitamos mais encomendas.
Demos meia volta e fomos ao SUPER ABEL. Comprámos tudo o que queríamos.
Fazem entregas em casa?
Fazemos, geralmente entregamos no próprio dia, o mais tardar no dia seguinte.

Ontem, encomendámos por e-mail. Pagámos por transferência bancária. Fizeram a entrega hoje ao fim da tarde. Vantagens de um estabelecimento familiar que conhece e estima todos os clientes.
Prometemos a nós mesmos que, aconteça o que acontecer, a partir de agora só contamos com o SUPER ABEL.
 

Sunday, March 15, 2020

BOCEJOS EM CLAUSURA


Esta noite, pouco tempo depois de desligarmos a luz, percebi que a Aurora estava a bocejar. 
Talvez não conseguisse dormir. A ouvi-la bocejar, o bocejo é contagioso, comecei a bocejar também.
Conheci em tempos um fulano que se sentava no banco da frente do carro eléctrico da manhã e, propositadamente, bocejava, bocejava, bocejava, até que punha, entretenimento dele, todos os passageiros do eléctrico a bocejar.
Estávamos, eu e a Aurora, cansados ou pouco cansados, ou seria a tensão provocada pelas notícias do dia que não nos deixavam dormir, ou as dezenas de mensagens que os amigos insistem em reencaminhar recomendando-nos  balas de pólvora seca para matar o vírus. Antes de nos deitarmos paramos os pim! nocturnos de chegada de mensagens, desligamos o som dos telemóveis, quem quiser urgentemente falar connosco fora de horas utilize o telefone fixo.
Adormecemos, nenhum de nós sabe a que horas, mas já era tarde.

Talvez, cerca das cinco da manhã, ouço o telemóvel a tocar. Teria deixado o som do meu telemóvel ligado ou teria apenas reduzido ao mínimo o som do aparelho porque o ouvia a tocar em tom baixo? Estendi o braço para calar o intruso, e concluo indignado que aquela era a sexta tentativa de alguém, que não constava da minha lista de contactos, para falar comigo. Intrigado decidi ouvir quem era e o que queria. 
Coloquei o telemóvel ao ouvido debaixo do edredão para não acordar a Aurora mas tinha dificuldade em ouvir a voz que vinha não sabia de onde. Até que, ao fim de algum tempo, pareceu-me perceber Ol-de-mi-ro.
Oldemiro? 
Sim, sou o Ol-de-mi-ro do Va-le, pareceu-me ouvir, com boa vontade da minha parte. Oldemiro, só me recordava de um, tínhamos sido colegas no liceu, já não sabia por onde andava o Oldemiro há umas duas dezenas de anos. Sabia vagamente que vivia sozinho, era solteiro com várias namoradas, segundo uns, vivia em castidade como membro da opus dei, segundo outros.

Cada vez com mais dificuldade em entender o que queria o Oldemiro, a requerer doses adicionais de paciência da minha parte acabei por concluir que o Oldemiro, quando se deitara, começara a bocejar imparavelmente e, tão frequente e intensamente o fez, acabou por deslocar o maxilar. 
E dói-te? 
Se dói, caramba, é uma dor insuportável, quase não consigo falar...
Via-se. Só com muita paciência conseguia compor as respostas do Oldemiro juntando os monossílabos intermitentes com que se expressava.
E como tu seguiste para estomatologista ...
Não Oldemiro, estás equivocado. Segui para engenharia, mas não de maxilares. Já ligaste para o 808242424?
Para quê? Não quero cá médicos em casa. Não quero cá ninguém. Estou em clausura.
Já tomaste um analgésico? Se reduzires a dor e descansares pode acontecer que o maxilar volte à posição normal. 
Já tomei um saridon, estava a guardá-lo para o corona .
Um saridon? Saridon já não se recomenda, Oldemiro, onde é que foste desencantar o saridon?
É o que tenho cá em casa.
Desde quando?
Sei lá, há nos.
Mas, Oldemiro, isso já perdeu o prazo de validade.
Naquele tempo os fármacos não tinham prazo de validade. Depois é que inventaram os prazos de validade para aumentarem as vendas, disseram-me. 
Tretas. Vai à farmácia e compra um analgésico dentro do prazo de validade. E depois arrisquei: não tens ninguém em casa?
Tenho a minha mulher. Mas está na mesma.

