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Sunday, October 09, 2011

EM VEZ DE

Suspeitei das virtudes da redução da TSU desde que a ideia começou a ser debatida. Coloquei aqui as minhas dúvidas registando neste caderno o comentário colocado aqui, e voltei ao tema várias vezes reforçando as razões dessas dúvidas. Outras opiniões abalizadas (p.e., a que referi aqui) não me convenceram e, entretanto, no coro contra a medida aumentou o número de vozes. Não porque suponha que a redução da TSU seria inócua mas porque os efeitos seriam ténues e a sua aplicação susceptível de aproveitamentos pouco sérios. Recentemente, a troica admitiu informalmente aceitar a troca por outra medida com efeitos equivalentes.

Há dias, ouvi na rádio Campos e Cunha defender uma medida alternativa para aumentar a competitividade das empresas, medida essa, aliás, já sugerida anteriormente por outros economistas: o aumento temporário das horas trabalhadas, por aumento do horário diário, por redução do número de feriados, por redução do número de dias de férias. Resultará?

Em princípio, sim. Um aumento do horário de trabalho é equivalente à redução do salário horário. Se o entrave ao nosso crescimento económico é a falta de competitividade, se a produção aumenta e os custos do trabalho se mantêm os custos unitários reduzem-se, e a competitividade aumenta.

Mas, obviamente, não aumenta em todos sectores na mesma proporção e pode mesmo não aumentar se existir um bloqueamento técnico ou comercial à capacidade produtiva: ou porque não é possível produzir mais porque o aparelho técnico está no limite de utilização das suas capacidades ou porque não há procura para a produção adicional. De qualquer modo, o resultado final seria, certamente, mais positivo que a redução da TSU, do meu ponto de vista.

Tem um obstáculo difícil de ultrapassar: a receptividade por parte da população activa e a oposição dos sindicatos, do PCP, do BE, e, muito provavelmente, do PS . Cavaco Silva teve um dia a bizarra ideia de querer recolocar a terça-feira de Carnaval na sua condição oficial de dia de trabalho, e foi amaldiçoado pela generalidade dos portugueses. Mais recentemente, Sócrates pretendeu que os agentes  justiça passassem a trabalhar mais, reduzindo-lhe as férias de três meses, e teve de recuar porque, além do mais, até o PSD e CDS se lhe atravessaram no caminho com acusações de falta de consideração pelos juízes. 

Não há, então, nada a fazer? Haver, há. A redução dos salários reais e nominais já está a acontecer, o tempo encarregar-se-á do resto, colocando, no entanto, o nível de vida dos portugueses num patamar cada vez mais baixo. 

A menos que a troica venha um dia destes a impor outras medidas, parece provado que, por nós mesmos, não seremos capazes de descortinar outros caminhos para a competitividade. Depois queixamo-nos da perda de soberania.

Friday, September 23, 2011

CASAMENTO E RECIBOS VERDES

Ninguém quer acabar com a justa causa nos despedimentos, garantiu hoje o ministro Álvaro Santos Pereira.

Na carta compromisso enviada à troica promete o Governo de Portugal  que "Vamos preparar até ao final de Dezembro de 2011, uma proposta que visa introduzir ajustamentos aos casos de despedimento individual com justa causa."

A primeira versão dessa proposta foi ontem discutida em sede de concertação social e apontava para o alargamento de justa causa ao incumprimento de objectivos. Os sindicatos, obviamente, reagiram contra. 
As discussões foram adiadas até nova reunião de apreciação de contrapropostas dos parceiros sociais.

O artº. 53º. da Constituição  proíbe expressamente o despedimento sem justa causa:  "É garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos." Logo, o ministro Álvaro Santos Pereira não pode acabar com o despedimento sem justa causa, a menos que a Constituição seja neste ponto alterada, logo a sua declaração é redundante. Mas será redundante a sua proposta?

Em termos práticos é. Porque se o incumprimento de objectivos for considerado "justa causa" para o despedimento, entre a vontade de despedir e o despedimento intercala-se um acto (o incumprimento de objectivos) de difícil confirmação na generalidade dos casos. E, portanto, uma justa causa para imbróglios jurídicos. 

Em Portugal usa-se e abusa-se do "recibo verde" como forma de ultrapassar a rigidez das leis do trabalho em matéria de adequação das necessidades de capacidades às flutuações acentuadas da actividade das empresas. O trabalho precário, que em Portugal atinge valores anormalmente elevados, decorre dessa rigidez garantida constitucionalmente. E que esta proposta do Governo, já rejeitada pelos sindicatos, não ultrapassa, porque apenas a complica. 

