Friday, August 03, 2012

DINHEIROS PÚBLICOS, VIRTUDES PRIVADAS

Causam-me sempre engulhos as placas com que os políticos de meia tigela deste país costumam querer eternizar-se em letras gravadas a ouro sobre mármores ou granitos por obras que os constribuintes pagaram, muitas delas sem préstimo nem jeito. Politico deixa obra para ganhar votos à custa dos impostos e taxas além do crédito bancário que um dia terá de ser pago sempre pelos mesmos. Deixar obra significa, normalmente, contratar obra de cimento armado, que é a obra mais fácil e visível que pode ser feita.

Mas há quem, apesar da preponderância do cimento,  obre doutra maneira.

Com "magalhães", por exemplo.
Soube-se anteontem que "das fundações analisadas no relatório exigido pela troica, a FCM (Fundação para as Comunicações Móveis) que geria o programa de dos portáteis "Magalhães", foi a que recebeu mais apoios de 2008 na 2010: 454,4 milhões de euros, quase metade dos apoios totais concedidos a fundações naquele período". Dito de outro modo, o senhor José Sócrates distribuiu "Magalhães", colheu momentâneamente os louros, e mandou-nos a conta a casa.

Já o senhor Mário Soares, patrono doutra fundação que leva o seu nome, contemplou, segundo o mesmo relatório contemplou mais de 31 mil beneficiários entre 2008 e 2010, e recebeu dos contribuintes para a contemplação feita 1272 mil euros no mesmo período. A esposa é também presidente da Dignitate – Fundação de Direitos Humanos e da Fundação Aristides de Sousa Mendes, também, naturalmente, subsidiadas pelos contribuintes.

A Fundação da Casa de Bragança, criada em 1933 e cujo conselho administrativo é presidido por Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu entre 2008 e 2010 apoios financeiros públicos que ultrapassaram os 62 mil euros.

As fundações do Inatel e Casa da Música também estão entre as que receberam mais dinheiro dos contribuintes: quase 40 milhões de euros, cada uma, entre 2008 e 2010.

Na curta lista de fundações que receberam mais de 10 milhões de euros durante esses três anos estão também o Centro Cultural de Belém (CCB), a Colecção Berardo, Serralves, Culturgest ou a Gulbenkian.

Até a Gulbenkian! Imaginem!
Um espanto,  não pelo merecimento, que é máximo,  mas pelo inesperado, que é total.

Valha-nos santa troica.

Thursday, August 02, 2012

À ESPERA DE DRAGHI

Depois da promessa de Draghi feita na semana passada de que o BCE estava pronto para, dentro das suas competências, fazer o que fosse necessário para preservar o euro, o comunicado de hoje, para além da decisão de manutenção da taxa de juro de financiamento em 0,75% e dos depósitos em 0%, desiludiu, sobretudo, pelo anúncio da restrição da compra de dívida pública aos Estados que peçam ajuda do fundo de resgate, provocando o disparo dos prémios de risco e o abalo das bolsas europeias, que atingiu Wall Street. 

Monti, que ontem afirmava que a Itália terá em Abril um governo anti-euro se a Europa não combater a crise, numa conferência de imprensa conjunta com Rajoy, após o conhecimento das declarações de Draghi,  afirmava não saber se a Itália vai pedir ajuda para baixar os juros.

A Zona Euro, e, por tabela, a União Europeia, encontra-se agora ainda mais ameaçada de ruptura pelas imposições do norte, comandadas a partir de Berlim, a que as dimensões de Itália e Espanha dificilmente se sujeitarão. Draghi não tem, neste contexto, margem de manobra. Se algumas dúvidas restassem, as declarações de hoje tornaram claro que o presidente do BCE não pode atrever-se a um desalinhamento com o presidente do Bundesbank. Draghi, como Rompoy e Barroso, é um actor secundário em cena decisiva.  

As expectativas acerca do futuro do euro e da União Europeia que, até há bem pouco tempo, apareciam condicionadas pelo cumprimento dos gregos, saltaram para um patamar onde jogam dois pesos pesados que sabem que não podem esperar que Draghi vá além da chinela que lhe deram para calçar. 

O que vai acontecer a partir daqui, ninguém sabe.
Mas sabe-se que se a Itália diz adeus ao euro, adeus União Europeia!


 
vd vídeo aqui

Wednesday, August 01, 2012

SEGURANÇA E PARASITISMO SOCIAL

De volta a casa, entretivemos a viagem com a discussão de algumas das questões com que se indignam os portugueses. Como sempre acontece, nestes casos, começa-se a conversa por uma ponta e, se não se segura bem o novelo, passado pouco tempo perde-se o fio à meada.

- O problema maior de tudo isto é o sistema de segurança social. Um tipo se tem um subsídio de desemprego ou de reinserção social assegurado, dedica-se à vadiagem e manda o trabalho às urtigas. Se perde o emprego, não procura trabalho, vai à procura de subsídio. É por isso que não há crescimento económico. É por isso que há desemprego. É por isso que as contas públicas estão como estão e o Estado está falido.

O discurso instalou-se e o estado social passou a ser o bode expiatório dos nossos descontentamentos.
A confusão entre segurança social e parasitismo social está generalizada, e a auto reclamada esquerda é em grande medida responsável pela percepção de laxismo, oportunismo, golpada,  que os casos individualmente conhecidos ou relatados pelos media colam à imagem progressivamente distorcida do estado social. 

- Há fulanos a viver do rendimento social de inserção que nunca fizeram nada de verdadeiramente útil na vida. Os ciganos, por exemplo. Mentem, barafustam, ameaçam, vivem dos subsídios do estado, deslocam-se em carros de gama alta, ganham montes de dinheiro com o tráfico de droga. 
Não há trabalho? Como não há trabalho? Há ruas sujas, estradas por reparar, jardins públicos por tratar, há terras por cultivar, há tanta coisa para fazer...Como é que não há trabalho?

Quem é que pode contestar consistentemente este discurso?
E, no entanto, ele esquece e  branqueia todas as causas maiores que afogaram este país em dívidas, públicas e privadas, fizeram rastejar e cair o crescimento económico, comprometeram o futuro da solidariedade social, sem a qual nenhuma sociedade é humanamente desenvolvida.  

- Já não havia dinheiro para pagar salários - quanto mais subsídios ... Na Suíça não há subsídios, e a Suíça é um país rico. 

Pois é. 
Qualquer observador externo é levado a considerar uma extravagância de um país pobre o pagamento de subsídios de férias e de Natal, esquecendo que esses subsídios são parte da remuneração, são salários, não são subsídios. Um dia propus na empresa onde trabalhava que se pagassem os salários em 12 mensalidades, e não 14, dividindo remunerações anuais por 12. O impacto sasonal negativo sobre a tesouraria em tempos de redução de facturação (Verão e fim do ano) seria eliminado e a propensão dos trabalhadores para gastos perdulários reduzida. A proposta foi violentamente  criticada e liminarmente rejeitada pelos sindicatos.

