Tuesday, June 12, 2012

PARA QUÊ?

O Tribunal de Contas volta a revelar.

Hoje,  revela que a Madeira ultrapassou em mil milhões de euros o limite de endividamento em 2010.

Em 6 de Outubro de 2011, o ministro das Finanças considerou que a divulgação do relatório sobre a situação financeira da Madeira não tem precedência na História da democracia em termos de transparência e afirmou estar-se perante "enormes violações dos limites de endividamento".V ítor Gaspar falava no plenário da Assembleia da República, durante um debate de atualidade requerido pelo PS sobre a situação financeira da Madeira.
"A divulgação do relatório sobre a situação orçamental e financeira [da Madeira] constitui um imperativo de transparência que julgo não ter precedente na nossa História democrática, (...) não ignorando o ato eleitoral do próximo domingo", sustentou o ministro de Estado e das Finanças. (aqui)

Em 23 de Abril de 2012 foi notícia que, "Irregularidades nas “contas da Madeira” motivam buscas a edifício do governo. O edifício da antiga secretaria regional do Equipamento Social da Madeira, onde funcionam actualmente outros serviços do governo regional madeirense, está a ser desde esta manhã alvo de buscas por elementos do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP)."  (aqui). E não se soube mais nada.

Hoje o TC revela utrapassagem do limite do endividamento em 2010!
Uma atrasada inutilidade contábil.

QUEM É QUE FALOU EM REDUÇÃO DE SALÁRIOS?

“Ninguém pode ser a favor de um país de gente pobre, onde não se ganha bem a vida. O nosso futuro não é esse, nem nenhuma política pode ser baseada nesse argumento ... “Nós precisamos é de um novo modelo de desenvolvimento económico que torne possível que as pessoas tenham salários que se aproximem dos níveis europeus" ... "De facto o que é que se tem passado com os salários em Portugal? Têm de facto baixado. Estamos numa situação muito dfícil, muito complicada, há muito desemprego e realmente (é preciso) algum realismo que permita a economia crescer mais depressa, isto é uma coisa que o país precisa, que ajuda o país no momento difícil que atravessamos. Agora construir com base nisto uma política para o futuro não faz sentido." - Prós e Contras (12/6)

Borges mudou de discurso? Não mudou. Mudou o tom. E o tom, é (quase) tudo no discurso político.
Se a moderadora do programa lhe tivesse perguntado que "novo modelo de desenvolvimento económico é esse que torne possível que as pessoas tenham salários que se aproximem dos níveis europeus"?, provavelmente Borges mudaria de registo político. 

Porque Borges sabe que os salários (e pensões) de alguns foram discricionariamente reduzidos, que os salários de outros estão a ser reduzidos pelo aumento do desemprego, e que, finalmente, os rendimentos de outros, incluindo os de Borges, permanecem intocáveis. Borges não advoga a redução dos salários como suporte de um desenvolvimento económico que nos aproxime dos europeus. Nem ele nem ninguém que saiba o que está a dizer. O que ele diz, sem tirar nem pôr, é que, "há muito desemprego  e (é necessário) algum realismo (leia-se, redução de salários)  que permita a economia crescer mais depressa, isto é uma coisa que o país precisa que ajuda no momento difícil que atravessamos".

"Agora construir com base nisto uma política para o futuro não faz sentido", rematou Borges, facilmente, com um remate já mil vezes ouvido em todos os quadrantes políticos.

O que Borges não disse, o que ninguém diz, é como é que a economia portuguesa (e não só, já que o fantasma do desemprego paira por toda a parte) vai absorver mais de 700 mil desempregados de sectores, e nomedamente da construção e obras públicas, que não voltarão tão cedo aos níveis de actividade que o crédito descontrolado a preços de saldos seduziu.

A redução do poder de compra de uma parte da população tem promovido o reequilíbrio da balança comercial  (mais exportações, menos importações, mais poupança) e, provavelmente, atingirá no fim do ano um saldo praticamente nulo, o que constituirá uma novidade em Portugal. Mas, e Borges não disse isto, ao mesmo tempo que as exportações se animam, o desemprego aumenta.

As privatizações já realizadas foram um sucesso, segundo Borges. E espera que as da ANA e da TAP vão pelo mesmo caminho, atendendo à quantidade de interessados. O José Maria (Brandão de Brito) de quem Borges é "muito amigo" chamou-lhe a atenção que em nenhum dos casos já consumados (EDP e REN) se deu um influxo de mais actividade e, portanto, de mais emprego. Simplesmente mudaram de dono.

Borges, contudo, não se ficou pela mudança de tom quanto áo realismo da redução de salários, e avançou para a completa recomposição da sua imagem criticando os desmandos dos bancos (!) e enaltecendo a social democracia sueca, onde a participação do estado é maioritária na produção da riqueza, mas também onde o sentido do respeito pelos interesses comuns é universalmente prosseguido.

A finalizar, ainda referiu que em Portugal os níveis de desigualdade social são dos mais elevados no âmbito da OCDE, uma situação que se agravou nas últimas décadas. Isto é, também neste caso, Borges falou contra os seus próprios interesses, passados e actuais, mas não sei quantos entenderam isso.

Precisamos de arrumar a casa, domesticando o défice e a dívida, e implementando as reformas estrurais receitadas pela troica.
E que mais?

Já passava da meia noite e meia. Hoje, a que horas se levantaram os portugueses, que viram o programa, para ir trabalhar?
A que horas se deitaram os suecos?