De uma vez por todas Governo e parceiros sociais deviam entender-se num ponto: qualquer despedimento que não decorra de motivações políticas ou ideológicas deveria ser constitucionalmente permitido desde que protegidos os direitos do trabalhador em função dos seus anos de serviço, da sua idade, e do seu salário. Qualquer outra solução será um arremedo para não se confrontar com uma realidade: a de que nenhuma relação contratual é salutar e sustentável sem a vontade de ambas as partes.

Foi por essa razão que a Lei do casamento (ou do divórcio) foi alterada.

Talvez o ministro ASP quisesse dizer: Ninguém quer acabar com a justa causa nos despedimentos, mas é justa causa se um dos contratantes o desejar e pagar por isso, mas não lhe deram autorização para tanto. E saiu-se com uma boutade.

Wednesday, December 22, 2010

Tuesday, December 21, 2010

BEM OU MAL

- Ambrósio, porque tiveste a infelicidade de nascer plebeu, a tua opinião não conta. Mas já agora gostava que me dissesses se, em tua opinião, fazer amor é ou não é trabalho?
- Senhor Marquês, se fazer amor fosse trabalho quem teria de dormir com a senhora Marquesa era eu. (do Anedotário com Barbas)

Na sequência do que escrevi aqui, e que mereceu o desacordo do meu amigo Luciano M., deu-me a diferença de fusos, esta noite, tempo para cogitar um pouco mais sobre o erro que, eventualmente, possa ter incorrido.

Afinal, o trabalho é ou não é um bem?

O conceito "trabalho" é, pelo menos, tão elástico quanto o conceito de "bem".
De qualquer modo, e para a questão abordada, parece não haver dúvidas de que se existe um" mercado de trabalho" em que até o Luciano confia, nesse mercado, forçosamente, alguma coisa, produto ou serviço, um bem, é objecto de troca.

Por outro lado, sendo o trabalho a capacidade física e intelectual (não há trabalhos apenas manuais) do trabalhador para  realização de tarefas produtivas, o aumento progressivo da produtividade (a produção realizada em cada unidade de tempo)  reduz a necessidade das capacidades disponíveis para os mesmos níveis de produção. Neste sentido, a humanidade caminhará para o excesso e não para a escassez de trabalho, e o título do meu apontamento (o trabalho, um bem escasso) seria contraditório com o texto.

No entanto, o conceito é, geralmente, utilizado em sentido oposto: As pessoas andam à procura de trabalho (as que não andam só à procura de emprego), queixam-se com falta de trabalho (as que estão sem ele), ou do excesso de trabalho (as que o têm), em conclusão, neste sentido o desemprego existe porque não há trabalho disponível em quantidade suficiente para as capacidades disponíveis num dado momento. Já para não referir aquele que não trabalha (não faz alguma coisa) porque (essa coisa) dá muito trabalho ... 

No "mercado do trabalho" o que se compra e vende é energia, física e mental. Transacciona-se um bem.
Aliás, todos os bens, todos os produtos e serviços incorporam do início ao fim do ciclo produtivo, trabalho. Os bens (o ar, alguma água, etc.) que não requerem trabalho para a sua fruição, são gratuitos.

Assim sendo, o trabalho não é apenas um bem mas um bem omnipresente em toda a produção humana. Isto é, para além do trabalho, não há mercados de mais nada.

Trabalho, um bem escasso ou trabalho, um bem abundante, depende da perspectiva do observador mas
a conclusão é a mesma: Se a produtividade tende para infinito e o consumo é limitado à duração do dia (do dia, porque o homem repete diariamente essencialmente os mesmos consumos) o trabalho, enquanto energia, é menos necessário; enquanto oportunidade de utilização dessa energia (emprego) é mais escasso.

Salvo melhor opinião. 

Sunday, December 19, 2010

TRABALHO : UM BEM ESCASSO


Há muito tempo, numa cantina universitária, que já não existe, havia  na parede um cartaz: "O amor e a fome estiveram sempre na origem de todas as guerras do mundo - Buda". Se ainda hoje me recordo do aviso é porque ele se prestava à laracha enquanto esperávamos na fila.
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Remetido à sua condição primária, o bicho homem comporta-se como os seus primos instintivos: demarca o terreno onde faz pela vida, repele o intruso ou ataca o vizinho consoante as circunstâncias o impelem. Para além dos impulsos primordiais, o homem, quando dá asas a mais à ambição, ataca pelo prazer de dominar e ser adulado, imaginando-se, se não filho dilecto dos deuses, pelo menos inspirado por eles.

Mas Buda, segundo o velho cartaz, na sua sapiência de rabo coçado, sendo suficientemente abrangente, como convém a qualquer aforismo para nele caber tudo e mais alguma coisa, não deve ter sequer pensado na eventualidade de algum dia o homem se bater pelo trabalho.

