Tuesday, January 08, 2013

ANTENA ABERTA

...
- Após Newtown Connecticut há quem pretenda que as escolas estejam armadas para poderem defender-se. O que pensa disso?
- O direito de legítima defesa é inalieanável.
- Mas a posse de armas não garante nenhuma defesa contra as intenções homicidas de um criminoso.
Eles não costumam anunciar-se ...
- Pois não, mas pode dissuadi-los de correrem o risco de serem baleados. 
- Geralmente, eles acabam por atirar sobre eles mesmos...
- Às vezes, só às vezes.
- Já percebemos todos que o Jack é contra ...
- Sou, não, somos contra. Aqui, somos todos contra qualquer lei que restrinja os direitos dos cidadãos consignados na Segunda Emenda à Consituição dos Estados Unidos da América: "Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido.". Só isso.
- E os senhores entendem que a liberdade neste país não está convenientemente assegurada pelo normal funcionamento das instuições democraticamente eleitas. É isso?
- O senhor tem dúvidas?
- Eu não sinto nem pressinto essa ameça ...
- Falta-lhe sensibilidade, intuição, vivência ...é, falta-lhe vir para o campo. Venha até cá, e aperceber-se-á melhor do que lhe falo. Aí, no estúdio, os senhores desconhecem a realidade.
- Portanto, os senhores sentem a segurança da liberdade na América ameaçada ...
- Bingo! 
- ... a democracia corre perigo ...
- Evidentemente!
- E porquê? O Presidente Obama toma posse para um segundo mandato dentro de duas semanas. Foi eleito democraticamente. Será o 47º. presidente dos EUA, eleito segundo os mesmos preceitos constitucionais de sempre. 
- Obama é um socialista, um comunista. 
- Todos os democratas são comunistas?
- Só comunistas apoiam comunistas.
- Clinton é comunista ...?
- Se apoiou, é.
- Mas Obama foi eleito por uma maioria absoluta de norte-americanos.
- Hum! O presidente do Irão, como é que ele se chama?, também foi eleito por uma maioria de votos, não foi? E há mais casos.
- E os senhores pensam que a democracia norte-americana é comparável à iraniana, é isso?
- De modo algum, de modo algum. Mas, precisamente, porque não é, e queremos que nunca seja, que  jamais consentiremos que nos desarmem. 
- Mesmo que uma lei aprovada pelo Senado e pelo Congresso determine o contrário?
- Nem o Senado nem o Congresso podem derrogar um direito fundamental do povo norte-americano.
É por isso que não desarmaremos nunca.

Monday, January 07, 2013

UM PAÍS A BRINCAR

O caso não é único nem sequer, se considerado individualmente, materialmente muito relevante. Sabe-se que o Estado é grande e os governos, onde quer que se encontrem, os seus tutores. E os tutores, já se sabe, cuidam mais da sua vidinha que dos interesses do Estado ainda que jurem fazer o contrário. Daí que se passeiem pelos corredores da função pública muitos que ninguém sabe por que por lá andam. No mi(ni)stério da Agricultura havia, ainda há poucos anos, mais de doze mil funcionários. Contas feitas, quatro funcionários por cada agricultor, contando nestes os graúdos e miúdos, os activos e os desmobilizados. Hoje serão cerca de metade, e ainda sobrará muita gente.Tanto assim é que, segundo notícia do Expresso de anteontem, um fulano recebeu ordenado durante vinte anos sem nunca ter posto os pés no serviço nem ninguém ter dado pela falta dele. E na Defesa, por exemplo, quantos não andarão a marcar passo no mesmo sítio toda a vida?

E quantos, comparecendo ao serviço, nos custarão mais impostos, pelos gastos que a sua presença implica ou proporciona, do que este espertalhão que se limitava a receber e não mexer uma palha? Ninguém sabe. Recorrentemente, os candidatos ao governo prometem reformar o Estado, o actual primeiro-ministro lembrou-se de o refundar. Mas não disse quando, nem como, nem o que entende por isso. Até agora, a redução mais substancial dos custos dos serviços prestados pela função pública (é essa a razão de existência do Estado) realizada pelo actual governo tem incidido sobre a redução indiscriminada dos salários dos funcionários, atingindo de igual modo os úteis e os excessivos, os competentes e os relapsos. Mas como, mesmo assim, os custos subsistem elevados, o Governo, ao mesmo tempo que reduz os custos reduzindo os salários aumenta os preços, aumentando impostos. Aqueles que no passado ousaram mexer no monstro acabaram por ser sacudidos borda fora pela sua cauda escamada, com os aplausos incontidos da oposição na altura.

Há dias, o primeiro-ministro desafiava publicamente o líder da oposição a encontrar alternativas para a redução da despesa pública na eventualidade de o Tribunal Constitucional dar provimento às dúvidas de inconstitucionalidades do OE levantadas pelo PR e por toda a oposição. Um desafio que, para ser sério, deveria ter sido feito antes e em privado. Assim, assistiremos à brincadeira do costume.

DOGWALKER


O passeador de caninos atravessa o inverno pela trela,
entre as margens convergentes
da rota paralela.

MISSÃO (IN)CUMPRIDA

"Missão cumprida", garantiu George W. Bush em 2003, no Iraque, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, e estava bem longe de estar. Qualquer sugestão de que, na crise na Zona Euro, o pior já passou, como pretenderam fazer crer alguns líderes europeus durante o seu discurso de Ano Novo, é, para os correspondentes do Washington Post, em Londres e Paris, num artigo publicado hoje - Mais um ano de recessão brutal em Itália, Espanha e Grécia (Portugal parece ser pequeno demais para ser mencionado), com a Alemanha e França vulneráveis a um crescimento débil ou a estagnação  previsivelmente falhada como aquela proclamação de GW Bush.

