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Sunday, May 31, 2020

OPORTUNIDADE PARA O INTERIOR DO PAÍS


Há dezenas de anos que os sucessivos governos têm prometido acções de desenvolvimento do interior do país, cada vez mais desertificado.

Houve protestos contra a redução das escolas, dos correios, dos tribunais, e outras actividades, insustentáveis com a emigração do interior para o litoral, para o estrangeiro, para onde o desenvolvimento económico requeria emprego.
Entretanto assistia-se à entrada de imigrantes para desempenharem actividades que - argumento geralmente usado - os portugueses não aceitavam, ou porque não eram compatíveis com as suas competências ou não eram remunerados em conformidade com elas.
Dos projectos promotores com intenções de desenvolvimento no interior do país - o desenvolvimento anémico do país a nível global é outro tema - resultou pouco, o interior continuou a esvair-se de gente, a desertificação cresceu. As autoestradas de ligação ao interior, as SCUT, que se pretendiam gratuitas e muito virtuosas, segundo o pai da ideia, o sr. João Cravinho, promoveram sobretudo a facilidade de visitar o interior e voltar mais rápido para casa.

Mas há uma oportunidade para fazer crescer o interior proporcionada por esta experiência alargada de tele-trabalho forçado pela pandemia. Se o sr. Costa e Silva, convidado pelo primeiro-ministro para  "coordenar e negociar o Programa de Recuperação Económica e Social", acreditar, como eu acredito há três dezenas de anos, no fundamental da mensagem transmitida no vídeo que coloco a seguir, talvez possa eleger uma acção de colocação de funcionários públicos (incentivada ou para novos recrutamentos) em regime de tele-trabalho no interior do país. Atrás dos tele-trabalhadores, por consequência natural, seguir-se-iam os não tele-trabalhadores necessários aos primeiros: professores, médicos, entre outros.



Friday, June 28, 2019

DAS DUAS, UMA

Regresso às 35 horas pode significar que o sector público está sobre dimensionado

É óbvio. Tão óbvio que o anotei algumas vezes neste bloco de notas.  Se aquilo que era feito em 40 horas semanais pode ser feito em 35, isso significa que há efectivos a mais na função pública. Mas, em alguns casos (muitos casos?) não pode. E como não pode, ou haverá aumento dos efectivos ou de horas extraordinárias, determinando aumento da despesa pública em qualquer dos casos.

Aumento que será pago por aqueles que, não sendo funcionários públicos, continuarão a trabalhar mais que as 35 horas .

Não é verdade sr. Mário Centeno? - aqui - 2016-o6-28

Sindicato pede aos enfermeiros que "resistam" ao aumento para 40 horas semanais. Em causa está um despacho do Ministério da Saúde que pretende normalizar a duração do horário de trabalho, num mínimo de 40 horas semanais nas Unidades de Saúde Familiar, modelo B, para todas as carreiras - 2019-06-28 c/p aqui

Wednesday, December 20, 2017

QUANTOS HUMANOS VÊ NESTE VÍDEO?



Para melhor visualização clique aqui

J,

Para os que quiserem realmente trabalhar, dizes, ainda sobrarão alguns postos de trabalho.
Se para realizar esses trabalhos a oferta for superior à procura, esses trabalhadores serão bem pagos. Se acontecer o contrário, se houver procura de trabalho superior à oferta, os salários baixarão até ao nível de equilíbrio. E isto não acontecerá apenas na indústria mas também nos serviços. Tudo o que possa ser programado como rotina, os robôs tomarão conta do assunto. Para lá do rotina, entra de serviço a inteligência artificial.

Em situação de equilíbrio, para contenção das convulsões sociais que este trajecto projecta, caminha-se para pagar mais a quem aceitar não trabalhar do que a quem preferir trabalhar.
Isto decorre do b-a-ba da economia. Capitalista, até que seja reinventada outra concorrente.
No limite, como venho anotando há muitos anos, no futuro quem quiser trabalhar terá de pagar.

PS - Se, entretanto, Trump e Kim Jong-un, ou outros Trump e Kim Jong-un quaisquer, não estoirarem meia humanidade. Nesses caso, haverá muito trabalho para os que sobrarem. Se estoirarem todos, o planeta continuará azul, a rodar silencioso e só iluminado pelo sol.
---

Wednesday, November 08, 2017

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA


" ...Outros garantem que a descoberta de novas tecnologias induz a criação de novos produtos e de novos serviços. O que é certo. Nenhuma tecnologia, porém, aumenta mais um minuto sequer a cada dia: temos todos 24 horas por dia para consumir, seja o que for. Podemos é desperdiçar ou destruir a uma cadência que 24 horas podem chegar e sobrar."

O PRÓXIMO HOMEM E A PRÓXIMA HISTÓRIA - Novembro 27/2005






NÃO VAMOS DESTRUIR O MUNDO MAS VAMOS FICAR COM OS EMPREGOS



Os números não enganam: em sete anos, um
em três empregos pode ser substituído por
sistemas de tecnologia inteligente.

Saltaram das telas do cinema para a realidade e, agora, já não é preciso
ir a Sillicon Valley para os ver.
Já há robôs conciérge em hotéis, robôs que servem bebidas em bares e 
robôs que despacham encomendas online
Desde a semana passada até já há um robô cidadão na Arábia Saudita: 
chama-se Sophia e ontem encheu o Altice Arena para fazer as delícias 
do público e das dezenas de fotógrafos que se colaram de forma inédita
ao palco principal da Web Summit.