E, no entanto, se a escassez de recursos (sobretudo o petróleo, nos dias de hoje) continua a mobilizar uns contra outra outros, é a escassez de trabalho (correntemente designada por desemprego, subemprego ou desemprego oculto) que pode desta vez virar o mundo do avesso.

Já dediquei aqui neste caderno vários apontamentos ao assunto, se volto a ele é para lhes reforçar a consistência com alguns sinais de alarme.

Um artigo publicado no Economist desta semana (The disposable academic) aborda a produção de doutorados nas universidades norte-americanas e, mais geralmente, em todo o mundo, numa cadência que, segundo alguns críticos, se assemelha já a um esquema piramidal, tipo Ponzi, gerando uma oferta largamente superior à procura, apesar do sistema se autosustentar parcialmente: Quanto mais candidatos mais professores, quanto mais professores mais candidatos.

Ontem, coloquei  aqui link para um artigo do Washington Post reportando a escassez de trabalho que se observa nos EUA e, nomeadamente, no caso em análise, para os carpinteiros desempregados pela crise na área de Las Vegas, que, provavelmente não voltarão mais ao trabalho, e menos como carpinteiros.
No Washington Post de hoje é referido aqui que, segundo um relatório do Federal Reserve Bank of Philadelphia, o desemprego  a nível  nacional (dos EUA) continuará elevado, acima dos 9% no próximo ano, caindo para 8,7% em 2012 e 7,9% em 2013. Recordemo-nos que nos EUA os níveis de desemprego se situaram na última década bem abaixo dos observados na União Europeia.
O Economist publicava há dias (vd aqui ) mais um artigo também sobre o assunto.

Outro link, colocado aqui, também ontem, remetia para uma intervenção de Mariano Gago, acusando as ordens profissionais de canibalizarem o mercado do trabalho controlando os acessos aos candidatos.

Tudo sintomas de uma vaga, ou de um tsunami?, desencadeada em várias frentes, soprada por ventos de todos os quadrantes. A competição a nível global, conduzindo a níveis crescente de produtividade, tem vindo a transferir o trabalho dos sectores primário e secundário para os serviços, em todo o mundo. Mas os serviços nem estão imunes ao mesmo movimento nem têm procura ilimitada, porque o consumo é limitado pelo tempo disponível de fruição individual.

Até onde é sustentável o actual paradigma? Dito de outro modo, como compatibilizar o comércio livre na aldeia global, com tantas assimetrias e diversidade de regras internas entre quarteirões,  sem que um dia destes a solução seja alcançada à pancada?

Para já, há quem o assunto, aparentemente, pouco incomode, e constrói um hotel de 15 andares em 6 dias. (vd aqui ).

Costumo dizer (e apontar aqui) que um dia destes, só não sei quando, quem quiser trabalhar tem de pagar. Os meus amigos riem-se.

Thursday, July 22, 2010

SNS - 2

Provavelmente, a discussão que a iniciativa do PSD veio levantar não veio na altura mais indicada; Provavelmente, um conjunto tão largo de propostas de revisão não é a melhor forma de discutir serenamente o que essencialmente está em causa;
Provavelmente, o PSD arrisca-se, ao pretender demarcar o seu terreno político com frontalidade rara, a dar aos outros partidos, e sobretudo ao Governo, margem de manobra para ser derrubado na arena pública, quando, tudo levava a crer, estava a caminhar para o domínio da situação.

E, no entanto, apesar da discussão se estar a centrar na ambiguidade de alguns conceitos (a proposta final, aliás, está ainda por aprovar, ao que parece) não tardará muito tempo para sermos confrontados com uma realidade incontornável: não temos recursos suficientes para continuar a suportar um Serviço Nacional de Saúde (apesar dos seus méritos) e um Sistema de Ensino Público (com grandes deméritos) nas condições estabelecidas na Constituição, isto é, tendencialmente gratuitos.

O problema,contudo, como alguém já disse, está no facto de não podermos continuar a sustentar serviços públicos escandinavos quando temos produtividades marroquinas.

De modo que, a discussão pode não ser oportuna mas é inevitável um dia destes, ou a ruptura das finanças do Estado obrigará a mudanças sem mais discussões.

Dizendo isto não digo que concordo com todas as propostas já divulgadas do PSD ou sequer com o alcance de algumas delas. O que digo é que a discussão impõe-se apesar desta altura não ser a mais favorável. Mas também me pergunto: Quando será oportuna, então?

Quanto ao SNS e ao Ensino Público dificilmente vejo alternativo ao aumento das taxas moderadoras e das propinas do ensino superior consoante os recursos das famílias.