Os jornalistas do WP resumem no seu trabalho o sentimento que neste início de 2013 parece consensual entre a maioria dos economistas europeus, e destacam a expectativa que rodeiam as eleições na Itália e, sobretudo, na Alemanha, para além dos riscos, que podem antecipar-se, que susbsistem ameaçadores sobre a Grécia e os que podem agravar-se Espanha.

Num aspecto, contudo, a identificação com George W. Bush apontada pelos correspondentes do WP não colhe: Merkel, a comandante da frota, não considera a batalha ganha e avisou a navegação que a Europa tem ainda uma longa distância a percorrer pela frente para recuperar o crescimento económico. "As reformas que decidimos fazer estão a começar a produzir resultados. Mas precisamos de muita paciência. A crise está longe de estar ultrapassada." 

O discurso de Merkel, dirigido aos alemães, e essencialmente para consumo interno, não pode ter outra leitura por parte dos não alemães e, sobretudo, dos europeus do sul. Mas se ele serve a estratégia de Merkel relativamente aos seus eleitores, não responde às dúvidas que alastram por toda a União Europeia acerca de uma política que cada vez se mostra mais inadequada para resolver a rise e salvar o euro e a União Europeia. E que não se resolve com discursos de circunstância dos lideres do sul.

Sunday, January 06, 2013

À VONTADE DO FREGUÊS

 Soube-se, recentemente, que a união bancária na União Europeia pode vir a concretizar-se em 2014 e o primeiro passo consistirá na transferência da responsabilizade da supervisão dos 200 maiores bancos para o BCE. Continuarão a ser supervisionados pelos bancos nacionais os cerca de 5800 restantes. O Economist, chamou a esta decisão um mísero sucesso. 

Depreende-se facilmente, e de forma inequívoca, que os bancos nacionais dos estados membros da União, entre os quais se conta o Banco de Portugal, continuarão, mesmo a partir de 2014, responsáveis únicos pela supervisão dos bancos sem dimensão suficiente para ficar na rede dos 200 maiores. Mas mais: a supervisão da banca portuguesa exerce-se, de facto, até à transferência dessa responsabilidade para o BCE, sobre todos os bancos, independentemente da sua dimensão. É evidente, portanto, que o Banco de Portugal não depende do BCE, evidência que é confirmada pelo facto da sua governação ser nomeada pelo Governo português.

É, portanto, absurda a invocação de ferida de independência feita pelo BCE a propósito das medidas de austeridade, que o mesmo BCE impôs aos portugueses, e que o BCE insiste (já o tinha feito o ano passado) não deverem aplicar-se aos funcionários do Banco de Portugal. Pois se o Banco de Portugal não depende do Governo português mas também não depende do BCE, de quem depende? Do getas da ponte.

Tão absurda quanto a posição do BCE é a forma como na lei do orçamento o Governo decidiu quanto à matéria em questão. De acordo com a lei do Orçamento do Estado para 2013, o Banco de Portugal pode “decidir, em alternativa a medidas de efeito equivalente já decididas, suspender o pagamento do subsídio de férias ou quaisquer prestações correspondentes ao 13.º mês aos seus trabalhadores durante o ano de 2013”. - aqui. A conivência no seio da corporação entre os seus membros, e ex-membros, não poderia ser mais flagrante.

Acontece que, mesmo depois da supervisão dos maiores bancos ser transferida para o BCE em 2014, e a de todos até lá, as consequências das eventuais deficiências de supervisão bancária continuarão a ser pagas pelos contribuintes de cada país de forma separada porque a globalização das garantias dos depósitos ficou adiada para as calendas gregas.

De modo que o governo do Banco de Portugal, sendo nomeado pelo governo português, mora num limbo onde tem estatuto de instituição da União Europeia mas pelos eventuais prejuízos das suas actividades, que se resumem essencialmente à supervisão dos bancos portugueses, respondem os portugueses que pagam impostos. 

Percebe-se isto? 

Friday, January 04, 2013

A ROLHA DO REI DA CHINA

O Washington Post de hoje volta a denunciar aqui a censura ao pensamento, que é um dos sustentáculos de qualquer ditadura, quer ela se diga de direita ou de esquerda, e a ditadura chinesa não se sabe de que lado se encontra,   Alguns, ingenuamente, esperariam que os líderes comunistas chineses, eleitos recentemente, iriam relaxar o controlo censório nomedamente sobre o Weibo, uma rede semelhante ao twitter  utilizado por 30% dos navegadores chineses na internet.

Na China, 30% de utilizadores seja do que for, é um mar de gente. Pois os novos senhores da China não só não deram quaisquer aberturas aos sites mais populares como estão a cortar-lhes as vasas com que vinham fazendo algum jogo de oposição ao regime. Até onde pode o povo chinês continuar aliciado pelo crescimento económico suportar a falta de liberdade de pensamento é uma incógnita que ninguém saberá decifrar, pelo menos enquanto a fila dos que esperam a vez de entrar na China que cresce a olhos vistos se medir em muitos milhões de candidatos.

Outro alvo perseguido pelos censores chineses  é o cartoon. O humor tem uma capacidade ímpar de desconstrução de qualquer regime, político ou religioso, subordinado a um pensamento único. Se o deixam voar, levantam os prisioneiros do regime os olhos do chão.

Com mão-de-obra ao preço da chuva, sem sindicatos, sem liberdade de imprensa, o capitalismo chinês só por incomparável ironia ainda se reclama comunista.