- Os tipos dos sindicatos são estúpidos.

Não diria isso. Diria antes que acima dos interesses dos trabalhadores, que dizem defender,  colocam os seus próprios interesses. A contestação permanente faz parte dessa defesa dos interesses próprios dos  sindicalistas. Essa é a razão pela qual se eternizam nos cargos. 

- Mas, aos pensionistas dos sectores privados também foram cortados os subsídios?

Pois foram.
E não são nem foram funcionários públicos. Os argumentos invocados pelo governo para tratar de modo desigual a função pública não são aplicáveis aos pensionistas do regime geral da segurança social, mas cortaram. Cortaram aquilo a que chamam subsídios mas que são, na realidade, duas prestações das 14 em que dividiram, discricionariamente, os valores das pensões anuais.
Mas nem todos foram atingidos: os bancários, por exemplo, continuam a não estar abrangidos pelo contributo para a solidariedade social. O sistema está eivado de situações parasitárias.

- Seria bem melhor acabar com ele.

Nenhuma sociedade evoluída pode continuar a sê-lo se não existir solidariedade entre os seus membros. Sem solidariedade não há desenvolvimento humano mas retrocesso. Mas é imprescindível desparasitar o sistema. O parasitismo é sempre causa do definhamento da árvore por mais deliciosos e necessários que sejam os seus frutos.  

Tuesday, July 31, 2012

AS REGRAS DO CLUBE

Nenhum clube tem vida longa se os sócios não obedecem a um conjunto fundamental de regras e comungam um naipe de valores que resumem a  razão de ser e garantem a perdurabilidade da associação.

A União Europeia é, de algum modo, um clube. Com regras fundadoras que foram sendo alteradas ao longo dos tempos, mas nem sempre respeitadas. Mesmo os sócios mais veneráveis não se coibiram algumas vezes de transgredir os estatutos, marimbar-se nas regras, e fazer vista grossa às transgressões dos outros. Até ao dia em que dessas falhas de cumprimento dos compromissos afloraram as consequências que desarticulam a união entre os membros e põem em causa a continuidade do clube.  

Como sempre sucede, ao desrespeito pelas regras sucedem-se sempre os confrontos de valores, acusando-se mutuamente os membros do clube dos vícios  alheios e invocando desculpas de mau pagador.

A Europa é um mosaico de culturas antigas e essa multiplicidade cultural é uma herança conjunta inalienável seja a que preço for. Mas a perenidade dessa heterogeneidade cultural não impede que os membros da união comunguem um conjunto de valores comuns que os mobilizem para a continuação da construção europeia. Há diferenças culturais entre gregos e alemães, espanhóis e austríacos, portugueses e finlandes, suecos e italianos, que não são nem devem ser comprimidas. Mas, por outro lado, não pode haver união onde não existam elementos fundamentais de integração do grupo. Se os gregos não são alemães, têm de existir factores de integração que os mantenham no mesmo clube.

Ora são esses factores de integração que mostram crescentemente sinais de erosão acelerada, precipitando o conjunto num caldo de confronto que pode voltar a trazer a guerra e a destruição da Europa. Jean-Claude Juncker alertou para este perigo na entrevista que concedeu anteontem, e a que me referi  aqui.

Repito-me: a questão europeia, muito mais do que o embaraço de uma crise financeira e económica é uma questão politica. Se não é sustentável que o descalabro das finanças públicas de alguns membros não seja suturado, também não é sustentável que essa operação esteja a permitir o financiamento a taxas de juro negativas dos mais ricos e a impor taxas insuportáveis aos mais fragilizados. Nenhum clube pode funcionar perduravelmente deste modo.

Se os europeus do norte, com particular destaque para os alemães, não compreenderem o que está politicamente em causa, a União Europeia será uma causa perdida a curto prazo e a Europa um continente em conflito bélico, mesmo que os líderes europeus mais destacados continuem a jurar defender a zona euro.
Porque ninguém continua a acreditar neles, incluindo Jean-Claude Juncker.

Monday, July 30, 2012

A INSUSTENTÁVEL INCERTEZA DO EURO

Os bancos alemães estão a reduzir drasticamente o financiamento aos países periféricos.
(Financial Times, hoje)

Nada que não fosse já conhecido.
Há muito tempo que os bancos do norte vêm tirando o cavalo da chuva protegidos pelas políticas do faz que anda mas não anda de Berlim e a passividade conivente de Paris e companhia. A ideia não pode ser mais evidente: se o euro falhar, e deste modo as probabilidades disso acontecer crescem em cada momento que passa, as imparidades que ainda seguram o sistema por arames deixam de ameaçar os balanços dos bancos do norte e colocam os do sul a contas com um banco central europeu para a periferia.

Parece maquiavélico demais em quem reafirma recorrentemente a sua vontade indómita de defesa da zona euro (e a União Europeia) mas não se vislumbram outros resultados possíveis deste processo que drena fundos do sul para o norte a juros negativos e são escassamente retornados a juros incomportáveis.

Já depois de ter iniciado este apontamento, ouço na rádio que  "numa entrevista a um jornal alemão, Jean-Claude Juncker criticou o facto de alguns políticos alemães se terem referido a uma eventual saída grega da moeda única.



O presidente do Eurogrupo entende que a Alemanha está por detrás do agravamento da crise e acusou o governo liderado por Angela Merkel de tratar a Zona Euro como uma «filial». Entrevistado pelo jornal alemão Suddeutsche Zeitung, Jean-Claude Juncker lamentou ainda que tenham vindo à tona antigos ressentimentos nacionais. Juncker criticou o facto de a Alemanha permitir que se faça política interna em torno da moeda única e, sem referir em nomes, considerou que há «políticos alemães» que começaram a falar numa eventual saída da Grécia do euro. Nesta entrevista que foi publicada na edição desta segunda-feira do Suddeutsche Zeiting, Juncker lembrou que a Alemanha diz que é preciso esperar pelo relatório da troika, mas explica o que deve constar nesse relatório.
O também primeiro-ministro luxemburguês defende que é preciso ter mais cuidado com o que se diz e lembra que uma saída da Grécia da moeda única não resolve a atual crise, mas afeta a reputação dos países da Zona Euro em todo o mundo."

Jean-Claude Juncker sabe do que fala. Mas aqueles a quem fundamentalmente se dirige, ouvem e continuam a assobiar para o ar.