Sabe-se lá porquê, dei uma gargalhada que, por inacreditável que pareça, não acordou a Aurora.
Ui!!!!, ouvi do outro lado um longo e doloroso grito.
O que é que te aconteceu agora, Oldemiro?
Uma dor terrível ... com essa gargalhada, esqueci o maxilar e também me ri  de mim, ia para dar uma gargalhada, e foi o maxilar ao sítio.
Agora só a falta a tua mulher ...
É isso agora só falta ela.

Levantei-me, fui à casa de banho e voltei para a cama. Depois comecei a bocejar. 
A clausura não resiste à electrónica.








Thursday, March 12, 2020

REFLEXÃO : OS NÚMEROS COMPLICADOS DA PANDEMIA

No princípio desta semana, o Público transcrevia um aviso  do presidente do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, Antony Fauci, aos norte-americanos:

"Não vá para sítios com muita gente, pense duas vezes antes de viajar de avião e, pelo amor de Deus, não faça um cruzeiro"

Muitos dos que, de fora ou dentro dos EUA, leram esta recomendação do sr. Antony Fauci, certamente que a consideraram patética.
O facto de nos EUA não existir um sistema nacional de saúde, obviamente por decisão da maioria dos norte-americanos, as epidemias encontram um terreno susceptível de propagação imparável.
Hoje, 13/03, ouço na rádio que Trump decidiu proibir durante 30 dias todos os voos para os EUA a partir da Europa, salvo do UK, invocando a necessidade de proteger os norte-americanos da incapacidade dos europeus de limitarem a expansão da doença infecciosa. E que as seguradoras se abstêm de cobrar as taxas de comparticipação dos segurados atacados pelo covid-19. Para aqueles que não têm seguro as análises e tratamentos serão gratuitos.

À primeira vista de um europeu, a proibição de voos entre a Europa, salvo o UK, é mais um acto de manifestação da diabólica vontade de Trump desagregar e acabar com a União Europeia. E é. É incontestável que é, de outro modo não teria excluído o UK do banimento.
E, no entanto, a afronta de Trump pode suscitar uma pergunta: podem os países conter a expansão da epidemia sem controlar entradas e saídas de pessoas nas suas fronteiras?
Dito de outro modo: até quando resistirá o acordo Schengen sem uma suspensão temporário por tempo indeterminado?

Ontem ouvimos Merkel afirmar que, segundo os especialistas, a Alemanha será confrontada com uma propagação do vírus de cerca de 75% da população do país (se bem me recordo Merkel referiu um intervalo entre 60 e 80%) o que significa mais de 60 milhões de infectados ainda que a maior parte, cerca de 80% deles, o seja de forma ligeira. Acrescentou que, ainda assim, não se justificava o encerramento de fronteiras. E, no entanto, para além da Itália, a confrontar-se com o maior surto na Europa, e o maior em todo o mundo, em termos relativos, a Áustria encerrou a fronteira. A Hungria e República Checa decidiram o mesmo.
A propósito: Espanha a epidemia coloca o país em sexto lugar do ranking maldito. Aproxima-se a Páscoa, altura em que muitos espanhóis nos visitam. Vamos manter as fronteiras sem nenhuma vigilância de importação do vírus? Algumas cadeias de infecção registados em Portugal têm origem em Espanha.
Se sim, o que faremos com as excursões de estudantes portugueses à  Costa Brava? É complicado, é, mas as instituições que velam pela contenção do surto em Portugal deveriam ser mais afirmativas.
Hoje o governo prepara-se para, seguindo orientação do Conselho de Saúde Pública, moderar
o encerramento das escolas conforme a situação observada pelos serviços de saúde em cada local do país e não antecipar as férias da Páscoa. Oxalá amanhã não seja tarde demais.

Hoje, às 8:20 ouço na rádio que o presidente chinês anunciou que o surto entrou e declínio em território chinês.
Nas estatísticas publicadas em contínuo pela Organização Mundial de Saúde, vd. aqui, ao meio dia o número de infectados em todo o mundo era 128.058 e o número de mortes 4.717.
Na China, dos 80.796 infectados, já foram recuperados 62.813. Hoje registou 18 novos casos e 11 mortos.
À mesma hora a Itália registava (números de ontem) 12462 infectados, 827 mortos, 1045 recuperados. À mesma hora, a Alemanha registava (números de ontem) 1.966 infectados, 3 mortos, 25 recuperados. Ainda à mesma hora, (números de ontem) a França e a Espanha, indicavam, respectivamente, 2.281 e 2.277 infectados, 48 e 55, mortos, 12 e  183 recuperados.
Na Suíça, vizinha do norte de Itália (números de hoje) há 865 infectados, 4 mortos e 4 recuperados.
Nos EUA registam-se 1.337 infectados, 38 mortos, 15 recuperados.