Monday, June 11, 2012

A QUADRATURA SOCIAL

ou, como é que se compatibiliza o crescimento global de produtividade com o aumento geral de longevidade, e a sustentabilidade da segurança social?


c/p aqui

EM NOME DO ESTADO

Em nome do Estado acontecem situações repugnantes. Umas vezes do ponto de vista de uns, outras do ponto de vista de outros. Nunca a mesma coisa do ponto de vista de todos ao mesmo tempo. Ainda que se encontrem, frequentemente, de acordo os extremos por razões diametralmente opostas.

Ontem, na repetição do programa da Sic notícias à meia noite, os malfeitores reprovaram na generalidade a intervenção da PSP na intersecção de automobilistas suspeitos de terem impostos por pagar ou manifestações exteriores de riqueza sem declarações de impostos correspondentes.

- É uma intervenção espúria! (talvez as palavras tenham sido outras com o mesmo sentido). O que é que tem a ver a PSP com o ministério da Finanças? Isto é uma situação intoterável. Talvez até inconstitucional! - argumentou um que anda geralmente a sabor das circunstâncias
- Deixámos há muito de viver num estado de direito, confirmou a senhora do nariz arrebitado.
- É normal. Nos dias que correm o Estado está cada vez mais em toda a parte, disse o terceiro.
- É a perseguição aos pequenos delitos. Há quanto tempo andam a tentar legislar o fim do segredo bancário? Lembram-se? Pois é. Quando se trata de perseguir as fugas para os offshores a coisa é demorada; mas as medidas para apanhar os delitos menores aparecem de um dia para o outro, sentenciou o bloquista.

Estiveram, portanto, os quatro de acordo: é um abuso de poder colocar a PSP a colaborar com o fisco.
Uma perspectiva vesga em múltiplos sentidos (não há separação de poderes nos poderes do governo, a intersecção policial atinge também os carros de gama alta, etc.) que, no entanto, é susceptível de ser absorvida pela grande maioria dos que a ouviram, e que decorre do naipe de valores com que se joga na sociedade portuguesa. 

Hoje:

- Quanto tenho a pagar?
- O senhor é sócio?
- Não senhora.
- São dezoito euros e três cêntimos.

- Quanto devo?
- O senhor é sócio?
- Sim senhora. Está aqui o cartão.  
- São dezoito euros e três cêntimos.
- Não há desconto para sócios?
- Há. Esse é o preço para sócios.
- E se não fosse sócio, quanto pagava?
- A mesma coisa.
- ?
- Mas não levava factura.
- E qual é a vantagem?
- Pode ser interceptado pela polícia.
- E o que é que acontece a um cliente não sócio que seja interceptado pela polícia com a compra que aqui fez na bagageira do carro?
- O problema é dele.
- Mas se ele disser à polícia onde comprou?
- Nunca aconteceu.
- Mas se acontecer.
- Logo se vê.

Sunday, June 10, 2012

RAPINAS, MENTIRAS E BASÓFIAS

Em 1994, ainda o euro não poderia ser também considerado culpado, foi publicado em Espanha "Banqueros de rapiña", a história da ascenção e queda de Mário Conde, desde a sua chegada  à presidência do Banco Espanhol de Crédito até à sua destituição seis anos depois pelo Banco de Espanha, juntamente com toda a administração, por ter criado no Banesto, o quarto maior banco de Espanha, um dos problemas de solvência mais sérios da história financeira espanhola, com uma necessidade de financiamentos de 605 mil milhões de pesetas, cerca de 6 mil milhões de euros a preços de hoje.
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Ontem, a Rajoy faltou a coragem para dizer aos espanhóis que a banca espanhola iria ser financiada através de ajuda externa em 100 mil milhões, e mandou Guindos, o ministro das Finanças dar o recado. Apareceu hoje para afirmar (vd aqui), e se afundar politicamente ainda mais:

"Sem as reformas, teria havido intervenção no Reino de Espanha", (que não foi pressionado), foi ele que pressionou, evitou falar do resgate e referiu-se ao anúncio de ontem como "um logro do executivo (anterior) e da Europa. A rematar disse que ia para o Euro 2012 porque a situação estava resolvida, tinha sido uma pena ter perdido o encontro de Nadal (em Roland Garros), e que a linha de crédito não impõe restrições macroeconómicas nem afectará o défice" .

Os irlandeses, como se esperava, já reclamaram idêntico tratamento.

A crise financeira em Espanha já vem de longe e as suas raízes mergulham em causas bastante idênticas aquelas que abalaram os países onde as ameaças de falências pairaram sobre alguns dos seus principais bancos. Desde os EUA, onde a falência do Lehman Brothers foi a excepção que fez retinir os alarmes por todo o mundo, até à Europa do Sul onde a embriaguez da construção civil e obras públicas iludiu, a quem convinha iludir, a destruição da economia reprodutiva. Se a lição das crises anteriores, e foram muitas, não foi aprendida pelos seus fautores não foi por falta de capacidade de entendimento mas pela ganância dos seus interesses próprios e dos seus coniventes.

Quando Rajoy afirma que a "linha de crédito" (que vai ser controlada pelo FMI) não impõe restrições aos espanhóis nem afectará o défice, está obviamente a mentir. Do mesmo modo que mentiu Teixeira dos Santos quando deu o recado de que os empréstimos da Caixa Geral de Depósitos ao BPN não se reflectiriam nos bolsos dos  contribuintes portugueses. Como mentirá Passos/Gaspar se afiançarem que a recapitalização do BCP, e o que mais adiante será desvendado, não será paga pelos portugueses que pagam impostos.