Saturday, July 28, 2012

ROUBO E INIQUIDADE

Segundo o título principal do Expresso de ontem, para Passos Coelho, Gaspar e Portas, equidade não é igualdade. E não é. Mas equidade também não é arbítrio, nem mistificação. Se o Governo entende que há funcionários públicos são injustificadamente melhor remunerados que no sector privado, que disfrutam de estabilidade de emprego que no sector privado não é garantido, se, se, se, se ..., o que deve fazer é promover a correcção dessas disparidades  nos casos em que elas existem. Não está estabelecido em lado algum que um funcionário público incompetente, ou desleixado, ou desnecessário, ou seja o que for, não possa ser legalmente dispensado ou despedido consoante as razões presentes em cada situação a corrigir. Nem que os salários na função pública não devam ou não possam reflictir as condições do mercado de trabalho em geral. 

Se a intenção que esteve nos cortes salariais este ano fosse a promoção de um mais adequado ajustamento das condições salariais do funcionalismo público às prevalecentes no sector privado, esses cortes nunca poderiam ter o carácter transitório com que foram anunciados.

Mas há mais.
Há muitos que viram as suas pensões cortadas, e que tanto o Governo como os media insitem em ignorar, que foram forçadamente contributivos do regime geral da segurança social.
Não são funcionários públicos.
Não foram funcionários públicos.
Não usufruem de qualquer situação privilegiada relativamente a quem seja quem for.
As suas pensões foram calculadas em bases anuais que, por decisão cretina, foram dividas em catorze prestações mensais, a duas das quais estupidamente chamaram subsídios. Subsídios de férias a reformados!
Os reformados do regime geral da segurança social não recebem subsídios, recebem pensões a que contratualmente têm direito. Tudo o resto é incomensuravelmente absurdo.

Que razões justificam este confisco iníquo? Só o despotismo de quem lança mão daquilo que lhe está à mão, cometendo um roubo, que não tem outro nome.

Friday, July 27, 2012

UM ELÉCTRICO QUE SE CHAMAVA DA PRAIA DAS MAÇÃS

Há quatro anos escrevi aqui: "O eléctrico entre Sintra e a Praia das Maçãs era, há cinquenta anos uma pequena maravilha que funcionava..."

Deixou de funcionar.
Até que há uns dez anos a Câmara decidiu renovar tudo, incluindo uma vivenda que se encontrava abandonada junto ao início do percurso em Sintra. Gastaram-nos uns largos milhares, se não milhões, mas por razões técnicas as condições de segurança não permitiam que o eléctrico fosse além de um terço do percurso. Isto é, aquilo que a engenharia de há cinquenta anos tinha feito com uma perna às costas, a de hoje não sabe que volta dar-lhe.
 
Continua tudo na mesma E o romântico éléctrico da Praia das Maçãs continua inibido de ir à praia, à espera sabe-se lá de quê.
 
Há dias perguntei ao dono de um restaurante próximo da estação de chegada na Praia das Maçãs por que é que o eléctrico não funcionava.
- Roubaram os fios da linha. São de cobre, roubaram-nos. Agora o eléctrico não pode passar da Ribeira.
 
É uma explicação. Desculpam os ladrões de cobre a incompetência dos engenheiros.
Ainda bem que o TGV ficou nas cascas. Se tivesse nascido, não iria talvez além de Vila Franca.
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Act . - Anedoticamente, a CP convida aqui a Uma viagem pela Linha de Sintra, prolongada pelo passeio a bordo do simpático eléctrico da Praia das Maçãs, forma privilegiada de gozar as paisagens do Parque Natural e de Sintra Património da Humanidade.

Mesmo que o ridículo estivesse sujeito a imposto a CP não teria dinheiro para o pagar. Também por este lado, a CP está à vontade, portanto.

Act. - Boas notícias: O centenário elétrico de Sintra, uma imagem da identidade da vila, vai voltar a circular a partir de 3 de Agosto, depois de a Câmara Municipal ter investido 150 mil euros na reposição de cabos e na requalificação da linha.

A ECONOMIA DA ILUSÃO




À saída vila, uma casa que pela traça se adivinha ser pelo menos duplamente centenária e onde habitaram os donos de grandes extensões de terras fertéis nas redondezas. Por detrás da casa, adiantada até à rua, um jardim cuidado. Para lá do jardim, um parque, separado do resto da propriedade, relvado e pontuado com arbustos e canteiros de flores. Ao fundo do parque, uma construção recente, de aço e vidro, sobre uma base de betão armado. Para que fins terá sido plantado ali aquele edifício  que se destaca pelo contraste ao largo de uma vila com memória antiga?

É um centro de eventos. Principais fins: casamentos. 
Num país onde o número de casamentos anuais decresce e já é ultrapassado pelos divórcios no mesmo período, a indústria de eventos vai de vento em popa. 

Vai mesmo? 
Não temos razão de queixa, diz-nos o administrador, que nos surpreendeu quando sacávamos uma fotografia. Oferecemos um serviço diferente, de altíssima qualidade, que surpreende todos quantos são convidados a vir aqui. Por exemplo: Os noivos podem chegar de helicópetero. Se quiserem, evidentemente. Aterram ali, está a ver?

Vivemos acima das nossas possibilidades, ouve-se repetido vezes sem conta.
Vivemos ao lado das nossas possibilidades. Esgotamos os nossos escassos recursos colectivos numa economia de ilusão que vai desde as autoestradas do lá vai um, das casas desabitadas, dos estádios sem espectadores, até à pompa e circunstância de rituais decadentes.

Thursday, July 26, 2012

BIG MAC INDEX


Segundo o último Big Mac Index do Economist publicado hoje aqui o euro estará agora em equilíbrio cambial com o dólar.

Vale o que vale mas, utilizando algumas medidas expeditas, os resultados que tenho obtido conformam-se recorrentemente com este indicador mascote do Economist.

Apesar da desvalorização observada nas últimas semanas relativamente à divisa norte-americana, o euro está ainda acima do ponto de partida e bem longe do seu ponto cambial mais baixo. Não será por este lado que a casa virá abaixo. Pelo contrário, uma correcção do valor do euro relativamente às outras principais moedas e, nomeadamente, relativamente ao dólar, poderá ajudar a resolver os intrincados problemas com que a União Europeia se confronta.

Para Martin Feldstein, professor em Harvard, "uma queda brusca do euro pode salvar a Espanha do colapso". Veja aqui porquê.  