Quanto aos despedimentos só vejo uma alternativa: devem ser totalmente livres mas subordinados a indemnizações que tenham em conta o número de anos de serviço na empresa... e no Estado. Porque ninguém pergunta mas a pergunta impõe-se: Por que razão é garantido aos funcionários públicos emprego para toda a vida, independentemente dos seus méritos e deméritos? 
Se em determinado momento um empresário não pretende mais os serviços de um seu colaborador, independentemente das razões subjacentes à intenção de o despedir, por que bulas tem de continuar a contar com ele? Pode uma equipa funcionar, qualquer que ela seja, se um dos elementos é indesejado por quem comanda? Funcionará mal.

De modo que o despedimento deve ser livre mas a indemnização por despedimento sem justa causa suficientemente pesada para não decorrer de um mero capricho do mais forte. É uma discussão peregrina aquela que o PSD levantou entre justa causa e causa atendível. Se outro indício não existisse, e pelos vistos existem vários, da falta de cuidado (é o menos que se pode pensar) do coordenador do grupo constituido para a proposta do PSD de revisão constitucional, é flagrante daquele descuido a fragilidade de alguns conceitos.

Saturday, July 18, 2009

SAGRES 3

- E se, nesse caso, toda a gente quisesse um Lamborghini? E fumar um "habano"? Ou, mais prosaicamente, comer pescada? Haverá pescada para todos?
- Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos. Um dia, os Lamborghini estarão obsoletos e esquecidos. Só há evolução se houver sobrevivência, só há sobrevivência se houver adaptação. A máquina continuará a substituir muito trabalho do homem mas não repõe os recursos naturais destruidos sem recuperação.
- Na sociedade futura, quando a humanidade dispuser de energia como dispõe do ar e a máquina substituir o homem, a abundância acabará com a fome dos pobres, a inveja dos remedidados e a ganância dos ricos?
- Se o homem, entretanto, não destruir a humanidade, certamente.
- Então é uma Utopia?
- É um aviso. Sabemos hoje que o homem pode destruir a humanidade de forma instantânea, utilizando a energia nuclear, ou de forma lenta, destruindo ou exaurindo os recursos naturais. O caminho para o Jardim das Delícias tem muitas armadilhas.
- E qual será o papel do Estado na orientação do caminho?
- Aquele que o homem, livremente, quiser. O Governo do Estado, mesmo enquanto emanação da vontade da maioria, não pode ignorar as minorias discordantes sob pena de, mais tarde ou mais cedo, entrar por um beco sem saída. Enquanto resultado de um putch reaccionário ou revolucionário, o Governo terá sempre os dias contados.
- E não há alternativas para a Democracia?
- Haver, há. Mas estão no caminho da destruição da humanidade.

SAGRES 2

Caro Francisco,

O trabalho não é um conceito unívoco, dizes tu aqui, e tens toda a razão.
A propósito, deixa-me que te conte uma anedota com barbas:
Dois lordes, já entradotes na idade, passaram a tarde a jogar ao gamão e, depois do chá das cinco, envolveram-se numa discussão interminável acerca da natureza do trabalho.
Defendia o anfitrião que até o amor era trabalho. Contrapunha o convidado, que não senhor, amor era prazer, logo não era trabalho.
Entrou o Jerónimo a meio da discussão para levantar a loiça, e diz-lhe o patrão:
- Jerónimo, tu, que tiveste o azar de nascer plebeu, tens entendimento, mas as tuas opiniões nada contam. De qualquer modo, gostaria que nos dissesses se, em teu entender, amor é ou não é trabalho.
Jerónimo, manteve-se calado por uns instantes a olhar os lordes, e depois respondeu: Senhor marquês, se amor fosse trabalho quem tinha de dormir com as criadas era eu!
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É só uma velha anedota mas resume o que está em causa.
O conceito de trabalho é, provavelmente, daqueles que mais evoluiram ao longo dos tempos, mas essa evolução acelerou-se com o desenvolvimento da ciência e da técnica. De tal modo que hoje todos os contornos que possam esboçar-se são necessáriamente difusos. A menos que levem os seus limites até ao limite da vida: a partir do primeiro bater do coração até ao seu último estremecimento, qualquer ser vivo está a trabalhar, mesmo quando dorme.
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O que nos importa, contudo, para a discussão do assunto que dialoguei aqui, é o conceito restrito de trabalho que envolve a produção de bens ou serviços. Neste sentido, o futebolista realiza um trabalho de produção de um serviço, o cantor outro, o trabalhador numa cadeia de enchimento de cerveja outro. Geralmente, e até estatistícamente, este conceito restrito é ainda mais restringido, reduzindo-o ao conceito de trabalho remunerado. Nesta acepção, por exemplo, o trabalho doméstico se realizado por empregados é quantificado no PIB, se realizado pelas famílias não é.
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Adoptando o conceito de trabalho no seu sentido mais restrito, é indiscutível que a produtividade reduz o número de horas de trabalho necessário para produzir os bens e serviços que consumimos. E também é verdade que o leque de produtos e serviços tem aumentado exponencialmente com a evolução exponencial da ciência e da tecnologia. A questão, tão candente, da insolvência dos sistemas de segurança social só se coloca se a evolução da redução do número de pessoas activas se processar a uma cadência mais rápida do que o crescimento da produtividade permite.
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O crescimento da produtividade, contudo, é ao mesmo tempo causa e consequência da competitividade entre os indivíduos, entre as sociedades, entre as nações. Consequência porque é a concorrência que incita à inovação e, portanto, à produtividade. Causa, porque a produtividade é um dos factores mais importantes da competitividade. A produtividade evolui, portanto, de forma muito diferenciada, e o crescimento do desemprego numa zona pode não estar, e geralmente não está, ligado a crescimentos de produtividade nessa zona mas aqueles que são observados em zonas concorrentes. Deste modo, o emprego cresce em zonas de maior produtividade e decresce em zonas de menor produtividade.
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Globalmente, contudo, o crescimento geral da produtividade implica, por definição de produtividade, a necessidade de menos recursos humanos para satisfazer o mesmo consumo per capita. Como o consumo per capita não pode crescer ilimitadamente (a não ser que a produção para desperdício continue a crescer desmedidamente, destruindo irracionalmente recursos) o trabalho reduzir-se-á até à inversão total do conceito: de penosidade paga a prazer remunerado.
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Pensa no dia em que o homem conseguir produzir energia de forma ilimitada, a custo zero, portanto. A partir desse dia, o valor, em termos pecuniários, deixará progressivamente de fazer sentido. Utopia? Não creio que haja utopias nos domínios das ciências da natureza.