2013 - QUEM SOBE, QUEM DESCE

 

O Economist desta semana apresenta um quadro nada lisonjeiro para os portugueses. Nada que não se soubesse já, aliás: este ano, a recessão em Portugal só será superada pela Grécia. Globalmente, as economias da zona euro também se contrairão, com a contribuições negativas, para além da Grécia e de Portugal, também da Espanha, Holanda, Itália, Chipre e Croácia

Do lado dos ganhadores, estarão Macau, Angola, Timor-Leste e Moçambique. Mas é a China que, considerando a sua enorme dimensão no contexto mundial, continuará de vento em popa, com um crescimento próximo dos 9%.  

Se o directório europeu não arrepiar caminho, crescerá o número daqueles que terão de ser transportados na carro-vassoura.

Thursday, January 03, 2013

AI WEIWEI

Em meados de 2011 tinha sido convidado a participar na Unilever Series, na Tate Modern.
Aplaudido no estrangeiro, perseguido no seu país, Ai Weiwei não pára de desafiar, à sua maneira, o regime chinês. Recentemente, ilustrou a capa de PSY - Gangnam Style, o artista pop sul-coreano que anteontem animou a passagem do ano em Times Square.

De toda a exposição, é no  trabalho fotográfico que inunda várias salas do chão aos tetos, que Ai Weiwei de forma mais imediata convida o visitante a um olhar sobre a construção de um mundo indistinto sobre a destruição compulsiva da China milenária.





 
E, irónico, neste Vaso - Coca Cola,  neolítico (5000-3000 AC)




E a dúvida recorrente subsiste: Até quando um regime, mesmo contando com a proverbial perseverança e paciência chinesas, se sustentará  reprimindo a liberdade de expressão?

PSY - GANGNAM STYLE




NÃO HÁ BANQUEIROS POLITICAMENTE INTELIGENTES NESTE PAÍS?

A pergunta é feita aqui, a propósito da  economia do "marcado": "Não há banqueiros politicamente inteligentes neste país?"

Há muitos anos, em reunião com um banqueiro que hoje é presidente do banco de que na altura era administrador, referi que, com o andamento que se observava na economia portuguesa, enfezada e cada vez mais sugada pelos bancos, um dia a vaca acabaria por tombar para cima dos que dela mamavam em excesso.
Respondeu-me o banqueiro: Esteja tranquilo, os bancos nunca vão à falência.

E, até agora, o tal banqueiro acertou. O moral hazard que permite aos banqueiros tudo e mais alguma coisa, em Portugal não abriu até agora uma única excepção.

Dirão alguns que a troica emprestou condicionando uma parte do empréstimo à recapitalização dos bancos. Ora o que se observa é que no caso do Banif e do BCP não houve recapitalização mas efectiva nacionalização com concessão da gestão a poderes privados.

Por outro lado, a concessão de subsídio de desemprego na sequência da redução de efectivos no BCP, prossegue uma prática que ajudou a arruinar as finanças públicas do país e que vigora há largos anos: aceitam os empregados a rescisão do contrato de trabalho mediante o pagamento de uma indemnização contra uma declaração de desemprego por despedimento. E chamam-lhe depois apoios sociais...

No mesmo ano em que privatiza a ANA (e não vejo inconveniente nisso) a EDP e a REN, o Governo, em nome do Estado, aumenta o capital da Caixa porque a administração incorreu em práticas condenáveis (caso da intervenção na luta accionista no BCP, por exemplo) ou desleixou a análise do risco e do interesse nacional (investindo na dívida grega, por exemplo), nacionaliza o BCP a coberto de uma recapitalização que faz do Estado o maior, mas silent shareholder,  accionista do banco, nacionaliza o Banif usando o mesmo figurino, tornando o Estado quase accionista único, mas igualmente silent shareholder. Faz algum sentido?
Faz.

É a prossecução de uma política do directório europeu que tem como objectivo fundamental sustentar, a todo o custo, o sistema bancário que esteve na origem do descalabro a que chegaram as contas públicas em Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia, Itália, e o que mais adiante se verá. 

O que é cómico nesta tragédia em que se esmagam as esperanças de uma unidade europeia é a mentira com que na cena anterior os actores faziam querer aos espectadores que o sistema bancário estava sólido e apto a resistir a todos os embates. Viu-se, mas, longe disso, não se viu ainda tudo.

Wednesday, January 02, 2013

O JOGO DO EMPURRA

O PR enviou o OE para o TC, convicto ou duvidoso da inconstitucionalidade de algumas medidas do dito. 
Valem dois mil milhões*, segundo afirma quem já fez as contas. Os senhores juízes do TC têm agora noventa dias para dizer de sua constitucional justiça. Convenhamos que tudo isto é uma grandessíssima abóbora

Logo que começaram a ser conhecidas as primeiras medidas que o Governo pretendia incorporar no OE 2013, houve muita gente geralmente bem informada, incluindo a generalidade dos constitucionalistas, que publicamente afirmaram, aqui há gato. De entre elas, a discriminação da tributação das pensões relativamente aos rendimentos do trabalho, foi a mais flagrante, e aquela onde o consenso sobre a sua inconformidade com o princípio do tratamento igual foi quase absoluto. O Governo, agarrou-se à sua maioria absoluta, e fez aprovar o OE na AR, sabendo que o envio da lei ao TC era certo e sabido. 

Persistindo numa via que até muitos dos seus partidários desaprovam, a maioria judicializou aquilo que deveria ser uma responsabilidade política, subalternizando-se e subalternizando a AR, isto é, o poder eleito,  às congeminações de treze juízes que, por obedecerem a convicções ideológicas e não a leis científicas, decidirão por maioria apertada. Alguns constitucionalistas já chamaram a atenção pública para o facto de o TC ter hoje uma composição diferente daquela que julgou inconstitucional algumas das medidas do OE 2012, o que, vale por dizer que 1) a decisão pode ser diferente ainda que a matéria seja a mesma 2) as decisões do TC não decorrem de investigação que conflua necessariamente para resultados tendencialmente consensuais.