Pelo menos, valha-nos isso, de Passos/Gaspar não se espera a basófia de que irão até à Ucrânia ver o Euro 2012 porque os problemas das contas em euros estão resolvidas. 
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Act. - (20,00 h)
La oposición exige al presidente que explique el rescate en el Congreso
Los portavoces parlamentarios avisan que la ayuda sí tiene consecuencias para la sociedad
Toda la información sobre el rescate financiero (aqui)



LA EUFORIA DE RAJOY EN LA EUROCOPA. El presidente del Gobierno celebra en el palco el gol de España ante Italia. Antes de desplazarse al partido dijo que la situación tras el rescate estaba "resuelta". / ALEJANDRO RUESGA

Saturday, June 09, 2012

CEM MIL MILHÕES PARA ESPANHA

el país

RESCATE A ESPAÑA


España solicitará la ayuda para la banca y acepta la línea de crédito que le ofrece Europa de hasta 100.000 millones de euros
La inyección de fondos, cuya cuantía se determinará en los próximos días, obligará al Gobierno a adoptar contrapartidas financieras
Finlandia y Holanda, halcones de la negociación. El Fondo Monetario Internacional vigilará el plan de ayuda

España ha dado esta tarde el paso para recibir el rescate que le permitirá sanear su deteriorado sistema financiero. En una teleconferencia, Europa ha ofrecido al Ejecutivo de Mariano Rajoy hasta 100.000 millones de euros de ayuda. Holanda y Finlandia trataron de imponer fuertes condiciones políticas a cambio de esta enorme recapitalización


Rajoy não queria, e lutou para evitar o estigma do resgate mas não teve alternativa e acabou por ceder. 
Mandou Guindos confirmar a notícia e explicar os detalhes aos espanhóis. Fez mal*. Porque, implicitamente, reconhece que, ou não avalia bem a dimensão da fragilidade do sistema financeiro espanhol ou se submeteu ao diktat do Norte de ter a questão espanhola dominada antes da próxima lotaria eleitoral grega.
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Act. (10/6)

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Rajoy se esconde y quema su capital político (El País - 10/6)

LA REINE C´EST MOI!



 Joana Vasconcelos expõe no Palácio de Versalhes
Uma carreira artística internacional de vento em popa.

UM TÚNEL SEM LUZ AO FUNDO

Em Dezembro de 2010 o governo anunciava que seriam eliminados mais 450 quilómetros de vias férreas regionais, uma notícia que comentei aqui. Era ministro das Obras Públicas António Mendença desde Outubro de 2009, sucedendo a Mário Lino. No rol das eliminadas estava o ramal Figueira da Foz-Pampilhosa, o troço inicial da Linha da Beira Alta. Ao quilómetro 7,318 este ramal passa por um túnel com 518 metros. (Vd. aqui mais informações sobre esta obra de fins do séc. XIX).

A A17 (Louriçal-Mira)  inaugurada a 17 de Maio de 2008, era ministro das Obras Públicas Mário Lino desde Março de 2005, atravessa o ramal a pouca distância da boca leste daquele túnel através de um viaduto construído sobre a auto estrada.

De 2004 a 2007 realizaram-se trabalhos de renovação da via, e de inspecção, recuperação e reforço das estruturas do túnel, projectados pelo Laboratório de Estruturas Edgar Cardoso. Não sei qual foi o montante total investido na via férrea, no túnel e no atravessamento da auto estrada. Mas foi-me dito que, para evitar maior derrapagem nos prazos de execução dos trabalhos no túnel e não tardasse mais a inauguração da obra, o empreiteiro cobrou horas extraordinárias pelo trabalho em turnos nocturnos. 

Completada a obra, o ramal foi encerrado, o viaduto não foi sequer estreado, a via é agora um matagal com 50 quilómetros de comprimento, os carris estão à disposição de uma qualquer face oculta que se interesse por eles.


O Tribunal de Contas tem-nos brindado com múltiplos relatórios, sempre quase inconsequentes, das irregularidades formais, das ilegalidades contratuais, dos crimes cometidos  contra os interesses públicos. Não me recordo que alguma vez tenha inventariado as despesas ou os investimentos públicos inúteis. Seria carga a mais para o TC.

E, talvez, ainda bem.
A publicidade à impunidade promove a ilegalidade. Talvez a produtividade inconsequente do TC seja até contraproducente.
Seria bom que fizesem as contas.

Friday, June 08, 2012

A EUROPA À BEIRA DO RESGATE*

Será já amanhã que a Espanha irá juntar-se ao Clube dos Intervencionados?** 
As dúvidas persistem entre as declarações do governo espanhol, que diz aguardar o resultado das auditorias  aos bancos na próxima segunda-feira e a insistência da generalidade da imprensa europeia nas notícias dos últimos dias de que o resgate é agora inevitável e será anunciado amanhã.

Fuentes europeas dicen que se pedirá la ayuda el sábado , são os títulos em destaque no El País de hoje.

Para o Financial Times "A Espanha está à beira de ser resgatada" e o pedido de resgate poderá ser feito amanhã através de tele conferências entre os 17 ministros da zona euro de modo a evitar maior incerteza nos mercados financeiros (após o corte realizado pela Fitch no rating da dívida soberana espanhola). Os relatórios dos auditores deveriam ser conhecidos no dia 21 mas a imprevisibilidade dos resultados das eleições gregas a 17 - que podem dar a vitória ao Syriza, provocar a renúncia dos compromissos assumidos em contrapartida da ajuda externa de 174 mil milhões de dólares e colocar em risco a permanência da Grécia na zona euro -, impõe que a questão espanhola seja solucionada antes de serem conhecido os resultados das eleições gregas.  