Thursday, September 18, 2008

ACELERADOR DA HUMANIDADE

Dizer que o engenho humano e a competição global aumentam o número e a diversidade dos produtos e serviços disponíveis é dizer o óbvio. Dizer que a competição e o engenho aumentam a produtividade e esta promove a dispensa de pessoas, continua a ser evidente. Já será menos evidente que a capacidade de consumo de uma sociedade desenvolvida é inferior à sua capacidade de produção: a primeira é limitada pelo tempo (o número de refeições diárias), a outra é apenas limitada pelos recursos materiais (a capacidade de produção de refeições pode crescer facilmente para o dobro, no mesmo intervalo de tempo, se não houver ruptura no abastecimento de gás, por exemplo).
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Assim sendo, ao aumento de produtividade corresponde, necessariamente a redução das ofertas de emprego num sector. A capacidade de trabalho disponível no sector que se tornou mais produtivo pode, no entanto, encontrar emprego noutro sector produtor de novos bens ou serviços, que a sociedade, mais rica porque mais produtiva, consumirá. É o efeito virtuoso da produtividade.
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O efeito destrutivo do trabalho ocorre quando a capacidade (restrita) de absorção (de consumo) não consegue acompanhar a capacidade (excessiva) da oferta. Daí a tendência para o fim do trabalho e a emergência de uma sociedade futura muito diferente.
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Ocorreram-me esta manhã, mais uma vez, estas caturrices antigas quando ouvi na Antena 1 as conclusões de um trabalho acerca das capacidades "multitask" da juventude: a sua habilidade para, ao mesmo tempo, desenvolver várias tarefas (ver televisão, blogar e dialogar em SMS, por exemplo).
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O excesso da oferta sobre a capacidade de consumo tinha, até agora, provocado uma tendência crescente para o desperdício (compra-se o que nunca se usa, se lê, se ouve), para a aceleração da utilização (viagens em contínuo), para a sobrepose (várias viaturas, várias casas). Agora surge o vício "multitask": a rotação no espaço e no tempo sem sair do mesmo sítio. Mas também a "multitask" tem limites. Nunca os meninos de hoje e os de amanhã conseguirão abarcar mais do que três ou quatro pontos de interactividade em simultâneo. E, se conseguirem, o que é que ganharão com isso?
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Que sabor tem a maçã sem tempo para se regalar com as papilas gustativas?