Assim sendo, por que se empenhou o Governo numa acção que, tudo o indicava, iria acabar por empurrar uma decisão, quer deveria ser política, para as mãos dos juízes do TC, de onde não se pode esperar uma iluminação sem sombras, mesmo depois de demoradas elucubrações que podem levar três meses? Por obessessão hereditária. 

Há em Portugal uma tara partidária que confunde democracia com partidocracia que impede a procura de consensos alargados, mesmo, como é o caso, quando o País se encontra numa situação crítica sem precedentes na história contemporânea. Quando, mais do que nunca, a procura de uma base de entendimento partidário alargado deveria guiar a intervenção de quem governa, observa-se uma escalada de arremessos mútuos, que nem  sequer excluem os membros da maioria. Em lugar dessa procura de consenso político preferiu o Governo empurrar o OE para a tômbola do TC. Que quando roda rápido, roda à velocidade de quatro vezes por ano.
---
* 1,4 mil milhões, segundo contas feitas por outros

Tuesday, January 01, 2013

PÁGINAS DE UM MUNDO DIFERENTE

Às sete da manhã o jornal já estava à porta. Uma mão invisível continua a passar por aqui todos os dias de madrugada a entregá-lo envolto numa saqueta de plástico reciclável. No primeiro dia de cada ano, esta aparição devolve-me sempre ao tempo em que o nosso jornal era "O Primeiro de Janeiro", que o Filipe distribuía, com a sacola das publicações às costas, apregoando e retinindo a campaínha da bicicleta para avisar os leitores.

Não sei porque vicissitudes passou desde então "O Primeiro de Janeiro" mas, por uma olhadela que dei pela net, percebo que entre o nosso "Janeiro" de então e o "Janeiro" de hoje há uma distância na forma e nos conteúdos que, salvo o logotipo do título, o torna irreconhecível para os meus olhos de há dezenas de anos. Outros títulos de projecção nacional - O Século, Diário Popular, Diário de Lisboa, Comércio do Porto, República - desapareceram há muito dos quiosques, extinguiram-se os ardinas. Apareceram depois outros jornais, desses, entretanto, também desapareceram alguns, o número de publicações periódicas de hoje excede largamente o daquele que existia há quatro décadas atrás.

Mas o mundo dos media mudou muito, e a reconversão para o digital vai acelerar esse processo de mudança, atingindo todos os meios de visualização e leitura. Há dias, dizia-me o Miguel, onze anos, que o "Barnes & Noble" local vai fechar para dar lugar a um "Container Shop", de livraria passa para loja de embalagens, recipientes e contentores  de plástico. Em Georgetown,"Barnes & Noble" já fechou há largos meses, é hoje uma loja de moda. Para o Miguel, para a Rita, nove anos, para todos os jovens e adultos que residem aqui nas redondezas, o encerramento do "Barnes & Noble" representa uma perda insuperável por todos os iTouch, iPad, ai-seja-o-que-for, que possam ter ou vir a ter.

O Miguel recordará daqui a uns anos o seu "Barnes & Noble" com a mesma nostalgia de um tempo que passou e que só ela nos devolve de vez em quando, como eu recordo em cada primeiro de janeiro que passa o pregão do Filipe ao mesmo tempo que retinia a campaínha da pasteleira: Olhó Janeiro!

Monday, December 31, 2012

ANTES DE CHEGAR 2013

Ligo para a RTP, só encontro disponível a RTP Informação. Programa: Linha da Frente, também disponível na Internet em rtp.pt/linha da frente, fica a saber-se no fim do programa. Ouve-se o testemunho de algumas famílias apoquentadas pelo desemprego e pelas dívidas. A última a depor está empenhada com um empréstimo da banca para obras que fez numa casa humilde. 

Depois, dou uma vista pelos jornais de hoje, e leio aqui, "o Estado português vai subscrever um aumento de capital de 700 milhões de euros no banco liderado por Jorge Tomé e injectará mais 400 milhões de euros através de títulos de dívida. O Banco fará ainda outro aumento de capital, de 450 milhões de euros."

Mais adiante, aqui,
"Investir na dívida portuguesa gerou retorno de 57% em 2012.
Prestação das obrigações do tesouro portuguesas foi a melhor entre a dívida pública europeia, com um retorno que quase duplicou o obtido pela dívida irlandesa, que surge em segundo lugar no “ranking” elaborado pela Bloomberg."
 
No programa seguinte - O nosso tempo - jovens desempregados aprendem a arte do sushi.
 
Fico por aqui.
Daqui a cinco minutos entrará 2013 em Lisboa.
Valha-nos a Dona Esperança! Bom Ano!

ISENTO DE IMPOSTO

O fim de cada ano é propício ao despertar dos mágicos, que se entretêm a prognosticar para onde irá o mundo nos próximos doze meses. Os profissionais da arte, se não pagam, deveriam pagar imposto, contribuindo decisivamente para a redução do défice das contas públicas, considerando a largura da base formada por tantos futurólogos. Aqui, sem intenção alguma de evasão fiscal, opta-se por olhar para o retrovisor e avaliar em que medida se concretizaram ou falharam os palpites apontados neste bloco de notas.

Em Março de 2011, o senhor José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, então primeiro-ministro, afirmava não estar disponível para governar com o FMI. Pouco tempo depois, negociou e subscreveu o acordo com a troica.Nessa altura, anotei aqui:

...
Tudo conjugado, a tendência da evolução da situação política ajusta-se ao cenário que há muito tempo desenhei neste caderno: Se o PSD cai na tentação de querer a curto prazo ser poder, mesmo que acompanhado pelo CDS, provocará um reagrupamento de conveniência da esquerda, e assumirá o ónus de, muito provavelmente, ficar esturricado em pouco tempo.E Sócrates, maquiavélico, a assistir. Cavaco Silva? Esfíngico. 