Se dúvidas existem do lado do governo de Espanha elas não parecem situar-se na necessidade do pedido do resgate mas do montante necessário, entre 40 mil milhões, segundo os banqueiros espanhóis, e 80 a  90 mil milhões, segundo os analistas financeiros. De qualquer modo, o pedido pode ser feito sem fixação definitiva do valor envolvido, segundo um quadro superior da UE. Tudo indica, portanto, que a Espanha será o quarto membro do CI e, muito provavelmente, Chipre, o quinto.

Que implicações é que o resgate de Espanha poderá ter para a situação portuguesa no futuro próximo?
As exigências de austeridade serão diferentes das aplicadas até agora porque a Espanha não pode suportar medidas que agravem significativamente o seu recorde mundial de desemprego (  Obama a España: “No se puede recortar y recortar mientras crece el paro”, lê-se também no El País de hoje). A suavização dessas medidas em Espanha constituirá, certamente, mais um forte argumento para rever as que estão em curso na Grécia, em Portugal e na Irlanda. 

Tudo se conjuga para a realização de significativas mudanças no caminho que a UE prosseguiu até hoje. Angela Merkel traçou ontem as coordenadas de algumas dessas mudanças. A bola está agora no campo dos outros membros do clube. A UE, a partir de agora, ou avança empurrada pelas menos boas razões, o que não é bom augúrio mas é a menos má saída possível da encruzilhada a que se deixou chegar, ou, é desconjuntada pelos nacionalismos dos extremos ideológicos.
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*modificado (10/6).
** O resgate, em princípio, limita-se ao sector bancário de Espanha mas por imposição das regras (ainda) em vigor o empréstimo para a recapitalização dos bancos espanhóis terá de ser veiculado através do Estado. Draghi pronunciou-se hoje favorável ao financiamento directo aos bancos, sem intervenção do Estado.  

Thursday, June 07, 2012

PARA INGLÊS OUVIR


Merkel insiste numa Europa a várias velocidades, é o titulo de um artigo do FT de hoje, a propósito da ida do PM britânico a  Berlim.

Antecipando uma resposta a Cameron, que insiste na adopção de medidas de curto prazo para combater a crise, a chanceler alemã afirmou ontem que "as nações membros de uma união monetária têm de avançar em conjunto" reforçando, deste modo, a tendência para uma "Europa a várias velocidades" iniciada com a introdução da moeda única.

Acrescentou Merkel: "Nós não podemos parar este (processo de integração) apenas por que um ou outro membro não quer juntar-se a ele", para realçar a contradição, do ponto de vista de Berlim, entre a recusa do Reino Unido assinar as regras de controlo orçamental da UE e as pretensões de Cameron para solucionar a crise, uma posição que irritou muita gente na capital alemã, segundo o jornalista do FT.  

Com a Espanha a esforçar-se por recapitalizar os seus bancos e as dúvidas das reformas gregas, Cameron fez saber ontem que iria pressionar Merkel a retirar a zona euro da beira do desastre adoptando medidas de emergência, incluindo a emissão conjunta de eurobonds, que os alemães repetidamente têm considerado desnecessárias porque adiariam a integração fiscal. O ministro das finanças britânico, por outro lado, tinha no dia anterior afirmado que os bancos espanhóis deveriam ter acesso directo ao fundo de resgate da zona euro. De momento, a recapitalização dos bancos com fundos de resgate passa obrigatoriamente pelos estados.
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Em resposta à pressão de Obama em idêntico sentido, Merkel apareceu pela primeira vez na televisão depois de uma ausência de algumas semanas para reafirmar o seu compromisso de convencer os outros membros da zona euro de ceder alguns poderes orçamentais a Bruxelas. "Necessitamos de mais Europa. Nós não necessitamos apenas de uma  união monetária, necessitamos também de uma união fiscal ... e, sobretudo, precisamos de uma união política, que significa que gradualmente se transfiram poderes para a Europa e dar à Europa poder de control"
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O governo alemão acredita que somente um mapa definindo claramente um caminho para uma integração da zona euro poderá definitivamente restabelecer a confiança dos investidores. Para isso espera que Rompuy, presidente do Conselho Europeu, apresente sugestões para a união bancária na próxima cimeira no fim deste mês de Junho e outras propostas em Dezembro. 

As reacções a estas propostas de Merkel começaram já, e a Holanda, geralmente um incondicional aliado da Alemanha, questionou Merkel  pela sua proposta integração de uns membros mais rapidamente que outros. No próximo Outono há eleições na Holanda, e os partidos dos extremos, à direita e à esquerda, rejeitam maior integração política na UE, colocando o governo na defensiva relativamente à transferência de poderes para Bruxelas.
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Merkel, entretanto, conseguiu que uma maioria formada pelo seu partido e os sociais democratas aprovassem no Parlamento o novo Mecanismo Europeu de Estabilidade e o pacto orçamental, assim como uma taxa sobre as operações financeiras (FTT) que  esperam venham a ser adoptadas por outros membros da zona euro.  Esta medida poderá abrir caminho para a ratificação do pacto fiscal e do ESM no fim de Junho.

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Em resumo: depois do lance de Draghi, que reclamou a  centralização da supervisão bancária e das garantias dos depósitos (vid aqui), Merkel faz o seu: diz a Cameron que o Reino Unido saiu, por sua vontade, do caminho comum, e, portanto, deixou há muito de ter voto na matéria, e é ela que lidera o projecto e define os passos a dar.

Quem a vai seguir, não sabemos, mas podemos prever com grande probabilidade de acertar que, desta vez, uma evolução significativa na Europa tem de acontecer.

