Sunday, September 09, 2012

HIRSHHORN - UMA VISITA VIRTUAL


Black Box Series: Jeroen Eisinga

 

PLAY IT AGAIN, PEDRO

Senhor primeiro ministro,

Toda a gente percebeu a intenção do seu discurso mas ninguém pode ter entendido o seu alcance.
Penso mesmo que nem o senhor estava ciente do que disse. Acontece  quando nos escapa o sentido daquilo que dizemos.
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Percebemos todos os que estão cientes do imbróglio onde nos meteram, e de onde ainda não começámos garantidamente a sair, que não nos safamos sem mais austeridade; que o senhor precisou de dizer publicamente à troica antes da troica colocar a classificação na pauta de exame que já tem medidas alternativas para ultrapassar a sentença do tribunal constitucional; que, hélas!, até descortinou fórmula curiosa para matar dois coelhos de uma cajadada: tributar o trabalho no sector privado e reduzir a TSU. 

O que ninguém percebeu, e o senhor também não, é para onde nos levam estas medidas que, este ano, provadamente, salvo a TSU, que não foi posta à prova, não permitiram cumprir o défice por colapso de receitas e crescimento dos subsídios de desemprego. 

A redução de cinco e meio pontos percentuais da TSU representará um decréscimo dos custos de produção das empresas em ambiente concorrencial quanto muito de metade daquele valor, se forem de mão de obra intensiva. As outras, nas telecomunicações, electricidade, águas, bancos, transportes, monopólios ou quase monopólios de facto, o que farão com o bónus? Algumas aumentarão os ordenados dos seus colaboradores, aumentando o valor do IRS, noutras embolsarão os que põem a mão na massa o subsídio inesperado. Pouco, para não dizer nada, se reflectirá nos preços pagos pelos consumidores. 

Depois, o senhor sabe que o coelho que lhe saiu da cartola continua a padecer de mixomatose constitucional: a iniquidade subsisiste,  a austeridade não chega a todos. E, das duas uma, ou o TC lhe elimina sumariamente o bicho ou procede como este ano e lhe consente a habilidade torta. De qualquer modo, subsistirá a questão mais problemática: como é que nos safamos sem alijar parte da carga de juros que, indubitavelmente, é superior às nossas forças? Mais tempo para cumprir o défice só pode ser consequente se a economia crescer a olhos vistos. Ora o que toda a gente sabe, incluindo o senhor primeiro ministro, é que ela por este caminho não vai lá. E a redução da TSU nem cuidado paliativo chega a ser, mesmo se ministrado com fé.

Para onde vamos, senhor primeiro ministro, sabe? Diga outra vez, se faz favor. Mas de modo que  o senhor entenda.


Saturday, September 08, 2012

ACERCA DA INEVITABILIDADE DE UMA OBSCENIDADE - PARTE TRÊS

O discurso do primeiro ministro sobre as medidas de austeridade para 2013 parece susceptível de interpretações diversas, difícil para o dente do cidadão comum. Teresa de Sousa, uma jornalista veterana, vd vídeo publicado pelo Público aqui, foi das primeiras vozes nos media a considerar o texto confuso. Os cálculos das consequências para os atingidos começaram depois a aparecer em vários sites e blogues, geralmente coincidentes nas conclusões: os cortes de rendimentos de trabalho por conta de outrem - sector privado e sector público -  (são apenas esses e as pensões que vão pagar a austeridade) são realmente superiores aqueles que uma leitura apressada  pode levar a supor.

A subtileza da diferença entre a aparência e a realidade, como se refere aqui, decorre do facto do aumento de 7% da contribuição dos trabalhadores para a segurança social incidir sobre o salário bruto ser percentualmente mais elevada relativamente ao salário líquido. Contas feitas, se a interpretação é a correcta, "privados podem afinal perder até dois salários líquidos, função pública perde até três".

Confrontados com estas conclusões, fonte oficial do ministério das Finanças diz que "os detalhes sobre a mecânica de aplicação da medida de agravamento da contribuição para a Segurança Social serão conhecidos mais tarde", e que   "é especulativo concluir que os trabalhadores do sector privado perdem até dois salários e os do sector público três, na sequência do agravamento das contribuições para a Segurança Social."

Especulativo ou não, a confusão existe e não é credível que as Finanças não tenham as contas feitas. Se as contas estão feitas, por que razão reserva o governo para mais tarde o esclarecimento de uma questão com consequências relevantes para milhões de portugueses? 
Ou é ou jacaré.


Para lá da confusão dos cálculos, há outras questões essenciais que o governo deverá esclarecer se não se quer desacreditar mais. Para lá da iniquidade/equidade, da inconstitucionalidade/constitucionalidade destas e doutras medidas de austeridade com que nos venha ainda a surpreender, é fundamental que o governo explique por que razão espera que os mesmos efeitos - medidas de austeridade -, que não atingiram o objectivo do défice em 2012, provocaram uma recessão e um aumento do desemprego muito para além dos valores previstos, terão consequências diferentes, atingindo o défice de 3% em 2014, partindo do facto quase adquirido de que a troica aceitará que o plano de ajuda se prolongue por mais um ano.

LÁ COMO CÁ

A taxa de desemprego é geralmente a mais contundente de todas as que as sociedades consideram para medir a sua estabilidade em tempos de paz. Até porque se ela se eleva para além de limites socialmente toleráveis (que dependem sobretudo dos sistemas de segurança social), cresce a taxa de criminalidade, o outro pavor social. Nos EUA, a menos de dois meses das próximas eleições presidenciais, os dois candidatos irão esgrimir argumentos centrados à volta da segurança social defendida por Obama e atacada por Romney & Ryan (Ryan promete ser a eminência parda, à semelhança de Dick Cheney com George W. Bush) e da taxa de desemprego.

Quando Obama tomou posse, em Janeiro de 2009, a taxa de desemprego era de 9,6%, hoje está nos 8,1%. Um valor que nos EUA, onde a segurança social ainda está longe de poder comparar-se com a generalidade dos sistemas europeus, 8,1% é um valor incómodo para quem defende um segundo mandato e um brinde para quem quer conquistar um primeiro. Ainda que seja público e notório que Obama iniciou funções num ambiente económico e social à beira da catástrofe, revelado na última fase do mandato de George W. Bush. 

Em Agosto, houve um crescimento de 96 mil empregos (um valor que os especialistas consideram poder estar errado), manifestamente insuficiente para responder à entrada média mensal de 120 mil novos candidatos a um emprego. E porquê? A indústria, que no passado funcionava como mola fundamental de relançamento da economia após um período de estagnação ou recessão, continuou a perder empregos em Agosto, a construção civil continua estagnada no buraco em que caiu, o sector público continua a reduzir pessoal em consequência do défice. Apenas o sector financeiro e o da saúde criaram empregos.

Os poderes do presidente dos EUA são limitados e as políticas adoptadas durante o seu mandato refletem apenas uma parte das suas preferências. O ano passado, Obama enfrentou a irredutibilidade de um Congresso dominado pela maioria republicana, vitoriosa nas eleições intermédias de 2010, na adopção de medidas que poderiam ter tido um alcance maior no relançamento de uma economia abalada pela crise financeira revelada em 2008. O país chegou à beira da ruptura financeira e, só então, os republicanos cederam algum espaço ao presidente. 

Até que ponto os eleitores norte-americanos nos estados flutuantes (swing states) vão ler a situação actual deste modo só em Novembro se saberá.

Friday, September 07, 2012

ACERCA DA INEVITABILIDADE DE UMA OBSCENIDADE - PARTE DOIS

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Era mais que previsível. Serão os mesmos a pagar a conta acrescida. Os outros não pagam, recebem.
A resposta veio, inesperadamente, ontem à tarde.
Advogados, outros profissionais liberais, e outros mais, continuam a escapar à austeridade.
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vídeo aqui

Portugueses,

"Estamos agora a concluir os trabalhos da 5ª revisão relativa ao Programa de Assistência Económica e Financeira. O calendário determinou que a 5ª revisão coincidisse com os trabalhos preparatórios da proposta de Orçamento para 2013. Nem todos os assuntos em discussão durante esta revisão regular estão já encerrados. Quando isso suceder, haverá, como é habitual, uma comunicação geral do Governo sobre todos os trabalhos que tiveram lugar nestes últimos dias. Mas neste momento não queria deixar de vos transmitir, como sempre garanti que o faria, algumas decisões que já foram objeto de acordo e que se revestem de uma grande importância para todos nós.