Sunday, June 15, 2008

ACERCA DO FIM DO TRABALHO

O comentário de António chamando-me a atenção para a directiva da Comissão Europeia, em discussão, acerca dos limites máximos de carga horária semanal interessou-me a saber mais alguma coisa sobre o assunto. Encontrei em 20 minutos uma explicação sucinta mas bastante elucidativa do que está em causa e das razões pelas quais a questão está em discussão. Transcrevo abaixo uma parte desse texto, precisamente aquela que me parece mais pertinente para analisar a causa das coisas.
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Há dois aspectos aparentemente contraditórios que, precisamente por essa contradição aparente, explicam também aquilo que me parece que, a longo prazo, se tornará o aspecto mais revolucionário (em todos os sentidos do termo) da vida das gerações vindouras: o fim do trabalho.
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Pode parecer bizarro que, numa altura em que a Comissão Europeia se prepara para enviar à aprovação do Parlamento Europeu uma directiva que permite o alargamento da carga horária semanal, quando negociada entre empregador e empregado, até ao limite máximo de 65 horas semanais, alargando substancialmente o período de 48 horas que é norma desde 1993, alguém se lembre de voltar a uma questão, geralmente tomada como arrumada, do fim do trabalho.
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E, no entanto, é incontestável: 1) que a produtividade do trabalho é menor onde são maiores as cargas de trabalho (Portugal, segundo esta explicação do 20 minutos terá o segundo pior índice, a seguir à Polónia, na União Europeia) 2) o alargamento previsto atinge aqueles com menor capacidade de negociação numa relação reduzida a empregador e empregado, fora do âmbito das negociações colectivas.
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Não é difícil, portanto, perceber que a cedência do empregado a uma carga de trabalho superior à normal dever-se-á, salvo casos muito específicos, à falta de trabalho. Porque é do facto da oferta de trabalho (pelos trabalhadores) ser superior à procura (pelos empresários) que coloca os primeiros em situação desfavorável relativamente aos segundos, obrigando-os a condições de penosidade que a directiva procura limitar.
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(...)
22. ¿Trabajar más horas supone más productividad?
No. Los países europeos con mayor productividad son aquellos en los que se trabaja menos horas, tal y como han revelado numerosos informes recientes, entre ellos, uno de la OIT, y el
Euroíndice de Adecco y la escuela de negocios IESE. Al trabajar más horas, tiende a disminuir el aprovechamiento que se hace de cada una de ellas. Una mejora en la eficiencia puede llevar a reducir la jornada de trabajo, sin que se produzca una caída en la producción.
Los países europeos con mayor productividad son aquellos en los que se trabaja menos horas
23. ¿Cómo es la relación entre productividad y horas trabajadas en España y en Europa?
Polonia tiene la jornada laboral más prolongada (40,1 horas por semana) y la menor producción por hora (19 dólares internacionales). En segundo lugar se encuentra Portugal, con la segunda jornada más larga (39,1 horas) y el segundo menor aprovechamiento de cada hora trabajada (24,6 dólares).
España, con una de las mayores jornadas, es el tercer país que menos rendimiento obtiene por hora trabajada: de cada una de las 38,3 horas por semana que trabaja de media cada ocupado español se obtiene un valor añadido de 33,7 dólares.
Por otra parte, los tres países con jornadas medias más breves (Holanda, Alemania y Bélgica) se encuentran entre los cuatro en los que la productividad por hora trabajada es mayor. La productividad de Bélgica es un 54% más elevada que la de España y casi el triple que la de Polonia.
24. ¿Cuánto se trabaja en otros países?
Según
datos de la OIT , una de cada cinco personas en el mundo trabaja un número excesivo de horas. Perú encabeza la lista, con un 50,9% de empleados trabajando más de 48 horas a la semana. Le siguen Corea del Sur (49,5%), Tailandia (46,7%) y Pakistán (44,4%). En general, se trabaja más horas en los países en vías de desarrollo, debido a la progresiva “terciarización” de sus economías (la expansión del sector de servicios) y al empleo sumergido, así como al hecho de que los bajos salarios hacen necesarias jornadas más largas para llegar a fin de mes.
En los países desarrollados, la proporción es del 25,7% en el Reino Unido, 25,5% en Israel, 20,4% en Australia, 19,2% en Suiza, y 18,1% en EE UU. Los datos son del año pasado.
25. ¿Nos acercamos al modelo estadounidense?
Sí, aunque todavía estamos lejos. En EE UU los empleados trabajan de media 41 horas semanales y sólo tienen dos semanas de vacaciones al año. En 2005 el número total de horas trabajadas en el país norteamericano fue un 15% superior a la media de la UE. A mediados de los 70, los europeos trabajaban más horas que los estadounidenses, pero la tendencia empezó a cambiar en los 80. En EE UU, al igual que en Japón o en Australia, el tiempo límite de trabajo más allá del cual hay que empezar a pagar horas extra no está reglamentado específicamente en la ley.
26. ¿Qué consecuencias negativas puede tener una semana laboral de 60 ó 65 horas para el trabajador?
Aparte de una posible reducción en la productividad, las jornadas laborales excesivas incrementan el riesgo de accidentes laborales y enfermedades, así como el coste que ello ocasiona a los trabajadores, a los empleadores y a la sociedad en general. También puede suponer una menor calidad en el servicio, debido al cansancio del trabajador.
Por otra parte, la posibilidad legal de trabajar más horas incide en una mayor dificultad a la hora de conciliar la vida laboral con la familiar, y aumenta la brecha entre hombres y mujeres:
los hombres tienden a trabajar una mayor cantidad de horas que las mujeres, ya que éstas siguen siendo las principales responsables de realizar un trabajo no remunerado en los hogares.
(...)