FALTA-NOS, OBVIAMENTE, UM PONTA DE LANÇA

Aqui:

 "O futebol não é um caos e cada equipa tem princípios científicos, filosofia, modelo e sistema de jogo.
... o nosso meio-campo (não) assegura convenientemente as adequadas transições ofensivas, por falta de um número dez de raíz... ... não se conhece nem pelo trinco, nem o pivot,... (impõe-se) um duplo pivot,.. deve ser (contrariada a defesa à zona) pela adopção no mínimo de uma defesa mista ...  a tática defensiva não pode dispensar um modelo de bloco baixo... é preciso saber jogar sem bola ... no ataque falta-nos, obviamente um ponta de lança ...os alas não devem abusar das trivelas e das tabelas ...é fundamental jogar de cadeirinha e controlar o jogo... e um profundo descanso activo"  

Assim falou António P.C.
Manuel José, que ouvi de passagem num canal televisivo, estava indignado com a falta de concentração dos milionários: charretes em Óbidos, cumprimentos a esta e aquela individualidade, entrega da camisola a Cavaco Silva (a Adias já garantiu que as camisolas respeitam as normas de segurança europeias), tem sido um corropio e uma excitação propícia a cair logo na primeira volta. Sem ponta de lança e sem descanso activo, o mais certo é que voltem para casa mais cedo do que seria de esperar de uma constelação tão dourada.

Ouço e leio estes pertinentes juízos e estas críticas certeiras, e, como na matéria não distingo um ponta de lança de um avançado-de-centro, que era uma coisa que havia dantes mas pelos vistos desapareceu, voa-me o pensamento para fora das quatro linhas, e dou comigo a perguntar-me: Com quanto é que estes milionários, que o povão incensa e leva em ombros ou de charrete, contribui para a austeridade?

O Borges, que em política é como elefante em loja de porcelanas, escandalizou meio mundo com aquela da redução dos salários. De tal modo que se aparecesse no Terreiro do Paço em dia de Maga Pic-nic Continente arriscaria um auto de fé sumaríssimo que o levaria a mergulhar à força no Cais das Colunas.
E que disse o Borges? Que deveria haver redução geral de salários. E ele, perguntaram uns idiotas, a ele já reduziram os milhões largos que recebe?

Claro que não. Como só alguns estão a pagar a austeridade e a generalidade dos que mais ganham estão isentos, o Borges está isento. Ele, os milionários da bola, e todos quantos, por obra e graça de uma discricionaridade gritante estão dispensados da austeridade que, em grande medida, foi provocada por eles. 

O Borges também disse, se o tivessem escutado convenientemente: Reparem como eu, que ganho muito, estou isento de contribuição para a austeridade!
Que culpa tem o Borges que não o tenham ouvido de forma conveniente?

Wednesday, June 06, 2012

O JOGO DA CABRA CEGA

O juiz  do principal processo BPN, Luis Ribeiro, diz  que o seu computador está obsoleto, o que, segundo meretíssimo Ribeiro, provoca atrasos no processo.

Felizmente par a recuperação do processo e a bem da justiça, já foi solicitado à Direcção-Geral de Administração da Justiça outro portátil. Venha o portátil com memória fresca, o mostrengo será estripado, e os seus promotores julgados.

Quem diria, hem!, que um caso destes estava encalhado na falta de um portátil no país dos magalhães?

UMA CASA ASSOMBRADA NO OESTE

Pois o Bombarral vai ter um Parque de Diversões em grande, o Sky Towers. Nada menos que 38 hectares para divertimentos vários, que foram a Quinta do Falcão, já prometidos pela Câmara a um projecto de investimento de 54 milhões de euros de dois empresário ingleses, John e Christopher Flynn.

O presidente da edilidade bombarrelense está esperançoso. Conta arrecadar pelo arrendamento do terreno 100 mil euros por ano mais 5% dos lucros do empreendimento, e 300 empregos directos para nascidos ou residentes no concelho, fora os empregos indirectos. E os ingleses não temem a crise? Não. Os ingleses acreditam que com crise ou sem ela o Parque de Diversões do Bombarral é dinheiro em caixa. E a concorrência do Parque Temático dos Dinossauros projectado para a Lourinhã? Não haverá concorrência mas complementaridade. Aliás, o Bombarral já conta no seu inventário lúdico com os Jardins Orientais de Joe Berardo, que também investe no "Parque Dino" da Lourinhã.  O Oeste será um dia destes mais procurado que a "Disneylândia".

Na Lourinhã vai acontecer o maior parque de dinossauros do mundo!, uma velha aspiração dos lourinhenses. 

Mais de 200 modelos de dinossauros em tamanho real espalhados por 2,5 quilómetros de percursos pedestres.Tudo ao ar livre, num pinhal com 36 hectares. O que durante mais de 10 anos não passou de uma miragem está prestes a nascer na Lourinhã: «O maior parque de dinossauros ao ar livre do mundo» será construído naquela cidade – famosa pelos fósseis e pela maior colecção de ovos de dinossauros do mundo.

 No Bombarral, na Sky Towers haverá de tudo para pôr a malta a rodar no ar, em terra e na água: montanhas russas, carrosséis, tudo e mais alguma coisa, lojas, restaurantes, e, hélas! uma "casa assombrada". Para o presidente da Câmara, a "casa assombrada" será um "must", a vedeta do Sky Towers.

Mas, há sempre um mas, parece que no Oeste nem tudo são assombros.
O presidente da Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste está desolado, em nome dele e dos seus consócios. O tempo correu bem demais, as produções foram um benza-te Deus, boas e muitas, e, por serem tantas, os preços desceram  e os produtores não ganharam para os custos.