Quero falar-vos com a mesma franqueza com que sempre vos falei, sem rodeios e com o realismo que cidadãos livres e responsáveis merecem dos seus representantes políticos e que a seriedade da situação atual exige.

A emergência financeira nacional em que o País foi mergulhado em 2011 ainda não terminou. Os problemas que enfrentamos começaram a ser vigorosamente atacados mas ainda não estão dominados. Por outro lado, a nossa tarefa não tem sido facilitada pela crescente incerteza e degradação financeira na Europa de quem estamos muito dependentes. Da nossa parte, fizemos, e estamos a fazer, o que é necessário. É a nós que cabe desfazer os danos que foram infligidos durante muito tempo à nossa economia. É uma tarefa árdua e longa, em que muitas das decisões só produzem efeitos com o passar de algum tempo. Mas em resultado das nossas políticas e das nossas ações, com os esforços notáveis dos Portugueses, com a sua clarividência e paciência, podemos dizer que já começámos a reduzir substancialmente alguns dos perigos e riscos que nos ameaçavam.

Hoje, já podemos reconhecer resultados das nossas escolhas que aumentaram consideravelmente a nossa estabilidade e a nossa resistência. Estamos a reduzir o nosso défice externo mais rapidamente do que foi previsto e a diminuir a dependência da nossa economia relativamente ao financiamento estrangeiro.

Hoje, é fácil contrastar o profundo ceticismo de que Portugal era alvo na comunidade internacional com o voto diário de confiança que depositam em nós. Somos agora vistos pelos nossos parceiros internacionais e pelos agentes da economia global como um País confiável e merecedor de apoio, e a nossa reputação no exterior é incomparável com a que gozávamos há cerca de ano e meio. Este ativo tem consequências diretas na vida dos Portugueses, como nos demos conta quando no passado o delapidámos, quer mais recentemente quando efetuámos vários leilões de dívida pública a juros mais baixos aliviando os encargos de todos os contribuintes no financiamento do Estado.

Tudo isto é uma obra coletiva que mobilizou e mobiliza todos e cada um de nós. Uma obra de uma comunidade nacional que tem razões para deixar de duvidar de si mesma. Estou certo que neste ponto até os mais céticos concordarão.

Contudo, temos de estar conscientes de que esses resultados não são definitivos, nem os podemos dar por adquiridos. Foram obtidos, não porque a gravidade do nosso contexto interno e externo tenha abrandado, mas porque não nos deixámos vencer pela dimensão e complexidade dos problemas e porque fomos fiéis à nossa estratégia. Os mais recentes desenvolvimentos da política do Banco Central Europeu facilitam o nosso processo de ajustamento e aproximam o nosso propósito de regresso ao financiamento em condições normais de mercado. Mas é um erro grave supor que substituem o esforço de reformar a nossa economia e consolidar as nossas contas públicas. Essas tarefas são nossas, e sem a sua conclusão a ação do Banco Central Europeu não poderá ajudar-nos. Depois das recentes declarações públicas de responsáveis europeus tornou-se mais claro do que nunca que sem o cumprimento do nosso programa não teremos acesso a qualquer mecanismo de auxílio europeu.

Além disso, temos de compreender, com todo o realismo, que ainda subsistem vários focos de risco. É por isso que temos de persistir, com inteligência e determinação, no ataque às causas mais profundas das nossas dificuldades. Em momentos como este, em que ainda estamos a seguir um caminho íngreme repleto de obstáculos mas em que já temos algo de muito precioso a perder, não podemos arriscar os deslizes, as decisões precipitadas e extemporâneas, as hesitações na resposta aos desafios.

É compreensível que por vezes associemos as medidas que nos impõem sacrifícios a efeitos nocivos sobre a economia. Muitos têm explorado essa associação que parece quase instintiva e declaram que a retração económica e a subida do desemprego se devem à austeridade dita excessiva. Uma das grandes causas do desemprego, sabemo-lo hoje, consiste na dificuldade que as empresas experimentam de acesso ao financiamento. Mas isso é uma consequência direta da rutura financeira que o País sofreu ainda antes de ter começado a execução do Programa de Assistência Económica e Financeira. Uma outra causa reside na reestruturação da economia que está a ter lugar. Há sectores de atividade que no passado cresceram com base em condições e expectativas desajustadas da realidade do País e que sofrem agora uma retração súbita. Como sabemos que uma parte importante da criação de emprego terá de vir do nosso sector exportador, ajudar as empresas portuguesas a competir nos mercados globais é também uma boa política de emprego.

Tanto num caso como noutro percebemos que as causas do desemprego estão nos profundos desequilíbrios que se foram agravando ao longo de vários anos. Como o ponto final nesta sequência insustentável chegou sob a forma de uma ruptura financeira muito grave, nem sequer tivemos tempo para suavizar este processo. É por esta razão, e em nome do sofrimento que atinge tantas famílias, que devemos preparar o País, as suas instituições, as suas estruturas, as suas práticas, para que nunca mais volte a acumular tanta dívida nem a depender tanto de credores.

Não existem curas rápidas que substituam a preparação cuidadosa e paciente do crescimento económico. Mas podemos agir com rapidez para aliviar e estancar o aumento do desemprego. Começámos a fazê-lo com políticas ativas de emprego, como o programa Vida Ativa ou o recentemente instituído Impulso Jovem, dirigido às camadas mais jovens da população ativa. São programas desenhados para incentivar a contratação, para facilitar a transição para o mercado de trabalho sobretudo dos mais jovens e dos desempregados de longa duração, mas também para ajudar quem está desempregado a obter experiência e qualificações em ambiente de trabalho nas empresas e nas instituições e que assim lhes serão realmente úteis no seu percurso profissional. Porém, agora temos a oportunidade de dar um enquadramento mais sólido e mais alargado a essas políticas ativas de emprego.

Recentemente, o Tribunal Constitucional pronunciou-se sobre algumas normas do orçamento de 2012. O Tribunal Constitucional sublinhou sem margem para qualquer equívoco que a tarefa de responder à emergência financeira através do cumprimento das metas estabelecidas no memorando de entendimento é de "excecional interesse público ". Deixou claro para todos que a emergência que enfrentamos é ameaçadora para o nosso modo de vida e que, nesse contexto, se justificam respostas públicas que, em circunstâncias normais, não seriam adoptadas. Mas considerou que a "diferença no grau de sacrifício" que o orçamento traduzia era excessivamente acentuada e punha em causa a "igualdade na repartição dos encargos públicos". Assim, na decisão do Tribunal Constitucional a lei do orçamento para 2013 deveria conter uma outra combinação de encargos e de sacrifícios que não poderia, no entanto, ser confundida com a igualdade estrita, já que isso equivaleria a tratar de igual modo aquilo que era objetivamente diferente.

O que propomos é um contributo equitativo, um esforço de todos por um objetivo comum, como exige o Tribunal Constitucional. Mas um contributo equitativo e um esforço comum que nos levem em conjunto para cima, e não uma falsa e cega igualdade que nos arraste a todos para baixo. O orçamento para 2013 alargará o contributo para os encargos públicos com o nosso processo de ajustamento aos trabalhadores do sector privado, mas este alargamento tem diretamente por objetivo combater o crescimento do desemprego. Como sabemos, é esta a grande ameaça à nossa recuperação e é esta a principal fonte de angústia das famílias portuguesas. Foi com este duplo propósito que o Governo decidiu aumentar a contribuição para a Segurança Social exigida aos trabalhadores do sector privado para 18 por cento, o que nos permitirá, em contrapartida, descer a contribuição exigida às empresas também para 18 por cento. Faremos assim descer substancialmente os custos que oneram o trabalho, alterando os incentivos ao investimento e à criação de emprego. E fá-lo-emos numa altura em que a situação financeira de muitas das nossas empresas é muito frágil.

A subida de 7 pontos percentuais na contribuição dos trabalhadores será igualmente aplicável aos funcionários públicos e substitui o corte de um dos subsídios decidido há um ano. O subsídio reposto será distribuído pelos doze meses de salário para acudir mais rapidamente às necessidades de gestão do orçamento familiar dos que auferem estes rendimentos. Neste sentido, o rendimento mensal disponível dos trabalhadores do sector público não será, por isso, alterado relativamente a este ano. O corte do segundo subsídio é mantido nos termos já definidos na Lei do Orçamento de Estado para 2012. No caso dos pensionistas e reformados, o corte dos dois subsídios permanecerá em vigor. A duração da suspensão dos subsídios, tanto no caso dos funcionários públicos, como no dos pensionistas e reformados, continuará a ser determinada pelo período de vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira.

