Thursday, December 24, 2015

O COMPROMISSO

24 de Dezembro de 1948



....
....
- Mãe ... ?
- Diz. 
- Falta muito tempo para Ele chegar?
- Falta, falta. Devias ir para a cama.
- A cama está fria, aqui está mais quentinho, não está?
-  Já tens na cama a botija de água quente à tua espera.
- Só mais um bocadito aqui, depois vou.
...
...
- Mãe, não era melhor tirar as linguiças da chaminé?
- Que disparate! Tirar  para quê?
- Para Ele descer... assim ele não desce porque vê a entrada tapada com as linguiças...
- Hum! Passa bem, nunca se atrapalhou com as linguiças, também não se vai atrapalhar esta noite.
- Vai enfarruscar-se todo ...
- Não enfarrusca nada. Está habituado ...
... 
...
- (aaaaaaaaaan!)
- Não páras de abrir a boca com sono. Vai deitar-ve, vai ...
- Não tenho sono nenhum... Mãe, achas que Ele vem?
- Vem, claro que vem. Vem sempre, todos os anos.
- Vou ficar aqui acordado toda a noite, à espera que Ele chegue.
- Ah!, assim não sei se aparece. Ele gosta de fazer surpresa. Quando chega lá acima, espreita se há alguém cá em baixo. Se vê que há gente não deixa  prenda e segue viagem.
- E se a gente se esconde para que Ele não nos veja?
- Não sei. Ninguém arrisca esconder-se. Ele vê tudo.
...
...
- Mãe, ele é pequeno ou grande?
- Ah! não sei, nunca o vi. Ele não se deixa ver.
- Então como é que sabes que ele vem?
- Porque deixa aqui as prendas.
- Só por isso?
- É. Só por isso. Não chega? Vai deitar-te, se não te deitas ele não desce.
...
...
- Mãe, já sei que prenda ele me traz.
- Já sabes? Então o que é?
- É outro borreguinho de barro ... 
- Pode não ser.
- Então o que pode ser?
- Como é que posso saber? Vai deitar-te, e de manhã sabes.
...
...
- Mãe, eu queria que Ele me desse outra coisa...
- Outra coisa? Que coisa?
- Um aeroplano!
- Um aeroplano? Que ideia é essa? Não tens falado noutra coisa nestes dias. Agora os aeroplanos já não servem para nada. Para que queres tu um aeroplano se a guerra acabou?
- No ano passado Ele deu um aeroplano ao Álvaro...
- O pai do Álvaro é rico. 
-  ... E a mim só me deu um borreguinho ...
- E deu-te umas calças... e umas meias ... 
- Quem deu as calças e as meias foste tu.
- Eu? 
- E calças e meias não são prendas ...
- Então o que são?
- São coisas precisas. Não são para brincar.
- Lá isso é verdade. Mas eu acho melhor que te vás deitar. Se não te deitas, nem um borreguinho desce pela chaminé ...
...
...
- Mãe, por que é que Ele já deu um aeroplano ao Álvaro e a mim só me dá  borreguinhos de barro e coisas assim?
- Porque o pai dele é rico, deve ser por isso, não sei.
- Não é justo.
- O que é que não é justo?
- Se o pai do Álvaro é rico, não precisava que Ele lhe desse o aeroplano....
- E então?
- ... dava-me o aeroplano a mim, já que tu não podes comprar.
- Estás a ser invejoso. Não é bonito. Isso só mostra que estás com sono. Vai deitar-te, vai.
...
...
- Mãe, o que é ser invejoso?
- É querer tudo igual ao que os outros têm.
- Mas eu não quero ter tudo, mãe. Só queria ter um aeroplano como o do Álvaro.
- Então tens inveja do Álvaro...
- Não tenho, não. Não me importo que ele tenha um aeroplano. Só gostava de também ter um.
- Oh!!! Também eu gostava de ter muita coisa e não tenho ...
- Então também és invejosa, és?
- Eu??? Coitada de mim ... Nunca invejei nada de ninguém.
- Eu também não...
- Tu??? 
- Eu também não invejo nada de ninguém. Mas gostava mais que ele me desse um aeroplano que um borreguinho. 
- Agora já estás a dizer sempre o mesmo. O que tu tens é sono. Vai deitar-te ...
...
...
- Mãe, já tenho três borreguinhos, o menino Jesus, Nossa Senhora, o São José, a burrinha, ...
- ... o pastor ...
- ... o pastor ... Já tenho tudo, não tenho? Não preciso doutro borreguinho, pois não?
- Não sei. Tu é que não sais dessa do borreguinho ...
- Então talvez este ano receba o aeroplano...
- Não sei. Mas aeroplano não é coisa que apareça no presépio.
- Porquê?
- Ora porquê ... Tens cada uma. Naquele tempo não havia aeroplanos ou havia?
- Mas agora há, não há? 
- Há, há, e tu deves é ir deitar-te ...
...
...
- Mãe,...
- Ora a minha vida !... Esta noite não dormes, não?
- E tu mãe, não vais dormir?
- Vou, e é para já. Ficas aqui?
- Fico mais um bocadito ...
- Isso é que era bom. Vais para a cama e não há mais conversa.
- Mãe, ...
- Já te disse, não há mais conversa. Vamos deitar, vamos ...
- Mãe, eu queria dizer só mais uma coisa ...
- Que coisa?
- Mãe, eu parti o aeroplano do Álvaro ...
- Partiste o quê? Tu partiste o aeroplano do Álvaro???!!! Como é que tu partiste o aeroplano do Álvaro???
- Foi sem querer ...
- Já percebi: ele deu-te o aeroplano para a mão, tu lançaste o aeroplano ao ar, e era uma vez um aeroplano, foi isso?
- Não... Foi diferente ...
- Foi diferente? Como é que foi diferente?
- O Álvaro levava o avião na saca da escola ...
- Hum!!! E depois?
- Depois eu não sabia que ele levava o aeroplano lá dentro ...
- ... E depois?...
- Ele bateu-me e fugiu ...
- E tu foste atrás dele ...
- ...e dei-lhe um chuto na saca ... 
- ... e partiste o aeroplano...
- Foi isso mesmo...
- E agora queres um aeroplano novo para dar ao Álvaro ...
- Pois, porque se não ele diz que o pai dele vai fazer queixa ao meu pai ...
- E se o teu pai sabe ...
- Pois ...
- Bem ...Vamos para a cama e amanhã tratamos disso.
...
...
...
...
- Tu aqui? O que é que fazes aqui?
- Não consigo dormir ... voltei para aqui para esperar por Ele ...
- ... E para quê se ele nem sabe que partiste o aeroplano?  
- Sabe, sabe. Tu disseste que Ele sabe tudo.
- Sabe tudo mas precisa de tempo. Quando é que partiste o aeroplano?
- Foi na outra semana passada ... Ele teve tempo para me comprar o aeroplano, não teve?
- Como é que eu posso saber? Amanhã, se não tiveres o aeroplano, vou falar com o pai do Álvaro...
- Não, não, não ...
- Porque não?
- O pai do Álvaro não sabe e o Álvaro não quer que ele saiba...
- Mas porque é que não há-de saber? Vocês andavam a brincar, tu partiste o aeroplano sem querer ... não foi?
- Foi, mas eu prometi arranjar o aeroplano ... quando Ele descer vou pedir-lhe muito. 
- Enquanto aqui estiveres ele não desce, já te disse.
- Eu fico aqui escondido, só apareço quando Ele cá estiver mesmo em baixo
- És tonto... Ele sabe que estás aqui, escondido ou não dá no mesmo. E enquanto aqui estiveres não desce.
- Eu sei que ele desce ... 
Sabes mais que eu. 
- Pois sei.
- Ainda estou para ver esse milagre ...
- Então espera aqui comigo.
...
...
...
- Mãe, ...
- Han!?
- Ele já desceu ..
- Ele, quê?
- Desceu enquanto tu e eu adormecemos aqui ...
- Estás a sonhar?
- Estive a sonhar e, quando acordei, vi que ele deixou esta caixa ao teu lado!, e nesta caixa, este aeroplano!
- Hum! Parece milagre ...
- Foi só quase um milagre... 
  ... Milagre mesmo era Ele ter deixado dois aeroplanos!!!....
 ... não era?...

