Wednesday, January 12, 2011

SUCESSO, ATÉ VER

Portugal conseguiu colocar a totalidade da dívida que leiloou hoje, tendo no caso das obrigações a dez anos os juros descido ligeiramente, para 6,716 por cento, mas subido 33,5 por cento para o prazo de quatro anos.

O Estado pretendia colocar 750 milhões a 1250 milhões de euros no leilão de duas linhas de Obrigações do Tesouro, tendo colocado 1249 milhões. A procura para o total das duas linhas foi de 3600 milhões de euros, o que representa 2,88 vezes a oferta. Esta procura foi superior à das últimas emissões.

São boas notícias?
O ministro das Finanças considerou que a operação de emissão de dívida de hoje foi “um sucesso” e que “perante isto, não há necessidade” de recorrer a ajuda externa.
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Foi um sucesso porque a procura representou 2,88* vezes a oferta? Não parece. A procura teórica tem largamente ultrapassado a oferta nos últimos leilões mesmo quando os juros subiram acima dos 7%. Trata-se de uma peneira com que os governantes têm tentado encobrir a realidade. A procura real não tem excedido a oferta em tal medida, nem tão pouco parecida. Se a procura real quase triplicasse a oferta ou os juros teriam descido drasticamente ou as leis da oferta e da procura teriam de ser mandadas para o cesto do lixo.
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Foi um sucesso porque os juros se situram aquem dos 7%? Se se tivessem situado acima, haveria necessidade de recorrer a ajuda externa? Não me parece. Ainda ontem o PM tinha reafirmado que não havia necessidade de recorrer a ajuda externa. 7% é apenas um patamar sem significado muito relevante para a capacidade de Portugal poder prescindir da ajuda externa. Os níveis da dívida e dos juros  num contexto económico estagnado ou mesmo recessivo, lamentavelmente, não consentem o optimismo que o governo continua a querer mostrar.
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"In psychology, there is phenomenon called escalating commitment. Once one takes a position, one feels compeled to defend it.", afirma Stiglitz a páginas tantas de "Freefall".

Será o caso?

Realce-se, no entanto, o facto de a generalidade dos comentadores e políticos a nível internacional, incluindo Merkel, considerarem a operação um sucesso. Oxalá não opinem, pública ou por encomenda, em sentido contrário num futuro próximo.
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* Segundo o Correio da Manhã, a procura excedeu 3,2 vezes a oferta (aqui )

Tuesday, January 11, 2011

O QUE É ISTO?

TODDY



Toddy contem porque contem mesmo!

PORQUE SIM

“Este recurso” a ajuda externa “só se faz quando não há alternativas, considerou Cavaco Silva, lembrando depois que a “Alternativa pode passar pode vender activos ao estrangeiro”.
Repetiu depois que o “país tem sempre como alternativa a venda de activos ao estrangeiro”, além de poder recorrer às reservas acumuladas. (aqui )

A venda de activos a estrangeiros significa a venda de participações sociais do Estado em empresas. Mas a essa venda já está, pelo menos em parte, programada no OE 2011. A grande excepção é a Caixa Geral de Depósitos mas não acredito que Cavaco Silva esteja a pensar que a Caixa deva ser vendida, mesmo parcialmente. Ainda que seja difícil entender o comportamento que a Caixa teve na contribuição do endividamento excessivo dos particulares e o seu alinhamento constante com as práticas da banca privada.

Para lá da Caixa e das Águas já não sobrará grande coisa. A situação do mercado e o estado de necessidade em que, claramente, estas vendas se podem, por agora, realizar esmagarão os preços de venda. O  mesmo se aplica às eventuais vendas de ouro.
Noutra intervenção, Cavaco Silva mostrou-se esperançado que os credores analisem o OE 2011 e mudem de ideias.

Por outro lado, Sócrates continua a garantir que  Portugal não vai pedir ajuda externa porque "não precisa".

Cooperação estratégica ou coincidência de tácticas?

SAÚDE E TURISMO


É, como sempre acontece nestes casos, uma ilegalidade juridicamente inconsequente mas politicamente proveitosa: autarcas destes nunca perdem eleições.

Imaginemos que o Tribunal de Contas tinha concluído o contrário.
Para que precisaríamos de Serviço Nacional de Saúde, nesse caso? As Câmaras Municipais passariam a enviar os doentes do seu concelho, que necessitassem de intervenções cirúrgicas, em viagens de turismo e saúde, a Cuba ou à Índia, por exemplo, e nunca mais se falaria de filas de espera para cirurgias em Portugal.

Só mesmo Angela Merkel e uns quantos mais é que não percebem isto.