Dois meses depois, em Maio de 2011, uma semana antes das eleições legislativas de 5 de Junho escrevi aqui:
 ... 
(Se) Ganha Passos Coelho e o PSD faz maioria absoluta com o CDS, Sócrates dá lugar ao senhor-que-se-segue, e o PS, na oposição, não perdoará ao governo o mínimo deslize na aplicação do MoU. A coligação de direita durará, no máximo, dois anos.
 
Dois anos depois, será Junho de 2013.
Acerte ou não, mesmo não pagando imposto sobre o prognóstico de há dois anos, continuo em 2013 sujeito a confisco.

Sunday, December 30, 2012

A EUROPA E OS VALORES MORAIS

A sua relexão remete-me para uma opinião da historiadora F. Bonifácio, anteontem, num programa da Sic notícias. Afirmou a historiadora que uma federação europeia é uma ideia impossível porque os europeus são radicalmente diferentes uns dos outros e, por essa razão, combateram-se ao longo dos séculos. A excepção são estes últimos sessenta anos, depois da Segunda Guerra Mundial. Que, talvez não por acaso, coincidem com criação e construção da União Europeia.

Acrescentou FB que, confessando-se liberal, nunca aceitaria um padrão de comportamento ditado pelos europeus do norte. E, a título de exemplo do que afirmava, disse que nunca deixaria de usar o seu automóvel para passar a usar os transportes colectivos ... ou a bicicleta, penso eu.

Tal afirmação é susceptível de múltiplas apreciações de índole moral. Refiro-me apenas a duas: a primeira, não sendo, em princípio, o comportamento da historiadora susceptível de esbarrar com os meus valores morais, pode a senhora andar de automóvel à vontade que nem eu, e presumo que ninguém, do norte ao sul se oporá, nem isso pode colocar em risco a convivência numa sociedade mais ou menos complexa. O que pode colocar em risco a convivência numa sociedade, qualquer que ela seja, a começar pela família, é a não comunhão de valores morais que dão coesão às sociedades.

O prevalecente hedonismo católico no sul não impedirá uma maior integração política com o norte maioritariamente calvinista, o que poderá opor-se a uma união perdurável entre o norte e o sul é a ausência de comunhão de valores morais que cimentem essa união. Honrar os compromissos, proceder com honestidade de processos, respeitar  os outros, que é apanágio do norte da Europa, é desvalorizado a sul. Honra, honestidade, cumprimento, são palavras que tendem a desaparecer das línguas meridionais. Mas  esses, sim, são valores morais que, ou toda a sociedade comunga ou não há sociedade possível.

Em Portugal, por uma questão de ilusão sociológica decorrente de uma exposição prolongada à banalização da mentira e da falta de vergonha confundem-se frequentemente os diferentes níveis de valores morais.

E enquanto essa confusão persistir a convivência entre norte e sul será realmente um ideia peregrina.

Saturday, December 29, 2012

TRANSGRESSORES COM CARTA APREENDIDA

A troica apreendeu-nos a carta de condução, subordinando a capacidade de gestão dos portugueses a regras que os credores impuseram, mais algumas com que a troica sobrecarregou a pena. Não obstante essas limitações externas, as situações de condução desastrada persistem, a impunidade anda à solta, a justiça não acorda, os transgressores premiados, o ouro entregue aos bandidos. Lamentavelmente, as limitações impostas pela troica não atingem este laxismo das instituições, a falta de civismo cívico, de indecência nacional. Os processos mediáticos engordam-se nos tribunais com recursos dilatórios e manobras que num país a sério seriam repugnantes. Aqui, merecem à sociedade inibida de conduzir-se, quanto muito um encolher de ombros para relaxar e continuar para o lado.

O Expresso de hoje relembra a situação, que seria impensável em qualquer país com carta de condução, de estarem a gerir os salvados do BPN alguns daqueles que foram, reconhecidamente, responsáveis pelas manobras criminosas que provocaram o desmoronamento do mostrengo em cima dos contribuintes portugueses. Um fulano, que presumo ter formação jurídica, foi director e administrador do BPN, foi condenado pelo Banco de Portugal a uma multa de 200 mil euros e inibido de trabalhar em instituições financeiras. Pois esse mesmo indivíduo é desde Julho director de assuntos jurídicos e de contencioso da Parvalorem, uma das empresas inventadas para recuperar os activos desmoronados! 

Outro, foi administrador financeiro, responsável pelo BPN Cayman, depois director de contencioso do banco, condenado pelo Banco de Portugal a uma multa de 175 mil euros e a uma inibição de três anos em instituições financeiras, é desde Julho adjunto do anterior. Outro, foi administrador do BPN, depois administrador da Parvalorem, agora trabalha na recuperação de créditos. Outro, foi director do departamento de risco do BPN, hoje analisa o risco da direcção de recuperação sul da Parvalorem. Outro, foi director da área comercial e de empresas do BPN, agora é director da zona sul da direcção de recuperação de crédito. Outro, acusado pelo Banco de Portugal num processo de contraordenação relacionado com prática de falsificação de contabilidade e o não cumprimento de regras contabilísticas, é responsável na Parvalorem por uma área de recuperação de crédito.

Todo este esgoto, a céu aberto, deveria provocar um enjôo cívico generalizado se a pituitária nacional não estivesse saturada pela habituação de viver à beira dele.

Propõe-se o Governo promover a discussão dos limites do Estado. Acho bem. Temos um Estado desmesurado para a nossa capacidade de mobilização colectiva. Mas mais do que reduzir o Estado à nossa capacidade para conviver cívicamente com ele é condição necessária à subsistência da democracia que sejam revistos os institutos, a começar pela Constituição, que a podem sustentar. Sem valores morais de referência, nenhuma sociedade é perduravelmente livre porque acaba por ser assaltada pelos canalhas.  