A nossa intenção de proteger os trabalhadores com menores rendimentos, tanto do sector público como do sector privado, será naturalmente renovada através de um esquema de proteção adequado e proporcional. Esta proteção deverá adquirir a forma de um crédito fiscal em sede de IRS por via do qual os trabalhadores de mais baixos rendimentos vejam diminuir o valor do imposto a pagar ou, nada tendo a pagar, possam receber o mesmo valor da compensação respectiva. Teremos, no entanto, a oportunidade de discutir com os parceiros sociais o melhor modo de discriminar positivamente estes trabalhadores.

Precisamos de estancar o crescimento do desemprego com soluções que nos deem garantias de sucesso. Reduzindo o valor das contribuições a que as empresas estão obrigadas e pondo em marcha um processo de "desvalorização fiscal" alcançamos vários objetivos em simultâneo. Reduzimos custos e tornamos possível uma redução de preços que, no exterior, torne as empresas mais competitivas nos mercados internacionais, e, dentro das nossas fronteiras, alivie os orçamentos das famílias. Neste aspeto, as empresas terão um papel muito importante a desempenhar ao fazerem refletir estas novas condições em benefícios para todas as pessoas. Além disso - e penso aqui muito em particular na situação das pequenas e médias empresas, que são responsáveis pelo maior volume do emprego no nosso País -, libertamos recursos para a tesouraria das empresas com maiores dificuldades, impedindo o seu encerramento extemporâneo, aumentamos os recursos para o investimento e para a contratação de novos trabalhadores, e eliminamos desincentivos a esta contratação. Melhorando a posição financeira e competitiva das empresas tornamos mais fácil o seu acesso ao crédito, no que pode ser o início de um novo ciclo virtuoso no financiamento à economia.

O Orçamento para 2013 não deixará ninguém de fora do esforço coletivo para o nosso ajustamento e traduzirá uma visão global de repartição dos sacrifícios. Incluirá medidas que afetam os rendimentos da riqueza e do capital e que tributam os lucros das grandes empresas, de resto, no seguimento do que foi feito já este ano. Prosseguiremos a nossa política de redução das rendas excessivas que existem na economia e que já abrangeu a indústria farmacêutica, as telecomunicações, as operadoras no mercado da energia e as Parcerias Público-Privadas. Avançaremos rapidamente com a redução de Fundações e do financiamento público de que gozam.

Na ponderação das diferentes possibilidades de resposta afirmativa e eficaz a todos estes desafios quisemos ser ambiciosos. Ao mesmo tempo, rejeitámos outras alternativas que, de uma forma ou de outra, se resumiam ao aumento generalizado de impostos. Rejeitámo-las porque se encarregariam de aumentar o fardo já bastante pesado da nossa economia e comprometer as nossas perspectivas de recuperação. Com estes contornos, o Orçamento de Estado para 2013 será um orçamento ainda de resposta à emergência financeira e à situação excecional que ela criou. Pedirá sacrifícios, mas será ousado e ambicioso.

Meus caros Portugueses,

Permitam-me que resuma em poucas palavras aquilo que está em causa nesta decisão. Para nós, o desemprego atingiu uma dimensão que não podemos tolerar. Ninguém pode julgar que o nosso maior problema se resolve sem escolhas difíceis e ambiciosas. É meu dever como Primeiro-Ministro adoptar a solução que realmente o pode resolver.

Não se pode eleger o desemprego como a nossa maior ameaça económica e social e depois hesitar naquela que é uma das poucas ou mesmo a única medida que oferece garantias de a combater decisivamente. E por isso vos peço: não acreditem nas pequenas soluções, nas soluções indolores, para os nossos problemas mais graves. Não se deixem tomar pela complacência de quem pensa que temos todo o tempo do mundo, ou de quem defende que já fizemos tudo o que era necessário para vencer a crise e que agora deverão ser os outros a fazer o resto. O que precisamos de fazer para reganhar a nossa autonomia no futuro não é fácil, mas está ao nosso alcance se soubermos redobrar a vontade e a ambição necessárias."

OS EUROPEUS NÃO EXISTEM

Passou cá, de regresso a casa e à Universidade onde é investigador. Cientista de mérito largamente reconhecido, na casa dos quarenta.

- Como vão as coisas por lá?
- Podiam ir melhor, esperemos que melhorem.
- E quando é que saímos do euro? Os gregos estão prestes a sair, não?
- Não creio. Seria um desastre para eles, e para nós.
- Mas porquê? Desastre é não disporem de moeda própria que lhes permita decidir a política cambial que mais lhe convenha. Fui sempre contra a entrada de Portugal no euro, aliás penso que não deveríamos sequer ter entrado na União Europeia. A União Europeia é uma ficção, os europeus não existem. 
- Albanizávamos-nos, então?
- De modo algum. Portugal é um país rico. Eu nasci em Angola, agora estou aqui, estou a fazer uma boa carreira, tenho família em quase todos os continentes. Veja o que aconteceu em 75. Chegou aquela gente toda e Portugal ganhou outro dinamismo. Hoje há quase cem mil portugueses em Angola. Há mais de duzentos milhões de pessoas que falam português. É com eles que Portugal tem de contar.
- Não penso que possamos deixar de nos integrar na Europa. Aliás, sou favorável a uma federação europeia. E a culpa da situação em que estamos não é do euro, não é da União Europeia. As desvalorizações competitivas nunca originaram um crescimento económico e social sustentado. Veja o caso do Brasil. Só saiu do subdesenvolvimento larvar quando abandonou a política da desvalorização crónica do cruzeiro. 
- Mas são os países que ficaram fora do euro que estão em melhor situação agora: veja o caso do Reino Unido, da Suécia, da Dinamarca, ...
- São em maior número os que estão em boa situação dentro da zona euro. O Reino Unido não está assim tão bem, e as coroas sueca e dinamarquesa flutuam à volta do euro. A Hungria não está no euro e está com problemas sérios, os checos não estão, e estão equilibrados. No nosso caso, a origem do desastre não está no euro mas no endividamento importado (e algum reexportado para a Grécia) pelos bancos que atingiu níveis que nunca deveria ter sido consentido terem sido atingidos. E os bancos sabiam disso, o Banco de Portugal sabia disso, os governos sabiam disso mas convinha-lhes o crédito para comprar os votos com as obras com que enchiam o olho dos eleitores. São eles, os bancos, e muito especialmente o Banco de Portugal, e os governantes, os culpados.
- A União Europeia pagou para se arrancaremas vinhas, para se destruir a frota de pesca e a marinha mercante.
Não é verdade. Portugal recebeu da UE muitos fundos estruturais. Se houve uma má utilização desses fundos devemos culpar aqueles que em Portugal consentiram os desmandos e as falcatruas na sua utilização. Eu herdei umas vinhas que não tinham dimensão económica competitiva. Abandonei-as sem esperar quaisquer fundos europeus, que, aliás, nem solicitei sequer. Foram abatidos muitos barcos de pesca sem dimensão competitiva. O que fizeram com o dinheiro que a a UE pagou? Investiram em barcos bem apetrechados? Houve apoios a culturas específicas, de girassol, por exemplo. Os institutos responsáveis pelas atribuições dos fundos e controlo das produções viram o que toda a gente viu: Lançadas as sementes à terra, ninguém mais se importava com a seara que morria ressequida. De quem foi a culpa? da UE ou dos serviços incompetentes do ministério da agricultura?
- Mas acha de os de leste ou os do norte da Europa nos ligam alguma, que querem saber de nós. Não. Deveríamos sair do Euro, sair da União Europeia,  e contar com nós mesmos.
- E as dívidas?
- Acabavam-se as dívidas. A Argentina falhou, e veio ao de cima. Os cubanos há muitos anos que contam apenas com eles e têm conseguido. Os portugueses têm de fazer o mesmo. O futuro dos portugueses está nos portugueses, onde quer que eles estejam.
- Discordo. Foi o isolamento, o acantonamento a que a geografia e a história nos remeteram, que nos marginalizou, nos dispensou dos conflitos, dos desafios, dos confrontos, e  nos amoleceu a garra. Não devemos agora esquecer por onde andámos, o nosso passado, a nossa vocação atlântica, mas não podemos deixar de nos integrar na Europa.
- Os portugueses não têm hoje direito a voto em matérias vitais. Segundo um relatório da ONU, recente, Portugal é uma democracia deficiente porque o voto dos portugueses pouco decide. A Grécia vai sair da Europa. E penso que os gregos ganharão com isso. Desde logo porque ficarão novamente senhores dos seus destinos. Hoje não têm capacidade de decidir por eles.
- Se a Grécia sair do euro ...
- e  da União Europeia ...
- Acaba a União Europeia. 
- E, depois? 
- Hum! Os gregos cairão nos braços de Putin?
- Ficam pior?
- Muito pior. E,  se isso suceder assistiremos ao desmantelamento da Europa, à recomposição do bloco russo. À guerra, muito provavelmente.
- Mas a guerra já começou.
- Em certa medida sim.