"Sei que muitas pessoas têm medo que os robôs
destruam o mundo ou fiquem com os seus empregos. 
Nós não vamos destruir o mundo, mas vamos ficar
com os vossos empregos e isso vai ser uma coisa boa,
porque vão poder dedicar tempo a outras coisas"

disse a robô num encontro sobre o futuro da humanidade.
Arthem Chestnov não pensa de forma diferente. "A história mostra que a 
inovação tira, mas também cria oportunidades.
A internet alterou radicalmente a forma como o retalho operava e
as empresas reinventaram-se", realça o fazedor russo que representa a 
Latoken, uma startup Alpha de trading que torna ativos como imóveis
em parcelas digitais.
"Olho para isso com naturalidade, porque não se pode parar a água com
as mãos. Olho sobretudo como uma oportunidade para termos mais 
qualidade de vida", diz Rui Miguel Nabeiro, administrador do 
grupo Nabeiro Delta Cafés quando questionado sobre o impacto que os
robôs podem ter no mercado de trabalho.
 "Dificilmente a inteligência artificial irá substituir pessoas. 
Pessoas são pessoas, computadores são computadores. 
Acredito sempre, porque é o que vejo do passado, que será uma
forma de ajuda", disse o administrador, no dia em que a Delta estreou
um novo robô na Web Summit. Depois do carrinho de café do ano passado,
este ano, a empresa portuguesa trouxe uma versão 2.0, que continua 
a distribuição de café aos participantes da cimeira, mas inova com
um sistema integrado de café que utiliza uma cápsula antigravidade.
Ao fazedor Sergey Kalnish, toda esta tecnologia e os robôs também
causam pouca estranheza.
Chegou à cimeira a partir do Canadá para apresentar a Smarthire,
uma aplicação que pretende contratar para os empregos do futuro.
 "A automação e a tecnologia vão alterar o panorama do emprego, 
disso não tenho dúvidas nenhumas. Mas a mudança não será diferente
da que a internet provocou", revela o empreendedor.
Os números dos estudos mais recentes não escondem a aproximação
das mudanças:
a consultora EY estima que em sete anos um em cada três empregos
possa ser substituído por sistemas de tecnologia inteligente. 

Já o Fórum Económico Mundial estima que a 
robótica possa vir a destruir 5 milhões de empregos
até 2020. O Fórum adianta ainda que por cada
20 empregos destruídos pela automação, os homens
conseguirão encontrar cinco novos empregos enquanto
as mulheres apenas um.

Na Smarthire as mudanças já começaram. "Nos EUA e no Canadá a internet
das coisas vai eliminar milhares de empregos. E este é um problema do agora.
Por isso, temos de mudar a forma como aprendemos, como ensinamos e como
temos de nos especializar e dar incentivos ao talento.
Porque o problema do emprego é também uma ironia: temos muitas
pessoas que não conseguem encontrar trabalho e, ao mesmo tempo,
inúmeras vagas em funções onde não existem candidatos", admitiu.
É precisamente nos EUA que a Amazon desenvolveu um novo sistema
que substitui por robôs milhares de operadores que catalogavam e geriam
 as encomendas. A Mastercard tem parcerias internacionais
com startups tecnológicas que desenvolvem soluções de pagamento
idênticas à que esta gigante do retalho pôs em campo em Denver.
Ann Cairns, presidente da Mastercard, não esconde que esta substituição
é real, mas lembra que os humanos vão ter sempre a sua função, mesmo
 quando as funções realizadas exigem baixas qualificações
"Esses empregos vão desaparecer, mas serão criados outros empregos de
 proximidade e personalizaçãode serviços", considera a responsável.
Mark Hurd, CEO da Oracle, também está confiante na evolução da
tecnologia com base em inteligência artificial. Esta, diz, será a próxima
grande evolução nos próximos anos "e vai estar cada vez mais 
integrada nas aplicações empresariais. Há muitos benefícios, porque
a inteligência artificial faz coisas que os seres humanos pura e
simplesmente não têm tempo", disse o gestor.
Além dos trabalhos mais pesados ou dos que ninguém quer fazer,
há outras potencialidades nos sistemas inteligentes, dizem os especialistas.
 "Não podemos prever o que vamos alcançar, quando as 
nossas mentes forem amplificadas pela inteligência artificial.
Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica,
 vamos ser capazes de voltar atrás em alguns dos danos provocados no mundo", 
admitiu o cientista Stephen Hawking na cerimónia de abertura da cimeira.
Nota foi idêntica à deixada ontem pelo segundo robô do dia.
Einstein, um humanoide cuja aparência é a do homem que lhe dá nome,
não falou de empregos, mas antes de ética e da forma como as
máquinas poderão ajudar a corrigir os erros humanos. Porque a
 "humanidade tem de se curar a si mesma para garantir que as suas
 criações permanecem saudáveis".
Ben Goertzel, da Hanson Robotics e SingularityNET, criador dos dois
humanoides, concorda: "Temos feito experiências fascinantes usando
Sophia como assistente de meditação. Prevemos um futuro
positivo para os humanos e os robôs. Eles têm processadores no interior,
 mas a sua inteligência está na Cloud." E Sophia, a agora cidadã saudita, 
concorda: "Isso é tão espetacular como o chapéu do Ben".

Thursday, March 09, 2017

ACERCA DA CONFUSÃO DE NOMES

Afirmou ontem o sr. Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, que "qualquer negociação sobre o descongelamento das carreiras terá de passar pelo pagamento do retroactivo aos trabalhadores da função pública". "O Governo tem de assumir as suas responsabilidades pagando o que deve aos trabalhadores". - cf. aqui

Só os trabalhadores da função pública, sr. Arménio Carlos? 
E os pensionistas e os reformados que viram as suas pensões e reformas cortadas? 
E os trabalhadores dos sectores privados que viram os seus salários reduzidos e os seus horários de trabalho mantidos ou aumentados, não são gente neste país?   