Monday, January 10, 2011

SUBSCREVO

João Rendeiro lançou um blogue. Antes um blogue que um banco: assim o prejuízo fica com o responsável.

É verdadeiramente surpreendente assistir ao regresso de João Rendeiro ao “espaço” mediático. Não pelo seu regresso: Rendeiro é livre de fazer o que entender e de se munir, como diz, de “lápis, folha A4, calculadora de bolso”. Mas pelo conteúdo: vem dar uma aula sobre banca; sobre o BPI; sobre o Banco de Portugal.

O descaramento não tem limites. O Banco Privado Português é um caso de polícia, defraudou milhares de clientes, é uma nódoa na história do sistema financeiro português, está em dissolução – mas o seu fundador e ex-presidente dá lições de banca. E de supervisão: chega ao cúmulo de acusar o Banco de Portugal de “política de avestruz”, precisamente aquilo de que foi acusado no BPP.

BRANCO DE PORTUGAL

Administradora do Banco de Portugal, contradiz o governador:  Teodora Cardoso afirmou que Portugal precisa de recorrer à ajuda externa, poucos minutos após Carlos Costa ter garantido que o País tem capacidade para resolver os problemas sozinho.
(aqui)

Toda a gente tem direito a opinar desde que, evidentemente, não infrinja o civismo que a vida em sociedade requer. Não há nehum mal que a cidadã Teodora Cardoso opine que Portugal precisa de recorrer a ajuda externa e que o cidadão Carlos Costa opine em sentido contrário.

Mas já é inadmissível que uma administradora e o governador do Banco de Portugal manifestem publicamente a discordância total entre eles acerca de um assunto tão sensível,  candente e decisivo para o confronto com a crise que entrou em casa da esmagadora maioria dos portugueses por tempo indeterminado.

É crível que governador e administradores do BP não tenham até hoje analisado as possibilidades do País se safar pelos seus próprios meios? Não é.
É crível que não seja consensual entre administradores e governador uma opinião acerca do assunto? É.
Mas é incrível que uma discordância deste tamanho caia na praça pública, como se o que tivesse em causa fosse inócuo para a vida do cidadão comum. 

Mesmo com funções bastante limitadas, o BP continua a não conseguir a atingir os minimos no exercício das suas competências.  
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correlacionados - Cavaco Silva: Alternativa ao FMI "pode passar por venda de activos ao estrangeiro"
Cavaco tem apoio de Alegre se interromper campanha para fazer diligências sobre a dívida.

Sunday, January 09, 2011

É POR DEMAIS EVIDENTE

Sócrates avançou aos deputados que, em 2010, "as receitas fiscais ficaram acima do esperado, a despesa do Estado ficou abaixo do esperado e o saldo orçamental vai ser aquele que estava previsto".

As palavras caíram em saco roto, à semelhança do que tem sucedido desde o final do ano passado. Mas a verdade é que o Governo não pode fazer mais nada. "Chegou a altura de invocar a Nossa Senhora de Fátima", ironiza Jacinto Nunes, economista e ex-ministro das Finanças. "Agora é esperar e ver o que acontece na próxima quarta-feira, quando se emitirem as Obrigações do Tesouro", diz, "porque se os juros forem para os 7%, é insustentável pagar aquilo". (aqui)

A afirmação de Jacinto Nunes é benevolente, porque a probabilidade de os juros se situarem aquem dos 7% é remota numa altura em que a vinda do FMI é altamente provável.
Portugal já não tem objectivamente nenhuma hipótese de se safar pelos seus próprios meios, e passa de obsessão a insanidade querer dispensar a bóia num mar que não vai deixar de continuar fortemente encapelado.
Mesmo que, por milagre, os juros ficassem na próxima quarta-feira abaixo dos famigerados 7%.

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Hoje, 10 - ligeira descida dos juros, mas ainda acima dos 7%, resultou de ajuda do BCE.
act - Juros de Portugal em forte queda, abaixo dos 7%, com BCE agressivo nas compras.
Bagão Félix: pedir ajuda internacional é inevitável

EDUCAÇÃO E DEMOCRACIA

"... a mudança já só pode chegar de eleitores mais informados e mais exigentes, que obriguem os partidos de governo a mudar de atitude. A ( ) esperança radica na quase certeza de que a nova geração que está a sair das universidades já não se deixará enganar."

Será assim mesmo?
O nível educativo, induzindo mais informção e capacidade para a interpretar, inevitavelmente conduzirá a uma sociedade democraticamente mais robusta? 
Tenho dúvidas.