Mas ainda há tempo para evitar que se precepite num conflito bélico que destruiria mais uma vez a Europa. Foi essa a razão primordial que há cinquenta e quatro anos esteve na origem dos alicerces da União Europeia, um edifício ainda em vias de construção, à espera que pacificamente o terminem, e que não o abanem tanto os projectistas que acabem por o deitar ao chão. Porque, se houver desmoronamento, muitos europeus poderão ficar debaixo dos escombros.

Thursday, September 06, 2012

ACERCA DA INEVITABILIDADE DA OBSCENIDADE

A discussão é inevitável e não se pode culpar a comunicação social de transmitir o que os políticos, os para políticos, os retirados da política, e os outros, que também são gente, entendem opinar sobre o assunto: como é que o governo descalça a bota apertada do défice (e da dívida pública, que é por aí que a bota aperta) sem aumentar os impostos?  

O CDS, espetou o dedo no ar, e disse: mais impostos, nem pensar.
Pensou Passos, que considera que no Governo ninguém pode excluir mais impostos e do CDS disseram que, sim senhor, quem manda é ele, o CDS apenas quis pressionar a troica, pensando que a troica é cega e surda. 

J Salgueiro, a propósito, opinou que  mais tempo para cumprir o programa será mau para Portugal. Também acho, e escrevi uma coisa parecida , por exemplo, aqui. Freitas do Amaral defende subida dos impostos para os mais ricos Miguel Cadilhe defendeu há dois meses na AR um imposto extraordinário de 4% sobre a riqueza para amortização directa da dívida. Há mais tempo defendeu a venda de parte das reservas de ouro. Ninguém ligou, e eu continuo sem saber porquê. Há cerca de um ano atrás defendeu a privatização total da CGD. Concordo com ele, e expliquei aqui porquê.

Mas, assim de repente, pensar que se descalça a bota sem mais impostos é impensável. O que pode discutir-se é quem vai pagar a descalçadeira. Sempre os mesmos ou os outros?
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Cor. - E se tivesse havido um objectivo de redução do défice mais moderado? Talvez o défice fosse o mesmo mas a recessão menos acentuada. Não é impossível responder a esta pergunta, para o que bastaria ter acesso ao modelo macroeconómico que o Governo usa ou ter a capacidade de o replicar

E por que não vende o ministro Relvas os submarinos?

GATO ESCONDIDO

Alberto da Ponte será o novo presidente da RTP.

Porquê?

A da Ponte é presidente da Sociedade Central de Cervejas e, tanto é do conhecimento público, tem realizado uma gestão aplaudível da empresa. Que macaco lhe mordeu para dar o salto de uma empresa privada lucrativa para uma empresa (ainda) pública em vias de uma privatização que promete ser altamente polémica? O que leva da Ponte para a RTP, de uma empresa (aparentemente) sólida para uma empresa (aparentemente) complicada se não vai para o lugar do Rodrigues dos Santos, do Malato ou do Mendes, alguns dos mais aplaudidos produtores do serviço público de televisão que temos?

Só pode haver uma explicação: as garantias dadas a da Ponte quanto ao seu papel e retribuições após privatização da empresa ou da concessão de serviço público de televisão, uma coisa que ninguém sabe o que é. A não ser quem garantiu a da Ponte as vantagens do salto. 

Se faltava a cereja no topo do tramoia, ela aí está.
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Act. -Um relíquia de estilo:  Governo manda, o Estado obedece.  O Conselho de Ministros desta quinta-feira refere-se à eleição dos novos membros do conselho de administração da RTP, afirmando apenas que mandatou o accionista Estado de eleger os novos gestores, sem referir oficialmente a escolha de Alberto da Ponte como presidente do grupo. (aqui)

Em Abril A da Ponte trocou Portugal pela Holanda e assumiu um cargo internacional na sede da Heineken, multinacional que detém 100% da SCC. (aqui)

AQUI HÁ GATO


Li e desliguei.

Hoje, de manhã, num fuso cinco horas a oeste, abro os e-mail e leio isto:

05 de setembro 2012
Banco Comercial Português, S.A. informa sobre deliberação de aumento de capital
BANCO COMERCIAL PORTUGUÊS, S.A. ANUNCIA TER SIDO DELIBERADA
A REALIZAÇÃO DE UM AUMENTO DO CAPITAL SOCIAL NO MONTANTE DE €500 MILHÕES
RESERVADO A ACCIONISTAS POR NOVAS ENTRADAS EM NUMERÁRIO
O Banco Comercial Português, S.A. (“Millennium bcp” ou “Banco”) vem, nos termos e para os efeitos legais aplicáveis, informar o mercado, e os seus acionistas em particular, que, no âmbito da autorização concedida pela Assembleia Geral, o Conselho de Administração do Banco deliberou, com o prévio parecer favorável da Comissão de Auditoria, aumentar o capital social de 3.000.000.000 Euros para 3.500.000.000 Euros, com Oferta Pública de Subscrição reservada a acionistas no exercício dos respetivos direitos de preferência e demais investidores que adquiram direitos de subscrição, com a consequente emissão de 12.500.000 novas ações ordinárias, escriturais e nominativas, sem valor nominal.

O preço de subscrição foi fixado em 0,04 Euros por cada ação.

Devo estar a  ler mal. Os banqueiros nunca confundem milhões com mil milhões, pois não?

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Act. - Já foi corrigido aqui

Wednesday, September 05, 2012

E, DEPOIS DA TROICA?


O crescimento da competitividade impulsiona o crescimento da riqueza, esta, as condições para o crescimento do desenvolvimento humano
A correlação nem sempre é estreita, mas é inquestionável que as sociedades progridem na escala do desenvolvimento da personalidade dos seus membros competindo pacificamente entre si.

Portugal não fica bem nesta fotografia. Ocupa o 46º. lugar no ranking da competitividade (vd pag 298 do relatório), o 41º. no índice de desenvolvimento humano e o 42º do PIB. E não fica bem porque a sua posição relativa tem vindo a cair imparavelmente nos últimos 12 anos.

Culpados: os mesmos do costume. 
Os maiores afastamentos relativamente aos valores médios do grupo dos "innovation-driven economies" situam-se na insuficiência de qualidade das instituições (a da Justiça é notória), da sofisticação dos negócios, do desenvolvimento financeiro, da eficiência do mercado de trabalho, do envolvimento macroeconómico.

Isto, AT (antes da troica). DT, ver-se-á.

CONFISSÕES

A propósito desta, esta:

Também fui sempre suspeito.

Da esquerda, para uns, da direita, para outros. Somos as excepções de uma humanidade que, segundo os psicólogos, é sociologicamente parametrizada à nascença.
Acontece na política, como no futebol, como na religião.
A mim, ninguém me acredita que goste de futebol e não tenha clube. Sou um ET.

Nos EUA, um fulano tem de pertencer a uma Igreja, seja ela qual for, para não ser olhado de soslaio. Em Portugal não é tanto assim mas não se livra de ser catalogado à força.

Nasci ( ) em A. de Baixo. A cem metros, se tanto, havia a primeira casa de A. de Cima. Os meus pais construiram a nossa casa entre uma localidade e outra. Os putos de um lado e doutro guerreavam-se sem tréguas. Eu, que tinha avós maternos em A. de Cima e paternos em A. de Baixo, era tolerado nos dois campos mas muitas vezes não visto como um dos deles.

Deve ter começado aí o meu desalinhamento.

O JOGO DA CABRA CEGA


O Mistério Público é inesgotável de estórias de operações e casos, com títulos pitorescos,  e as estórias inesgotáveis de episódios. Ontem soube-se que

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Ultimamente, no cerimonial de uma absurda abertura do ano judicial, com a pompa esfarrapada pelas circunstâncias, têm-se mimoseado os senhores representantes das corporações de agentes da justiça que não temos (é essa a percepção dos portugueses revelada em inquéritos sucessivos) atirando uns aos outros as culpas do estado lamentável de um sistema sem rei nem roque. Depois do espectáculo público ente os actores, o senhor Presidente da cerimónia diz o que tem dito, e não se passa do sobredito.
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A senhora ministra do pelouro discordava há dias que haja excesso de funcionários públicos.
Um dia destes, se assim continuar a fazer contas, concluirá que a justiça não funciona em Portugal porque há falta de pessoal no seu ministério.