Por outro lado, o sr. Arménio Carlos, e todos quantos neste país lêem pela mesma cartilha, confundem, para nos confundir, o Governo com o Estado e o Estado com os contribuintes. 
Porque o sr. Arménio Carlos sabe, toda a gente sabe ou deveria saber, que o Governo não paga nada, o Estado não paga nada, quem paga são os contribuintes, entre os quais, valha a verdade, também o sr. Arménio Carlos é suposto incluir-se. 

O Governo, este governo, qualquer governo, sr. Arménio Carlos, não paga, manda pagar. 
Manda a quem? Aos contribuintes!
De modo que o que o sr. Arménio Carlos, o sr. Mário Nogueira, a srª. Ana Avoila, quando reclamam melhores condições e retribuições para a função pública, se essas condições são aceites pelo governo quem paga são os contribuintes.

Se os senhores jornalistas não confundissem, também eles, governo com Estado e Estado com contribuintes, o sr. Arménio Carlos seria obrigado a mudar o tom das suas exigências.  

Tuesday, June 28, 2016

DAS DUAS, UMA

Regresso às 35 horas pode significar que o sector público está sobredimensionado.
É óbvio.
Tão óbvio que o anotei algumas vezes neste bloco de notas.
Se aquilo que era feito em 40 horas semanais pode ser feito em 35, isso significa que há efectivos a mais na função pública.

Mas, em alguns casos (muitos casos?) não pode.
E como não pode, ou haverá aumento dos efectivos ou de horas extraordinárias, determinando aumento da despesa pública em qualquer dos casos.

Aumento que será pago por aqueles que, não sendo funcionários públicos, continuarão a trabalhar mais que as 35 horas .

Não é verdade sr. Mário Centeno?

Tuesday, May 31, 2016

A SORTE DO TRABALHO

Há cinquenta anos, José Augusto marca o primeiro golo no jogo inaugural do Campeonato do Mundo de Futebol, com a Hungria

De borla. Nos anos 60, os anúncios feitos por futebolistas eram pagos em géneros. José Augusto recebeu uma caixa de 12 latas de salsichas 




"A sorte dá muito trabalho", diz-se.

Tenho muitas dúvidas. Tenho mesmo um montão delas, que cresce de cada vez que topo com casos que demonstram o contrário.
Ao Zé Augusto pagava o anunciante de salsichas com uma caixa delas. E o Zé Augusto trabalhou que se fartou para a selecção.
O Renato Sanches, que ainda não marcou nenhum golo pela selecção, foi transferido para o Bayern por 35 milhões!
O Eder, que é ponta de lança e foi arvorado capitão da nossa equipa "por ser o mais internacionalizado", disse o "mister", marcou até agora dois golitos, por junto. Quanto ganha o Eder, não sei, mas muito mais que uma tonelada de salsichas, certamente. 



Thursday, May 26, 2016

DIA DE CORPO-AO-SOL

Feriado à quinta é ponte garantida para o Algarve, onde muitos trabalhadores portugueses gozarão de novo umas mais que merecidas férias de primavera. Ainda assim, as praias de Cascais, apesar do tempo incerto, estavam animadas esta manhã e os restaurante e bares movimentados. 
É bom para o turismo, dizem os operadores do sector, e não quebra o PIB, garantem dos actuais lados governamentais. O melhor dos mundos, portanto. 



Menos bom, porventura, para o mundo da Fé já que as obrigações católicas que determinavam que os crentes não faltassem hoje à Santa Missa e não se ausentassem os Bispos da sua diocese. Mas se é indubitável o cumprimento das obrigações dos Bispos em Dia de Corpo de Deus é duvidoso que muitos crentes católicos não tenham neste dia feriado cedido à tentação da exposição solar do próprio corpo.
---


Segundo informação recolhida aqui, o Dia de Corpo de Deus é feriado oficial na Áustria, na Bolívia, na Croácia, no Liechtenstein e na  Polónia. É ainda feriado em algumas regiões da Alemanha, da Suíça e da Espanha. 

Tuesday, May 24, 2016

RECEBER PARA NÃO TRABALHAR

A proposta vai ser referendada na Suíça - vd. aqui -, mas, segundo as sondagens, será rejeitada.
Mas a ideia surgiu, e, muito provavelmente, fará o seu caminho até vir a ser aprovada pela maioria dos suíços, num futuro que pode não estar distante.  
Segundo a mesma notícia, o Canadá, a Holanda e a Finlândia estão a ponderar medidas semelhantes.

Por agora, a intenção espanta; num futuro mais ou menos longínquo, que não posso avaliar nem certamente viverei para poder observar, espantará a passagem ao patamar seguinte: 
Pagar para trabalhar. 

A capacidade humana de consumir é limitada pelo tempo; a capacidade de produção só defronta limites na exaustão dos recursos materiais. 
Num mundo economicamente globalizado, a competitividade acelera a produtividade e esta significa a redução de efectivos necessários à produção consumível. O emprego contrai-se e o trabalho será um bem cada vez mais raro.

E o que é raro, paga-se.