Olho para estes números e não consigo encontrar explicação para o facto de o presidente chinês, Xi Jinping anunciar o começo da inflecção do surto no seu país, quando o número de infectados se situa em cerca de 80 mil e a primeiro-ministro alemã anuncia que, segundo as previsões dos seus serviços de saúde pública calculam em 80 milhões o número de infectados.
Alguém sabe explicar-me porquê?

Ontem, o pneumolologista dr. Filipe Froes, membro da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, em entrevista da RTP1, com contactos desde há anos com colegas italianos, estes lhe disseram que havia hoje forte evidência que o vírus foi importado de Wuhan através de um cidadão chinês que se deslocou a uma clínica no norte de Itália para uma intervenção cirúrgica não correlacionada com o covid-19, de que o paciente ignorava ser portador numa altura em que a emergência do surto ainda não tinha sido anunciada pelo governo chinês.
O paciente chinês, muito provavelmente o paciente zero em Itália, infectou a equipa médica, enfermeiros e estes todo o pessoal do hospital. Como nesta altura do ano ocorrem aos hospitais (muito bons no norte de Itália, segundo F. Froes), por razões de gripe comum muitos pacientes idosos, com menos imunidade e, portanto, mais propensos a contrair a infecção, sendo muitos deles pessoas de rendimentos baixos a viver nos subúrbios, a epidemia encontrou terreno para se propagar. Depois (acrescento eu) a displicência inicial dos italianos deve ter contribuído para a situação de calamidade pública que hoje defrontam.

Em resumo: Trump tem razão quando, acintosamente, fecha as ligações da Europa, salvo o Reino Unido, porque os europeus são incompetentes para combaterem a pandemia dentro dos seus muros
derrubados?

Sunday, March 01, 2020

O JOGO DA CABRA-CEGA

 
O número de jogadores foliões tende para sem conta.

Presidente da Relação de Lisboa suspeito de irregularidades na distribuição de processosResultados preliminares de auditoria aberta pelo Conselho Superior da Magistratura implicam actual presidente da Relação de Lisboa, Orlando Nascimento. Esta terça-feira órgão de gestão da magistratura reúne-se para tomar medidas.

Wednesday, February 19, 2020

O RAPTO (FRUSTRADO) DE NETO DE MOURA


Tiago Rodrigues foi Prémio Pessoa em 2019.

Não é um desconhecido, não é, certamente, um imaturo irresponsável.
Ontem ouvi J M Júdice, no seu espaço televisivo da Sic Notícias, acoimá-lo "grunho", o mesmo é dizer porco, grosseiro, colocando-o no mesmo o patamar de"grunhice"daqueles que no estádio de Guimarães no fim-de-semana se afirmaram racistas num jogo de futebol em que participava pelo menos um jogador (Marega) não branco, que, reagindo aos insultos, saiu do campo.

E porquê?
Porque Tiago Rodrigues escreveu um texto satírico para ser levado à cena no D. Maria II anunciado no site do teatro nacional como "O Rapto de Neto de Moura".
O sindicato dos juízes considerou que o texto era bullying, e o encenador recuou. Agora será "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas"
O acontecimento vem contado, p.e, aqui, não vou resumir. Convém ler tudo.

A Tiago Rodrigues, Prémio Pessoa, faltou a firmeza de carácter que Marega demonstrou quando se viu ameaçado pelos "grunhos".
E a peça saiu-lhe ao contrário.

"THE SPLASH"



Na semana passada, "The Splash" foi vendido por mais de 23 milhões de libras.
Em Novembro de 2018, vd. aqui, atingiu os 90 milhões de dólares.
Valem tanto?
Se foram transaccionados por aqueles valores, valem. Nem mais nem menos.
Reflexos da acumulação de riqueza no percentil da estrema-direita da curva de distribuição de rendimentos.

Understanding "The Splash" of David Hockney