Porque há. Falta alguém que lhe acerte as contas.

A ministra defendeu que "está por provar que o sector privado seja mais eficaz"

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De qualquer modo não serviriam para grande coisa.

Tuesday, September 04, 2012

O QUE ELES CONSOMEM

The Democratic Consumer

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The Republican Consumer
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DESTA VEZ É DIFERENTE

Robert J. Samuelson, jornalista do Washington Post (sem nenhuma relação familiar com Paul Samuelson, Prémio Nobel da Economia em 1970) afirma-se partidariamente independente e, por essa razão, não vota. 
Ontem, o WP publicava um artigo seu - Grading Obama´s economics -, onde o veterano Robert faz uma avaliação da administração de Obama desde que tomou posse em Janeiro de 2009: não mais que um medíocre C+, reconhecendo, no entanto, que o presidente dos EUA tem pouca influência na evolução da situação económica do país.

Afirma Robert que, depois de bater no fundo em meados de 2009, a economia norte-americana cresceu apenas 2,2% /ano, que comparam mal com o vigor das recuperações observadas nas nove crises anteriores desde 1950 - em média , 4,2% durante os primeiros três anos.

 Há neste julgamento do independente Robert J. Samuelson um enviesamento de raciocínio que, não podendo atribuir-se à sua falta de conhecimento da história económica contemporânea dos EUA - que vem comentando há mais de três de dezenas de anos -, nem a ideologia partidária, de que se diz isento, a meu ver à apreciação de Robert escapou um factor que, não sendo subtil, parece escapar à maioria dos comentadores tanto nos EUA como na Europa, e, nomedamente, em Portugal.

 Carmen Reinhart e Keneth Rogoff defendem em This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly que esta crise não é diferente das outras, e que pouco se aprendeu (ou pouco se quis aprender) com as causas e consequências conhecidas das crises anteriores. A escalpelização exaustiva dessas crises permitiu-lhes estabelecer padrões que se repetem nos diferentes sintomas das sociedades onde houve desvalorizações profundas das moedas, inflações e hiperinflações, incumprimento de dívidas externas e domésticas, assim como dos ciclos nos preços dos imobiliários e nas bolsas de valores, nos aumentos do dresemprego, nas receitas dos estados como reflexo dessas mesmas crises.

E, no entanto, há aspectos, que não podem ser descartados, na configuração desta crise. O centro de gravidade da economia mundial está a deslocar-se para o Oriente. A economia chinesa deve ultrapassar, a curto prazo, o peso da economia norte-americana, depois de já ter deixado para trás a economia japonesa e a economia alemã. A economia da União Europeia, sendo globalmente ainda maior, ainda não é uma economia realmente globalizada.

A deslocalização industrial do ocidente para oriente foi lubrificada com o forte afluxo de capitais em sentido contrário, animando o crescimento do imobiliário que passou a representar no total da riqueza produzida uma quota insustentável. Uma vez, inevitavelmente, invertida a tendência do ciclo no sentido descendente, a recuperação, para ser tão vivaz como em retomas anteriores, teria de contar com uma mola económica que lhe permitisse igualar o padrão. O sector imobiliário, só por si, não consegue isso e os sectores industriais estão no outro lado do mundo. A queda dos preços do imobiliário atingiu os 30%, e só agora parece ter parado.

Como é que poderia ter sido diferente?   

Monday, September 03, 2012

FINALMENTE, EUROPEUS?

Rehn: União bancária deve ser "prioridade" para garantir estabilidade da economia

O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, afirmou hoje, em Bruxelas, que a criação de uma união bancária europeia deve ser uma "prioridade", considerando ser uma medida necessária para garantir a estabilidade da economia europeia. (aqui) A Comissão Europeia prevê dar a conhecer oficialmente a sua proposta para criar uma união bancária na Europa no próximo dia 12, com o objectivo de que os Estados membros a discutam nos próximos meses e possa estar aprovada antes do fim do ano. "Ou ganhamos todos juntos, ou perdemos todos juntos", disse ainda o comissário europeu, acrescentando que os europeus "não podem e não serão divididos entre vencedores e perdedores".

A ideia não é nova. A primeira vez que a vi referida registei-a aqui. Wolfgang Münchau tinha apontado no Financial Times desse dia que a "única forma de evitar a corrida aos bancos" requeria a centralização da supervisão bancária e a globalização das garantias bancárias. Alguns tempos depois,  Draghi  perfilhou a ideia, Merkel, como vem sendo habitual não a contrariou mas tentou minimizar-lhe o âmbito, Barroso opinou (já que não lhe é dado decidir) que a medida não deveria excluir ninguém. 

Hoje Olli Rhen assumiu que a Comissão apresentará a proposta que pode, finalmente, evitar que os europeus sejam divididos e a União Europeia se extinga.

Há dias, Paulo Rangel defendeu a necessidade de a Europa caminhar para o federalismo sob pena de se desmoronar e cair no caos. Tenho apontado o mesmo sentimento repetidas vezes neste caderno. A proposta que Olli Rehn anunciou hoje será, se vier a concretizar-se o segundo grande passo nesse sentido. O primeiro foi a criação da zona euro. Espera-se que as ameaças que impendem sobre este se reduzam significativamente com a globalização bancária na União.

Os alemães vão rabiar. Quem se colocará ao lado deles? Do sucesso desta ideia depende a unidade dos europeus. Mas para esse sucesso, que não pode ser construido sem a aceitação da Alemanha, será decisiva a força da união dos restantes membros relativamente à proposta.

MR. CONARD

No tempo da maria caxuxa, de médico e louco toda a gente tinha um pouco. Depois foi inventada a ciência económica e hoje, de economia, toda a gente tem a teoria toda. Talvez por isso, Mr. Paul Farrel ande tão baralhado e não o faz por menos que garantir que tudo o que têm dito os economistas (e o que é isso?) é treta.

Nos EUA, a dois meses das eleições presidenciais, aquecem as discussões entre republicanos e democratas,  forjando as opiniões de colunistas, jornalistas, capitalistas, sindicalistas, de arrivistas em geral, e também de alguns economistas. Ontem, o Washington Post, publicava um artigo de um seu colunista habitual,  Steven Pearlstein - Can we save American capitalism? -, onde, no meio de um conjunto de reflexões pertinentes sobre o tema do título, ressalta a teoria insólita de Mr. Conard.   
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Mr.Conard, revela a bisbilhoteira wikipedia, foi managing director da Bain Capital (co-fundada por Mitt Romney, candidato republicano à presidência dos EUA em Novembro) e, desvenda Pearlstein, registou o ano passado uma empresa com o objectivo de contribuir com 1 milhão de dólares para a campanha do ex-patrão.

Assegura Conrard que o capitalismo americano teve durante quinze anos a sua época dourada. As grandes empresas, os gestores, os investidores ricos, colocaram quantias massivas de capitais, muitos dos quais não revelados pelas regras contabilísticas, em novas ideias e tecnologias. Daí resultando o forte crescimento da produtividade que permitiu que a economia norte-americana não só empregasse todos os nacioinais à procura de emprego como dezenas de milhões de emigrantes mexicanos e asiáticos. E se para alguns, movidos pela inveja, afirmem que o processo enriqueceu ainda mais apenas os mais ricos, Conard garante que 95% dos benefícios económicos dessa era de prosperidade beneficiaram os trabalhadores e os consumidores, sob a for ma de aumentos de salários, maiores poupanças, e produtos e serviços mais baratos.

E, conclui Conard, a única via para voltar à era dourada de crescimento económico elevado, baixo desemprego e animação nas bolsas de valores, passa pela eliminação de todas as taxas sobre os muito ricos de modo que eles possam fazer mais investimentos em novas ideias e em empresas inovadoras. Ao mesmo tempo devem os EUA abandonar a indústria, encaminhar os talentos para as tecnologias de ponta e para as áreas financeiras. Os outros, aqueles a quem a natureza não talentou, que cuidem das crianças e os jardins dos talentosos.

Em resumo: A desigualdade social, geralmente considerada como obstáculo ao crescimento das sociedades onde ela prevalece, é, para Mr. Conard, uma condição necessária para os EUA voltarem aos bons dourados tempos. 