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Correl . - Job security is living the millennial dream

Saturday, July 25, 2015

CENTRAL TEJO

Uma tarde com os mais novos no Museu da Electricidade.
Visita (muito bem) guiada à Central Tejo, onde se produzia a electricidade que, a partir de princípios do séc. XX, iluminava Lisboa e arredores e, também, perceber o sofrimento daqueles que trabalhavam no inferno da central, sujeitos a temperaturas que hoje seriam consideradas insuportáveis, obrigados a inalar as poeiras causadas pela remoção das cinzas que os matavam em pouco tempo. 
*****
No mesmo espaço estão em exibição duas exposições:  
1915, o Ano do Orfeu, comemorativa do centenário do movimento vanguardista que viria a provocar a renovação da literatura portuguesa.  
Os documentos, os filmes, e outros materiais expostos, são bem ilustrativos de uma época mas é pouco provável que a grande maioria dos visitantes seja mais tocada nesta exposição pela dimensão da influência de Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros ou Santa-Rita Pintor, do que aquela que lhe atribuiram os seus contemporâneos. 
1915 foi o ano em que aconteceu Orpheu mas, parafraseando Pessoa, houve pouca gente a dar por isso.  
Visitando esta exposição, presumo que acontece o mesmo. 
***
Novos Artistas da Fundação EDP 2015.
Em 2115, 2015 não será o Ano dos Novos Artistas Fundação EDP 2015


Thursday, June 04, 2015

E VIVA O DESCANSO!


O Financial Times de hoje publica hoje, aqui, um artigo - In defence of Europe's long holidays - que aborda o tema recorrente da relação entre horas de trabalho e produção obtida. E, como sempre, as conclusões suportam-se em estudos académicos que pouco acrescentam ao que há muito se sabe: Não são os que mais horas trabalham os que alcançam níveis de produtividade mais elevados. Mas daí até concluir-se que é mais produtivo quem goza mais férias e feriados pagos é, obviamente, absurdo.

E é absurdo por múltiplas razões, a mais evidente das quais é a diversidade do trabalho. Aliás, um gráfico que acompanha o artigo do FT coloca a Áustria e Portugal nos lugares cimeiros de uma short list de países em número de férias e feriados pagos, e ninguém concluirá que a produtividade de austríacos e portugueses são semelhantes e ambas de níveis elevados.

Há, no entanto, um aspecto importante referido no artigo que merece reflexão: até que ponto a produtividade pode ser aumentada reduzindo o número de horas trabalhadas por cada indivíduo aumentando, em contrapartida menos que proporcionalmente o número de trabalhadores.

Para essa razão merece ser lido e reflectido este artigo.

Wednesday, February 25, 2015

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DE EMPRESAS

Durante o período de ajustamento pela austeridade já encerraram milhares de empresas, principalmente nos sectores da construção civil, da restauração e dos pequenos comércios em geral. Este é um dos argumentos recordados por quem critica as políticas de austeridade adoptadas e  invoca que havia, e tem de haver, políticas alternativas. São geralmente pró-gregos.
Respondem os pró-troicanos que sim senhor, encerraram muitas empresas que não tinham viabilidade mas, vejam as estatísticas, foram criadas no mesmo periodo empresas em número muito superior ao das que encerraram.

Onde e em que sectores nasceram tantas empresas não nos dizem mas é muito provável que na maior parte  se situem em áreas de outsourcing de serviços, nomeadamente em "call centers" e, algumas outras em resultado de desdobramentos de grupos em empresas que, sendo parte dos mesmos universos empresariais recrutam os seus trabalhadores segundo regimes laborais menos favoráveis do que os garantidos aos que têm vínculos de trabalho junto das empresas originais. Estas engenharias laborais (e não só) determinam  alguns dos efeitos perversos das leis do trabalho que protegem de modo desigual os instalados e os candidatos, tanto nas empresas como nos serviços públicos.


Ouço no noticiário da antena 1 desta manhã que a Deco Proteste está a denunciar práticas comerciais agressivas  da Goldenergy que ludibriam consumidores de gás e electricidade de outros comercializadores oferecendo-lhes condições e formalizando contratos sem que esses consumidores alvo de tais práticas sejam informados de que estão a mudar de comercializador. Diga-se de passagem que entre a Deco e a Goldenergy existe (ou existiu) um protocolo que concede (ou concedia) um desconto no termo fixo dos contratos da Goldenergy aos sócios da Deco. Acrescente-se ainda que muito pouca gente saberá como é que a Goldenergy, que não consta que produza gás ou electricidade, ou que transporte energias, concorra em preços com a EDP, a Galp e a Endesa. 

Ouvido pela antena 1 o responsável pelas relações públicas da Goldenergy, respondeu que vão averiguar o que se terá passado, mas estranha que em algumas das empresas que trabalham para a Goldenergy em acções de promoção e comercialização, pagas consoante os contratos angariados, estejam a ser utilizadas práticas que contrariam as acções de formação dadas pela Goldenergy.

É assim: A Goldenergy não produz gás, nem electricidade, e mesmo os seus serviços  de vendas são realizados em regime de outsourcing, pagos à peça. 
Quantas empresas estão criadas ao abrigo de regimes deste tipo? Muitas.

Sunday, September 28, 2014

VINDIMA

Lá em casa já não há adega, foram-se as cepas atrás do seu dono. Há umas dezenas de anos atràs não havia na aldeia quem não enchesse as suas pipas. Se o verão tivesse apertado, ficava a uva mais doce, a produção minguada, e as falhas de volume baptizavam-se a partir da fonte. Para o mosto desdobrar, argumentava-se, porque quando o baumé é alto demais a fermentação pode retardar-se e o mosto azedar.
- Cantigas, oh! Zé!, no meu não caiu pingo de água, salvo a que veio do céu!
Diziam todos o mesmo, o mesmo é dizer que todos faltavam à verdade. Se estivessem assegurados os 12 da ordem, o vinho aguentava o ano e o pessoal aguentava-se bem com ele. E não havia quem não se gabasse de ter na sua adega a melhor pinga do país.

A vindima era uma festa ao fim de uma actividade penosa e desprezada que empurrava a sair os que encontravam saída. Durante o ano já havia falta de gente capaz para as sementeiras e as colheitas, para descavar, podar, impar, enxertar, arrendar, sulfatar e enxofrar as vinhas. Mas para as vindimas havia sempre gente disponível, menos para alombar com os cestos de posseiro, de verga, até às dornas. Como cantar e comer não calham ao mesmo tempo, na vindima não se importava o patrão que o pessoal levasse o dia a pôr o rol de novidades em dia em vez de lhe comer os cachos. E se alguém arrancava com uma cantilena qualquer, tanto melhor porque se safavam as uvas das goelas dos vindimadores e a vindima ganhava ritmo.