Wednesday, December 23, 2015

IN NOMINE DEI

ou

O CÚMULO DA ESTUPIDEZ HUMANA




"... e tudo começou com uma discussão sobre qual deus era mais pacífico, amável e perdoador"

Tuesday, December 22, 2015

ADIVINHEM QUEM VAI VOTAR O ORÇAMENTO RECTIFICATIVO

Ninguém sabe, pelo que se deduz das notícias, qual a profundidade de mais este buracão banqueiro.
Segundo o Público de hoje "a factura do Banif para os contribuintes pode chegar a 3825 milhões. Desde que foi conhecida a dominical decisão de venda ao Santander os prognósticos têm vindo a ser 
revistos em alta.Nada que não tenha acontecido com os outros buracos já descobertos e que, fatalmente, virá a acontecer com os que falta descobrir. 

O Ministério Público farta-se de olhar lá para baixo e não lhes vê os fundos nem quem os escavou.
Do BPN, de concreto, depois de sete anos de cansativas miradas, apenas de sabe que  ninguém nos pode tirar os "Miró". E vá lá, vá lá, por muito lúcida visão do sr. João Soares, vamos poder ver, vd. aqui, de todo este parece que imparável surrealismo, o surrealismo do Joan em Serralves. Se do BPN, que foi o primeiro a ser descoberto, não há nada de verdadeiramente novo, de toda a esburacação à vista sabe-se apenas que a factura a pagar pelos mesmos de sempre, segundo cálculos feitos aqui, já vai nos 13 mil milhões de euros.

O que  nos vale é o actual Governo da República ter um largo espectro de apoio parlamentar: À esquerda disseram-lhe que não na proposta de manutenção da CES? Voltou-se para o outro lado e recebeu os votos dos srs. Passos Coelho e Paulo Portas. Agora o PCP diz que não aprova o Rectificativo para acomodar o tamanho provisório do buraco do Banif e o BE condiciona o apoio à nacionalização do Novo Banco? O sr. António Costa contará, certamente, também neste caso, com a maioria flutuante de alterne à direita.

E, last but not least,  iremos ter nova oportunidade para assistir a mais uma nova fulgurante exibição de Mariana Mortágua no já anunciado "Inquérito Parlamentar ao Caso Banif". Com aprovação, como de costume, antecipadamente garantida pela maioria. Neste caso, de alterne à esquerda.

Monday, December 21, 2015

PODER E EMOÇÃO








"Esta escultura de entre 200-150 AC,  foi recuperada em 1992 de uma carga de um barco afundado que continha cerca de 200 fragmentos de bronze, a maior parte deles cindida para sucata destinada a reciclagem. A cabeça e o tronco foram encontrados próximos um do outro mas em evidente diferente condição. Enquanto o corpo está recoberto de uma pátina verde amarelecida, e retém detalhes anatómicos subtis  como as veias ao longo do braço direito, a cabeça está bastante corroída, mas a sua acentuada rotação para um lado, as sobrancelhas contraídas, a boca a desenhar respiração imprimem no retrato um momento de inspiração e presença de poder. 

