Wednesday, July 25, 2012

VIVER AO LADO

"Vivemos acima das nossas possibilidades , todos nós, disso não tenho dúvidas !
Ontem fui a ( ) um encontro de técnicos de ambiente. Desloquei-me de transporte público, para poupar e aproveitar melhor o tempo. Os comboios são bons, frequentes q.b. pontuais, têm ar condicionado, WC (limpo) e não são caros ( ) . Mas, fui o único a ir de transporte público . Todos os outros se deslocaram naturalmente de carro. Os transportes públicos estão vazios, nos Regionais viajavam alguns reformados, estudantes e...funcionários da CP (porque não pagam). Mas a gasolina está cara, não é? há uma crise ? ....a sério ? as pessoas preocupam-se em poupar ? quem ? onde ?...ambiente ?"
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Caro João,

Comungo inteiramente da tua reflexão mas não posso, por amor à verdade, deixar de confessar que, também eu, utilizo pouco os caminhos de ferro em Portugal. As pessoas respondem a incentivos e os incentivos à utilização da rodovia, preterindo a ferrovia vêm de longe. O crédito à compra ou substituição de automóvel e de outros investimentos domésticos foi promovido em deterimemto do investimento reprodutivo. Resultado: o caminho de ferro foi reduzido à expressão mais simples e o hábito da utilização do comboio perdeu-se.

No meu caso, e creio que é a situação de muita gente, o que não invalida de modo algum o teu exemplo e as tuas conclusões, a estação de caminho de ferro mais próxima fica a uns quatro quilómetros, a minha casa fica a quilómetro meio  da estrada principal, por onde poderiam passar autocarros de ligação à estação de CF, mas não passam. Se deixo o automóvel na estação para apanhar o comboio, pago mais pelo parque do que pelo bilhete numa viagem curta. Se a viagem é longa, as ligações disponíveis são complicadas. De Sintra à Figueira, de comboio, não se faz por menos de cinco horas, entre sair de casa e chegar ao destino, onde deixaram passar os comboios. Gastaram milhões na renovação do ramal e na reabilitação do túnel, e quando tudo estava pronto decidiram encerrar o ramal.

As pessoas, que em matéria de hábitos nem sempre optam pelos mais saudáveis, têm sido incentivadas ou mesmo coagidas a persistir nos mesmos erros.

Relativamente à afirmação - vivemos acima das nossas possibilidades - para além da vertente que abordaste do consumo doméstico, há um outro viver que não está ou não esteve acima das nossas possibilidades mas inquestionavelmente para além daquilo que uma sociedade responsável deveria ter consentido: os gastos públicos e privados em investimentos não reprodutivos. Refiro-me, concretamento, ao investimento em cimento que embebedou a sociedade portuguesa durante décadas. Os sucessivos governos centrais e locais investiram frequentemente para além do que a economia suportar com o propósito, entre outros, de ganhar votos. À fome de votos dos políticos juntou-se a ganância dos  banqueiros.

Mas também muitos portugueses embarcaram, foram incentivados a embarcar, no investimento desmedido em segundas habitações, ou mesmo terceiras e quartas habitações. Portugal tem, a seguir à Espanha, o maior rácio de habitações/famílias (cerca de mais 30% ). Porquê? Fundamentalmente por duas razões: uma porque efeito imitação (se o meu colega tem casa no Algarve, eu também quero ter); outra, porque a banca, também neste caso, favoreceu as actividades não transaccionáveis preterindo as actividades transaccionáveis. A história é demasiado conhecida, o espantoso é que, no essencial, continua tudo na mesma.

Tudo conjugado, as poucas poupanças dos portugueses não foram dirigidas ao crescimento  económico mas à ilusão económica. Como se isso não bastasse, a banca, toda a banca incluindo a banca do estado e o banco central, afundaram o país com crédito que emborcaram nos portugueses ou enriqueceram os comparsas (banqueiros, políticos,  construtores civis e a indústria cimenteira.

Por tudo isto, à afirmação - vivemos acima das nossas possibilidades - prefiro outra: a ininputabilidade dos banqueiros alimentou a demagogia dos políticos numa sociedade civicamente inconsciente.

Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal Americana, afirmava numa entrevista à Time em Dezembro de 2009 (foi considerado nesse ano "Person of the Year pela Time) que "Too big to fail is one of the biggest problems we face in this country". Nem sempre estou em desacordo com que dizem ou fazem os banqueiros. Neste caso, considero que se o moral hazard - o benefício ao infractor -, de que gozam os banqueiros acabasse este mundo seria muito melhor.

Tuesday, July 24, 2012

A ZONA EURO E O DILEMA DO PRISIONEIRO


David Woo e Anastasios Vamvakidis, estrategas do Bank of America, aplicaram  o Dilema do Prisioneiro à perspectivação do futuro da Zona Euro*.

John Nash, Nobel da Economia em 1994, é conhecido sobretudo pelo "Nash equilibrium" no campo da Teoria dos Jogos. Inspirado na sua vida, Russell Crowe filmou "A Beautiful Mind". O intrincado "Nash equilibrium" é geralmente explicado através do "Dilema do Prisioneiro": Dois indivíduos são presos acusados de um crime grave, de que se desconhece o autor. O investigador da polícia coloca-os em dois quartos separados e oferece a cada um deles as seguintes alternativas: se um testemunhar contra o outro, o denunciante é libertado e o outro apanha cinco anos de prisão; se ambos se calam, cada qual é preso durante um ano; se ambos confessarem, ficarão cada um deles três anos na cadeia.

O "Nash equilibrium" consiste na dedução de que, num conjunto de estratégias possíveis, nenhum jogador ganha alguma coisa alterando a sua estratégia unilateralmente. No exemplo dos prisioneiros, a melhor estratégia é, obviamente, aquela em que ambos não falam. Substituindo os prisioneiros pela Alemanha e Grécia, as opções serão "eurobonds" ou "no eurobonds" e, seguidamente, "austeridade" e "não austeridade".  Se Alemanha e Grécia não cooperarem em equilíbrio, a Grécia não aceita mais austeridade, a Alemanha não permite os "eurobonds". Sendo uma imagem simplificada de uma realidade muito complexa, reflecte a essência do problema: nenhuma das partes pode, unilateralmente, decidir qual a solução mais vantajosa para o conjunto. A união fiscal seria, neste caso, a melhor opção.
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Os investigadores do Bank of America calcularam os custos e benefícios de uma saída voluntária da zona euro para os países mais fortes e os mais fragilizados. Depois estimaram as hipóteses de saída organizada e o impacto no crescimento, taxas de juro dos empréstimos e o défice das contas públicas após a saída.

As conclusões são inesperadas: A Itália e a Irlanda têm mais vantagens em sair que a Grécia; A Itália apresenta boas possibilidade de sair organizadamente, e aumentará a sua competitividade, de crescimento e redução do défice. Por outro lado, a Alemanha, sendo aquela que te maiores possibilidades de sair organizadamente é aquela que tem menores vantagens em sair porque verá o crescimento cair, os custos dos empréstimos subirem, e o défice agravar-se.