E a crise, não será essa queda de preços uma consequência da queda na procura por causa da crise? Também, também. Mas o que deu cabo dos preços foi a abundância. O mercado interno é exíguo (o senhor Alexandre Soares dos Santos diz que a produção nacional não chega sequer para um dos seus hipermercados), têm de exportar, mas, não sei se se lembram, o ano passado houve aquela bactéria E. coli, e os consumidores, assustados, preferiram os congelados aos frescos. Um desastre. Do Oeste exportam para Espanha, França, Alemanha, Holanda, e os Holandeses reexportam para a Escaninávia (uns finórios estes holandeses!) mas a E. coli arruinou  o negócio. Por outro lado, também há excessos de produção na Europa. Por exemplo, a batata. Vende-se a 15 cêntimos!, só daria lucro a 25. Mas os produtores franceses fazem chegar a batata até cá a 4 cêntimos! senhores. Abaixo do preço de custo, claro.

A que preço se vende a batata nos hipermercados?

Por estas e por outras é que o presidente da Cãmara do Bombarral tem mais fé na "Casa Assombrada".

Tuesday, June 05, 2012

MELHOR QUALIDADE DE VIDA, ONDE?

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UM BURACO AINDA MAIOR

No fim de Outubro de 2011 escrevi uma nota - O maior buraco vai começar a ser aberto dentro de pouco tempo - acerca da evolução do BCP (Millennium não pegou) um case study que se transformou num caso perigoso para os bolsos dos contribuintes.

Passaram-se sete meses. Vão começar os trabalhos.
Segundo o Negócios de hoje, para ajudar os bancos a cumprirem as novas exigências de rácios de capital, o Estado vai injectar um total de 6.150 milhões de euros no BCP, BPI e CGD. Montante pode atingir os 6.650 milhões em caso de insucesso no aumento de capital do BCP.

1650 milhões de euros para a CGD em acções e obrigações convertíveis (coco bonds)
1500 milhões para o BPI em obrigações convertíveis.

3000 milhões para o BCP em obrigações convertíveis. Mas pode ser mais (até mais 500 milhões) se os accionistas privados não subscreverem a parte ou a totalidade do aumento de capital que lhe está reservada. Neste caso, o Estado subscreve a parte não subscrita pelos privados a uma cotação, ainda não confirmada de 0,04 cêntimos por acção. A diluição provocará uma inundação de acções, passando das actuais 7 mil milhões para 19 mil milhões. O Estado será, de longe, o maior accionista, sem direito a voto.
Um absurdo promovido pela troica (ou Merkel), que obriga que o financiamento do BCE aos estados membros se faça através dos bancos e que a recapitalação dos bancos se faça através dos estados*.
 
No caso da Caixa o aumento é a fundo perdido. A menos que a Caixa fosse privatizada e os contribuintes  recuperassem mais este desembolso. Como o accionista é estúpido e o tutor conivente, o chairman continua regaladamente sentado e principescamente remunerado.
 
Quanto ao BCP, diz o presidente que o banco sairá reforçado, uma forma eufemística de dizer que, sem este calço, e que calço!, cairia dentro de pouco tempo. Calçado, quanto tempo se aguentará mais? Não sabemos. E não sabemos porque se desconhece a profundidade das imparidades não evidenciadas no balanço. Mas pode  suspeitar-se que são profundas uma vez que a subscrição do Estado será feita com um desconto de mais de 50% sobre a cotação em bolsa neste momento (abaixo dos 10 cêntimos).  
 
Relembre-se que o Estado garantiu, pelo menos, duas emissões de obrigações (vd aqui) do BCP: uma em Dezembro de 2011 de 1,35 mil milhões, outra já em Fereiro deste ano de 1,5 mil milhões. Tudo contado, o encravanço dos contribuintes neste buraco excederá já, segundo as minhas contas de somar e se não faltam parcelas, os 6 mil milhões de euros depois do aumento de capital.

Até ver o que ainda não se vê.
Há muitos que continuam a acreditar que, no caso do mostrengo que se chamou BPN, ninguém poderia prever o que iria acontecer.
Obviamente, ninguém, é gente a mais.
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Act- aqui: BCP fecha em mínimos abaixo de 9 cêntimos com dúvidas dos analistas sobre reembolso ao Estado.

Há coisas em que só não acreditam os fiéis.
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Correl. Resgate directo aos bancos também poderia implicar políticas condiciopnadas (Draghi - 9 /6)

Monday, June 04, 2012

PAULA REGO

Nova exposição em Londres na Marlborough Fine Art Gallery.
Quadros inspirados num conto de Balzac e outras histórias.



Aos 77 anos, Paula Rego continua incansavelmente a pintar.

"Coimbra, 16 de Março de 1962 - Ponho-me a pensar, com exemplos cimeiros, nesta ânsia realizadora incurável, que faz de cada artista um monstro de tenacidade e um símbolo de insatisfação. Balzac a trabalhar dia e noite à custa de chávenas de café, Proust a deixar no papel o gráfico da sua agonia, Miguel Ângelo a aproveitar, à luz de uma candeia, os últimos omentos do génio, o Aleijadinho a esculpir, com o escopro e o martelo amarrados aos cotos das mãos leprosas... E dou comigo em plena heresia, a duvidar da sinceridade do "Génesis". Nenhum criador verdadeiro, mesmo que seja Deus, descansa no sétimo dia..."