Friday, May 16, 2008

O EURO E OS MERCADOS DE TRABALHO

Sem o Euro a União Europeia não teria o cimento que permite a estabilidade do edifício. Esse cimento, contudo, só por si não garante uma estrutura anti-sísmica que possa suportar o impacto
de tensões geradas no seu interior. A variabilidade real e nominal dos salários entre os diferentes mercados de trabalho no interior do sistema são uma das principais causas dessas tensões que ameaçam a sua estabilidade e que não se compensam por uma mobilidade suficiente entre os mercados membros.
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Se o Euro se impôs como cimento imprescindível à construção da União Europeia, na sua configuração estrutural actual, a sua adopção exige agora a introdução de fibras que assegurem a estabilidade que o cimento desacompanhado não consegue garantir.
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À União Europeia não resta, portanto, outra alternativa senão avançar para a sua institucionalização como uma federação de Estados governada centralmente nas áreas que têm de assegurar a sua unidade fundamental.
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Recent diverging labour cost developments among EMU countries, affecting the trade and inflation position of each country, raise some doubts regarding the equal distribution of costs and benefits of shocks among the member countries and, hence, the long term stability of the Euro. The common factor that holds a currency union together is definitely risk sharing. The risk of being exerted towards external shocks (energy and agricultural prices, financial shocks, productivity and aggregate demand shocks) needs to be equally distributed among the members of a currency union; then, this currency union is an optimal currency area (OCA). If this were not ensured it were not very important that the Euro is currently strong compared with the dollar and seems to become a World reserve currency. It is a well-known fact that the EU fulfils less of the conditions of an OCA than the U.S. due to some institutional restrictions of the EMU. There is no central fiscal transfer system as a buffer against regionally unevenly distributed shocks like in the U.S. Such a system seems to be necessary when the labour market of the single currency area is not sufficiently integrated, hence, does not allow for an even distribution of the adjustment costs of shocks. Indeed, this might be one of the crucial properties that defend the strength of the Dollar in the long run and undermines the rise of the Euro.
One of the conditions of risk sharing in an OCA is the similarity of output cycles, or the synchronization of business cycles. While business cycles of EMU countries show some synchronization since the Euro introduction in1999, it is well known that national labour markets are still separated with the consequence that the adjustment costs of external shocks are unevenly distributed. But, there is an ongoing debate whether a currency area needs to fulfil the conditions of an OCA ex ante or not. Frankel and Rose argued in their seminal paper from 1998 that a single currency and monetary policy cause the EMU to become an OCA ex-post, and many research papers tested this hypothesis in the field of output synchronization. But does that also apply to the field of labour markets? If yes, wage developments should become more similar, induced by more trade intensity or migration or FDI. Similar to studies on output synchronization one would have to look at de-trended data, for their movement includes the reaction of wage formation on shocks. A correlation analysis of de-trended real and nominal wage developments illustrates what is happening in the EMU behind the official success story. In fact, the synchronization of real and nominal wage developments weakened significantly since the introduction of the single currency, and since exchange rates as coordination and adjustment mechanisms were abandoned! Figure 1 depicts how strongly real and nominal wage developments deviated since the introduction of the Euro. The discrepancy between them underlines that national wage policies have a strong influence on wage setting and are able to outperform, at least, partly the correcting impact of different inflation rates or purchasing power parities. Indeed, those policies remain the only important national tool for the creation of competitive national monetary conditions under a single monetary policy: real interest rates deviate and with them the conditions for economic activity.

What Figure 2 illustrates are the different developments with respect to regional groups. Wage formation of the ‘Northern group’ with Germany, Austria, Belgium, and the Netherlands was more linked with other countries (mainly in the same group) than of the French-Mediterranean group until 2000. While synchronization of the latter remained stable after 2000, that of the first group weakened significantly. Macro-economic wage coordination, formerly ensured through the exchange rates of national currencies, actually broke down in German relations with other countries, accompanied by similar trends for Austria and Belgium Table 1).