Pense-se o que se pensar desta crença de Mr. Conard, há um aspecto que ninguém pode ignorar: há milhões de norte-americanos, muito longe de serem ricos, que em Novembro votarão em Mr. Romney embalados pelo credo de Mr. Conard. Espera-se que não sejam a maioria por se recordarem ainda das consequências  das crenças à Mr. Coard reveladas há cerca de cinco anos na economia dos EUA e do mundo dito desenvolvido, em geral.

Saturday, September 01, 2012

YES, HE GOT IT! *

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A capa e artigo de fundo do Economist são dedicados à análise do mandato de Barack Obama - Barack Obama’s economic record - End-of-term report - resumindo em subtítulo as suas conclusões: Os resultados atingidos pelo presidente norte-americano são melhores do que os problemas da economia dos EUA sugerem.
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"Nenhum presidente dos EUA, desde 1933, tinha tomado posse numa situação económica tão dramática como aquela que existia quando Barack Obama fez o seu juramento em Janeiro de 2009. O sistema bancário estava à beira do colapso, os dois maiores fabricantes de automóveis a cair na falência; e o emprego, o mercado da habitação e o consumo a afundarem-se numa espiral imparável."
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O Economist é uma publicação que sempre se reclamou de tendência liberal no sentido que na Europa é dado ao termo. É, portanto, insuspeita de enviesamento ideológico a sua opinião acerca do mandato do presidente norte-americano e dificilmente poderia ser mais positivo o balanço que faz destes quase quatro anos da  administração democrata na Casa Branca considerando as circunstâncias em que Barack Obama tomou posse.
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O factor decisivo das eleições presidenciais nos EUA é a apreciação que os eleitores fazem da situação económica no momento do sufrágio, geralmente desvalorizando o ponto de partida, e a situação da economia norte-americana neste momento está longe de ser boa, sendo o nível de desemprego (geralmente baixo) o indicador mais impressivo da insuficiência da retoma.
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Qualquer que seja o resultado das próximas eleições presidenciais, ele será sempre muito apertado e provavelmente incerto até ao conhecimento dos últimos resultados. A opinião pública encontra-se divida a meio, aliás como é tradicional, cruzando-se as opções por razões de convicções irredutíveis (há vários estados onde os candidatos têm antecipadamente garantidos os delegados ao colégio eleitoral) com as apreciações que os eleitores flutuantes nos estados pendulares fazem da situação no momento em que votam, e são estes que decidem o resultado final. 

Barack Obama até pode não conseguir a reeleição para um segundo mandato, mas é indiscutível que a sua administração se tem pautado por uma conduta serena e eficiente, considerando a tempestade que teve que enfrentar quando tomou conta do leme, tendo conseguido levar os EUA à vista de melhores dias.
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* Ontem transcrevi o artigo do Economist porque um resumo seria sempre uma redução empobrecedora do original. Convicto, contudo, que o artigo é relativamente acessível se o link não funcionar, retirei o texto inicialmente transcrito.

OS SUSPEITOS DO COSTUME

Há dias o amigo João Vaz chamou-me a atenção para este artigo de Paul Farrel publicado Market Watch, um dos sites do Wall Street Journal.

Quem é Paul Ferrel? Segundo resumo publicado no Market Watch, onde tem coluna reservada, "Paul Farrell writes the column on behavioral economics. He's the author of nine books on personal finance, economics and psychology, including "The Millionaire Code," "The Winning Portfolio," "The Lazy Person's Guide to Investing." Farrell was an investment banker with Morgan Stanley; executive vice president of the Financial News Network; executive vice president of Mercury Entertainment Corp; and associate editor of the Los Angeles Herald Examiner. He has a Juris Doctor and a Doctorate in Psychology"

Neste artigo - Myth of Perpetual Growth is killing America / Commentary: Everything you know about economics is wrong - há algumas verdades mas também muito exagero e radicalismo. Afirma Farrel, além de mais,  que as conclusões dos economistas se fundamentam em ficções que distorcem tudo. E parte desta premissa elevado a dogma para arrasar todos quantos escrevem sobre temas económicos.  

Não há sempre nem nunca, não há tudo nem nada. Quando Farrel defende que "tudo o que se sabe sobre economia está errado", a questão óbvia que se coloca é se Farrel sabe alguma coisa de economia. E se sabe, que verdade é a dele que, segundo ele próprio, ainda ninguém comprou? 

É inquestionável que o princípio do crescimento perpétuo em que implicitamente acredita meio mundo, porque outro meio não acredita porque não o vislumbra, é tão insustentável como o movimento perpétuo e, como este, falível por esgotamento de energia motora.

Jared Diamond, autor de The Third Chimpanzee, Guns, Germs and Steel, e Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed recorre à história para explicar nesta última obra como a exaustão da energia esteve na origem da queda dos impérios e da extinção de civilizações. Nada de novo, portanto, senhor Farrel. 

A questão que se coloca não é a sustentabilidade do crescimento ao cimo da terra mas a capacidade do homem descortinar à sua volta (ou à volta do que anda) fontes de energia que possam continuar a sustentar esse crescimento.

Acompanha o artigo de Farrel uma fotografia de uma montanha de desperdício, intuindo que crescimento determina inevitavelmente crescimento paralelo da poluição do planeta. Não é necessariamente assim, e há muita gente, reclamando-se economista ou não, que está consciente disso. Nos EUA, como no resto do mundo, há economistas com perspectivas macroeconómicas distintas. Meter todos no mesmo saco e acusá-los de falta de honestidade ou de conhecimentos, é no mínimo sinónimo de uma arrogância que raia o delírio. 

A GUERRA DA RAPOSA

No dia em que soube que o Marinheiro foi preso decidi requerer a incorporação imediata. Indeferiram. No ano anterior tinham indeferido o pedido de adiamento. Voltei a falar com M Mota, um jornalista veterano, a tempo muito parcial, do Mundo Desportivo que era tu cá tu lá com os militares de A Bola.

- E qual é a pressa? Vai acabar a guerra?
- Não sei quando vai acabar, mas sei que será cada vez mais dura de roer. E depois, quanto mais tarde for mais tarde volto, se voltar.

M Mota discou o telefone, e à tarde disse-me para aparecer no dia seguinte no centro de recrutamento, o mais cedo possível porque as listas seriam enviadas à tarde para os quarteis.

O Marinheiro, que recolhia fundos junto de alguns colegas para, dizia ele, apoio a familiares dos presos políticos, parecia bem informado acerca da evolução dos combates em África e tinha-me incentivado a dar o salto ou a alistar-me quanto antes. Fiquei convencido que ele iria desertar.

Preso o Marinheiro, havia a considerar a hipótese de virem os esbirros da pide interrogar os colegas com quem o prisioneiro era visto. Posta de parte a fuga tinha chegado a hora de ir marcar passo.

No dia seguinte galguei dois a dois os degraus de pedra que levavam ao primeiro andar onde estava instalado o centro de recrutamento. Com a velocidade adquirida na subida passei ainda apressado a porta de entrada e quase embati de frente com dois indivíduos que conversavam junto à porta. Um deles, já sexagenário, baixo, alentado, ainda alguns cabelos brancos, curtos, a resistirem numa nuca brilhante, cara redonda avermelhada rematada com uma considerável barbela, fato preto sobre camisa branca e gravata verde seco, dos camuflados. O outro, um mancebo com mais de metro e oitenta de altura, bem entroncado, cabelo meio castanho claro, meio ruivo, comprido, fato creme, camisa branca, o colarinho desapertado.

- Muito bem, muito bem! E onde é que o amigo Bastos quer ser colocado?
- Talvez em Mafra, penso que Mafra seria melhor para mim, tenho lá família...
-  Hum! Mafra? Mafra, não, Mafra, não. O meu amigo não vai para Mafra, vai para Santarém. Vai para Santarém, quem manda sou eu! Hem? Quem manda sou eu!

E, ao mesmo tempo que lhe apertava a mão, e lhe dava uma palmada nas costas, a despedir-se, avisava o Bastos: E não se esqueça de passar pelo barbeiro antes. Se aparece lá com essa trunfa, o profissional local só usa a máquina zero.

E foi assim que vi o Bastos pela primeira vez.

O senhor que mandava, quando se voltou, olhou-me de soslaio. Depois foi sentar-se à secretária ao centro da retaguarda do escritório, as costas voltadas para a janela central das três que iluminavam a sala e por onde se avistavam, como num enorme puzzle, três nesgas do Terreiro do Paço.