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A fotografia a seguir foi copiada de aqui.
É de uma obra de Rui Chafes, vencedor do Prémio Pessoa 2015.
Entre a escultura de cima e esta do artista português decorreram cerca de 2200 anos na história da arte.



Sunday, December 20, 2015

PILATOS REVISITADO

As notícias davam como certa a venda do Banif até ontem*. Caso contrário, o mais provável era a resolução do banco ter de obedecer às regras que entram em vigor no primeiro dia do próximo ano.
Que se saiba, o Banif não foi vendido.  
Entretanto, o sr. António Costa já fez saber que vai ser ele a tomar conta do assunto, que os depósitos estão garantidos mas não os bolsos dos contribuintes.

Percebe-se: Se os contribuintes foram metidos em mais este buraco foi o governo anterior (há sempre um governo anterior envolvido nestas coisas) que os meteu lá. Ele, António Costa, não está disposto a mandar o Banif para a falência e correr o risco de incendiar o sistema. Se houver hair-cut nos depósitos acima de cem mil euros será por imposição das normas da UE.

Custe o que custar, voltam a ser os do costume a pagar.

E o sr. Jerónimo de Sousa não se indigna?
A srª. Heloísa Apolónia não se esganiça?
A srª. Catarina Martins não se opõe?
A srª. Mariana Mortágua não pede explicações?
O sr. Carlos Costa não se demite?

Para os banqueiros portugueses há um banco em que ninguém os senta: o banco dos réus.

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* Corrijo - Até ao fim do dia de sexta-feira era o prazo para recepção das propostas dos interessados na compra. A venda pode realizar-se até ao fim do ano.
Corrijo a correcção! - Soube-se esta manhã (21/12) por informação divulgada em Bruxelas que afinal o Banif foi vendido ao Santander. A factura a pagar pelos contribuintes deve rondar os 3000 milhões de euros.

Saturday, December 19, 2015

CUSTE O QUE CUSTAR, SOMOS NÓS A PAGAR

Já o anterior primeiro-ministro tinha por lema ir em frente e quem fosse atropelado  que se calasse.
Agora é este: Custe o que custar, a TAP volta para o Estado, o mesmo é dizer será renacionalizada, mesmo que os accionistas não concordem.

Dir-se-á: ele tinha avisado. Pois tinha. 
E a TAP nunca deveria ter sido privatizada sem que tivesse havido um consenso entre os principais partidos. Mas não houve, e a verdade é que não havia nenhuma obrigação legal do governo que privatizou obter o acordo do partido que poderia vir a governar a seguir. 

Não havia obrigação legal mas havia a obrigação determinada pelo sentido de Estado, uma obrigação de não colocar o governo seguinte perante um facto consumado relativamente ao qual era conhecida a sua discordância. Se, do alto maioria parlamentar que o apoiava, o anterior governo se considerou com inteira legitimidade para finalizar a privatização da empresa nos últimos dias do seu mandato, e o actual executivo, do alto da maioria parlamentar que o suporta, se sente legitimado para, custe o que custar, recuperar uma posição dominante no capital da mesma empresa, o que é que há de errado na origem deste faz-se e desfaz-se que pode custar milhões aos contribuintes, abalar o equilíbrio social e financeiro, ainda instável, da TAP, e transmitir aos investidores externos uma imagem de pouca seriedade quando o país indiscutivalmente precisa do contrário? 

Só há uma explicação possível: a falta de sentido de Estado dos protagonistas que os leva a sobrepor interesses próprios, qualquer que seja a sua natureza, aos interesses públicos, ainda que jurem e trejurem ambas as partes que comandam as suas decisões políticas única e exclusivamente em prol do país. 

Anotei vezes sem conta neste caderno de apontamentos que o sr. Passos Coelho errou quando dispensou o PS de participar na execução dos compromissos que o governo suportado por este partido tinha negociado; Erra agora o sr. António Costa ao persistir numa política de reversão de algumas privatizações realizadas pelo governo anterior em contrapartida dos votos do PCP, no caso da reversão dos contratos de subconcessão dos transportes públicos terrestres, ou de uma opção ideológica, no caso da TAP, que terá enormes custos para o País e para a empresa. 


Friday, December 18, 2015

TRUMP E OS OUTROS

Trump vai de vento em popa.
Os resultados de uma sondagem publicados no Washington Post de há quatro dias atrás revelam que, vd. aqui, "uma clara maioria (60%) de norte-americanos opõe-se à proibição de entrada de muçulmanos no país proposta por Donald Trump, mas a maioria dos Republicanos (59%) aprova-a."
.
Por outro lado, a mesma sondagem atribui a Trump, vd. aqui, 38% das intenções de voto dos Republicanos, bem longe dos 15% do segundo melhor classificado. 
Aonde quer que se desloque, Trump arrasta os media e estes motivam multidões de seguidores que o aplaudem entusiasmados e se sobrepõem às vaias de alguns opositores temerários que apareçam para estragar a festa. Aconteceu ontem, vd. aqui. em Phoenix (Arizona), nada sugere que ao movimento Trump sustentado basicamente na mensagem xenófoba, contra os sul-americanos e os islâmicos, se venha a opor com sucesso alguma tentativa interna para o desalojar como candidato dos Republicanos nas eleições presidenciais de 8 de Novembro do próximo ano.