Partindo destes resultados, Woo e Wamvakidis prevêem que o jogo europeu se desenrolará em três períodos: primeiro, a Itália decide se sai ou fica. Se decidir não pagar, a Alemanha paga para a Itália ficar, e a Itália perguntar-se-á novamente: "Devo sair ou ficar?". O "Nash Equilibrium" vai no sentido de Itália sair no primeiro período, comprometendo o futuro da zona euro.
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* cit. em Euromonitor 
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Correl. - Cataluña acudirá al fondo de rescate La Generalitat es el tercer Gobierno autónomo que decide acogerse al Fondo de Liquidez La deuda catalana asciende a 42.000 millones de euros, la más alta de España (El País)

El consejero catalán de Economía, Andreu Mas-Colell, en el Parlament.

Monday, July 23, 2012

O ALIBI DOS TRAFICANTES DE SUBPRIME



Eles atacam por todos os lados - na web, nos media, pelo correio, em publicidade distribuida porta a porta - nenhum meio que possa atingir as vítimas lhes escapa. São os traficantes de uma espécie de droga, a que chamam outro nome, mas produz efeitos paralelos: ilude a realidade, transmite (dizem) aos tomadores uma sensação de euforia transitória, torna-os dependentes e acaba por destroçá-los.

Como os traficantes de droga, os traficantes do crédito fácil ao consumo argumentam que não obrigam ninguém a endividar-se, que as pessoas devem ser responsáveis, que só compra quem quer. Aliás, nem se esquecem de advertir as vítimas de que, eles, valorizam também a responsabilidade e, por isso recomendam que se tenha em mente que, sempre que gastar, terá de pagar, pelo que deverá sempre: saber quanto deve, utilizar o crédito com ponderação, planear os seus gastos, controlar e equilibrar as contas;

Um tratado de hipocrisia em menos der três linhas.

Mas há alguém neste mundo que sabe quanto deve, utiliza o crédito com ponderação, planeia os gastos, controla e equilibra as contas, e aceita ofertas de crédito a 20,4%! e, noutros casos mais?

E ninguém denuncia isto?
Para que queremos um serviço público de televisão com dois canais à disposição se, em matéria de consumo, o que faz diariamente e em horário nobre são coisas abjectas como o "Preço Certo"?

A ganância do subprime continua imperturbável perante a passividade do Governo e do Banco de Portugal.
Os contribuintes serão mais tarde obrigados a pagar mais contas.
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Obs. - Coloquei cópia da publicidade do Barclays que acaba de ser colocada na minha caixa do correio. 
Mas o Barclays não é único. Creio mesmo que não há excepções. Os traficantes de crédito fácil (o subprime, lembram-se do nome?) andam todos por aí por todo o lado.

Sunday, July 22, 2012

UM DOUTOR A SÉRIO NÃO É FÁCIL DE ENCONTRAR


Há dias, a notícia das retribuições miseráveis oferecidas a enfermeiros para trabalhar no SNS em regime de "outsourcing" foram motivo de pasmo e escândalo. De forma mais avulsa, têm aparecido ultimamente anúncios de baixos salários oferecidos a licenciados à procura de emprego, que chocam a opinião pública.

A informação do IEFP divulgada ontem resume e quantifica aquilo que já se sabia: Sem investimento reprodutivo não há crescimento económico sustentado, sem crescimento económico sustentado não há emprego qualificado. Durante mais de uma década, banqueiros e políticos direccionaram as poupanças (exíguas) dos portugueses e o crédito importado sem critério para investimentos de encher o olho aos votantes e os bolsos aos comparsas. Resultado: Cresceu exponencialmente a dívida, pública e privada, o país perdeu parte da sua já incipiente actividade industrial, o crescimento foi praticamente nulo, na ressaca da bebedeira os bancos vêem os incobráveis a subir imparavelmente, os contribuintes são chamados a pagar-lhes as contas, os mais velhos reformam-se quanto antes, os mais jovens e válidos emigram. E, por enquanto, continua tudo praticamente na mesma, salvo o crédito que deixou de escorregar como escorregava pela garganta funda dos embriagados. Ainda assim, persistem as ofertas de crédito ao consumo a juros que andam entre os 20 e os 30%! Um tipo de pechincha que embebedou muita gente e a que o Banco de Portugal continua a fazer vista grossa.

E, agora?

Agora, enquanto neste país não for colectivamente apercebido que mais do que os diplomas valem as competências, o facto de um serralheiro ganhar mais do que um licenciado em direito põe meio mundo assombrado. E, no entanto, não há nada mais natural neste mundo. 

Se os licenciados abundam num país que reduziu o seu nível de actividade reprodutiva e escasseiam os serralheiros, é compreensível que os serralheiros sejam mais bem pagos que os licenciados. Por que não? Se a automatização tende a substituir os processos administrativos e tecnológicos mas em menor medida as tarefas manuais dificilmente automatizáveis, os serralheiros, enquanto forem poucos, não terão mãos a medir. 

Por outro lado, o mercado do trabalho em Portugal continua segmentado e existe, sobretudo no sector público, uma rigidez que não permite a admissão suficiente de competências porque não existe a necessária demissão das incompetências: enquanto as últimas continuam não ameaçadas pelo despedimento, as primeiras ou esperam e desesperam, ou acabam por emigrar.
De qualquer modo, e já tenho apontado várias vezes isto neste caderno de apontamentos, enquanto os portugueses não tiverem a consciência cívica de que um diploma não vale por si mas por aquilo que o seu titular tem capacidade para fazer com ele, que a anedótica utilização de um título indevido é uma das causas do nosso atraso social,  e que um chorrilho de doutores da mula ruça não faz crescer um país, a sociedade portuguesa continuará a espantar-se com o facto de poderem ganhar mais aqueles que são mais úteis, mesmo não sendo licenciados e muito menos doutores.
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Um dia, entrei numa oficina de reparação de automóveis, porque alguma coisa estava encravada no motor da minha viatura. Disse ao que ia ao primeiro oficial que me apareceu, e ele chamou, alto e bom som, para o fundo da oficina: Oh! Doutor! Chega aqui!

Apareceu um rapaz de fato de macaco, sorridente, pedindo desculpa de não cumprimentar, tinha as mãos cobertas de óleo.

Percebi depois que se chamava José Joaquim Doutor. Um Doutor, a sério, como poucos.

Saturday, July 21, 2012

O COMBOIO ESPANHOL

A situação financeira de Espanha está ao chegar ao ponto em que o discurso de negação de Rajoy será irremediavelmente submergido pela evidência de uma realidade que todo os dias descobre mais uma parte dos seus problemas, insolúveis por meios próprios. As taxas de juro da dívida soberana superam os limites suportáveis no mesmo dia em que foram aprovados os créditos europeus para a recapitalização dos bancos subcapitalizados.