- Diga! Ordenou-me de dentro um sargento à medida que se aproximava do balcão que separava o escritório da sala de entrada, estava eu, à espera que me vissem e perguntassem, a olhar uns editais num quadro pendurado na parede do lado esquerdo. Voltei-me e disse ao que ia. O sargento consultou os cadernos, anotou e despachou: Está feito! É incorporado em Setembro.

- E onde? Perguntei intencionalmente, de modo que fosse ouvido pelo velho senhor. Pode ser Santarém? Tenho lá família…

O sargento voltou-se, o velho senhor, apanhado em flagrante, concordou com o significativo gesto de cabeça, e no dia 1 de Setembro apresentei-me em Santarém.

Naquele ano a intensidade dos movimentos dos rebeldes tinha exigido a formação de milicianos, oficiais e sargentos, em Mafra, Santarém, Torres Novas e Tavira. A Escola Prática de Cavalaria era então comandada por um coronel, dizia-se que com uma passagem pela pide na folha de serviços, um predicado que lhe sobrecarregava o ar sinistro com que atravessava a parada montando o único equídeo que se via na escola da especialidade. A cavalaria dos cavalos só herdara o nome, os cavalos estavam agora nos tanques e nas panhards, umas pilecas meio estafadas que não entravam na guerra de África. Viriam a ter préstimo dali a trinta anos quando demoliram numa noite os muros abalados de um regime caduco.

No pelotão predominavam os apurados para os serviços auxiliares, os já licenciados, outros, como o Bastos, que queriam ir para Mafra por não saberem que Santarém era mais conveniente, no entender do velho senhor do Terreiro do Paço, outros por razões desconhecidas. A estrela da companhia era uma vedeta da televisão, o único cadete autorizado a sair do quartel para se deslocar a Lisboa às seis da tarde mas obrigado a reentrar antes da uma da manhã.

Logo no primeiro dia, o aviso importante para a sobrevivência individual do combatente: A arma, senhores cadetes, faz parte do corpo do soldado, ponham isso na cabeça uma vez por todas! Sem arma, um soldado está desarmado, e um soldado desarmado pode ser um soldado morto. Não há nenhuma razão, ouçam bem! não há nenhuma razão que possa justificar o desaparecimento de uma arma. Cadete que durante a instrução perca a arma ou que deixe que alguém lha tome ou roube, não morre aqui por isso mas será recambiado como soldado raso para o contingente geral onde certamente dará um bom atirador de infantaria se não quiser morrer em combate. Mas, atenção, possuí-la não chega, há que cuidar dela, mante-la limpa por fora e por dentro. Há que desmontar a culatra e olear-lhe as peças, há que limpar-lhe as estrias com a vareta e proteger-lhe a entrada com o protector de boca. Ficamos entendidos? Ah! E muito cuidado com as estrias! Há quem perca as estrias. Há tipos para tudo, até para perder as estrias da espingarda. Um tipo que perca as estrias da arma é capaz de perder tudo!

Com a mauser, uma canhota mais antiga que a primeira guerra mundial, ensaiavam-se os rituais castrenses com que se disciplinam as tropas: ombro!-arma!, sent-up!, abrir-fileiras-up!, cerrar-fileiras-up! e o mais esperado de todos, destroçar-up! Com a mauser também se aprendia a dar tiros, mas poucos, que as balas, mesmo de madeira, saíam caras, e eram perigosas.

Um dia, já o primeiro ciclo do curso geral do combatente ia nos três quartos, o pelotão acelerou com a canhota a tiracolo por cima do uniforme de trabalho para provas na carreira de tiro, e as ideias baralhadas. Qual a táctica mais conveniente para escapar ao segundo ciclo na escola prática de infantaria e ir para África como infante? Se uma boa pontaria, demonstrada na carreira de tiro, dava direito a carimbar passaporte para ir para o mato, seria inteligente atirar para o lado se não lhe corresse nas veias o sangue de alguma heroicidade romântica serôdia, uma patologia raríssima?

Levada a dedução lógica por este lado, um bom atirador seria mandado combater para o mato, penalizado pela sua boa pontaria, os aselhas colocados a defender os restos do Império atrás de uma secretária, e a instrução seria uma pessegada onde cada um trataria de demonstrar o cúmulo da sua inabilidade.

Se, pelo contrário, a lógica fosse para os militares uma batata, os melhores classificados no curso seriam destacados para tratar das cartas e das contas no conforto dos gabinetes e os vesgos na pontaria mandados para enfrentar o inimigo no terreno.

Em Santarém começou por correr a convicção que, se para lá tinham sido enviados os apurados para os serviços auxiliares, todo o pessoal ali seria destinado aos serviços, mas depressa o optimismo local foi desmontado por oficiais e sargentos: apurados para todo o serviço tanto podem vir a ser atiradores como especialistas da contra-informação. Todos percebemos que o pivô da televisão tinha lugar assegurado na sua especialidade, os outros tinham tantas hipóteses de embarcar para África como os seus camaradas de Mafra, Torres Novas ou Tavira.

Subsistia a dúvida: Que fazer, então: acertar no alvo ou no alvo do camarada ao lado? O Bastos ouvia estas discussões sem fim e sem interesse. Afinal de contas, se estávamos a procurar escapar à guerra, quer a certeza na pontaria contasse a favor ou contra, estávamos a competir por um lugar num ranking onde ninguém sabia se seria melhor ficar nos primeiros lugares ou nos últimos. Mais do que camaradas eramos concorrentes sem saber em quê.

Já casado, à espera de um filho, o Bastos excedia tudo e todos nas provas físicas e ocupava os momentos disponíveis para encaixar a teoria, batendo-se sem descanso pelos primeiros lugares, o que, acreditava ele, lhe permitiria escapar ao embarque para África. Estes tipos, considerava o Bastos, não podem ser tão imbecis que penalizem os melhores, precisamente por serem os melhores, mandando-os caçar terroristas.

Assim, como assim, a mim que nunca tinha sequer pegado numa caçadeira tanto se me dava. Quando nos alinhámos na posição de tiro, calhou-me, por uma questão de ordem numérica, ficar sensivelmente a meio de uma das linhas em que se desdobrou o pelotão, entre uns camaradas caçadores. À ordem de fogo fiz o melhor que sabia sem saber o que estava a fazer e, muito sobretudo, porquê. Deve ter prevalecido entre os caçadores ao meu lado a convicção, simétrica à do Bastos, de que os militares não poderiam ser tão burros que recrutassem para atirador quem não acertava uma, porque o meu alvo apareceu crivado de balas, uma proeza que me concedeu a classificação de atirador de primeira classe. Melhor, nem o Bastos.

Aquela era uma guerra sem qualquer desígnio patriótico, salvo algumas excepções que têm de ser sempre admitidas para salvaguarda da honra das regras. Era uma guerra nunca poderia ser ganho por ausência de motivação colectiva de defesa de interesses sentidos ou conhecidos. O discurso dos apaniguados do regime não mobilizava o querer colectivo do país, arrebanhava os conformados.

Na segunda semana de Dezembro encerraram o primeiro ciclo do curso com marchas finais na Raposa, do outro lado do Tejo, já no concelho de Almeirim. Antes do início da marcha a pé até ao sítio das manobras, e já com todo o equipamento às costas, aguentámos mais uma prelecção acerca da importância vital da disciplina do combatente, ficando muito bem esclarecido que, para além do cumprimento rigoroso de todas as instruções, seria severamente punido o eventual transporte e o consumo de víveres ou bebidas que não fossem fornecidos pelos serviços de intendência.

Acampámos numa mata de pinhal atravessada por um caminho vicinal que, a norte, passava pelo acampamento dos sargentos milicianos. Armadas as tendas, em cada um instalaram-se três recrutas, distribuídos sequencialmente segundo a numeração individual, como nas camaratas do quartel. Não foi fácil a arrumação de três homens no curto espaço da tenda porque se dois eram pesos leves, o terceiro, um engenheiro quase na casa dos trinta, tinha corpo de dois. Valeu-nos na primeira noite ter sido o trio recrutado para a ronda nocturna ao acampamento, cada um por um período de duas horas, com início às dez. Pela ordem numérica, cabia-me o turno da meia-noite às duas, e ao engenheiro estar de serviço das duas às quatro da manhã. Às dez, o Reis saiu da tenda, o engenheiro ganhou o seu espaço vital, e daí a cinco minutos já ressonava alto. Devo ter adormecido depois de várias voltas na esteira porque sonhava estar a ser perseguido por uma locomotiva a bufar vapor, depois por um touro a soprar-me os calcanhares, cravado de bandarilhas, quando o Reis me despertou para o render.