Miguel Torga - Diário

O BORGES DO AMARAL

António Borges, disse numa entrevista recente que a redução do salários é uma urgência.
Imediatamente, a esquerda criticou as declarações vergonhosas de Borges sobre a salários e exigiu uma posição do Governo sobre o assunto. Nuno Magalhães, do CDS-PP, diz que o silêncio é de ouro sobretudo em momento de dificuldade. Não sabemos o que pensa o PSD acerca da questão mas é bem possível que guarde como Magalhães o prudente silêncio.

Em conclusão: as declarações de Borges foram políticamente desastradas. E em termos económicos?

O que diz Ferreira do Amaral, o guru do momento da esquerda em Portugal, o homem que previu o desastre da adesão de Portugal ao euro e que agora, coerentemente, recomenda a saída dele?, embora não saiba como nem tenha ainda pensado nisso? Ferreira do Amaral tem sido  citado centenas, talvez milhares de vezes, e escutado por milhões nestes últimos tempos. E muita gente lhe louva a clarividência premonitória, a ousadia da proposta do caminho a seguir.

E, no entanto, por muito que esta conclusão possa ser chocante para quem abomina um e venera outro, Borges e Amaral dizem o mesmo. E isto por uma razão linear: a saída do euro, implicaria, inevitavelmente, a redução dos salários reais. Aliás, é esse o móbil principal de uma eventual saída do euro: depreciar a moeda interna de modo a ganhar competitividade monetária nas exportações e, implicitamente, tornar internamente mais caros os produtos importados.

O que não é novidade nenhuma. Borges disse o que outros vêm dizendo, de um modo ou de outro, há muito tempo. Há seis anos, numa conferência do Banco de Portugal, Olivier Blanchard, o respeitado economista-chefe do FMI,  avisou a plateia do auditório da Gulbenkian, com muita gente respeitável deste país nas primeiras filas, que não abriu a boca no fim da exposição de Blanchard mas depois derramou ácidas críticas no corredor, que os salários em Portugal estavam a crescer acima do crescimento da produtividade e que esse caminho teria de ser invertido. 

Mais recentemente, Vítor Bento disse, explicou, escreveu, que, das duas, uma: ou havia uma redução geral e abrupta dos salários para toda a gente (hipótese socialmente mais justa) ou a redução acabaria por acontecer, de forma mais lenta, em consequência do crescimento do desemprego, atingindo primeiramente e de uma forma mais dura  os mais desprotegidos (hipótese socialmente mais injusta).

O governo escolheu, por razões de execução expedita, a redução dos salários dos funcionários públicos e a redução das pensões dos reformados da segurança social. Foi injusto em larga medida com os funcionários públicos e despótico no confisco das pensões,   e apenas atingirá, se atingir, o objectivo da redução do défice. Agora tem a troica à perna: segundo notícia que ouvi na rádio esta manhã, os troicos insistem em mais flexibilidade das leis laborais e que as negociações salariais passem a ser feitas individualmente por cada empresa. 

Dr. Jekyll and Mr Hyde, Borges do Amaral na versão portuguesa, anda por aí.

Sunday, June 03, 2012

PRIMEIRO, ESTRANHA-SE.

Habituem-se!, disse sibilinamente o crânio (o atributo foi dado por Inês Pedrosa) logo que foram conhecidos os resultados que davam a vitória ao animal feroz (auto atributo). 

Ocorre-me aquele aviso a propósito da provável vitória do Syriza nas eleições gregas de hoje a quinze dias. Até lá há um apagão nas sondagens. Das últimas conhecidas, umas davam a vitória do bloco de esquerda Syriza, outras aos conservadores da Nova Democracia. Perante a iminência de um caos político mais cerrado do que aquele com que se depararam os gregos após a primeira edição destas eleições legislativas, à superfície nada de novo. 

Rajoy garante que a Espanha não está à beira do precipício, propõe (ou pede?) a criação de uma autoridade fiscal europeia, Merkel recomenda-lhe que solicite ajuda externa para safar o sistema financeiro à beira de se estilhaçar de vez, Draghi subscreve a ideia da fiscalização europeia dos bancos e a garantia europeia dos depósitos, Hollande eclipsou-se. Van Rompuy e José Barroso limitam-se a ensaiar uns passos em falso. 

E se Tsipras sai vencedor no próximo dia 17, arrebata o bónus dos 50, e consegue a maioria absoluta ou fica por lá perto? E, coerentemente com o que promete, denunciar os acordos de ajuda externa? O que farão Merkel e os dezasseis anões? E os outros dez? E o que fará Tsipras se formar ou influenciar o próximo governo de Atenas se ficar isolado e sem fundos para pagar os compromissos do estado? E se houver corrida aos bancos? E se não houver governo, haverá coronéis?  

É difícil acreditar naqueles que garantem que não existe nenhum plano B para a eventual saída da Grécia da zona euro. Até porque, por outro lado, outros (ou os mesmos?) garantem que a saída da Grécia da zona euro teria efeitos colaterais menos dramáticos do que aqueles que ocorreriam se essa saída se tivesse processado há um ano atrás. Talvez. Mas a eventual vitória de Tsipras (em qualquer caso ele sairá sempre vencedor porque nenhum governo minimamente estável  poderá ser constituído sem a sua participação) provocará um abanão na União Europeia de uma magnitude a que os seus líderes nunca estiveram habituados.

A simples hipótese da chegada ao poder de uma formação heterogénea de esquerda, onde não faltam grupos radicais, que é tão insólita quanto provável, deve estar a ser monitorada ao minuto de modo a serem desencadeadas as acções que evitem o descalabro global. O tal plano B que Olli Rehn refutou deve estar pronto a ser accionado. E se não estiver?