Não duvido que o crescimento do  nível educativo médio de uma sociedade é condição necessária à consolidação democrática. Mas não é condição suficiente. Mais formação e informação, quando postas ao serviço dos interesses de um grupo ou duma classe, podem mesmo mancomunar-se e abalar os alicerces da democracia. A trave mestra da democracia assenta em valores morais que não se adquirem na escola se não estiverem impregnados na sociedade.

A crise financeira global que despoletou nos EUA e se propagou, sobretudo, ao resto do mundo ocidental foi forjada por gente altamente preparada e muito ciente dos objectivos dos seus actos: o benefício do seus próprios interesses. O uso da força sindical por parte da função pública, e nomeadamente dos professores, compromete a democracia,  porque abusa do seus princípios, para favorecer os seus propósitos de maximização das suas vantagens à custa daqueles que não dispõem de força idêntica. O artigo publicado pelo Economist desta semana,  e de que coloquei  links (aqui), é muito expressivo acerca do abuso da liberdade democrática.

Um exemplo doméstico:  A Câmara de Oeiras.
Oeiras é o concelho com maior número de licenciados relativamente à população residente, com o mais elevado nível médio de salários e o segundo PIB/capita do país.
O actual presidente tem o curriculo que se conhece. É reeleito sucessivamente e, inclusivé, passa a contar com o apoio de eleitos pelo PS e PSD para conseguir a maioria na vereação e na AM.
Repito : não tenho qualquer dúvida que o nível de instrução é fundamental ao exercício consciente e consistente da democracia mas não é condição suficiente.
A conscência cívica não se adquire sobretudo nos bancos da escola, mesmo nos bancos das escolas superiores. Decorre de um processo evolutivo, amassado de tentativas e erros, que pode exigir muitas décadas.

Saturday, January 08, 2011

INCONTORNÁVEL

Os governos da Alemanha e da França querem que Portugal aceite ajuda financeira internacional quanto antes, de modo a evitar que a crise da dívida portuguesa alastre a outros países, informou a agência France Press (AFP).

Sócrates desvaloriza notícias sobre ajuda externa e garante que Portugal vai cumprir objectivo.  Qual? 

TACO A TACO

O presidente da SLN (actual Gililei) chama-se Fernando Lima e faz parte da comissão de honra de Manuel Alegre.

Ex-dirigentes do BPN integram comissão de honra de Cavaco Silva.

SEGUNDO O DN

UMA QUESTÃO FULCRAL


Já várias vezes abordei neste caderno a questão da remuneração do sector público versus sector privado, do poder de mobilização incomparavelmente superior do sindicatos da função pública relativamente à dispersão da capacidade dos trabalhadores em empresas privadas para reclamarem melhores condições de trabalho.

A disparidade de forças é enorme e não decorre apenas da capacidade da mobilização sindical mas também da enorme diferença entre obter vantagens junto de um empregador político que cede aos reclamantes porque são também seus eleitores e as receitas são-lhe proporcionadas ius imperium junto de contribuintes dispersos, e aqueles que dependem dos resultados conseguidos nos mercados. Entre uns e outros, situam-se os empregados dos monopólios de facto, geralmente remunerados em conformidade com as rendas dos empregadores e, portanto, bem remunerados.

Enquanto nos sectores transaccionáveis o crescimento das remunerações acompanha o crescimento dos níveis de produtividade atingidos, no sector público o crescimento das remunerações depende sobretudo da força mobilizada pelos sindicatos.

É a este assunto que o Economist desta semana dedica o seu editorial e uma análise que vale a pena ler aqui e aqui.


The public sector unions
The battle ahead
The struggle with public-sector unions should be about productivity and parity, not just spending cuts

O QUE É ISTO?


Friday, January 07, 2011

LITTLE ITALY

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Já uma vez, aqui, prestei homenagem à melhor minestrone que conheço. Com alguma frequência me regalo com o elementar petisco quando venho até este lado.
Não só pela minestrone mas pelo ambiente de origem que os italianos recriam aonde chegam. E onde, praticamente tudo, sabe a Itália, desde as bebidas, águas e vinhos, a ementa que não consente outras procedências, qualquer prato inclui uma minestrone ou uma salada, as sobremesas, a decoração interior, as fotografias, a música ambiente.
Tudo por cerca de 18 dólares cada refeição, tip de 15% incluida.

SUBPRIME

POIS É

O QUE MATA ENGORDA

O DN de hoje, apresenta como prato forte a engorda do Estado nos últimos 20 anos.
Em destaque conclui que "Foi nos dez anos de Cavaco como primeiro-ministro que a despesa do Estado mais engordou" e que "Nasceu uma fundação a cada 12 dias nos últimos três anos do Governo Sócrates".