Friday, December 28, 2012

DALTON

É, meu nome é Dalton, o pai começava o jornal pelos comics, somos quatro irmãos, cada um tem nome de um dos seus heróis dos comics, a mim calhou-me o de Dalton. Sou de Fortaleza, o senhor conhece Fortaleza? Meus outros irmãos continuam por lá. Faz já onze anos que eu vim para os esteites. Primeiro, na Florida, depois no Colorado, agora aqui há quatro anos, sempre no churrasco, e não vou voltar não.  Minha mulher não quer voltar, de jeito nenhum. Temos dois filhos, um moço de doze, uma menina de dois, vivemos na Marilândia. Sei, agora há mais crescimento económico no Brasil, pois há, mas continua a haver muita insegurança, esse é o maior problema do Brasil, tem muito bandido. Aqui também há muita arma espalhadas, há sim, mas enquanto aqui a matança é obra de louco lá é obra de bandido, e no Brasil tem bandido por tudo quanto é sítio. E a copa do mundo em 2014, os olímpicos em 2016, só podem mesmo aumentar ainda mais a insegurança, mais droga, mais armas, mais crack, o senhor está ver no que isso pode vir a dar, onde há crack há crime, no Brasil tem cracolândias, senhor, o que é que o senhor espera de uma mancha que alastra e destrói a sociedade? Crack é uma doença incurável, é uma serpente insaciável dentro do corpo, e não há remédio para a serpente. Está mais rico o Brasil, hoje, pois está, mas uma boa parte dessa riqueza está o brasileiro queimando com o consumo de cocaína, de crack, de dia, na rua à vista da polícia, que não prende o consumidor, e é baleada quando persegue o dealer.  Há muito português a emigrar para o Brasil? Sempre houve, não é? Não, nós não vamos voltar. Gostava de ir a Portugal. Nunca fui, não, gostava de ir ao Porto, gosto muito do vinho do Porto, o senhor conhece o Porto?, eh, gostava de ir ao Porto. E ir ao estádio, tem estádio no Porto, pois tem?, como se chama mesmo? Do dragão, é isso, sim. Sempre que posso, vejo o Porto jogar.

Thursday, December 27, 2012

QUEM EMBARRETOU O NICOLAU

Há dias (21/12) considerei aqui interessantíssima* a discussão que acabara de ouvir no Expresso da Meia Noite, moderada por Nicolau Santos, e prometi voltar ao assunto num dos meus próximos apontamentos. Tinha decorrido quase uma semana  (15/12) após apublicação da entrevista do Expresso a A B Silva, que comentei aqui. Entretanto, os vídeos a que me referi nesse comentário assim como a entrevista e os artigos publicados no Expresso on line foram retirados. Parece-me mal. Se não se apaga a parte da história dos povos que, eventualmente, os envergonha, também não se apagam, até porque foram publicados em papel de jornal, os documentos retirados da Internet. Os erros assumem-se, e não se apagam nem com pedidos de desculpas nem se dilitam.

Entretanto, rebentou a bronca. A B Silva é um impostor que se fez passar por aquilo que não é. Mas não é um burlão, no sentido de ter lesado materialmente terceiros com as suas mentiras. Dir-se-á: lesou Nicolau Santos, lesou o Expresso, lesou a Sic Notícias, lesou quem o ouviu e acreditou nele. Mas não é verdade. Nicolau Santos, o principal embarretado, para utilizar a sua própria expressão, não fez, e ele mesmo já reconheceu, o que minimamente deveria ter feito: a invocada por A B Silva instalação em Portugal de um observatório da ONU para a Europa do Sul, se tivesse qualquer fundamento, deveria ser conhecida, e não escapar nem a Nicolau Santos nem ao Expresso. Bastava uma busca na Internet para constatar que o único facto relevante estava registado em dois youtube gravados durante uma conferência dada em condições pindéricas, e nenhuma referência ao suposto observatório da ONU. Desconfiei, mas sobrepus a minha confiança no Expresso à  minha desconfiança, para mim inconfirmável.

Quem tramou Nicolau Santos foi, portanto, mais que ninguém, ele mesmo. Mas Ricardo Costa e os jornalistas do Expresso em geral  não podem sacudir a água do capote. A nenhum ocorreu a dúvida óbvia que escapou à ingenuidade de Nicolau Santos, ou interessava a quem ela não escapou que o Nicolau fosse embarretado e bem embarretado?

"O Governo mostrou vontade de avançar para uma renegociação com o FMI, o BCE e CE?" foi a última pergunta da entrevista publicada a 15/12, à qual AB Silva respondeu: "Não tem havido vontade política do Estado-membro (i.e., Portugal) ... ". Ninguém, que no Governo deveria saber disto, leu a entrevista? É altamente improvável. Nicolau Santos, mais uma vez, errou por não ter confirmado ou mandado confirmar estas declarações do entrevistado. Mas, por outro lado, a ausência de uma reacção do Governo, ainda que particular, só pode entender-se como um interesse em que Nicolau se mantivesse, o mais possível, embarretado.

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* Interessantissima, porque os três outros intervenientes, surpreendidos pela argumentação de AB Silva e sem argumentos para contrapor, desvalorizaram a questão da dívida e do défice argumentando que o principal problema de Portugal é a debilidade da economia. E  é. Mas, repetidamente, se ouve que não há recuperação económica possível sem finanças reequilibradas. Em que ficamos? AB Silva foi ouvido porque disse falar em nome da ONU. Desmascarado, são irrelevantes as suas declarações? Por que é que entre 15/12 (entrevista do Expresso) e 21/12 (Expresso da Meia Noite) se observou um generalizado silêncio comprometedor? Foram todos embarretados?