Pelo contrário, os outros candidatos estão a aceitar jogar no campo e segundo as regras que Trump escolheu, a questão da segregação na imigração está a sobrepor-se a qualquer outro tema. E quanto mais ele exacerba o discurso xenófobo mais aumenta a distância que o separa dos restantes. 

Na Europa, e não só em França, ainda que sejam mais perceptíveis os confrontos que ali se observam,
os dramas dos refugiados procedentes de países islâmicos sensibilizam uns mas aperreiam as animosidades de outros. E em França, Marine Le Pen progride nos resultados eleitorais, obrigando os outros a inclinarem-se para as suas propostas. Marine como Donald ou, porque foi ela quem deu o mote, Trump como Marine. 

A propósito da vaga populista anti-imigração, lia-se, aqui, no Economist desta semana (The march of Europe´s little Trumps) que os partidos xenófobos foram durante muito tempo ostracizados pelos partidos dominantes. E relembra que os grupos populistas anti-imigrantes começaram a formar-se na Europa na década de 60 quando começaram a aquecer os debates sobre o Islão e a integração de imigrantes islâmicos. Os choques provocados pela introdução do euro vieram impulsionar o euro cepticismo e a relançar o debate anti-imigração, colocando-o no centro das atenções e dos confrontos ideológicos com a entrada massiva de refugiados à procura de abrigos na Europa. 

Para onde caminhará o mundo comandado por Trump dum lado e Le Pen do outro, ninguém sabe. 
Esperemos que essa hipótese, possível, não se concretize. 
Os partidos populistas não podem ser ignorados, conclui em título o artigo cit. do Economist.
Falta saber como confrontá-los.

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Ainda a propósito deste tema, dois artigos publicados em Maio de 2013 no Washington Post merecem uma leitura atenta: 


Mudaram-se as vontades assim tanto nos dois últimos anos?


(clicar nas imagens para aumentar)







Na foto - Menores sul-americanos são capturados pela polícia do Texas quando tentam atravessar a fronteira dos EUA com o México

Wednesday, December 16, 2015

O QUE FIZEMOS NÓS DOS ÚLTIMOS 15 ANOS?

A recente divulgação do ranking das escolas secundárias provocou os comentários habituais: genericamente, para uns o ranking é um instrumento útil de avaliação, para outros é um instrumento sem precisão  suficiente para dele poderem ser retiradas conclusões fiáveis.  Depende da perspectiva em que assenta o observador. A mim, subsiste-me uma dúvida: por que razão o ensino secundário privado é geralmente melhor sucedido que o ensino secundário público mas o ensino superior público é, com excepção da U. Católica, geralmente melhor sucedido que o ensino superior privado? 

Entretanto um outro ranking, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) anualmente editado pelas Nações Unidas, foi praticamente ignorado. Com uma evolução que, nos últimos 15 anos, se traduziu numa queda da posição de Portugal na 28ª. posição no Relatório de 2002 (indicadores de 2000) para a 43ª no Relatório de 2015 (indicadores de 2014), o ranking é incómodo. E, sendo incómodo, talvez, dirão alguns, seja pouco fiável.   

A edição deste ano tem a dignificação do trabalho como tema central e inclui o habitual  anexo estatístico, e, como sempre, o ranking do IDH dos países membros decomposto nos indicadores considerados. Vejamos, a voo de pássaro, a evolução de Portugal no ranking  nos últimos 15 anos observada pelos relatório do PNUD de 2002 e 2015.

Mantiveram-se nos primeiros 27 lugares do ranking de 2002, com excepção da Grécia que desceu da 24ª para a 29ª posição, todos os países que antecediam Portugal, ainda que se tenham observado algumas alterações significativas: p.e. A Suécia desceu do 2º. lugar para 14º., a Suiça subiu do 11º. para o 3º. Só a Noruega se manteve o mesmo lugar, de liderança.

Tendo descolado do pelotão da frente, Portugal foi ultrapassado pela Eslovénia, Rep. Checa, Estónia, Eslováquia, Polónia, Lituânia, Malta, Argentina, Chile. E ainda, por razões não relevantes para este efeito, o Brunei, a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos. O Liechtenstein (13ª. posição em 2015) e Andorra (34ª.) não integravam o ranking divulgado em 2002.


Mesmo uma análise expedita permite facilmente concluir que, segundo os critérios do PNUD, os dois componentes de avaliação "educação" no índice de desenvolvimento humano têm um peso relativo nitidamente superior aos restantes. E, destes dois, sobreleva-se a média de anos de escolaridade. Em Portugal este número (8,2) é o mais baixo do conjunto de países que nos antecedem no ranking e cerca de metade do número de anos (16,3) de escolaridade esperada. O abandono escolar é, em Portugal, uma calamidade que persistiu ao longo dos últimos 15 anos, tendo-se eventualmente agravado, em termos relativos, considerando o índice de educação (94% para um máximo de 98% na Noruega) atribuido no ranking de 2002.


A este respeito é também interessante a comparação dos indicadores de Portugal com os da Grécia.

À Grécia, que ocupa agora a 29ª. posição, i.e., 14 posições acima da posição portuguesa é atribuido um IDH de 0,865 (0,830 a Portugal)

No entanto 

- a "esperança de vida à nascença" -  na Grécia, 80,9 anos (H/M), é um valor igual ao calculado para Portugal.
- o "PIB/capita em paridade de poder de compra" - na Grécia, 24 524 dólares; em Portugal, 25 757 dólares.  
- o "número esperado de anos de escolaridade" - 17,6 na Grécia compara com 16,3 em Portugal. 

mas

- o "a média de anos de escolaridade" - 10,3 na Grécia, é superior em 2 anos à média observada em Portugal (8,2).