Esteja ou não esteja, a União Europeia sofrerá de hoje a quinze dias um abanão. 
Talvez esteja a precisar dele. Afinal, talvez lhe falte um animal (realmente) feroz!

Saturday, June 02, 2012

SECRETAS BADALADAS

Há dias o primeiro-ministro foi à AR reafirmar aos deputados a sua confiança total no chefe das secretas porque, disse, não tinha nenhumas razões para proceder em contrário. O secretário-geral dos Serviços de Informação da República fez o que devia fazer, garantiu Passos Coelho.

Hoje a primeira página do Expresso é dominada pela afirmação que destitui as convicções do chefe do governo a respeito do comportamento do chefe das secretas.

Alguém está a mentir: ou o Expresso, que denuncia a obstrução do secretário-geral das secretas à investigação da verdade, contrariando as informações que, a esse respeito, chegaram ao conhecimento de Passos Coelho, ou o chefe das secretas que iludiu o chefe do governo acerca da sua intervenção no caso, ou Passos Coelho que, por razões inconcebíveis, pretende manter a todo o custo o secretário-geral das secretas no cargo. A intenção do chefe do governo esclarecer o imbróglio das secretas e o envolvimento do seu ministro-adjunto vai sair-lhe pela culatra se urgentemente não for provado que o Expresso está  mentir.

Pode lamentar-se que, recorrentemente, a justiça popular, frequentemente incitada pelos jornalistas, se sobreponha ao apuramento da verdade em sede própria. Pode lamentar-se que as fugas de informação não poucas vezes acabem por beneficiar os infractores. Pode lamentar-se que o segredo de justiça seja violado por aqueles a quem compete guardá-lo. Mas não pode o chefe do governo garantir que quem mentir deve sair, e não sair ninguém. Porque, mais tarde ou mais cedo, a força das badaladas acabará por se impor à ronha das secretas.

Há treze anos, Guterres nomeou Veiga Simão para Ministro da Defesa em Novembro de 1997 e, em 28 de Maio de 1999, "O Independente" publicava a lista dos espiões (com os nomes riscados) ao serviço do recém-criado Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares, enviada à comissão parlamentar de defesa (22 deputados), integrando um relatório, que não tinha sido pedido, sobre operações efectuadas pelo SIEDM, especificando, além da identidade, os estudos, o cargo e o país de colocação de todos os funcionários dos serviços secretos. Alguém tinha feito escorregar ridiculamente o ministro. O escândalo ridicularizou os serviços secretos militares portugueses junto dos membros da NATO.   
Veiga Simão demitiu-se nesse mesmo dia, acusando, três anos mais tarde, Guterres de "postura imoral" por permitir "calúnias e vexames a um seu colaborador". 

São situações diferentes, pois são. Mas detrás de ambas é o sentido de estado dos protagonistas que está posto em causa. Se alguém está a mentir deve ser demitido, disse Passos Coelho. Proceda então como promete.

Friday, June 01, 2012

PALAVRA DE CAIXEIRO-MOR

Avalio pelo que leio aqui: O custo da nacionalização do BPN para os cofres estatais deverá atingir um valor próximo dos 2,7 mil milhões de euros, de acordo com a informação hoje prestada aos deputados por Faria de Oliveira, presidente da CGD.

Já se ouviu de tudo acerca do preço que temos de pagar pelo mostrengo, que inclui uma variedade enorme de logros e golpes sujos, nas mãos de uma justiça meia adormecida sobre os milhares de páginas que acumulou desde que o escândalo rebentou, uma gestão incompetente a todos os títulos dos caixeiros destacados para se ocuparem de uma marca a que não restava uma gota de credibilidade, uma inqualificável indecisão do governo anterior que transferiu para o actual um ónus sem ponta por onde este pudesse pegar sem contabilizar os fantasmagóricos resultados de tanto crime ainda impune e de tanta incompetência acumulada.

Teixeira dos Santos começou, e sustentou durante muito tempo, que o BPN não havia custado (ainda) nada ao Estado. Sofisma dele, a roçar a maior falta de vergonha, porque ele sabia, toda a gente que sabe o mínimo destas coisas sabia, que tendo sido o BPN nacionalizado e entregue aos cuidados dos descuidados caixeiros, a garantia dada à Caixa pelo governo em nome Estado equivalia a uma perda a ser inscrita nas contas do Estado e sacada aos bolsos dos contribuintes. 

O Caixeiro-Mor, aliás, esclareceu mais tarde, quando era dado como certo que o governo estava de malas aviadas, que a Caixa não contabilizaria quaisquer prejuízos por conta do mostrengo que lhe tinha sido entregue para guarda. Mas nem precisava, uma vez que tinha em mãos a garantia para os profundos buracos do mostrengo e para queles que os caixeiros iriam abrir. 

Depois ouviu-se que o preço já alcançara os 5 mil milhões, depois os 6 mil milhões, ultimamente 8 mil milhões. Agora, o Caixeiro-Mor afirma perante a Segunda Comissão Parlamentar de Inquérito que o preço é de 2,7 mil milhões. "Mais as contingências", acrescentou, explicando que "neste momento é muito difícil avaliá-los [os custos finais]".

Difícil seria fazer pior, caixeiro-mor.
A divida das sociedades veículo do BPN à CGD é de 4,98 mil milhões de euros.
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* Act.- Ouço de passagem por um canal de televisão que Teixeira dos Santos declarou à CI não ter autorizado o aumento das remunerações dos administradores da Caixa destacados para a gestão do BPN.