Wednesday, December 26, 2012

POR QUE EMIGRAM OS JOVENS PORTUGUESES

O Washington Post de hoje dedica três quartos de uma página do seu caderno principal - vd aqui - à emigração de jovens europeus, com formação superior, e, muito focadamente na  emigração de jovens portugueses para o Brasil. Pergunta-me o RM: O que é que está a acontecer em Portugal que leva a esta emigração massiva de gente jovem e habilitada a emigrar para o Brasil? RM. entende as causas imediatas referidas no artigo - falta de oportunidades de emprego - mas escapam-lhe as causas primordiais. Por que é que não investem em Portugal, os alemães, por exemplo, se há disponibilidade de mão-de-obra e de quadros qualificados, que, certamente, aceitariam salários mais baixos do que aqueles que são pagos na Europa do Norte? Para um residente nos EUA, onde a mobilidade do trabalho é um dado comum, o que acontece na Europa do Sul neste momento é intrigante porque o investimento não procura as regiões onde os factores de custo são, pelo menos aparentemente, mais baixos. 

Mas é, precisamente, nas aparências que se escondem as principais razões da drenagem de jovens portugueses para o Brasil. E chamo a atenção de RM para a explicação dessas causas, dada na segunda parte do artigo do WP., que têm impacto não apenas em Portugal mas que em Portugal assumem uma maior dimensão relativa em consequência da deterioração rápida de uma situação económica que nunca foi estruturalmente consistente: a ameaça de um colapso na zona euro, a persistência da recessão, as sombrias perspectivas de crescimento económico, estão a levar os investidores a drenar triliões de dólares para outras partes do mundo, provocando a deslocalização dos negócios e a revisão das suas estratégias. Alguns bancos europeus estão a resumir as suas actividades às suas fronteiras nacionais, outros, como o Santander, que hoje recolhe apenas uma pequena parte dos seus lucros em Espanha,  reposicionam-se fora do seu âmbito nacional e da Europa, no Brasil e no México, por exemplo.

Mas há alguma luz ao fundo do túnel: As recentes decisões de intervenção do Banco Central Europeu estão a reduzir os riscos do colapso da zona euro, e os fluxos de dinheiro estão a começar a inverter-se. Largos montantes devidos pelos bancos centrais dos países mais fragilizados, como o de Espanha ao da Alemanha, estão a reduzir-se, o que significa que cessou a drenagem em sentido contrário, das economias fragilizadas para as mais fortes.

Subsiste, contudo, a disfunção original da zona euro: Segundo a teoria económica, os capitais deveriam fluir das zonas mais desenvolvidas da zona euro para as menos desenvolvidas - aproveitando as vantagens de salários mais baixos e o facto de, geralmente, proporcionarem as zonas menos desenvolvidas oportunidades de melhores taxas de retorno dos investimentos que as zonas mais desenvolvidas. Por outro lado, é esperável que os trabalhadores emigrem de áreas onde o desemprego é elevado e os salários baixos para aquelas onde o desemprego é reduzido e os salários estão a subir. 
Mas a teoria não se confirmou suficientemente na zona euro, e essa falha explica a emigração massiva de jovens portugueses e gregos habilitados para fora da Europa, reduzindo a capacidade de recuperação e comprometendo o futuro, uma vez que a maior parte desses emigrantes, muito provavelmente, não voltará aos países de origem. 

Estas, as razões descortinadas por Howard Schneider, colunista do WP para assuntos de economia internacional, em São Paulo, Brasil. Por que é que a teoria não funcionou, H Schneider não sabe ou não quis dizer. Talvez porque, pelo menos para muitos norte-americanos, não é fácil entender que exista uma zona económica usando uma moeda única que não seja suportada por institutos que garantam os mesmos níveis de confiança nas áereas onde essa moeda, e só essa moeda, tem curso legal. Dito de outro modo, a maior parte dos norte-americanos supõe a União Europeia, e particularmente a Zona Euro, feita à quase imagem e semelhança dos EUA. E não há, pelo menos por enquanto, nenhuma semelhança possível. E enquanto não houver, enquanto as promessas andarem bem à frente da realidade, a emigração jovem do sul da Europa para fora da Europa continuará.

By the way, it´s snowing in Virginia today.






Tuesday, December 25, 2012

JÁ NÃO HÁ RESPEITO PELOS MAIS VELHOS

Cinco filhas?, mas isso é uma mina, Alexandre, menino ou menina, o que importa é que venham escorreitos, saudáveis, mulher ou homem, tanto faz, aliás, o futuro é das mulheres, basta olhar para os números, nas últimas décadas as mulheres ultrapassaram em número os homens em muitas actividades que no passado eram exclusivamente, ou quase, exercidas por homens, o número de advogadas e de juízas não pára de aumentar, já há mais médicas que médicos, um dia destes haverá mais engenheiras que engenheiros, há uns anos atrás, eram raras as mulheres que trabalhavam na banca ou nas finanças, hoje, entra-se numa dependência bancária ou numa repartição de finanças e o que mais se vê são mulheres a trabalhar, o domínio feminino é já tão evidente que ficamos sem perceber por onde andarão os homens nesta terra, por enquanto os lugares de cima nos negócios e na política continuam ocupados por homens mas não tarda muito para elas tomarem conta do leme do mundo, até na tropa e na polícia, onde a lei dos músculos está a ser substituída pela lei do conhecimento e do engenho, a preponderância masculina vai ceder, é uma questão de tempo, Alexandre, e as tuas cinco filhas terão mais hipóteses de serem mais bem sucedidas que os rapazes que poderias ter tido mas os caprichos da lei da natureza não quiseram que tivesses tido até agora.