Justificam, só por si, estes dois anos de escolaridade efectiva a diferença de 14 posições no ranking, independentemente  de ser nitidamente mais favorável a Portugal o indicador PIB/capita (PPP)?

Para os administradores do PNUD, sim.
Para nós, tem dias.



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O Relatório de 2002 incluía um quadro - "Tendências Demográficas" - que vale sobretudo pela análise comparativa que permite fazer com outros países. O défice demográfico refletido na evolução destes valores antecipava há muito tempo a crise demográfica estrutural reflectida nos dados divulgados em Junho deste ano pelo INE, vd. aqui

Tuesday, December 15, 2015

A BANCA DAS VACAS LOUCAS

O presidente-executivo do Banif admitiu em entrevista da Sic que o banco tem de ser vendido até sexta-feira o que, naturalmente, terá efeitos negativos sobre o preço. Disse ainda que tem acções do banco mas não as vende e compraria mais porque acredita no projecto.
Considera ainda que o fim do Banif seria um disparate.

Ao ler estas declarações de tão temerário presidente ocorreu-me aquela cena de um então ministro da Agricultura a papar uma boa dose de mioleira de vaca no tempo em que a encefalopatia espongiforme bovina punha meio mundo de pé atrás com o bife.

Mas se o banco é bom e não é portador de doenças transmissíveis por que o deixaram chegar ao estado deplorável a que chegou?
Não é caso um único, pois não.
Safa-se algum?

Anotei vezes sem conta neste caderno de apontamentos a minha perplexidade pela exuberância de uma banca que arrotava foguetórios de lucros no meio de uma economia depauperada. Como poderia uma vaca esquálida continuar a aguentar-se com tantos mamões? E sempre pensei que, mais dia menos dia, a vaca de tão sugada acabaria por tombar para cima dos que a sugavam.

E tombou mesmo.

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Act. - (16/12)
Pagam, e não bufam, os do costume : O primeiro-ministro garante os depósitos e admite custos para os contribuintes.
Venda flexível e "fundo mau" (nos bolsos dos contribuintes) é solução para o Banif
Por onde anda a "política patriótica da esquerda"?

Monday, December 14, 2015

HESITAÇÃO E FÚRIA




















A QUINTA DO MOCHO E WASHINGTON DC

O que é que têm em comum a Quinta do Mocho e Washington DC?
A Quinta do Mocho mereceu há dias uma reportagem, que registei aqui, a propósito das pinturas murais que imprimem ao bairro uma imagem mais atractiva.
As pinturas murais encomendadas pelo maior empresário no sector do imobiliário em Washington DC, com o nítido propósito de promoverem as suas propriedades, são hoje reportadas aqui em duas páginas do carderno "Business" do Washington Post.

"Os murais que o gigante do imobiliário JBC mandou pintar na sua vizinhança são arte ou marketing? Ou ambas as coisas?"
"Tem sido desde há bastante tempo um acto de rebeldes, activistas, e, certamente, de criminosos que 
revestem as paredes de uma cidade com uma lata spray de tinta. E continua a ser o propósito de outsiders que fazem o seu trabalho às escondidas a horas mortas.
Mesmo para aqueles que fizeram nome com  a sua arte de rua, como o travesso e mordaz, lenda do grafitti, britânico Banksy, a retribuição é frequentemente assistirem à sua raspagem ou repintagem pelas autoridades"









Continue a ler aqui.










LADINO

Quando il Rey Nimrod


Cuando il Rey Nimrod al campo salia,
Mirava en el cielo y en la estreyeria, 
Vido una luz santa en la djuderiya,
Que havia de nacer Avraham avinu.

Avram avinu, padre kerido, Padre bedicho, luz de Israel.

La mujer the Terah quedo prenyada,
De diya en diya el la perguntava:
- De qué teneij la cara demudada?
Ella ya savía el bien que tenia.

Avram avinu, padre kerido, Padre bedicho, luz de Israel.

En fin de nueve mézes parir queria,
Ira caminando por campos y vinyas,
A su marido tal no le descurvría.
Topó una meara ayi la pariría.

Avram avinu, padre kerido, Padre bedicho, luz de Israel.


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Ladino - 1- Que é travesso ou buliçoso; 2 - Que é esperto, manhoso ou ardiloso; 3 - (linguística) respeitante ou referente ao ladino como sistema linguístico.
Nimrod - Personagem bíblico
Avraham - Abraão
meara - Caverna, manjedoura
 ----



Visita de inspecção de Nimrod à cantaria  da Torre de Babel
Pieter Bruegel

(clicar para aumentar)

Sunday, December 13, 2015

VOLTANDO A KRUGMAN

Ontem registei aqui mais um apontamento de Krugman - Debt and Demographic Debt Spirals - sobre a situação social, económica e financeira, em Portugal. O artigo suscitou muitos comentários de leitores norte-americanos (67, no momento em que componho estas linhas), alguns dos quais merecem a atenção de quem se interessa por estas questões porque nos dão, de algum modo, uma ideia da imagem de Portugal no contexto da União Europeia observada por quem vive do lado de lá numa grande e relativamente antiga união de estados federados. 

Krugman e outros economistas norte-americanos, de entre os quais é elementar destacar Stiglitz, têm dedicado bastante a sua atenção à evolução da situação na UE, sobretudo depois da erupção da crise de 2008 na Europa. E o seu diagnóstico não pode ser mais claro: a política de austeridade, liderada pela Alemanha, para enfrentar a crise iria agravá-la e seriam os países periféricos do sul da Europa os mais atingidos por essa política, segundo eles, errada. É esta perspectiva que está subjacente ao artigo de Krugman publicado ontem. 