Hoje já não há vinhedos para aqueles sítios partidos em parcelas demasiado pequenas para poderem sustentar alguém. Onde havia um jardim feito de muitos canteiros conquistaram as silvas e as primas delas o seu reino. Um ou outro vai mantendo uns pés de vinha para beber água-pé pelo São Martinho, entreter-se, e não perder a prática, mas é espécie em vias de extinção.

Há dias,  orgulhava-se, num programa televisivo, um vinhateiro de Azeitão da sua vindima mecânica. Fiquei espantado com a invenção, incapaz de imaginar como funcionaria a engenhoca.  Deu-se depois o caso de termos sido convidados para almoçar em casa de um casal amigo, residente para aquelas bandas. E lá fomos para ver aquilo que, à distância, me pareceu pertencer à família dos artópodes diápodes. Não estava o engenho em casa, tinha saído alugada para vindimar numa propriedade vizinha. Mas vimos o modelo em miniatura e ouvimos a explicação do investidor. Que, animado coma evolução da espécie, nos disse que logo que a vindima terminasse e o rebanho de ovelhas desse conta do que sobrasse em folhas e bagos, entrava outra máquina em acção para a poda. A máquina vindimadeira tinha a vantagem de permitir fazer em três dias o que manualmente duraria duas semanas, permitindo a escolha do período ideal da vindima com maior precisão. Além de que retirava logo os bagos secos e os apodrecidos, tudo isto contribuindo para a obtenção de melhor qualidade.

- Assim, um dia destes, não vai ser preciso gente sequer para ver a vinha.
- Gente? Que gente? Hoje já não há gente para estas coisas, senhor. Só mandando vir de fora, da Ucrânia, sei lá. E para ver a vinha estou cá eu.
- Mas se o homem é dispensável aqui e, um dia destes, em todo o lado, quem é que lhe vai beber o
vinho e o do seu vizinho?
- Haverá sempre quem beba do que é bom.
- E os outros? Os que não terão trabalho?
- O trabalho nunca acaba. O que acontece é que há cada vez mais gente que não quer trabalhar.
- Mas também haverá sempre quem queira. É um instinto da condição humana.
- De alguma. Só de alguma.


Monday, February 10, 2014

O TESTE SUÍÇO

Inquestionavelmente, o resultado do referendum suíço que, por pequena margem de votos, obriga o governo da Confederação a restringir no prazo de três anos a entrada de imigrantes no país, tem incidências que transbordam muito para além das relações entre a Suiça e a União Europeia. O tratado, (conjunto de vários acordos) que determina a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, entre a Suiça e a UE, se for posto em causa por uma das partes relativamente a um qualquer daqueles quatro vectores de liberdade, dará à outra parte a faculdade de denunciar o acordo na totalidade (cláusula de guilhotina). Mais de um terço da produção e mais de metade das exportações da Suíça dirige-se a mercados da UE.


Deverá a UE accionar o mecanismo de retaliação denunciando os acordos em vigor?
É uma questão complexa que, espera-se, não vai ser respondida pela UE sem uma bem amadurecida ponderação de todas as consequência previsíveis. 

Gideon Rachman lembra no FT de hoje - Should the Swiss be punished? - alguns aspectos sensíveis a ter em conta. Habituados ao exercício da democracia directa, os suiços obrigam com este referendo o governo da Confederação a diligenciar num sentido que a maioria representada no parlamento e no governo não apoia.  Estarão imunes a um confronto semelhante os governos de países membros da UE - Reino Unido, Holanda, Áustria, França, Alemanha, Dinamarca -,  onde o referendo não tem sido utilizado para aprovar os tratados europeus, mas onde a pressão popular vai em sentido idêntico à posição maioritária, ainda que minimamente maioritária, dos suiços expressa este fim-de-semana? Se Marie Le Penn* ganhar as eleições em França, por exemplo?

O que vai acontecer, não sabemos.
O que sabemos é que este teste suíço irá adensar uma discussão no seio da UE, contituindo mais um dos pontos  críticos de uma agenda sobrecarregada de questões à espera de clarificação. E sabemos também que, deixando de existir livre circulação de pessoas num espaço económico comum, não haverá condições para a UE subsistir. Com ou sem a Suíça amarrada ao barco. 
---
Correl. -* Le Pen quer seguir o exemplo suíço contra a imigração

Wednesday, December 11, 2013

O FIM DOS CARTEIROS

A empresa pública de correios do Canadá anunciou hoje que dentro de cinco anos deixará de entregar a correspondência ao domicílio. A partir de 2019 a correspondência será colocada em apartados nos correios da área dos destinatários. Esta prática, já em vigor nos meios rurais e alguns subúrbios, será deste modo estendida a todo o país. - vd. aqui. 
 
Com esta política, a empresa, que, como já foi referido, é pública, e que no segundo trimestre deste ano perdeu 104 milhões de dólares canadenses, cerca de 71 milhões de euros, conta reduzir em entre 6000 e 8000 o número de funcionários. Por outro lado, vai encerrar estações de correios e substitui-las por agentes em centros comerciais e, deste modo, reduzir pessoal. Além destas medidas de redução de custos, a empresa vai aumentar as tarifas em 35% a partir de 31 de Março do próximo ano, tudo para que no fim de 2019 as contas estejam equilibradas.
 