Conversa fiada de quem não tem seis mulheres em casa e nenhum puto com quem se possa ter um dia aquelas cumplicidades que só podem existir entre pai e filho, amava a mulher, adorava as filhas, mas fazia-lhe falta um puto que fosse com ele à bola, também há, e cada vez mais, mulheres que gostam da bola, pois há, mas ele não se via no estádio com cinco filhas à sua a volta insultar os árbitros, não há futebol sem árbitros nem árbitros que não mereçam todos os insultos, e depois, ele já não é novo, casou tarde, a Joana tem menos vinte anos que ele, homem novo e mulher nova, já ia na quinta filha sempre na expectativa que lhe saísse um rapaz na sorte, a ele, com a idade que tem, preocupa-o a natural vulnerabilidade feminina, hoje os tempos são outros, as mulheres ganharam independência,  as relações dos jovens de hoje não são as do seu tempo, mas em caso de distração quem continua a engravidar são elas, essa é uma lei irrevogável, só não tem destas preocupações quem não tem filhas em casa. E sendo cinco ... 

Em Março a Joana ficou novamente grávida, por decisão dela, ele já tinha desistido, não porque tivesse preocupações de sustentação da prole, o negócio já tinha tido melhores dias mas continuava seguro e rentável, e mais uma filha, se o acaso continuasse para esse lado, não lhe arrombaria o orçamento, a Joana insistia em oferecer-lhe um rapaz, e, quem sabe, talvez fosse desta. Para dar as voltas à sorte, desta vez nem ela escolheu o nome do  rebento antes dele nascer nem ele tencionava increvê-lo no Benfica logo no dia do nascimento. Em Maio, quando foram conhecidos os primeiros sinais ecográficos que davam como muito provável que o feto era masculino, só não houve festa rija para não desafiar o destino. Mas em Agosto, já não havia dúvidas, assegurou o médico assistente, era rapaz o que viria aí lá para finais do ano. E o Alexandre não resistiu a informar os conhecidos, e a convidar os amigos para um jantar lá em casa. Tanta
alegria só era ligeiramente ensombrada por uma preocupação incontornável: quando o filho tivesse idade para ir à bola talvez ele já não tivesse pernas para lhe acompanhar a passada. Era cada vez mais frequente, quem não lhe conhecia a família, suporem que a Joana era a sua filha mais velha ou, mais desanidor ainda, que ele era o avôzinho do grupo. 

Em Novembro, confirmava-se o excelente desenvolvimento do nascituro, teria pelo menos quatro quilos à nascença, quase cinquenta centímetros de altura, o rapagão deveria nascer entre o Natal e o Ano Novo mas o obstreta, porque tinha programado férias na neve no fim do ano e não queria deixar de assistir o nascimento, insistia em antecipar ou adiar o parto por uns dias com uma cesariana. A ideia do médico repugnou o Alexandre e a Joana preferiu o adiamento. 

Há bocado, liguei pelo Skype ao Alexandre para lhe desejar Bom Natal e perguntar pelo rapaz, deparei-me com um  Alexandre, normalmente um poço de calma, salvo nas bancadas do Benfica, furioso, como nunca o vi desde que nos conhecemos. Depois de despejar o grosso da irritação com um discurso, atropelado pela fúria que lhe saía com as palavras, e de que não entendi a maior parte, o Alexandre, ao fim desse tempo de raiva incontida, nitidamente exausto, fez-me o relato das últimas 24 horas lá em casa. Ontem à noite, cerca das 10, rebentaram as águas à Joana, o f-d-p do médico já tinha saído para a Serra Nevada, na Clínica não havia um único médico de serviço, imagina!, enfermeiras havia uma por junto e foi preciso telefonar-lhe para casa. Agora ninguém pode nascer no dia de Natal nem de Ano Novo! Percebe-se isto? Não se percebe. Mas o mais grave, o mais gravíssimo, o inaceitável, o que mais me revolta é que, era meia noite em ponto, veio a enfermeira, saltitante e sorridente a bater-se a uma gratificação choruda, mostrar-me uma criança ... que não é minha, não é minha de certeza absoluta! Como não é minha? É fácil: é uma cachopa! Uma cachopa, imagina. Fizeram as ecografias que entenderam, garantiram repetidamente que era um rapaz, e trazem-me lá de dentro uma catraia. Percebe-se isto? Que disse a enfermeira? Disse que, às vezes, os dignósticos saem errados ... como se os diagnósticos pudessem sair repetidamente errados. Sim, já insisti que revisse se não teria havido troca de crianças no berçário. Afiançou-me que não. Que em toda a maternidade da clínica, aquela tinha sido a única a nascer nas últimas 36 horas, que não havia hipótese alguma de confusão, de troca. Mas eu sei lá, pode dizer o que quiser, estava a pensar apresentar o caso à polícia, confirmar por ADN, e disse isso mesmo à enfermeira. Nem pestanejou, faça o que entender senhor Alexandre, mas o ADN confirmar-lhe-á que a sua filha é a mãe! Quanto ao pai, é melhor perguntar-lhe a ela, à mãe. Grande cabra! Já não há respeito nenhum pelos mais velhos! Hum!!! Sim, já falei com a Joana, falei. Encontrei-a também desolada por não termos acertado ainda desta vez. Mas ficou furiosa comigo quando lhe disse que ia requerer prova de ADN. Percebe-se isto?

Hesitei uns segundos, à procura de uma resposta, foi-se o Skype abaixo. 
O ano passado, a Joana tinha-me confidenciado, durante um jantar em casa deles, que o ginecologista lhe tinha garantido que, com o mesmo parceiro, jamais teria geração masculina. Ouvindo o Alexandre, fiquei na dúvida se a Joana não levou longe demais a sua disponibilidade para dar um rapaz ao Alexandre.