O tema tem pontas múltiplas e não se puxa uma por inteiro sem puxar todo o incomensurável novelo.
Limito-me hoje a uma prometida* brevíssima reflexão sobre dois pontos:

- O financiamento do pagamento de pensões geridas pelo Estado em sistema de pay as you go apresenta vulnerabilidades evidentes em conjuntura económica deprimida, fustigada por dois factores cumulativamente negativos: desemprego e emigração.
A alternativa dos sistemas de capitalização, por outro lado, tem demonstrado poder ser ainda menos segura quando os mercados financeiros são abalados pela sua própria natureza e desses abalos não sabem como escapar. 
A conjugação mista dos dois sistemas, e de todas as suas variantes, permanecerá sempre sob a ameça do, até agora, inevitável comportamento dos ciclos económicos. 
Resumindo: Se as crises são inevitáveis, resta-nos tentar minimizar as suas consequências. E, em Portugal, não fez isso, fez-se o contrário.

A leitura do gráfico editado por Krugman, que transcrevi ontem, deve acompanhado da leitura de, pelo menos, outros dois gráficos.



É muito evidente (primeiro gráfico) qua a dívida pública portuguesa subiu abruptamente na última década tendo o número de activos começado a decrescer só a partir de 2009 quando se fizeram sentir os efeitos da contracção provocada pelas medidas de austeridade. A conclusão parece-me óbvia: não foi o défice demográfico natural que provocou o aumento fulgurante da dívida mas as medidas de austeridade (erradas ou não, evitáveis ou inevitáveis,  é outra questão) que provocaram o desemprego e a aceleração do fluxo emigarório (que já vinha de trás) e o refluxo da imigração,aumentando o défice demográfico total.

O gráfico seguinte, por outro lado, evidencia até que ponto a irresponsabilidade do sistema financeiro, importando crédito ao sabor das vantagens dos interesses de banqueiros e de políticos, colocou o país em posição de cheque-mate perante a raínha Merkel.

E.T. - Nada do que afirmo contraria a evidência de que a redução da população activa contrai a base de incidência dos impostos e ameaça dramaticamente a capacidade do Estado solver os seus compromissos na ordem externa e interna.

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 * Vd. aqui

Saturday, December 12, 2015

DÍVIDA E DÉFICE DEMOGRÁFICO

Paul Krugman está hoje em Portugal para participar na conferência promovida pelo Banco de Portugal de homenagem a Silva Lopes. A propósito desta visita, com o restrito intento de participar na conferência e encontrar-se com amigos, Krugman dedica hoje na sua habitual coluna no The New York Times mais uma reflexão sobre os "terrible times" que   Portugal atravessou recentemente.

Desta vez, a sua observação -Debt and Demographic Debet Spirals - incide sobre a correlação entre o crescimento da dívida e o decréscimo da popução activa em Portugal desde a erupção da crise  em 2008.


A mobilidade do trabalho é fundamental para o ajustamento dos choques assimétricos nas uniões monetárias. Mas como se garante o reembolso da dívida e o pagamento das pensões de reforma quando decresce o número de trabalhadores activos? 

Dispenso-me de transcrições: A mensagem de Krugman merece bem uma leitura no original. 



"Oh, and Lisbon is really lovely despite all 
— and seems, justifiably, to be attracting a lot of tourists, which surely helps."


Friday, December 11, 2015

RUA NOVA DOS MERCADORES


Um artigo do Público de ontem que vale muito a pena ler e arquivar quem ainda não leu ou não puder adquirir o livro que o motivou.















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Thursday, December 10, 2015

O BANIF POR UM CHAVO

Ou nem isso?
A esta hora, quatro da tarde, as acções do Banif já perderam quase 38% durante o dia de hoje.  Até ao fim da sessão, por este andar, vaporizam-se. 
Amanhã, ou há accionamento das regras do Fundo de Resolução ou as obrigações que titulam o empréstimo do Estado para a recapitalização são convertíveis em acções. Qualquer dos casos será um caso bicudo.
Por qual das (más) vias se baterá o PCP? Pela segunda, que equivalerá à confirmação da nacionalização, ou pela primeira, que envolverá, ainda que incertamente, as outras instituições financeiras no remendo de mais este buraco do sistema?

Porquê o PCP?
"Não vamos propor nada com o qual o PCP não concorda", garantiu o primeiro-ministro na AR durante a apresentação do Programa de Governo para a Legislatura. Uma garantia que ninguém pode deixar de ter em conta.

Excepto o BE que irá antecipar-se para dizer como é.
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A notícia saiu ontem já depois de ter editado o meu apontamento do dia, mas é requentada. Há quanto tempo não anda já o sr. Jorge Tomé à procura da rolha?
Hoje, 11/12, às 15,00 horas, a Bolsa de Lisboa cai 2,02% com quase todas as cotadas do (mal chamado) PSI 20 em terreno negativo, salvo a Mota Engil que sobe 0,89% e ... o Banif que sobe 55,56%!, com 1.287.329.143 títulos transaccionados, cerca de 1,8 milhões de euros.
Sobre este comportamento entre menos 38% num dia e mais 55,56% mo dia seguinte não vi ainda notícias nem comentários. Li algures, apenas, que os reguladores, Banco de Portugal e CMVM, não se entendem sobre o que fazer de tão estranha volatilidade. 
Um dia, tarde de mais, saber-se-á o que se está agora a passar.