Depois da banca, são agora as comunidades autonómicas que se confrontam a curto prazo com dificuldades no cumprimento dos compromissos assumidos, e seis delas perfilam-se para pedir ajuda, seguindo o exemplo de Valência. Em consequência, os investidores estão agora convencidos que também a Espanha não escapará ao resgate total, juntando-se à Grécia, à Irlanda e Portugal, e daí o comportamento dos mercados.

Mas se Portugal não é a Grécia, mas também não é a Irlanda, a Espanha não é também nenhum dos outros. Pela sua dimensão, o rombo em Espanha será demasiado profundo e extenso para ser reparado com meias medidas e bom comportamento.

A Espanha é o entroncamento onde o combóio da UE vai ser forçado a decidir se avança, e se integra, ou recua, descarrila e se desconjunta. O resgate total de Espanha irá, mais tarde ou mais cedo convocar os europeus a decidirem de forma clara se a União deve ser federal. Uma decisão que terá forçosamente de ser tomada por via genuinamente democrática pela primeira vez na vida da UE, ou não será, realmente, decidido nada sustentável. Uma decisão entre a soberania limitada das nações membros e o regresso de cada uma às suas tamanquinhas. Uma decisão simples para uma questão extremamente complexa. Difícil mas que se torna mais inadiável em cada dia que passa.
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O El País de hoje publica aqui um artigo - La Bankia Autonómica - que aborda o problema das sociedades com autonomia de direitos não balizados por deveres paralelos. Lê-se, e é inevitável a comparação com tantos outros casos conhecidos e a dúvida enorme: É possível haver uma Europa com cidadãos europeus? Acredito que sim. Acredito que é possível se houver uma alteração radical do sistema financeiro que alimentou tanto desatino. Nenhuma demagogia é sustentável se ao demagogo escassearem os fundos com que compra os votos.
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"Clarividente, un veterano político valenciano del PP pronosticaba hace seis meses: “Si fuéramos una caja de ahorros ya nos habría intervenido el Banco de España, pero por fortuna no lo somos”. Llevaba razón en lo primero, pero no en lo segundo. Hay quien ha comparado a la Comunidad Valenciana con Grecia. Y motivos no faltaban para establecer semejante paralelismo. Dos sociedades endeudadas, despilfarradoras, con una economía ligada a la especulación del ladrillo y donde ser corruptos, lejos de ser un estigma social, era la aspiración de no pocos.

Pero la similitud con una entidad financiera casa mejor con la realidad. La Comunidad Valenciana, en ese sentido, se parece mucho más a Bankia que a la península helénica. Ambas se levantaron sobre mentiras, presumieron de lo que carecían, construyeron todo un estilo de vida alrededor de la burbuja inmobiliaria, engañaron y mintieron a sus clientes/ciudadanos, derrocharon en proyectos absurdos y perfectamente prescindibles, actuaron de forma corrupta y corrompieron y se endeudaron sin tasa ni medida. Y al final, por desgracia para sus accionistas, Bankia ha sido nacionalizada, y la Comunidad Valenciana, rescatada. 

Cómo se ha podido llegar hasta aquí es una pregunta que empieza a responderse en el mismo instante en que la megalomanía de los dirigentes del PP, hinchados de ambición, soberbia y codicia, empezaron a levantar un parque de cartón piedra como Terra Mítica, un aeropuerto sin aviones como el de Castellón y le pagaron un fortunón a Bernie Ecclestone para que les organizara un gran premio de fórmula 1. Querían poner la Comunidad Valenciana en el mapa, ser la vanguardia de España y de Europa. Y, a golpe de talonario, lo consiguieron. Lo que nunca esperaron visionarios como Eduardo Zaplana o Francisco Camps, verdaderos artífices de tan fugaz fulgor, fue ver como su obra era objeto de escarnio, burla y sátira en todos los medios de comunicación de referencia del mundo o la desaparición de entidades financieras como Caja Mediterráneo, Bancaja y el Banco de Valencia en medio de un escándalo de proporciones mayúsculas y de la desesperación de sus impositores y accionistas que han contemplado desesperados como sus ahorros se iban por el desagüe de la incompetencia de unos gestores nombrados por los políticos de turno.

La Comunidad Valenciana ha sido testigo de toda clase de escándalos, una tierra saqueada por promotores y cargos públicos que creyeron en la infinidad del negocio del ladrillo. Tanta indecencia solo se hizo insoportable para una sociedad cuando la crisis económica alcanzó a todos porque, hasta ese momento, se mostró pasiva e incluso permisiva con actuaciones tan delirantes como las protagonizadas por el expresidente Camps.

El acceso de Alberto Fabra a la presidencia de la Generalitat y su política de tolerancia cero con la corrupción llega tarde. Las arcas públicas estaban quebradas desde hace mucho tiempo. Una quiebra a la que no ha sido ajena un pésimo sistema de financiación autonómico que ha perjudicado notablemente a los valencianos; pero esta no es excusa suficiente para explicar la postración en que se encuentra el gobierno valenciano que, desde hace tiempo, viene fiando su suerte a unos hisopanobonos que no llegarán. El ministerio de Hacienda ha tomado el control financiero de la Generalitat. Tal que hizo con Bankia.

Friday, July 20, 2012

CONVERSA DE BANQUEIROS

Afirmou ontem o senhor Fernando Ulrich, presidente do executivo do BPI que a decisão do Tribunal Constitucional é perigosíssima para o futuro de Portugal.  O senhor Ulrich referia-se, obviamente, à declaração de inconstitucionalidade dos cortes dos salários e pensões na função pública, e ainda, os geralmente esquecidos pelos media, e mais do que nenhuns outros inconstitucionais, cortes das pensões dos que foram no sector privado compelidos a entregar a gestão das suas pensões ao regime geral da segurança social. 

Independentemente do julgamento que cada qual possa fazer da decisão do TC, é inquestionável que não é por via de uma decisão iníqua do governo (aquela que atinge apenas uma parte da população) que se corrigem eventuais distorções nas condições laborais entre trabalhadores da função pública e do sector privado. Mais: tal decisão, julgada inconstitucional pelo TC, atinge muita gente que nunca foi funcionário público. Também é inquestionável que as medidas de austeridade não atingem muitos que nunca foram chamados a comparticipar para a solidariedade social (os banqueiros e a generalidade dos bancários, por exemplo, que, mesmo depois de integrados no regime geral da segurança social garantiram a continuidade iníqua dessa excepção). 