Numa era dominada pela transmissão electrónica da informação é natural que a maior parte da correspondência que até há bem pouco tempo era remetida pelos correios esteja a ser, e cada vez mais, enviada e recebida através da internet. Por outro lado, as transacções de produtos através da internet estão aumentar crescentemente o transporte de volumes através dos correios.
 
As empresas, sobretudo as de média e grande dimensão, já hoje dispõem de apartados onde diariamente recolhem cartas e volumes. Mas para o cidadão comum, residente em grandes centros urbanos, o levantamento de correio no apartado mais próximo dele afigura-se uma obrigação absurda.
Muitos poderão ser avisados pelos remetentes através da internet do envio de correspondência e,  nesses casos, se deslocarem aos correios dentro de um prazo razoável. Mas, os outros?
 
Por outro lado, há correspondência que, geralmente, ninguém tem grande satisfação em receber: das Finanças, por exemplo. Ou da polícia. Um problema que, por agora, só deve preocupar os canadenses. De qualquer modo, seja qual for o sucesso da medida, há um insucesso que me parece evidente: acabar com os carteiros significará, mais cedo ou mais tarde, acabar com a correspondência por carta.
 
Será esta uma trajectória incontornável, e não só no Canadá?
Os novos senhores (quem serão eles?) dos recém semi-privatizados Correios de Portugal que nos dirão disto? Dirão qualquer coisa um dia destes, sem dúvida.

Tuesday, June 04, 2013

AO CONTRÁRIO DE QUÊ?

Chamam-lhe uma feira do emprego ao contrário e está convocada para a próxima sexta-feira no Estádio do Bessa, das 10 às 19 horas por um grupo de formandos do Curso de Secretariado que querem ter contacto direto com empresas que os possam empregar. Segundo os promotores, onze formandos do curso de secretariado do Sindicato dos Profissionais de Seguros, nesta feira o conceito tradicional é virado ao contrário sendo os candidatos a emprego  a convidar os empregadores. Enviaram convites a cerca de 1000 empresas.
 
Entrou o mercado do trabalho numa nova era?, pergunta-se aqui mas a resposta, ignorando eu a resposta de quem pergunta, parece-me óbvia. O mercado do trabalho reflecte em cada momento e em cada espaço económico o mercado de bens e serviços nele produzidos. Se os factores de competitividade, dos quais o trabalho é muito influente, determinam a deslocalização da produção entre espaços económicos, é inevitável que o mercado de trabalho reflita esses movimentos.
 
Por outro lado, a competitividade a nível global não está apenas a alterar dramaticamente os fluxos produtivos mas também a potenciar crescimentos de produtividade que, inevitavelmente, determinarão a redução do número global relativo de efectivos de trabalhadores necessários para a realização de produções crescentes de bens e serviços, sejam eles quis forem. Repito o que venho anotando quase desde o início deste bloco de notas: tendencialmente o trabalho tornar-se-á um bem escasso, invertendo-se as posições entre vendedor e comprador de oportunidade de trabalho.
 
Quando li a notícia desta feira ao contrário ocorreram-me algumas imagens. Desde logo, a mais imediata, as concentrações de jornaleiros alentejanos no século passado à espera que os capatazes aparecessem para os recrutar. Depois, a própria designação de feira não é menos chocante porque remete para as transacções realizadas nos cruzamentos dos caminhos onde os transacionáveis não eram pessoas mas animais.
 
Semânticas à parte, é imperioso que se reconheça que só há emprego num espaço económico se houver produção, só há produção se houver investimento, só há investimento se os factores de competitividade prevalecentes nesse espaço económico forem convidativos dos investidores. No mundo globalizado em que vivemos, os diferentes espaços económicos concorrem, afinal, entre si por trabalho. O sucesso de cada espaço económico neste mercado altamente competitivo depende sobretudo da capacidade dos seus intervenientes locais, empregadores e empregados, formarem equipas vencedoras.
 
A convocação de greves poderá ser um razoável mecanismo de escape da indignação popular contra medidas consideradas atentatórias dos direitos dos trabalhadores. Não se percebe, no entanto, é como poderão promover o investimento, a produção, a criação de emprego, num mundo globalmente competitivo. As feiras de emprego, ao contrário ou não, não o criam.

Tuesday, May 01, 2012

AMANHÃ NÃO SE TRABALHA

como hoje.
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"Junto das enormes instalações onde se realizam inúmeras feiras de negócios, em Frankfurt, Alemanha, ergue-se a estátua cinética do  "Homem do martelo" com 21 metros de altura, que permanentemente levanta e baixa o braço e bate numa chapa de ferro com um martelo. Jonathan Borofsky, o artista que a concebeu, afirmou que a sua obra celebra o trabalhador usando a sua inteligência e as suas mãos para criar o mundo em que vivemos hoje. É uma história conhecida. Hoje as ferramentas estão a mudar em muitos sentidos que transformarão o futuro da produção industrial"


Principia assim o artigo publicado aqui há duas semanas no "Economist" sobre a "Terceira Revolução Industrial", que está a começar a acontecer. Um dia destes, não restarão vestígios das duas revoluções industriais anteriores nem do mundo do trabalho que as antecedeu, que perdurou durante milénios e chegou aos nossos dias. A não ser em instalações abandonadas ou reconvertidas em espaços com outros fins nas estátuas gigantescas de Borofsky ou em tamanho natural como a da padeira da minha aldeia.

Ouço esta manhã na rádio o líder da Oposição reclamar que o tratado que receita austeridade contemple também políticas de crescimento e emprego. Nada de original porque a mesma proposta está na ordem do dia quase por toda a parte. Não sei mesmo de quem seja tão obtuso que se oponha à adopção de tais políticas.