Faz um frio lá fora, que não te conto, avisou-me o Reis. Leva a manta contigo e toma lá esta meia garrafa de ginjinha para aqueceres. Qualidade garantida, feita pela minha mãe. Meti a manta pela cabeça, a ginjinha no bolso, mauser a tiracolo. Devia parecer um beduíno. Ao chegar ao caminho por onde passava a ronda, comecei a percorrer o terço que me competia tentando descortinar-lhe o traçado na escuridão de uma noite de lua nova. À segunda volta, descortinei o vulto do camarada incumbido do terço a norte, aquele que ia até à fronteira com o inimigo. Vinha também de manta pela cabeça e iluminava o caminho com uma pequena lanterna para perceber onde punha os pés. Era o Jerónimo, um rapaz pacato. A beberricar ginjinha, continuámos a percorrer os nossos dois terços em conjunto, a lanterna era um achado no meio daquele deserto de breu, contando anedotas. Naquele tempo as anedotas eram um veículo tolerado de crítica política, cresciam e resistiam em terreno desertificado. Para trás e para diante, às tantas damos com o Bastos que rondava no terço sul. Surpreendentemente, para quem conhecia o rigor com que o Bastos cumpria os toques da tropa, também o Bastos andava de manta pela cabeça e, mais surpreendentemente ainda, escutava discretamente uma telefonia instalada num dos bolsos da farda. Passámos os três a rondar em conjunto, de manta à cabeça, aquecendo-nos com goles de ginjinha, ouvindo as notícias, contando anedotas.

- Alto! Não se mexam! Tenho uma bala na câmara! Sem se voltarem, entreguem-me as armas!

Eram quase duas da manhã, estava o turno quase cumprido, quando atrás de nós, vinda de outro mundo, somos paralisados por uma ordem sinistra. O Jerónimo que, instintivamente, desligara a lanterna, tornou a noite, por alguns instantes, uma escuridão total. Ninguém via ninguém, qualquer de nós poderia ter-se escapado mas nenhum se mexeu. À medida que a visão se habituou ao negrume, começaram a revelar-se as silhuetas, reparei que o Bastos, pela forma como agarrava a mauser esperava que o inimigo se aproximasse. O Jerónimo, à minha direita, corria a mão para cima e para baixo na bandoleira, provavelmente à espera que um de nós, eu ou o Bastos, fosse o primeiro a render-se. Sem melhor ideia, e a pensar que a entrega da arma certamente nos enviava para o calabouço por uns dias e depois para soldado raso, atirador de infantaria, para o mato, bloqueei a sonhar em pé com uma locomotiva, ou seria um touro?, a bufar atrás de mim. E se lhe desse uma coronhada na mona, agora que ele está entretido a discutir com o Jerónimo? Ia ele para o hospital e eu para o calaboiço.

Sem entrega voluntária das armas, decidiu o inimigo, que entretanto percebemos tratar-se do alferes do quadro comandante do pelotão de sargentos milicianos, sacar a arma por trás ao Bastos que a tinha bem agarrada pela bandoleira. Voltou-se o tamanho do Bastos para o alferes inimigo, consideravelmente mais baixo que ele mas de pistola em punho, e, imediatamente, estava o alferes rodeado pelos três milicianos. Falou então Jerónimo, para pedir ao profissional compreensão, iniciando um diálogo que só a pistola no punho do alferes desequilibrava. Já passava das duas quando se apresentaram os sentinelas do turno e o alferes se afastou com as três espingardas às costas.

Voltámos às tendas em estado de choque, emudecidos pela perspectiva de um futuro no mato como soldado que nenhum de nós previra. Saturado pela tensão da cena, adormeci logo que me deitei na enxerga, e, porque não bufava oa lado o engenheiro, nem sonhei com a locomotiva a bufar atrás de mim. Acordei cedo e comecei a congeminar uma hipótese de defesa se uma possibilidade de defesa nos fosse consentida. Ao pequeno-almoço, já toda a gente tinha conhecimento do acontecimento, certamente divulgado pelo herói da noite, reuni com o Jerónimo e o Bastos para combinarmos uma defesa conjunta. Para o Jerónimo não havia defesa possível, e o Bastos estava revoltado com ele mesmo por ter tido a oportunidade de abafar o alferes e ter bloqueado. Burro! Burro! Burro! Espumava ele contra ele próprio.

Qual era a tua ideia, Bastos? Matar o gajo! Podia ter matado o gajo! Nem precisava da mauser. O tempo que ele esteve a discutir com o Jerónimo era suficiente par matar todos os alferes do quartel se os apanhasse de costas. Ficou combinado entre os três que sustentássemos a nossa defesa nesse argumento se houvesse consentimento de defesa. E que eu, depois de relatar os factos e as circunstâncias, remataria perguntando ao júri se seria preferível sermos medalhados por termos matado um alferes inimigo em combate.

O julgamento em conselho de guerra convocado para as três da tarde, colocou os três réus diante de três juízes, os dois alferes comandantes dos pelotões de milicianos e um tenente, comandante da companhia de instrução de milicianos. Relatados os factos pelo alferes inimigo, a sentença sumária à vista, antecipou-se o Bastos ao Jerónimo, e pediu a palavra em sua defesa. Solicitou o Bastos que se fizesse ali mesmo a reconstituição do crime seguindo o roteiro que o alferes tinha relatado. Ficou, por uns momentos, emperrado o tribunal com a originalidade do pedido, conferenciou displicentemente, e acabou por dar deferimento à petição do cadete Bastos.

Iniciada a reconstituição da cena nocturna sem objecções de parte a parte, ia a reconstituição do discurso de persuasão do Jerónimo a meio, quando o Bastos se aproxima do alferes, que estava à sua frente, como na realidade estivera, lança-lhe as mãos ao pescoço, e imobiliza-o apertando-lhe o gasganete até toda a gente perceber aonde queria chegar o Bastos.

Agora é que estamos irremediavelmente tramados, pensei. Não estávamos. Passados uns minutos devolveram-nos as espingardas com mais uma prelecção disciplinar.

Um ano depois encontrei o Bastos na Baixa. Tinha feito o segundo ciclo em Mafra, e sido convocado para o curso de capitães milicianos. Estava de partida para Luanda com uma companhia de atiradores de infantaria. Pareceu-me confiante. Safámos-mos de boa, hem? disse ele a despedir-se.

Nunca mais o vi.

Friday, August 31, 2012

OS MAIS PODEROSOS

Cumprindo os rituais da silly season, o J Negócios voltou a realizar este ano o inquérito de avaliação dos mais poderosos na economia portuguesa. Em tempos de crise, se não servir para nada mais, serve para para promover a venda de mais uns quantos exemplares do jornal quando os seus habituais leitores estão de férias.

O ano passado ocuparam os primeiros sete lugares, Merkel, Passos Coelho, Ricardo Salgado, Miguel Relvas, Vitor Gaspar, Eduardo dos Santos e Américo Amorim. Destes, soube-se hoje, Eduardo dos Santos passou para a sétima posição, provavelmente por troca com Américo Amorim, que deve ser este ano o sexto. Dos outros cinco, nenhum consta da lista nas posições seguintes, sendo muito provável que a quase totalidade permaneça este ano nos lugares de cima. A dúvida está em Miguel Relvas. Mantem-se no pelotão da frente, apesar dos trambolhões que tem dado ou sai do primeiro pelotão, saindo da lista? E se sair, quem entra?

O ano passado o ministro da economia ficou-se pelo 37º lugar e este ano não apareceu ainda? Sai da lista ou consegue uma recuperação espectacular? Parece-me mais provável a primeira hipótese.

Nada disto é relevante para além da falta de credibilidade que Álvaro Santos Pereira continua a merecer junto da opinião pública. Há dias, Daniel Bessa considerava, na sua coluna habitual no Expresso/Economia, o lugar de ministro da Economia o lugar do morto. O epíteto/metáfora tanto se aplica com propriedade a este como aos anteriores ministros da economia, incluindo Bessa. Porque o ministro da economia não conduz a economia, senta-se ao lado do condutor, a sua posição é ainda mais ameaçada quando o ministro não tem peso político e o tempo é de tempestade.

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Act. (3/9) - Miguel Relvas é o 6º. mais poderoso.
Act. (4/9) - Américo Amorim é o 5º.
Act. (5/9) - Ricardo Salgado é o 4º.
Act. (6/9) - Passos Coelho é o 3º.
Act. (7/9) - Vítor Gaspar é 2º.
Act. (10/9) - Merkel continua a ser a mais poderosa