Mas é, sobretudo, inquestionável que se há austeridade porque o estado inchou para além do que lhe tolerava razoavelmente a barriga, porque os portugueses gastaram acima das suas possibilidades (um refrão que uns cantam sem perceber a letra que outros, sabidos, inventaram), porque  a construção civil atingiu os limites do desatino e as obras públicas sustentaram no poleiro políticos de meia tigela, quem é que, por conivência, lhes deu asas se não o senhor Ulrich e os seus companheiros de corporação?

Foram os senhores banqueiros coagidos pelos governos central e locais a participar no financiamento de investimentos públicos sem retorno e despesas inúteis? Algum membro do governo grego impôs ao senhor Ulrich ou ao senhor Oliveira da Caixa a obrigação de emprestarem dinheiro à Grécia? Alguma vez o senhor Ulrich e os seus companheiros na associação corporativa do ramo mandaram o senhor Salgueiro acordar o senhor Constâncio para que ele desse conta do ninho de ratos que se chamou BPN?

Pois é, senhor Ulrich. Os senhores banqueiros, aqui e em muitos outros sítios deste mundo, portaram-se mal. E continuam. Quem fez o pior, quem colocou este país de patas para o ar, senhor Ulrich, foi também o senhor e os seus confrades. Quem colocou em sério risco a continuidade da zona euro, a sobrevivência da União Europeia, provavelmente até a sustentabilidade do actual sistema financeiro mundial, não foram os senhores juízes mas os senhores banqueiros.

Os senhores juízes têm muitas culpas no cartório mas não têm esta.
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Act.- Direitos do BPI afundam para 0,2 cêntimos e acentuam desequilíbrio face às acções A queda das acções, se se acentuar, pode colocar em risco o sucesso do aumento de capital, pois não será racional os investidores subscreverem novas acções a 0,50 euros se estas cotarem abaixo deste valor na bolsa.


Thursday, July 19, 2012

FACTURA, PRECISA?

Ausência de factura vale multa de até 3.750 euros.

O que noutros países é prática indiscutida, em Portugal é objecto de programas de rádio e televisão para auscultar a reacção dos portugueses em geral sobre novas medidas para promover a equidade  reduzindo a evasão fiscal. E, evidentemente, as medidas são contestadas pela generalidade dos incluídos no seu âmbito, e, sem surpresa, pela maioria dos consumidores que, por interesses recíprocos, muitas vezes se conluem com os fornecedores.  

Se alguma surpresa existe nestas medidas anunciadas ontem, ela reside na absolvição tácita de todas as fugas praticadas antes (até agora não era obrigatório o pagamento de IVA nos casos abrangidos?), e  das fugas que vierem a ser praticadas até ao fim deste ano, e ainda na absolvição tácita"sine die" de todas as fugas que vierem a ser praticadas a partir de 1 de Janeiro de 2013 pelos sectores não abrangidos por agora. 

Por outro lado, surpreende a insistência em práticas que já provaram a sua ineficiência no passado. 
Os clientes são, novamente, aliciados pelo fisco a pedirem (ou a exigirem) aos fornecedores facturas dos bens ou serviços adquiridos mediante a dedução fiscal até 250 euros em sede de IRS em troco de um confronto que tende a azedar as relações entre eles. Algum (a) cliente de um (a) cabeleireira, por exemplo, passa a exigir uma factura ao profissional que usualmente não a emite, quando com a conivência entre ambos é reciprocamente mais vantajosa que a eventual vantagem em sede IRS? Algum cliente se senta na cadeira do cabeleireiro onde vai há anos, à mesa do restaurante onde habitualmente almoça, ou entrega a reparação do carro a um profissional em quem tem confiança há muito tempo, e se dispõe a partir do próximo ano a exigir factura que nunca exigiu?
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Mas o que é mais intrigante nestes anunciados propósitos da administração fiscal é a revelação de que até ao próximo ano a emissão de factura não é obrigatória e que, a partir dessa altura, apenas abrange um número limitado de actividades.
E os outros?
As profissões liberais, por exemplo? Os advogados estão dispensados?
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Não. Claramente, o secretário de estado que anunciou estas medidas não conhece o país que também governa. Ao pretender que os consumidores façam aquilo que compete aos fiscais do seu ministério ignora uma regra básica: se continuas a usar os mesmos processos obtens os mesmos resultados.
Por que razão insiste esta gente na invenção da roda e não copia as melhores práticas em vigor há anos para combater a fraude e a evasão fiscal?
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Nunca saí dum restaurante num país do mundo desenvolvido sem que a factura me fosse apresentada para pagamento. Como é que eles fazem? É assim tão difícil saber como, e fazer o mesmo, senhor secretário de estado dos assuntos fiscais?

Wednesday, July 18, 2012

SOMOS (QUASE) TODOS LESADOS

Leio no Público on line que "advogado de lesados do BPN defende criação de comissão para negociar com pequenos investidores as indemnizações que estes reclamam, evitando, desse modo custos de justiça, porque mais tarde ou mais cedo o estado vai pagar".
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O estado vai pagar? O estado não paga nada! Quem paga sou eu, e todos quantos são atingidos pelo fisco, que, apesar de provadamente zarolho, é mais eficiente que a justiça, que dorme a sono solto. Aliás, lesados e duramente lesados do BPN, somos todos os que pagam impostos, além de outras contas com outros nomes mas os mesmos efeitos, para tapar o nauseabundo buraco. Escapam os que se aboletaram e continuam impunes; pagam, sobretudo, os que nunca franqueram as portas do mostrengo.

Houve gente que, ouvindo a canção que lhe cantaram, acreditou que é possível haver manteiga no nariz do cão, e entregou as massas ao bandido? Há sempre incautos ingénuos que trocam por nada o que têm, levados pelo conto vigário. Mas são poucos e pouco têm. A esmagadora maioria dos que procuraram o BPN fizeram-no conscientemente porque era público que essa coisa que se chamava um banco oferecia vantagens que só poderiam ser arriscadas. Só o governador do banco central e a sua equipa não via, não ouvia, não sabia.

Há tanta manifestação, e nenhuma suficientemente atroadora para acordar a justiça.
Eu, que nunca participei em manifestação pública alguma, se uma tal manifestação fosse convocada, seria dos primeiros a chegar ao local de saída. Porque essa seria a manifestação que falta.

Tuesday, July 17, 2012

DOM JANUÁRIO E OS PESTICIDAS

Ouço na Antena 1, esta manhã, que Portugal "está a abusar de pesticidas ilegais" ( cf aqui) e, mais adiante o Bispo das Forças Armadas afirmar que "este governo é profundamente corrupto" (cf aqui). Eu vejo tudo, garante dom Januário.