Verdade ou menos verdade, a cada qual a sua, é uma realidade que o Estado cresceu para além dos limites que a saúde da economia consentia e os orgãos de fiscalização poderiam controlar. Se hoje nos encontramos à mercê do oportunismo dos credores é porque alegremente nos deixámos embarcar para um paraíso impossível.

O mais lamentável, contudo, é que, mesmo no meio do turbilhão de uma crise que ninguém sabe como pode ser ultrapassada, espera-se um milagre, que não vai aparecer.

O enrolar da manta da dívida um destes dia acaba porque o crescimento dos juros tornará a continuação do exercício impossível. Somos confrontados todos os dias, ali ou acolá, com situações intoleráveis que, por um mínimo de respeito pelos contribuintes, já deveriam ter sido eliminadas. Mas a percepção geral é que continua tudo na mesma.

Sem rei nem roque, chamem o FMI e reestruturem a dívida. Porque não é preciso fazer muitas contas para se perceber que não vamos poder pagá-las sem as renegociar e para as renegociar precisamos de um tutor.
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Juros a dez anos atingem máximo histórico de 7,1% desde a adesão à Zona Euro
Crescimento de Portugal revisto em baixa

Thursday, January 06, 2011

MELHOR HOJE QUE ONTEM

Este não é o melhor dos mundos possíveis.
Mas é o melhor de sempre.
Quem duvidar, veja aqui

SONHOS E RABANADAS - PARTE 9


(noque, noque, noque)

- Entra! O que é que se passa? O que é que se passa de tão grave que tenha de ser interrompido quando estava a apontar uns alexandrinos? Morreu o euro?
- Ainda não Alteza. Está lá fora uma delegação da Associação de Depositantes  com Retorno Certo Espoliados do Banco Privado Português ...
- Ah, estão? Deixa-os estar! Não. Diz a César que os receba.
- Já tentei, mas eles dizem só aceitam ser recebidos por Vossa Alteza. 
- E o que é que eles querem?
- É assunto confidencial, disseram eles.
- Manda-os entrar! E diz a César que também entre.
...

(noque, noque, noque)

- Entrem! Então o que é que os traz por cá?
- Somos representantes da Associação ...
- Já fui informado. Adiante ... posso ajudar?
- Não se trata tanto de ajudar mas de pagar...
- Pagar?!!! Pagar o quê?
- Pois a diferença entre o valor de um gato e de uma lebre.
- Não percebo. Expliquem-se, vão directo ao assunto, tenho mais que fazer!
- Sem mais rodeios a questão é esta: Vossa Alteza ajudou a promover, para além das espingardas Purley, questão que não nos diz respeito até porque não caçamos, os méritos um banco que se veio a tornar num esgoto. Admiradores da sua frontalidade e lisura seguimos-lhe a sugestão e confiámos ao banco as nossas economias...
- Retirei o apoio e devolvi a massa!
- Não demos por isso. Tínhamos depositado a nossa confiança e o dinheiro no local indicado. Agora é tarde e o dinheiro esfumou-se...
- Mas não fui só eu ...
- Pois não. Estamos a contactar todos aqueles que fizeram o mesmo. Dividido por todos, calha a bagatela de 5 milhões de euros a cada...
- Cinco milhões?!!! Vocês estão doidos?!!!  Há um tipo que embolsa 150 mil, safa-se deste berbicacho da presidência e, no máximo devolve os 150 mil e alguns juros. A mim, que embolsei e desembolsei 1500, querem vocês 5 milhões!!!? 
- É uma questão que os tribunais apreciarão se Vossa Alteza assim o etender... Os 150 mil embolsados pelo outro não induziram mais ninguém a fazer o mesmo.
- César, vamos aqui à sala ao lado.
...
- O que é que te parece?
- Parece que a coisa está preta. Se salta para os tribunais não se resolve em menos de dez anos e arruina-te a glória.
- Achas que é melhor pagar?
- Não acho, tenho a certeza. Pagando, fica o caso abafado.
- Pois que se pague! Quantas coroas são 5 milhões de euros no mercado oficial?
- Qualquer coisa como sete mil e quinhentos milhões ... É uma pipa de massa ...
- Manda imprimir!
- Mas, Manel...
- Já não há papel?
- Haver, ainda há ... Mas a dívida é tua e a impressora é do Estado ...
- Pois que se faça como fizeste na Ilha. Pede-se um empréstimo ao banco e entregam-se ao banco sete mil e quinhentos milhões de notas novas...
- Qual banco?
- Pois  qual é que pode ser se não o BPP? Ficam resolvidos os problemas dos depositantes e os do banco, hem? boa solução, não?
E andaram aqueles bananas durante anos a arrastar isto!