One could argue that de-synchronization of wage developments would create national monetary conditions. However, this would be a second-best solution only in lifting the rigors of a single monetary policy (‘one jacket for all?’), and one has to ask why they need to be in a monetary union. Here, we find the basis of official and semi-official criticisms regarding the existing EU institutions, for example, Mr. Sarkozy’s proposal for a EU central budget, or his criticism of German value added tax increases as a method to export unemployment. The problem might worsen with the addition of new members with different labor market institutions and economic structures into the EMU. Clearly, a single currency and monetary policy cannot per se replace the exchange rate mechanism as core coordination institution among countries. Then, further reforms of EU institutions become necessary. The old accord, mainly supported by Germany, not to install central authorities which are too strong, will be challenged. Above all, a central EU budget with transfer functions as in the US would make EU institutions complete.



Sunday, November 26, 2006

O FARDO DA HUMANIDADE

Em A Arte da Fuga, AA colocou reprodução de "O Pecado Original e Expulsão do Paraíso"
transcrita da Wikipedia, e ao "post" deu o título
O FARDO DA HUMANIDADE
Comentei:

A propósito do Pecado Original ocorre-me sempre o fim do trabalho.Pelo pecado original, o homem foi condenado a sair do Jardim das Delícias e a ganhar o pão com o suor do seu rosto. Salvo erro, foi assim que Deus ditou a sentença. A História da Humanidade, a partir desse instante, é também a história do combate pela redução do trabalho. Mais ou menos o que faz o prisioneiro para toda a vida na sua cela: não pensa noutra coisa se não sair dela.E, inquestionavelmente, o homem tem sido bem sucedido. Ainda que grande parte da humanidade esteja sujeita e trabalhos árduos para garantir a subsistência e outros não a garantem porque não conseguem garantir trabalhos árduos, é um facto que outra parte, aquela onde nós tivemos a sorte de nascer, tem vindo a observar constantes reduções de horários de trabalho, de aumentos das férias, e de subsídios de desemprego. Conclusão: O trabalho tendencialmente vai acabar.E a globalização, ao alargar o campeonato da produtividade, inevitavelmente conduz a maior redução do emprego. Pois se o trunfo é aumentar a produção por unidade de emprego, só não haverá desemprego se o consumo suplantar a produção. E aí é que o emprego torce o rabo: O consumo ou a fruição têm um limite - o número de horas do dia, 24 para toda a gente. Até agora este dilema tem sido ultrapassado através da produção para desperdício ou pela destruição, a guerra em última instância. Quer comentar?
Sexta-feira, Novembro 24, 2006 3:20:22 PM

AA said...
Caro Rui, acabou de produzir o seu texto mais opaco de sempre. Qual é a sua tese, o que é que me quer perguntar?
Sexta-feira, Novembro 24, 2006 7:21:53 PM
Rui Fonseca said...
Caro António Amaral,Então se é opaco vou tentar explicar melhor: o tema que propôs sugere muitas leituras. Lembrei-me de uma:O Pecado Original mereceu uma pena - o trabalho. Ao fim de muitos milénios de cumprimento da pena, o Homem tem, em muitos casos, a pena quase cumprida, isto é, deixou de ter trabalho.O fim do trabalho é uma consequência natural da perseguição à produtividade.Geralmente tem-se por adquirido que a produtividade gera mais trabalho. A aumentos de produtividade têm correspondido aumentos de emprego. Há quem, minoritariamente, pense o contrário. A produção pode aumentar exponencialmente mas o consumo é assimptótico às 24 horas do dia. Donde não poder haver crescimentos de produção para além dos limites do consumo possível, a menos que a produção se destine a outros fins: desperdício ou reposição de destruição. De modo que, aumentando a produtividade, e a globalização é altamente promotora desse aumento, reduzir-se-á o emprego.O que colocará, talvez por vontade dos Deuses, uma situação inversa daquele que decorreu do Pecado Original: a extinção do trabalho.Estaremos, então, de volta ao Jardim das Delícias? Em resumo: o crescimento contínuo da produtividade tende para a criação de emprego ou para a sua eliminação? O Pecado Original depois do primeiro castigo (o trabalho) vai impôr ao homem um segundo (a extinção do trabalho)?A extinção do trabalho até nem seria um castigo mas um perdão se não se desse o caso de depois de, por força de tantos milénios de hábitos de trabalho gravados no seu ADN , a maior parte da humanidade não saber fazer mais nada.Espero ter sido transparente.
Sexta-feira, Novembro 24, 2006 7:53:17 PM

Rui Fonseca said...
Já agora, e como corolário da "tese":Com a redução do trabalho, passaremos a estar perante um "bem escasso". Chegará o momento em que haverá mais gente a querer trabalhar do que trabalho a realizar. O trabalho passará, então, a ser um "bem" transaccionável. Quem quiser trabalhar, paga, a quem cede o direito de não trabalhar. Estamos a falar de trabalho disjuntivo. A produção de sapatos é disjuntiva, o trabalho de escrever blogues não.
Concordo que é uma conclusão louca.
Por enquanto.