O que há de comum entre uma notícia e outra? A ausência de detalhes. Ficámos a saber que em Portugal se usa e abusa na utilização de pesticidas ilegais que, naturalmente, prejudicarão a saúde dos cidadãos. A rádio pública, preguiçosamente, limita-se a ler a notícia que lhe chegou sem averiguar e informar os ouvintes, que lhe pagam os serviços, que pesticidas ilegais estão a ser abusivamente utilizados. Aquele pequeno trabalho, que daria à notícia o valor acrescentado que lhe falta, não foi feito.

Quanto a Dom Januário, que se acostumou a levar a sua frontalidade para lá das fronteiras do razoável, acusa estes tipos (sic) do governo de serem corruptos, ressalva depois que serão alguns, mas não diz quais são nem de que actos de corrupção os acusa. É grave, é muito grave, que o senhor bispo acuse publicamente um grupo, aliás restrito, sem especificar. Se o fizesse, prestaria um inestimável serviço ao país, onde a corrupção tomou o freio nos dentes e não se estanca com meias denúncias. Não o tendo feito, colocou o governo inteiro sob suspeita.

Noutros tempos, quando a honradez era uma palavra em uso, o senhor bispo seria convidado pelos atingidos a dizer o que soubesse, e que é suposto não ter ouvido em confissão, sob pena do direito daqueles o convocarem para um duelo se a justiça estivesse, como geralmente está, a dormir.

A alternativa não seria aquela que conduziria à sentença mais justa mas pelo menos havia mais tento na língua e menos voracidade dos políticos. Assim, sem justiça desperta nem o receio de um tiro certeiro, estamos condenados a viver numa sociedade onde a honra e a vergonha estão em vias de extinção.

Monday, July 16, 2012

UM ESCÂNDALO GLOBAL

O Expresso calculava na sua edição de anteontem que o "JP Morgan perdeu cinco pontes Vasco da Gama a negociar derivados" . A ponte Vasco da Gama é, sem dúvida uma boa unidade de medida mas não é a melhor em avaliações de burlas, roubos, e outras trafulhices financeiras em geral. Mais adequado será avaliar o rombo no JP Morgan usando como termo de comparação a maior vigarice financeira em Portugal que se chamou banco português de negócios.

Comparado com o bpn, as perdas do JP Morgan com negócios de derivados de crédito no segundo trimestre de 2012 (equivalentes a 3,61 mil milhões de euros) equivalem-se a sensivelmente metade dos desfalques, ainda em progressão, engendrados pelos inteligentes do bpn. Uma ninharia, portanto, se considerarmos que o JP Morgan é um dos maiores bancos do mundo e o bpn um ninho de ratos. Ainda, segundo as contas do Expresso, estas perdas do JP Morgan equivalem-se a metade do défice público de Portrugal em 2012, os ratos do bpn, se algum dia as contas estiverem feitas, tiraram-nos dos bolsos um valor equivalente à totalidade do défice deste ano.

E, no entanto, nem as dimensões deste roubo público nem a incompetência da justiça para julgar os culpados mobilizam o protesto social que um escândalo destas dimensões deveria atingir se houvesse consciência cívica colectiva do que está em causa.

Noutro aspecto crítico desta questão são comparáveis os casos do JP Morgan e do bpn e, de um modo geral, todo o sistema financeiro mundial: o benefício do infractor, moral hazard no jargão anglo saxónico. Que significa que os banqueiros estão autorizados a jogar com o dinheiro dos depositantes nas mais diversas operações, embolsando lucros e bónus, além de outras vantagens gordas, mandando pagar a conta aos contribuintes quando as jogadas que fazem dão para o torto.

Escandalizam-se os banqueiros com a designação metafórica de banca de casino para este tipo de operações mas quem tem boas razões para se indignar são os clientes e os donos dos casinos . No casino, as jogadas são visíveis, os resultados evidentes, as perdas ou os lucros são da conta exclusiva de quem joga e do casino onde joga. Na banca de casino nem as jogadas são visíveis, nem os resultados evidentes, e os jogadores ganham sempre enquanto não perdem os contribuintes.

Um escândalo global a que ninguém põe cobro.

Sunday, July 15, 2012

TEORIA LOUÇÃ E PRÁTICA PASSOS COELHO

A expressão é do primeiro ministro e foi  por ele usada durante o recente debate na AR sobre o estado da nação. Passos Coelho, a propósito  de uma intervenção do líder do BE, ironizou com a "Teoria Louçã": "estou falido e não tenho como pagar, mas tenho um amigo que tem crédito que eu não tenho. E digo-lhe para ele ir pedir um empréstimo, pagar os juros que eu depois quando tiver dinheiro pago-lhe, mas não os juros". (cit aqui). A ironia primária do PM foi, esperadamente, aplaudida entusiasticamente pelas bancadas que apoiam o governo.

Louçã, que abafa muito dos seus discursos mais válidos quando os embrulha na opacidade da demagogia, tinha, na sequência do julgamento de inconstitucionalidade dos cortes e pensões da função pública e das pensões dos regime geral  da segurança social (pensionistas do sector privado), apontado para outras alternativas de redução défice e, nomeadamente, os juros agiotas da dívida pública.

Louçã não disse, no entanto, como é que podem ser evitados os juros que representam, de longe, a fatia maior da despesa do estado. Renunciamos à dívida e, consequentemente, aos juros? Ou solicitamos renegociações, com as diferentes mas inevitáveis consequências que qualquer destas opções implica? Louçã, se pretende ser levado a sério,  não pode ficar-se pelo enunciado de propostas sem lhes pesar os efeitos. Nem pode o seu discurso ser um conglomerado de tiradas que não tecem uma estratégia coerente de interesse público, para além dos interesses políticos próprios do bloco que lidera condicionados por uma ideologia radical.

Mas a ironia fácil de Passos Coelho, neste caso, não foi menos demagógica que a de Louçã. Porque o PM sabe bem que i) Portugal não pode pagar a carga da dívida e dos juros se não houver renegociação que aligeire significativamente essa carga; ii) que essa situação foi em grande medida fomentada pelos banqueiros credores que, ao privilegiarem os lucros e os bónus a curto prazo, esconderam os riscos; iii) que a situação engendrada está a penalizar fortemente os membros mais fragilizados e a beneficiar escandalosamente os outros, dentro de uma união que provadamente deixou de o ser; iv) que o sistema que permitiu o descalabro continua praticamente intocado e os seus mentores confortavelmente incólumes; v) que a UE não tem viabilidade de continuidade dentro dos parâmetros  em vigor.

Passos Coelho sabe, não é crível que não saiba, que "Insanity is doing the same thing over and over again, expecting different results" - Albert Einstein. O seu antecessor, pelos vistos não sabia. Esperava-se que Passos Coelho tivesse aprendido.