Wednesday, December 09, 2015

EM BUSCA DA VERDADE

Satyagraha (Em busca da verdade) é um filme indiano de 2012, que passou na RTP 1 no passado sábado, dia 5, e que tem por tema nuclear a luta popular contra a corrupção. 


Ingénuo quanto baste a uma produção bollywoodesca, não é, ainda assim, inócuo para a sensibilidade do espectador de um país membro da União Europeia, onde seria esperável que o índice de percepção de corrupção fosse bem menor que na Índia mas, segundo um inquérito da Ernst  & Young, cit. aqui, de Junho deste ano, sobre fraude e corrupção em 38 países, Portugal ocupa a quinta posição, a seguir à Croácia, Quénia, Eslovénia e Sérvia, e depois da Índia e Ucrânia.

Inacreditável?
Os mega-casos que emergiram nos últimos anos em Portugal explicam, certamente, em grande medida a percepção de corrupção generalizada que o inquérito registou. Sendo bem menos gravosa a posição atribuída a Portugal no ranking da Transparency International 2014, é bem provável que o index de 2015 contemple o nosso país com um lugar vergonhoso ... se a vergonha se fizesse ainda aparecer por cá. 

Hoje, Dia Internacional contra a Corrupção, a Transparency International recolhe, vd. aqui, no site  www.unmaskthecorrupt.org os votos para a escolha dos mais  corruptos entre uma short list de 15 casos simbólicos, que inclui o BES. 

Tuesday, December 08, 2015

IMACULADA CONCEIÇÃO

Jantar convívio da época, dez convivas à volta da mesa.
Às tantas a conversa tomba para os benefícios já adquiridos com a mudança de governo.

Os feriados, por exemplo. O que é que o País ganhou com a redução do número de feriados? Nada!

E vai ganhar alguma coisa com a reposição?
Vai, claro que vai. Amanhã é feriado. As pessoas vão fazer compras, as compras dinamizam a economia, o crescimento económico. E, depois, há a tradição. O respeito pela tradição é o respeito pelos valores culturais, pelos valores históricos ... Acabar com alguns feriados eliminaria uma parte da história do País ...

A propósito, alguém sabe dizer-me o que se celebra com o feriado de 8 de Dezembro?
É o Dia da Mãe
Não. O Dia da Mãe agora é no dia primeiro de Maio. 
Não. O Primeiro de Maio é o Dia do Trabalhador...
O Dia da Mãe agora é no primeiro domingo de Maio. Este ano é no dia 8. O ano passado foi no dia 10 de Maio. É móvel ... Antigamente, era celebrado no dia 8 de Dezembro, mas depois, já não sei quando, passou a ser celebrado no primeiro domingo de Maio, mas não sei porquê.
É em homenagem à Virgem Maria ... porque é no primeiro domingo de Maio e não no segundo, ou terceiro, não sei ...
No Brasil, sei eu, é comemorado no segundo domingo de Maio.
... e também nos Estados Unidos. 

E o 8 de Dezembro, é feriado porquê? Alguém sabe?
Ninguém sabe, mas também não é importante. O importante é o respeito pela tradição, e a tradição vem sempre de longe! O governo anterior não era respeitador da tradição nem das pessoas.
Nem do crescimento económico ... Amanhã vai toda a gente às compras, vai estar tudo caído nos centros comerciais. A economia precisa disso, não?

Monday, December 07, 2015

ARTES E DESASTRES DE RUA

A reportagem está publicada aqui, e dá conta da recuperação, pela arte pública, da imagem de um bairro degradado na periferia de Lisboa.

grafiti é, na esmagadora maioria dos casos, sinónimo de degradação, marginalidade, falta do mais elementar respeito pela propriedade pública. Mas é também, quando deixa de ser um acto de vandalismo, qualquer que seja a motivação que lhe esteja subjacente, um modo artístico digno de aplauso, atingindo alguns desses trabalhos valores de mercado que se perfilam pelas obras mais procuradas de arte contemporânea.


Das câmaras municipais, e nomeadamente de Lisboa, têm-se ouvido de vez em quando intenções de disciplina e repressão dos abusos dos grafiteiros. Mas os resultados não são muito visíveis, e a degradação é repulsiva. 


Passagem inferior nos Restauradores, em Lisboa.
Nesta passagem subterrânea, como em muitas outras, há aliança entre o grafiti intimidativo e evidências de falta de higiene.

Sunday, December 06, 2015

ESTE GOVERNO NÃO É DE ESQUERDA

O Governo anunciou ontem, vd. aqui, que vai "mandar suspender com efeitos imediatos o processo de obtenção de visto prévio" para os contratos de subconcessão dos transportes públicos de Lisboa e Porto, para evitar que entrem em vigor. 
Nada mais esperável desde a assinatura do acordo de troca do suporte, com prazo precário, do PCP ao Governo PS pelo compromisso indeclinável deste governo adoptar as medidas constantes do caderno de encargos apresentados pelos comunistas. 

Ouvido o representante dos sindicatos de trabalhadores do sector, a reacção à notícia de suspensão do processo de privatização da gestão dos transportes públicos foi contida: muito bem, a reversão dos contratos de subconcessão a privados estava garantida pelo compromisso assumido pelo PS mas a intenção manifestada antes por este partido de entregar a gestão dos transportes públicos colectivos às autarquias só pode merecer a rejeição dos sindicatos. 