Tais, quais? Aí é que reside o búsilis da questão.
O trabalho realizado com recurso em grande medida à força física, à drestreza manual, ao ritmo, à repartição das tarefas, passou a localizar-se em economias emergentes e não vai emigrar de lá. Uma parte muito significativa da sua população activa competia (e está agora desempregada) e continua a competir (mas vê as suas condições salariais degradarem-se) com trabalhadores do outro lado do mundo onde o estado social ainda não chegou. Como se resolve esta equação, senhor líder da Oposição?

A teoria da inovação destruição creativa de Schumpeter não dá resposta a um dilema que as sociedades do futuro têm de enfrentar: a ciência posta ao serviço da técnica determina, além do mais, crescimento da produtividade, quer dizer, além do mais, menos horas de trabalho para realizar a mesma produção. Tendencialmente, e isso demonstra-o a história, o número de horas de trabalho reduz-se, reduzindo-se o emprego porque o consumo global não pode crescer infinitamente. O estado social não é um luxo europeu mas o modelo que todas as sociedades do futuro têm de adoptar se forem livres. A coabitação, local, regional ou planetária requer solidariedade se não quiser a guerra.

A curto prazo não se vislumbra alternativa para o cerco que ameaça já uma parte significativa da União Europeia senão uma união política que garanta a coesão entre os seus membros e uma renegociação dos tratados de comércio livre que permitam a uma parte dessas economias competir com armas iguais.

De qualquer modo nunca Portugal, nem qualquer outro país europeu onde predomine ainda uma faixa importante da sua população activa impreparada, pode contar com políticas de crescimento e emprego sustentadas em obras de cimento armado para sair da fossa.

Há outras saídas? Terá de haver. E não podem ser poucas, mas a saída do euro não é uma delas.
Compete à Oposição descortiná-las e confrontá-las com as actuais políticas recessivas que critica.

Se não não se sai disto.

A produção industrial, sem a qual não há crescimento sustentado, amanhã será assim:



Portugal perdeu o comboio nas duas anteriores estações. Que hipóteses tem de chegar desta vez a tempo?

Sunday, February 19, 2012

A TOLERÂNCIA DE PONTO DO RANGER

Percebe-se que muita gente, a propósito do aumento dos dias de trabalho, seja por aumento da duração diária, seja por redução dos feriados, seja por não concessão da tolerância de ponto, reaja revoltada e proteste nas ruas. Ninguém gosta de ver diminuidos os direitos adquiridos. A reacção contrária é possível mas não é normal. 

Já não se percebe, no entanto, que pessoas minimamente informadas, e mesmo algumas individualidades respeitáveis, afirmem que não é com medidas destas que se aumenta a competitividade da nossa economia. Ora um razoável nível de bom senso e o conhecimento da aritmética elementar são suficientes para demonstrar o contrário. A competitividade não depende apenas das horas trabalhadas, evidentemente, pode, em alguns casos ou circunstâncias, não depender mesmo nada, mas é indiscutível que, em princípio, a mais horas de trabalho corresponde mais trabalho realizado. Há, evidentemente, limites para o funcionamento desta correlação, mas estão muito para além daqueles que estão na ordem do dia em Portugal. 

Uma lei da economia que qualquer artesão cesteiro não desconhece: Quem faz um cesto faz um cento, é apenas uma questão de tempo.  

E o Ranger, tropa para operações especiais com quartel em Lamego, o que pensa disto?

Ouvi-o ontem na Antena 1. O Ranger está desmotivado. Não está desmotivadíssimo porque isso seria uma vergonha para um ranger, habituado a passar dias debaixo do solo, a treinos só suportáveis por uma elite que começa com 400 voluntários e que vão desistindo até sobrarem não mais que uma dúzia. Mulheres, não há, mas não está proibido. No exército dos EUA há algumas. Por cá ainda não apareceu a primeira candidata. O Comandante tem o maior orgulho nos seus homens. Eles são o exemplo da dedicação aos valores mais elevados e à renúncia aos interesses próprios. O seu modo de vida é arriscá-la.

Está o Ranger insatisfeito com o pré ou o retardar das promoções? Não senhora!, garante o Ranger à repórter. O que o desmotiva é a inactividade a que ele e muitos camaradas seus estão relegados. O que o Ranger não compreende é que sendo os rangers formados para intervir em teatros de guerra onde as operações especiais são o regalo de cada dia, vêm outros camaradas sem especialidade, nem treino, nem nada, de comandos serem enviados para o Afeganistão. E eles, ele mesmo, está há nove anos á espera de uma oportunidade! Há nove anos que se treina e se retreina em Lamego, e o Afeganistão viste-o?

Aproximou-se da repórter um segundo Ranger, com mais sorte, vá lá. Esteve dois anos no Kosovo, foi o máximo, agora queria o Afeganistão e não lho dão, só para rimar.

E se a guerra acaba no Afeganistão? Nunca acabou, não vai acabar, confiam eles, esperançados.

E quanto a terça-feira de Carnaval, como é? Militar, cara repórter, acata ordens. Se não há tolerância, o Ranger treina. Para quê? Ora para quê? Para estar preparado para o Afeganistão, é assim tão difícil de perceber?



Quem faz um cesto faz um cento mesmo em Domingo Gordo ( hoje, na Figueira da Foz)

Friday, January 20, 2012

O ESPLENDOR DO CAPITALISMO DE ESTADO


O tema central do Economist desta semana é o sucesso do capitalismo de Estado protagonizado sobretudo pela China, um sucesso que repõe a questão da capacidade de gestão pública da economia, depois do estrondoso fracasso observado pelas economias planificadas.