É óbvio:  A gestão autárquica dos transportes públicos (ou do ensino primário e secundário) quebraria (quebrará) a frente comum da sua desmesurada força colectiva, que, para continuar a ultrapassar, de longe, a implantação política do PCP precisa de continuar a colocar em posição de refém, sempre que lhe convenha, o governo central. O anúncio de várias greves no sector dos transportes públicos nos próximos dias confirma a recuperação do ânimo, ou da animosidade, da Intersindical. 

Cederá o PS também neste ponto, continuando a aceitar a desfiguração dos objectivos que propôs ao eleitorado? É mais que certo. Com o cavalo a meio do rio, entre avançar ou recuar  a tentação para avançar é comandada pelo instinto de sobrevivência. 

Não há governo de esquerda, afirmava há dias atrás, o secretário-geral do PCP. E acrescentava, procurando corrigir o que para aí se diz: não há nenhuma união das esquerdas. 
Gente séria, esta gente do PCP. Não andam cá para enganar ninguém.
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Correl . "Aquilo que o PCP não está disponível para apoiar é também, é preciso ser claro, aquilo que nós não estamos disponíveis para propor" - A. Costa /aqui

Friday, December 04, 2015

ENTRE BLOCOS

"O Governo não pode esconder-se atrás do Banco de Portugal", afirmou a líder do Bloco de Esquerda no segundo dia da discussão do "Programa de Governo". Interpelado sobre as dificuldades do Banif e do Novo Banco, o ministro das Finanças tinha remetido para o Banco de Portugal e para o Fundo de Resolução a solução do Novo Banco, e o BE,  voltou à carga no dia seguinte relembrando-lhe que "o BE fará a defesa intransigente dos interesses do Estado e do erário público face a uma banca e um regulador que já falharam demais". 

Colocado perante a recordatória, o ministro das Finanças respondeu desta vez como quem repete ordem recebida para não se esquecer dela: "a posição do Governo perante o Novo Banco é de protecção sem limites do interesse dos contribuintes e do Estado". Assim será?

O PS, na oposição, criticou repetidamente ( e com razão) a posição do Governo por querer lavar as suas mãos do assunto e endossar todas as responsabilidades para o Banco de Portugal pretendendo fazer crer aos distraídos, que geralmente são mais que os outros, que com esta habilidade protegeria do mais que certo desastre os bolsos dos contribuintes. E não protegeu, porque o défice deste ano vai ficar agravado pelo empréstimo ao Fundo de Resolução e ninguém sabe qual o montante final da factura que vai ser apresentada aqueles que pagam impostos. 

Sem saber por onde sair, o ministro das Finanças saiu por onde saíram os seus antecessores quando garantiram que das moscambilhas dos artistas do BPN, BPP, BES, e mais alguns, não resultariam ónus a pagar pelos contribuintes. Viu-se!

O que fará o BE quando um dia estes, não muito distante, o Governo reconhecer que há mais uma factura gorda a pagar pelos portugueses pelas tropelias da banca?

Thursday, December 03, 2015

TRABALHEM MAIS!, MANDA A OCDE

A OCDE divulgou anteontem o relatório - Pensions at a Glance 2015 -, uma análise comparativa entre os sistemas de pensões vigentes em 2014 em cada um dos estados membros e em alguns outros países não membros da organização.  

Uma análise sucinta deste relatório está hoje publicada aqui, no EL PAÍS. Este trabalho do diário espanhol tem ainda o mérito de incluir um conjunto de mapas e gráficos de acesso interactivo, retirados do relatório da OCDE, que vão além da comparação dos sistemas de pensões para incluir vários indicadores da realidade económica e social observada em cada um dos países.

Outro artigo do EL PAÍS,  sustentado no mesmo relatório, comenta aqui a reprovação pela OCDE das reformas antecipadas, indicando um caminho diferente,  de mais anos de trabalho. 
Por estar a ser um dos tópicos mais discutidos do Programa do Governo, a síntese do EL PAÍS, para quem não tem tempo nem pachorra para ler as 370 páginas do relatório da OCDE é uma ferramenta mais manejável. 

Tuesday, December 01, 2015

NÃO FOI ASSIM QUE EINSTEIN EDUCOU O FILHO

Hoje, anotaram-se por aqui e aqui algumas reflexões sobre os benefícios e os malefícios dos exames escolares. Isto, a propósito da decisão tomada na Assembleia da República, ainda o ministro da pasta da Educação não tinha entrado à porta do ministério, de voltar a acabar o exame no quarto ano de escolaridade. 

"Uma quarta classe bem feita, dizia-se com sobeja razão, dá para toda a vida". Mudam-se os tempos, mudam-se as ciências e as tecnologias, e hoje não é invulgar deparar com gente jovem, ou ainda jovem, habilitada com o ensino secundário, médio ou superior, com evidentes más relações com a aritmética e a gramática. 

Ainda a propósito do mesmo tema, publicou o EL PAÍS um artigo - Así es como Einstein educó a su hijo - que alinha claramente no campo daqueles que levantam um ror de argumentos contra os exames escolares. 

Paradoxalmente, o título e o texto, talvez por distracção do autor, não se conformam com o destino da descendência do génio ímpar que foi Albert Einstein: O seu filho Hans Albert declarou em 1973 ao  New York Times: "Provavelmente, o único projecto do qual ele desistiu fui eu. Tentou dar-me conselhos mas desistiu quando descobriu que eu não correspondia e estava a perder tempo comigo"

Teve mais dois filhos: Lieserl, que morreu com um ano de idade; Eduard que sofria de esquizofrenia.

MARGINALIDADE SUAVE


Montanha, uma boa fotografia em tons suaves de desestruturação familiar.

Vale a pena ver.

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