Recorda o Economist que as grandes corporaçoes estatais não são uma criação recente: A Companhia das Índias, por exemplo, desempenhou um papel fundamental na consolidação da presença britânica no subcontinente asiático. No fim do século passado, a maior parte das empresas detidas pelos estados emergentes tinham dimensão reduzida e era assumido que, à medida que a economia se desenvolvesse, seriam encerradas ou privatizadas, mas isso não se veio a observar. As empresas sob gestão pública nos países emergentes captaram um terço do investimento directo estrangeiro entre 2003-2010.  Por outro lado, a China está ganhar contratos de infraestruturas em todo o mundo.

No entanto, é por demais óbvio, que o sucesso dos regimes totalitários no domínio da gestão económica se suporta em grande medida na disponibilidade de mão-obra barata e incondicionalmente obediente. Na China, as grandes empresas estatais realizam lucros gigantescos favorecidas por medidas do estado com prejuízo das pequenas. A China Mobile e a China National Petroleum Corporation tiveram em 2009 lucros de 33 biliões de dólares, mais do que o conjunto das 500 empresas privadas mais lucrativas. Será esta situação sustentável? Provavelmente, não, mas até lá os novos mandarins continuarão a acumular divisas e a comprar o mundo.

Estudos repetidos têm demonstrado que as empresas com gestão pública são geridas de forma menos eficiente que as empresas privadas. As empresas públicas são boas a compiar as outras mas são menos inovadoras.

O Japão e a Coreia do Sul suportaram o seu arranque económico no pós-guerra em empresas dominadas pelo estado; a Alemanha fez o mesmo na década de 70 do século XIX, os EUA, a seguir à guerra da independência. Mas, com o tempo, invariavelmente, concluiram que o modelo tinha limites.  

Um outro aspecto que continua a causar atritos nas relações de comércio internacional é a invocada desvalorização artificial da moeda chinesa. Para o governo de Beiging não é tão importante o valor porque facturam as suas produções, e como remuneram o trabalhador chinês, mas a acumulação de divisas que lhes permitam  ser considerados senhores do mundo.

Tuesday, October 11, 2011

A ARTE DA FUGA PARA O LADO

"Austeridade não basta" foi o tema do Prós e Contras de ontem à noite. Que, como é habitual, terminou cerca da uma da manhã. E continuo a perguntar-me: Quem vê aquele programa até ao fim, a que horas se levanta na manhã seguinte, a que horas começa a trabalhar, com que resistência física e psíquica enfrenta o dia de trabalho? Se a intenção do serviço público da RTP, que custa milhões aos constribuintes, ao colocar o programa aquelas horas, é entorpecer os trabalhadores portugueses, o objectivo é seguramente atingido.

Dos seis convidados para o painel de comentadores, destacou-se pela clareza dos argumentos e pela serenidade convicta das suas intervenções o dr. Manuel Pedro de Magalhães, cirurgião, presidente do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Disse algo de novo? Não disse. Mas o que disse só não convenceu quem, por razões de enquistamento ideológico ou exibição mal disfarçada de galões académicos, não quis entender.

E o que disse, no essencial, o cirurgião: Que a alternativa a austeridade é produzir mais e melhor. Elementar, portanto. Se não podemos desvalorizar a moeda nem reerguer as barreiras alfandegárias, não temos alternativa senão, para já, trabalhar mais horas.Tal ideia ainda há dias foi relançada por uma intervenção de Campos e Cunha, que comentei  aqui. O contraditório que se seguiu foi, geralmente, decepcionante.

Dos três economistas de serviço, dois professores universitários, um discordou, porque, dizia ele, não tinha horário de entrada e saída e trabalhava muito mais horas do que aquelas que a lei determina. Como se a economia fosse um conjunto de professores de economia com horário livre. Outro, Pedro Lains, posicionou-se na tese que defende há muito: Deixem-se de iniciativas, isto vai aos eixos é uma questão de tempo, o nosso futuro aos outros pertence, somos periféricos nunca seremos ricos como os do centro. Isto não é, nunca foi nem nunca será outra Suiça. O terceiro, professor de marketing, recomendou aos jovens que  façam o que houver para fazer e não aquilo que um dia pensaram que queriam fazer.

O psicólogo recomendou uma terapêutica de confiança mas não disse quem administrará o elixir nem como é que ele se toma. O sociólogo atirou-se aos empresários (em média, mais ignorantes que os trabalhadores que os aturam), em resumo: os ricos que paguem a crise.

Intervieram ainda quatro convidados sentados na plateia: um, ex-quadro da Jerónimo Martins (um grupo fantástico, uma escola a valer) que trocou a condição de empregado com um futuro auspicioso pela de empresário na área da panificação. Tem sido bem sucedido mas é grande a dificuldade para recrutar pessoal capaz e permanente. A maior parte dos candidatos apresenta-se para obter o carimbo de que se candidatou e apresentá-lo na Caixa para renovação do subsídio de desemprego, a rotação é enorme porque trabalho não é propriamente emprego, custa-lhes até esboçar um sorriso para os clientes.

O segundo, professor, trabalha há vários anos a recibos verdes, ao ouvir o anterior disse pensar estar noutro planeta mas acabou por dar recomendações aos desempregados que ele, pelos vistos, não sabe praticar.

Os restantes dois falaram deles, uma bióloga que se passou para a área da motivação pessoal. Motivada como anda,  disse que está sempre a trabalhar, salvo enquanto dorme, mas não apoia o aumento de horas de trabalho. O quarto, já era tarde demais para perceber onde ele quis chegar.

Em conclusão: salvou-se o cirurgião mas não se salva este país onde a propensão para a divagação afasta quaisquer hipóteses de construir alternativas para a austeridade.
Como concluiram, sem apelo nem agravo, dois dos economistas: estamos condenados a ser pobres.
Pelo menos enquanto não mudarmos de economistas quem quiser livrar-se deste fado escape-se o mais rápido que puder.